sexta-feira, outubro 07, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa (III) (as Civilizações)


(continuação)

Conseguir uma sociedade onde uma parte minoritária da população seja escrava e isso seja bem aceite por essa minoria e por toda a sociedade é um problema muito fácil??”– o Wolfram olha-me com ar incrédulo, e fica-se, boquiaberto, à espera de qualquer esclarecimento adicional; o careca contesta:

Não estou a ver em parte alguma do mundo civilizado alguém a ter escravos voluntários na actualidade!”; o ruivo resolve falar também:

Bem, talvez os empregados das fábricas americanas no norte do México... ou os palestinianos que trabalham em Israel...”. O careca interrompe, impaciente, evidentemente não gosta de ser corrigido: “Sim sim, mas os palestianos vivem praticamente num campo de concentração, não fazem parte da sociedade israelita, não passam de modernos prisioneiros civis de guerra, e o México é um caso de deslocalização muito especial; nós estamos a falar de escravos integrados na nossa sociedade, algo muito diferente.” O ruivo cala-se, arrependido de ter aberto a boca.

A razão porque não conhece escravos voluntários na actualidade, no mundo dito civilizado, é porque o facto de eles aceitarem a sua condição faz parecer que o não são; essa é a habilidade”. Faço uma pausa.

Portanto, eles existem à vista de toda a gente e ninguém vê... interessante, é isso mesmo que queremos!” Um brilho surgiu no olhar do careca.

Para percebermos como se consegue esse tipo de escravos temos de perceber algumas coisas essenciais da evolução das sociedades... vamos dedicar dez minutos a esse assunto?"

Os três homens trocam olhares de assentimento. “Estamos aqui para o ouvir, Dr. Jordan”.

Vou tentar não entrar em detalhes, limitar-me ao essencial, o que não é fácil porque depois ficam sempre coisas por explicar que acabam por gerar dúvidas. Inspiro. Ponho o meu ar professoral, o ar Dr. Jordan nº 1, e começo: - “Sabem porque é que na zona equatorial de África não surgiu nenhuma civilização relevante?
 Deixo a pergunta no ar e fico à espera duma resposta. Hesitam, finalmente o Wolfram sugere: “A África equatorial é habitada por povos muito primitivos, uma civilização exige organização, planeamento, pensamento sofisticado”. Adoro quando oiço ideias simplórias.

Pensemos um pouco; quem já esteve nessa zona sabe que para comer basta estender o braço e colher uma fruta; pode também caçar ou pescar. Não há frio nunca, não é preciso ter roupa, nem casa, basta um abrigo para dormir. Ou seja, a sobrevivência está garantida desde que não se interfira com a Natureza, que tudo providencia. Como as pessoas não têm objectos de cobiça, não precisam de desenvolver sofisticadas capacidades bélicas; nem sequer o território que ocupam pode ser considerado cobiçável pois toda a zona é igual ou quase.” - Verifico pelas expressões que não disse nada que não soubessem já; continuo:

A solução óptima para a zona equatorial é uma organização em pequenos grupos, familiares essencialmente. Qualquer grande sociedade iria interferir com a Natureza e pôr em risco a sobrevivência, seria uma grande estupidez. A organização familiar e tribal é a organização ideal, perfeita, adequada, à zona tropical. Não é uma ausência de civilização, é a civilização adequada. Mais do que isso, ela é a base de todas as organizações de maior escala, como veremos, pelo que vamos prestar alguma atenção às suas características.” - Calei-me, dei-lhes um tempo para interiorizarem. Continuo:

Esta organização familiar é muito diferente da nossa; ela tem regras e organização, e perceber isso é muito importante. O conceito de família dessa civilização é profundamente estruturado, tal como as nossas modernas organizações, com espírito de equipa, hierarquia e especialização de tarefas, avaliação, recompensa e punição. Para além disso, há uma clara distinção entre os membros da família ou tribo e a restante humanidade, ou seja, a família é uma nação nesta civilização, as outras famílias são nações estrangeiras.” Falo lentamente, sei que eles têm preconceitos a ultrapassar, é preciso dar-lhes algum tempo.

O mais interessante é que, no fundo, todos os conceitos que aplicamos na moderna organização já estão presentes nas famílias da zona equatorial; as sucessivas civilizações foram aplicando esses conceitos a escalas cada vez maiores ao mesmo tempo que os foram retirando do âmbito familiar e substituindo por outros, como o conceito de «amor». Vejam como o termo «família» é usado para identificar os membros de uma organização mafiosa ou os colaboradores de uma empresa – é a extensão do conceito primitivo a outras escalas. Por outro lado, conseguir a integração da família numa sociedade maior implica não só alterar as regras dentro da família como alterar a atitude da família com as outras pessoas, sendo necessário esbater essa fronteira para que o sentido colectivo possa emergir; este ponto é da maior importância.” Percebo pelos olhares virados para dentro que os três homens precisam de algum tempo para meditar sobre o assunto. Aguardo.

Os ciganos, como não abdicam da sua cultura familiar, tornam-se incompatíveis com as civilizações modernas...”, um pensamento em voz alta do Wolfram.

Exactamente, em parte pelas regras internas da família e em parte pela sua atitude em relação às outras pessoas; mas não só os ciganos; como compreenderemos daqui a pouco, a cada civilização corresponde um conceito de família e as duas coisas têm de estar em correspondência ou entram fatalmente em conflito.” Os olhares estão de novo voltados para mim, posso continuar:
. 
O que essencialmente caracteriza as diferentes civilizações é a escala espacial e temporal a que têm de actuar para garantir a sobrevivência; esta primeira civilização existe à escala espacial da família e temporal do dia. Já vimos a escala espacial, e encontrámos coisas interessantes; vamos agora prestar atenção à escala temporal”.

(continua)

quarta-feira, outubro 05, 2011

Que fazer quando tudo arde


Ana Sá Lopes fez este editorial fabuloso no I. Aconselho a leitura, é curto e é um prazer lê-lo (ai, que inveja, não saber escrever assim...). Nele, a autora faz o retrato nu e cru da actual situação. Termina com um aviso muito claro: "qualquer governo que se limite a ser um bom e passivo aluno está a condenar-se e a condenar-nos à forca."


Eu acrescento: nós estamos a condenar-nos à forca se nos limitarmos a ser passivos cidadãos. 


Sabe-se muito bem qual é a causa e o remédio para a crise; o remédio - suportar as dívidas públicas em obrigações pagas com dinheiro novo (eurobonds) - não está a ser usado de propósito para manter a crise. E isso tem uma finalidade que as medidas pretendidas, nomeadamente a diminuição da TSU, dos ordenados e a entrega das empresas publicas em forma de monopólio a alemães e franceses, aponta com clareza; por outro lado, as únicas medidas que contribuiriam para resolver o problema do nosso lado, ou seja, aquelas medidas que diminuiriam o déficit da balança de pagamentos, ou seja, a relação entre o dinheiro que entra e que sai do país, são completamente ignoradas; isto não pode ser por acaso nem por ignorância, só pode ser de propósito.


Há várias coisas que podemos fazer para contrariar um plano que se afigura verdadeiramente tenebroso. E podemos começar já por uma delas: não dar nem um euro a alemães e franceses. Automoveis? Ou Fiat ou de fora da europa - mesmo os SEAT são 100% alemães. 


Pode parecer-vos insignificante, mas façam lá um esforçozinho e aguardem o resultado... enquanto esperamos pelo Dr. Jordan. Lembrem-se: nem 1 euro para franceses e alemães. Vejam quais são as empresas que estão aí e que são propriedade deles - devem estar nas cervejas, águas, comunicações, turismo e outras coisas. Nem um euro para elas. Pela alminha dos vossos filhos. Vão perceber porquê em breve.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa de classes (II)



 O que é que nós queremos?  - O Wolfram repetiu a minha pergunta enquanto consultava os outros com um olhar que interrogava: digo? não digo? Voltou-se então para mim e começou a falar martelando as palavras:

Queremos o mesmo que os nossos concorrentes têm legalmente e que mesmo na Alemanha existe em algumas áreas: mão-de-obra com custos totais inferiores a 3€ por hora; ou seja, queremos dispor dos chamados escravos modernos mas num contexto legal, estável. Algumas actividades na Alemanha, como a indústria de carnes, pagam 2€ por hora a imigrantes, oriundos doutros países europeus, mas isso é conseguido através de processos de tráfico humano e levanta contestação dos sectores ditos progressistas, não é solução para as nossas empresas de alta tecnologia, que precisam de trabalhadores satisfeitos com o seu salário de 2 € e num quadro socialmente aceite, legal e estável. – declarou o Wolfram.

Os senhores querem basicamente que o trabalho escravo seja não só legal como socialmente aceite, uma sociedade em que os operários ganhem apenas o indispensável à sua sobrevivência e isso seja considerado normal, correcto – tentei resumir os objectivos.

O Wolfram sentiu uma crítica velada na minha frase e apressou-se a esclarecer: Temos concorrentes que pagam isso e se pagarmos mais os lucros da actividade deixam de compensar, mais vale dedicarmo-nos a negócios de usura. Neste mundo globalizado, nas nossas indústrias de grande mercado, conseguir isso representa para nós a sobrevivência.

Estão bem cientes do seu interesse imediato mas preciso agora de esclarecer se têm um entendimento global do problema. Ocorrem-me duas questões. Lanço a primeira: Vocês querem que na Alemanha continue a não existir salário mínimo mas a experiência dos outros países europeus mostra as suas vantagens; na Inglaterra registou-se uma subida de emprego com a sua introdução.

Isso não é assim tão simples – discordou veementemente o Wolfram – a introdução do ordenado mínimo alimenta a economia paralela; as actividades que exigem menos habilitações passam a ser desempenhadas por imigrantes à margem da lei, a ganhar menos do que ganhavam antes os empregados dessas actividades, o que potencia os seus lucros e abre espaço a novos empregos. O efeito é paradoxal: a introdução do ordenado mínimo, no fundo, potencia o tráfico humano e é isso que faz crescer a economia. Para os cidadãos desse país as coisas ficam melhores porque passam a dispor de escravos. Mas já se sabe que o recurso a imigrantes para trabalho escravo, quer legais como dantes ou ilegais como agora, origina graves problemas sociais a prazo.

Pois, não são parvos não, estes tipos. Vamos à segunda questão: Sabem que o sonho dos empregadores, da dona de casa ao grande industrial, sempre foi ter pessoas a trabalhar pela sobrevivência, mas depois há um grave inconveniente para os industriais: essas pessoas não alimentam o mercado, não fazem compras.

O Wolfram abana a cabeça em sinal de discordância; esclarece: nós só precisamos de uma pequena percentagem da população como escravos. Queremos uma sociedade com uma pequena base de escravos e uma larga classe média para comprar os nossos produtos. Ora os políticos andam progressivamente a introduzir um salário mínimo na Alemanha e estão a avançar com um projecto europeu, a prometer uma europa social, com salários mínimos crescentes e rendimentos mínimos. Isso é o oposto do que queremos, o custo do operário deve ser sempre o custo de sobrevivência e nada de apoios a quem não trabalha porque essas pessoas nem produzem nem têm o suficiente para serem consumidores. Quem não produz nem faz compras não tem lugar na economia, pode desaparecer.

Pois, os nossos políticos andam sempre com ideias utópicas, ignorando as duras realidades do dia-a-dia – sentenciei banalmente, estimulando-a a continuar, quero ver o fundo do seu pensamento.

Na América eles sempre souberam controlar estas ideias utópicas, é por isso que dominam a lista dos 100 mais ricos – alguma inveja na voz do Wolfram.

Sim, um tiro resolve estes problemas quando a utopia nasce na cabeça de um político isolado; estou a lembrar-me do Huey Long, com um programa, o Share Our Wealth, ainda mais avançado do que o dos líderes europeus actuais. Foi há quase um século. – O Wolfram fez um sinal de concordância com a cabeça e desabafa:

Essas ideias daninhas têm de ser exterminadas à nascença; o americanos souberam matar o homem e as suas ideias, nunca mais se ouviu falar delas. Na Europa não podemos usar esse tipo de solução porque seriam necessários muitos tiros, não bastaria abater um político. Persiste o exemplo nefasto dos nórdicos, enquanto eles não soçobrarem o seu exemplo irá alimentar essas utopias. Temos urgentemente de encontrar uma solução porque se um tal sistema social se impõe aqui, pode haver um efeito de contágio aos EUA e depois não haverá forma de inverter as coisas – a testa franzida exprime a intensidade da sua preocupação.

Acho que já ouvi tudo o que necessitava. Estes tipos são espertos, é a velha luta de classes mas com uma diferença subtil: estes não querem esmagar a maioria da população, que é o erro que a direita está a fazer nos EUA, um erro fatal numa democracia esclarecida. Querem uma sociedade de 3 classes: uma classe de escravos minoritária, uma classe média com poder de compra qb e que suporte o sistema, e a sua classe privilegiada, com rendimentos estratosféricos. Eles não perceberam ainda mas é isso mesmo que vai acontecer em consequência do tão temido projecto europeu que afinal lhes serve às mil maravilhas. Apenas tenho de os aconselhar a fazerem aquilo que de qualquer maneira irá ser feito porque é isso o que os jogos de interesses e forças determinam. Ser Filósofo tem esta vantagem: ser capaz de conhecer o Futuro para depois indicar os caminhos para ele, como se sobre ele tivesse poder. É chegada a altura de começar a minha performance:

Na verdade, não precisam de medidas extremas, o vosso problema é muito fácil de resolver, basta aplicar um método com séculos.

quinta-feira, setembro 29, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa de classes (I)



(as aventuras do dr. Jordan são pura ficção, desenhada sobre problemas da actualidade)

Ali estava a esplanada; qual seria a mesa... ahh, aquele tipo acena-me, é ali.

Boas tardes; doutor Wolfram, presumo – disse, enquanto aceitava a mão estendida daquele tipo alto e magro, procurando reconhecer-lhes as feições. Rosto anguloso, cabelos pintados como é típico nos executivos de meia idade, olhos pouco expressivos e muito observadores. Pessoa habituada a mandar, alto quadro certamente. Não, não reconheço esta cara, nem a dele nem as dos seus dois companheiros, ambos bastante fortes, um careca, o outro arruivado. Nenhum sinal de simpatia, como é habitual nos que querem passar a mensagem de que grandes responsabilidades pesam sobre os seus ombros.

Boa tarde Dr. Jordan, muito obrigado por ter aceitado encontrar-se connosco. Sente-se por favor – disse cortesmente o Wolfram, indicando a cadeira que à sua frente me esperava.

Sentei-me calmamente, disfarçando a curiosidade em saber que mistério me tinha calhado desta vez. É curioso como 93% dos meus clientes pretendem operações inconfessáveis – seria bem melhor que fosse ao contrário mas infelizmente parece que apenas os que prosseguem escuros interesses são suficientemente inteligentes para me consultarem. C’ est la vie!  Esperava que o Wolfram me apresentasse os outros mas nada. Costumo começar logo a falar, assumir o controlo da conversa, mas desta vez optei por manter a matraca fechada e aguardei. O Wolfram chegou-se à frente e falou:

Numa conversa sobre as dificuldades que atravessamos, alguém referiu que conhecia uma pessoa que poderia ajudar-nos, um filósofo, o Dr. Jordan. Uma espécie de Poirot, com a diferença de que usaria os seus talentos para encontrar soluções para os problemas e não para desvendar mistérios, o que no fundo é a mesma coisa.

Sim, é verdade, é quase a mesma coisa, há um ponto de partida e um ponto de chegada e queremos saber como se vai de um para o outro – assenti, reduzindo a este aspecto as comparações com Poirot. Ainda pensei dizer que os méritos que me atribuem resultam simplesmente da metodologia de conhecimento da Filosofia, quase ignorada desde o advento da metodologia científica. Mas optei por avançar no assunto:

Mas qual é, afinal, o problema?  – displicente mas a rebentar de curiosidade, no ar estava a promessa de um desafio à altura dos meus talentos.

Como o dr. sabe, o esforço para unir as duas Alemanhas tem sido um pesadelo cuja luz ainda não surgiu ao fundo do túnel. Ainda não saímos deste pântano e um novo pesadelo se desenha já no horizonte: a união europeia! A nossa experiência dolorosa com a Alemanha do Leste vai ser multiplicada cem vezes, vamos ficar atolados em problemas durante décadas, enquanto o resto do Mundo avança a passos largos. Com certeza que a união europeia será bom para os outros países europeus, mas para a Alemanha é que não é nada bom. Por outro lado, também não podemos continuar isolados, não temos dimensão para competir com os EUA, a China, ou as novas potências da Ásia e da América do Sul. O marco não tem dimensão para competir com o dólar, pura e simplesmente.

Estou a perceber – peguei na palavra, a deixa de silêncio isso exigia – precisam de uma união europeia para terem dimensão mas não querem que essa união se faça à custa do desenvolvimento da Alemanha. Querem portanto uma solução diferente da que tem sido usada com o Leste... calei-me, o careca parecia querer dizer que não era bem isso, se calhar era ele o chefe do grupo, pôs a mão sobre o braço do Wolfram que lhe fez discretamente um sinal de assentimento. O careca recostou-se, sossegado.

Repare dr. Jordan – recomeçou o Wolfram, com ar de quem vai contar um segredo – a Alemanha desenvolveu um forte estado social, onde toda a gente tem muitos direitos e regalias. Sabia que o custo médio da nossa mão-de-obra é quase o dobro dos EUA? Mas pior que o custo médio é o custo mínimo, o custo dos operários, pois os EUA são campeões da desigualdade, só ultrapassados pelos países onde ainda há pessoas que nem sabem o que seja o dinheiro. Na reunificação com a Alemanha do Leste estamos a estender este estado social para lá. Agora pense: se vamos fazer o mesmo em relação ao resto da Europa, já viu que a nossa competitividade nas grandes indústrias vai desaparecer? Por agora ainda podemos recorrer à mão-de-obra barata dos países do Sul, mas depois? Uma união europeia bem sucedida acabará com essa mão-de-obra barata. Conhece as disponibilidades de mão-de-obra barata que os nossos competidores têm?

Sim, tenho uma ideia; os chineses têm ainda uma imensa população rural para tirar da miséria e sobretudo sabem como gerir a taxa de câmbio, os países do sudeste asiático e a Índia tem uma natalidade incontrolável que é um fornecedor ilimitado de escravos, ou seja, de pessoas que trabalham por uma sopa, o Brasil está um pouco como a China, os EUA têm em uma enorme população de pobres que não têm hipóteses de deixar de o ser.

E não só – interrompeu-me exaltado o ruivo – os EUA ocuparam o norte do México onde beneficiam da natalidade descontrolada da população mexicana mas onde podem impor a organização americana. Como é que vamos poder competir com isto?! Desabafou, mais ruivas as faces que a barbicha.

Então e a deslocalização para fora da Europa? Sugeri, embora já suspeitasse qual seria a resposta; mas há que não deixar pontas soltas.

Fora da Europa? Onde? As nossas fábricas precisam de trabalhadores com alguma especialização e muitas condições, não são criações de frango para instalar em África; e os países onde estes trabalhadores e estas condições existem há muito que abriram os olhos, instalarmo-nos lá é estarmos a cavar a nossa sepultura; veja o caso da China, mais de metade dos lucros das nossas empresas fica lá e estamos a prazo, daqui a uns anos temos os chineses a fazerem-nos concorrência usando o nosso know-how, as instalações que lá vamos deixar e a força económica que os lucros das nossas empresas lhes estão a dar.

Ou seja, sem mão-de-obra barata a vossa competitividade só pode ser conseguida à custa das vossas margens de lucro e não por esmagamento dos salários, é isso? A pergunta teria um quê de acintoso para outras pessoas mas eles nem repararam, «esmagar os salários» é a sua preocupação quotidiana.

Claro! Isto assim não se aguenta, veja que nos 100 mais ricos do mundo não há nem meia dúzia de alemães! Indignadíssimo o ruivo.

Bom, mas então o que desejam de mim? Afinal não querem um projecto europeu, também não querem ficar isolados... que querem afinal? Perguntei, não por desconhecer o que eles pretendem, que é evidente, e certamente que o vão conseguir; mas percebo que eles precisam de um ouvinte que os ajude a concretizar o plano que já está desenhado nas suas cabeças; e eu nunca nego ajuda aos poderosos.

terça-feira, setembro 27, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (8)



A causa técnica da crise

A presente crise da dívida soberana de alguns países europeus não é como o aparecimento de um tufão, ou uma praga de gafanhotos, fenómenos naturais cujo controlo ultrapassa a nossa capacidade. Nada disso. Este é um fenómeno com uma causa bem definida e verifico que há várias razões para isso, uma boa, as outras más.

Vamos esquecer as razões e vamos agora ver qual é a causa técnica desta situação.

Um empréstimo é um negócio e como tal as condições acordadas reflectem a capacidade de negociação das duas partes, na ausência de constrangimentos legais.
Sabem como é a golpada do cartão de crédito? Ela pode ser realizada de diversas maneiras mas o processo consiste em levar o cliente a ficar com uma dívida que não pode amortizar significativamente; a partir desse momento, pode-se subir a taxa de juro porque o cliente deixou de ter capacidade de negociação; e quanto mais encravado ele estiver, mais se sobe a taxa de juro. Existe um limite legal já de si exorbitante, mas se não existisse as taxas seriam muito mais altas.

Note-se um aspecto importante: da parte do banco não há qualquer interesse em que a pessoa pague a dívida, o que o banco quer é manter o cliente eternamente a pagar juros. Pagar a dívida seria acabar com os ovos de ouro da galinha, ou seja, com o pagamento dos juros.

No caso das dívidas soberanas, todos os países a têm e nenhum a pode amortizar significativamente com os recursos existentes. Estão em condições semelhantes às dos clientes dos cartões de crédito que contraem uma dívida que não podem amortizar. Então, porque é que apenas alguns países estão a sofrer um ataque à dívida do Estado?

A resposta é que todos os países excepto os europeus podem imprimir moeda; sendo assim, se os juros subirem, eles têm uma solução: imprimir moeda! Portanto, eles não estão de facto nas condições dos clientes dos cartões de crédito, porque eles podem imprimir moeda!!!

Dirão: mas imprimir moeda não tem consequências desastrosas, como a desvalorização da moeda?

O recente exemplo dos EUA é a prova de que não, não é verdade? Quantidades astronómicas de dólares têm sido impressas e o dólar parece estar a ... valorizar-se!!

Isto é assim porque o valor da moeda não depende só da sua quantidade, depende da força da economia do país. Como as economias crescem, é mesmo preciso imprimir moeda para manter os racios moeda/crédito e para evitar sobrevalorizações da moeda – que desgraçam a competitividade.

Contrariamente ao que costuma dizer-se, a desvalorização da moeda não é necessariamente má – uma moeda sobrevalorizada significa que as empresas terão de obter ganhos de competitividade à custa dos ordenados, logo implica redução de ordenados. O euro está sobrevalorizado por razões que só interessam à Alemanha.

Portanto, o assalto às dívidas soberanas dos países europeus vai continuar enquanto não existirem eurobonds suportados por dinheiro novo. Por mais medidas que se tomem para reduzir a taxa de crescimento da dívida, nada se alterará, porque a dívida, maior ou menor, permanecerá. Em 2013, em Portugal, faça este governo o que fizer, o problema dos juros da dívida estará exactamente na mesma se o BCE não fizer como os EUA.

Mas o BCE não vai fazer por várias razões, a primeira sendo que a actual situação convém à Alemanha: a Alemanha tem um alto saldo da balança de pagamentos com os outros países europeus, tem sempre euros a entrar, é como se estivesse a imprimir euros; mas se por acaso o problema chegar à Alemanha, nesse dia teremos o BCE a imprimir euros e os eurobonds a circular.

Os gregos já perceberam isto muito bem; cá, temos um governo que não quer eurobonds, o único mecanismo que poderia resolver o problema; portanto em 2013 a situação será apenas muito pior do que agora porque estaremos todos a ganhar muito menos, com muito menos direitos, e a pagar muito mais.

Não acreditam em mim? Então vejam aqui a opinião de um conceituado economista americano, publicada no New York Times.


quinta-feira, setembro 22, 2011

A Piscina


Os telejornais de hoje tinham uma notícia que fez as alegrias dos media: imaginem que o Alberto João gastou parece que 2 milhões de euros numa piscina no Curral das Freiras que raramente funciona!!!

 Haverá melhor exemplo da má gestão da Madeira? Pode o dinheiro ser mais mal gasto?

 Eis aqui um ótimo exemplo da nossa ignorância do Jogo da Economia.

 Ora reparem; a Comunidade Europeia comparticipa este tipo de obras em qualquer coisa como 75% (não sei ao certo como foi neste caso, mas deve ter sido algo como isso), ou seja, 1,5 milhões de euros. Portanto, o Alberto João investiu 0,5 milhões de euros, que não foi um gasto porque serviu para pagar o trabalho de madeirenses, foi só uma circulação de dinheiro, e recebeu 1,5 milhões vindos do estrangeiro.

Como compreenderão, isto equivale a investir 0,5 milhões de euros a fabricar um produto que se exportou por 2 milhões – uma rentabilidade de 400%

O orçamento da Madeira gastou 0,5 milhões e recebeu 1,5 milhões, logo ganhou 1 milhão de euros.

Na verdade, ganhou mais, porque quem fez o trabalho pagou impostos e se não tivesse tido o trabalho talvez tivesse recebido subsídios de desemprego.

A piscina não funciona? Ótimo, assim não tem custos de manutenção. Claro que se for possível encontrar utilidade para piscina, melhor, mas se não for não faz mal – a piscina foi um excelente negócio para a Madeira e para o país. Agora, até pode ser demolida, é como se tivesse sido exportada.

Sei que isto pode fazer confusão. Vivemos numa era de abundância, as regras deste jogo económico já não são as dos tempos de carência, não visam aumentar a produção, visam disputar a abundância; quem não souber jogar este jogo fica sem nada.




segunda-feira, setembro 19, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (7)


Nos países soberanos não há empresas com sede no estrangeiro

A China atraíu o investimento estrangeiro mediante a oferta de custos muito baixos, conseguidos através duma inteligente utilização do câmbio e de mão-de-obra barata; mas as empresas estrangeiras que quiseram operar na China tiveram de constituir empresas em que pelo menos metade do capital é chinês e aceitar um prazo para a sua actividade na China,

 Exemplifiquemos com a Volkswagen; para se instalar na China, teve de fazer empresas com os chineses em que pelo menos metade do capital é chinês – vamos assumir que é exactamente metade, por simplicidade. Para a China, conseguir essa metade do capital não foi problema: eles imprimem o seu dinheiro, não é verdade?

As fábricas da Volkswagen na China geram gandes lucros; uma parte vai para impostos, suponhamos 20%; do restante, metade fica na China, corresponde à sua comparticição na empresa, e a outra metade vai para a Alemanha. Portanto, a China fica com 60% dos lucros – enriquece!

Em consequência deste enriquecimento, os ordenados sobem e o nível de vida dos chineses sobe. Os trabalhadores chineses, que começaram com salários de escravo, isto é, salários que só davam para a sua alimentação, foram subindo de nível de vida e hoje já se recusam a trabalhar pelo ordenado que actualmente ganha um trabalhador português. A Autoeuropa vai produzir Sharons para exportar para a China porque já dá mais lucro à Volkswagen produzir em Portugal para exportar para a China do que produzir na China.

Imaginemos agora que o governo chinês não exigia a metade do capital; este seria todo dos alemães e, em consequência, os lucros da Volkswagen iriam inteiros para a Alemanha, onde está a sede da empresa. A China não enriqueceria nada com a Volkswagen, apenas receberia os ordenados de escravo dos empregados da Volkswagen; os ordenados de «escravo» perpetuar-se-iam.

Como estamos a perceber, possuir ou não parte do capital duma fábrica estrangeira faz toda a diferença.

Por outro lado, as empresas estrangeiras instaladas num país, impedem o desenvolvimento do país na área onde actuam devido à concorrência desigual que estabelecem.

Temos um exemplo claro e recente no nosso país: enquanto as empresas estrangeiras de calçado cá andaram, a nossa indústria do calçado não saíu da cepa torta; assim que elas se foram embora, a nossa indústria cresceu exponencialmente, apesar de continuar a ter condições de mercado interno muito mais adversas do que as suas concorrentes.

É por isso as empresas que se queiram instalar na China têm apenas uma licença a prazo: a Volkswagen só pode ficar na China até 2030. Depois de 2030, a China terá já todo o know-how necessário ao fabrico de automóveis e ainda as fábricas, organização e infraestruturas deixadas pelos alemães.

Este esquema não é uma invenção da China – é assim em toda a parte. No Brasil ou em Angola também não entra nenhuma empresa que não seja participada por brasileiros e angolanos. Nos EUA, acontece o mesmo. A Volkswagem quis ter lá uma fábrica dela; teve de a fechar e desde então parece que nem 1 volkswagen se vende nos EUA porque a forma de correr com a Volkswagen foi convencer os americanos de que os seus carros não prestam – é para isso que servem as ASAE em todos os países do mundo excepto Portugal.

Nos países soberanos, muito ou pouco desenvolvidos, não se instalam empresas com sede no estrangeiro, porque tais empresas delapidam o país.

No post anterior desta série eu disse que já não há multinacionais; agora parece que estou a dizer que há; como é afinal?

A resposta é que já não há multinacionais na Europa!

Nos países soberanos não há empresa que não seja participada por esse país; e a razão é clara, empresas estrangeiras delapidam o país e impedem o seu  desenvolvimento a prazo; mas nos países periféricos europeus, nos PIGS, isso acontece!!! As empresas alemãs e francesas instalam-se nos PIGS sem quaisquer contrapartidas – pelo contrário, ainda recebem benefícios.

A consequência está à vista: os PIGS estão cada vez mais pobres, o que tem sido mascarado com o endividamento crescente. O dinheiro que tem sido emprestado aos PIGS é o dinheiro que a estes foi retirado pela Alemanha e também França, como veremos. Agora, esta dívida é-lhes cobrada com usura e os PIGS vão ficar sem anéis e sem dedos.

Sabem porque é que a Madeira que tem tanto turismo não é económicamente rentável? Porque as cadeias de hoteís que lá operam, bem como as agências de viagem, são quase todas não-madeirenses e os lucros da actividade turística da Madeira vão beneficiar outros. O nosso Sol é o nosso petróleo e deixamos as empresas estrangeiras virem cá explorá-lo pagando apenas os ordenados dos trabalhadores!! Não precisava de ser assim, nos outros países isto não acontece, há soluções, como veremos.

quinta-feira, setembro 15, 2011

O árbitro Obama apitou




Franceses e alemães apressavam-se a pressionar os gregos – ou lhes entregam as suas empresas públicas ou saem da Europa. A saída da Europa é só para assustar, é claro, tomar conta das empresas públicas da Grécia e Portugal urge, isso é indispensável ao “esquema de cantina” que se pretende aplicar. E urge no caso de Portugal porque, como os economistas americanos, aqueles que há mais de uma década vêm expondo todas estes acontecimentos e que estão por detrás de Obama, já tinham avisado, Portugal tem uma escapatória através do Brasil e de Angola. O Brasil e Angola já entraram na privatização do BPN, o Lula já foi a Portugal, o BRIC já se vai reunir, há que andar depressa, não deixar o Brasil e Angola pôrem a mão nas empresas públicas portuguesas ou o «esquema de cantina» vai por água abaixo. Quanto à Grécia, com o seu PIB que é 1,7 vezes o Português, são precisos pelo menos 3 anos de profunda recessão para a colocar ao nível adequado à aplicação do esquema, e isso exige pôr a Grécia a ferro a fogo.


(pensam que os 7% de recessão na Grécia são um “acidente”, um resultado indesejável? Se assim fosse, a troika estaria muito preocupada e a propor medidas de correcção, não é? Eles não estão em constante fiscalização, a propor constantemente novas medidas “para garantir que estes países conseguem pagar as suas dívididas”?  Como poderiam ficar indiferentes a tamanha recessão? Serão burros? Claro que não, sabem muito bem o que fazem. A a recessão grega não é um acidente, é um objectivo; e para o ano vai ser pior porque o PIB grego tem de cair pelo menos 30% antes de se poder «comer» a Grécia…)

  

Merkel e Sarkozy marcam um comunicado conjunto para o dia 13; um comunicado de importância fundamental, o aviso solene e final à Grécia, anunciado com o devido espavento; mas o Obama entra em cena e declara: os países europeus com excedentes comerciais têm de resolver rapidamente a crise europeia! O tão anunciado comunicado conjunto franco-alemão evapora-se. Obama é o árbitro do jogo e apitou, marcou falta à Alemanha e à França.

No dia 14 a Merkel já vem mansinha dizer que nem pensar em a Grécia sair da Europa; o spread do empréstimo a Portugal (mais de 2%! Quem pode ter dúvidas de que esta «ajuda» é maquiavélica??) desaparece; Durão Barroso diz que a Comissão vai avançar com propostas para os eurobonds.


Franceses e alemães vão ter de fazer novos planos. Para nós, das duas uma: ou este governo está a fazer o jogo franco-alemão, e nesse caso irá acelerar as «privatizações» para mãos francesas e alemãs, ou não está, e irá começar a protelar esse tipo de medidas.


Um detalhe: os irlandeses não pagavam este spread; sabem porquê? Porque são «brancos» e aos brancos não se aplica o «esquema de cantina»; o problema irlandês é para resolver mesmo, o nosso e o grego não são para resolver, são para agravar até que ficarmos no limiar de sobrevivência e completamente dependentes de franceses e alemães.


terça-feira, setembro 13, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (6)


Já não há multinacionais

O grande inconveniente do sistema capitalista é que quem é mais rico tem mais capacidade de enriquecer; diversas medidas foram tomadas para obviar a este problema. Uma das brilhantes soluções introduzidas foi a criação das sociedades anónimas, empresas cujo capital podia estar distribuído; toda a gente poderia ser sócia duma grande empresa e beneficiar da capacidade de enriquecimento que a dimensão dá através da distribuição de dividendos e da valorização da empresa, traduzida na sua cotação em bolsa; a possibilidade de pessoas de qualquer país poderem ter acções de qualquer empresa tornaria a economia global, acabaria com as lutas entre países porque os interesses das pessoas seriam transversais à sociedade.

Esta ideia cedo começou a ser desvirtuada; o ser humano tende sempre para o seu interesse particular imediato, que não é o objectivo do jogo da economia nem de qualquer jogo; os jogos têm sempre um objectivo colectivo - é por isso que são inventados, são uma forma de sobrepôr o interesse colectivo ao individual, indispensável ao progresso da sociedade humana -  mas os humanos fazem «batota» sempre que podem. Os humanos usam, tanto quanto podem, o jogo da Economia, concebido para fazer evoluir a sociedade humana, para o seu objectivo individual de enriquecimento, poder, protagonismo. Qualquer jogo jogado por humanos carece de constante fiscalização, de árbitros, polícia e justiça, que o mantenham a correr de acordo com as regras e objectivos, como acontece com o futebol; porém, no que se refere à economia, isso tem sido mal conseguido e os «batoteiros» dominam o jogo – tanto os «batoteiros» individuais como os «batoteiros» a outras escalas – por exemplo, à escala dos países.

Os grandes accionistas das empresas cedo descobriram que aumentavam os seus ganhos pessoais usando o dinheiro dos lucros não para pagar dividendos mas na na forma de brutais ordenados pagos a si próprios, através dos lugares que a sua posição de accionista lhes permitia ter. As acções, por seu lado, em vez de valerem em função dos dividendos, passaram a ser bilhetes para o casino da bolsa.

Com a globalização, os países entraram em competição entre si; naturalmente, as políticas anti-monopólio anteriormente usadas para manter a sociedade num desenvolvimento equilibrado perderam o sentido – com a globalização a aposta dos Estados passou a ser ter empresas tão grandes quanto possível para conquistarem o mercado mundial. Os campeões das políticas “anti-trust”, os EUA, declararam o fim destas políticas. Os países entraram verdadeiramente em guerra, agora uma guerra económica, e por isso querem que as suas empresas sejam o mais forte possível

Nesta guerra entre países, as grandes empresas deixaram de ser «multinacionais»; passaram a ter um dono, uma pátria, para onde os seus lucros são desviados. A Volkswagen não é do senhor A ou B, é dos alemães, a Fiat é italiana, a Telefónica é espanhola, etc, etc. Podem existir participações de um país em empresas doutro país apenas enquanto existir perpectiva de isso servir para adquirir essa empresa – os italianos na Galp, por exemplo – ou então quando dois países decidem cruzar as suas participações em duas grandes empresas, numa política de alianças que de algum modo corresponde ao casamento entre princípes da Idade Média.

O fim da ideia do multinacionalismo empresarial corresponde na verdade ao fim de uma ideia de globalização da economia a à passagem para o seu oposto, para uma guerra económica global; as empresas deixaram de ser «globais» em relação a quem delas beneficia mas, ao contrário, passaram a beneficiar especificamente este ou aquele país.

Um caso interessante é o BIC; é Português? Angolano? Brasileiro? Tem capital das 3 origens e a sua pátria é… a língua portuguesa. O que tem de interessante, para mim, é que aponta uma possível saída para a nossa situação, antes a pátria da língua do que pátria nenhuma.

O facto de a bolsa estar a cair não é nenhuma surpresa; por um lado, aplicar os capitais nas dívidas soberanos é o negócio do momento, já não é a bolsa; mas por outro lado a bolsa cai porque os «países» vendem as acções que têm nas empresas onde não há perspectivas de posse para aplicar o dinheiro onde isso é possível, nomeadamente através do recente processo de «privatizações» das empresas públicas dos PIGS.

As ditas «privatizações» mais não são do que aquisições de empresas de serviço público de um país por outro país. A «privatização» da EDP é apenas a nacionalização da EDP pela Alemanha. Ou seja, a EDP vai deixar de ser portuguesa e vai passar a ser alemã.

Da mesma maneira, a «privatização» dos transportes públicos em Portugal mais não vai ser do que a sua nacionalização pela França.

Reparem agora no seguinte: os transportes publicos davam prejuizo porque o Estado impunha tarifas baixas; se o Estado permite tarifas altas, passam a dar lucro; enquanto forem empresas publicas, a diferença entre uma coisa e outra é que no primeiro caso os custos dos transportes públicos são suportados também por pessoas que os não utilizam e no segundo recaem exclusivamente sobre os utilizadores, mas em qq caso, o seu saldo ou déficit é intrínseco às contas do Estado Português, ou seja, os portugueses pagam pelos transportes públicos exactamente o que eles custam. Agora, se vão ser entregues aos franceses, com tarifas altas para dar lucro, os portugueses vão andar a pagar os transportes publicos para dar lucro aos franceses!!!! Os transportes públicos vão sair mais caros aos portugueses; isto não é completamente estúpido???? Não é «hipotecar o futuro dos nossos filhos»? Pior: vão fundir as empresas de transportes publicos numa única, criando um monopólio para ser entregue aos franceses!!! As pessoas ou pagam o que eles quiserem ou trazem o carro e pagam parque o dia todo!!

Este não é certamente o caminho que nos interessa; somos tão capazes de gerir redes de transportes publicos como os franceses, não há razão nenhuma para lhes entregarmos os nossos transportes publicos. Mais vale fazermos uma «vaquinha» com brasileiros, angolanos, moçambicanos, cruzarmos participações, eles participam nos nossos transportes e nós nos deles. Mais vale seguirmos o exemplo do BIC.


Portanto, compreendamos: o que está em causa com o dito processo de privatizações em curso não tem nada a ver com privatizações, tem a ver com a nacionalização das nossas empresas públicas pela França e Alemanha.

Isto não sucede por acaso, não é ditado por simples razões económicas, há uma razão profunda para esta ânsia que os franceses e alemães exibem para nacionalizarem as empresas públicas dos PIGS; não é óbvio que esta insistência nas «privatizações» das empresas de serviço público tem «água no bico»? O que é que eles querem realmente com estas «pseudo-privatizações» que não passam de nacionalizações mascaradas?

(ainda não foi agora que revelei o plano desses artistas que querem pôr a nossa bandeira a meia –haste, convencidos que estão que já somos só “meio-país”, a outra metade já é deles; um pouco mais de paciência, é que temos de compreender muito bem a tramóia toda)

sexta-feira, setembro 02, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (5)



O que até as porteiras em França sabem

Imaginem um casal de agricultores; têm uma pequena quinta, árvores de fruta, hortícolas, cabras. Todo o ano trabalham na quinta. Têm alguns utensílios e uma carrinha que compraram a crédito. Consomem parte do que produzem, outra parte vendem. Compram adubos, medicamentos para eles e para os animais, produtos alimentares que não produzem, roupa, têm despesas com a carrinha, pagam electricidade e água, etc.

O resultado do seu trabalho, de todo o seu trabalho, incluindo as reparações na casa, a valorização que pode ter ocorrido da quinta, corresponde grosso modo ao conceito de PIB; a diferença entre o que venderam e o que pagaram corresponde grosso modo ao saldo da sua balança de pagamentos.

Suponhamos agora que eles precisam de comprar um pequeno tractor e vão ao banco pedir um empréstimo; em que é que se baseia o banco para conceder ou recusar o empréstimo?

No valor do seu PIB?

Na dívida que eles ainda têm para pagar dos empréstimos anteriores?

A primeira coisa que interessa ao banco é o saldo da sua balança de pagamentos mais a valorização da sua propriedade; se a soma das duas coisas é negativa, ou seja, se a propriedade se desvalorizou e o saldo é positivo mas menor que a degradação da propriedade, ou se a propriedade se valorizou mas o saldo é mais negativo do que a valorização, ou se ambas as coisas são negativas, sem perspectivas de se tornar positiva nem mesmo com o novo tractor, a resposta é negativa, qualquer que seja o montante do PIB e por mais insignificante que seja a dívida anterior.

Isto é exactamente o que se passa com a economia dos países.

O montante da dívida pública é irrelevante em si mesmo; o que conta é a capacidade do país em produzir riqueza que chegue para pagar os seus juros; ou seja, o que conta é, grosso modo, o saldo da balança de pagamentos adicionado à variação do PIB.

Se um país tem um saldo da balança de pagamentos negativo e um PIB que não cresce, evidentemente que está a empobrecer, logo não vai conseguir pagar as suas dívidas. Não interessa se as dívidas são muitas ou poucas, ele não vai conseguir pagar os juros da dívida que tem, pelo contrário, vai precisar de pedir mais dinheiro emprestado para tapar o seu saldo negativo.

Ora Portugal tem um saldo da balança de pagamentos altamente negativo e um PIB que não cresce; evidentemente que não vai poder pagar as suas dívidas, nem a pública nem a privada. Não interessa para nada se a dívida é grande ou pequena, a única coisa que interessa é saber se a economia tem um desempenho positivo ou negativo.

Daqui é fácil concluir que é completamente indiferente que a dívida pública cresça 5 % ou 1% ou diminua; enquanto o desempenho da economia for negativo, não há mais empréstimos!

Suponhamos agora que se descobre petróleo na costa portuguesa e que isso perspectiva que a balança de pagamentos se torne altamente positiva; como é evidente, não faltará quem queira emprestar dinheiro ao estado, não interessa qual seja o valor da dívida pública. Como vêm, o montante da dívida pública, por si só, é irrelevante.

Suponhamos que passamos dois anos a apertar o cinto, que o Estado vende as empresas públicas todas, despede os boys todos, fecha os centros de saúde todos, vende a Madeira aos espanhóis e os Açores aos americanos, e com isso tudo consegue o feito impensável de reduzir a dívida pública a metade; como reagirão os mercados?

Aumentando os juros porque o resultado disso é que a economia do país ficou pior, o país desvalorizou e o saldo da balança de pagamentos só se agravou pela certa.

Portanto, a única coisa que vai fazer diferença daqui a dois anos não é se o governo cumpriu ou não as metas do déficit público; o que vai fazer a diferença é se o país se valorizou (aumentou o PIB) e se o saldo da balança de pagamentos está positivo.

Ora nada disso vai acontecer com as actuais medidas. E isto qualquer porteira em França sabe. Em França e em qualquer parte do mundo. Toda a gente sabe que o que conta é se se produz mais do que se gasta ou não. É por isso que os franceses, ou os alemães, ou os ingleses, querem saldo positivo nas contas da sua região, é por isso que são altamente regionalistas e tomam as medidas que forem necessárias para o conseguir. E desprezam aqueles, como os Portugueses, que o não fazem.

Mas, dirão vocês, se o Estado cortar as suas despesas e aumentar as suas receitas, fica em condições de pagar a dívida pública; então porque hão-de os juros continuar a subir? Qual é o problema?

Reparem no seguinte: se a balança de pagamentos é deficitária, a dívida do país tem de aumentar; mas quem vai emprestar dinheiro à banca de um país deficitário? A banca vai ter grandes dificuldades de crédito, como está a ter; então, vai dar menos crédito; ora se a balança de pagamentos está negativa é porque pessoas e empresas estão a viver do crédito e, reduzindo-se este, vão falir. Então, o desemprego vai aumentar, estoirando com as contas da segurança social, e as pessoas vão deixar de pagar os empréstimos que contraíram, o que significa que a banca vai falir; de repente todos os empréstimos às empresas, para compra de habitação, para compra do carro, etc, vão passar a «activos tóxicos», vão dizer que a culpa é da ganância dos banqueiros e com isso vão justificar a falência generalizada da banca nacional.

Com o saldo da balança de pagamentos negativo, o país inteiro vai falir.

Mas se assim fosse, perguntam vocês desconfiados, então porque é que estão a tomar estas medidas? São todos ignorantes? Não sabem o que andam a fazer?

Claro que sabem! Sabem desde que a União Europeia foi criada, este desígnio estava traçado desde o primeiro momento, como os economistas fora da Europa se têm fartado de dizer. O que agora estão a fazer é apenas a executar a fase final do maquiavélico plano, que compreenderemos claramente no próximo post.