segunda-feira, setembro 19, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (7)


Nos países soberanos não há empresas com sede no estrangeiro

A China atraíu o investimento estrangeiro mediante a oferta de custos muito baixos, conseguidos através duma inteligente utilização do câmbio e de mão-de-obra barata; mas as empresas estrangeiras que quiseram operar na China tiveram de constituir empresas em que pelo menos metade do capital é chinês e aceitar um prazo para a sua actividade na China,

 Exemplifiquemos com a Volkswagen; para se instalar na China, teve de fazer empresas com os chineses em que pelo menos metade do capital é chinês – vamos assumir que é exactamente metade, por simplicidade. Para a China, conseguir essa metade do capital não foi problema: eles imprimem o seu dinheiro, não é verdade?

As fábricas da Volkswagen na China geram gandes lucros; uma parte vai para impostos, suponhamos 20%; do restante, metade fica na China, corresponde à sua comparticição na empresa, e a outra metade vai para a Alemanha. Portanto, a China fica com 60% dos lucros – enriquece!

Em consequência deste enriquecimento, os ordenados sobem e o nível de vida dos chineses sobe. Os trabalhadores chineses, que começaram com salários de escravo, isto é, salários que só davam para a sua alimentação, foram subindo de nível de vida e hoje já se recusam a trabalhar pelo ordenado que actualmente ganha um trabalhador português. A Autoeuropa vai produzir Sharons para exportar para a China porque já dá mais lucro à Volkswagen produzir em Portugal para exportar para a China do que produzir na China.

Imaginemos agora que o governo chinês não exigia a metade do capital; este seria todo dos alemães e, em consequência, os lucros da Volkswagen iriam inteiros para a Alemanha, onde está a sede da empresa. A China não enriqueceria nada com a Volkswagen, apenas receberia os ordenados de escravo dos empregados da Volkswagen; os ordenados de «escravo» perpetuar-se-iam.

Como estamos a perceber, possuir ou não parte do capital duma fábrica estrangeira faz toda a diferença.

Por outro lado, as empresas estrangeiras instaladas num país, impedem o desenvolvimento do país na área onde actuam devido à concorrência desigual que estabelecem.

Temos um exemplo claro e recente no nosso país: enquanto as empresas estrangeiras de calçado cá andaram, a nossa indústria do calçado não saíu da cepa torta; assim que elas se foram embora, a nossa indústria cresceu exponencialmente, apesar de continuar a ter condições de mercado interno muito mais adversas do que as suas concorrentes.

É por isso as empresas que se queiram instalar na China têm apenas uma licença a prazo: a Volkswagen só pode ficar na China até 2030. Depois de 2030, a China terá já todo o know-how necessário ao fabrico de automóveis e ainda as fábricas, organização e infraestruturas deixadas pelos alemães.

Este esquema não é uma invenção da China – é assim em toda a parte. No Brasil ou em Angola também não entra nenhuma empresa que não seja participada por brasileiros e angolanos. Nos EUA, acontece o mesmo. A Volkswagem quis ter lá uma fábrica dela; teve de a fechar e desde então parece que nem 1 volkswagen se vende nos EUA porque a forma de correr com a Volkswagen foi convencer os americanos de que os seus carros não prestam – é para isso que servem as ASAE em todos os países do mundo excepto Portugal.

Nos países soberanos, muito ou pouco desenvolvidos, não se instalam empresas com sede no estrangeiro, porque tais empresas delapidam o país.

No post anterior desta série eu disse que já não há multinacionais; agora parece que estou a dizer que há; como é afinal?

A resposta é que já não há multinacionais na Europa!

Nos países soberanos não há empresa que não seja participada por esse país; e a razão é clara, empresas estrangeiras delapidam o país e impedem o seu  desenvolvimento a prazo; mas nos países periféricos europeus, nos PIGS, isso acontece!!! As empresas alemãs e francesas instalam-se nos PIGS sem quaisquer contrapartidas – pelo contrário, ainda recebem benefícios.

A consequência está à vista: os PIGS estão cada vez mais pobres, o que tem sido mascarado com o endividamento crescente. O dinheiro que tem sido emprestado aos PIGS é o dinheiro que a estes foi retirado pela Alemanha e também França, como veremos. Agora, esta dívida é-lhes cobrada com usura e os PIGS vão ficar sem anéis e sem dedos.

Sabem porque é que a Madeira que tem tanto turismo não é económicamente rentável? Porque as cadeias de hoteís que lá operam, bem como as agências de viagem, são quase todas não-madeirenses e os lucros da actividade turística da Madeira vão beneficiar outros. O nosso Sol é o nosso petróleo e deixamos as empresas estrangeiras virem cá explorá-lo pagando apenas os ordenados dos trabalhadores!! Não precisava de ser assim, nos outros países isto não acontece, há soluções, como veremos.

quinta-feira, setembro 15, 2011

O árbitro Obama apitou




Franceses e alemães apressavam-se a pressionar os gregos – ou lhes entregam as suas empresas públicas ou saem da Europa. A saída da Europa é só para assustar, é claro, tomar conta das empresas públicas da Grécia e Portugal urge, isso é indispensável ao “esquema de cantina” que se pretende aplicar. E urge no caso de Portugal porque, como os economistas americanos, aqueles que há mais de uma década vêm expondo todas estes acontecimentos e que estão por detrás de Obama, já tinham avisado, Portugal tem uma escapatória através do Brasil e de Angola. O Brasil e Angola já entraram na privatização do BPN, o Lula já foi a Portugal, o BRIC já se vai reunir, há que andar depressa, não deixar o Brasil e Angola pôrem a mão nas empresas públicas portuguesas ou o «esquema de cantina» vai por água abaixo. Quanto à Grécia, com o seu PIB que é 1,7 vezes o Português, são precisos pelo menos 3 anos de profunda recessão para a colocar ao nível adequado à aplicação do esquema, e isso exige pôr a Grécia a ferro a fogo.


(pensam que os 7% de recessão na Grécia são um “acidente”, um resultado indesejável? Se assim fosse, a troika estaria muito preocupada e a propor medidas de correcção, não é? Eles não estão em constante fiscalização, a propor constantemente novas medidas “para garantir que estes países conseguem pagar as suas dívididas”?  Como poderiam ficar indiferentes a tamanha recessão? Serão burros? Claro que não, sabem muito bem o que fazem. A a recessão grega não é um acidente, é um objectivo; e para o ano vai ser pior porque o PIB grego tem de cair pelo menos 30% antes de se poder «comer» a Grécia…)

  

Merkel e Sarkozy marcam um comunicado conjunto para o dia 13; um comunicado de importância fundamental, o aviso solene e final à Grécia, anunciado com o devido espavento; mas o Obama entra em cena e declara: os países europeus com excedentes comerciais têm de resolver rapidamente a crise europeia! O tão anunciado comunicado conjunto franco-alemão evapora-se. Obama é o árbitro do jogo e apitou, marcou falta à Alemanha e à França.

No dia 14 a Merkel já vem mansinha dizer que nem pensar em a Grécia sair da Europa; o spread do empréstimo a Portugal (mais de 2%! Quem pode ter dúvidas de que esta «ajuda» é maquiavélica??) desaparece; Durão Barroso diz que a Comissão vai avançar com propostas para os eurobonds.


Franceses e alemães vão ter de fazer novos planos. Para nós, das duas uma: ou este governo está a fazer o jogo franco-alemão, e nesse caso irá acelerar as «privatizações» para mãos francesas e alemãs, ou não está, e irá começar a protelar esse tipo de medidas.


Um detalhe: os irlandeses não pagavam este spread; sabem porquê? Porque são «brancos» e aos brancos não se aplica o «esquema de cantina»; o problema irlandês é para resolver mesmo, o nosso e o grego não são para resolver, são para agravar até que ficarmos no limiar de sobrevivência e completamente dependentes de franceses e alemães.


terça-feira, setembro 13, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (6)


Já não há multinacionais

O grande inconveniente do sistema capitalista é que quem é mais rico tem mais capacidade de enriquecer; diversas medidas foram tomadas para obviar a este problema. Uma das brilhantes soluções introduzidas foi a criação das sociedades anónimas, empresas cujo capital podia estar distribuído; toda a gente poderia ser sócia duma grande empresa e beneficiar da capacidade de enriquecimento que a dimensão dá através da distribuição de dividendos e da valorização da empresa, traduzida na sua cotação em bolsa; a possibilidade de pessoas de qualquer país poderem ter acções de qualquer empresa tornaria a economia global, acabaria com as lutas entre países porque os interesses das pessoas seriam transversais à sociedade.

Esta ideia cedo começou a ser desvirtuada; o ser humano tende sempre para o seu interesse particular imediato, que não é o objectivo do jogo da economia nem de qualquer jogo; os jogos têm sempre um objectivo colectivo - é por isso que são inventados, são uma forma de sobrepôr o interesse colectivo ao individual, indispensável ao progresso da sociedade humana -  mas os humanos fazem «batota» sempre que podem. Os humanos usam, tanto quanto podem, o jogo da Economia, concebido para fazer evoluir a sociedade humana, para o seu objectivo individual de enriquecimento, poder, protagonismo. Qualquer jogo jogado por humanos carece de constante fiscalização, de árbitros, polícia e justiça, que o mantenham a correr de acordo com as regras e objectivos, como acontece com o futebol; porém, no que se refere à economia, isso tem sido mal conseguido e os «batoteiros» dominam o jogo – tanto os «batoteiros» individuais como os «batoteiros» a outras escalas – por exemplo, à escala dos países.

Os grandes accionistas das empresas cedo descobriram que aumentavam os seus ganhos pessoais usando o dinheiro dos lucros não para pagar dividendos mas na na forma de brutais ordenados pagos a si próprios, através dos lugares que a sua posição de accionista lhes permitia ter. As acções, por seu lado, em vez de valerem em função dos dividendos, passaram a ser bilhetes para o casino da bolsa.

Com a globalização, os países entraram em competição entre si; naturalmente, as políticas anti-monopólio anteriormente usadas para manter a sociedade num desenvolvimento equilibrado perderam o sentido – com a globalização a aposta dos Estados passou a ser ter empresas tão grandes quanto possível para conquistarem o mercado mundial. Os campeões das políticas “anti-trust”, os EUA, declararam o fim destas políticas. Os países entraram verdadeiramente em guerra, agora uma guerra económica, e por isso querem que as suas empresas sejam o mais forte possível

Nesta guerra entre países, as grandes empresas deixaram de ser «multinacionais»; passaram a ter um dono, uma pátria, para onde os seus lucros são desviados. A Volkswagen não é do senhor A ou B, é dos alemães, a Fiat é italiana, a Telefónica é espanhola, etc, etc. Podem existir participações de um país em empresas doutro país apenas enquanto existir perpectiva de isso servir para adquirir essa empresa – os italianos na Galp, por exemplo – ou então quando dois países decidem cruzar as suas participações em duas grandes empresas, numa política de alianças que de algum modo corresponde ao casamento entre princípes da Idade Média.

O fim da ideia do multinacionalismo empresarial corresponde na verdade ao fim de uma ideia de globalização da economia a à passagem para o seu oposto, para uma guerra económica global; as empresas deixaram de ser «globais» em relação a quem delas beneficia mas, ao contrário, passaram a beneficiar especificamente este ou aquele país.

Um caso interessante é o BIC; é Português? Angolano? Brasileiro? Tem capital das 3 origens e a sua pátria é… a língua portuguesa. O que tem de interessante, para mim, é que aponta uma possível saída para a nossa situação, antes a pátria da língua do que pátria nenhuma.

O facto de a bolsa estar a cair não é nenhuma surpresa; por um lado, aplicar os capitais nas dívidas soberanos é o negócio do momento, já não é a bolsa; mas por outro lado a bolsa cai porque os «países» vendem as acções que têm nas empresas onde não há perspectivas de posse para aplicar o dinheiro onde isso é possível, nomeadamente através do recente processo de «privatizações» das empresas públicas dos PIGS.

As ditas «privatizações» mais não são do que aquisições de empresas de serviço público de um país por outro país. A «privatização» da EDP é apenas a nacionalização da EDP pela Alemanha. Ou seja, a EDP vai deixar de ser portuguesa e vai passar a ser alemã.

Da mesma maneira, a «privatização» dos transportes públicos em Portugal mais não vai ser do que a sua nacionalização pela França.

Reparem agora no seguinte: os transportes publicos davam prejuizo porque o Estado impunha tarifas baixas; se o Estado permite tarifas altas, passam a dar lucro; enquanto forem empresas publicas, a diferença entre uma coisa e outra é que no primeiro caso os custos dos transportes públicos são suportados também por pessoas que os não utilizam e no segundo recaem exclusivamente sobre os utilizadores, mas em qq caso, o seu saldo ou déficit é intrínseco às contas do Estado Português, ou seja, os portugueses pagam pelos transportes públicos exactamente o que eles custam. Agora, se vão ser entregues aos franceses, com tarifas altas para dar lucro, os portugueses vão andar a pagar os transportes publicos para dar lucro aos franceses!!!! Os transportes públicos vão sair mais caros aos portugueses; isto não é completamente estúpido???? Não é «hipotecar o futuro dos nossos filhos»? Pior: vão fundir as empresas de transportes publicos numa única, criando um monopólio para ser entregue aos franceses!!! As pessoas ou pagam o que eles quiserem ou trazem o carro e pagam parque o dia todo!!

Este não é certamente o caminho que nos interessa; somos tão capazes de gerir redes de transportes publicos como os franceses, não há razão nenhuma para lhes entregarmos os nossos transportes publicos. Mais vale fazermos uma «vaquinha» com brasileiros, angolanos, moçambicanos, cruzarmos participações, eles participam nos nossos transportes e nós nos deles. Mais vale seguirmos o exemplo do BIC.


Portanto, compreendamos: o que está em causa com o dito processo de privatizações em curso não tem nada a ver com privatizações, tem a ver com a nacionalização das nossas empresas públicas pela França e Alemanha.

Isto não sucede por acaso, não é ditado por simples razões económicas, há uma razão profunda para esta ânsia que os franceses e alemães exibem para nacionalizarem as empresas públicas dos PIGS; não é óbvio que esta insistência nas «privatizações» das empresas de serviço público tem «água no bico»? O que é que eles querem realmente com estas «pseudo-privatizações» que não passam de nacionalizações mascaradas?

(ainda não foi agora que revelei o plano desses artistas que querem pôr a nossa bandeira a meia –haste, convencidos que estão que já somos só “meio-país”, a outra metade já é deles; um pouco mais de paciência, é que temos de compreender muito bem a tramóia toda)

sexta-feira, setembro 02, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (5)



O que até as porteiras em França sabem

Imaginem um casal de agricultores; têm uma pequena quinta, árvores de fruta, hortícolas, cabras. Todo o ano trabalham na quinta. Têm alguns utensílios e uma carrinha que compraram a crédito. Consomem parte do que produzem, outra parte vendem. Compram adubos, medicamentos para eles e para os animais, produtos alimentares que não produzem, roupa, têm despesas com a carrinha, pagam electricidade e água, etc.

O resultado do seu trabalho, de todo o seu trabalho, incluindo as reparações na casa, a valorização que pode ter ocorrido da quinta, corresponde grosso modo ao conceito de PIB; a diferença entre o que venderam e o que pagaram corresponde grosso modo ao saldo da sua balança de pagamentos.

Suponhamos agora que eles precisam de comprar um pequeno tractor e vão ao banco pedir um empréstimo; em que é que se baseia o banco para conceder ou recusar o empréstimo?

No valor do seu PIB?

Na dívida que eles ainda têm para pagar dos empréstimos anteriores?

A primeira coisa que interessa ao banco é o saldo da sua balança de pagamentos mais a valorização da sua propriedade; se a soma das duas coisas é negativa, ou seja, se a propriedade se desvalorizou e o saldo é positivo mas menor que a degradação da propriedade, ou se a propriedade se valorizou mas o saldo é mais negativo do que a valorização, ou se ambas as coisas são negativas, sem perspectivas de se tornar positiva nem mesmo com o novo tractor, a resposta é negativa, qualquer que seja o montante do PIB e por mais insignificante que seja a dívida anterior.

Isto é exactamente o que se passa com a economia dos países.

O montante da dívida pública é irrelevante em si mesmo; o que conta é a capacidade do país em produzir riqueza que chegue para pagar os seus juros; ou seja, o que conta é, grosso modo, o saldo da balança de pagamentos adicionado à variação do PIB.

Se um país tem um saldo da balança de pagamentos negativo e um PIB que não cresce, evidentemente que está a empobrecer, logo não vai conseguir pagar as suas dívidas. Não interessa se as dívidas são muitas ou poucas, ele não vai conseguir pagar os juros da dívida que tem, pelo contrário, vai precisar de pedir mais dinheiro emprestado para tapar o seu saldo negativo.

Ora Portugal tem um saldo da balança de pagamentos altamente negativo e um PIB que não cresce; evidentemente que não vai poder pagar as suas dívidas, nem a pública nem a privada. Não interessa para nada se a dívida é grande ou pequena, a única coisa que interessa é saber se a economia tem um desempenho positivo ou negativo.

Daqui é fácil concluir que é completamente indiferente que a dívida pública cresça 5 % ou 1% ou diminua; enquanto o desempenho da economia for negativo, não há mais empréstimos!

Suponhamos agora que se descobre petróleo na costa portuguesa e que isso perspectiva que a balança de pagamentos se torne altamente positiva; como é evidente, não faltará quem queira emprestar dinheiro ao estado, não interessa qual seja o valor da dívida pública. Como vêm, o montante da dívida pública, por si só, é irrelevante.

Suponhamos que passamos dois anos a apertar o cinto, que o Estado vende as empresas públicas todas, despede os boys todos, fecha os centros de saúde todos, vende a Madeira aos espanhóis e os Açores aos americanos, e com isso tudo consegue o feito impensável de reduzir a dívida pública a metade; como reagirão os mercados?

Aumentando os juros porque o resultado disso é que a economia do país ficou pior, o país desvalorizou e o saldo da balança de pagamentos só se agravou pela certa.

Portanto, a única coisa que vai fazer diferença daqui a dois anos não é se o governo cumpriu ou não as metas do déficit público; o que vai fazer a diferença é se o país se valorizou (aumentou o PIB) e se o saldo da balança de pagamentos está positivo.

Ora nada disso vai acontecer com as actuais medidas. E isto qualquer porteira em França sabe. Em França e em qualquer parte do mundo. Toda a gente sabe que o que conta é se se produz mais do que se gasta ou não. É por isso que os franceses, ou os alemães, ou os ingleses, querem saldo positivo nas contas da sua região, é por isso que são altamente regionalistas e tomam as medidas que forem necessárias para o conseguir. E desprezam aqueles, como os Portugueses, que o não fazem.

Mas, dirão vocês, se o Estado cortar as suas despesas e aumentar as suas receitas, fica em condições de pagar a dívida pública; então porque hão-de os juros continuar a subir? Qual é o problema?

Reparem no seguinte: se a balança de pagamentos é deficitária, a dívida do país tem de aumentar; mas quem vai emprestar dinheiro à banca de um país deficitário? A banca vai ter grandes dificuldades de crédito, como está a ter; então, vai dar menos crédito; ora se a balança de pagamentos está negativa é porque pessoas e empresas estão a viver do crédito e, reduzindo-se este, vão falir. Então, o desemprego vai aumentar, estoirando com as contas da segurança social, e as pessoas vão deixar de pagar os empréstimos que contraíram, o que significa que a banca vai falir; de repente todos os empréstimos às empresas, para compra de habitação, para compra do carro, etc, vão passar a «activos tóxicos», vão dizer que a culpa é da ganância dos banqueiros e com isso vão justificar a falência generalizada da banca nacional.

Com o saldo da balança de pagamentos negativo, o país inteiro vai falir.

Mas se assim fosse, perguntam vocês desconfiados, então porque é que estão a tomar estas medidas? São todos ignorantes? Não sabem o que andam a fazer?

Claro que sabem! Sabem desde que a União Europeia foi criada, este desígnio estava traçado desde o primeiro momento, como os economistas fora da Europa se têm fartado de dizer. O que agora estão a fazer é apenas a executar a fase final do maquiavélico plano, que compreenderemos claramente no próximo post.

quinta-feira, setembro 01, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (4)


A escravatura moderna


Nos post anteriores fomos dando pinceladas no quadro da escravatura; vejamos agora como ficou a nossa pintura.

Definimos “escravo” como a pessoa que trabalha a troco da sobrevivência, expurgando a definição de conceitos acessórios como o uso da violência, meros instrumentos para atingir para atingir esse objectivo económico.

Nas latitudes médias, a sobrevivência sempre foi algo que exigiu bastante esforço devido às condições climáticas; por isso não admira que nas grandes civilizações do passado não tenho sido necessário grande violência para fazer as pessoas trabalharem pela sobrevivência – apenas em vez de trabalharem para eles próprios, trabalhavam para outrem. A época dos caçadores-recolectores já tinha terminado, a sobrevivência exigia a agricultura. De certa forma, os humanos da europa já estavam «domesticados», usando uma ideia do Manuel Gouveia.

Já com os africanos ou com os índios a questão foi diferente: a sua sobrevivência não resultava do trabalho agrícola, e ser escravo implicava fazer uma coisa – trabalhar - que não pertencia à sua cultura nem era considerada digna. O uso e abuso da força foi a solução para domar esses humanos.

Com a proibição do uso da violência, a solução para obter escravos foi procurar pessoas abaixo do limiar de sobrevivência e oferecer-lhe esta a troco de trabalho.

Portanto, o método ideal para obter escravos é recorrer a pessoas sem recursos para sobreviverem, pois estas agradecem a possibilidade de serem escravos, no sentido acima definido. Naturalmente que o pagamento nunca pode passar do nível de sobrevivência, pois se isso acontecer as pessoas começam a ter poder reivindicativo e a exigir melhor pagamento; nos processos de escravatura há uma estratégia definida para garantir que isso não acontece.

O desenvolvimento industrial criou uma nova dificuldade: as pessoas tinham de ter recursos para comprar os bens produzidos, logo não podiam ser escravos, tinham de ganhar mais do que o necessário à sobrevivência.

A solução foi ir buscar pessoas a locais onde a sobrevivência não estava garantida. Nascia a Imigração promovida pelos governos.

A necessidade de pressionar o desenvolvimento das sociedades levou à tomada de medidas igualitárias, como o estabelecimento do ordenado mínimo; este tinha de acompanhar o enriquecimento da sociedade, não era o ordenado do escravo. Os imigrantes deixaram de poder ser escravos. Acabou a imigração legal.

Se já não era possível ter escravos no próprio país, a solução teria de ser a deslocalização das fábricas – que teriam de ir para as zonas onde existiam pessoas sem condições de sobrevivência e aí aplicar estratégias que não dessem outra alternativa às pessoas que não fosse trabalhar pela mera sobrevivência.

Esta é uma solução fácil para pequenas empresas e tem sido amplamente utilizada nos países em vias de desenvolvimento; por exemplo, no Brasil, cerca de 20 000 pessoas foram retiradas pelas autoridades, na última década e meia, de esquemas destes; em todo o mundo existem dezenas de milhões de pessoas em trabalho escravo, a grande maioria sendo a consequência directa e necessária duma natalidade descontrolada.

Porém, as grandes fábricas são grandes investimentos e que carecem de uma logística complexa; nas zonas tão atrasadas que não conseguem garantir a sobrevivência da sua população, essas condições não existem normalmente.

Surgiu então uma oportunidade única: mercê de um engenhoso, genial, corajoso sistema económico, com dupla moeda e câmbio gerido internamente, um sistema que o ocidente não parece ter compreendido (ou finge não compreender) e que exporei se tiver oportunidade, a China conseguiu reduzir os custos de produção em moeda ocidental para muito menos de 1/10 – uma redução “artificial” porque decorrente do processo cambial, não representativa do nível de vida que foi assegurado aos chineses.

A China foi um el-dorado para as fábricas; mas um el-dorado a prazo. O projecto da China visa o desenvolvimento da China, os chineses fazem as regras que lhes convêm, (tal como os americanos, os alemães e os ingleses), não andam a reboque dos interesses dos outros.

Assim, por exemplo, a Volkswagen, que tem um enorme investimento na China, teve de formar empresas em que a maioria do capital é chinês e que terminam em 2030. Doutra forma não punha o pé na China.

Esta gestão inteligente dos interesses chineses produziu um enorme desenvolvimento da China que tornou esse sistema de duplo câmbio obsoleto; os ordenados estão a subir rapidamente e os gestores da Volkswagen espremem as meninges à procura de uma maneira de encontrar mão-de-obra ao preço da sobrevivência. Não é fácil, porque todos os países com organização suficiente para suportar uma indústria automóvel visam o seu desenvolvimento, o que significa que os ordenados crescem, e rapidamente se afastam do mínimo de sobrevivência; é o que acontece no Brasil.

Os EUA resolveram este tipo de problema instalando as suas fábricas no norte do México; devido à falta de controlo da natalidade, o México parece ser uma fonte de mão-de-obra ao custo da sobrevivência que tão depressa não se esgotará; ao instalar as suas fábricas junto à fronteira americana, os EUA como que criaram aí uma zona que funciona segundo a sua organização mas dispondo dessa mão-de-obra barata oriunda doutras zonas do México.

Notem que os EUA não estão a explorar os mexicanos; se existem mexicanos dispostos a ser escravos, a responsabilidade é dos próprios mexicanos.

A Europa não tem hipóteses de uma solução deste tipo, pelo menos enquanto as pessoas dos países vizinhos tiverem uma cultura diferente; então como podem as empresas alemãs conseguir mão-de-obra ao preço da sobrevivência, isto é, escravos para as suas fábricas, numa solução em que a situação de escravatura se prolongue no tempo, de forma estável, como acontece com a solução americana?

Agora temos quase todos os elementos para compreendermos a estratégia franco-alemã; só falta uma coisa, aquilo que até as porteiras em França sabem; é isso que veremos no próximo post.


terça-feira, agosto 30, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (3)




Mercadores de escravos analisando os dentes da escrava, por Jean-Léon Gérôme (da wikipedia)


O que é um ESCRAVO?


Qual é o mínimo custo de um trabalhador?

É o seu custo de sobrevivência – ou seja, alimentação. No fundo, o custo da energia que ele consome. Nas zonas onde a fome grassa devido à sobrepopulação, nomeadamente onde não se pratica controlo de natalidade, as pessoas trabalham por esse valor.

Desde que a sociedade humana existe que uns humanos usaram outros humanos para a realização de trabalho a troco de lhes assegurarem a sobrevivência. Nas sociedades sofisticadas do Egipto, da Grécia ou de Roma, estas pessoas, os «escravos», muitas vezes capturas de guerra mas nem sempre, distinguiam-se dos «cidadãos» por não terem direito de voto.

Note-se que até muito recentemente as mulheres não tinham direito ao voto, que não era considerado um direito fundamental dos humanos mas uma obrigação dos humanos que intervinham directamente na economia da sociedade. Não é pois a questão dos direitos que caracteriza o escravo pois os direitos das mulheres não eram muito diferentes dos deles.

Na antiguidade, em geral, os escravos eram bem tratados pelos seus senhores, pois por um lado não eram tidos como inferiores e por outro considerava-se que um escravo mal alimentado e mal cuidado não seria eficiente no trabalho. A qualidade do tratamento dispensado ao escravo foi sendo cada vez pior, adquirindo características de violência extrema sobretudo a partir do sec. XV, com a utilização maciça dos escravos africanos. Para justificar moralmente esta prática, foi então desenvolvido e "cientifizado" o conceito de «racismo».

Como é evidente, a utilização de escravos dava uma grande vantagem económica aos que a ela tinham acesso, o que levou os outros a desenvolveram uma luta feroz contra esta prática; por outro lado, era também fonte de degradação social por conduzir à ociosidade dos senhores, tendo esta sido a base para a proibição da entrada de escravos em Portugal pelo Marquês de Pombal; por último, as práticas esclavagistas tinham-se tornado moralmente inaceitáveis. Tudo isto conduziu ao fim do comércio legal de escravos e da possibilidade de umas pessoas serem legalmente donas de outras.

O fim desse tipo de escravatura não significou o fim do objectivo económico, isto é, do objectivo de dispor de pessoas que trabalham a troco da sobrevivência.

Notemos agora que o conceito de escravo reside apenas numa única coisa: escravo é a pessoa que trabalha a troco da sobrevivência, ou seja, pelo custo da energia que precisa de gastar para sobreviver.

A privação de direitos ou imposição de força foram apenas algumas das técnicas para obter trabalhadores pelo custo mínimo no passado. Mesmo no tempo da escravatura dos negros de África, alguns dos escravos eram voluntários – sem controlo de natalidade, era a fome que limitava a população e alguns ofereciam-se para escravos para sobreviverem mais uns anitos. 
O fim da «escravatura» apenas marca o fim do uso legal da força bruta sobre o indivíduo para obter esse desiderato. Outras técnicas foram desde então encontradas para conseguir o mesmo objectivo. A mais directa substituição da forma anterior de escravatura consistiu no sistema de cantina, em que os trabalhadores eram pagos em vales ou equivalente que eram descontados numa cantina do empregador; desta forma as pessoas ficavam a trabalhar a troco da sobrevivência, que os vales para mais não davam. Esta foi a forma usada no Brasil na era da Borracha, magistralmente retratada em A Selva de Ferreira de Castro.

Mas há outras formas; por exemplo, ainda há pouco mais de meio século, senhoras em Portugal iam à província buscar raparigas novas para trabalharem como suas empregadas domésticas a troco de alimentação e dormida. Isto mostra que as pessoas podem aceitar de boa vontade a condição de escravo desde que antes sejam colocadas numa situação em que a sobrevivência esteja em risco.

Conseguir escravos voluntários é o sonho de qualquer gestor de pessoal. E isso foi conseguido no começo da era industrial mantendo os cidadãos do país em situação de miséria - os escravos negros foram de novo substituídos pelo "povo" enquanto as elites concentravam a riqueza.

A economia dos países mais industrializados, porém, exigia que cada cidadão fosse um consumidor de bens, dos bens produzidos pelas fábricas; ora isso implicava que os trabalhadores teriam de ganhar mais que o indispensável à sua sobrevivência para poderem comprar esses bens. A escravização da própria população impedia isso, era preciso transformar os cidadãos em consumidores. Passaram então as fábricas a pagar mais, acabando com a condição de escravo? Claro que não, o problema consistia em encontrar novos escravos, não em prescindir deles. A solução então encontrada para obter novos escravos foi a utilização de imigrantes.

Nos países não industrializados os cidadãos lutavam diariamente pela sobrevivência. Há menos de um século, em Portugal, ainda uma sardinha era um jantar para uma família e ainda muitos sobreviviam com sopa de erva. Muitos portugueses tiveram então a oportunidade de emigrar para os países industrializados, que lhes asseguravam a sobrevivência a troco do seu trabalho.

A melhor compreensão das leis da economia foi tornando claro que o crescimento económico seria tanto maior quanto mais iguais fossem as oportunidades dos cidadãos, quanto menor fosse a desigualdade; a desigualdade passou a ser um factor controlado pelos governos, dada a sua importância no crescimento económico e na paz social.

Portugal e a Dinamarca são dois exemplos em extremos opostos de como desigualdade e riqueza têm uma relação inversa.

Porém, as medidas de controlo da desigualdade, como o ordenado mínimo, aplicam-se a toda a população, incluindo imigrantes; então também os imigrantes passaram a ganhar mais do que o indispensável à sua sobrevivência, ou seja, deixaram de ter a condição de «escravos» (deixando assim de ter um papel útil, pelo que passaram a ser indesejados e perseguidos).

O problema de obter trabalhadores pelo preço mínimo coloca-se de novo. No próximo post vamos ver as soluções encontradas para substituir os imigrantes no papel de escravos e vamos descobrir que fazemos parte de uma delas.

segunda-feira, agosto 29, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (2)



As condições do trabalho resultam, directa ou indirectamente, do Jogo da Economia. Exclusivamente.

Qualquer actividade industrial tem objectivos em diferentes frentes; a que nos interessa aqui é a minimização do custo de produção.

Pensemos numa fábrica de automóveis, algo que é razoavelmente conhecido da generalidade das pessoas. Há muitos aspectos a considerar na minimização dos custos e todos eles têm merecido a melhor atenção. Por exemplo, há toda uma complexa teoria sobre o fornecimento de componentes, que passa por tornar os fornecedores parceiros do processo de produção.

A produção faz-se com máquinas e pessoas; logo, maximizar a relação trabalho/custo das pessoas é outra das preocupações críticas, aquela que nos interessa agora.

A produção de um trabalhador tem um máximo, que depende das características humanas, das circunstâncias, do tipo de trabalho. Por exemplo, com o aumento das horas de trabalho aumenta a taxa de erros e os erros têm um custo; logo, o nº de horas de trabalho não pode ser qualquer, há um valor óptimo. Por outro lado, o metabolismo do ser humano é variável; utilizar o metabolismo no máximo diminui a vida útil do trabalhador; há assim um ponto óptimo para o metabolismo exigido e a vida útil desejada do trabalhador. No tempo da escravatura negra, a esperança média de vida do escravo era da ordem dos 7 anos; hoje, há actividades em que a vida útil média é de apenas 2 anos, ao fim dos quais as pessoas sofrem de problemas incapacitantes vários, como esgotamento, burnout e tendinites, consoante a actividade.

Um exemplo de como quaisquer considerações não económicas são irrelevantes é o seguinte:

A segurança nas empreitadas tem um custo; os acidentes de trabalho também têm um custo; então faz-se uma «análise de risco» que consiste em encontrar o valor a gastar nas medidas de segurança de tal maneira que o custo final das medidas de segurança e dos prejuízos dos acidentes seja mínimo. Ou seja, quando se começa uma grande obra de construção civil já se sabe que vão morrer N pessoas nessa obra porque isso é o que optimiza o investimento a fazer em segurança – podiam morrer menos, mas isso não seria economicamente vantajoso. Mesmo a decisão de fazer ou não determinadas obras se baseia no mesmo tipo de análise – por exemplo, passagens elevadas para peões. Notem que isto não é assim em todas as sociedades, mas é na nossa.

Optimizar o custo do trabalho é pois encontrar o ponto óptimo da relação produção/custo, independentemente de quaisquer outras considerações, nomeadamente as de natureza moral. Quem gere actividades que visam o lucro considera exclusivamente os aspectos económicos.

Quando uma fábrica consome a capacidade produtiva de uma pessoa e a larga, incapacitada, na sociedade, essa pessoa vai ter um custo para a sociedade que tem de ser reflectido nas contas da empresa, por exemplo com a TSU e impostos, multas por acidentes de trabalho, etc.

Assim, uma grande estrutura de produção, como uma fábrica de automóveis, considera estes factores todos na sua optimização da mão-de-obra. Ela não entra em conta com coisas como a felicidade ou a dignidade das pessoas a não ser na medida em que isso se pode reflectir economicamente. Por isso, as pessoas devem saber como fazer reflectir economicamente as coisas que verdadeiramente lhe interessam. Tentar conseguir isso por via dos «direitos» tem-se revelado ineficiente, estes nunca são estabelecidos ou mantidos se não tiverem uma vantagem económica. Como já disse, os Jogos que estão em cima da mesa são o Jogo da Economia e o Jogo do Poder; princípios, moral, felicidade, dignidade, etc, não fazem parte destes Jogos. Não estou a dizer que não existam, estou a dizer que para os aplicar é preciso ser capaz de os traduzir em consequências económicas. Quem são for capaz de fazer isso está condenado a não ter felicidade nem dignidade. Está condenado a ser escravo.

No próximo post vamos ver o que é ser escravo.

 (Note-se que me estou a referir ao nosso tipo de sociedade capitalista; nem todas as sociedades actuais se reduzem à economia desta maneira e podem existir outros modelos de sociedade a ser inventados ou aplicados. Mas a nossa realidade presente é esta.)

sábado, agosto 27, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (1)



Nota prévia

Antes de apresentar este maquiavélico plano, importa frisar que os «maus» não são os franceses ou os alemães, somos nós. Um país que tem uma taxa de abandono escolar da ordem dos 40% não é um país, é um saco de gatos; e isso é tanto mais evidente pelo facto de não levantar uma onda de indignação; mesmo a questão da desigualdade, em também somos campeões, só surge nos media por acção de alguns padres e outras pessoas que se preocupam com os casos de pobreza extrema – mas é só esta que comove as pessoas, o desigualdade em si não.

Isto reflecte uma cultura errada; em todos os países bem sucedidos, a prioridade das pessoas alinha-se assim:

1º - País
2º - Região
3º - Família
4º - Indivíduo

Ora em Portugal domina a ordem inversa; pode haver algumas alterações mas uma coisa é certa: o País vem sempre, ou quase, no fim desta escala.

A culpa não é só das pessoas, é dos governantes que nunca souberam mostrar a importância da ordem acima indicada; mas também é das pessoas porque uma das razões porque reagem tanto aos governantes é para poderem continuar a seguir a ordem inversa – grande parte da reacção ao governo de Sócrates foi movida por pessoas na defesa dos seus «esquemas» e em total desrespeito pelos interesses colectivos.

Denegrir os governantes tem sido a estratégia colectiva para justificar colocar os interesses do País, por eles representados, no fim da escala de prioridades; e o resultado disso tem sido afastar da governação as pessoas que pugnariam pelos interesses do País, embora um ou outro teimoso insista em tentar fazer alguma coisa pelo país no governo.

Quando, num organismo vivo, algumas células deixam de agir em função do interesse do organismo e passam a agir em função do seu interesse imediato, surge um cancro; o resultado é que todas as células do organismo morrem. De certa forma, nós temos um comportamento do tipo canceroso, um comportamento que não hesita em prejudicar o colectivo para benefício do individual.

Um país com 40% de abandono escolar é inviável no mundo moderno, quer pelas suas consequências directas quer pelo que isso significa em relação ao funcionamento desse país. Portugal é um país inviável. Os alemães e franceses vão fazer dos portugueses escravos e essa acaba por ser a esperança de sobrevivência para os portugueses que não emigrem.

Portanto, no que se segue, não adianta pensar que erguer a voz contra alemães e franceses vai servir de alguma coisa; a única coisa que serve é pormos o País em primeira prioridade. E não é dizer isso da boca para fora, é meter isso na cabeça de uma vez por todas. Ao dizer isto não estou a dar novidade nenhuma aos leitores deste blogue, mas estou a dar um exemplo: há que afirmar isto com clareza e em todo o lado, e há que tomar iniciativas, como o fizeram os promotores do movimento «560». Para que quem não coloca o País em primeiro lugar não possa alegar ignorância das consequências.

sexta-feira, agosto 26, 2011

Deixar o adversário decidir as nossas jogadas??



Nos jogos muito simples, como a bisca, lambida ou não, ou mesmo a sueca, até mesmo o King, pode acontecer que um jogador principiante ganhe um joguito; isso é tão raro que até tem um nome: sorte de principiante! Um acontecimento contra as probabilidades.

E contra as probabilidades porquê?

Porque em qualquer jogo, mesmo nos mais elementares, a vitória sorri com mais probabilidade ao jogador que tem a estratégia mais apurada, conhece melhor as diferentes situações do jogo, tem a melhor solução para cada situação.

Muitas vezes o mau jogador não reconhece a sua ignorância e então queixa-se da falta de sorte ou acusa os outros de fazerem batota.

O futebol é um exemplo disso, as equipas que perdem acusam o árbitro; e os seus adeptos fazem coro com as acusações, o facto de a sua equipa jogar pior do que a equipa que ganha é tornado irrelevante. Isso não quer dizer que não possam existir alguns «esquemas» no futebol; um exemplo recente foi o caso do «túnel da luz».

A Economia obedece a um conjunto de regras; é um Jogo, que se joga a diferentes níveis: entre pessoas, entre empresas e entre países. Com estratégias, tácticas e «esquemas».

Neste país há uma quase total ignorância de como se joga este jogo.

Nos anos 50, um engenheiro inglês de poucas palavras colocado nas Minas da Panasqueira teve um dia forte desabafo, testemunhado por uma pessoa da minha família: “ os portugueses discutem mais futebol do que política!!!” O homem não cabia em si de espanto. O resultado está à vista: somos muito bons em futebol!

Já imaginaram o país que poderíamos ser se discutíssemos política e economia como discutimos futebol?

Um conhecido francês, que já não me lembro quem foi, disse: “uma porteira em França sabe mais de economia do que as elites portuguesas”. Exagero, pensarão vocês.

Mas parece que alguma razão terá, a nossa situação actual é o resultado do nosso mau jogo. E então que estamos a fazer para melhorar o nosso jogo? Estamos a deixar que os nossos adversários neste jogo decidam por nós!!!!!

Os resultados estão bem à vista na Grécia, um país que tem um PIB que é 1,7 vezes o nosso (não se iludam, o caso da Grécia não é pior que o nosso, é muito melhor, quer porque tem uma economia mais forte quer porque tem uma população mais esclarecida). Claro que a Grécia está cada vez pior, é isso que convém aos jogadores em cujas mãos se entregou. E, seguindo o mesmo caminho da Grécia, muito pior ficaremos.

A Merkel já informou o Passos Coelho que a EDP é para os alemães e já disse que o direito de voto dos grandes accionistas deixa de ter o limite de 5% e passa para 20%. Os brasileiros e angolanos escusam de estar com ideias, esta e os outras privatizações já têm vencedores definidos. E será que é para defender os interesses de Portugal que a Merkel decidiu que a EDP deixa de ser controlada pelos portugueses e passa para as germânicas mãos?

(bem, cabe também perguntar se a EDP tem andado a defender os interesses de Portugal ou apenas a aproveitar-se do seu monopólio... mas essa é outra questão)

Se isto é um Jogo entre países, não são os jogadores dos outros países que nos vão ajudar a ganhá-lo, não é evidente?

Os órgãos da UE deviam ser independentes deste Jogo; mas acontece que neste jogo, como no futebol, há «esquemas».
No futebol os clubes procuram, e já algumas vezes conseguiram, colocar as suas «peças» nos órgãos decisores emparelhados com pessoas incapazes de as contrariar e que se destinam a dar uma imagem de «isenção» do órgão.
Na UE, a França e a Alemanha colocaram em órgãos decisores críticos as suas «peças», emparelhados com pessoas incapazes de as contrariar, nomeadamente o Durão Barroso e o Constâncio. Grande jogada!!!
Este mesmo esquema, agora mais descarado, está a ser seguido em relação à Grécia e Portugal, com governos avalizados pelo voto mas ao serviço dos germânicos interesses. Em Itália, vão ter de fazer cair o Berlusconi para o conseguirem. Por certo arranjarão maneira, uma acusação de violação é muito fácil de conseguir em certos países onde as mulheres podem fazer essa queixa impunemente, é só o Berlusconi se descuidar e cair na asneira de ir à Suécia ou aos EUA.

O Mundo, a Vida, a Política, a Economia, está tudo organizado como um Jogo e esta seria, apesar de tudo, a melhor forma de organizarmos as coisas se não fossem os «esquemas».

Metamos isto na cabeça: estamos num Jogo; a Europa não é uma cooperação, é um Jogo; e um jogo onde todos os jogadores recorrem a «esquemas». Há uma razão, penso eu, para não poder ser uma cooperação, que apresentarei no próximo post.

Este Jogo não vai ser fácil, não temos físico para estes adversários, mas todos os problemas têm solução; e desde quando os alemães são melhores do que nós em «esquemas»?

Este Jogo é jogado também por cada um de nós, é por isso que os franceses cuidaram de que até as suas porteiras saibam o que têm a fazer. Vou expor o que elas sabem mas só depois de apresentar, no próximo post, o maquiavélico esquema Franco-Alemão para Portugal.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Parem de mimar os super-ricos



Como digo no post anterior, o Jogo da Economia terminaria num estoiro; isso só não acontece em duas situações:

-         ou porque existe algo (supostamente o Estado) que controla o crescimento da desigualdade e a mantém a oscilar em torno do valor ótimo;
-         ou porque entra em acção o Jogo do Poder e acaba com o Jogo da Economia, estabelecendo uma sociedade de Senhores e Escravos, uma sociedade estagnada neste formato.

Mostra-nos a História que, cedo ou tarde, o segundo cenário se impõe, originando um período negro na história da humanidade que pode durar séculos.

Não presumamos que os conceitos de igualdade, liberdade, fraternidade são conquistas da sociedade moderna, estabelecidos de uma vez por todas; nada disso, são conceitos antiquíssimos, dos primórdios da humanidade, repetidas vezes assumidos por brilhantes civilizações que depois sucumbiram; conceitos que foram redescobertos uma e outra vez após longos períodos de escravidão e negritude. Até a escrita já foi perdida, na Grécia e na Índia, entre o 2º e o 1º milénios A.C., tendo tido de ser reinventada.

É por isso que os grandes jogadores do Jogo da Economia, que não estão interessados no Jogo do Poder, se sentem assustados com a actual situação; eles sabem que se não forem tomadas medidas vigorosas de controlo da desigualdade, a economia vai começar a colapsar e os jogadores do Jogo do Poder vão assumir o controlo. Eles, os do Jogo do Poder, estão à espreita, esfregam já as mãos de satisfação, falam já com voz grossa, mesmo que em corpo de mulher.

É por isso que o Warren E. Buffet, a terceira pessoa mais rica do mundo, desceu à arena e publicou um artigo de opinião a pedir para aumentarem os impostos sobre os mais ricos.