quinta-feira, julho 28, 2011
Carta aberta ao Francisco Louçã
Este humilde cidadão que de finanças nada percebe, preguiçoso demais para estudar o assunto mas ansioso por compreender as leis fundamentais do nosso sistema económico, debate-se com uma série de questões para as quais não encontra resposta e vem solicitar-lhe ajuda, a si, porque é economista, político, livre-pensador e, tanto quanto presumo, patriota (mesmo sem andar a cantar o hino) e atento ao cidadão.
O meu raciocínio é o seguinte:
Tanto quanto julgo perceber, numa economia existe uma certa quantidade de dinheiro real (que vou designar por moeda) e uma certa quantidade de dinheiro em forma de crédito. Esta situação surge porque as economias crescem, necessitando de mais massa monetária. O crédito vai crescendo mas se o rácio moeda/crédito descer demais pode trazer problemas; então, os estados dos países financeiramente autónomos produzem moeda que introduzem na economia pagando com ele as suas contas; desta forma, os créditos são amortizados e o rácio mantém-se em níveis de segurança.
Se um governo produzir moeda a mais, esta desvaloriza em relação a outras, aumentando a competitividade da sua economia, e aumentando a inflação, entre outras consequências; a não produção de moeda, valoriza a moeda e diminui a competitividade, asfixia o crédito às empresas e pessoas e faz aumentar das taxas de juro.
Isto será a situação dos EUA, ou do Brasil, ou da China.
Agora vejamos o caso europeu.
Os países europeus não são autónomos financeiramente, não produzem moeda; quem produz é Banco Central Europeu, por decisão própria, segundo julgo.
Aqui surge-me a primeira questão: se é assim, a produção de moeda deixa de estar ao serviço da economia mas serve as conveniências do BCE; quais são estas? Valorização do euro e aumento das taxas de juro, naturalmente; logo, o BCE vai produzir menos moeda do que a que corresponderia ao crescimento da economia.
E como é que a moeda produzida pelo BCE é introduzida na economia? Resposta: não é! Tanto quanto percebo, ela é emprestada aos bancos; entra na economia mas com ela entra também uma dívida, logo o rácio moeda/crédito não se altera! Esta é uma diferença fundamental em relação aos países com autonomia económica.
Aqui tenho outra dúvida; um Estado pode produzir moeda porque o Estado é de todos os cidadãos, é a sociedade que produz a moeda, mas no caso europeu, quem produz é o BCE, e o BCE não me parece representar a sociedade europeia nem a moeda produzida serve para alterar o rácio moeda/crédito; quem enriquece com a moeda produzida na Europa?
Olhemos agora para as balanças comerciais dos países europeus; o que salta à vista é que a França e a Alemanha têm um alto saldo comercial nas suas relações com os PIGS e os PIGS um alto deficit.
Então, a França e a Alemanha não têm falta de moeda, ela entra através das suas exportações para os PIGS; têm, pois, um mecanismo alternativo de obter a moeda necessária aos seus rácios, à sua economia. O alto valor do euro reduz-lhes a competitividade para fora da Europa mas traz-lhes uma grande vantagem: reduz o custo da importação de petróleo, com preços em dólares. Estes países têm um alto saldo comercial à custa dos PIGS, exportam pouco para fora da Europa (relativamente) e beneficiam do euro alto para reduzir a factura energética.
Os PIGS, ao contrário, fruto do deficit da sua balança comercial, vêm a sua quantidade de moeda diminuir, logo os rácios moeda/crédito a degradar-se. As «ajudas» do BCE são empréstimos, trazem dívida associada, não contribuem para subir os rácios. Note-se que mesmo que as suas balanças comerciais fossem equilibrados, os rácios degradar-se-iam devido ao crescimento da economia, logo, crescimento do crédito. Ou seja, o sistema tal como o entendo, favorece descaradamente os países mais fortes à custa dos mais fracos.
Ao ficarem com rácios baixos, estes países entram em vulnerabilidade; basta agora ao BCE exigir o aumento dos rácios, o que não pode ser feito internamente porque não há moeda, logo só pode ser conseguido vendendo os bancos e as empresas ao estrangeiro.
Desta forma, contarão franceses e alemães comprar os bancos e as empresas dos PIGS. No fundo, vão comprar estes países, acabando com os respectivos Estados, pois um Estado que já não tem nenhuma ferramenta de controlo da economia não tem poder, não existe; nem terá receitas pois será um Estado de um País que se reduziu a fornecedor de mão-de-obra barata aos empresários europeus, cujas empresas têm sede e lucros na França e na Alemanha, portanto um estado de pobres e os pobres não pagam impostos.
Estas considerações parecem estar de acordo com esta notícia do jornal de negócios, onde um responsável alemão defende que os países que pedem ajuda devem perder soberania e com mais esta do mesmo jornal, em que se mostra como a banca nacional vai perder dinheiro, vai ser vendida ao estrangeiro, e como o Banco de Portugal, agente local do Banco Central Europeu, tomou conta do Ministério das Finanças e da Caixa Geral de Depósitos.
Claro que isto só podem ser raciocínios de ignorante; infelizmente gastamos mais tempo a discutir futebol do que política económica, mas alguém tem de começar a fazer luz nas nossas cabeças, pelo que lhe deixo aqui, amigo Louçã, este desafio: explique-nos como funcionam estas coisas, mostre-nos que este esquema suicidário que expus é disparate de ignorante, acenda-nos a luz por favor.
quinta-feira, julho 21, 2011
Na Europa não há Paraíso
Como sabem, existem pessoas, dessas que ganham 500 euros por mês e menos, que acham que também têm direito a ter automóvel, ou net, por exemplo. Alguns até têm mesmo aquecedores para usar no inverno! E vão de férias imaginem! Para parques de campismo, é certo, mas vão «descansar» quando podiam estar a trabalhar para ganhar mais algum. Depois, é bom de ver, têm dívidas no cartão de crédito, sobre as quais pagam uns 30% de juros é claro, e estão com a corda na garganta, pois então!
O que é que essas pessoas podem fazer para melhorar a sua vida? Ora, toda a gente sabe. Carro? São loucos, acabem com ele. Andem de transportes públicos; e a net não é para quem não tem dinheiro. Arranjem um segundo emprego, há falta de pessoas para lavar escadas nos prédios.
Não queiram é ir ao nosso dinheirinho para resolver os seus problemas. Subsídios de reinserção? Insolvência? Credo, isso poria em causa os nossos depósitos a prazo e taxas de juro. Trabalhem mas é! Calões. Gordos.
O que não saberão é que isto é exactamente o que os europeus pensam de nós.
Crise na Europa? Onde?? A Alemanha e a França estão na maior. Crise é só para os pobretanas dos gregos, portugueses e irlandeses. Têm a mania das grandezas. Não produzem carros mas querem todos andar de cuzinho tremido. Saúde de qualidade e sem pagar? Ensino de qualidade gratuito? À custa dos contribuintes europeus, é claro, que estão fartos de para lá mandar dinheiro.
Portugueses gregos e irlandeses são o quê? Menos de 10% dos europeus? Um nada. Alguém aqui quer saber dos 10% de portugueses mais pobres? Que passa fome e sobrevive em condições verdadeiramente miseráveis e inaceitáveis nesta era de abundância?
Não, não queremos saber disso para nada, só queremos é que não nos vão aos bolsos para resolver os problemas deles. Se têm esses problemas, a culpa é deles.
Isto é exactamente o que os europeus pensam de nós, os pobres da europa. E não podemos reclamar, pois nós ainda somos piores em relação aos nossos pobres.
Uma humanidade estúpida e egoísta não pode construir um paraíso na Terra.
sábado, julho 16, 2011
Os malandros da Moody's!!!
Os malandros da Moody’s voltaram a fazer das suas! A nossa banca no lixo! Que patifes.
Espera lá... os rácios bancários estão entre 5% e 7%?? Eu sempre ouvi dizer que deviam ser acima de 9%... que se passa?
Hummm.. não percebo nada disto... deixa ver... qual é a quantidade de moeda que deve existir? Se a economia cresce, é preciso mais moeda, é evidente... deve ser proporcional à economia... como avaliar?.. talvez pelo crédito... isso, toda a actividade económica se baseia no crédito... então, a emissão da moeda deve acompanhar o aumento do crédito.
Pois, é isso que os EUA estarão a fazer... têm fabricado muitas centenas de milhares de milhões de dólares que injectam directamente na economia, o Estado paga as suas contas com eles; este dinheiro vai parar à banca, mantendo os rácios entre crédito e dinheiro.
E na Europa?
Portugal não produz moeda... o BCE é que produz, mas não injecta na economia, empresta à banca... ahh, mas assim, na banca entra dinheiro mas entra também a dívida, não melhora o rácio... Pois, já estou a ver, neste quadro não há forma de a banca nacional manter os rácios... por isso ouvi dizer que a europa baixou os rácios... mas, é claro, a Moody’s é que não pode estar a embarcar nestas perigosas derivas europeias...
... com este esquema, o crescimento interno da economia portuguesa não é acompanhado com o crescimento da moeda, uma vez que esta é emprestada, não é produzida como nos EUA... a única coisa que pode crescer é o crédito, logo os rácios dos bancos só podem diminuir... mas que tolice de esquema!!! É lá possível? O que é que eu não estou a perceber nisto????
Bem, mas há ainda outra questão: o que é que se alterou para a Moody’s vir agora com esta classificação?
Mas espera lá... grande parte do crédito bancário é para compra de habitação... já começa a haver grandes taxas de incumprimento... as pessoas com maiores dificuldades serão as que ganham menos de 1200 euros... com o corte no subsídio de Natal o incumprimento vai aumentar e os depósitos também vão diminuir porque as pessoas vão ter menos dinheiro.
Então está certo... o Governo retira dinheiro da nossa economia, ao contrário do que faz o governo americano, logo os bancos vão ficar em dificuldades... com rácios tão baixos... e que vão diminuir, não há alternativa... são lixo é claro! As coisas são como são... claro, um Estado que aliena tudo o que lhe dá capacidade de intervenção na economia, um Estado que não produz moeda, é um Estado inexistente. Estão fartos de nos dizer que se o Estado é lixo, tudo o resto o é também, nós é que não queremos ouvir.
Portanto, o Governo decreta privatizações suicidárias, e a Moody’s classifica o Estado como «lixo»; o Governo retira dinheiro da economia e a Moody’s prevê um futuro negro para a banca...
E a Moody’s é que está errada???
terça-feira, julho 12, 2011
A Rainha Sol prepara o parto
Neste post velhinho os dois astrónomos falam dos sinais que eles só tarde demais tinham compreendido, tarde demais para evitar as consequências do Evento; pois aqui está a primeira detecção desses sinais pela NASA (video acima).
Os cientistas da NASA não sabem o que são as manchas negras no fogo de artíficio mas eu digo-vos: é o pó, o barro, de que somos feitos. A Raínha Sol prepara o parto. Felizmente, ainda não é tarde demais.
quinta-feira, julho 07, 2011
A Islândia e o Tabaco
Segundo acabei de ver nos noticiários, a Islândia pondera passar a vender tabaco apenas nas farmácias e com receita médica, sendo proibido fumar em toda a parte menos na casa de banho de lá de casa e com a porta fechada.
À primeira vista parece-nos um fundamentalismo absurdo. Nem estranhamos muito, afinal, este é um mundo que parece destinado a ser quase sempre comandado por loucos.
Eu tenho por hábito procurar sempre a razão económica por detrás de tudo o que acontece - este é um mundo de interesses.
A Islândia não produz tabaco; logo, todo o tabaco que consuma tem de ser importado. Para importar é preciso dinheiro e, como se sabe, o dinheiro está muito caro para os países pequeninos. Entre tanta coisa que os Islandeses têm mesmo de importar, certamente que numa altura de crise não há espaço para importar tabaco.
Por cá, continua-se a falar de aumentar as exportações. Porreiro. Isso é fácil de dizer, não depende de nós, não é? Toda a gente sabe que as exportações não podem aumentar - aumentar com empresas a pagar o dinheiro caríssimo, a energia caríssima, num país burocrático, impostos que desincentivam o investimento, falta de formação das pessoas e falta de cultura empresarial, uma justiça que não existe? As nossas empresas vão é bazar daqui, vão para Angola, vão para o Brasil, vão para a China - fazem como as pessoas, emigram.
O que nós podemos fazer é diminuir as importações e comprar produto nacional. Se comprarmos nacional já as empresas não precisarão de emigrar. Essa é a nossa responsabilidade. Claro que o Governo devia fazer como todos os outros governos, nomeadamente o Islandês, não nos dar alternativa. Mas não. O Governo prefere cortar o subsídio de Natal e vender as empresas publicas que ninguém vende em país nenhum da Europa.
Estamos como os drogados, que tudo vendem mas não deixam de consumir droga. E vamos acabar como eles. No lixo.
À primeira vista parece-nos um fundamentalismo absurdo. Nem estranhamos muito, afinal, este é um mundo que parece destinado a ser quase sempre comandado por loucos.
Eu tenho por hábito procurar sempre a razão económica por detrás de tudo o que acontece - este é um mundo de interesses.
A Islândia não produz tabaco; logo, todo o tabaco que consuma tem de ser importado. Para importar é preciso dinheiro e, como se sabe, o dinheiro está muito caro para os países pequeninos. Entre tanta coisa que os Islandeses têm mesmo de importar, certamente que numa altura de crise não há espaço para importar tabaco.
Por cá, continua-se a falar de aumentar as exportações. Porreiro. Isso é fácil de dizer, não depende de nós, não é? Toda a gente sabe que as exportações não podem aumentar - aumentar com empresas a pagar o dinheiro caríssimo, a energia caríssima, num país burocrático, impostos que desincentivam o investimento, falta de formação das pessoas e falta de cultura empresarial, uma justiça que não existe? As nossas empresas vão é bazar daqui, vão para Angola, vão para o Brasil, vão para a China - fazem como as pessoas, emigram.
O que nós podemos fazer é diminuir as importações e comprar produto nacional. Se comprarmos nacional já as empresas não precisarão de emigrar. Essa é a nossa responsabilidade. Claro que o Governo devia fazer como todos os outros governos, nomeadamente o Islandês, não nos dar alternativa. Mas não. O Governo prefere cortar o subsídio de Natal e vender as empresas publicas que ninguém vende em país nenhum da Europa.
Estamos como os drogados, que tudo vendem mas não deixam de consumir droga. E vamos acabar como eles. No lixo.
quarta-feira, julho 06, 2011
Golden share, privatizações e... rating!
O Governo anunciou que acabava com as golden shares e que ia privatizar todas as suas empresas-chave - até vai vender 51% da REN! Ou seja, o governo anunciou que vai prescindir de todos os mecanismos que lhe garantem capacidade de intervenção na economia. Ou seja, o Governo anunciou que vai deixar de existir na economia. Qual é o rating de um Estado destes? Lixo, naturalmente, que mais pode ser????
quando eu era pequenino, o meu Pai citava um provérbio chinês:
As coisas são como são; se tu entendes as coisas, as coisas são como são; se tu não entendes as coisas, as coisas são como são.
Quando as coisas correm mal e as pessoas não entendem porquê, a reacção é: procurar o culpado!
Podem estar certos: quando alguém aponta o dedo a um «culpado», o culpado é quem aponta o dedo...
Estamos a ser vítimas dos nossos erros e enquanto arranjarmos «culpados» só vamos ficar piores.
As coisas são como são, não obedecem às bonitas teorias dos académicos.
quando eu era pequenino, o meu Pai citava um provérbio chinês:
As coisas são como são; se tu entendes as coisas, as coisas são como são; se tu não entendes as coisas, as coisas são como são.
Quando as coisas correm mal e as pessoas não entendem porquê, a reacção é: procurar o culpado!
Podem estar certos: quando alguém aponta o dedo a um «culpado», o culpado é quem aponta o dedo...
Estamos a ser vítimas dos nossos erros e enquanto arranjarmos «culpados» só vamos ficar piores.
As coisas são como são, não obedecem às bonitas teorias dos académicos.
quinta-feira, junho 23, 2011
João Ferreira do Amaral
Acabo de assistir ao programa da SIC Notícias "Negócios da Semana", onde o José Gomes Ferreira entrevistou João Ferreira do Amaral.
Pela primeira vez, em duas décadas, vejo alguém a defender as mesmas ideias que tenho defendido, num orgão da comunicação social.
Não se pense que somos os únicos; simplesmente, neste mundo de verdades simplórias, o pensamento subtil é imediatamente rejeitado pelo "mainstream".
Se apanharem a repetição do programa, ou o video, não percam. Para se perceber o que está a acontecer e o que vai acontecer.
Eu estava a preparar uma série de posts para analisar a solução do sarilho em que estamos, mas estava confrontado com uma dificuldade: como apresentar uma solução para um problema que as pessoas não vêem?
É como o problema do Galileu: como explicar a rotação da Terra se ninguém acredita nela?
Bem, o João Ferreira do Amaral expõs o problema; e até disse, como eu, que os culpados desta situação não são os políticos, são os economistas.
...os economistas " mainstream" acrescentaria eu, mais os comentadores de TV... Mas isso não interessa nada agora, o que interessa é começarmos a sair do buraco em vez de continuarmos a cavar.
Se alguém encontrar o video dessa entrevista, agradeço que me diga, para pôr aqui o link
Pela primeira vez, em duas décadas, vejo alguém a defender as mesmas ideias que tenho defendido, num orgão da comunicação social.
Não se pense que somos os únicos; simplesmente, neste mundo de verdades simplórias, o pensamento subtil é imediatamente rejeitado pelo "mainstream".
Se apanharem a repetição do programa, ou o video, não percam. Para se perceber o que está a acontecer e o que vai acontecer.
Eu estava a preparar uma série de posts para analisar a solução do sarilho em que estamos, mas estava confrontado com uma dificuldade: como apresentar uma solução para um problema que as pessoas não vêem?
É como o problema do Galileu: como explicar a rotação da Terra se ninguém acredita nela?
Bem, o João Ferreira do Amaral expõs o problema; e até disse, como eu, que os culpados desta situação não são os políticos, são os economistas.
...os economistas " mainstream" acrescentaria eu, mais os comentadores de TV... Mas isso não interessa nada agora, o que interessa é começarmos a sair do buraco em vez de continuarmos a cavar.
Se alguém encontrar o video dessa entrevista, agradeço que me diga, para pôr aqui o link
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Prever Futuro,
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quarta-feira, junho 22, 2011
Uma questão a que não sei responder
Pessoa das minhas relações que me merece a máxima consideração colocou-me a seguinte questão:
Se o Paulo Macedo exigiu, para ir para as Finanças, receber o mesmo que recebia no BCP, o que terá ele exigido agora para ir para Ministro da Saúde?
Compreende-se a pergunta; agora que ele tem um alto lugar na área da saúde no banco, onde ganhará muito mais do que ganhava no tempo em que foi para as Finanças, certamente que, em coerência com o que aconteceu anteriormente, não se disponibilizou a ir para ministro perdendo volumosas verbas; nem lhe fica mal sabermos que exigiu continuar a receber o mesmo pois ninguém faz nada em seu prejuízo, quem se disponibiliza para perder dinheiro no imediato é porque está a prever vantagens futuras.
Essas vantagens até podem ser legítimas, por exemplo, um acréscimo de prestígio que aumente a sua cotação profissional.
Não parece, porém, que aqui possa ser o caso, pois parece que não lhe falta prestígio, por um lado, e por outro os lugares de ministro frequentemente só geram quebra de prestígio.
Portanto, fiquei sem saber que resposta dar. Não me surpreende que a questão seja difícil, a pessoa que ma colocou não o faria se a resposta foi fácil. Continuei por isso a raciocinar:
O desgaste dum ministro do PSD é muito menor que um do PS porque o PSD domina a quase totalidade da comunicação social e especialmente domina agora a totalidade da televisão (e certamente que ninguém vai deixar a MMG chegar-se aos microfones...); mesmo assim a busca de prestígio não parece uma razão suficiente para justificar tão brutal perda de rendimento entre um lugar de topo no BCP e o ordenado de ministro.
Então lembrei-me duma coisa: quais são os grandes negócios da banca, agora que a bolsa já não rende? São os empréstimos ao consumo / cartões de crédito, a especulação sobre as dívidas soberanas e a saúde! Ou seja, Usura e Saúde, as grandes áreas da banca actual.
Então, um alto responsável pelo negócio da Saúde do BCP, um dos dois pilares da actividade bancária actual, que permite pagar juros nos depósitos a prazo muito acima dos 2 ou 3% que a economia europeia pode crescer, vai para ministro da Saúde...
Surge uma lógica para esta escolha: não podia haver ninguém mais empenhado em reduzir o SNS à expressão mínima... e uma razão para o Paulo Macedo aceitar: a sua comparticipação nos lucros do ramo Saúde pode subir em flecha.
Há porém, um óbice: isto é tão reles e primário que não pode ser verdade, há razões mais profundas, subtis. Percebê-las ajudará a perceber o complexo esquema de funcionamento da nossa sociedade. Foi então que me lembrei de pedir ajuda aos leitores deste blogue!
quarta-feira, junho 15, 2011
Ainda a E. Coli
A história da E. Coli continua muito mal contada, como é evidente, porque nada se diz sobre a origem da bactéria – ela não surge nos rebentos de soja ou nas alfaces por geração espontânea, ela veio de algum lado; localizar onde ela foi gerada é que é o cerne da questão, mas sobre isso nada se diz. Como é evidente, uma bactéria que surge subitamente resistente a 8 antibióticos não é um produto “natural”, algo que possa ocorrer na natureza em condições normais.
Uma explicação que surge imediatamente é a de que foi gerada em laboratório. Essa é a tese aqui exposta.
Uma notícia que recebi há dias, porém parece-me reforçar uma outra explicação, que há muito previa isto; é a seguinte:
Todo o gado que se cria na Europa (e noutros lados), bem como os frangos, os patos, os porcos, recebem como parte integrante da sua dieta cocktails de antibióticos. Desde que nascem até ao abate. Não só para evitar doenças mas também porque promovem o crescimento dos animais.
Isto é um negócio tremendo para as farmacêuticas, que produzem mais antibióticos para os animais do que para as pessoas.
Ora natureza é Inteligente, já aqui falamos disso. A natureza sempre arranjou soluções para as ameaças, por isso é que a Vida ainda existe.
Para as bactérias, resolver uma ameaça como a posta pelos antibióticos é uma brincadeira de crianças.
Enquanto os antibióticos tinham uma aplicação esporádica, eventual e controlada, o número de oportunidades para as bactérias testarem soluções era baixo. Como vimos, o processo básico de Inteligência depende do número de acasos ou hipóteses testados. Pontualmente, poderia surgir uma bactéria resistente a um antibiótico, que poderia ser combatida por outro.
Isto é bem sabido, há muito que na medicina se procura as melhores práticas para limitar este problema, o que mesmo assim não impediu que diversas bactérias multirresistentes tenham já surgido. Uma bactéria que parece especialmente capaz de desenvolver resistência aos antibióticos é a S. aureus, causa primeira das infecções graves constraídas em hospitais.
É fácil por isso prever que o uso maciço de cocktails de antibióticos na criação animal terá de originar uma panóplia de bactérias multirresistentes. A curto prazo.
Quais as consequências?
Piores que as da peste negra. Porque se fosse apenas uma bactéria, o organismo humano poderia encontrar solução, ou a própria bactéria poderia perder a sua virulência; mas sendo a perspectiva a de aparecerem diferentes bactérias, se houver solução para uma, não haverá para outra.
A notícia que referi acima informa que:
A novel form of deadly drug-resistant bacteria that hides from a standard test has turned up in Europe.
O resto da notícia, da conceituada Science, podem encontrar aqui ou aqui (curiosamente, não me recordo de a comunicação social referir este importante acontecimento)
Mas não há perigo, dizem, – a pasteurização do leite acaba com o bicharoco... a não ser que a bactéria, uma S. aureus, seja transmitida por fora, pelas pessoas que trabalham com os animais...
Não sei porque razão, os cientistas sugerem que a batéria pode ter sido gerada numa pessoa tratada com muitos antibióticos e depois misteriosamente ter ido parar ao gado; ignorarão que o gado é criado com antibióticos?
Eu temo que isto venha a ficar fora de controlo; que a solução ainda venha a ser o abate de todo o gado. Mas há uma coisa que podemos começar já a fazer, que é não continuar a insistir no erro. Ou seja, a produção de animais tem de passar a ser feita sem antibióticos. Antibióticos só para seres humanos. No mínimo, tem de existir um leque suficientemente vasto de antibióticos que nunca seja utilizado no gado. Arranje-se outra solução para os animais.
Portugal tem um lugar privilegiado para a criação de gado nestas condições: os Açores. Pela abundância de pasto e pelo isolamento. As doenças podem ser transmitidas pelas rações, que são mais ou menos lixo reciclado, mas os Açores têm condições para produzir gado (e leite) sem rações e sem antibióticos. Não é o que fazem agora - agora recorrem a rações e enchem os animais de antibióticos como os outros, mas é o que podem fazer.
É claro que isto pode ser feito em qualquer parte, mas os Açores têm condições únicas para evitar contaminações e para garantir a qualidade do produto.
Utopia? Nada disso; o Brasil já limita severamente o uso de antibióticos na criação de animais desde 1998. Ver aqui um curto texto que expõe muito bem o problema.
Criação ecológica de animais já. Quanto mais não seja, este é um nicho de mercado que nos interessa porque, num mercado aberto, não há hipótese nenhuma de poder competir com gado criado noutras partes do mundo. A nós só interessa produzir produtos “de luxo”, de qualidade e preços máximos. Será que somos capazes de fazer o mesmo que o Brasil? Ou, como o responsável de uma importante fábrica alemã em Portugal afirmou com orgulho há uns anos: "nós aqui não pensamos, quem pensa são os alemães!"?
quarta-feira, junho 08, 2011
Porque há pobreza?
No passado, a pobreza e a miséria tinham uma simples explicação: falta de recursos.
Não havia controlo populacional e as capacidades de produção eram muito limitadas, por isso a população esteve sempre no limite sustentável durante muitos milénios; parte das pessoas que nasciam tinha de morrer, pela fome ou pela violência, pois a população não podia aumentar.
É por isso que havia tanta violência e é por isso que uns tinham de comer insectos, outros tripas; a sopinha de erva ainda era um recurso em Portugal há menos de um século.
A pobreza e a miséria continuam a existir hoje no mundo ocidental, em Portugal mais do que noutros lados, e as pessoas continuam a pensar que, tal como na geração dos seus avós e dos seus pais, ela se deve à carência de recursos.
Nada mais errado. É exactamente o oposto!!!
Salvo em algumas regiões de Ásia e África, a população está controlada e a capacidade de produção é muito maior do que as necessidades.
Os agricultores recebem para não produzir, não é verdade? Isso é necessário porque se produz em excesso; paga-se aos agricultores portugueses para não produzirem para que os franceses o possam fazer.
As fábricas de automóveis existentes – e não há dificuldade em fazer mais – podiam produzir muito mais carros – lembram-se de que quando começou a crise havia carros por vender aos milhões e as fábricas tiveram de parar?
As casas são em excesso, não é verdade? A construção civil está em crise porque já há mais casas do que as necessidades.
Há tudo em excesso e no entanto a pobreza e miséria não só continuam a existir como estão a crescer em muitas partes do mundo ocidental desde há uma década.
Esta é a primeira grande verdade que temos de ter presente: hoje, contrariamente a todo o passado da humanidade, vivemos finalmente numa era de abundância, não há nenhuma razão para existir miséria a não ser a de vivermos numa sociedade que funciona com regras erradas e que geram uma desigualdade absurda.
Irradicar a pobreza não se consegue dando esmolas (embora isso seja para já importante e o possível a nível individual); consegue-se corrigindo as regras da sociedade.
Nos posts seguintes vamos analisar esta questão e buscar soluções; retenhamos, para já, este facto óbvio, indesmentível: hoje não há razão aceitável para haver pobreza.
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