quinta-feira, junho 23, 2011

João Ferreira do Amaral

Acabo de assistir ao programa da SIC Notícias "Negócios da Semana", onde o José Gomes Ferreira entrevistou João Ferreira do Amaral.

Pela primeira vez, em duas décadas, vejo alguém a defender as mesmas ideias que tenho defendido, num orgão da comunicação social.

Não se pense que somos os únicos; simplesmente, neste mundo de verdades simplórias, o pensamento subtil é imediatamente rejeitado pelo "mainstream".

Se apanharem a repetição do programa, ou o video, não percam. Para se perceber o que está a acontecer e o que vai acontecer.

Eu estava a preparar uma série de posts para analisar a solução do sarilho em que estamos, mas estava confrontado com uma dificuldade: como apresentar uma solução para um problema que as pessoas não vêem?

É como o problema do Galileu: como explicar a rotação da Terra se ninguém acredita nela?

Bem, o João Ferreira do Amaral expõs o problema; e até disse, como eu, que os culpados desta situação não são os políticos, são os economistas.

...os economistas " mainstream" acrescentaria eu, mais os comentadores de TV... Mas isso não interessa nada agora, o que interessa é começarmos a sair do buraco em vez de continuarmos a cavar.

Se alguém encontrar o video dessa entrevista, agradeço que me diga, para pôr aqui o link

quarta-feira, junho 22, 2011

Uma questão a que não sei responder

Pessoa das minhas relações que me merece a máxima consideração colocou-me a seguinte questão:

Se o Paulo Macedo exigiu, para ir para as Finanças, receber o mesmo que recebia no BCP, o que terá ele exigido agora para ir para Ministro da Saúde?

Compreende-se a pergunta; agora que ele tem um alto lugar na área da saúde no banco, onde ganhará muito mais do que ganhava no tempo em que foi para as Finanças, certamente que, em coerência com o que aconteceu anteriormente, não se disponibilizou a ir para ministro perdendo volumosas verbas; nem lhe fica mal sabermos que exigiu continuar a receber o mesmo pois ninguém faz nada em seu prejuízo, quem se disponibiliza para perder dinheiro no imediato é porque está a prever vantagens futuras.

Essas vantagens até podem ser legítimas, por exemplo, um acréscimo de prestígio que aumente a sua cotação profissional.

Não parece, porém, que aqui possa ser o caso, pois parece que não lhe falta prestígio, por um lado, e por outro os lugares de ministro frequentemente só geram quebra de prestígio.

Portanto, fiquei sem saber que resposta dar. Não me surpreende que a questão seja difícil, a pessoa que ma colocou não o faria se a resposta foi fácil. Continuei por isso a raciocinar:

O desgaste dum ministro do PSD é muito menor que um do PS porque o PSD domina a quase totalidade da comunicação social e especialmente domina agora a totalidade da televisão (e certamente que ninguém vai deixar a MMG chegar-se aos microfones...); mesmo assim a busca de prestígio não parece uma razão suficiente para justificar tão brutal perda de rendimento entre um lugar de topo no BCP e o ordenado de ministro.

Então lembrei-me duma coisa: quais são os grandes negócios da banca, agora que a bolsa já não rende? São os empréstimos ao consumo / cartões de crédito, a especulação sobre as dívidas soberanas e a saúde! Ou seja, Usura e Saúde, as grandes áreas da banca actual.

Então, um alto responsável pelo negócio da Saúde do BCP, um dos dois pilares da actividade bancária actual, que permite pagar juros nos depósitos a prazo muito acima dos 2 ou 3% que a economia europeia pode crescer, vai para ministro da Saúde...

Surge uma lógica para esta escolha: não podia haver ninguém mais empenhado em reduzir o SNS à expressão mínima... e uma razão para o Paulo Macedo aceitar: a sua comparticipação nos lucros do ramo Saúde pode subir em flecha.

Há porém, um óbice: isto é tão reles e primário que não pode ser verdade, há razões mais profundas, subtis. Percebê-las ajudará a perceber o complexo esquema de funcionamento da nossa sociedade. Foi então que me lembrei de pedir ajuda aos leitores deste blogue!

Algum dos ilustres leitores é capaz de avançar uma explicação não interesseira para o facto de uma pessoa altamente interessada no negócio da saúde na banca ir para ministro da saúde para depois voltar outra vez à banca?

quarta-feira, junho 15, 2011

Ainda a E. Coli

A história da E. Coli continua muito mal contada, como é evidente, porque nada se diz sobre a origem da bactéria – ela não surge nos rebentos de soja ou nas alfaces por geração espontânea, ela veio de algum lado; localizar onde ela foi gerada é que é o cerne da questão, mas sobre isso nada se diz. Como é evidente, uma bactéria que surge subitamente resistente a 8 antibióticos não é um produto “natural”, algo que possa ocorrer na natureza em condições normais.

Uma explicação que surge imediatamente é a de que foi gerada em laboratório. Essa é a tese aqui exposta.
  
Uma notícia que recebi há dias, porém parece-me reforçar uma outra explicação, que há muito previa isto; é a seguinte:

Todo o gado que se cria na Europa (e noutros lados), bem como os frangos, os patos, os porcos, recebem como parte integrante da sua dieta cocktails de antibióticos. Desde que nascem até ao abate. Não só para evitar doenças mas também porque promovem o crescimento dos animais.

Isto é um negócio tremendo para as farmacêuticas, que produzem mais antibióticos para os animais do que para as pessoas.

Ora natureza é Inteligente, já aqui falamos disso. A natureza sempre arranjou soluções para as ameaças, por isso é que a Vida ainda existe.

Para as bactérias, resolver uma ameaça como a posta pelos antibióticos é uma brincadeira de crianças.

Enquanto os antibióticos tinham uma aplicação esporádica, eventual e controlada, o número de oportunidades para as bactérias testarem soluções era baixo. Como vimos, o processo básico de Inteligência depende do número de acasos ou hipóteses testados. Pontualmente, poderia surgir uma bactéria resistente a um antibiótico, que poderia ser combatida por outro.

Isto é bem sabido, há muito que na medicina se procura as melhores práticas para limitar este problema, o que mesmo assim não impediu que diversas bactérias multirresistentes tenham já surgido. Uma bactéria que parece especialmente capaz de desenvolver resistência aos antibióticos é a S. aureus, causa primeira das infecções graves constraídas em hospitais.

É fácil por isso prever que o uso maciço de cocktails de antibióticos na criação animal terá de originar uma panóplia de bactérias multirresistentes. A curto prazo.

Quais as consequências?

Piores que as da peste negra. Porque se fosse apenas uma bactéria, o organismo humano poderia encontrar solução, ou a própria bactéria poderia perder a sua virulência; mas sendo a perspectiva a de aparecerem diferentes bactérias, se houver solução para uma, não haverá para outra.

A notícia que referi acima informa que:

A novel form of deadly drug-resistant bacteria that hides from a standard test has turned up in Europe.

O resto da notícia, da conceituada Science, podem encontrar aqui ou aqui (curiosamente, não me recordo de a comunicação social referir este importante acontecimento)

Mas não há perigo, dizem, – a pasteurização do leite acaba com o bicharoco... a não ser que a bactéria, uma S. aureus, seja transmitida por fora, pelas pessoas que trabalham com os animais...

Não sei porque razão, os cientistas sugerem que a batéria pode ter sido gerada numa pessoa tratada com muitos antibióticos e depois misteriosamente ter ido parar ao gado; ignorarão que o gado é criado com antibióticos?

Eu temo que isto venha a ficar fora de controlo; que a solução ainda venha a ser o abate de todo o gado. Mas há uma coisa que podemos começar já a fazer, que é não continuar a insistir no erro. Ou seja, a produção de animais tem de passar a ser feita sem antibióticos. Antibióticos só para seres humanos. No mínimo, tem de existir um leque suficientemente vasto de antibióticos que nunca seja utilizado no gado. Arranje-se outra solução para os animais.

Portugal tem um lugar privilegiado para a criação de gado nestas condições: os Açores. Pela abundância de pasto e pelo isolamento. As doenças podem ser transmitidas pelas rações, que são mais ou menos lixo reciclado, mas os Açores têm condições para produzir gado (e leite) sem rações e sem antibióticos. Não é o que fazem agora - agora recorrem a rações e enchem os animais de antibióticos como os outros, mas é o que podem fazer.

É claro que isto pode ser feito em qualquer parte, mas os Açores têm condições únicas para evitar contaminações e para garantir a qualidade do produto.


Utopia? Nada disso; o Brasil já limita severamente o uso de antibióticos na criação de animais desde 1998. Ver aqui um curto texto que expõe muito bem o problema.

Criação ecológica de animais já. Quanto mais não seja, este é um nicho de mercado que nos interessa porque, num mercado aberto, não há hipótese nenhuma de poder competir com gado criado noutras partes do mundo. A nós só interessa produzir produtos “de luxo”, de qualidade e preços máximos. Será que somos capazes de fazer o mesmo que o Brasil? Ou, como o responsável de uma importante fábrica alemã em Portugal afirmou com orgulho há uns anos: "nós aqui não pensamos, quem pensa são os alemães!"?

quarta-feira, junho 08, 2011

Porque há pobreza?


No passado, a pobreza e a miséria tinham uma simples explicação: falta de recursos.
Não havia controlo populacional e as capacidades de produção eram muito limitadas, por isso a população esteve sempre no limite sustentável durante muitos milénios; parte das pessoas que nasciam tinha de morrer, pela fome ou pela violência, pois a população não podia aumentar.

É por isso que havia tanta violência e é por isso que uns tinham de comer insectos, outros tripas; a sopinha de erva ainda era um recurso em Portugal há menos de um século.

A pobreza e a miséria continuam a existir hoje no mundo ocidental, em Portugal mais do que noutros lados, e as pessoas continuam a pensar que, tal como na geração dos seus avós e dos seus pais, ela se deve à carência de recursos.

Nada mais errado. É exactamente o oposto!!!

Salvo em algumas regiões de Ásia e África, a população está controlada e a capacidade de produção é muito maior do que as necessidades.

Os agricultores recebem para não produzir, não é verdade? Isso é necessário porque se produz em excesso; paga-se aos agricultores portugueses para não produzirem para que os franceses o possam fazer.

As fábricas de automóveis existentes – e não há dificuldade em fazer mais – podiam produzir muito mais carros – lembram-se de que quando começou a crise havia carros por vender aos milhões e as fábricas tiveram de parar?

As casas são em excesso, não é verdade? A construção civil está em crise porque já há mais casas do que as necessidades.

Há tudo em excesso e no entanto a pobreza e miséria não só continuam a existir como estão a crescer em muitas partes do mundo ocidental desde há uma década.

Esta é a primeira grande verdade que temos de ter presente: hoje, contrariamente a todo o passado da humanidade, vivemos finalmente numa era de abundância, não há nenhuma razão para existir miséria a não ser a de vivermos numa sociedade que funciona com regras erradas e que geram uma desigualdade absurda. 

Irradicar a pobreza não se consegue dando esmolas (embora isso seja para já importante e o possível a nível individual); consegue-se corrigindo as regras da sociedade.

Nos posts seguintes vamos analisar esta questão e buscar soluções; retenhamos, para já, este facto óbvio, indesmentível: hoje não há razão aceitável para haver pobreza.

sexta-feira, junho 03, 2011

E. Coli

Aproveito a pausa do almoço para vir armar-me em bruxo e fazer uma previsão.

A notícia das mortes na Alemanha surgiu logo embrulhada no apontar do culpado:  e. coli em pepinos espanhóis.

Para quem não anda de olhos fechados neste mundo, trata-se obviamente de uma mentira conveniente. Não digo que não tenha sido originada de boa fé: acredito que um laboratório tenha encontrado o bichinho num pepino espanhol e alguém tenha pensado que essa podia ser a causa. As pessoas que deram a cara pelo aquecimento global também estavam de boa fé, na altura havia um aumento da temperatura da Terra e elas não tinham conhecimentos que lhes permitisse entender melhor o fenómeno. Mas acontece que essa boa fé e ingenuidade é depois usada por quem tem objectivos inconfessáveis.

Que não podia ser dos pepinos espanhóis metia-se pelos olhos dentro - todos os doentes eram da mesma zona.

Se os alemães tivessem dito que era dos pepinos portugueses, provavelmente a mentira ter-se-ia aguentado, e nem o facto de não exportarmos pepinos para a Alemanha seria considerado relevante - o Terreiro do Paço também não está debaixo de água e isso não impede que se continue a falar da subida dos oceanos devido ao aquecimento global.

Mas os espanhóis tiveram a calma e a sabedoria necessárias para demonstrar que não eram os seus pepinos.

Agora a minha adivinhação: a causa destas mortes não é nenhuma E. Coli.

Não sei se algum dia se vai esclarecer este assunto; mas como nós somos um país hortícula, bom seria que os nossos laboratórios começassem a investigar esta possibilidade. Ou vamos esperar que sejam os espanhóis a fazer tudo?

Temos de nos livrar desta postura de "bom aluno" que nos conduziu à presente desgraça...

quinta-feira, abril 14, 2011

O Gene dos escravos chama-se... Escola

Como sabem, andam por aí muitos chineses; já viram algum à procura de emprego? umzinho que seja???
Há dias vi um documentário sobre a presença chinesa em África. Emigram da China para o coração de África.

Emigrar para o coração de África?? Isso faz algum sentido? Então lá há empregos para alguém??

Claro que não há empregos (há lá chineses empregados, mas esses não são propriamente emigrantes, são contratados na China para trabalharem em empresas chinesas), o que há lá é oportunidades! Os chineses não emigram à procura de emprego, emigram à procura de oportunidades. É assim que eles vão para África e criam pequenas empresas em todo o lado. Como são empresários eficientes, rapidamente acabam com a concorrência local e dominam a actividade económica.

Comparem agora com os portugueses; os portugueses vivem à procura de emprego; os portugueses emigram à procura de emprego; os portugueses fazem manifestações porque não têm emprego; o índice mais importante para os portugueses não é o número de empresas que abriu ou fechou, é a taxa de desemprego!

Não acham que há aqui uma diferença gritante?
Porque é que é assim?

A geração actual de chineses é maioritariamente filha de camponeses; os camponeses são empresários, não são empregados. Esta é uma geração com uma cultura de empreendedorismo.

Nos países mais evoluídos, a maioria das pessoas são empregados há já várias gerações. A cultura é a do empregado. Os professores das escolas são empregados filhos de empregados. Sem uma política de ensino pró-activa em favor do empreendedorismo, cria-se uma geração de empregados.

É o que se passa em Portugal. Tal política era muito conveniente no tempo de Salazar – os empresários, como o governante, eram os que já existiam e seriam sempre eles e suas famílias, governados pelo eterno Salazar. Portanto, a escola tinha de formar empregados, nunca empresários. A sociedade pretendia-se de classes. Os empresários já existiam, os futuros empresários seriam os filhos dos existentes.

Esta ideia é típica dos sistemas fascistas e afectou todos os países do sul da Europa.

Infelizmente, essa mentalidade ainda cá perdura. As únicas aulas de empreendedorismo que existem, ao que me informaram, destinam-se aos alunos que abandonam a escola... dado que assim ficam incapacitados de serem empregados, ensina-se-lhes então empreendedorismo, porque ou serão empresários ou ladrões...

Nos outros países evoluídos não é assim. Já viram um americano emigrar à procura de emprego? Já viram que os nossos vizinhos espanhóis têm uma taxa de desemprego muito maior do que a nossa e não parecem dar grande importância a isso? Há outras coisas mais importantes.

E porque é que não é assim nos outros países? Porque a escola se empenha em formar empresários. Ser capaz de formar uma empresa faz parte dos currículos escolares. Saber delinear um projecto e desenvolver todos os complexos passos necessários a uma actividade empresarial de sucesso. Saber isso não é muito mais importante do que saber classificar as plantas ou saber aquelas regras regras do português que não fizeram falta nem ao Camões nem ao Saramago???

Assim se passam os anos mais importantes da vida a aprender coisas cujo único destino é o esquecimento.

A nossa escola não se adaptou à democratização da sociedade, não incorporou a igualdade de oportunidades. Continua a funcionar para formar empregados para irem trabalhar nas empresas de... de quem? Dos “Senhores”? Para serem funcionários públicos? A lógica do nosso ensino parece ser mesmo esta: a escola pública forma... funcionários públicos.

Muitos anos a estudar para se ser escravo? Sem dúvida, é para isso que serve a nossa escola, para formar escravos. Ou acham que é para formar conquistadores do mundo?

Agora está na moda dizer que o futuro dos nossos filhos é emigrarem, serem «cidadãos deste mundo global». Uma treta!!! O futuro deles é esse porque o futuro deles é irem à procura de emprego onde existam empreendedores; esse é o Futuro que a escola lhes destinou, não é nenhuma fatalidade do destino.

Poderia surgir um «Bill Gates» em Portugal? A resposta é «não» por múltiplas razões mas a primeira é que um “neird” dos computadores que tenha uma boa ideia não vai saber fazer nada com ela – quando muito, poderá conseguir vendê-la a um americano empreendedor... ou mesmo a um espanhol...

Estão a perceber a importância de dotar os jovens de mentalidade e conhecimento empresarial?

É como na ginástica: se houver ginástica de massas, aqui e além surgirão ginastas de sucesso; se não houver ginástica para ninguém, isso não vai suceder por maior que seja a qualidade da «matéria prima».

Se a formação para o empreendedorismo for massificada, então surgirão empresários de sucesso que podem relançar a economia; se não existe formação para o empreendedorismo, não vão existir empresários de sucesso nem economia nem... país!

A força de um país reside nos seus empresários. Sejam pequenos, médios ou grandes. Não estou a referir-me aos gestores das grandes empresas cá instaladas, esses são empregados como os outros, estou a referir-me aos Nabeiros e tantos outros que iniciaram empresas. Claro que os empresários não existem sozinhos, claro que o valor duma sociedade não se resume aos seus empresarios, mas eles são vitais.

Dos marinheiros não reza a História a não ser pela mão dos Navegadores.

Só existe Futuro para Portugal se existir uma cultura de empreendedorismo.

quarta-feira, setembro 29, 2010

O Futuro, mais uma vez...

Diz-se que a Economia tem por objectivo satisfazer necessidades humanas. Mas que necessidades?

Na verdade, a Economia nasce e funciona para satisfazer uma única necessidade humana: a necessidade de produzir.

Nunca tinham ouvido esta, pois não? Sempre pensaram que a Economia existia para satisfazer necessidades de «consumo» não é verdade? Pois é, estavam muito enganados.

A diferença entre uma coisa e outra e outra é a diferença entre o subtil e o simplório, para que já diversas vezes chamei a atenção; é a diferença entre pensar que o Universo roda à volta da Terra ou é a Terra que roda, a diferença entre pensar que o espaço expande ou nós diminuímos, etc.

Há muitos muitos anos passou pelas minhas mãos um livro americano sobre economia que me abriu os olhos para estas coisas. Dava um exemplo: para que serve uma orquestra?

Provavelmente responderão: para ouvirmos música. Resposta errada. As orquestras existem para satisfazer a necessidade das pessoas que querem tocar música.

Se gostamos de ouvir música é porque houve alguém que gostou de produzir música; e nós ouvimos e gostamos

Claro que para uma orquestra poder existir, fazer sentido, não basta que tenha músicos – é preciso que tenha também ouvintes. Então é preciso desenvolver uma actividade de levar as pessoas a quererem ouvir a orquestra.

A cadeia de acontecimentos nasce na necessidade de algumas pessoas produzirem música e depois pela criação de consumidores do produto. Para isso serve o marketing.

É portanto ao contrário do que pensavam – não se produz para satisfazer uma necessidade, consome-se para satisfazer uma produção.

O Leonardo da Vinci ou o Edison não fizeram o que fizeram para satisfazerem outra necessidade que não a deles próprios de inventarem, criarem. Um pintor não pinta para satisfazer a necessidade de as pessoas terem quadros em casa ou dos especuladores ganharem dinheiro; um escritor não escreve etc..

Claro que a sobrevivência nos exige que façamos algumas coisas que não correspondem a uma necessidade de «produção» nossa; essa actividade chama-se «trabalho» e é uma coisa que procuramos abolir da sociedade humana na mesma medida em que procuramos abolir a luta pela sobrevivência; e nas sociedades mais avançadas já quase não existe uma coisa nem outra – as pessoas produzem para satisfação da sua necessidade de produzir.

A alta eficiência de produção actual cria um problema: se fizermos a vontade a toda a gente, produzimos demais, não conseguimos encaixar tanta produção num ciclo de consumo e de sustentabilidade de recursos. É por isso que o está a faltar é oportunidade de produzir, agora designado por «emprego».

A nossa sociedade portuguesa, devido ao seu atraso e à sua cultura, é uma sociedade baseada nas ideias do trabalho e do consumo; é uma sociedade de pessoas que foram culturalmente moldadas para serem «consumidores», com activa rejeição da ideia de «produzir», associada ao pecaminoso desejo de enriquecer. É que a cultura deste país dá um suporte à Inveja, assim mascarada de virtude de rejeição de querer ser rico.

E como tudo isto se reflecte na Economia, são os nossos economistas os expoentes máximos deste atraso e equívoco.

Reparem: não conheço nenhum país desenvolvido ou em desenvolvimento onde a economia não assente no favorecimento dos agentes de produção locais em relação aos de fora. A acção dos agentes estrangeiros é permitida e gerida na exacta medida das conveniências da produção local. Uma orquestra é para os músicos locais, os outros têm o papel de estimular os locais, não de os substituir, frisava esse livro se a memória não me falha.

Como toda a gente sabe, em Espanha só empresas espanholas ganham concursos públicos; em Espanha e em todo o lado civilizado. Não é segredo nenhum, os espanhóis até estão sempre prontos a explicar como o fazem, orgulham-se disso. E também já ouvi ingleses e franceses gabarem-se do mesmo. Os alemães não os ouvi gabarem-se, mas vi-os completamente espantados por cá em Portugal não ser assim – para eles, só há uma explicação: corrupção. Eles não conseguem entender o equívoco cultural em que vivemos, é demasiado estúpido, incompreensível para a raiz luterana do seu pensamento.

As empresas instalam-se ou no país para onde desejam vender o seu produto ou num país onde as condições sejam as melhores, nomeadamente onde as condições fiscais sejam melhores e a mão-de-obra seja a mais barata. Uma empresa instala-se em Portugal se for para vender para Portugal ou para beneficiar de custos mínimos.

Como estar em Portugal só tem vantagem se for para a prestação de serviços de proximidade, tudo o que for produção só existirá aqui quando a nossa mão-de-obra for a mais barata do mundo para o mesmo nível de qualificação.

Lógico, não é? Como é que queriam que fosse? Não é óbvio?

É por isso que os ordenados têm de diminuir – parece que há umas zonas no mundo onde ainda se ganha menos do que aqui para a mesma qualificação e é preciso nivelar por essas zonas.

Quando se fala em reduzir os ordenados da função pública, isso significa reduzir todos os ordenados, pois evidentemente que há um efeito de cadeia associado. Por agora o o ordenado mínimo deixa de subir, a seguir  irá descer. Obviamente.

A nossa crise não tem nada a ver com a dos gregos, por exemplo; os gregos sempre defenderam a sua produção, é por isso que o ordenado mínimo deles é quase o dobro do nosso.

A nossa crise é o resultado directo da nossa mentalidade de rejeição da produção e da incompetência das pessoas deste país que peroram sobre economia.

Dois exemplos recentes: a perseguição ao Magalhães, essa coisa indecente de se ter arranjado um «negócio» para uma empresa nacional em vez de se terem comprado os computadores à Toshiba ou outra conceituada firma estrangeira; e o «escândalo» do cancelamento da adjudicação de um troço do TGV para, Imagine-se, grita indignado o José Gomes Ferreira na Sic, dar a adjudicação a uma empresa portuguesa em vez de ser a uma espanhola!!!!

Cada país, como cada espécie animal, tem de desenvolver a estratégia que mais lhe convém, se quiser sobreviver; todos os países têm a sua, excepto Portugal. Se os mais fortes e os mais fracos tiverem a mesma estratégia, os mais fracos desaparecem. A união europeia não é uma união de recursos sociais, as receitas da Alemanha não pagam o nosso desemprego; é por isso que cada país tem de ter a sua estratégia de sobrevivência, isso é inerente ao projecto europeu. O sermos uma «economia aberta» é uma incompetência, uma burrice, o não perceber nada do que é o projecto europeu.

Com estes economistas e comentadores de economia o nosso caminho está mais do que definido: é em direcção à cauda do mundo. Nenhuma medida dessas que se discutem vai alterar isto num milímetro.

Por agora, este povo de consumidores acha óptimo viver num país onde se pode comprar tudo de toda a parte do mundo, em vez de estarem sujeitos às limitações que os outros povos têm para protecção das actividades internas; a consequência é terem cada vez menos dinheiro para comprar e a prazo não vão poder comprar nem produto estrangeiro nem nacional.

A geração de riqueza faz-se pela circulação do dinheiro, o estudo da economia é o estudo dos fluxos monetários; num país que não controla as importações, o dinheiro não circula, esvai-se. Somos como uma pessoa ferida a perder sangue: ou estancamos a perda de sangue ou morremos. Estar a tentar gerir o sangue que ainda não saíu não serve de nada, pode disfarçar momentaneamente os sintomas mas não altera em um milísegundo o destino fatal.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Crença

A Crença marca-nos o rumo, faz-nos saber para onde ir e, mais do que isso, dá-nos uma razão para existirmos, para nos movermos, uma causa para activar as nossas glândulas; a Crença, qualquer Crença, faz-nos bater o coração mais forte, faz-nos saber que estamos vivos.

Precisamos pois da Crença como precisamos do Ar para respirar.

Muitas são as Crenças; para uns, a Crença primeira é a sua Religião; para outros, a Pátria! Outros elegem a Ciência, outros a Terra. Depois, há outros que têm horizontes não tão vastos –a Tribo, a Família, o Património... ou o seu Status...  e ainda há aqueles cuja Crença são eles próprios... Bem, mas não é destas Crenças de horizontes muito particulares que venho falar, mas das primeiras.

Todas as pessoas com essas Crenças têm uma Crença em comum: crêem que o Ser Humano deve estar subordinado a um Conceito, seja ele o Deus, a Pátria, a Ciência, a Terra, a Família. E isto coloca-as em conflito com as pessoas que têm uma outra Crença: as pessoas cuja Crença é o Ser Humano.

Quem crê no Humano não despreza os outros conceitos; pelo contrário, dá-lhes a maior importância, pela utilidade que eles podem ter para o Humano; mas nunca inverte esta prioridade.

Há já algum tempo, anos, vi na televisão um padre muito conhecido, do norte, conhecido por ter ideias não inteiramente alinhadas com os usos e costumes modernos, afirmar que a Religião estava ao serviço do Homem, não o contrário. Uma heresia para muitos...

As Religiões, como Pátria, Família, Ciência, são criações do Humano para o seu serviço, não o contrário.

Não pensem que esta é uma questão menor; vejam que quando nos chocamos com certos hábitos de certas culturas árabes estamos simplesmente a confrontar-nos com sociedades onde a crença na Família se sobrepõe à crença no Humano; como acontece na China tradicional e como acontecia entre nós há menos de um século. E vejam como as crenças na Pátria ou na Religião têm estado na base de grandes conflitos. Não significa isto que elas sejam más em si mesmas, apenas que o seu lugar na hierarquia das crenças não pode ser o primeiro e quem luta por uma sociedade melhor, ou seja, quem crê na Humanidade (que é diferente de crer no Humano) tem de lutar para as subordinar ao Humano.

A predominância dessas crenças sobre o Humano é uma herança dos tempos da sobrepopulação - sempre que o número de pessoas excede os recursos, a vida humana perde o valor; foi quase sempre assim ao longo de toda a história da Humanidade, excepto em fugazes momentos em que alguma inovação tecnológica ou mudança climática ou epidemia melhorou o rácio recursos/população; nessas ocasiões, a vida humana recuperou o seu valor e surgiram avanços civilizacionais. 

As pessoas que crêem no Humano tornam-se muitas vezes escritores; a sua escrita é dedicada à sua Crença. A sua escrita fala do Humano. Fala de nós. É o nosso retrato. E por isso que gostamos deles. Excepto, é claro, os que não crêem no Humano mas na Religião, Pátria, Família, etc.

Um destes escritores bem conhecido é o Saramago; mas há mais – como o nosso irreverente Implume. Há dias conheci mais um, o Mia Couto. Foi uma prenda do UFO: sem mais, ofereceu-me o livro Terra Sonâmbula. Para levar para Melmac.

Obrigado UFO. Um dos livros mais importantes que já li.


segunda-feira, julho 19, 2010

Férias em... Melmac!!!


Na Lua está a bandeira americana... mas em Melmac há uma bandeira portuguesa!... estão a ver, à direita da nave espacial?


Caros leitores, esta é uma boa altura para nos entregarmos ao prazer de viver, sentir a aragem morna afagar-nos a pele, inspirarmos bem-estar, enchermos os olhos de luz e de beleza... vamos a isso?

Está também na altura de eu fazer uma estadia em Melmac; o tempo em Melmac não corre como aqui, às vezes pára, às vezes dispara; quando de lá saio nunca sei o que o calendário terrestre me irá dizer. Por isso, não posso dizer exactamente quando regressarei, imagino que talvez quando as aves migratórias abrirem de novo as asas, ou talvez quando as chuvas chegarem em ânsias de tudo lavarem; mas certamente que cá estarei para receber os primeiros nevões e também o Pai Natal, duas coisas que não há em Melmac.

Boas Férias!

domingo, maio 30, 2010

Conheces as tuas Personalidades?


Neo visita o Oráculo que lhe mostra a frase que estaria no templo de Delfos «Conhece-te a ti mesmo»; que tem uma coisa a ver com a outra?


Neste nosso mundo tão globalizado, as pessoas cada vez aparentam mais o mesmo comportamento, seguem o estereótipo em vigor porque nós somos «macaquinhos de imitação»; não é um defeito, é uma característica que ajuda a nossa socialização.

Há apenas umas décadas não havia estereótipos globais: cada pessoa tinha uma personalidade tão própria e característica como os seus traços anatómicos. As idiossincrasias de cada um eram um inesgotável tema de conversa. Havia um certo «culto da personalidade», daquilo que tornava única cada pessoa. Hoje, isso é quase considerado reprovável. Hoje, mesmo as fisionomias se assemelham muito mais, também estas se deixam moldar pelos estereótipos que nos envolvem.

Mas, por baixo desta aparente uniformidade, na nossa profundidade inconsciente, múltiplas personalidades espreitam a ocasião de se afirmarem.

No nosso estado «normal», em que os estímulos externos são de muito baixa intensidade, o Consciente controla o nosso comportamento, e exibimos a personalidade que tão bem conhecemos.

Porém, por debaixo desta tranquilidade, o nosso Inconsciente vigia.

Suponhamos que surge uma situação que nos ameaça – logo o nosso Inconsciente diz ao Consciente «chega para lá» e assume ele o controlo das operações. Instala-se uma nova personalidade. No nosso Inconsciente há um conjunto diferenciado de programas de comportamento, cada um supostamente adequado a um tipo de situação.

Isto é muito claro nas espécies animais, sendo estudado os «deflagradores», isto é, os estímulos que fazem surgir esta ou aquela personalidade – por exemplo, um papagaio de papel com um desenho em cruz com determinadas proporções deflagra o estado de pânico nas galinhas porque dispara o «alarme de falcão». É útil conhecer os deflagradores que fazem os cães atacar... ou fugir. A «dança nupcial» é o deflagrador da sexualidade da fêmea. O comportamento animal é um conjunto de personalidades e para cada situação o cérebro escolhe uma. E em nós acontece mais ou menos o mesmo.

Todos já ouvimos falar de pessoas que têm «mau álcool». O que se passa nestas pessoas é que determinado nível de álcool faz deflagrar uma personalidade violenta. Uma vez deflagrada, o controlo do comportamento é totalmente do Inconsciente. Aqui a deflagração não é uma decisão do Inconsciente, as drogas também podem deflagrar personalidades; mas não é o caso geral.

Há casos extremos fáceis de identificar. Por exemplo, quem vai para a guerra, vai para matar. A sua sobrevivência depende de ser capaz de não hesitar nesses momentos. Se hesitar, morre. Mas no estado «normal» uma pessoa não mata. Então, surge uma personalidade diferente da normal e mais apropriada à situação. Por isso, quem está em guerra realiza barbaridades inconcebíveis no seu estado normal. Barbaridades que não agridem a sua «consciência», pelo contrário. E, como são «normais» nessa personalidade de guerra, nem sequer deixam, muitas vezes, rasto na memória, da mesma maneira de que não nos lembramos do que almoçamos ontem – o que não é relevante não é transformado em memória permanente. Quando uma pessoa regressa da guerra, volta à personalidade «normal» e tudo o que se passou enquanto foi «guerreiro» muitas vezes não deixou traço mais forte do que uma leve névoa na sua memória, como a recordação de um sonho. São as memórias de uma outra pessoa, uma outra personalidade, uma outra vida. Os que regressam psicologicamente traumatizados são os que não aceitaram a deflagração da personalidade de guerreiro.

Porque há tanta confusão num caso de partilhas? Porque nos diversos interessados há uma personalidade que é deflagrada; essa personalidade trata todos os outros como inimigos, e interpreta toda a informação de acordo com esta «verdade» que assumiu.

Os casos extremos são os que envolvem a sobrevivência, a propriedade, a sexualidade, a reprodução; mas as nossas personalidades aparecem em múltiplas situações, mesmo as mais banais; na verdade, em todas as que haja interacção com o exterior – basta estarmos em sociedade para alguma personalidade deflagrar, e esta personalidade depende da situação, das pessoas com quem estamos e até do assunto de conversa; no emprego temos outra personalidade, a guiar temos outra, etc. – para cada situação a sua personalidade.

As regras sociais são estabelecidas para evitar o deflagrar das personalidades potencialmente mais agressivas – a roupa para evitar o deflagrar da sexualidade, embora a moda exista para roçar o limiar desta deflagração, as regras de conversa social para impedir que se aborde temas que deflagrantes, o próprio tom e estilo estudados para esse fim – ou para o oposto, no caso dos discursos políticos ou que visem a manipulação dos ouvintes.

Como nas personalidades deflagradas o controlo pela Razão está diminuído, cometemos erros; para evitar isso, vamos aprendendo a não deixar deflagrar essas personalidades.

Antigamente a interacção com os outros era mais intensa e diversificada, as diferentes personalidades eram constantemente deflagradas, a pessoa ganhava mais consciência delas e aprendia a incorporá-las no seu dia-a-dia; hoje as pessoas vivem em situações muito mais controladas, o estímulo deflagrador é menos diversificado e mais fraco, não se ganha conhecimento delas; e assim, quando um estímulo mais forte deflagra alguma personalidade, não temos a mínima capacidade de a controlar, e fazemos asneiras porque estas personalidades foram construídas para responder a situações do passado.
Em vez de aprendermos a lidar com estas personalidades, ficamos assustados, aprendemos apenas a ter medo delas e a evitá-las. E isso é muito perigoso porque elas acabam sempre por deflagrar nesta ou naquela situação e não temos controlo nenhum delas porque não adquirimos experiência.

Esta capacidade de não deflagração também tem inconvenientes porque essas diferentes personalidades despoletam capacidades essenciais. Em parte é por isso que se passou a falar de «inteligência emocional».

Usar as personalidades é um sinal de sabedoria. «Há tanta ciência em ser ajudante como em ser mestre»: para se ser um bom ajudante, é preciso adoptar a personalidade correcta, a personalidade de ajudante. Um adulto tem dificuldades de aprendizagem muitas vezes simplesmente porque perdeu a capacidade de deflagrar a personalidade de aluno – e sem se assumir esta personalidade não se consegue aprender porque as rotinas necessárias não ficam activas. Um professor universitário está suposto ser também um descobridor, alguém que aumenta os conhecimentos que aprendeu; mas se não souber deflagrar a personalidade de descobridor nunca saberá mais do que aquilo que lhe ensinaram e neste mundo em mudança isso pode ser conhecimento ultrapassado, logo errado – uma das razões da actual crise económica é que muitos economistas continuam presos às teorias que aprenderam e que já não se aplicam.

Não seria bom sabermos activar racionalmente a personalidade que se adequa a cada situação, subordinar o Inconsciente ao Consciente nessa decisão, modular cada personalidade aproveitando as suas capacidades? Parece-me que sim; mas, para isso precisamos de compreender como funciona este processo na nossa mente. Precisamos de um Modelo. Vamos então à procura dele.