quarta-feira, janeiro 27, 2010

Mãe Terra - Mother Earth



A Mãe Terra faz hoje anos! Hoje, ontem ou amanhã, não se pode dizer ao certo. Mas faz anos. Que é como quem diz, envelhece.

Continua formosa. Um pouco envelhecida aqui e ali mas noutros lados ainda em pleno esplendor. Em qualquer zona equatorial se sente, pleno de vigor, o coração da Mãe Terra. Ninguém diria que já fez 4 000 milhões de anos. Uma Mãe de meia-idade.

Uma existência preenchida. Muito jovem, gerou no seu ventre o embrião da Vida. Uma Vida que cresceu e se desenvolveu, sempre alimentada e protegida no seio da Mãe Terra. Até que, há menos de 100 milhões de anos, a Vida teve de, pela primeira vez, começar a cuidar de si própria.

O primeiro passo foi produzir o seu próprio calor, quando o calor da Mãe Terra deixou de ser suficiente e adequado. Os Humanos sabem que são de «sangue quente» mas não sabem bem porquê.

Com o envelhecimento da Mãe Terra, a Vida terá de se autonomizar dela porque, progressivamente, a Mãe Terra deixará de ser capaz de prover as necessidades da Vida. Para isso, a Evolução tem vindo a aperfeiçoar seres com Inteligência capaz de usar recursos que ela, Vida, não pode usar directamente

Assim se chegou aos Humanos. Os Humanos não têm todas as capacidades necessárias para garantir a autonomia da Vida mas já têm algumas. São capazes de sobreviver fora da zona equatorial sem que a Evolução tenha tido de os dotar de adaptações. Foi um primeiro passo, mas já deram muitos outros. E, o mais significativo de todos, foram capazes de ultrapassar uma carência que o envelhecimento da Mãe Terra determinou: a falta de Azoto nos solos. Aprenderam a fabricar os adubos. Começam agora a descobrir que também nos oceanos o azoto escasseia em muitas zonas. Têm pela frente os magnos problemas da carência de Energia e da carência do CO2.

A Mãe Terra fez o que podia fazer: armazenou grandes quantidades de energia e de CO2 em depósitos de petróleo, gás e carvão; a Vida, por outro lado desenvolveu novos ciclos de fotossíntese, C3 e C4, capazes de funcionar com níveis baixíssimos de CO2. Mas não há milagres: o CO2, que já foi mais de 30 vezes a massa total da atmosfera actual, é hoje menos de 0,04% da atmosfera, mais raro que o Árgon. O CO2 actual é 1 milésimo do inicial! Cada planta precisa de respirar mais de 10 000 litros de ar para poder obter 1g do indispensável Carbono. Há umas dezenas de milhares de anos que a Vida tem fome de CO2. A biomassa de hoje é uma pequena fracção da de outrora, porque a biomassa está limitada pela disponibilidade do CO2. Cada grama de carbono de cada ser vivo tem de ser retirado da atmosfera pelas plantas, não há outra forma significativa de obter o precioso carbono.

É uma luta contra o tempo: a Mãe Terra gerou a Vida e a Vida terá de se prover a si própria à medida que a Mãe Terra vai envelhecendo; a Vida ainda não é autónoma da Mãe Terra e esta preparou umas reservas que têm de durar enquanto a Evolução não produz a forma de Vida capaz de se autonomizar. Se as reservas acabarem antes disso, a Vida na Terra extingue-se, mas isso não sucederá – tudo está devidamente organizado, a Evolução trará o ser que garantirá a autonomia da Vida antes da Mãe Terra esgotar os seus recursos. Apenas é preciso que os Humanos garantam ao novo ser as condições de que ele precisa para sobreviver. Apenas isso.

Este «apenas» é, no entanto, o elo fraco do processo. Os Humanos estão no início da caminhada do Conhecimento, ainda veem o amanhã como uma repetição do ontem, não percepcionam a evolução do Universo, não têm consciência do seu papel, alguma juventude e imaturidade pautam o seu comportamento. Os Humanos vão atribuindo à Mãe Terra as consequências do seu desconhecimento. Por exemplo, os sismos. O dia em que deixar de haver sismos será um dia triste, o dia da morte da Mãe Terra. Fazem mal os sismos? Sem as desqualificadas construções humanas, os sismos seriam dos mais inofensivos fenómenos vitais da Mãe Terra.

No Haiti ruíram muitas casas. Não foram pensadas para resistir ao sismo. Por ignorância – ignorância de que o sismo ia ocorrer durante a sua existência. Se fosse sabido, as casas teriam sido construídas para resistir ao sismo, pois isso não tem dificuldade tecnológica nem acréscimo importante de custos. Foi a ignorância de que o sismo podia ocorrer que causou a catástrofe. Ou, eventualmente, a simples falta de Qualidade, esse outro sinal de imaturidade – os construtores poupam no ferro e os habitantes cortam pilares para alargar a sala sem compensar a estrutura.

Assistiu-se também ao falhanço universal dos sistemas de protecção civil. Os hospitais de campanha tinham médicos e tendas mas não tinham equipamento. Serraram pernas e braços nas mesmas condições da 2ª Guerra Mundial. Milhares de haitianos morreram por falta da mais elementar assistência. É lógico – os planos e orçamentos dos sistemas de protecção civil são estabelecidos em face das necessidades do ano anterior. Se fossem para além disso, os contribuintes protestariam e os Orçamentos de Estado não seriam aprovados.

É quase sempre a ignorância do Futuro a profunda razão das consequências catastróficas dos fenómenos naturais e da falta de capacidade de resposta a elas. É por saber como é importante conhecer o Futuro que os Humanos se viraram para a Religião, para as artes divinatórias e para a Ciência. A Ciência já consegue prevenir algumas coisas mas ainda não consegue antecipar o Futuro porque o seu conhecimento do Universo e da Vida não é suficiente. Do Futuro ainda só há Medos, não há Visão.

O próximo Evento trará o Filho do Homem pela mão da Evolução. O Filho do Homem é o descendente do Homem, a geração seguinte ao Homem. O Filho de que o Homem se orgulhará. Mais Inteligente, mais preparado para o próximo passo da 4ª fase da Vida (3º nível da Evolução). Não virá montado numa nuvem nem chegará de repente. As trompetas não o anunciarão. Ninguém dará por ele, nem ele mesmo.

Mas será que o Homem saberá conduzir a Vida até ao Evento, atenuando as carências que a velhice da Mãe Terra vai fazendo aparecer, sobreviver ao Evento, e assegurar as condições necessárias para que o seu Filho se estabeleça e inicie a nova fase da Vida?

Isso não é certo; o Filho do Homem pode surgir num Mundo demasiado destruído e violento. A Cabeça da Mãe está preocupada com isso. O seu Coração está preocupado com outra coisa: o sofrimento que o Evento trará se o Homem não souber ver o Futuro. O parto do Filho não tem de ser doloroso.

Contrariamente ao sismo, o Homem pode saber como é o Evento e estimar quando é. O Evento, como um sismo, pode ser uma catástrofe indescritível ou um fascinante »passeio no Jardim da Estrela». Literalmente.



imagens:Wikipedia (Terra / Sismo Lisboa / Jardim da Estrela)

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Caim, Jacob e outras histórias da Bíblia


Em vários posts já afirmei repetidamente algo de que nós hoje não temos a mínima consciência: o drama da sobrepopulação, em que a Humanidade quase sempre existiu.

Desde há milhares de anos que o número de pessoas atingiu o limite suportável pelos recursos; e isso significa que a reprodução sempre esteve limitada ao número de pessoas que morriam – se mais nasciam, mais tinham de morrer, pela violência ou pela fome.

Este foi sempre o imenso drama da humanidade. Os oásis civilizacionais puderam emergir sempre que um avanço tecnológico ou organizacional geraram um acréscimo de recursos. Nos posts sobre Inteligência escrevi que a Inteligência duma sociedade é função da diferença entre recursos e necessidades.

Também já escrevi que por detrás da 1º Guerra Mundial, como de muitas outras, foi o problema da sobrepopulação que esteve – os economistas da época não tinham dúvidas: os recursos cresciam aritmeticamente e a população geometricamente, logo quem não quisesse ser extinto tinha de extinguir os outros, não havia lugar para todos.

As misérias de muitos países de hoje resultam exactamente disto – a população excede os recursos e continua a crescer descontroladamente. A densidade populacional do Haiti é quase tripla da portuguesa.

As grandes civilizações da Antiguidade puseram em prática diversos processos de controlar a população. Um deles era o Infanticídio. Já tenho visto documentários nos canais de televisão em que arqueólogos ficam muito admirados ao encontrar depósitos de ossadas de recém-nascidos. Santa Ignorância!

Uma prática comum era abandonar os recém-nascidos numa floresta ou pôr numa alcofa num curso de água; desta forma entregava-se o destino da criança nas mãos dos deuses, retirando aos pais o pesado fardo da responsabilidade pelo sacrifício dos filhos. Porque tudo isso era feito com enorme sofrimento dos pais, não se pense que eram selvagens sem sentimentos. Atestam-no cartas escritas por romanos, que eu já li não sei onde.

Os egípcios parece que usavam uma espécie de dispositivo intra-uterino, creio que feito a partir de bosta seca do gado... com fracos resultados.

Nas zonas de clima agreste, o problema era menos grave porque as pessoas morriam muito logo nos primeiros anos de vida; mas nas zonas tropicais não. Os sacrifícios humanos das civilizações da América Central terão tido a finalidade de manter a população controlada em face dos recursos.

Isto tudo serve para percebermos que em tempos remotos a vida humana não era certamente um bem escasso e, como tal, não era muito valorizada. Qualquer pequeno conflito tinha de resultar em mortes. A morte de um era sempre a vida de outro, pois os recursos eram limitados. A morte não era uma perda absoluta, era uma troca.

Entregues a si próprios, os homens tinham de considerar os outros como inimigos se queriam sobreviver. Apenas organizações tribais eram inicialmente possíveis. Passar além disso exigia a instituição de um poder superior. E foi-se buscar esse poder à Religião.

O objectivo de quase todas as religiões era construir uma melhor sociedade humana. Os seus ensinamentos são os que conduzem a mudar os hábitos e comportamentos da época para outros melhores. E como se fazia isso?

Através de pequenas histórias que começavam por retratar os comportamentos aceites na época e depois faziam intervir «a mão de Deus» para introduzir o novo comportamento. Não podia ser doutra maneira, não é verdade?

E é assim que surge a história de Caim ou de Jacob. E é por isso que a Bíblia não é um «manual de maus costumes» - ela retrata os costumes e a moral da época e isso, muitas vezes, com o objectivo de introduzir melhores costumes. Os julgamentos morais sobre os costumes de então só revelam a ignorância de quem os faz – a ignorância do quadro de vida da altura. Tão simples de entender, não é? E, no entanto, tanta discussão sobre o assunto...

Note-se que a Bíblia é muito mais do que isso; ela é um repositório de muitos conhecimentos da antiguidade. A parábola da expulsão do paraíso, por exemplo, é uma alegoria fantástica ao problema da sobrepopulação, como explico aqui. Mas há muito mais conhecimento na Bíblia e não era tolo o Newton quando a estudou com cuidado. Só que, como está escrito, «quem lê, entenda»; para Newton, não poderíamos entender até que as coisas acontecessem; aí poderíamos então verificar que por detrás da Bíblia estava um conhecimento maior que o nosso. Eu penso como o Einstein, que «Deus é subtil mas não malicioso», ou seja, que podemos entender o universo, ou a Bíblia, ou a nós próprios, mas temos de ser «subtis» e não «simplórios» nos nossos raciocínios.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Os Novos Conhecimentos: a Temperatura da Terra



Disse que dispúnhamos de dois novos conhecimentos que nos habilitariam a ir mais longe na compreensão da Evolução da Vida; um já foi apresentado, o de que a Vida dispõe, nas suas mais ínfimas formas, em cada célula, de ICV, ou seja, de Inteligência, que é a capacidade de resolver problemas novos, de Conhecimento, que é o conjunto das soluções dos problemas resolvidos, e de Vontade, que é a capacidade de tomar decisões.

Agora vamos falar do outro: a variação da temperatura da Terra ao longo do tempo.

A figura acima, publicada nest post, apresenta a curva da temperatura terrestre que decorre da teoria da Evanescência e assinala alguns acontecimentos relevantes na história da Vida. Esta curva não é conhecida da Ciência (a não ser o risquinho verde na ponta direita, que é a temperatura da Terra nos últimos 100 milhões de anos estimada por Crowley). Segundo a Física actual, o modelo que traduz a história térmica da Terra é o Snowball Earth, segundo o qual a Terra esteve congelada até há uns 500 milhões de anos, em consequência da radiação do Sol ser tanto menor quanto mais jovem a estrela (curiosamente, esta relação com a radiação solar teórica desapareceu da teoria, e o congelamento permanente da superfície transformou-se em episódios de glaciação global).

As evidências geológicas e biológicas a favor duma Terra quente e não duma Terra fria são esmagadoras, sendo a teoria do efeito de estufa pelo CO2, que serve agora tão convenientemente de suporte aos modelos do aquecimento global, uma tentativa falhada de explicação de tão extraordinária evidência. Sabiam que a origem da teoria do CO2 foi a necessidade de explicar o passado quente da Terra?

No artigo da Nature que citamos aqui, é publicado o seguinte gráfico da temperatura dos oceanos no passado:

Este gráfico apresenta as temperaturas máximas de proteínas ancestrais reconstruídas (EF = elongation factor) sobreposto a curvas obtidas por análise de isótopos de oxigénio. Como se pode ver, estas temperaturas são extremamente altas, impossíveis de explicar pela física actual. E este é apenas um dos muitos testes que indicam consistentemente temperaturas muito altas no passado terrestre.

A estimação da temperatura a partir dos dados geológicos e biológicos tem cometido recorrentemente um erro básico: presumir que a temperatura de ebulição da água é de 100 ºC. Ora isso só é verdade à pressão atmosférica actual; numa Terra mais quente, o vapor de água aumenta a atmosfera e a pressão, elevando consideravelmente o ponto de ebulição. Se estes estudos atendessem ao aumento de pressão que decorre necessariamente de uma temperatura mais alta, os valores de temperatura obtidos seriam mais altos, provavelmente em plena conformidade com a curva que apresentei.

Os autores do citado trabalho concluem que:

Our results suggest that early life lived at an environmental temperature similar to those of today’s hot springs. Particular geological theory and evidence suggest that the ancient ocean also had temperatures similar to those of hot springs.”

As «hot springs» são fontes de água aquecida por geotermia; especialmente relevantes para este efeito são as submarinas, que suportam formas de vida que não dependem do Oxigénio, a temperaturas que chegam a ultrapassar os 100 ºC, possíveis porque a essa pressão o ponto de ebulição da água é muito acima dos 100ºC.

Portanto, independentemente de considerarmos ou não a teoria da Evanescência, a vida surgiu e evoluiu em temperaturas insuportáveis para as formas de vida correntes de hoje; e se pensarmos que, por exemplo, o Homem não poderia existir quando os dinossáurios dominavam a Terra porque as condições de temperatura e humidade seriam insuportáveis (a 40ºC de temperatura, os 100% ou quase de humidade relativa tornariam inútil o nosso sistema de arrefecimento), e que isto ocorreu há menos de 3% da idade da Terra, começamos a suspeitar que o calendário da evolução da Vida foi escrito pela evolução da temperatura terrestre.

Isto nunca foi considerado na análise da Evolução. E tem consequências da maior importância.

Sugiro, para os mais interessados, a leitura dos 3 posts publicados sobre o assunto antes de avançarmos; além dos dois já indicados há mais este. Se seleccionarem a etiqueta «Evolução da Vida», estão os três seguidos em Janeiro / Fevereiro de 2008.

domingo, outubro 25, 2009

Subtil, Simplório, Enviesado... e Caim


Ando há algum tempo para falar sobre o que é um raciocínio simplório, subtil ou enviesado e vai ser agora; a análise da Evolução continua no próximo post, onde veremos um facto importante que não entra na actual teoria da Evolução mas que é crucial. O tema deste post é importante porque nos ajuda a saber raciocinar melhor.

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Consideremos um jogador de xadrez. Face a uma disposição de peças no tabuleiro, logo uma hipótese de jogada lhe ocorre. Essa é a hipótese simplória. Se for um jogador principiante, faz essa jogada. Se não for, vai analisar as consequências. E vai testar outras jogadas. Até chegar a uma decisão. Essa é a hipótese subtil, porque já não resulta do que está directamente à vista.

Como sabem, ganha no xadrez o jogador que for capaz de perspectivar mais longe a jogada. Ou seja, o que for mais «subtil». A hipótese «simplória» é quase sempre errada, no entanto, é a que parece «lógica» a um espectador que só tenha conhecimentos superficiais de xadrez.

O Einstein disse que a diferença entre ele e os outros físicos é a de que ele pensava mais longamente nos assuntos; logo, era mais subtil; e frisou a importância do pensamento subtil numa frase famosa, a de que Deus é subtil mas não malicioso.

No entanto, não foi entendido, foi até escarnecido; porquê?

Porque nós não fazemos nem raciocínios subtis nem simplórios; nós fazemos raciocínios enviesados.

O nosso Inconsciente, com base nas informações que ele aceita como «verdade» e nos seus próprios critérios, de raiz instintiva, forma uma opinião sobre um assunto, atinge uma conclusão; em seguida o nosso consciente é mobilizado para provar que essa conclusão está certa. Os nossos raciocínios não servem um processo de descoberta mas um processo de demonstração de uma ideia, opinião, conclusão, certeza, estabelecida anteriormente a um nível inconsciente. Os nossos raciocínios são, portanto, enviesados, visam provar algo que já foi definido a priori.

A justiça utiliza isto como metodologia para fazer um julgamento na sua estrutura de defesa/acusação/juiz, onde tanto a defesa como a acusação devem fazer uma argumentação enviesada para o seu lado. É uma metodologia que funciona na fase de julgamento. Porém, já a Polícia não pode funcionar com base na mesma metodologia, o investigador policial tem de fugir dos raciocínios enviesados ou dificilmente desvendará algum crime.

Também em Ciência este problema se põe com enorme acuidade. Como fugir aos raciocínios enviesados?

A melhor maneira é a pessoa ter consciência disto e dos factores de enviesamento dos seus raciocínios; mas isso é difícil e subjectivo, é conveniente uma metodologia que dê alguma garantia de protecção contra os raciocínios enviesados. Então, a Ciência adoptou como resposta a este problema o raciocínio simplório, ou seja, constrói os seus modelos de realidade directamente sobre os resultados das observações. É assim a teoria Atómica, do Big Bang, da Relatividade, Electromagnética e de Ptolomeu. A excepção é a de Newton, que resulta de raciocínios subtis.

Isto é um progresso em relação a uma fase anterior, baseada em raciocínios enviesados, não é um retrocesso como poderão estar a pensar. O raciocínio simplório é menos mau que o enviesado. Claro que o «subtil» é melhor, mas ainda não demos esse salto a não ser pontualmente e é tão excepcional que classificamos de «génios» as pessoas que ultrapassam o que resulta directamente da observação.

Vou dar-vos exemplos. Ontem vi um documentário no Discovery Civilization, espanhol, que sustentava a ideia de que o Colombo seria um nobre espanhol, catalão. Apresentado como se fosse um estudo «científico», era assaz enviesado; por exemplo, a única referência a Portugal era a de que ele fora casado como uma nobre portuguesa e unicamente para provar que ele não poderia ser um plebeu genovês. Portugal nem aparecia num mapa várias vezes repetido, onde toda a península era Espanha. Pensarão: uns malandros os espanhóis! Na verdade, isto é o que fazem todos os povos nos seus documentários. E o que nós faríamos se fizéssemos um documentário sobre o Colombo. Por isso a importância que a generalidade de países dá à realização de documentários.

Um documentário «simplório» trataria todos os factos em pé de igualdade. Mas isso não é uma vantagem específica para quem paga o documentário, e tudo o que se faz está ao serviço dos interesses de quem paga.

O recente livro do Saramago, Caim, insere-se no processo oposto. O Saramago, segundo ele mesmo diz (eu não li), faz uma leitura «literal» do que está escrito na Bíblia. Este é o procedimento «simplório». Os crentes fazem uma leitura «enviesada», uma interpretação do que lá está escrito de acordo com a sua crença. O «Caim» do Saramago representará um progresso para quem quer chegar mais perto da verdade. O que não significa que a sua conclusão esteja certa – como disse, os raciocínios simplórios são frequentemente errados. Mas têm a vantagem de não obliterarem os factos.

Um exemplo duma interpretação subtil duma parábola bíblica é a que apresentei aqui, sobre a expulsão do paraíso.

Estes raciocínios enviesados que continuamente fazemos não são desonestos, o enviesamento é essencialmente inconsciente; mas há raciocínios conscientemente enviesados – são os dos vendedores, por exemplo, quando querem vender um produto, são os próprios raciocínios do charme social, de muitos políticos, das religiões, dos interesses económicos. Alguns são só um bocadinho desonestos, outros totalmente. Por exemplo, o de que o plano de reforma de saúde do Obama iria matar os reformados e deficientes, posto a correr pela poderosa indústria de saúde americana. Estes enviesamentos visam os medos e os anseios das pessoas para conseguirem fins escondidos.

Eu chamo a estes raciocínios manipulativos exo-enviesados. Os raciocínios exo-enviesados têm «asas», espalham-se como fogo em madeira seca. E são tão difíceis de combater como ele.

Bem, há muito mais para dizer, quer em relação às fontes de enviesamento, quer em relação à análise da validade dos raciocínios. Mas, para já, ficamos com esta interessante questão: percebermos porque é que as nossas ideias são as que são. Elas não são fruto da nossa racionalidade mas da nossa «irracionalidade», ou seja, um produto do inconsciente, um produto «afectivo». Os raciocínios em que as suportamos são elaborados a posteriori.

Temos de aprender a percepcionar o nosso enviesamento para conseguirmos uma melhor racionalidade. Quando conseguirmos olhar para os factos sem presunção ou crença, estamos aptos ao raciocínio «simplório»; e quando conseguirmos passar além do «simplório», como um jogador de xadrez experiente, depararemos com as múltiplas possibilidades que o raciocínio subtil nos abre. Mas há um preço a pagar: tempo!

terça-feira, outubro 13, 2009

Diogo dixit


Em comentário ao anterior post, o Diogo apresentou sumariamente o que pensa sobre o mecanismo da Evolução:

1 – Os vários indivíduos da mesma espécie recebem informação do ambiente e projectam uma estratégia de forma física para fazer face aos novos desafios e novas ameaças.

2 – Como os adultos já não se conseguem alterar transmitem essa pelas células sexuais.

3 – A reprodução sexuada vem permitir um máximo de interacção de quase todos os indivíduos com todos os outros. Ou seja os indivíduos estão a trocar ideias fisicamente.

4 – Esta troca de ideias tem dois objectivos: a) Escolher a melhor estratégia de evolução e aplicá-la a todos os indivíduos em simultâneo.

5 – A nova geração já nasce diferente e mais adaptada.

Analisemos. No ponto 1 diz que ;

1 – Os vários indivíduos da mesma espécie recebem informação do ambiente e projectam uma estratégia de forma física para fazer face aos novos desafios e novas ameaças

Isto é sem dúvida uma hipótese; mas será certa? Como podemos saber se é certa ou errada? Para tal, é necessário algo que suporte a hipótese e que possamos testar. Por exemplo, uma pessoa pode responder à questão “porque anda um carro?” com “porque tem um motor!”. Para que seja aceite como explicação, a primeira condição é que, de facto, haja um motor no carro. Note-se que não é uma condição suficiente, apenas necessária. Por exemplo, uma pessoa poderia também responder “porque tem um volante”; de facto, tem um volante, mas isso não faz o carro andar.

Para suportar esta hipótese de que “os vários indivíduos da mesma espécie ... projectam uma estratégia de forma física” é necessário apresentar um facto. Como é feito esse projecto de estratégia? Que órgão do corpo faz isso? Uma pista qualquer sobre o processo? Estará a basear-se no que aqui se disse sobre a inteligência da célula e dos sistemas de células?

O Diogo nada diz a este respeito. Sem isso, esta hipótese não é uma «explicação». Pode estar certa ou errada, mas o Diogo não nos aponta nenhuma maneira de o sabermos.

Reparemos agora no seguinte: seguindo a mesma linha de raciocínio do Diogo, poderíamos dizer igualmente que

Em face da informação do ambiente recebida pelos vários indivíduos da mesma espécie, um Deus tipo «Grande Engenheiro» projecta uma estratégia de forma física para fazer face aos novos desafios e novas ameaças

Não é assim que um Grande Engenheiro age? Lançando modelos, verificando como se adequa ao ambiente, e introduzindo melhorias?

Ou, ainda, em vez de um Deus poderíamos considerar uma avançada civilização extraterrestre.

Que factos apresenta o Diogo para podermos pensar que a hipótese dele é melhor do que qualquer uma destas? O que as distingue, nesta altura, é apenas a sua adequação às presunções de quem as faz. Digo «nesta altura» porque aqui o Diogo lança uma hipótese nova que ainda não foi investigada. Quem sabe se na sequência de paciente trabalho de investigação não se descobre algo que a suporte? Só que, nesta altura, não há a mínima pista.

Depois, o Diogo diz que:

2 – Como os adultos já não se conseguem alterar, transmitem essa pelas células sexuais.

É importante saber se as células sexuais de um ser contêm qualquer informação diferente da que originou esse ser. Uma informação que resulte da experiência de vida do ser e não de um erro de cópia ou outro processo independente dessa experiência. Mas não sabemos isso. Afirma-se que não contém, essa é a base da argumentação anti-Lamarck, mas não conheço prova convincente. De qualquer forma, como assim é aceite, quem defender que as células sexuais podem conter informação derivada da experiência tem de pelo menos indicar um mecanismo através do qual tal pudesse acontecer. E isso o Diogo não faz. Um caso julgado só volta a julgamento perante factos novos.

Continuando:

3 – A reprodução sexuada vem permitir um máximo de interacção de quase todos os indivíduos com todos os outros. Ou seja os indivíduos estão a trocar ideias fisicamente.

4 – Esta troca de ideias tem dois objectivos: a) Escolher a melhor estratégia de evolução e aplicá-la a todos os indivíduos em simultâneo.

Será que não existe evolução sem reprodução sexuada? Bem, no último número da Nature vem um artigo, creio que co-autorado por um português, que mostra que as células dum cancro de pulmão apresentam uma elevada taxa de mutações... será que evoluem?

Uma coisa parece clara: há reprodução sexuada sem evolução que se note – na verdade, é o que há mais, a inteligência das tartarugas não parece ter sofrido evolução nos últimos 100 milhões de anos, por exemplo.

Podemos questionar: a troca de informação genética será condição necessária mas não suficiente? Será que, como o Diogo diz, essa troca não é «ao acaso», obedece a uma «estratégia»? O Diogo nada diz sobre como pode essa estratégia concretizar-se.

Notem que nada disto significa que o Diogo esteja errado. Apenas que ele não apresentou uma «explicação», apresentou uma «hipótese» sem ter apresentado qualquer prova. O que pode levar uma pessoa a considerar, nesta altura, que a hipótese do Diogo seja melhor do que a Criacionista, por exemplo? Nada, a não ser as crenças pessoais de cada um.


Qual é a diferença estrutural entre esta ideia do Diogo, o Criacionismo e a teoria do Darwin?

Vejamos este exemplo: imaginemos que uma pessoa explica o facto de um carro ser capaz de se mover dizendo: tem um motor, que é um dispositivo que transforma em movimento o calor que um combustível liberta quando arde.

Bem, ainda há muito por explicar. Transforma como?

No entanto, já foi dado um passo muito significativo. Agora, podemos pôr-nos a pensar, buscar uma forma de transformar calor em movimento. Temos uma peça do puzzle e temos um caminho de pesquisa. Se a hipótese fosse apenas «porque tem um motor» não tínhamos quase nada, essa hipótese não representa um «conhecimento» relevante (quem não sabe o que é um motor fica na mesma).

Darwin quase fez isto. Ele deu uma pista sobre como o motor da evolução poderia funcionar. Os descendentes nascem com variações e a natureza selecciona as mais adequadas. E podemos testar que assim acontece. O Darwin encontrou uma peça do puzzle da evolução. O Darwin mostrou que um processo de inteligência elementar, «geração de hipóteses + selecção», é usado na adequação dos seres vivos ao seu ambiente.

O Darwin não apresentou nenhuma teoria sobre o que produz as variações que os seres vivos apresentam. Isso é algo que ainda é alvo de pesquisa. Não se conhecendo nenhum mecanismo capaz de produzir mudanças genéticas capazes de suportar a Evolução, afirma-se que essas mudanças são por acaso. As experiências mostram que as mudanças por acaso só originam seres deficientes, como seria de esperar. Portanto, não se sabe, a Ciência não faz a mais pequena ideia, de como se produzem nos seres mudanças capazes de suportarem um processo evolutivo. O Diogo está a propor que na geração das “variações” dos descendentes não está um processo de acaso ou erro mas um processo de Inteligência.

Bem, na verdade, isto é óbvio, mas só a coragem de o afirmar já merece destaque. Quem não leu os posts em que tentei estabelecer que Inteligência é uma propriedade natural vai-se rir, mas vozes de burro não chegam nem ao Céu nem ao Futuro.

O Diogo pensa que um processo de Inteligência destes têm de se alimentar das consequências das modificações introduzidas, logo considera que a experiência de vida tem de alguma forma fazer parte do processo. Que há um mecanismo de «feedback» entre as alterações introduzidas e as suas consequências. Aqui, ele difere de Darwin, que considera que a geração de variações e sua selecção são processos independentes. A verdade será provavelmente algo mais sofisticado do que qualquer destas hipóteses.

Em conclusão, ao apresentar esta hipótese sobre a evolução das espécies, o Diogo actuou como um Descobridor, pois libertou a mente de ideias que certo «mainstream» papagueia sem perceber e aceita sem analisar e teve a coragem de pensar pela sua própria cabeça. Mas a tarefa do Descobridor é árdua, sem fazer o caminho todo que vai da ideia à prova o seu esforço é inútil. E, neste caso da Evolução, a tarefa é grandiosa demais para as nossas capacidades. A opção é procurar dar pequenos passos, ir juntando pecinhas do puzzle.

Foi o que o Darwin fez, ele só encontrou uma pequenina peça do puzzle, a de que um processo de variação das características seguido de um processo de selecção pode suportar um processo evolutivo. Como se gera essa variação, esse é o grande mistério.

O que sabemos da Evolução, na verdade, é ainda tão pouco e incipiente que corresponde quase à resposta «porque tem um motor». Sabemos que há Evolução, como sabemos que um carro anda; e sabemos que há um mecanismo de variações e selecção como sabemos que o carro tem um motor; mas estamos como a pessoa que não sabe o que é um motor porque nós também não sabemos como se geram essas variações. E é aqui que está a verdadeira questão.

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Entre o Presente e o Futuro está uma Terra de Ninguém, um deserto onde perdemos as nossas crenças e limpamos a cabeça dos conceitos e das “verdades” do Presente; estamos a acabar a travessia desse deserto, à frente começam a surgir pequenos oásis de Futuro.

terça-feira, setembro 29, 2009

Os Novos Conhecimentos: ICV

Propusemo-nos repensar a Evolução das Espécies. Se fossemos mais inteligentes que o Darwin, sei lá, por exemplo, se fossemos extraterrestres, poderíamos racionar sobre os mesmos dados que ele e pretender chegar a uma teoria mais avançada. Mas não somos, logo, só poderemos dar algum contributo se dispusermos de novos dados, novos Conhecimentos. É disso que temos andado à procura nos posts anteriores. E temos alguma coisa para acrescentar ao que o Darwin sabia. Vamos caracterizar os novos Conhecimentos de que dispomos, começando, neste post, pelo ICV da Natureza. Ou seja, Inteligência+Conhecimento+Vontade.

Temos vindo a perceber, ou a intuir, que Inteligência é um processo natural, que Inteligência gera Conhecimento, que Inteligência operando em cima de Conhecimento gera mais Conhecimento, e que de tudo isto resulta uma Vontade capaz de conduzir o processo de Vida, tal como a acéfala estrela-do-mar tem uma vontade que a conduz à sobrevivência e reprodução. Estas características, que pensávamos existirem apenas associadas a um «cérebro», não precisam, afinal, de «cérebro».

Para nós, é razoavelmente fácil identificar o ICV duma pessoa, porque é algo que existe numa escala que nos é acessível. Já o mesmo não acontece no ICV duma célula ou da Natureza. Mais: podemos dizer onde reside o ICV duma pessoa, no seu cérebro, mas nem a célula nem a Natureza têm um cérebro, o que nos induz à percepção errada de que não há Inteligência, Conhecimento ou Vontade sem um cérebro. Felizmente existem estrelas-do-mar e outros seres para provarem o contrário.

Um cérebro é o órgão por excelência do ICV e tem 2 características básicas: memória, onde se armazena Conhecimento, e comunicação, que permite a movimentação desse conhecimento. São estas as infraestruturas da computação. Um cérebro é uma concentração destas funções, mas elas não são exclusivas de um cérebro. São necessárias para existir ICV, mas não têm de estar concentradas num órgão, num «cérebro».

Com efeito, as células detêm Conhecimento, dado que são capazes de gerar um ser vivo. Reside no ADN e não só. Não temos dúvidas sobre isso, pelo menos no ADN há Conhecimento acumulado. A existência de um Conhecimento prova que existiu uma Inteligência, pois aquele é o fruto desta. Para termos ICV precisamos ainda de capacidade de comunicação. Aquilo que fazem os neurónios. Ora a Vida exibe amplas capacidades de comunicação a variadas escalas. Vejamos:

- As bactérias trocam continuamente pedaços do seu código genético e, como se sabe, nessa sua característica parece residir a sua extraordinária capacidade de resposta às mais variadas condições. Uma comunidade de bactérias exibe um comportamento «sábio» e «inteligente», ou seja, exibe ICV.

- A Célula dispõe obviamente de ICV. Porque pensam que é tão difícil combater o cancro? Uma célula cancerosa é uma estrutura com ICV que actua à revelia do organismo em que se insere. É como uma estrela-do-mar. Busca a sua sobrevivência e multiplicação, esta é a sua vontade.

- Um organismo dispõe de ICV. Todo o funcionamento dum organismo está dependente de contínua e intensa comunicação, a partir da qual cada célula decide, em cada momento, que vai produzir esta proteína e não aquela. Uma comunicação que abrange todas as células do organismo, incluindo as sexuais. A ideia de que a experiência de vida de um ser não pode ter consequências na sua descendência porque as células sexuais estão isoladas está errada. As células sexuais são espectadores de toda a experiência de vida do ser a que pertencem. Experiência essa que pode ficar gravada na fase de amadurecimento dessas células. Que vai ocorrendo ao longo de toda a idade sexual do ser. Num próximo post veremos como podemos agora entender a Girafa muito melhor do que Lamarck ou Darwin e as consequências que daqui se podem deduzir para nós.

- As comunidades de indivíduos da mesma espécie, através da reprodução sexuada, trocam informação genética entre si, portanto, disporão dos meios necessários ao ICV. Outros tipos de comunicação dentro da comunidade também contribuem para o ICV da comunidade.

- A Vida, como um todo, tem ICV. Sabemos que idênticas sequências genéticas surgem em espécies totalmente distintas, o que indicia que também entre todos os seres vivos existe capacidade de comunicação. Como acontece isso, não sabemos. Os vírus podem transmitir pedaços de código genético, são mesmo usados em terapia genética para isso; mas podem existir outros processos que desconhecemos.

A Vida dispõe, portanto, de Memória e de Comunicação, ou seja, dispõe dos meios que suportam o ICV. E dispõe deles em diferentes escalas, cada uma constituindo um sistema com uma certa capacidade intrínseca de evoluir.

Haverá, portanto, ICV, logo, capacidade de evolução, em múltiplas escalas, e não podemos olhar para a Evolução como um fenómeno único, linear, nem pretender uma explicação única, um mecanismo único. Esta conclusão já é um passo em frente.

O ICV está para os fenómenos biológicos como as Leis Físicas para os fenómenos físicos. Porque tanto uma coisa como a outra nos indicam o estado seguinte dos sistemas. Ou seja, nos permitem antecipar o futuro. Por exemplo, podemos antecipar a gama de comportamentos de uma dada estrela-do-mar, porque conhecemos o seu ICV, isto é, sabemos como ela reage em diferentes situações. Assim como podemos antecipar o comportamento de muitas pessoas que conhecemos bem – saber o que elas vão pensar sobre determinado assunto, como vão reagir, etc. Dizemos que conhecemos a «personalidade» da pessoa. É isso que o ICV caracteriza, a «personalidade».

Esta é uma consideração interessante e importante: enquanto uma Lei Física se aplica a um fenómeno específico, o ICV aplica-se ao comportamento de um sistema complexo. Pode ser uma pessoa, a Vida, o sistema económico, uma sociedade humana, o planeta Terra, o Sol, o Universo. A palavra «personalidade» é adequada para representar o comportamento de sistemas complexos.

O director do observatório do Vaticano disse que o objectivo do observatório é entender a «personalidade de Deus». Poderá não ser a frase de um beato, mas a frase de um sábio?

Vamos agora ver outro novo conhecimento.

sábado, agosto 29, 2009

Inteligência+Conhecimento=Vontade


Maravilhamo-nos com a complexidade e sofisticação da Vida e vemos nela a obra de um Criador; pois é isso que a experiência nos ensina, nada surge por acaso ao nosso redor. E sabemos quem criou tudo o que surge de novo: nós! Existe o automóvel? Nós o criamos. Temos casa? Nós a fizemos. Computadores? Nós o inventamos. Toda a obra que não é obra da Natureza é nossa obra. E se toda essa obra tem um criador, então a Vida, a Natureza, o Universo também o terão. Assim o diz o nosso complexo neuronal, este é o conhecimento que ele colheu do mundo.

Mas agora vamos usar a Razão.

A nossa obra resulta da nossa Inteligência e da nossa Vontade. Não é de um Criador que ela precisa, é duma Inteligência e de uma Vontade.

Certo, dirão, mas é o mesmo, a Inteligência e a Vontade são propriedades do criador de qualquer obra, não existem sem ele.

Isso é de facto o que observamos. Não conhecemos Inteligência ou Vontade fora de nós. E sentimos, que sentir é o pensar do Inconsciente, que esta nossa Inteligência e Vontade têm uma origem diferente de tudo o que observamos porque naquilo que observamos não encontramos nem uma coisa nem outra.

Mas a Razão alerta-nos: conhecemos muito pouco, não podemos tirar conclusões como se conhecêssemos tudo! Também Aristóteles concluiu que os objectos que brilham no Céu não podem ser feitos de matéria porque a matéria não pode arder indefinidamente.

Ao longo de vários posts fomos percebendo como a Inteligência pode resultar de processos naturais; percebendo que a nossa própria inteligência pode ser o resultado de processos naturais e não uma «centelha divina». O que não quer dizer que não exista essa «centelha divina», mas apenas que ela não é condição sine qua non para que exista Inteligência.

Sim, é certo, dirão alguns, podemos compreender que os processos naturais possam ter um desenvolvimento que resulte em estruturas mais complexas e organizadas, como se desenhadas por um «grande engenheiro», mas a progressão desses processos não é o resultado de nenhuma «vontade», é sempre a consequência necessária, determinística, única, do estado anterior.

Será?

O que é que resulta de um processo Inteligente? Uma estrutura mais sofisticada? Sim, é certo. Mas isso é, ao mesmo tempo, algo mais – é um Conhecimento.

Quando utilizamos a nossa inteligência para resolver um problema novo e o conseguimos, obtemos um Conhecimento. Não é a única forma de obter um conhecimento, podemos também «aprender». Ou seja, o Conhecimento pode ser transmitido. Mas antes disso tem sempre de ser criado. E é criado por Inteligência.

Temos então uma cadeia: um processo Inteligente produz um Conhecimento; depois, o processo Inteligente usa este Conhecimento para produzir mais Conhecimento; e assim sucessivamente, formas cada vez mais poderosas do par Inteligência-Conhecimento se vão desenvolvendo.

E a Vontade? Donde vem a nossa Vontade?

A nossa Inteligência e o nosso Conhecimento analisam as informações que recolhem e, em face de um critério de selecção definido, resolvem o problema de saber qual a actuação que devemos ter para cumprir esse critério. As instruções fornecidas então ao nosso organismo para cumprimento dessa actuação constituem o que identificamos como «Vontade».

Sem dúvida que a nossa Vontade é um produto da nossa Inteligência e Conhecimento. Conhecimento que pode ter sido adquirido por nós, herdado geneticamente ou até, sabe-se lá, captado por algum receptor que tenhamos na cabeça.

Mas a Vontade não é um exclusivo nosso. Qualquer ser vivo exibe Vontade. A diferença entre nós e os seres vivos mais elementares está em que nós podemos ter Consciência desse processo. Mas uma simples e descerebrada estrela-do-mar tem Vontade como nós, uma Vontade que actua para que ela viva e se reproduza.

Então, se já vimos que a Inteligência resulta de processos naturais, sendo abundante na natureza, e se percebemos que à Inteligência vem sempre Conhecimento associado, temos de concluir que também a Vontade é um processo natural, porque onde há Inteligência há Conhecimento e, logo, Vontade!

A conclusão, portanto, é que há Vontade a actuar sobre os processos naturais. Não sei como, ainda mal percebo os processos Inteligentes, pior ainda os processos de Conhecimento, mas percebo que existe uma cadeia inexorável a ligar as três coisas e se existe Inteligência, existe fatalmente Conhecimento e Vontade.

Não estou a falar de uma Vontade consciente. Nem sei se sei o que isso seja. Sei que nem sempre a nossa vontade é consciente, só ficamos conscientes dela pela observação da sua acção. Somos observadores de nós próprios, da nossa Vontade; mas ela existe independentemente da nossa consciência dela.

A Consciência é um processo misterioso que eu ainda não consegui explicar minimamente por processos naturais. O que não quer dizer que não resulte de processos naturais. Ou outros. Não sei.

Mas acho fascinante começar a suspeitar que a Natureza dispõe de Inteligência, Conhecimento e Vontade. Tal como a Estrela-do-Mar tem uma Vontade que a leva a fazer o que lhe é necessário e possível para manter a espécie viva, também a Natureza terá uma Vontade que faz acontecer o que é necessário e possível para que a Vida permaneça.

E qual é a importância de colocar a possibilidade de a Natureza dispor intrinsecamente de Inteligência, Conhecimento e Vontade?


terça-feira, agosto 18, 2009

O Universo Perfeito não é Dominó nem Roleta


A regra de Titius-Bode levanta a suspeita de que na origem do planeta Terra estará uma outra Máquina Perfeita; e assim é. Essa máquina está no Sol (noutra altura descreverei) e a única coisa variável no sistema planetário de estrelas como o Sol é a divisão de massa entre cada planeta e seus satélites. Todas as “Terras” têm uma “Lua” mas a divisão de massa entre uma e outra é aleatória. Isso não é irrelevante, porque se a “Terra” for bastante mais pequena, não existirá a pressão atmosférica necessária à formação das moléculas de azoto nem a dimensão necessária ao jogo de probabilidades que garante o «bilhete premiado» na lotaria da Vida.

Portanto, muitas estrelas como o Sol terão um sistema planetário como o nosso, e em muitos deles existirão as condições necessárias ao aparecimento de Vida do tipo da que existe na Terra.

Mais uma Máquina Perfeita, portanto, tão Perfeita para gerar uma Terra como a Terra é Perfeita para gerar a Vida. E como surge esta Máquina Perfeita de produção de “Terras”?

Não vou apresentar uma teoria sobre a formação das estrelas, mas nesta altura já devem suspeitar que deve ser um processo, uma Máquina, que fabrica de forma clara e determinística um produto de características definidas.

No último post do «outrafísica» mostra-se como se formam as zonas de maior concentração de matéria nas Galáxias, os braços espirais – mais um processo simples e elegante na sequência que transformou a baixíssima densidade inicial na densidade necessária à formação de corpos. Como se mostra no «outrafísica» a distribuição inicial uniforme e isotrópica transforma-se em superfícies esféricas ocas, estas originam anéis de intersecção, e estes as galáxias.

O estado inicial, a Máquina Primeira, a mãe de todas as coisas, é a máquina mais simples possível, uma distribuição uniforme e isotrópica de «partículas elementares»; e tudo se desenrola a partir daí obedecendo a Leis que são o mais simples possível.

Será que, como disse a Metódica num comentário, é tudo como um dominó em que a queda de uma peça origina a sequência de queda de todas as outras?

Notemos o seguinte: o que resulta da queda das peças dum dominó é a consequência necessária das posições iniciais. O estado inicial contém já o estado final. Num processo determinístico típico, toda a informação está já no estado inicial.

É por isso que os cientistas analisam desesperadamente o Ruído de Fundo Cósmico à procura de anisotropias. De Informação inicial.

Só que no Estado Inicial não existe informação nenhuma. A distribuição uniforme e isotrópica representa a ausência de informação, (informação = variações locais dos valores dos parâmetros; existem apenas valores globais, nomeadamente a densidade inicial.)

É por isso que o Universo não é um Dominó gigante, mas um seu oposto – porque é independente duma informação inicial.

Por outro lado, a concepção «científica» actual é que a história do Universo é uma sequência de Acasos, a começar pelo acaso que teria ditado hipotéticas anisotropias iniciais. Muitas pessoas se extasiam perante a maravilhosa e irrepetível sequência de acasos que teria conduzido a este impossível e único acontecimento que é a Vida. Extasiam-se perante um Universo infinitamente imperfeito donde teria emergido esta coisa infinitamente perfeita que é o ser humano. Emergido do pó ou do barro pela mão do Acaso ou de um Deus. O conceito científico ou o religioso, erudito ou popular, é essencialmente o mesmo, aquele que as nossas mentes ignorantes conseguem construir com os nossos raciocínios breves.

Mas não é nada disso. O Acaso aqui é apenas um instrumento de um processo determinístico. A Vida nem é fruto do Acaso nem será um acontecimento improvável nem único. O Universo é subtilmente «perfeito».

A Vida é a consequência determinística e necessária de um estado inicial onde... nada parece estar escrito! A Vida não resulta nem de Informação contida no estado inicial nem da intervenção do «dedo» do Acaso... ou do «dedo» de um Deus...
mas exactamente da sua não-intervenção neste processo que se inicia com a não-informação.

Repare-se no aparente paradoxo que aflige as nossas limitadas meninges: no estado inicial da matéria, onde nada está escrito porque não contém Informação, já tudo está escrito, porque o que sucede depois está deterministicamente definido!

A perfeição do Universo transcende a nossa compreensão. A Vida é um reflexo dela. A consequência necessária e incontornável do... nada!

O facto de o Acaso, ou os Deuses, não terem intervenção no processo evolutivo global do Universo não significa que não existam. Nem que não actuem a uma escala local –
tal como o facto de haver um vencedor do euromilhões nada ter a ver com o Acaso mas o facto de ser Fulano e não Sicrano a ganhar só ter a ver com o Acaso. Ou com os Deuses.

Mas se a Vida não resultou de Informação Inicial, que não existe, nem da intervenção do Acaso ou dos Deuses, a evolução da Vida também pode depender apenas dela própria. Significa isto que não há, portanto, uma Vontade, uma Finalidade? Ou o contrário?

domingo, agosto 02, 2009

Universo: sequência de Máquinas Perfeitas

A Terra é a Máquina Perfeita para gerar a Vida que nela existe. O que quer isto dizer? Quer dizer que a Vida não é um acontecimento improvável nas condições terrestres.

O que é que torna a Vida num acontecimento provável na Terra? Um conjunto preciso de condições. Várias e todas elas bastantes críticas para que a Vida possa ter surgido. Como se tivesse sido desenhado para ser assim.

Um Grande Engenheiro que quisesse projectar uma máquina para fabricar a Vida que conhecemos, projectaria a Terra. Ou seja, projectaria um sistema que assegurasse certas temperaturas e pressões de forma estável mas decrescente a fim de permitir a formação de moléculas com Azoto e assegurar a sua estabilidade; um banho de Dióxido de Carbono supercrítico mas em condições suavemente decrescentes de pressão e temperatura, para permitir o crescimento de macromoléculas; e um banho final de água salgada para forçar a formação da membrana celular.

(para mais detalhes podem consultar a etiqueta «A Origem da Vida»; e se pensam que a comparação com um projecto de engenharia é excessiva, faço notar que existe uma patente para fabrico de compostos azotados - adubos - que define condições do tipo das da Terra inicial)

Neste quadro, o Acaso é uma função usada por esta máquina para achar a combinação «vencedora» mas o resultado final não depende do Acaso – ele acontecerá fatalmente nesta Máquina. É como o Euromilhões: haver um vencedor é um acontecimento de elevada probabilidade.

A concepção corrente presume que a Vida é um acontecimento improvável, um Milagre; que a Terra é fruto de um Acaso improvável num processo caótico de condensação de uma nuvem de matéria; idem para o Sol, e para a Galáxia, consequência de uma anisotropia fortuita na distribuição da matéria a seguir ao Big Bang.

Será que a evolução do Universo é uma sequência determinística de acontecimentos prováveis, ou será que é um passeio aleatório de acontecimentos improváveis? Ou seja, será uma sequência de Máquinas Perfeitas ou uma sequência de Acasos?

Para o saber temos de procurar a sequência de Máquinas, pois a outra hipótese não é testável. A primeira Máquina a procurar é a de produzir planetas “Terra”. E, para o fazer, só temos de pensar como um Engenheiro.

Definamos os objectivos do projecto: para começar, precisamos de um sistema onde esteja disponível uma ampla variedade de elementos, do hidrogénio ao ferro pelo menos; precisamos de temperaturas e pressões iniciais numa certa janela de valores e que sejam estáveis; e precisamos de um processo lento de arrefecimento.

Para produzir os elementos, precisamos de uma fornalha de fusão nuclear. Depois, precisamos de juntar os elementos produzidos e submetê-los a um aquecimento adequado, o que pode ser conseguido colocando os materiais em órbita a adequada distância da fornalha (uma estrela); como não sabemos a priori qual é a distância certa, precisamos de um sistema que gere uma variedade de distâncias; e precisamos que esse aquecimento seja estável, logo a órbita não pode ser muito elíptica, tem de ser tão circular quanto possível.

E aqui temos já um parâmetro que condiciona altamente o projecto: a órbita tem de ser circular! Escusamos de pensar em máquinas que gerem órbitas elípticas, precisamos de uma que gere órbitas circulares! Ora um processo de condensação de matéria gera órbitas elípticas, logo não serve!!!! É preciso um processo doutro tipo!

Aqui entramos em oposição com as ideias correntes: a Máquina de produzir «Terras» não pode ser uma condensação de nuvem de matéria, como se afirma, mas tem de ser um processo que produza órbitas circulares!

Não vou agora descrever a Máquina de produzir Terras, mas digo-vos que, tal como aconteceu com a Máquina de produzir Vida, também a forma como os sistemas planetários são gerados corresponde exactamente àquilo que um Grande Engenheiro projectaria! Novamente, encontramos uma Máquina na qual ocorre uma sequência precisa de processos que conduz à formação de sistemas planetários com as exactas características definidas. Como se tivesse sido desenhada para esse fim.

E se prosseguirmos nesta via, projectando a Máquina que produziria a Máquina de produzir Terras, novamente vamos encontrar exactamente o que um Grande Engenheiro projectaria.

Noutro lugar e ocasião apresentarei as sucessivas Máquinas, cuja compreensão é fascinante. Por agora, meditemos sobre a sua existência.

Será que existe mesmo um Grande Engenheiro que vai definindo os caminhos da evolução do Universo? Continuemos a análise.

Na verdade, a história do Universo tem de ser a sequência dos acontecimentos prováveis e não dos improváveis; «Milagre» e «Acaso» são as explicações da Ignorância, porque suportam-se no conhecimento nulo sobre as coisas. Para subirmos um degrau na compreensão do Universo temos de entender estas Máquinas Perfeitas cuja sequência faz o passado e fará o futuro do Universo.

Uma característica relevantes destas Máquinas Perfeitas é que usam o Acaso como ferramenta, mas não dependem do Acaso.

Vejamos um exemplo. Suponhamos que queremos fazer um programa para determinar a raiz cúbica de qualquer número dado mas não conhecemos um algoritmo para isso; então, podemos fazer o seguinte: escrever uma rotina para gerar aleatoriamente números e testar cada número multiplicando-o por si próprio duas vezes – quando obtivermos o número dado, temos a solução.

Para este caso elementar, isto pode parecer um processo ridículo; mas já é adequado se quisermos resolver problemas de alta complexidade.

Este programa resolve o problema, faz uso do Acaso, mas o resultado não depende do Acaso.

Percebemos pois que o Acaso possa ser usado como ferramenta mas que a sequência de acontecimentos seja independente dele; porém, no exemplo acima, o programa teve de ter alguém para o conceber; e no Universo, como é?

Para sabermos a resposta teremos de ir à procura da Máquina Primeira, aquela que deu origem à sequência de Máquinas Perfeitas.

sexta-feira, julho 17, 2009

A Pedra Angular

É conhecida a hipótese de que a Vida poderia ter começado numa atmosfera especial onde abundavam descargas eléctricas. Isto porque o primeiro grande problema da química da vida é a fixação dos átomos de Azoto. Contrariamente aos de carbono, oxigénio e hidrogénio, os do azoto só muito dificilmente se ligam aos restantes. Mas com umas faíscas consegue-se.

O problema é que as faíscas, embora permitam obter uns compostos de azoto elementares, destroem as cadeias longas necessárias à vida. A vida nunca poderia surgir numa atmosfera de faíscas. As experiências de Miller e outras só provam uma coisa: só por Milagre poderia a Vida surgir, ou sobreviver, em tal ambiente. Portanto, se a Ciência está certa, apenas um Deus pode explicar o aparecimento da Vida porque apenas um Deus faz milagres.

Alguns autores começaram a notar que a química da Vida exige condições de alta temperatura e pressão. A teoria da Ecopoese será o melhor exemplo. Mas como poderiam tais condições ter existido na Terra?

A Teoria da Evanescência dá a resposta: a Terra já esteve mais perto do Sol. As condições da atmosfera terrestre durante os dois primeiros milhar de milhões de anos seriam as ideais para formar a química da Vida. Até ao mais pequeno detalhe – a composição, temperatura e pressão iniciais e a sua variação ao longo do tempo. A Terra foi a máquina perfeita para fabricar a Vida! Na verdade, as condições iniciais são semelhantes às que os humanos engenheiros definiram para o fabrico de compostos de azoto (adubos)!

Cai o queixo de assombro! O Grande Engenheiro não fabricou a Vida, fabricou a máquina de fabricar a Vida!! Óbvio!!! Os engenheiros são assim mesmo, eles não fabricam as coisas, quem fabrica coisas são os artesãos, os engenheiros concebem as máquinas que fabricam as coisas!!!!! Afinal, a Vida não resulta de um milagre, da intervenção do dedo de um Deus, mas é criada por uma máquina concebida por um Grande Engenheiro.

Como funciona esta máquina da Vida?

O Euromilhões pode ajudar-nos a percebê-la.

Um de nós ganhar o Euromilhões é um Acaso, um milagre, algo que mudaria o nosso destino; mas haver um ganhador semanal não é milagre nenhum; e haver pelo menos um por mês é quase certeza absoluta. Assim, um acontecimento que é fruto do Acaso à nossa escala, nada tem a ver com Acaso a uma escala suficientemente grande, pois passa a ser apenas uma consequência das regras e do meio.

A Terra inicial era uma máquina de gerar «chaves do euromilhões»: uma quantidade imensa de átomos formava continuamente combinações. A «chave certa» terá sido uma pequena cadeia de umas centenas de átomos que surgiu estável, capaz de crescer e com certas propriedades.

Assim, nas condições existentes na Terra, o aparecimento da Vida tornou-se algo tão determinístico e certo como haver um ganhador do euromilhões na Europa.

Não foi pois um Milagre, ou seja, a intervenção directa de um Deus, que produziu a Vida na Terra. E também não precisamos de procurar uma origem extraterrestre para a Vida, porque as condições ideais, ao mais ínfimo detalhe, estavam aqui.

Esta Terra inicial não era uma máquina tipo «máquina-ferramenta», destinada à produção em série de um produto pré-definido; era uma máquina de Inteligência, um sistema de «geração de hipóteses + selecção» em que a geração de hipóteses era controlada pelo Acaso – uma máquina «A+S». Uma máquina para resolver um único problema: encontrar a fórmula da Vida.

O pensamento desarvora: e se a Evolução da Vida é também consequência necessária dos diferentes cenários que se vão sucedendo? E se a célula viva contém alguma espécie de «máquina de Turing», ou um qualquer outro sistema de Inteligência? Se o Humano é, tal como a própria Vida, a consequência necessária da condições da Terra?

Será que o Grande Engenheiro apenas teve de conceber a máquina Terra e o resto é tudo consequência? Ou não?

A Máquina de Vida a que chamamos Terra surge-nos pois como uma pedra angular da obra do Grande Engenheiro. Seguindo a seta do tempo, encontramos a questão: o que é a Grande Inteligência / Grande Conhecimento que moverão a Evolução e como o farão? Seguindo o sentido contrário, encontramos a questão: como terá sido construída esta fabulosa máquina de fabricar Vida que é a Terra?

Sobre a Grande Inteligência que move a Evolução, já percebemos algumas coisas: como a Inteligência pode ser um fenómeno natural, e como sistemas naturais podem ser imensamente inteligentes, algo que não nos passaria pela cabeça antes de começarmos a pensar no assunto; mas ainda estamos nos primeiros passos. E do Grande Conhecimento ainda não descobrimos nada.

E andando para trás na seta do tempo? Caminharemos no sentido da complexidade decrescente, logo provavelmente mais simples de compreendermos. A Terra será obra directa ou indirecta do Grande Engenheiro? Ou foi um Acaso, um Milagre, que fabricou tão perfeita máquina, como pretendem os cientistas, que garantem que a Terra é o fruto dum processo caótico de condensação duma nuvem de matéria? Se é como a Ciência diz, então poderemos concluir que existe um Deus porque só o dedo de um Deus faria com que do processo caótico de condensação de uma nuvem de matéria se formasse tão improvável combinação de componentes e condições que caracterizaram a Terra inicial.

Como é? Será que é no processo de formação da Terra que surge uma intervenção sobrenatural que inicia a cadeia de acontecimentos que conduziu até nós?