terça-feira, outubro 13, 2009

Diogo dixit


Em comentário ao anterior post, o Diogo apresentou sumariamente o que pensa sobre o mecanismo da Evolução:

1 – Os vários indivíduos da mesma espécie recebem informação do ambiente e projectam uma estratégia de forma física para fazer face aos novos desafios e novas ameaças.

2 – Como os adultos já não se conseguem alterar transmitem essa pelas células sexuais.

3 – A reprodução sexuada vem permitir um máximo de interacção de quase todos os indivíduos com todos os outros. Ou seja os indivíduos estão a trocar ideias fisicamente.

4 – Esta troca de ideias tem dois objectivos: a) Escolher a melhor estratégia de evolução e aplicá-la a todos os indivíduos em simultâneo.

5 – A nova geração já nasce diferente e mais adaptada.

Analisemos. No ponto 1 diz que ;

1 – Os vários indivíduos da mesma espécie recebem informação do ambiente e projectam uma estratégia de forma física para fazer face aos novos desafios e novas ameaças

Isto é sem dúvida uma hipótese; mas será certa? Como podemos saber se é certa ou errada? Para tal, é necessário algo que suporte a hipótese e que possamos testar. Por exemplo, uma pessoa pode responder à questão “porque anda um carro?” com “porque tem um motor!”. Para que seja aceite como explicação, a primeira condição é que, de facto, haja um motor no carro. Note-se que não é uma condição suficiente, apenas necessária. Por exemplo, uma pessoa poderia também responder “porque tem um volante”; de facto, tem um volante, mas isso não faz o carro andar.

Para suportar esta hipótese de que “os vários indivíduos da mesma espécie ... projectam uma estratégia de forma física” é necessário apresentar um facto. Como é feito esse projecto de estratégia? Que órgão do corpo faz isso? Uma pista qualquer sobre o processo? Estará a basear-se no que aqui se disse sobre a inteligência da célula e dos sistemas de células?

O Diogo nada diz a este respeito. Sem isso, esta hipótese não é uma «explicação». Pode estar certa ou errada, mas o Diogo não nos aponta nenhuma maneira de o sabermos.

Reparemos agora no seguinte: seguindo a mesma linha de raciocínio do Diogo, poderíamos dizer igualmente que

Em face da informação do ambiente recebida pelos vários indivíduos da mesma espécie, um Deus tipo «Grande Engenheiro» projecta uma estratégia de forma física para fazer face aos novos desafios e novas ameaças

Não é assim que um Grande Engenheiro age? Lançando modelos, verificando como se adequa ao ambiente, e introduzindo melhorias?

Ou, ainda, em vez de um Deus poderíamos considerar uma avançada civilização extraterrestre.

Que factos apresenta o Diogo para podermos pensar que a hipótese dele é melhor do que qualquer uma destas? O que as distingue, nesta altura, é apenas a sua adequação às presunções de quem as faz. Digo «nesta altura» porque aqui o Diogo lança uma hipótese nova que ainda não foi investigada. Quem sabe se na sequência de paciente trabalho de investigação não se descobre algo que a suporte? Só que, nesta altura, não há a mínima pista.

Depois, o Diogo diz que:

2 – Como os adultos já não se conseguem alterar, transmitem essa pelas células sexuais.

É importante saber se as células sexuais de um ser contêm qualquer informação diferente da que originou esse ser. Uma informação que resulte da experiência de vida do ser e não de um erro de cópia ou outro processo independente dessa experiência. Mas não sabemos isso. Afirma-se que não contém, essa é a base da argumentação anti-Lamarck, mas não conheço prova convincente. De qualquer forma, como assim é aceite, quem defender que as células sexuais podem conter informação derivada da experiência tem de pelo menos indicar um mecanismo através do qual tal pudesse acontecer. E isso o Diogo não faz. Um caso julgado só volta a julgamento perante factos novos.

Continuando:

3 – A reprodução sexuada vem permitir um máximo de interacção de quase todos os indivíduos com todos os outros. Ou seja os indivíduos estão a trocar ideias fisicamente.

4 – Esta troca de ideias tem dois objectivos: a) Escolher a melhor estratégia de evolução e aplicá-la a todos os indivíduos em simultâneo.

Será que não existe evolução sem reprodução sexuada? Bem, no último número da Nature vem um artigo, creio que co-autorado por um português, que mostra que as células dum cancro de pulmão apresentam uma elevada taxa de mutações... será que evoluem?

Uma coisa parece clara: há reprodução sexuada sem evolução que se note – na verdade, é o que há mais, a inteligência das tartarugas não parece ter sofrido evolução nos últimos 100 milhões de anos, por exemplo.

Podemos questionar: a troca de informação genética será condição necessária mas não suficiente? Será que, como o Diogo diz, essa troca não é «ao acaso», obedece a uma «estratégia»? O Diogo nada diz sobre como pode essa estratégia concretizar-se.

Notem que nada disto significa que o Diogo esteja errado. Apenas que ele não apresentou uma «explicação», apresentou uma «hipótese» sem ter apresentado qualquer prova. O que pode levar uma pessoa a considerar, nesta altura, que a hipótese do Diogo seja melhor do que a Criacionista, por exemplo? Nada, a não ser as crenças pessoais de cada um.


Qual é a diferença estrutural entre esta ideia do Diogo, o Criacionismo e a teoria do Darwin?

Vejamos este exemplo: imaginemos que uma pessoa explica o facto de um carro ser capaz de se mover dizendo: tem um motor, que é um dispositivo que transforma em movimento o calor que um combustível liberta quando arde.

Bem, ainda há muito por explicar. Transforma como?

No entanto, já foi dado um passo muito significativo. Agora, podemos pôr-nos a pensar, buscar uma forma de transformar calor em movimento. Temos uma peça do puzzle e temos um caminho de pesquisa. Se a hipótese fosse apenas «porque tem um motor» não tínhamos quase nada, essa hipótese não representa um «conhecimento» relevante (quem não sabe o que é um motor fica na mesma).

Darwin quase fez isto. Ele deu uma pista sobre como o motor da evolução poderia funcionar. Os descendentes nascem com variações e a natureza selecciona as mais adequadas. E podemos testar que assim acontece. O Darwin encontrou uma peça do puzzle da evolução. O Darwin mostrou que um processo de inteligência elementar, «geração de hipóteses + selecção», é usado na adequação dos seres vivos ao seu ambiente.

O Darwin não apresentou nenhuma teoria sobre o que produz as variações que os seres vivos apresentam. Isso é algo que ainda é alvo de pesquisa. Não se conhecendo nenhum mecanismo capaz de produzir mudanças genéticas capazes de suportar a Evolução, afirma-se que essas mudanças são por acaso. As experiências mostram que as mudanças por acaso só originam seres deficientes, como seria de esperar. Portanto, não se sabe, a Ciência não faz a mais pequena ideia, de como se produzem nos seres mudanças capazes de suportarem um processo evolutivo. O Diogo está a propor que na geração das “variações” dos descendentes não está um processo de acaso ou erro mas um processo de Inteligência.

Bem, na verdade, isto é óbvio, mas só a coragem de o afirmar já merece destaque. Quem não leu os posts em que tentei estabelecer que Inteligência é uma propriedade natural vai-se rir, mas vozes de burro não chegam nem ao Céu nem ao Futuro.

O Diogo pensa que um processo de Inteligência destes têm de se alimentar das consequências das modificações introduzidas, logo considera que a experiência de vida tem de alguma forma fazer parte do processo. Que há um mecanismo de «feedback» entre as alterações introduzidas e as suas consequências. Aqui, ele difere de Darwin, que considera que a geração de variações e sua selecção são processos independentes. A verdade será provavelmente algo mais sofisticado do que qualquer destas hipóteses.

Em conclusão, ao apresentar esta hipótese sobre a evolução das espécies, o Diogo actuou como um Descobridor, pois libertou a mente de ideias que certo «mainstream» papagueia sem perceber e aceita sem analisar e teve a coragem de pensar pela sua própria cabeça. Mas a tarefa do Descobridor é árdua, sem fazer o caminho todo que vai da ideia à prova o seu esforço é inútil. E, neste caso da Evolução, a tarefa é grandiosa demais para as nossas capacidades. A opção é procurar dar pequenos passos, ir juntando pecinhas do puzzle.

Foi o que o Darwin fez, ele só encontrou uma pequenina peça do puzzle, a de que um processo de variação das características seguido de um processo de selecção pode suportar um processo evolutivo. Como se gera essa variação, esse é o grande mistério.

O que sabemos da Evolução, na verdade, é ainda tão pouco e incipiente que corresponde quase à resposta «porque tem um motor». Sabemos que há Evolução, como sabemos que um carro anda; e sabemos que há um mecanismo de variações e selecção como sabemos que o carro tem um motor; mas estamos como a pessoa que não sabe o que é um motor porque nós também não sabemos como se geram essas variações. E é aqui que está a verdadeira questão.

............

Entre o Presente e o Futuro está uma Terra de Ninguém, um deserto onde perdemos as nossas crenças e limpamos a cabeça dos conceitos e das “verdades” do Presente; estamos a acabar a travessia desse deserto, à frente começam a surgir pequenos oásis de Futuro.

terça-feira, setembro 29, 2009

Os Novos Conhecimentos: ICV

Propusemo-nos repensar a Evolução das Espécies. Se fossemos mais inteligentes que o Darwin, sei lá, por exemplo, se fossemos extraterrestres, poderíamos racionar sobre os mesmos dados que ele e pretender chegar a uma teoria mais avançada. Mas não somos, logo, só poderemos dar algum contributo se dispusermos de novos dados, novos Conhecimentos. É disso que temos andado à procura nos posts anteriores. E temos alguma coisa para acrescentar ao que o Darwin sabia. Vamos caracterizar os novos Conhecimentos de que dispomos, começando, neste post, pelo ICV da Natureza. Ou seja, Inteligência+Conhecimento+Vontade.

Temos vindo a perceber, ou a intuir, que Inteligência é um processo natural, que Inteligência gera Conhecimento, que Inteligência operando em cima de Conhecimento gera mais Conhecimento, e que de tudo isto resulta uma Vontade capaz de conduzir o processo de Vida, tal como a acéfala estrela-do-mar tem uma vontade que a conduz à sobrevivência e reprodução. Estas características, que pensávamos existirem apenas associadas a um «cérebro», não precisam, afinal, de «cérebro».

Para nós, é razoavelmente fácil identificar o ICV duma pessoa, porque é algo que existe numa escala que nos é acessível. Já o mesmo não acontece no ICV duma célula ou da Natureza. Mais: podemos dizer onde reside o ICV duma pessoa, no seu cérebro, mas nem a célula nem a Natureza têm um cérebro, o que nos induz à percepção errada de que não há Inteligência, Conhecimento ou Vontade sem um cérebro. Felizmente existem estrelas-do-mar e outros seres para provarem o contrário.

Um cérebro é o órgão por excelência do ICV e tem 2 características básicas: memória, onde se armazena Conhecimento, e comunicação, que permite a movimentação desse conhecimento. São estas as infraestruturas da computação. Um cérebro é uma concentração destas funções, mas elas não são exclusivas de um cérebro. São necessárias para existir ICV, mas não têm de estar concentradas num órgão, num «cérebro».

Com efeito, as células detêm Conhecimento, dado que são capazes de gerar um ser vivo. Reside no ADN e não só. Não temos dúvidas sobre isso, pelo menos no ADN há Conhecimento acumulado. A existência de um Conhecimento prova que existiu uma Inteligência, pois aquele é o fruto desta. Para termos ICV precisamos ainda de capacidade de comunicação. Aquilo que fazem os neurónios. Ora a Vida exibe amplas capacidades de comunicação a variadas escalas. Vejamos:

- As bactérias trocam continuamente pedaços do seu código genético e, como se sabe, nessa sua característica parece residir a sua extraordinária capacidade de resposta às mais variadas condições. Uma comunidade de bactérias exibe um comportamento «sábio» e «inteligente», ou seja, exibe ICV.

- A Célula dispõe obviamente de ICV. Porque pensam que é tão difícil combater o cancro? Uma célula cancerosa é uma estrutura com ICV que actua à revelia do organismo em que se insere. É como uma estrela-do-mar. Busca a sua sobrevivência e multiplicação, esta é a sua vontade.

- Um organismo dispõe de ICV. Todo o funcionamento dum organismo está dependente de contínua e intensa comunicação, a partir da qual cada célula decide, em cada momento, que vai produzir esta proteína e não aquela. Uma comunicação que abrange todas as células do organismo, incluindo as sexuais. A ideia de que a experiência de vida de um ser não pode ter consequências na sua descendência porque as células sexuais estão isoladas está errada. As células sexuais são espectadores de toda a experiência de vida do ser a que pertencem. Experiência essa que pode ficar gravada na fase de amadurecimento dessas células. Que vai ocorrendo ao longo de toda a idade sexual do ser. Num próximo post veremos como podemos agora entender a Girafa muito melhor do que Lamarck ou Darwin e as consequências que daqui se podem deduzir para nós.

- As comunidades de indivíduos da mesma espécie, através da reprodução sexuada, trocam informação genética entre si, portanto, disporão dos meios necessários ao ICV. Outros tipos de comunicação dentro da comunidade também contribuem para o ICV da comunidade.

- A Vida, como um todo, tem ICV. Sabemos que idênticas sequências genéticas surgem em espécies totalmente distintas, o que indicia que também entre todos os seres vivos existe capacidade de comunicação. Como acontece isso, não sabemos. Os vírus podem transmitir pedaços de código genético, são mesmo usados em terapia genética para isso; mas podem existir outros processos que desconhecemos.

A Vida dispõe, portanto, de Memória e de Comunicação, ou seja, dispõe dos meios que suportam o ICV. E dispõe deles em diferentes escalas, cada uma constituindo um sistema com uma certa capacidade intrínseca de evoluir.

Haverá, portanto, ICV, logo, capacidade de evolução, em múltiplas escalas, e não podemos olhar para a Evolução como um fenómeno único, linear, nem pretender uma explicação única, um mecanismo único. Esta conclusão já é um passo em frente.

O ICV está para os fenómenos biológicos como as Leis Físicas para os fenómenos físicos. Porque tanto uma coisa como a outra nos indicam o estado seguinte dos sistemas. Ou seja, nos permitem antecipar o futuro. Por exemplo, podemos antecipar a gama de comportamentos de uma dada estrela-do-mar, porque conhecemos o seu ICV, isto é, sabemos como ela reage em diferentes situações. Assim como podemos antecipar o comportamento de muitas pessoas que conhecemos bem – saber o que elas vão pensar sobre determinado assunto, como vão reagir, etc. Dizemos que conhecemos a «personalidade» da pessoa. É isso que o ICV caracteriza, a «personalidade».

Esta é uma consideração interessante e importante: enquanto uma Lei Física se aplica a um fenómeno específico, o ICV aplica-se ao comportamento de um sistema complexo. Pode ser uma pessoa, a Vida, o sistema económico, uma sociedade humana, o planeta Terra, o Sol, o Universo. A palavra «personalidade» é adequada para representar o comportamento de sistemas complexos.

O director do observatório do Vaticano disse que o objectivo do observatório é entender a «personalidade de Deus». Poderá não ser a frase de um beato, mas a frase de um sábio?

Vamos agora ver outro novo conhecimento.

sábado, agosto 29, 2009

Inteligência+Conhecimento=Vontade


Maravilhamo-nos com a complexidade e sofisticação da Vida e vemos nela a obra de um Criador; pois é isso que a experiência nos ensina, nada surge por acaso ao nosso redor. E sabemos quem criou tudo o que surge de novo: nós! Existe o automóvel? Nós o criamos. Temos casa? Nós a fizemos. Computadores? Nós o inventamos. Toda a obra que não é obra da Natureza é nossa obra. E se toda essa obra tem um criador, então a Vida, a Natureza, o Universo também o terão. Assim o diz o nosso complexo neuronal, este é o conhecimento que ele colheu do mundo.

Mas agora vamos usar a Razão.

A nossa obra resulta da nossa Inteligência e da nossa Vontade. Não é de um Criador que ela precisa, é duma Inteligência e de uma Vontade.

Certo, dirão, mas é o mesmo, a Inteligência e a Vontade são propriedades do criador de qualquer obra, não existem sem ele.

Isso é de facto o que observamos. Não conhecemos Inteligência ou Vontade fora de nós. E sentimos, que sentir é o pensar do Inconsciente, que esta nossa Inteligência e Vontade têm uma origem diferente de tudo o que observamos porque naquilo que observamos não encontramos nem uma coisa nem outra.

Mas a Razão alerta-nos: conhecemos muito pouco, não podemos tirar conclusões como se conhecêssemos tudo! Também Aristóteles concluiu que os objectos que brilham no Céu não podem ser feitos de matéria porque a matéria não pode arder indefinidamente.

Ao longo de vários posts fomos percebendo como a Inteligência pode resultar de processos naturais; percebendo que a nossa própria inteligência pode ser o resultado de processos naturais e não uma «centelha divina». O que não quer dizer que não exista essa «centelha divina», mas apenas que ela não é condição sine qua non para que exista Inteligência.

Sim, é certo, dirão alguns, podemos compreender que os processos naturais possam ter um desenvolvimento que resulte em estruturas mais complexas e organizadas, como se desenhadas por um «grande engenheiro», mas a progressão desses processos não é o resultado de nenhuma «vontade», é sempre a consequência necessária, determinística, única, do estado anterior.

Será?

O que é que resulta de um processo Inteligente? Uma estrutura mais sofisticada? Sim, é certo. Mas isso é, ao mesmo tempo, algo mais – é um Conhecimento.

Quando utilizamos a nossa inteligência para resolver um problema novo e o conseguimos, obtemos um Conhecimento. Não é a única forma de obter um conhecimento, podemos também «aprender». Ou seja, o Conhecimento pode ser transmitido. Mas antes disso tem sempre de ser criado. E é criado por Inteligência.

Temos então uma cadeia: um processo Inteligente produz um Conhecimento; depois, o processo Inteligente usa este Conhecimento para produzir mais Conhecimento; e assim sucessivamente, formas cada vez mais poderosas do par Inteligência-Conhecimento se vão desenvolvendo.

E a Vontade? Donde vem a nossa Vontade?

A nossa Inteligência e o nosso Conhecimento analisam as informações que recolhem e, em face de um critério de selecção definido, resolvem o problema de saber qual a actuação que devemos ter para cumprir esse critério. As instruções fornecidas então ao nosso organismo para cumprimento dessa actuação constituem o que identificamos como «Vontade».

Sem dúvida que a nossa Vontade é um produto da nossa Inteligência e Conhecimento. Conhecimento que pode ter sido adquirido por nós, herdado geneticamente ou até, sabe-se lá, captado por algum receptor que tenhamos na cabeça.

Mas a Vontade não é um exclusivo nosso. Qualquer ser vivo exibe Vontade. A diferença entre nós e os seres vivos mais elementares está em que nós podemos ter Consciência desse processo. Mas uma simples e descerebrada estrela-do-mar tem Vontade como nós, uma Vontade que actua para que ela viva e se reproduza.

Então, se já vimos que a Inteligência resulta de processos naturais, sendo abundante na natureza, e se percebemos que à Inteligência vem sempre Conhecimento associado, temos de concluir que também a Vontade é um processo natural, porque onde há Inteligência há Conhecimento e, logo, Vontade!

A conclusão, portanto, é que há Vontade a actuar sobre os processos naturais. Não sei como, ainda mal percebo os processos Inteligentes, pior ainda os processos de Conhecimento, mas percebo que existe uma cadeia inexorável a ligar as três coisas e se existe Inteligência, existe fatalmente Conhecimento e Vontade.

Não estou a falar de uma Vontade consciente. Nem sei se sei o que isso seja. Sei que nem sempre a nossa vontade é consciente, só ficamos conscientes dela pela observação da sua acção. Somos observadores de nós próprios, da nossa Vontade; mas ela existe independentemente da nossa consciência dela.

A Consciência é um processo misterioso que eu ainda não consegui explicar minimamente por processos naturais. O que não quer dizer que não resulte de processos naturais. Ou outros. Não sei.

Mas acho fascinante começar a suspeitar que a Natureza dispõe de Inteligência, Conhecimento e Vontade. Tal como a Estrela-do-Mar tem uma Vontade que a leva a fazer o que lhe é necessário e possível para manter a espécie viva, também a Natureza terá uma Vontade que faz acontecer o que é necessário e possível para que a Vida permaneça.

E qual é a importância de colocar a possibilidade de a Natureza dispor intrinsecamente de Inteligência, Conhecimento e Vontade?


terça-feira, agosto 18, 2009

O Universo Perfeito não é Dominó nem Roleta


A regra de Titius-Bode levanta a suspeita de que na origem do planeta Terra estará uma outra Máquina Perfeita; e assim é. Essa máquina está no Sol (noutra altura descreverei) e a única coisa variável no sistema planetário de estrelas como o Sol é a divisão de massa entre cada planeta e seus satélites. Todas as “Terras” têm uma “Lua” mas a divisão de massa entre uma e outra é aleatória. Isso não é irrelevante, porque se a “Terra” for bastante mais pequena, não existirá a pressão atmosférica necessária à formação das moléculas de azoto nem a dimensão necessária ao jogo de probabilidades que garante o «bilhete premiado» na lotaria da Vida.

Portanto, muitas estrelas como o Sol terão um sistema planetário como o nosso, e em muitos deles existirão as condições necessárias ao aparecimento de Vida do tipo da que existe na Terra.

Mais uma Máquina Perfeita, portanto, tão Perfeita para gerar uma Terra como a Terra é Perfeita para gerar a Vida. E como surge esta Máquina Perfeita de produção de “Terras”?

Não vou apresentar uma teoria sobre a formação das estrelas, mas nesta altura já devem suspeitar que deve ser um processo, uma Máquina, que fabrica de forma clara e determinística um produto de características definidas.

No último post do «outrafísica» mostra-se como se formam as zonas de maior concentração de matéria nas Galáxias, os braços espirais – mais um processo simples e elegante na sequência que transformou a baixíssima densidade inicial na densidade necessária à formação de corpos. Como se mostra no «outrafísica» a distribuição inicial uniforme e isotrópica transforma-se em superfícies esféricas ocas, estas originam anéis de intersecção, e estes as galáxias.

O estado inicial, a Máquina Primeira, a mãe de todas as coisas, é a máquina mais simples possível, uma distribuição uniforme e isotrópica de «partículas elementares»; e tudo se desenrola a partir daí obedecendo a Leis que são o mais simples possível.

Será que, como disse a Metódica num comentário, é tudo como um dominó em que a queda de uma peça origina a sequência de queda de todas as outras?

Notemos o seguinte: o que resulta da queda das peças dum dominó é a consequência necessária das posições iniciais. O estado inicial contém já o estado final. Num processo determinístico típico, toda a informação está já no estado inicial.

É por isso que os cientistas analisam desesperadamente o Ruído de Fundo Cósmico à procura de anisotropias. De Informação inicial.

Só que no Estado Inicial não existe informação nenhuma. A distribuição uniforme e isotrópica representa a ausência de informação, (informação = variações locais dos valores dos parâmetros; existem apenas valores globais, nomeadamente a densidade inicial.)

É por isso que o Universo não é um Dominó gigante, mas um seu oposto – porque é independente duma informação inicial.

Por outro lado, a concepção «científica» actual é que a história do Universo é uma sequência de Acasos, a começar pelo acaso que teria ditado hipotéticas anisotropias iniciais. Muitas pessoas se extasiam perante a maravilhosa e irrepetível sequência de acasos que teria conduzido a este impossível e único acontecimento que é a Vida. Extasiam-se perante um Universo infinitamente imperfeito donde teria emergido esta coisa infinitamente perfeita que é o ser humano. Emergido do pó ou do barro pela mão do Acaso ou de um Deus. O conceito científico ou o religioso, erudito ou popular, é essencialmente o mesmo, aquele que as nossas mentes ignorantes conseguem construir com os nossos raciocínios breves.

Mas não é nada disso. O Acaso aqui é apenas um instrumento de um processo determinístico. A Vida nem é fruto do Acaso nem será um acontecimento improvável nem único. O Universo é subtilmente «perfeito».

A Vida é a consequência determinística e necessária de um estado inicial onde... nada parece estar escrito! A Vida não resulta nem de Informação contida no estado inicial nem da intervenção do «dedo» do Acaso... ou do «dedo» de um Deus...
mas exactamente da sua não-intervenção neste processo que se inicia com a não-informação.

Repare-se no aparente paradoxo que aflige as nossas limitadas meninges: no estado inicial da matéria, onde nada está escrito porque não contém Informação, já tudo está escrito, porque o que sucede depois está deterministicamente definido!

A perfeição do Universo transcende a nossa compreensão. A Vida é um reflexo dela. A consequência necessária e incontornável do... nada!

O facto de o Acaso, ou os Deuses, não terem intervenção no processo evolutivo global do Universo não significa que não existam. Nem que não actuem a uma escala local –
tal como o facto de haver um vencedor do euromilhões nada ter a ver com o Acaso mas o facto de ser Fulano e não Sicrano a ganhar só ter a ver com o Acaso. Ou com os Deuses.

Mas se a Vida não resultou de Informação Inicial, que não existe, nem da intervenção do Acaso ou dos Deuses, a evolução da Vida também pode depender apenas dela própria. Significa isto que não há, portanto, uma Vontade, uma Finalidade? Ou o contrário?

domingo, agosto 02, 2009

Universo: sequência de Máquinas Perfeitas

A Terra é a Máquina Perfeita para gerar a Vida que nela existe. O que quer isto dizer? Quer dizer que a Vida não é um acontecimento improvável nas condições terrestres.

O que é que torna a Vida num acontecimento provável na Terra? Um conjunto preciso de condições. Várias e todas elas bastantes críticas para que a Vida possa ter surgido. Como se tivesse sido desenhado para ser assim.

Um Grande Engenheiro que quisesse projectar uma máquina para fabricar a Vida que conhecemos, projectaria a Terra. Ou seja, projectaria um sistema que assegurasse certas temperaturas e pressões de forma estável mas decrescente a fim de permitir a formação de moléculas com Azoto e assegurar a sua estabilidade; um banho de Dióxido de Carbono supercrítico mas em condições suavemente decrescentes de pressão e temperatura, para permitir o crescimento de macromoléculas; e um banho final de água salgada para forçar a formação da membrana celular.

(para mais detalhes podem consultar a etiqueta «A Origem da Vida»; e se pensam que a comparação com um projecto de engenharia é excessiva, faço notar que existe uma patente para fabrico de compostos azotados - adubos - que define condições do tipo das da Terra inicial)

Neste quadro, o Acaso é uma função usada por esta máquina para achar a combinação «vencedora» mas o resultado final não depende do Acaso – ele acontecerá fatalmente nesta Máquina. É como o Euromilhões: haver um vencedor é um acontecimento de elevada probabilidade.

A concepção corrente presume que a Vida é um acontecimento improvável, um Milagre; que a Terra é fruto de um Acaso improvável num processo caótico de condensação de uma nuvem de matéria; idem para o Sol, e para a Galáxia, consequência de uma anisotropia fortuita na distribuição da matéria a seguir ao Big Bang.

Será que a evolução do Universo é uma sequência determinística de acontecimentos prováveis, ou será que é um passeio aleatório de acontecimentos improváveis? Ou seja, será uma sequência de Máquinas Perfeitas ou uma sequência de Acasos?

Para o saber temos de procurar a sequência de Máquinas, pois a outra hipótese não é testável. A primeira Máquina a procurar é a de produzir planetas “Terra”. E, para o fazer, só temos de pensar como um Engenheiro.

Definamos os objectivos do projecto: para começar, precisamos de um sistema onde esteja disponível uma ampla variedade de elementos, do hidrogénio ao ferro pelo menos; precisamos de temperaturas e pressões iniciais numa certa janela de valores e que sejam estáveis; e precisamos de um processo lento de arrefecimento.

Para produzir os elementos, precisamos de uma fornalha de fusão nuclear. Depois, precisamos de juntar os elementos produzidos e submetê-los a um aquecimento adequado, o que pode ser conseguido colocando os materiais em órbita a adequada distância da fornalha (uma estrela); como não sabemos a priori qual é a distância certa, precisamos de um sistema que gere uma variedade de distâncias; e precisamos que esse aquecimento seja estável, logo a órbita não pode ser muito elíptica, tem de ser tão circular quanto possível.

E aqui temos já um parâmetro que condiciona altamente o projecto: a órbita tem de ser circular! Escusamos de pensar em máquinas que gerem órbitas elípticas, precisamos de uma que gere órbitas circulares! Ora um processo de condensação de matéria gera órbitas elípticas, logo não serve!!!! É preciso um processo doutro tipo!

Aqui entramos em oposição com as ideias correntes: a Máquina de produzir «Terras» não pode ser uma condensação de nuvem de matéria, como se afirma, mas tem de ser um processo que produza órbitas circulares!

Não vou agora descrever a Máquina de produzir Terras, mas digo-vos que, tal como aconteceu com a Máquina de produzir Vida, também a forma como os sistemas planetários são gerados corresponde exactamente àquilo que um Grande Engenheiro projectaria! Novamente, encontramos uma Máquina na qual ocorre uma sequência precisa de processos que conduz à formação de sistemas planetários com as exactas características definidas. Como se tivesse sido desenhada para esse fim.

E se prosseguirmos nesta via, projectando a Máquina que produziria a Máquina de produzir Terras, novamente vamos encontrar exactamente o que um Grande Engenheiro projectaria.

Noutro lugar e ocasião apresentarei as sucessivas Máquinas, cuja compreensão é fascinante. Por agora, meditemos sobre a sua existência.

Será que existe mesmo um Grande Engenheiro que vai definindo os caminhos da evolução do Universo? Continuemos a análise.

Na verdade, a história do Universo tem de ser a sequência dos acontecimentos prováveis e não dos improváveis; «Milagre» e «Acaso» são as explicações da Ignorância, porque suportam-se no conhecimento nulo sobre as coisas. Para subirmos um degrau na compreensão do Universo temos de entender estas Máquinas Perfeitas cuja sequência faz o passado e fará o futuro do Universo.

Uma característica relevantes destas Máquinas Perfeitas é que usam o Acaso como ferramenta, mas não dependem do Acaso.

Vejamos um exemplo. Suponhamos que queremos fazer um programa para determinar a raiz cúbica de qualquer número dado mas não conhecemos um algoritmo para isso; então, podemos fazer o seguinte: escrever uma rotina para gerar aleatoriamente números e testar cada número multiplicando-o por si próprio duas vezes – quando obtivermos o número dado, temos a solução.

Para este caso elementar, isto pode parecer um processo ridículo; mas já é adequado se quisermos resolver problemas de alta complexidade.

Este programa resolve o problema, faz uso do Acaso, mas o resultado não depende do Acaso.

Percebemos pois que o Acaso possa ser usado como ferramenta mas que a sequência de acontecimentos seja independente dele; porém, no exemplo acima, o programa teve de ter alguém para o conceber; e no Universo, como é?

Para sabermos a resposta teremos de ir à procura da Máquina Primeira, aquela que deu origem à sequência de Máquinas Perfeitas.

sexta-feira, julho 17, 2009

A Pedra Angular

É conhecida a hipótese de que a Vida poderia ter começado numa atmosfera especial onde abundavam descargas eléctricas. Isto porque o primeiro grande problema da química da vida é a fixação dos átomos de Azoto. Contrariamente aos de carbono, oxigénio e hidrogénio, os do azoto só muito dificilmente se ligam aos restantes. Mas com umas faíscas consegue-se.

O problema é que as faíscas, embora permitam obter uns compostos de azoto elementares, destroem as cadeias longas necessárias à vida. A vida nunca poderia surgir numa atmosfera de faíscas. As experiências de Miller e outras só provam uma coisa: só por Milagre poderia a Vida surgir, ou sobreviver, em tal ambiente. Portanto, se a Ciência está certa, apenas um Deus pode explicar o aparecimento da Vida porque apenas um Deus faz milagres.

Alguns autores começaram a notar que a química da Vida exige condições de alta temperatura e pressão. A teoria da Ecopoese será o melhor exemplo. Mas como poderiam tais condições ter existido na Terra?

A Teoria da Evanescência dá a resposta: a Terra já esteve mais perto do Sol. As condições da atmosfera terrestre durante os dois primeiros milhar de milhões de anos seriam as ideais para formar a química da Vida. Até ao mais pequeno detalhe – a composição, temperatura e pressão iniciais e a sua variação ao longo do tempo. A Terra foi a máquina perfeita para fabricar a Vida! Na verdade, as condições iniciais são semelhantes às que os humanos engenheiros definiram para o fabrico de compostos de azoto (adubos)!

Cai o queixo de assombro! O Grande Engenheiro não fabricou a Vida, fabricou a máquina de fabricar a Vida!! Óbvio!!! Os engenheiros são assim mesmo, eles não fabricam as coisas, quem fabrica coisas são os artesãos, os engenheiros concebem as máquinas que fabricam as coisas!!!!! Afinal, a Vida não resulta de um milagre, da intervenção do dedo de um Deus, mas é criada por uma máquina concebida por um Grande Engenheiro.

Como funciona esta máquina da Vida?

O Euromilhões pode ajudar-nos a percebê-la.

Um de nós ganhar o Euromilhões é um Acaso, um milagre, algo que mudaria o nosso destino; mas haver um ganhador semanal não é milagre nenhum; e haver pelo menos um por mês é quase certeza absoluta. Assim, um acontecimento que é fruto do Acaso à nossa escala, nada tem a ver com Acaso a uma escala suficientemente grande, pois passa a ser apenas uma consequência das regras e do meio.

A Terra inicial era uma máquina de gerar «chaves do euromilhões»: uma quantidade imensa de átomos formava continuamente combinações. A «chave certa» terá sido uma pequena cadeia de umas centenas de átomos que surgiu estável, capaz de crescer e com certas propriedades.

Assim, nas condições existentes na Terra, o aparecimento da Vida tornou-se algo tão determinístico e certo como haver um ganhador do euromilhões na Europa.

Não foi pois um Milagre, ou seja, a intervenção directa de um Deus, que produziu a Vida na Terra. E também não precisamos de procurar uma origem extraterrestre para a Vida, porque as condições ideais, ao mais ínfimo detalhe, estavam aqui.

Esta Terra inicial não era uma máquina tipo «máquina-ferramenta», destinada à produção em série de um produto pré-definido; era uma máquina de Inteligência, um sistema de «geração de hipóteses + selecção» em que a geração de hipóteses era controlada pelo Acaso – uma máquina «A+S». Uma máquina para resolver um único problema: encontrar a fórmula da Vida.

O pensamento desarvora: e se a Evolução da Vida é também consequência necessária dos diferentes cenários que se vão sucedendo? E se a célula viva contém alguma espécie de «máquina de Turing», ou um qualquer outro sistema de Inteligência? Se o Humano é, tal como a própria Vida, a consequência necessária da condições da Terra?

Será que o Grande Engenheiro apenas teve de conceber a máquina Terra e o resto é tudo consequência? Ou não?

A Máquina de Vida a que chamamos Terra surge-nos pois como uma pedra angular da obra do Grande Engenheiro. Seguindo a seta do tempo, encontramos a questão: o que é a Grande Inteligência / Grande Conhecimento que moverão a Evolução e como o farão? Seguindo o sentido contrário, encontramos a questão: como terá sido construída esta fabulosa máquina de fabricar Vida que é a Terra?

Sobre a Grande Inteligência que move a Evolução, já percebemos algumas coisas: como a Inteligência pode ser um fenómeno natural, e como sistemas naturais podem ser imensamente inteligentes, algo que não nos passaria pela cabeça antes de começarmos a pensar no assunto; mas ainda estamos nos primeiros passos. E do Grande Conhecimento ainda não descobrimos nada.

E andando para trás na seta do tempo? Caminharemos no sentido da complexidade decrescente, logo provavelmente mais simples de compreendermos. A Terra será obra directa ou indirecta do Grande Engenheiro? Ou foi um Acaso, um Milagre, que fabricou tão perfeita máquina, como pretendem os cientistas, que garantem que a Terra é o fruto dum processo caótico de condensação duma nuvem de matéria? Se é como a Ciência diz, então poderemos concluir que existe um Deus porque só o dedo de um Deus faria com que do processo caótico de condensação de uma nuvem de matéria se formasse tão improvável combinação de componentes e condições que caracterizaram a Terra inicial.

Como é? Será que é no processo de formação da Terra que surge uma intervenção sobrenatural que inicia a cadeia de acontecimentos que conduziu até nós?

terça-feira, julho 07, 2009

À procura de uma Vontade: o Grande Engenheiro



Fascinante o Olho! Como é possível que células vivas se tornem completamente transparentes para formar o cristalino? E toda aquela complexa maquinaria óptica ligada a um feixe imenso de nervos que conduz os impulsos a um computador mais potente que qualquer dos nossos supercomputadores? Como pode ter surgido tal maravilha? Obra de uma Grande Inteligência com certeza, um Grande Engenheiro, que outra coisa poderemos pensar, a priori, perante tal maravilha?


Um Grande Engenheiro pode implicar a existência de uma Finalidade, um Grande Projecto, uma Vontade. Será que podemos perceber qual seja esse Grande Projecto?

Não estou a falar de um «Deus», é claro; os deuses têm outros poderes, como transformar água em vinho ou pão em rosas. Ou castigar, orientar, perdoar. Averiguar a existência de deuses é uma outra pesquisa, aqui estou só a raciocinar sobre factos objectivos e do conhecimento de todas as pessoas. Sem obedecer a metodologias nem a crenças, sem medos nem presunções, usando apenas uma Lógica Inocente.


Analisemos o processo que conduziu ao Olho, à procura de entendermos algo mais sobre o Grande Engenheiro.


O Olho não apareceu de repente, há toda uma série de máquinas ópticas anteriores. Será que o Grande Engenheiro, como os humanos engenheiros, foi desenvolvendo modelo após modelo, servido embora por uma inteligência muito superior, uma Grande Inteligência? Ou o Grande Engenheiro tem o Grande Conhecimento e tudo o que existe forma um conjunto inteiro, perfeito em cada uma das partes? Pois que o olho do insecto não poderia ser igual ao nosso, o insecto dispõe do projecto óptico perfeito para ele como o nosso o é para nós; o olho do insecto não é um «olho primitivo» mas um produto final optimizado para o insecto.

Ou seja, será que o Grande Engenheiro se caracteriza pela Grande Inteligência, isto é, vai desenvolvendo novas soluções sobre as anteriores, ou pelo Grande Conhecimento, isto é, põe em prática aquilo que já sabe?

Qual é a importância desta discussão? É que a Inteligência pode ser uma capacidade endógena da célula, da espécie ou mesmo da Vida, tal como é uma capacidade endógena do nosso cérebro; e pode ainda ser uma propriedade de sistemas naturais, não vivos. Pode não implicar um Projecto, uma Finalidade. Mas o Grande Conhecimento será exógeno e implica um Projecto.

O facto de as espécies aparecerem segundo um grau crescente de complexidade aponta para a Grande Inteligência. Será?

A análise da evolução da temperatura terrestre sugere, à primeira vista, uma resposta diferente: a temperatura terrestre cresce monotonamente em direcção ao passado (ver aqui) ; então, nós não podíamos existir quando surgiram insectos, peixes, batráquios e répteis porque era quente demais para as nossas células! A temperatura óptima de reprodução de certas moscas, por exemplo, é de cerca de 45ºC, retratando a temperatura terrestre na altura da génese dessa espécie. Antes de nós, as células tinham de ser menos sofisticadas do que as nossas, terem proteínas mais simples, para terem uma «janela térmica» mais larga!

Ao compararmos o surgimento das diferentes formas de vida e o gráfico da temperatura da Terra, percebemos que elas surgiram quase logo que possível! Isso explicaria porque os diferentes níveis de desenvolvimento surgiram de forma «explosiva»: surgiram assim que a temperatura baixou o suficiente!
(claro que este «assim que» é relativo a estas escalas de tempo – pode ser de vários milhões de anos)


. A temperatura da Terra no passado e o aparecimento de diferentes graus de complexidade da Vida.


Poderemos então concluir que o Grande Engenheiro dispõe do Grande Conhecimento? E a sequência do aparecimento das espécies traduz não um processo evolutivo mas simplesmente a introdução das espécies de acordo com a temperatura na altura?

Não necessariamente, ainda há uma alternativa: pode não ter o Grande Conhecimento mas dispor de uma Grande Inteligência, que lhe permitiu avançar rapidamente na Evolução sempre que a temperatura o consentiu. Note-se que mesmo no caso do Grande Conhecimento, a introdução de novas espécies só pode ser feita por pequenos passos, por sucessivas modificações de espécies anteriores, pois cada indivíduo descende doutro. Assim, tanto a Grande Inteligência como o Grande Conhecimento podem explicar a evolução rápida que ocorreu sempre que a temperatura desceu o suficiente para permitir um novo grau de complexidade proteica.


Mas há um aspecto que ressalta: qual é a temperatura óptima para as proteínas, aquela que permite a máxima complexidade? Ora a resposta é: cerca de 37ºC! Uma temperatura que já foi ultrapassada há perto de 150 milhões de anos!

Que nos diz isso? Que não há limitação térmica à introdução de espécies mais avançadas desde há mais de 100 milhões de anos. Os animais de «sangue quente» são já uma adaptação ao frio! As células dos dinossáurios já podem ter sido tão avançadas como as dos animais de sangue quente, apenas não tinham sistema de «aquecimento» porque não precisavam, a temperatura da Terra na altura era a ideal. Os Dinossáurios não seriam pois répteis, por isso se deslocavam como os animais de sangue quente que lhes sucederam e não como os répteis. E por isso se extinguiram. Os Dinossáurios foram extintos pelo brusco abaixamento térmico que sucedeu a seguir ao Evento catastrófico que ocorreu há cerca de 60 milhões de anos e já estavam em vias de extinção na altura, porque a temperatura já estava baixa demais para as suas sensíveis proteínas em células sem «aquecimento».

Podemos então estranhar que tantos milhões de anos tenham sido necessários para se chegar ao Humano actual se o Grande Engenheiro dispusesse do Grande Conhecimento. Esta «lenta» evolução para o Humano parece mais de acordo com uma Grande Inteligência do que com um Grande Conhecimento porque nada parece ser impeditivo de que um Grande Conhecimento originasse os Humanos há dezenas de milhões de anos atrás.

Muitas questões se colocam aqui, para as quais não temos resposta satisfatória nesta altura. Precisamos de entender porque é que a Evolução desenha uma árvore tipo Araucária. Uma coisa parece certa: esta «árvore» já não lança ramos, cresce, se crescer ainda, apenas pelo tronco. Este ponto carece de uma análise extensa, que fica para ser feita nos posts sobre Evolução. Temos de nos virar para outro lado, procurar acontecimentos marcantes onde a intervenção do Grande Engenheiro se possa perceber com mais clareza. E, para isso, nada como a Origem da Vida, não é verdade? Pois é este o mais misterioso de todos os fenómenos, a passagem do inanimado para o animado.

(continua)

sexta-feira, junho 19, 2009

Todas as células são neurónios (2ª parte)


Fig:o nosso sistema de localização (GPS) e o da célula (GRN)


«Informação funcional»... mas onde reside esta informação no código genético? Onde é que a célula germinativa tem as instruções para andar ou para identificar visualmente objectos? Onde é que ela tem as «tabelas»? Será no genoma?

Nós sabemos hoje que as células trocam informações entre elas, esse é um mecanismo vital. Tão poderoso que permite aos animais sem cérebro comportarem-se como se o tivessem – por exemplo, a estrela-do-mar, o ouriço-do-mar, a medusa, a minhoca. Não têm cérebro mas movem-se, alimentam-se, reproduzem-se.

Reparo agora numa coisa: o cérebro também não tem «sistema nervoso central». Aquele monte imenso de neurónios depende das comunicações entre eles. E não está organizado como um «chip» de computador, pois neurónios em diferentes partes cérebro contribuem para a mesma função.

Bom, isto não é mais surpreendente que a própria formação de cada ser vivo: a partir de uma única célula que se vai dividindo, cada nova célula vai-se transformando apropriadamente para gerar o novo ser. Baseada em quê? Não há comando central na formação do ser. Baseada apenas na sua base de informação e nas informações que troca com as células vizinhas (e, eventualmente, na memória das células donde descende). Um saltinho a esta página da Wikipedia (gene regulatory network) mostra o pouco mas fascinante conhecimento sobre estes processos que já temos. Vou transcrever uma parte:

A major feature of multicellular animals is the use of morphogen gradients, which in effect provide a positioning system that tells a cell where in the body it is, and hence what sort of cell to become. / … / . Over longer distances morphogens may use the active process of signal transduction. Such signalling controls embryogenesis, the building of a body plan from scratch through a series of sequential steps. They also control maintain adult bodies through feedback processes.”

Dito assim até parece um mecanismo simples. Mas, como sempre tem acontecido, acabaremos por descobrir um processo altamente sofisticado e eficiente. Porque tudo o que se passa num ser vivo tem a eficiência de, por exemplo, o nosso olho. É tudo incrivelmente eficiente e sofisticado. É tudo como o Olho.

Este processo de localização acima descrito parece simples; mas localizar significa determinar a posição num sistema de coordenadas. Como faz um GPS. O receptor de GPS conhece a localização dos satélites do sistema e o sinal recebido destes tem uma marca temporal, obtida de um relógio atómico, que permite a um complexo algoritmo, conhecendo a velocidade de propagação do sinal, determinar a posição. Ora localizar dentro do corpo é muito mais complicado porque não existe uma velocidade de propagação constante e as fontes do sinal são múltiplas e de localização desconhecida do receptor a não ser que transmitam a sua localização. Portanto, o sistema de localização há-de ser algo bem sofisticado, utilizando um sistema de coordenadas que nem imaginamos qual possa ser. E, no entanto, é apenas uma capacidade trivial das células.

Um ser vivo não é uma máquina, é uma sociedade de células. Onde o fluxo de informação é essencial, permanente. Onde cada célula reage em função da informação residente nela e da que recebe. Cada célula é um «neurónio» no sentido em que processa imensa informação e comunica constantemente com as outras células. E tudo o que se passa num ser vivo é altamente sofisticado e eficiente, qualquer «explicação» simplória só pode ser disparate.

Bem, isto faz cair o essencial da argumentação anti – Lamarck: as células germinativas, óvulos e espermatozóides, também recebem os sinais que as outras células emitem; então, a experiência de vida do ser a que pertencem passa por elas. Terá consequências? Naturalmente, seria «estúpido» que essa informação fosse desperdiçada. E se há coisa que a Vida não é, é «estúpida», ela é muito mais «Inteligente» do que nós. Temos de meter isso nas nossas cabecinhas arrogantes.

Bom, mas qual é a Informação que se transmite geracionalmente?

(continua)

quarta-feira, junho 10, 2009

Todas as Células são «Neurónios» (1ª parte)

Vou fazer agora a um exercício de divagação. Divagar é um processo indispensável à Descoberta (no fundo, é uma forma sofisticada de «acaso+selecção»). Vamos divagar pelo nosso próprio percurso desde o nascimento e prestar atenção ao nosso funcionamento.

Como é que iniciamos a nossa interacção com o exterior? Aparentemente, colhendo informações ao acaso – fazemos movimentos, colhemos percepções visuais, tácteis, sonoras. Com isto, podemos fazer uma tabela dos impulsos a aplicar aos músculos para executarmos os movimentos pretendidos. Depois, apenas temos de «consultar a Tabela» para executar os movimentos pretendidos, ou interpretar as imagens, falar, ouvir, etc.

Será? Será assim tão simples?


Não é nada simples, exige imenso processamento. Por exemplo, a nossa representação do exterior usa um espaço euclidiano a 3 dimensões, mas isto não corresponde directamente às informações dos sentidos. O cérebro tem de processar muita informação de todos os sentidos para chegar a esse modelo 3D. Não é o que «os olhos vêem». Eu sou míope e posso usar óculos ou lentes de contacto. A imagem que se forma na minha retina num caso e noutro é muito diferente porque os óculos distorcem a imagem. Qualquer míope sabe que quando muda de graduação tem de ter cuidado a descer uma escada porque os degraus não estão onde ele os vê enquanto o cérebro não corrige a nova informação visual. O meu cérebro tem duas Tabelas de conversão – uma para os óculos, outra para as lentes de contacto. Experiências com voluntários mostraram que o cérebro até é capaz de corrigir a informação de lentes que invertem horizontalmente as imagens.

O modelo 3D também não resulta das informações musculares por si só, pois estamos sujeitos a um campo gravítico, sendo o esforço a fazer para um movimento dependente da direcção deste. Apenas a conjunção das informações visuais e motoras pode, se puder, descortinar a característica euclidiana do espaço.

Levanta-se então uma questão: é o cérebro que conclui que o espaço é 3D, euclidiano, à custa de imenso processamento das informações sensoriais, ou essa informação é herdada, como qualquer outra característica fisiológica? Hummm, talvez nem uma coisa nem outra, este é apenas o modelo espacial mais simples, pode vir associado ao programa de processamento de imagem.... Interessante questão, tenho de voltar a ela, mas agora está a «bater-me» na tola outra coisa: é impressionante como as informações musculares estão tão bem adaptadas: tanto me custa levantar como abaixar um braço; no entanto, são dois movimentos com um esforço bem diferente.

E quando pegamos num objecto, o cérebro já sabe que força vai fazer – nunca vos aconteceu pegar num objecto que era muito mais leve do que pensavam e o movimento sair muito brusco? Mas isso é raro acontecer, porque o cérebro já tem uma Tabela que lhe permite saber o peso de todos os objectos... muito bem preenchida a «Tabela»!

Como é o processo de Inteligência que usamos para preencher estas tabelas de informação? É... «acaso+feedback+selecção». «A+F+S». A selecção é feita pelo cérebro, através do processamento da informação fornecida pelo «feedback».

Ora temos aqui algo novo em relação à «selecção natural»! A aprendizagem de funcionamentos não é feita pela natureza mas pelo próprio indivíduo. Ele é o Seleccionador. E para isso tem um processo de recolha de informação, de feedback.

Mas reparo que há uma coisa a que eu não estou a dar o devido relevo: os programas que o cérebro tem de ter para processar toda esta informação. Para a Visão, tem de ter um programa muito complexo para conseguir identificar as formas, como o pessoal que trabalha em processamento de imagem tem vindo a descobrir... é muito espertinho o cérebro... e se formos analisar a fala, e a audição, novamente encontramos a necessidade de sofisticados programas com que o cérebro tem de vir dotado.

O que me leva de novo ao espaço 3D... é herdado ou descoberto? E se o cérebro vem cheio de programas à nascença, também pode trazer informação... que informação trazemos nós quando nascemos sobre o mundo exterior?

Claro, há os «instintos»... as aves conhecem o falcão mesmo sem nunca terem visto nenhum... ou melhor, identificam qualquer silhueta voadora com pescoço curto como «perigo»... e todos os animais sabem andar logo que nascem, não é? Já nascem com essa Tabela preenchida!!

A propósito do saber andar: a principal diferença entre nós e um veadinho, um «Bambi», é que o Bambi nasce «terminado» e nós nascemos por acabar, andamos cerca de um ano depois de nascermos em «acabamentos»; nesse caso, será que somos mesmo nós que preenchemos essas tabelas em função da nossa interacção com o mundo exterior, somos nós que descobrimos como se anda, ou é uma informação que já está em nós e que vai sendo colocada no lugar durante o nosso primeiro ano de vida «exterior»?

Ou seja, é como se o nosso período de gestação fosse de uns 20 meses mas temos de sair da barriga da mãe antes disso. É que não faz sentido nenhum pensar que nós perdemos uma informação que as crias de veado têm... não somos menos do que o Bambi, não é? Assim, com este truque de nascer antes de tempo, numa tribo humana, que é muito mais capaz do que a «tribo» do Bambi para cuidar dos seus recém-nascidos, as fêmeas podem engravidar todos os anos em vez de ser de dois em dois anos, aumentando a taxa de reprodução. Inteligente a Natureza...

Preenchemos a Tabela ou ela vem preenchida? As duas coisas, pelos vistos... Certamente que a preenchemos, pois aprendemos a identificar objectos que não existiam anteriormente; mas parece que a informação indispensável à sobrevivência já lá vem – a silhueta do falcão nas galinhas e outras aves, o «saber andar» do Bambi. As duas coisas portanto...

Bom, mas se este conhecimento é herdado, teve alguma origem – e só podem ter sido os nossos antepassados muito distantes, desde há uns 500 milhões de anos que esta informação vem sendo adquirida e transmitida aos descendentes... e adaptada por estes à medida que os órgãos de locomoção e dos sentidos iam sofrendo evoluções...

Oops, mas para que isto possa ser assim, é preciso que a informação adquirida por um ser vivo possa ser transmitida aos descendentes!!! Não há hipótese nenhuma de explicar plausivelmente pela «selecção natural» que uma ave que nunca viu um falcão fuja da sua silhueta, ou que o Bambi saiba andar à nascença, não é verdade?

Há outra alternativa para explicar os «instintos»? Se alguém souber, que o diga.

Notem: não estou a dizer o mesmo que o Lamarck, não estou a falar da transmissão de modificações fisiológicas, mas de «transmissão de informação funcional».

(continua)

quinta-feira, maio 28, 2009

Quatro Sistemas para Exploração do Universo



A pequena bactéria iniciou, aos primeiros raios do nascer do Sol daquele longínquo dia, há quase mil milhões de anos, a extraordinária aventura de exploração deste Mundo desconhecido e em mudança. Para isso ela teve de se associar com outras bactérias, construir imensas máquinas de exploração, que receberam nomes como «plantas» e «animais». E para realizar esse imenso e complexo percurso ela dispôs de 4 sistemas de navegação. Quatro magníficos sistemas que ela soube usar com a perícia que o tempo dá. Quatro sistemas que lhe disseram o que fazer e como o fazer.

Vamos conhecer esses sistemas. São sistemas que permitem resolver problemas. Genericamente, são sistemas de Inteligência. Mas vamos detalhar a sua natureza e classificação.

Voltemos ao exemplo do Labirinto.

O nível mais elementar de actuação que permite resolver o labirinto é andar ao acaso até dar com a saída, o que designei por «Hipóteses+Selecção», ou «H+S» no texto anterior; mal designado, penso eu hoje... «Acaso+Selecção», ou «A+S» parece-me mais adequado, e é assim que o referirei de agora em diante. Não esqueçam: o «H+S» foi substituído pelo «A+S»!

Já vimos que este nível só é eficiente em situações onde a geração de acasos seja muito elevada e o custo de cada hipótese falhada irrisório.

Depois, referi que podia resolver um labirinto se andasse sempre encostado ao mesmo lado. Sem dúvida que este processo é muito mais eficiente, 100% eficiente. Mas a Inteligência não está na aplicação desta regra resolvente, está no processo que conduziu a ela. E que processo foi esse? Foi um processo de geração de hipóteses com um grau de complexidade superior – nada de transcendente, pois “virar sempre para o mesmo lado” é a alternativa mais básica a “virar ao acaso” – seguido do teste da hipótese.

Temos aqui um processo mais estruturado de elaboração de alternativas, de Hipóteses, seguido da aplicação da hipótese escolhida; depois, a análise do resultado e a aprovação ou rejeição da hipótese. Portanto, temos algo de novo em relação ao primeiro processo: temos «Feedback», ou seja, precisamos do resultado do teste para aprovar ou rejeitar a hipótese. Uma vez aprovada, a hipótese fica a fazer parte duma base de conhecimento, associada ao problema do labirinto.

Este nível de Inteligência apresenta grandes diferenças para o primeiro: assenta num processo mais estruturado de geração de hipóteses, que já não são obtidas por mecanismos de acaso, seguido do teste e da análise do resultado do teste. E o resultado deste processo é o quê? Um item duma base de conhecimentos. Um Conhecimento.
Como poderemos nomear este nível? Dissequemos.

As Hipóteses não saem de uma base de conhecimentos, são algo de novo, mas também não são fruto de acaso; são fruto de um processo... criativo! Portanto, podemos designar o primeiro passo do processo por «Criatividade». O segundo passo é o teste da hipótese, a experimentação, a acção. Vou escolher a palavra «Acção». O terceiro é o «Feedback». Esta palavra representa bem o terceiro passo e é bem conhecida. Todos sabemos que o organismo se regula por «bio-feedback». O «Feedback» é um processo corrente na interacção dos organismos vivos com o meio.

Portanto, vou designar este nível de Inteligência por «Criatividade+Acção+Feedback» ou «C+A+F».

O que é específico desta sequência é a Criatividade, pois os outros dois passos são comuns aos mecanismos de regulação, ao bio-feedback. No próximo post tentaremos perceber como se realiza o processo de Criatividade.

Inteligência é um processo associado à geração de hipóteses novas; mas isso não é sempre necessário para resolver problemas – rarissimamente usamos hipóteses novas, o que fazemos é aplicar o que já sabemos às situações que nos vão aparecendo. Podemos assim identificar dois tipos de processos: o de Inteligência e o de Ajustamento (escolhi esta palavra agora mesmo... em inglês diria “fitting”... aceito sugestões).

O «Feedback» é um processo de Ajustamento de nível 1; não é de Inteligência porque não há criatividade no processo.

Reparemos agora como actua um médico: primeiro, faz o Diagnóstico da situação, identificando um quadro a que chama «doença»; depois, aplica um Procedimento, que é o tratamento conhecido para essa doença. Desta forma, ele resolve um problema, o mal-estar da pessoa. Reparem que «doença» não significa a identificação da causa da doença, apenas o quadro de sintomas. No caso de uma pneumonia, sabemos qual é a causa, mas no caso de uma doença reumática, por exemplo, não sabemos – temos apenas um quadro de sintomas e um conjunto de tratamentos que sabemos poderem dar algum resultado, mas não temos necessariamente uma relação lógica ou de causa-efeito entre as duas coisas.

Este processo de «Diagnóstico+Procedimento» é um processo geral que aplicamos constantemente em tudo o que fazemos - quando andamos, comemos, consultamos o email, resolvemos as questões da nossa vida profissional, das nossas relações sociais, etc. Resolve problemas cuja solução já é conhecida ou que se podem decompor em problemas conhecidos. Reparem: «aprender a andar» é um processo de inteligência de nível 1, um processo de tentativa e erro; mas «andar» já não é um processo de Inteligência mas sim de Ajustamento, pois depende da base de conhecimentos construída no processo de aprendizagem e não da geração de hipótese novas.


Organizemos então o que já percebemos:

- Dois tipos de processos de resolução de problemas: os de «Inteligência» e os de «Ajustamento»; vou designá-los por processos I e processos A

- Dois níveis de Inteligência: o nível 1 «Acaso+Selecção» e o nível 2 «Criatividade+Acção+Feedback». Simbolicamente direi que temos: I1=«A+S» e I2=«C+A+F»

- Dois níveis de Ajustamento: de nível 1 o «Feedback» e de nível 2 «Diagnóstico+Procedimento»; A1=«F», A2=«D+P»


Veremos a seguir alguma coisa sobre o uso que fazemos destes processos, o que nos permitirá compreendê-los melhor e saber tirar melhor partido das nossas capacidades. E, muito importante, compreender as nossas limitações.

Dotados de uma melhor compreensão destes 4 processos, poderemos então abordar a questão da Evolução. Reparem a vantagem que temos à partida sobre o Darwin: vamos «armados» com 4 processos capazes de produzirem modificações nos seres vivos, enquanto ele só tinha 1 processo de Inteligência e nem sabia da existência de genes.