quarta-feira, junho 10, 2009

Todas as Células são «Neurónios» (1ª parte)

Vou fazer agora a um exercício de divagação. Divagar é um processo indispensável à Descoberta (no fundo, é uma forma sofisticada de «acaso+selecção»). Vamos divagar pelo nosso próprio percurso desde o nascimento e prestar atenção ao nosso funcionamento.

Como é que iniciamos a nossa interacção com o exterior? Aparentemente, colhendo informações ao acaso – fazemos movimentos, colhemos percepções visuais, tácteis, sonoras. Com isto, podemos fazer uma tabela dos impulsos a aplicar aos músculos para executarmos os movimentos pretendidos. Depois, apenas temos de «consultar a Tabela» para executar os movimentos pretendidos, ou interpretar as imagens, falar, ouvir, etc.

Será? Será assim tão simples?


Não é nada simples, exige imenso processamento. Por exemplo, a nossa representação do exterior usa um espaço euclidiano a 3 dimensões, mas isto não corresponde directamente às informações dos sentidos. O cérebro tem de processar muita informação de todos os sentidos para chegar a esse modelo 3D. Não é o que «os olhos vêem». Eu sou míope e posso usar óculos ou lentes de contacto. A imagem que se forma na minha retina num caso e noutro é muito diferente porque os óculos distorcem a imagem. Qualquer míope sabe que quando muda de graduação tem de ter cuidado a descer uma escada porque os degraus não estão onde ele os vê enquanto o cérebro não corrige a nova informação visual. O meu cérebro tem duas Tabelas de conversão – uma para os óculos, outra para as lentes de contacto. Experiências com voluntários mostraram que o cérebro até é capaz de corrigir a informação de lentes que invertem horizontalmente as imagens.

O modelo 3D também não resulta das informações musculares por si só, pois estamos sujeitos a um campo gravítico, sendo o esforço a fazer para um movimento dependente da direcção deste. Apenas a conjunção das informações visuais e motoras pode, se puder, descortinar a característica euclidiana do espaço.

Levanta-se então uma questão: é o cérebro que conclui que o espaço é 3D, euclidiano, à custa de imenso processamento das informações sensoriais, ou essa informação é herdada, como qualquer outra característica fisiológica? Hummm, talvez nem uma coisa nem outra, este é apenas o modelo espacial mais simples, pode vir associado ao programa de processamento de imagem.... Interessante questão, tenho de voltar a ela, mas agora está a «bater-me» na tola outra coisa: é impressionante como as informações musculares estão tão bem adaptadas: tanto me custa levantar como abaixar um braço; no entanto, são dois movimentos com um esforço bem diferente.

E quando pegamos num objecto, o cérebro já sabe que força vai fazer – nunca vos aconteceu pegar num objecto que era muito mais leve do que pensavam e o movimento sair muito brusco? Mas isso é raro acontecer, porque o cérebro já tem uma Tabela que lhe permite saber o peso de todos os objectos... muito bem preenchida a «Tabela»!

Como é o processo de Inteligência que usamos para preencher estas tabelas de informação? É... «acaso+feedback+selecção». «A+F+S». A selecção é feita pelo cérebro, através do processamento da informação fornecida pelo «feedback».

Ora temos aqui algo novo em relação à «selecção natural»! A aprendizagem de funcionamentos não é feita pela natureza mas pelo próprio indivíduo. Ele é o Seleccionador. E para isso tem um processo de recolha de informação, de feedback.

Mas reparo que há uma coisa a que eu não estou a dar o devido relevo: os programas que o cérebro tem de ter para processar toda esta informação. Para a Visão, tem de ter um programa muito complexo para conseguir identificar as formas, como o pessoal que trabalha em processamento de imagem tem vindo a descobrir... é muito espertinho o cérebro... e se formos analisar a fala, e a audição, novamente encontramos a necessidade de sofisticados programas com que o cérebro tem de vir dotado.

O que me leva de novo ao espaço 3D... é herdado ou descoberto? E se o cérebro vem cheio de programas à nascença, também pode trazer informação... que informação trazemos nós quando nascemos sobre o mundo exterior?

Claro, há os «instintos»... as aves conhecem o falcão mesmo sem nunca terem visto nenhum... ou melhor, identificam qualquer silhueta voadora com pescoço curto como «perigo»... e todos os animais sabem andar logo que nascem, não é? Já nascem com essa Tabela preenchida!!

A propósito do saber andar: a principal diferença entre nós e um veadinho, um «Bambi», é que o Bambi nasce «terminado» e nós nascemos por acabar, andamos cerca de um ano depois de nascermos em «acabamentos»; nesse caso, será que somos mesmo nós que preenchemos essas tabelas em função da nossa interacção com o mundo exterior, somos nós que descobrimos como se anda, ou é uma informação que já está em nós e que vai sendo colocada no lugar durante o nosso primeiro ano de vida «exterior»?

Ou seja, é como se o nosso período de gestação fosse de uns 20 meses mas temos de sair da barriga da mãe antes disso. É que não faz sentido nenhum pensar que nós perdemos uma informação que as crias de veado têm... não somos menos do que o Bambi, não é? Assim, com este truque de nascer antes de tempo, numa tribo humana, que é muito mais capaz do que a «tribo» do Bambi para cuidar dos seus recém-nascidos, as fêmeas podem engravidar todos os anos em vez de ser de dois em dois anos, aumentando a taxa de reprodução. Inteligente a Natureza...

Preenchemos a Tabela ou ela vem preenchida? As duas coisas, pelos vistos... Certamente que a preenchemos, pois aprendemos a identificar objectos que não existiam anteriormente; mas parece que a informação indispensável à sobrevivência já lá vem – a silhueta do falcão nas galinhas e outras aves, o «saber andar» do Bambi. As duas coisas portanto...

Bom, mas se este conhecimento é herdado, teve alguma origem – e só podem ter sido os nossos antepassados muito distantes, desde há uns 500 milhões de anos que esta informação vem sendo adquirida e transmitida aos descendentes... e adaptada por estes à medida que os órgãos de locomoção e dos sentidos iam sofrendo evoluções...

Oops, mas para que isto possa ser assim, é preciso que a informação adquirida por um ser vivo possa ser transmitida aos descendentes!!! Não há hipótese nenhuma de explicar plausivelmente pela «selecção natural» que uma ave que nunca viu um falcão fuja da sua silhueta, ou que o Bambi saiba andar à nascença, não é verdade?

Há outra alternativa para explicar os «instintos»? Se alguém souber, que o diga.

Notem: não estou a dizer o mesmo que o Lamarck, não estou a falar da transmissão de modificações fisiológicas, mas de «transmissão de informação funcional».

(continua)

quinta-feira, maio 28, 2009

Quatro Sistemas para Exploração do Universo



A pequena bactéria iniciou, aos primeiros raios do nascer do Sol daquele longínquo dia, há quase mil milhões de anos, a extraordinária aventura de exploração deste Mundo desconhecido e em mudança. Para isso ela teve de se associar com outras bactérias, construir imensas máquinas de exploração, que receberam nomes como «plantas» e «animais». E para realizar esse imenso e complexo percurso ela dispôs de 4 sistemas de navegação. Quatro magníficos sistemas que ela soube usar com a perícia que o tempo dá. Quatro sistemas que lhe disseram o que fazer e como o fazer.

Vamos conhecer esses sistemas. São sistemas que permitem resolver problemas. Genericamente, são sistemas de Inteligência. Mas vamos detalhar a sua natureza e classificação.

Voltemos ao exemplo do Labirinto.

O nível mais elementar de actuação que permite resolver o labirinto é andar ao acaso até dar com a saída, o que designei por «Hipóteses+Selecção», ou «H+S» no texto anterior; mal designado, penso eu hoje... «Acaso+Selecção», ou «A+S» parece-me mais adequado, e é assim que o referirei de agora em diante. Não esqueçam: o «H+S» foi substituído pelo «A+S»!

Já vimos que este nível só é eficiente em situações onde a geração de acasos seja muito elevada e o custo de cada hipótese falhada irrisório.

Depois, referi que podia resolver um labirinto se andasse sempre encostado ao mesmo lado. Sem dúvida que este processo é muito mais eficiente, 100% eficiente. Mas a Inteligência não está na aplicação desta regra resolvente, está no processo que conduziu a ela. E que processo foi esse? Foi um processo de geração de hipóteses com um grau de complexidade superior – nada de transcendente, pois “virar sempre para o mesmo lado” é a alternativa mais básica a “virar ao acaso” – seguido do teste da hipótese.

Temos aqui um processo mais estruturado de elaboração de alternativas, de Hipóteses, seguido da aplicação da hipótese escolhida; depois, a análise do resultado e a aprovação ou rejeição da hipótese. Portanto, temos algo de novo em relação ao primeiro processo: temos «Feedback», ou seja, precisamos do resultado do teste para aprovar ou rejeitar a hipótese. Uma vez aprovada, a hipótese fica a fazer parte duma base de conhecimento, associada ao problema do labirinto.

Este nível de Inteligência apresenta grandes diferenças para o primeiro: assenta num processo mais estruturado de geração de hipóteses, que já não são obtidas por mecanismos de acaso, seguido do teste e da análise do resultado do teste. E o resultado deste processo é o quê? Um item duma base de conhecimentos. Um Conhecimento.
Como poderemos nomear este nível? Dissequemos.

As Hipóteses não saem de uma base de conhecimentos, são algo de novo, mas também não são fruto de acaso; são fruto de um processo... criativo! Portanto, podemos designar o primeiro passo do processo por «Criatividade». O segundo passo é o teste da hipótese, a experimentação, a acção. Vou escolher a palavra «Acção». O terceiro é o «Feedback». Esta palavra representa bem o terceiro passo e é bem conhecida. Todos sabemos que o organismo se regula por «bio-feedback». O «Feedback» é um processo corrente na interacção dos organismos vivos com o meio.

Portanto, vou designar este nível de Inteligência por «Criatividade+Acção+Feedback» ou «C+A+F».

O que é específico desta sequência é a Criatividade, pois os outros dois passos são comuns aos mecanismos de regulação, ao bio-feedback. No próximo post tentaremos perceber como se realiza o processo de Criatividade.

Inteligência é um processo associado à geração de hipóteses novas; mas isso não é sempre necessário para resolver problemas – rarissimamente usamos hipóteses novas, o que fazemos é aplicar o que já sabemos às situações que nos vão aparecendo. Podemos assim identificar dois tipos de processos: o de Inteligência e o de Ajustamento (escolhi esta palavra agora mesmo... em inglês diria “fitting”... aceito sugestões).

O «Feedback» é um processo de Ajustamento de nível 1; não é de Inteligência porque não há criatividade no processo.

Reparemos agora como actua um médico: primeiro, faz o Diagnóstico da situação, identificando um quadro a que chama «doença»; depois, aplica um Procedimento, que é o tratamento conhecido para essa doença. Desta forma, ele resolve um problema, o mal-estar da pessoa. Reparem que «doença» não significa a identificação da causa da doença, apenas o quadro de sintomas. No caso de uma pneumonia, sabemos qual é a causa, mas no caso de uma doença reumática, por exemplo, não sabemos – temos apenas um quadro de sintomas e um conjunto de tratamentos que sabemos poderem dar algum resultado, mas não temos necessariamente uma relação lógica ou de causa-efeito entre as duas coisas.

Este processo de «Diagnóstico+Procedimento» é um processo geral que aplicamos constantemente em tudo o que fazemos - quando andamos, comemos, consultamos o email, resolvemos as questões da nossa vida profissional, das nossas relações sociais, etc. Resolve problemas cuja solução já é conhecida ou que se podem decompor em problemas conhecidos. Reparem: «aprender a andar» é um processo de inteligência de nível 1, um processo de tentativa e erro; mas «andar» já não é um processo de Inteligência mas sim de Ajustamento, pois depende da base de conhecimentos construída no processo de aprendizagem e não da geração de hipótese novas.


Organizemos então o que já percebemos:

- Dois tipos de processos de resolução de problemas: os de «Inteligência» e os de «Ajustamento»; vou designá-los por processos I e processos A

- Dois níveis de Inteligência: o nível 1 «Acaso+Selecção» e o nível 2 «Criatividade+Acção+Feedback». Simbolicamente direi que temos: I1=«A+S» e I2=«C+A+F»

- Dois níveis de Ajustamento: de nível 1 o «Feedback» e de nível 2 «Diagnóstico+Procedimento»; A1=«F», A2=«D+P»


Veremos a seguir alguma coisa sobre o uso que fazemos destes processos, o que nos permitirá compreendê-los melhor e saber tirar melhor partido das nossas capacidades. E, muito importante, compreender as nossas limitações.

Dotados de uma melhor compreensão destes 4 processos, poderemos então abordar a questão da Evolução. Reparem a vantagem que temos à partida sobre o Darwin: vamos «armados» com 4 processos capazes de produzirem modificações nos seres vivos, enquanto ele só tinha 1 processo de Inteligência e nem sabia da existência de genes.

quinta-feira, maio 14, 2009

Processos Inteligentes da Evolução: «H+S»




A Mãe Natureza é extremosa e tudo faz para que nos sintamos bem, confortáveis, felizes. Impressionante a forma como consegue dotar-nos de corpos tão bem adaptados ao nicho ecológico em que vivemos! De tal maneira o faz que até pensamos que é ao contrário, que o mutável Mundo foi feito à nossa medida e não o contrário. Assim está escrito no Livro. E falamos de «alterações climáticas» porque se o clima se parece alterar, desajustar em relação às nossas memórias de infância, isso só pode ser devido à intervenção humana.

Mas como o consegue ela? Como adapta o focinho do urso-formigueiro, o bico do pica-pau, o voo do beija-flor, o pescoço da girafa, o sonar do morcego?

Há, sem dúvida, por definição (o conceito que propus), um processo Inteligente por detrás desta capacidade de adaptação. Sabemos qual é o processo Inteligente elementar: geração de Hipóteses + Selecção. Será este?

Darwin analisou este, o mais elementar dos processos Inteligentes. Fez bem, há que começar pelo princípio.

Pensou então Darwin que as crias de cada espécie não serão apenas uma mistura das características dos progenitores mas contêm um elemento de diversidade. Os seus «parâmetros de projecto» contêm um elemento aleatório. Por exemplo, o tamanho do bico poderia ser mais ou menos 10% do tamanho que resultaria das características dos pais (o exemplo é meu). Ou o tamanho do pescoço. Consideremos o caso da Girafa. O pescoço dos descendentes seria nuns casos mais pequeno que o dos pais, noutros igual, noutros maior. Os que nascem com pescoço maior chegam a ramos mais altos e comem mais, crescendo mais fortes, sobrevivendo mais, reproduzindo-se mais. Com os seus descendentes o mesmo se passará. Ao fim de umas gerações, o pescoço das Girafas estaria, em média, bem mais alto. Até atingir a altura óptima para a vegetação do seu nicho.

Convincente, não é verdade? Sem dúvida, uma explicação simples e elegante.

Antes de Darwin, Lamarck tinha proposto algo diferente: as adaptações ocorriam nos indivíduos em função das suas necessidades; depois, pela reprodução, seriam transmitidas aos descendentes. Esta ideia, porém, tem dois problemas: por um lado, a observação parece mostrar que os indivíduos adultos não sofrem modificações, não se adaptam – o que serão em adultos parece estar definido à nascença; por outro lado, as células germinativas são definidas nos primeiros tempos de vida, como poderiam então elas adquirir informação sobre posteriores adaptações do ser a que pertencem?

As ideias de Darwin parecem capazes de explicar o processo evolutivo. É este, pois, o indiscutível processo usado pela Natureza para adaptar os seres vivos aos respectivos nichos ecológicos?

Analisemos com mais detalhe o funcionamento do processo de Selecção. Uma via de selecção é a sexual – os machos mais capazes ou favorecidos pelas fêmeas reproduzem-se mais. Assim, os genes dos machos são seleccionados. Mas atenção: os das fêmeas não são! Os machos engravidam todas as fêmeas, não fazem esse tipo de selecção. Ora os genes das crias vêem do pai e da mãe (algo que o Darwin não saberia). Portanto a metade dos genes de origem maternal não é seleccionada por esta via. Quais as consequências?

Voltemos ao caso da Girafa. A cria da girafa contém um gene do pescoço do pai e outro do pescoço da mãe (não será apenas um gene, isto é uma exemplificação). Se o gene do pai dominar, ela poderá ter um pescoço longo. Mas se for o da mãe, ela poderá ter um pescoço curto, pois a mãe não foi seleccionada pelo tamanho do pescoço. Ou seja, a facto dos genes da mãe não serem seleccionados origina um alargamento da distribuição do tamanho dos pescoços no sentido do alongamento. Podem aparecer girafas com pescoços grandes mas não deixam de aparecer girafas com pescoços curtos. Ora não é isto que se observa, a selecção unissexuada não parece suficiente para explicar o alongamento do pescoço das girafas sem aumento da dispersão.



Diferença nas consequências de um processo de selecção que afecta os dois sexos (em cima) ou só um (em baixo); a azul a distribuição inicial (esquemática) de uma caracteristica (no caso o tamanho do pescoço de uma população de girafas) e a vermelho a distribuição final.


Haverá outra selecção? As mães com pescoço mais longo são mais robustas e sobrevivem mais e procriam mais?
Pode ser. Mas agora o processo já não é tão eficiente. Esta selecção implica que as girafas de pescoço curto e normal tenham vida curta. Para funcionar, este tipo de selecção exige que apenas uma minoria de girafas sobreviva, só assim este processo de selecção pode ser eficiente.

Além disso, um pescoço longo envolve muito mais do que umas vértebras maiores; para além das modificações do esqueleto, há adaptações do sistema circulatório e outras; uma girafa com um pescoço maior, sem as outras adaptações, não seria um ser com vantagem mas o contrário. A selecção natural eliminaria tal ser, não o seleccionaria.

Entendamos:

1 - As modificações morfológicas dos seres vivos, todas elas, sejam internas ou externas, o desenvolvimento do olho ou da asa ou o andar em duas pernas, revelam um «Processo Inteligente» de acordo com o conceito de Inteligência que propus;
2- «Hipóteses + Selecção» é o mais elementar processo de Inteligência;
3- por ser um processo de Inteligência, podemos explicar todas as modificações dos seres vivos com ele;
4-
mas essa não é a questão. A questão é saber se foi este o processo utilizado ou se foi outro!
5- A dificuldade está em que nós não fomos ainda capazes de definir / descobrir outro processo. O equivalente a
resolver o labirinto virando sempre para o mesmo lado.

O processo «Hipóteses+Selecção», ou «H+S», é um processo que depende da possibilidade de gerar hipóteses em alto número e de uma selecção muito eficiente que só selecciona uma parte ínfima das hipóteses; mas é completamente ineficiente se estas duas condições não estiverem reunidas.

Este processo exigiria um número de crias alto por ninhada, tempo de maturação sexual curto, e sistemática geração de crias com «parâmetros» fora dos «parâmetros» dos pais. Ora, nos animais, parece não existir nenhum mecanismo sistemático de geração da requerida dispersão dos valores dos parâmetros, apenas uma ínfima percentagem de erros de cópia em relação ao total de crias, os quais só geram alguma minúscula vantagem apenas numa percentagem ínfima de casos. Portanto, o intenso processo de geração de hipóteses essencial a um processo «H+S» não existe nos seres vivos com alguma complexidade.


Que sugerem estas considerações? Que o processo proposto por Darwin poderá funcionar nos virus, nas bactérias, eventualmente em espécies inferiores, onde a procriação se faz em grande número.

Nas espécies superiores, porém, não parece nada adequado: o número de crias é demasiado pequeno para a selecção ser um mecanismo eficiente, o investimento nas crias é demasiadamente grande para servir de suporte a um processo com o desperdício deste, e a geração de crias «mutantes», com características que não resultem exclusivamente dos pais é ínfima e geralmente catastrófica. «H+ S» não parece um processo de Inteligência nem suficiente nem adequado para explicar as adaptações das espécies superiores.

Bom, mas então como será? Que sofisticados procedimentos desenvolveu a Natureza para assegurar a adaptação das espécies superiores, nomeadamente o Humano, aos seus nichos ecológicos?

sexta-feira, maio 01, 2009

Processos Inteligentes Não Evolutivos


A lagarta da Biston Betulária assume a cor castanha à esquerda e a verde à direita (da Wikipedia)

Um caso que se apresenta como paradigmático do Darwinismo é o das borboletas da espécie Biston Betularia: em Inglaterra, antes da revolução industrial, estas borboletas seriam maioritariamente de cor clara; depois, com o ambiente escuro produzido pela poluição, as borboletas pretas tornaram-se dominantes; actualmente, a população das claras tem vindo a aumentar. Um claro exemplo da Selecção Natural, diz-se: as borboletas pretas viam-se melhor antes da revolução industrial, por contrastarem com o fundo claro das bétulas em que repousavam, sendo comidas pelos pássaros, enquanto o contrário sucederia depois da revolução industrial, onde eram as pretas que escapavam às esfomeadas aves, assegurando uma descendência de borboletas pretas – a Selecção Natural encontrara assim a cor certa para assegurar a sobrevivência das borboletas.

Este caso, frequentemente citado ainda hoje, mostra bem como as ideias mais absurdas podem ser aceites como verdadeiras e lógicas desde que sejam simplórias. Mas isto é «Lógica da Batata». Porque se as coisas se passam assim, este caso é completamente banal, não tem o mais pequeno interesse, não prova absolutamente nada. Antes pelo contrário, as borboletas brancas estão de volta, logo isto nada pode ter a ver com «evolução», porque esta tem um sentido, o homem não pode evoluir para o macaco...

Subjacente a esta explicação inútil está a ideia de que a Natureza é estúpida, sendo a Inteligência propriedade exclusiva dos humanos, o seu dom Divino; como estúpida que é, gera indiscriminadamente borboletas pretas, brancas e cinzentas. Mas cabe uma questão: se a natureza é tão estúpida, porque se dá ao trabalho de fazer borboletas em 3 tons?

Há, porém, um aspecto completamente ignorado neste processo que pode dar-lhe algum interesse:
a borboleta, antes de o ser, é uma lagarta! Então, enquanto lagarta, ela percepciona o mundo exterior e pode fazer escolhas sobre a borboleta que há-de ser. Será que é a experiência de vida da lagarta que determina a cor da borboleta? Será a lagarta uma espia do mundo exterior? Não sei, ninguém se lembrou de fazer tal experiência... Mas há um aspecto que deveria ter chamado a atenção dos cientistas: a lagarta desta borboleta tem propriedades miméticas!

Já viram como pode ser útil a capacidade de espiar como é o Mundo antes de fabricar o produto final?

Já repararam que nós temos esta capacidade?

Na verdade, um bebé não deixa de ser uma forma larvar do ser humano. Porque no bebé não está completamente definido o adulto – os módulos que hão-de integrar o seu cérebro não estão ainda definidos. O bebé nasce com o objectivo de interagir com o mundo exterior, de o explorar, e é a partir dessa exploração que se definirão as suas capacidades.

Por exemplo, sabe-se que uma criança que cresça isolada dos humanos e não aprenda a falar até aos 8 anos, nunca conseguirá falar correctamente – o seu módulo de comunicação pela linguagem não se desenvolveu. Mas outros módulos de comunicação se desenvolveram, mais adequados ao mundo que ela experienciou.

Sabemos também que alguns têm «ouvido musical», outros nem pouco mais ou menos. É outro módulo mental. Como a aptidão para a matemática é também um módulo mental. Ou a aptidão para descodificar as expressões faciais. Ou a aptidão para a dança. Ou para o teatro. Ou para a pintura. Ou para a poesia. Ou para a corrida. Ou para sonhar.

Há inúmeros parâmetros no projecto do nosso cérebro, envolvendo a maneira de pensar e de sentir; são parcialmente definidos geneticamente e são parcialmente definidos na nossa fase larvar, ou seja, nos nossos primeiros anos de vida, em que somos espiões do Mundo.

A capacidade da Vida de se definir em função da sua vizinhança é a base da construção dos seres vivos e das sociedades de seres vivos. É assim que o nosso corpo se forma: cada célula vai-se definindo em função das células vizinhas. É assim que uma célula estaminal se pode tornar em qualquer tipo de célula, ao ser colocada no meio de células desse tipo. É assim que certas espécies podem mudar de sexo mesmo na fase adulta.

É por isso que os primeiros anos de vida são tão importantes. É por isso que é mais importante a antecipação da idade escolar para os 5 anos do que o aumento da escolaridade obrigatória.

Dirão: «
então pessoas criadas exactamente no mesmo ambiente teriam as mesmas capacidades e personalidades». Nem pouco mais ou menos! Nascemos diferentes, o que a experiência dos primeiros anos de vida faz é a optimização dos parâmetros com que nascemos para o ambiente em que crescemos. A Diversidade é uma característica essencial da Vida.

Há em África uma região de lagos próximos. Lagos interiores, sem comunicação com o mar. Nesses lagos,
peixes ciclídeos foram introduzidos, e originaram muitas centenas de espécies em cada lago. E, coisa extraordinária, parece que essas espécies, que se terão desenvolvido independentemente em cada lago, apresentam grandes semelhanças em lagos diferentes. Quase como a especiação das células em dois seres da mesma espécie.

Isto sugere que a geração de espécies não resultou de um processo de erro, aleatório. Uma explicação é que a selecção sexual seria a responsável pela geração de novas espécies. Outra é que isto indicia a existência de um programa, um processo determinístico de geração de espécies. De geração de Diversidade. Seja como for, um facto sobreleva: a espantosa geração de diversidade, mais de mil espécies se originaram de um número pequeno (8, segundo um estudo) de espécies iniciais.

Notem que isto é o oposto das ideias que regem muitas teorias económicas, políticas e sociais: na Natureza, se tivermos 1000 espécies no mesmo ambiente, elas não competem até que fique só uma, mas é exactamente ao contrário, se existir só uma geram-se mil. A Natureza tem horror à uniformidade! A competição não é a regra, a lei não é a do mais forte.

Também a História da Matéria se inicia num estado de uniformidade absoluta, retratado pelo Ruído do Fundo Cósmico, e toda ela é o percurso da uniformidade para a diversidade, para a complexidade.

É por isso que somos todos diferentes. Mas todos iguais, porque não somos melhores nem piores em valor em absoluto.
Somos... diversos!

Percebemos assim que

- temos uma herança genética,
- temos um processo que gera, de forma possivelmente determinística, diversidade a partir dessa herança,
- temos uma fase «larvar» em que os nossos parâmetros são ajustados ao mundo em que vamos supostamente viver.

Três etapas na construção de cada indivíduo!

E nada disto tem a ver com «Evolução». Nem a cor das borboletas, nem as espécies dos ciclídeos. Seria o mesmo que dizer que as células da retina são uma evolução das células do fígado.

Mas ainda há outro factor que contribui para a nossa definição... a Natureza ainda é mais inteligente do que aqui se disse.

terça-feira, abril 14, 2009

Inteligências: a Aprendizagem



O nível de Inteligência mais elementar já conhecemos:

[Geração Aleatória de Hipóteses + Selecção].

Este nível de Inteligência é o mais eficiente quando a capacidade de geração de hipóteses é da ordem de grandeza do número de hipóteses possíveis. Por exemplo, como qualquer apostador do euromilhões sabe, as suas chaves, geradas aleatóriamente, nunca acertam – o número de hipóteses que um apostador pode produzir não é significativo. Mas, por outro lado, quase todas as semanas há quem acerte – o número total de apostas é significativo em relação ao número de combinações possíveis. O método é eficiente considerando a totalidade de apostas geradas mas ineficiente a nível individual.

Um caso onde a Natureza teria usado este método foi na geração da Vida. No cenário que apresentei (ver etiqueta «Origem da Vida»), ter-se-ão produzidas combinações dos átomos que formam a vida em número significativo em relação ao número de combinações possíveis. Nesse cenário, este método elementar é tão capaz de produzir Vida como o conjunto dos apostadores de produzir uma chave ganhadora no euromilhões. Este é o método mais eficiente para um problema deste tipo.

Depois, a Vida, para evoluir, carece de outros métodos de Inteligência porque a capacidade de gerar hipóteses em número significativo deixa de existir; e quanto mais a vida evolui, menor é a capacidade de gerar hipóteses, porque cada vez é menor o número de indivíduos e maior o tempo de reprodução; e maior é o número de combinações possíveis. A Evolução da Vida suporta-se certamente em processos de Inteligência altamente sofisticados. Não podemos esperar entendê-los imediatamente, teremos de ir dando os passinhos que as nossas pernas permitem.

Vamos, por isso, analisar processos de Inteligência sucessivamente mais sofisticados.

Um processo de inteligência completamente diferente é o da Aprendizagem.
Os seres vivos usam extensivamente este processo na seguinte combinação de acções:

[(Aprendizagem+Arquivo) + (Identificação Situação+Selecção Solução)]

Este processo é imbatível em velocidade de resposta, que é essencial à sobrevivência.

O cérebro recolhe continuamente dados do mundo exterior, testa sistematicamente as possiveis soluções para cada situação que experiencia ou que imagina, e arrruma em memória as situações e as soluções correspondentes.

Durante o período de vigília, identifica as situações que vai encontrando e aplica as soluções que tem em memória;

durante o sono, processa as experiências do dia, analisa situações que podem ocorrer, através de um processo de geração de novas situações que analisaremos noutra altura, testa soluções e finalmente arruma e completa o seu arquivo de situações-soluções. Os sonhos são, em parte, a análise de situações possíveis e potencialmente perigosas. As crianças têm muitos «pesadelos», que vão desaparecendo à medida que a experiência de vida permite ao cérebro estreitar a possibilidade de situações perigosas.

Portanto, durante a vigília o cérebro «enche» uma base de dados temporária com informações da experiência diária; durante o sono, processa toda esta informação, actualiza e arruma o seu arquivo de situações-soluções, e «limpa» a base de dados temporária. A necessidade de sono é, por isso, um pouco como a necessidade de esvaziar periodicamente a bexiga.

A nossa actividade mental resume-se a isto em mais de 99%. Porém, quando temos de enfrentar um problema completamente novo, este sistema fica incapaz de encontrar uma solução, ficamos desorientados, sentimo-nos «estúpidos». Em parte por isso, toda a mudança nos causa grande ansiedade, pois ela representa a necessidade de modificarmos o nosso «arquivo de situações-soluções».

Este processo tem a vantagem da rapidez de resposta mas para enfrentar um problema novo é totalmente ineficaz. Aí, é preciso recorrer a outros processos de Inteligência. Note-se que mesmo este processo se apoia noutros processos de inteligência para gerar tentativas de solução no processamento noturno.

O sistema de ensino funciona quase exclusivamente com base neste processo. Um grave inconveniente desta exclusividade é que conduz à atrofia da capacidade de usar outros sistemas. É isso que ilustro no post « Um Burro carregado de Livros».

Bem, agora que referimos um pouco a importância e as limitações da Aprendizagem nos processos de Inteligência, estamos em condições de observar como é que a Natureza usa a Aprendizagem para nos fazer como somos.

quarta-feira, abril 01, 2009

Lição de Humildade




O século XX terminou em pleno apogeu da confiança do Homem na sua extraordinária Inteligência. As pessoas comuns tinham a sensação que a Humanidade se tinha elevado às alturas dos Deuses dos antigos, que tudo era agora possível, nenhum problema era desafio bastante para as capacidades Humanas, a Democracia era um sistema político perfeito, a Fome em breve desapareceria, a cura do cancro estaria ao virar da esquina, quiça mesmo a juventude eterna. As teorias do Homem dominavam o Clima, o Cosmos, a Matéria; a Física estava quase concluída, o que faltava cairia aos pés do grande acelerador em breve. As misteriosas catástrofes que repetidamente ameaçaram a continuidade da Vida na Terra não passavam de um meteoro que as formidáveis capacidades tecnológicas poderiam enfrentar. Falava-se já das possibilidades de fabricar vida em laboratório, de melhorar as capacidades mentais com recurso a chips, de transformar o Homem em Super-homem. A Evolução deixaria de ser tarefa da limitada Natureza para passar a ser assegurada pelas mãos sábias e muito mais generosas do Homem Qualquer coisa que tivesse origem nas vozes autorizadas era aceite como verdade sagrada e só os pobres de espírito questionavam ainda a sublime superioridade das fontes de conhecimento humanas.

O século XXI tem vindo a desnudar o imenso equívoco. O inquestionável «Aquecimento Global» transmutou-se silenciosamente em «Alterações Climáticas», o superacelerador de partículas autodestrói-se para não destruir a Física Atómica, a teoria Cosmológica tornou-se mais fabulosa do que a Astrológica – os Sábios de hoje recorrem aos mesmos expedientes e à mesma linguagem dos bruxos de antigamente para iludir o imenso povo.

Mas eis que explode a crise económica. Os mais incensados Economistas, apanhados de surpresa, começaram por confessar que não a entendiam, que ninguém poderia prever o que iria acontecer.

Isso era preocupante, as pessoas podiam começar por duvidar dos «Sábios». A linguagem foi mudada. Transformaram-se os sintomas da crise em causas dela - o «subprime» é um sintoma, uma consequência da crise, não é a causa, é exactamente como as indústrias que abrem falência. Apontam-se culpados, os banqueiros. E fazem-se previsões: em 2010 a crise acaba. Assim se sossegam as massas, se restabelece a confiança na humana «Inteligência». Desta forma, sem nada perceberem do que se está a passar (exceptue-se o PM inglês...), sem fazerem a mínima ideia do que vai acontecer, os «Sábios» mantêm o seu estatuto. E manterão sempre, porque este processo de ir transformando consequências e sintomas em causas dos problemas pode ser repetido ad eternum. Felizmente, porque se não fizessem podia instalar-se o pânico.

Donde vem esta confiança cega nas humanas capacidades? Dos sucessos tecnológicos. Se somos capazes de fazer telemóveis, aviões e foguetões, certamente que seremos capazes de fazer teorias sobre o clima ou sobre a economia, não é verdade?

A verdade é que... não é verdade!

Se olharmos para a história do conhecimento humano, em qualquer área, percebemos que apesar dos milhares e milhares de pessoas a ele inteiramente dedicadas, o essencial desse conhecimento é devido a um número reduzidíssimo de pessoas. Cuja maior dificuldade foi, em muitos casos, não o desenvolvimento desse conhecimento mas simplesmente convencer os outros. Isto tem sido objecto de muito debate, mas agora vão ter a oportunidade de começar a perceber o PORQUÊ.

Muitos defendem que os «génios» mais não fizeram do que antecipar o normal curso do conhecimento. Ilusão. Mostra a História que Humanidade patina longamente no erro, muitas vezes em dramas sucessivos, ergue-se apenas para cair novamente, até que surge alguém que quebra o ciclo do erro. Esse «alguém» segue uma metodologia muito diferente, que misteriosamente tem permanecido incompreensível para a generalidade das pessoas.

No post « Níveis de Inteligência» já referi, e exemplifiquei com o labirinto, como a Inteligência tem um nível elementar, o da «geração de hipóteses+selecção» e tem outros níveis. Um desses níveis permite a Tecnologia. Muitas pessoas estão preparadas para esse nível. Por isso a Tecnologia evolui sustentadamente. Por isso não identificamos «génios» nas áreas tecnológicas, não porque eles não existam, mas porque abundam.

Mas nas áreas de importância crucial para a evolução da sociedade humana, aí a metodologia tecnológica é tão incapaz como um cego é de conduzir um carro. A sociedade humana é conduzidas por pessoas que não podem ver para onde vão. Na Ciência como na Política ou na Economia. Só quando se começam a «estampar» é que se vai à procura de quem consiga «ver» alguma coisa. Por isso elegeram o Obama. Mas também esta procura é «cega» porque as pessoas não sabem qual é o problema nem o que procurar. Nem vão entender o remédio.

A diferença entre os níveis de Inteligência não é uma diferença de capacidade. É uma diferença de adequação. O nível elementar é o melhor, o mais adequado, quando a «geração de hipóteses» é muito grande e o preço do «erro» é baixo. É muito usado pela Natureza com a sua imensa capacidade de gerar situações diversas. Os outros níveis são adequados a outros quadros e outros objectivos. Não são melhores nem piores em valor absoluto. E também são muito usados pela Natureza, como veremos.

Perceber os níveis de Inteligência é crucial para sairmos do «buraco» em que as nossas teorias erradas, seja na Economia, Política, Educação ou Ciência, nos estão a meter. E também para começarmos a perceber os limites da nossa inteligência. E ainda para, como disse o Virgílio Ferreira, começarmos a usar inteligentemente a nossa Inteligência ( “De que te serve a inteligência se não tens inteligência para a usar com inteligência?”)

Vamos então olhar para os níveis de Inteligência no próximo texto. Tanto quanto os nossos olhos meio cegos conseguem ver.

segunda-feira, março 23, 2009

Darwin 200



. Lisboa, Congresso Feminista 1928


Advertência: o texto seguinte é o de uma carta imaginária enviada à revista Nature no âmbito do debate sobre a investigação da relação raça-inteligência, a propósito da comemoração dos 200 anos de nascimento de Darwin. Mas não é tão imaginária como isso; ela traduz uma corrente de pensamento. Que usa argumentos muito mais graves do que os aqui apresentados, porque associa inteligência a raça, enquanto eu só refiro a relação inteligência-genes. Mas nem imaginariamente eu seria capaz de escrever uma carta com o tipo de pensamento de algumas que estão publicadas. Notem que isto não é a minha opinião, pretende ser o retrato da posição dos defensores do «sim» a essa «investigação». Depois da carta vem o desafio aos leitores.


Ao
Editor da revista Nature


Exmo. Senhor

Desejo começar por saudar a iniciativa de colocar em discussão nessa tão prestigiada revista científica o interesse da investigação da ligação inteligência-raça, parada por medo de inconvenientes que nem de perto se comparam aos inconvenientes de a não fazer, por razões que passo a expor.

É sabido que a resistência de uma cadeia é determinada pelo seu elo mais fraco. O mesmo acontece com a sociedade humana. O enorme desequilíbrio entre o grau de desenvolvimento dos diferentes grupos humanos patenteia à saciedade que eles têm diferentes níveis de inteligência.

A sociedade sofisticada que construímos exige pessoas com determinada capacidade intelectual que simplesmente já não está ao alcance de determinados grupos humanos. Isto é sabido há muito e não é uma situação que se possa manter porque as pessoas que não conseguem compreender a sociedade reagem da maneira que é própria dos seus cérebros quando enfrentam algo que não compreendem: com a violência.

Esta violência explode de muitas maneiras; por exemplo, jovens cujos genes não lhes permitem a inteligência necessária à compreensão da sociedade e que acabam por atacar a tiro colegas, professores e suicidarem-se. Este é um claro exemplo de como o conhecimento dos genes responsáveis pela inteligência poderia ser útil. A menor inteligência tem de ser considerada como uma doença, uma doença genética. Uma doença que a investigação da relação genes-inteligência pode vir a tratar no futuro.

Mas eu comecei pelo aspecto menos grave. Subindo na escala de gravidade, encontramos os fundamentalistas religiosos. Um cérebro menos inteligente exibe acentuadamente esta característica: tem de encontrar um culpado de tudo o que de mau lhe acontece. Por isso, as culturas primitivas estão recheadas de divindades malévolas e bruxas: para explicar as coisas boas não é preciso inventar uma divindade, mas as más têm de ter um culpado. Faziam sacrifícios para apaziguar essas divindades malévolas. A fim de ultrapassar essa visão destrutiva da existência, homens inteligentes criaram uma religião com um deus do Mal, Satanás, sem o qual a religião perde todo o sentido nesses cérebros primitivos, e o do Bem, mais poderoso, que na religião cristã se designa simplesmente por “Deus”. Esta tentativa de controlar as pessoas de menor inteligência não resulta, porque estas transformaram o deus mais poderoso, “Deus”, num deus colérico, capaz de escaqueirar o mundo quando se irrita, punindo igualmente «justos» e «pecadores». Assim, estes crentes sentem-se legitimados a agir contra todos os que não seguem o seu deus, pois esse comportamento pode despoletar a divina ira e fazer deles, que são «justos», tão vitimas como os outros. Porque Justiça só será feita no dia do Juízo Final, até lá, pagam todos por igual.

Deve dizer-se que na criação do mito do «Deus Colérico» esteve também a mão de homens inteligentes da Igreja, que viram nesta crença o mecanismo de expansão da sua religião – é o medo da cólera divina que move os esforços missionários, não é a vontade de «salvar almas». Periodicamente o Vaticano alimenta o Deus Colérico com artigos no seu jornal oficial, porque ele é o seu instrumento de poder.

O recente discurso do presidente Obama sobre as religiões ignora que parte dos destinatários não têm a «Razão» necessária para o entenderem. Se tivessem, o problema não existiria, não é verdade? Além de ineficaz, o discurso é contraproducente, porque essas pessoas movem-se com a força e o desespero que o medo do deus colérico lhes dá; e agora ficaram ainda com mais medo.

É por isso que os políticos usam sempre a «mentira conveniente». As verdades não precisam de ser ditas e não serve para nada dizê-las. Para alterar os comportamentos das pessoas é preciso enganá-las. Como se faz com o aquecimento global por exemplo; e é tão fácil!
Mas podemos subir ainda na escala de gravidade – basta olhar para África para encontrarmos o elo mais fraco. A sociedade moderna tem uma capacidade de destruição que não é compatível com a existência de pessoas de menor inteligência. Em vez de um jovem aos tiros numa escola, acabaremos por ter povos a lançar bombas nucleares contra o resto do mundo. A Guerra e a Violência são a linguagem das pessoas de menor inteligência. Temos de ter presente que a exclusão social que vão sofrendo é inaceitável para elas, causando-lhes grande sofrimento e revolta, que apenas pode ser apaziguada com a destruição da sociedade à qual não conseguem pertencer.

A única solução não violenta encontrada até agora para este problema foi a Eugenia. Esta investigação em debate cria a possibilidade do tratamento genético. Recusar a Genética é optar pela Eugenia. Note-se que já se estuda a relação genes-violência com vista a tratar geneticamente as pessoas com genes de violência; mas a verdadeira fonte da violência é a falta de inteligência para entender suficientemente o mundo.

Recordemos brevemente o percurso da Eugenia.

Between 1934 and 1976, when the Sterilisation Act was finally repealed, 62,000 people, 90 percent of them women, were sterilised. 15-year-old teenagers were sterilised for "crimes" such as going to dance halls.

Onde é que isto se passou? Na Suécia!!!!! Mas também nos EUA, Noruega, Dinamarca, Áustria, Finlândia, Bélgica e, é claro, na Alemanha nazi. E certamente em muitos outros países. O desenvolvimento da Eugenia nos EUA foi até encarado como filantropia, pois visava a construção de uma sociedade melhor, mais avançada. E os resultados parecem confirmar a actuação, pois os países que dão hoje cartas no mundo tiveram grandes programas de eugenia.

Hoje, a Eugenia já não precisa de recorrer à esterilização forçada. Temos a Eugenia Económica. A sociedade estrutura-se de tal maneira que os que ganhem menos do que 60% do rendimento médio não têm recursos para ter filhos, extinguindo-se assim os seus genes. É a Lei da Selecção Natural aplicada na natureza de hoje, que é a Sociedade Humana.

Na Europa os resultados começam a aparecer. Veja-se o caso de Portugal. A situação não é ainda muito evidente porque os subsídios europeus e o endividamento crescente têm escondido a pobreza portuguesa. Mas os subsídios europeus serviram apenas para verificar que os portugueses simplesmente não têm inteligência suficiente para pertencer à sociedade que pretendemos. Veja-se as inacreditáveis taxas de abandono escolar, o que demonstra bem o baixo nível de inteligência de alunos e professores, de toda uma impensável sociedade que se preocupa em limitar o acesso à licenciatura em vez de combater a exclusão escolar.

A exclusão do sistema de ensino é uma forma de eugenia, pois muitas destas pessoas não terão qualquer oportunidade na vida, não se reproduzirão. Suponho que nenhum país levou a eugenia tão longe como o fazem os portugueses actualmente, usando para tal, não de forma consciente como outros o fizeram mas por pura falta de inteligência, o sistema de ensino. Só que este processo é suicidário, pois um mau sistema de ensino prejudica todos. Por alguma razão, só um povo manifestamente pouco inteligente o usa.

Os resultados tão dramáticos desta situação geraram um fluxo de portugueses para África, onde a sua baixa inteligência encontra sociedades compatíveis, e um fluxo de imigrantes de um nível intelectual acima dos portugueses.

E este é o paradigma que se está a instalar na Europa: as pessoas de menos inteligência das sociedades mais avançadas emigrando para as sociedades mais atrasadas e as destas para fora da Europa. Os que não emigram, não se reproduzem. Resolve o problema da Europa mas não resolve o problema do Mundo, cada vez mais dividido entre os que fazem o progresso e os outros. No fim, só poderá haver um.

O cérebro humano tem um lado racional e outro instintivo. «Razão» e «Instinto». Dois cérebros em cada cabeça. Quando a «Razão» não é capaz de fazer face aos problemas, o «Instinto» assume o controle. E reage como lhe é próprio, isto é, com violência. Para conseguirmos uma sociedade melhor temos de garantir que as pessoas dispõem todas de «Razão» quanto baste. Para o conseguir, a escolha actual, dado que rejeitamos a guerra e o genocídio, é entre Eugenia e Genética. Quem está contra uma, está a favor da outra.”


Aqui fica o perigoso desafio que vos faço esta semana: que comentários fazem a esta carta muito pouco imaginária? Desafio perigoso e frustrante, porque o vosso raciocínio, alicerçado em ideias erradas sobre a evolução das espécies, terá dificuldade em construir constestação sólida. É por isso que o debate se coloca e se arrasta.
O propósito deste texto é mostrar como é importante ter ideias correctas sobre o processo evolutivo. Porque não é por acaso que este debate na Nature surge a propósito do bicentenário de Darwin.

sexta-feira, março 20, 2009

sexta-feira, março 13, 2009

A Teoria da Evolução



Em 1744 nascia aquele que estabeleceu a Teoria da Evolução das Espécies: Jean-Baptiste de Lamarck. Com ilustríssima actividade no campo da biologia (termo por ele cunhado), a sua atenção foi despertada por uma colecção de moluscos marinhos que lhe foi legada e que permitia o estabelecimento de uma sequência evolutiva de moluscos primitivos até aos modernos. A ideia da Evolução apresentava solução para dois problemas.

Um era o da aparentemente perfeita adaptação dos seres vivos ao seu ambiente. A resposta da época era a de que assim teria de ser, pois eram criaturas por Deus criadas. Uma prova da perfeição da obra de Deus. Mas Lamarck sabia que as condições terrestres variam muitíssimo e, portanto, um ser vivo criado em determinado altura fatalmente estaria desadaptado a condições existentes noutra altura. A não ser que se adaptasse, ou que evoluísse de forma a estar sempre adaptado às condições existentes.

O outro era o das espécies estarem quase todas extintas. Em vez de Extinção, ele propunha Evolução. Os fósseis antigos são de seres que já não existem porque evoluiram, não por terem sido vítimas de alguma catástrofe.

Mas como se processa a Evolução? Lamark usou ideias já existentes na época, como a Lei do Uso e Desuso: os órgãos que os seres vivos mais usam tendem a desenvolver-se, os que não usam tendem a desaparecer. Por exemplo, não usamos os dedos dos pés, eles tornaram-se rudimentares. Não precisamos das unhas dos dedos dos pés, elas passaram de garras a coisas em vias de desaparecer (estes exemplos antropomórficos são meus, ele referiu a cegueira das toupeiras, os dentes dos mamíferos ou os bicos das aves). Mas acrescentou-lhe algo: "Le pouvoir de la Vie" ou "la force qui tend sans cesse à composer l'organisation". A tendência que os sistemas vivos têm de evoluírem para a complexidade. De se organizarem. De contrariarem o sentido termodinâmico da evolução dos sistemas mecânicos constituídos por partículas iguais.

Isto é uma evidência, o porquê disto é que é a grande dôr de cabeça.

A sequência de etapas do processo evolutivo era para o Lamarck a seguinte: a vida surgiria de geração espontânea (era a ideia da época), o "pouvoir de la vie" gerava complexidade, depois "l'influence des circunstances", através da lei do uso e desuso, determinava a direcção da evolução, e, finalmente, a experiência de vida era transmitida aos descendentes de uma forma limitada mas suficiente para que ela contribuísse para o sentido da evolução. Em resumo:

geração espontânea + "le pouvoir de la vie" + "l'ínfluence des circunstances" + hereditariedade das características adquiridas.

Esta "abominável" ideia de as espécies evoluírem e o homem vir do macaco foi implacavelmente perseguida, é claro. Porque Lamarck afirmou-o despudoradamente, coisa que Darwin teve a sabedoria de não o fazer. Para a abater, era preciso abater a ideia chave do processo, a única que podia ser contestada: a ideia da hereditariedade das características adquiridas. E não vale a pena acusar a Igreja desta perseguição – as perseguições às ideias inovadoras partem sempre do mainstream, em todos os tempos, em todos os lados.

Um exemplo de um argumento usado é o seguinte: como os judeus são circuncidados, se essa hereditariedade existisse os seus filhos já nasceriam circuncidados. Ou a experiência de cortar a cauda a um animal e verificar que os seus descendentes não nascem de cauda cortada. E, com a descoberta das células reprodutoras e de que elas seriam autónomas do resto do organismo desde a nascença, a ideia da hereditariedade dos caracteres adquiridos foi considerada definitivamente arrumada por não existir mecanismo para levar essa informação às células germinativas. Todas estas "provas" contra as ideias de Lamarck estão erradas, como veremos.

As ideias de Lamarck, muito perseguidas em França, foram mais bem acolhidas em Inglaterra. E, no mesmo ano em que Lamarck publicou a sua teoria da Evolução, 1809, no livro Philosophie Zoologique, nasce Darwin que, 50 anos mais tarde, encontra forma e arte de ultrapassar as contestações.
Darwin propôs a ideia da:

«Selecção Natural e Sexual" em vez de «"l'ínfluence des circunstances" + hereditariedade do uso».

Portanto, o "pouvoir de la vie" gerava complexidade de forma cega (uma vez que não recebia a informação do uso) e a «Selecção Natural e Sexual» fazia a escolha do que convinha mais. E, para "pouvoir de la vie", escolheu inteligentemente o «Acaso» – não porque seja suficiente para o explicar, mas porque é a única coisa conhecida que pode ter a ver com o assunto.

As guerras do Conhecimento contra o Mainstream são sempre duras e demoradas. A guerra contra o geocentrismo começou em Copérnico e só acabou em Newton, com contribuições de vulto como a de Galileu e contribuições indispensáveis como a de Kepler.

A guerra pela Evolução começou em Lamarck. Darwin é o Galileu desta luta. Que ainda não chegou ao fim, muito longe disso.

Neste blogue já percebemos porque é que não existe geração espontânea. Mas só quem leu os posts sobre a Origem da Vida sabe o porquê disso. Mais ninguém sabe que as condições terrestres quando a vida se formou eram tão diferentes das actuais e só alguns sabem que apenas nessas condições a vida se pode formar.

Também já percebemos algo sobre o misterioso "pouvoir de la vie". Percebemos que «Inteligência» é um processo que resulta de dois processos, «Inteligência=geração de hipóteses+selecção»; e que é um processo natural de certos sistemas, não uma propriedade mística das nossas cabeças, portanto, não é exclusivo nosso. Ainda só espreitamos os feitos desta Inteligência natural quando descobrimos que um dos processos que a nossa humana inteligência desenvolveu para produzir compostos azotados é o mesmo que a natureza usou para resolver o mesmo problema na origem da vida; e que as condições naturais em que as longas cadeias orgânicas iniciais se terão formado são semelhantes às que usamos para produzir cristais; mas muito mais iremos perceber quando virmos como a matéria se organizou até chegar ao nosso sistema planetário (estou a começar a falar disso no «outrafísica»).

O processo proposto por Darwin, «acaso+selecção natural» é um processo de Inteligência elementar. Que pode ter funcionado nas primeiras etapas de evolução da vida. Mas que, naturalmente, tal como gerou formas de vida mais complexas, também gerou processos de Inteligência mais complexos.

São esses processos mais complexos que temos de começar a desvendar. Porque é deles que depende a Evolução da Sociedade.

Por outro lado, as ideias que temos sobre os mecanismos da evolução ou criação, independentemente de serem certas ou erradas, têm por si só consequências cruciais nas sociedades que construímos. As ideias, não o mecanismo da evolução. Porque nós somos «racionais», deixamo-nos conduzir por ideias. No próximo post vamos espreitar como ideias simplórias podem ser perigosas, para no post seguinte dedicarmos atenção à compreensão dos mecanismos da evolução e de como podemos perspectivar a Evolução da Sociedade a partir dessa compreensão.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

O Terceiro Nível da Evolução



Suponho que os cientistas já saibam que as nossas células não são iguais às dos répteis. Elas são capazes de produzir proteínas mais complexas do que as possíveis com as células dos répteis; estas proteínas permitem uma «organização de células», isto é, nós, mais sofisticada do que a «organização de células», por exemplo, um crocodilo, que as células dos répteis são capazes de produzir. Este é um aspecto de que muitos não têm ainda consciência: a evolução das espécies suporta-se na evolução das células. As nossas células são mais sofisticadas do que as dos répteis e estas que as dos peixes. E não estou a referir-me ao código genético, não é apenas o «programa» que é mais sofisticado, é a própria maquinaria celular.

(como num computador, o pioneiro ZX81 não pode executar os programas actuais; sem a evolução do hardware não poderia ter havido esta evolução do software)

Este é, portanto, o primeiro nível de evolução que conhecemos: a Célula. O Hardware da Vida.

O segundo nível é o Organismo, o ser vivo que as células formam. As nossas células serão tão evoluídas como as do chimpanzé, mas formam um organismo ligeiramente mais evoluído, o Humano. Esta evolução está no código genético, no «programa» da célula. No código genético está o Software da Vida.

Uma característica da Vida que remonta às suas origens é a cooperação. As primeiras formas de vida que identificamos como tal existiam por si só. Mas desde muito cedo a Natureza descobriu as vantagens da cooperação. De facto, até ao nível das bactérias podemos encontrar fenómenos de cruzamento de código genético que podemos classificar como sendo «cooperação». As nossas próprias células serão uma construção que incorpora diferentes tipos de células mais primitivas, o resultado de um processo simbiótico. Qualquer organismo multicelular resulta de um processo de cooperação de células.

Esta cooperação não se limita ao nível celular, alastra pelos organismos, que formam «sociedades». As que mais nos impressionam serão as dos insectos, especialmente as das formigas. Assentam na especialização dos indivíduos, tal como acontece num organismo, onde as células se diferenciam para executarem funções específicas.

Este tipo de organização social não acrescenta nada ao conceito de «organismo» - é o mesmo conceito, o do sistema de células especializadas que executam cegamente um programa pré-definido.

A evolução das «Sociedades» de seres vivos tem assentado no desenvolvimento de um conjunto muito complexo de comportamentos e capacidades, quer instintos e afectos, quer capacidades de comunicação, de aprendizagem e de adaptação comportamental. Através deles, a Natureza procura a formação de sociedades onde cada indivíduo conserva algum livre-arbítrio, o que possibilita que a Inteligência do conjunto seja maior do que a Inteligência de um só indivíduo.

Comparando com uma rede informática, a Natureza busca construir redes com terminais inteligentes e não redes centralizadas com terminais «burros». Essa é a diferença entre «Sociedade» e «Organismo».

No entanto, até há umas dezenas de milhares de anos atrás, as sociedades que os seres vivos faziam eram quase totalmente determinadas pela informação nos seus genes.

Finalmente, talvez na altura em que o Homo Sapiens beirou a extinção, o Homo Sapiens Sapiens atingiu a capacidade de gerar uma Sociedade Evolutiva. Capacidade na verdade muito limitada até há cerca de uns 10 mil anos.

Este é um marco evolutivo. A Sociedade Humana é algo de novo na Evolução, um salto evolutivo como o salto das bactérias para as células nucleadas, ou destas para os organismos multicelulares. O Terceiro Nível da Evolução.

O que é que há realmente de novo na Sociedade, porque é que digo que ela é um terceiro nível evolutivo? Porque o suporte da sua evolução não é a maquinaria da célula nem é o código genético: a Informação que a suporta é exterior ao ser vivo, é o Conhecimento, a Cultura desenvolvida pelos seres vivos que a formam. Que é transmitida por via mental e não por via celular.

Claro que a evolução das Sociedades tem raízes fundas no ser vivo, tal como os programas que o código genético executa dependem da maquinaria celular. Sem as capacidades avançadas de comunicação, aprendizagem, descoberta, adaptação, a Sociedade não seria possível. E sem os instintos e afectos, os seres vivos não seriam compelidos a formarem sociedades.

A Sociedade que nós, humanos, somos capazes de formar não é, portanto, uma qualquer – ela está condicionada pelas nossas capacidades e sobretudo pelos nossos instintos e afectos.

Temos de perceber isso, mas só isso também não chega. Uma sociedade é uma construção complexa, por alguma razão a Natureza se preparou tão longamente antes de despoletar o Terceiro Nível da Evolução. Com regras simplórias temos uma sociedade constantemente a tropeçar em ciclos presa-predador e a estagnar em vez de evoluir. Ou a evoluir na direcção errada.

A Sociedade Humana é a nossa obra, como nós somos a obra das nossas células. Nossa obra, nossa responsabilidade.