
A lagarta da Biston Betulária assume a cor castanha à esquerda e a verde à direita (da Wikipedia)
Este caso, frequentemente citado ainda hoje, mostra bem como as ideias mais absurdas podem ser aceites como verdadeiras e lógicas desde que sejam simplórias. Mas isto é «Lógica da Batata». Porque se as coisas se passam assim, este caso é completamente banal, não tem o mais pequeno interesse, não prova absolutamente nada. Antes pelo contrário, as borboletas brancas estão de volta, logo isto nada pode ter a ver com «evolução», porque esta tem um sentido, o homem não pode evoluir para o macaco...
Subjacente a esta explicação inútil está a ideia de que a Natureza é estúpida, sendo a Inteligência propriedade exclusiva dos humanos, o seu dom Divino; como estúpida que é, gera indiscriminadamente borboletas pretas, brancas e cinzentas. Mas cabe uma questão: se a natureza é tão estúpida, porque se dá ao trabalho de fazer borboletas em 3 tons?
Há, porém, um aspecto completamente ignorado neste processo que pode dar-lhe algum interesse: a borboleta, antes de o ser, é uma lagarta! Então, enquanto lagarta, ela percepciona o mundo exterior e pode fazer escolhas sobre a borboleta que há-de ser. Será que é a experiência de vida da lagarta que determina a cor da borboleta? Será a lagarta uma espia do mundo exterior? Não sei, ninguém se lembrou de fazer tal experiência... Mas há um aspecto que deveria ter chamado a atenção dos cientistas: a lagarta desta borboleta tem propriedades miméticas!
Já viram como pode ser útil a capacidade de espiar como é o Mundo antes de fabricar o produto final?
Já repararam que nós temos esta capacidade?
Na verdade, um bebé não deixa de ser uma forma larvar do ser humano. Porque no bebé não está completamente definido o adulto – os módulos que hão-de integrar o seu cérebro não estão ainda definidos. O bebé nasce com o objectivo de interagir com o mundo exterior, de o explorar, e é a partir dessa exploração que se definirão as suas capacidades.
Por exemplo, sabe-se que uma criança que cresça isolada dos humanos e não aprenda a falar até aos 8 anos, nunca conseguirá falar correctamente – o seu módulo de comunicação pela linguagem não se desenvolveu. Mas outros módulos de comunicação se desenvolveram, mais adequados ao mundo que ela experienciou.
Sabemos também que alguns têm «ouvido musical», outros nem pouco mais ou menos. É outro módulo mental. Como a aptidão para a matemática é também um módulo mental. Ou a aptidão para descodificar as expressões faciais. Ou a aptidão para a dança. Ou para o teatro. Ou para a pintura. Ou para a poesia. Ou para a corrida. Ou para sonhar.
Há inúmeros parâmetros no projecto do nosso cérebro, envolvendo a maneira de pensar e de sentir; são parcialmente definidos geneticamente e são parcialmente definidos na nossa fase larvar, ou seja, nos nossos primeiros anos de vida, em que somos espiões do Mundo.
A capacidade da Vida de se definir em função da sua vizinhança é a base da construção dos seres vivos e das sociedades de seres vivos. É assim que o nosso corpo se forma: cada célula vai-se definindo em função das células vizinhas. É assim que uma célula estaminal se pode tornar em qualquer tipo de célula, ao ser colocada no meio de células desse tipo. É assim que certas espécies podem mudar de sexo mesmo na fase adulta.
É por isso que os primeiros anos de vida são tão importantes. É por isso que é mais importante a antecipação da idade escolar para os 5 anos do que o aumento da escolaridade obrigatória.
Dirão: «então pessoas criadas exactamente no mesmo ambiente teriam as mesmas capacidades e personalidades». Nem pouco mais ou menos! Nascemos diferentes, o que a experiência dos primeiros anos de vida faz é a optimização dos parâmetros com que nascemos para o ambiente em que crescemos. A Diversidade é uma característica essencial da Vida.
Há em África uma região de lagos próximos. Lagos interiores, sem comunicação com o mar. Nesses lagos, peixes ciclídeos foram introduzidos, e originaram muitas centenas de espécies em cada lago. E, coisa extraordinária, parece que essas espécies, que se terão desenvolvido independentemente em cada lago, apresentam grandes semelhanças em lagos diferentes. Quase como a especiação das células em dois seres da mesma espécie.
Isto sugere que a geração de espécies não resultou de um processo de erro, aleatório. Uma explicação é que a selecção sexual seria a responsável pela geração de novas espécies. Outra é que isto indicia a existência de um programa, um processo determinístico de geração de espécies. De geração de Diversidade. Seja como for, um facto sobreleva: a espantosa geração de diversidade, mais de mil espécies se originaram de um número pequeno (8, segundo um estudo) de espécies iniciais.
Notem que isto é o oposto das ideias que regem muitas teorias económicas, políticas e sociais: na Natureza, se tivermos 1000 espécies no mesmo ambiente, elas não competem até que fique só uma, mas é exactamente ao contrário, se existir só uma geram-se mil. A Natureza tem horror à uniformidade! A competição não é a regra, a lei não é a do mais forte.
Também a História da Matéria se inicia num estado de uniformidade absoluta, retratado pelo Ruído do Fundo Cósmico, e toda ela é o percurso da uniformidade para a diversidade, para a complexidade.
É por isso que somos todos diferentes. Mas todos iguais, porque não somos melhores nem piores em valor em absoluto. Somos... diversos!
Percebemos assim que
- temos uma herança genética,
- temos um processo que gera, de forma possivelmente determinística, diversidade a partir dessa herança,
- temos uma fase «larvar» em que os nossos parâmetros são ajustados ao mundo em que vamos supostamente viver.
Três etapas na construção de cada indivíduo!
E nada disto tem a ver com «Evolução». Nem a cor das borboletas, nem as espécies dos ciclídeos. Seria o mesmo que dizer que as células da retina são uma evolução das células do fígado.
Mas ainda há outro factor que contribui para a nossa definição... a Natureza ainda é mais inteligente do que aqui se disse.






