Durante milénios, com interrupções muito pontuais, Dona Escassez foi Rainha dos preços dos produtos. Tudo era escasso, excepto as pessoas. Até muito recentemente. Grandes livros de Economia que mesmo hoje fazem escola são ainda desse tempo.
Mas a Humanidade, na sua luta estrénua e milenar contra a sinistra Dona Escassez, encontrou finalmente armas poderosas: a força dos Combustíveis fósseis e do Conhecimento rebentou os limites da capacidade de produção.
Energia e Conhecimento, são estas as duas armas capazes de derrotar, destruir, aniquilar, a misantrópica, tristonha Dona Escassez.A capacidade de produção de muitos bens (os mais importantes) cresceu imenso, tornou-se muito maior que a capacidade de absorção do mercado. Mas Dona Escassez viu aí o seu ponto de fuga, ágil como qualquer velhaco saltou dos Bens para o Mercado - a Escassez passou a ser de Mercado, não dos bens essenciais.
Desenvolveram-se então novas teorias económicas, assentes no marketing, ou seja, na geração de um mercado que já não resulta de reais necessidades das pessoas. Na invenção de novas necessidades para criar mais mercado. Produtos de sucesso são produtos de alguma forma «especiais», seja por serem «melhores», «diferentes», «novos», «únicos», «verdes», «empenhados numa sociedade melhor», etc.. Produtos que satisfazem em quem os compra uma necessidade que não é apenas aquela que directamente corresponde ao produto, mas uma necessidade de outro tipo – de estatuto, de diferenciação, de poder, de novidade, de mudança, de estética, de qualidade, de pertença a um grupo, ou o oposto, etc.
Paralelamente, desenvolveu-se também uma nova filosofia adequada à situação do excesso de oferta – cartelização, lobbying, destruição de produção em excesso, introdução de prazos de validade, definição de quotas de produção, incentivos à não-produção, etc. Isso permitiu evitar uma catástrofe da actividade de produção e adequar a oferta ao mercado. A esquálida, feia, assexuada Dona Escassez foi enquadrada, espartilhada, manietada, tornada quase inofensiva.
Quase, mas não totalmente: alguns bens continuaram genuinamente escassos – por exemplo, a Habitação nos novos locais de agregação social.
Os livros de gestão iam ensinando as novas técnicas para viver neste novo sistema de abundância: os sinais para combinar preços, a forma de fazer propostas ganhadoras que conduzissem a inevitáveis «trabalhos a mais», etc, etc..
Mas eis que uma personagem, até aí de fraca figura, porque só pode crescer na Abundância, faz a sua brusca aparição neste teatro humano: Dona Corrupção cresceu, engordou, os papudos dedos encheram-se de anéis, as mãos agarrando toda a riqueza que devora, devora, possuída de frenesim mórbido, Rainha cega, indiferente, à destruição que vai causando.
Entretanto a Humanidade globalizou a economia, numa tentativa de expansão de alguns mercados. A Dona Corrupção exultou, abocanhou, engordou.
As técnicas dos concursos já não são de
como responder aos cadernos de encargos mas de
como os fazer para que ganhe quem se quer que ganhe, com as margens para «trabalhos a mais» necessários à fome da Dona Corrupção; por todo o lado se multiplicam astronómicos «bónus», «prémios», «comparticipações», «pensões», «indemnizações», jogos de poder, atribuição de lugares sem mérito, favores, etc., porque Dona Corrupção é esperta, sabe gerir a infinita cupidez humana para fazer de todos os humanos seus cúmplices. Tudo a trabalhar para o lucro imediato. Todas as actividades tendem a ser actividades de especulação, como a Bolsa, ou de extorsão – os cartões de crédito, os esquemas de vendas, os leasings, as «fidelizações» obrigatórias a serviços, os empréstimos. No início da actividade bancária, dizia-se que os bancos só emprestavam a quem não precisava; agora o negócio consiste em emprestar a quem não pode pagar, para depois cobrar juros usuários e crescentes a quem não consegue ver-se livre da dívida. Os empréstimos vencem juros, a amortização é a mínima possível.
Dona Corrupção entra em paranóia mórbida. Por exemplo, os administradores dos bancos americanos falidos nem pensam em prescindir dos seus brutais bónus, cerca de 10% do dinheiro com que a Reserva Federal tem de entrar para salvar as empresas que administram. Mas isto é só um exemplo, porque a Dona Corrupção está em todo o lado, do ex-administrador do Banco de Portugal que abifa uma pensão milionária sem qualquer justificação moral, ao Juíz que não quer prescindir dos seus 2 meses de férias, ao médico que não quer picar o ponto, ao paizinho que inscreve o filho na escola particular para «comprar» a entrada na Universidade, ao trabalhador que consegue um atestado médico injustificado. Pessoas que surgem ricas a partir do nada, com fortunas colossais sem que se lhes conheça qualquer actividade produtiva, são incensadas, eleitas, comendadas. A Rainha Dona Corrupção é o exemplo a seguir. Pais educam os filhos no activo repúdio da Honestidade, esse estigma dos perdedores.
Tudo isto se tornou possível sob o beneplácito da bonacheirona Dona Abundância. Uma «não-te-rales». Convencida de que o «amanhã» só pode ser melhor do que o «hoje». Que o seu crescimento é garantido. Um dígito ou dois dígitos de crescimento, eis a única questão. A impensável situação de não crescer é batizada com nomes feios, como «Recessão».
Mas os benefícios da Globalização começam a esgotar-se – os mercados para onde se pretendia a expansão desataram a produzir e a Globalização, mais do que uma solução, ameaça tornar-se um problema económico.
Dona Corrupção é uma nova-rica, uma arrivista; ao invés, Dona Escassez tem milénios de sabedoria nos ossos velhos. Silenciosamente, pé ante pé, alheia ao corre-corre em redor da Dona Corrupção, cada um procurando servi-la quanto pode, Dona Escassez instala-se na Energia, com a estratégia milenar: primeiro o petróleo muito barato para eliminar as possíveis concorrências e estabelecer a dependência, depois o controlo da extracção para fazer subir o preço.
O preço dos produtos que são não-escassos - agora, quase todos os produtos essenciais são não-escassos, enquanto que os produtos não-essenciais são escassos - está sujeito à concorrência e tende para o preço da energia necessária à sua obtenção. A subida do preço da energia afecta sobretudo os mais pobres, que são os que consomem os produtos essenciais, os de «linha branca», aqueles cujo preço reflecte directamente o preço da energia. Os menos pobres compram produtos de marca ou, de alguma forma, «especiais», cujo preço é muitas vezes superior ao custo energético, portanto, muito menos sensível a este.
A subida do preço da energia implica assim um aumento de pobreza, não por as pessoas passarem a ganhar menos dinheiro mas por o preço dos bens essenciais ter de reflectir essa subida no orçamento daqueles que já estão no limiar da sobrevivência.Instalada na Energia, Dona Escassez deixa-se expulsar da Habitação, «peanuts» ao pé do que ela tem agora na mão, enquanto um gargalhada sinistra lhe desce pela garganta.
Se o fim da escassez da Habitação é uma boa notícia a prazo, por agora traz uma grave consequência: o excesso de preço da habitação desaparece subitamente em mercados importantes e isso corresponde ao desaparecimento de uma imensa massa monetária virtual.
Todo o processo de extorsão que a Dona Corrupção tinha baseado no valor do imobiliário explode de repente – em vez de ficarem dependentes da dívida que não amortiza, as pessoas simplesmente entregam a casa ao banco e arranjam outra (ou a mesma) a um preço inferior ao da dívida que tinham. Poof, os grandes extorsionários entram em crise e, com eles os grandes especuladores, que são dependentes do crescimento da massa monetária virtual. De repente percebe-se que Dona Abundância não crescera, apenas estava inchada de riqueza virtual. Um fluxo monetário flui acelerado dos muitos consumidores de Energia para os poucos que controlam a produção e Dona Abundância corre atrás.
Há muitos anos que os Governos perceberam a jogada da Dona Escassez; tentaram contrariá-la com a técnica da «mentira conveniente», que é forma possível de gerir os humanos quando o conceito de «Inferno» já perdeu a força. Primeiro, foi o «arrefecimento global» produzido pelas partículas de carbono que os combustíveis fósseis introduziam na atmosfera, tal como o demonstram as explosões dos grandes vulcões, depois foi o «aquecimento global» pela libertação do CO2, tal como o mostra o passado quente da Terra. Mas foi um combate fraco porque Dona Abundância exigia sempre mais Energia e barata.
Os bancos centrais estão a injectar biliões de dólares, euros e libras; uma forma de temporariamente compensar a perda de riqueza resultante da subida do preço da energia e da perda de moeda virtual causada pelos mecanismos de extorsão e especulação que colapsaram.
Por agora, a redução no consumo de energia fez baixar o preço desta (não é coisa facilmente armazenável, tem uma resposta lenta às flutuações de consumo); mas os reajustes da OPEP e a retoma de «liquidez» do mercado vai fazer subir de novo o preço da energia. A única forma de realmente conter a presente crise é através de fontes alternativas de energia, estabelecer concorrência no sector, combater este novo reduto da Dona Escassez.
Os combustíveis fósseis não são nocivos ao planeta; como veremos,
o seu consumo é mesmo essencial à saúde do planeta; o que é nocivo, para o nosso sistema económico, é a dependência deles. Como seria nociva uma dependência da energia nuclear, ou de um fabricante de paineis solares.
Não é o tipo de energia que é bom ou mau, é a dependência do fornecedor.... a guerra contra a Dona Escassez poderemos vir a ganhá-la... mas a guerra contra a Dona Corrupção que, ao contrário da Dona Escassez, vive dentro de nós, poderemos algum dia ganhá-la?
.