segunda-feira, fevereiro 02, 2009

A Mafia, o Obama e o Sócrates

A avalanche de emails anti-Sócrates que tenho recebido obrigam-me a interromper o que me ocupa e a vir falar-vos de algo que penso ser muito importante.

Na nossa sociedade ocidental desenvolveu-se uma actividade de gestão de negócios e dinheiros que tem como único objectivo o lucro. Único Objectivo. Não há quaisquer preocupações sociais que a condicionem – os que tinham esse tipo de preocupações foram há muito corridos pelos que as não têm, logo mais bem sucedidos na maximização do lucro.

Este gestores tornaram-se especialistas na manipulação dos consumidores, dos políticos e até dos
empregados das empresas para que trabalham.
Diferentemente das mafias de antigamente, não infringem a letra da lei.
Mas fazem tudo o que é imaginável e não imaginável que não colida com a letra dela.

Por exemplo, não têm problemas em fomentar conflitos locais se isso for vantajoso para a venda de armas ou de outras coisas.
Os esquemas de cartões de créditos são pensados para extrair das pessoas o máximo dinheiro possível, através de criação de dívida e de juros usuários, que se podem tornar crescentes com o tempo se perceberem que a pessoa já não tem condições económicas para amortizar a dívida.
Mas o grande esforço é feito junto dos políticos.
E isto é considerado legal em alguns países, como os EUA – é a actividade de lobbying.

Ao darem generosas contribuições aos candidatos, conseguem a aprovação de leis que lhes são favoráveis – que aumentam os seus lucros.
E ao darem empregos a ex-membros dos governos, deputados e senadores, também conseguem contratos com os governos que doutro modo não conseguiriam.

Em Portugal, a Sociedade Lusa de Negócios (BPN) parece ter um riquíssimo historial de adjudicações do Governo conseguidas desde há vários anos.
Nos EUA é particularmente gritante que a indústria farmacêutica consiga praticar os preços mais altos do mundo ocidental – como é isto possível no país da livre concorrência, não é um paradoxo gritante? Será que o facto de as campanhas de uns 99% dos senadores americanos terem recebido grossas quantias da indústria farmacêutica tem a ver com o assunto?

Algumas pessoas pensam que a actual onda anti-Sócrates tem os professores por detrás. Mas não, os professores são só um dos instrumentos cegos. Outros pensam que é o PCP. Decerto que ao PCP interessa garantir o actual nível de excluídos do ensino, pois são eles que engrossam as suas fileiras. Mas também não é o PCP. Outros pensam que é a oposição. Outros pensam que é verdade. Mas estão todos enganados. Por detrás disto está a máquina mais poderosa do Mundo.

O crescimento imparável da desigualdade levou Obama ao poder. Ele sabe que o caminho do futuro passa pelo combate aos grandes interesses económicos. Se o não fizer, a sociedade estagnará, como sempre aconteceu no passado, transformar-se-á numa sociedade de senhores e escravos, de classes e castas. Bloqueada na sua própria desigualdade, o fluxo económico estancado.

Mas esses interesses económicos não estão dispostos aquilo que ele quer fazer e que é a única saída: redistribuir a riqueza.
Portanto vão lutar contra ele. Como?
O método é bem conhecido, se não inventarem nada de novo será assim:
primeiro, uma suave campanha de difamação; em seguida, fomento de desestabilização social (é fácil, o desemprego está aí, além de que ele terá de atacar os privilégios de muitos); depois, uma campanha de difamação mais intensa, tão mais forte quanto mais fraco ele estiver.

Os processos tipo «Casa Pia» são uma metodologia já conhecida e experimentada noutros países; já é tão conhecido que duvido que voltem a recorrer a ele. Não sei o que vão fazer, mas sei que já começaram: as notícias sobre o meio-irmão apanhado com droga a ocuparem páginas inteiras de jornais são um primeiro teste. Depois virão certamente histórias do seu passado, ninguém chega ao topo sem acotovelar alguém, um fundinho de verdade chegará para alimentar as mais torpes insinuações.

Será que o povo americano é tão tolo que irá deixar-se conduzir pela mafia financeira?

Isso sempre aconteceu no passado...

E o que é que isto tem a ver com o Sócrates?
Tudo. Porque Sócrates e Obama estão exactamente no mesmo papel. Ambos sabem exactamente o que têm a fazer. Ambos anunciaram exactamente o mesmo. Não é por acaso que o Sócrates começou pela indústria farmacêutica e o Obama anunciou que isso será uma prioridade para ele.

A Mafia sem escrúpulos está no terreno. Nada a pode derrotar – ela tem todo o dinheiro, ela domina a comunicação social, ela domina a cabeça das pessoas.

... só há uma esperança: não há alternativa ao Obama. Ou ao Sócrates. Na hora da verdade, façam as campanhas que fizerem contra eles, suficientes pessoas votarão neles. Não porque sejam esclarecidas, infelizmente a maior parte não o será, mas simplesmente porque não têm alternativa.
(na verdade, na verdade, nenhum político a sério quer ser alternativa a qualquer deles; todos os políticos sabem o que vos digo e os que são minimanente espertos sabem que é preciso que os Obama e Sócrates deste mundo ganhem esta guerra).

terça-feira, janeiro 13, 2009

Pausa para ouvir

Pois é, às vezes precisamos de mais tempo para nos ouvirmos a nós próprios... é o meu caso nesta altura. Preciso de parar para me ouvir. Dêem-me um mesito, amigos e companheiros.

E tenho também de preparar a próxima etapa da nossa viagem. Esta é uma viagem de descoberta e iremos atravessar terrenos perigosos, há que pensar bem as coisas. Todas as grandes viagens têm de ter as suas pausas, esta não é excepção. Só quem anda em círculos, ou pisa caminhos já trilhados, pode não fazer pausas.

Dêem-me um mês então. Pelo Carnaval aqui estarei de novo. Entretanto, irei continuar no «outra Física», embora a um ritmo lento.

Um abraço e até já.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Deixando o Aquecimento Global no Limbo

Bem, eu tinha pensado mostrar as variações do CO2 com as glaciações, mostrar como elas acompanham a variação da temperatura mas notando que o fazem com um ligeiro atraso, pois a variação do CO2 nesta situação é consequencia e não causa da variação de temperatura, mostrar como em sites credenciados mas ligados às ideias do “aquecimento global” os gráficos são ostensivamente esborratados para esconder que a variação do CO2 é posterior à da temperatura, apresentar as explicações existentes e a minha para o facto de o CO2 variar com a temperatura (até ao longo do ano varia com a temperatura);

e tinha pensado falar de como as plantas enfrentaram a progressiva diminuição do CO2, os ciclos de fotossíntese C3 e C4, as consequências da diminuição do CO2 a prazo; e finalmente, fazer um pouco de futurologia, analisando como a queima de combustíveis pode influenciar este quadro de progressiva diminuição do CO2.

Mas, com o frio que faz, quem é que ainda pensa no «aquecimento global»? Há quanto tempo as noticias não o referem? Quem é que vai aceitar planos de sequestro do CO2? Quem é que vai gastar dinheiro a destruir CO2 no meio desta «crise»? Claro que as propostas continuam a surgir, ainda há perspectivas de negócio, mas não acredito que vão para a frente.

Como o arrefecimento global implica maiores amplitudes térmicas, é possível que surjam uns dias muito quentes no Verão, e os incêndios do costume, e lá volte a tolice do aquecimento global; nessa altura talvez o tema ganhe oportunidade. Mas, por agora, digamos que perdeu actualidade, vou antes falar de outros assuntos, porque este... o interesse deste «arrefeceu», não é verdade?

quinta-feira, dezembro 11, 2008

O Dióxido de Carbono marca o Horizonte da Vida


History of Atmospheric CO2 through geological time (past 550 million years: from Berner, Science, 1997). The parameter RCO2 is defined as the ratio of the mass of CO2 in the atmosphere at some time in the past to that at present (with a pre-industrial value of 300 parts per million). The heavier line joining small squares represents the best estimate of past atmospheric CO2 levels based on geochemical modeling and updated to have the effect of land plants on weathering introduced 380 to 350 million years ago. The shaded area encloses the approximate range of error of the modeling based on sensitivity analysis. Vertical bars represent independent estimates of CO2 level based on the study of ancient soils.
(link para a página clicando na figura)


Um estranho problema de que não se fala é o desaparecimento do Dióxido de Carbono.

Como sabemos, o CO2 é o gás mais importante para a vida. Mais importante do que o Oxigénio, pois sem este a vida continuaria a existir na Terra, mas sem CO2 apenas em ambientes muito restritos continua possível a vida em formas muito elementares.

Ora quando analisamos a evolução do CO2 deparamos com algo a que certamente devemos prestar atenção: a taxa de CO2 tem vindo a diminuir desde as origens da Terra!

O CO2 já foi, a seguir ao vapor de água, o gás mais abundante na atmosfera. A atmosfera inicial da Terra compunha-se essencialmente de vapor de água e de CO2. Estima-se a quantidade inicial de CO2 em 30 a 50 atmosferas (30 a 50 vezes mais do que toda a atmosfera actual em massa)

Reparemos na figura: só nos últimos 500 milhões de anos diminuiu umas 20 vezes. Em relação às quantidades iniciais de CO2, a quantidade actual é cerca de 100 000 vezes menor.
Actualmente, o CO2 é mais raro que o Árgon, que é um gás raro. Aquele que já foi um gás dominante da atmosfera terrestre é hoje mais raro que um gás raro! Representa apenas 0,036% da atmosfera, enquanto o Oxigénio é 21% e o Argon 0,93% (e o Azoto 78%).

Se extrapolarmos a tendência de variação do CO2 dos últimos 200 milhões de anos, concluímos que, se tudo continuar como até aqui, dentro de 50 milhões de anos no máximo o CO2 desaparecerá e com ele a vida na Terra tal como a conhecemos.

Esta é a maior ameaça à vida terrestre alguma vez apontada. As consequências do desaparecimento do CO2 seriam muito piores que as maiores catástrofes alguma vez ocorridas no planeta, muito piores que o Evento que determinou a extinção dos Dinossáurios e outras extinções maciças ainda maiores.

Mas 50 milhões, embora uma insignificância à escala geológica, é um período dilatado à nossa escala. Valerá a pena preocuparmo-nos com isto?

Primeiro, notemos o seguinte: a vida será profundamente afectada muito antes do CO2 desaparecer. Muitas plantas precisam de níveis mínimos de CO2 superiores a 100 ppm (100 partes por milhão ou 0,01%) para poderem crescer; portanto, a extrapolação que temos de fazer não é para quando o CO2 for zero mas para um valor da ordem de metade do actual.

Depois, os níveis de CO2 têm apresentado nos últimos milhares de anos flutuações acentuadas, que atingiram valores tão baixos que ficaram próximos dos mínimos necessários à vida. Ora não sabemos porque é que o CO2 flutua desta maneira e, portanto, não podemos estar certos que na próxima flutuação não venha a cair demasiado para as necessidades da vida. Como veremos, isso pode encurtar o horizonte da Vida para uns 10 000 anos.

E, por último, continuamos a ouvir falar de projectos megalómanos, loucos e descontrolados para «sequestro» do CO2; um projecto destes (como, por exemplo, bactérias de laboratório) é uma verdadeira arma de destruição maciça. Como «sequestrar» o CO2 passou a valer muito dinheiro dentro das actuais e futuras políticas de «combate às alterações climáticas» não estamos livres de alguém a conseguir realizar. Isso poderia encurtar o horizonte da Vida para uns... 10 anos?

Pelo sim pelo não, será bom entender melhor porque e como varia o CO2 a curto prazo e que margens de segurança temos, não vos parece?

quinta-feira, novembro 27, 2008

Estou a Ganhar de Mais e os Portugueses a Ganhar de Menos

Em face do exposto no post anterior é fácil perceber que a saída da crise passa necessariamente por diminuir os rendimentos dos «ricos» e aumentar o rendimento das «famílias». É fantástica esta característica do Capitalismo, não é? Obriga periodicamente a acabar com os pobres!

Isso significa controlar as actividades especulativas e aumentar o rendimento das «famílias» através da diminuição de preços e aumento dos ordenados.

Mas quem decide são os «ricos»; ora aceitar a ideia de que este sistema económico é um jogo que chegou ao fim porque os outros jogadores estão na bancarrota está difícil de aceitar, eles querem continuar a jogar, querem continuar a ganhar muito. Mas já não há mais para ganhar, o jogo tem de voltar ao princípio para se poder voltar a jogar.

Assim, as medidas que se perfilam para sair da crise mais não visam do que tentar a todo o custo manter o fluxo monetário em direcção aos ricos; como as «famílias» já não suportam esse fluxo, a solução miraculosa é alimentá-lo a partir do Estado.

Em vez do aumento dos ordenados, que sai do fluxo dos «ricos», pretende-se baixar o IVA, que é uma forma aparente de repor o poder de compra, de aumentar o ordenado útil; mas isso é um engano, porque o dinheiro que o Estado deixa de receber vai significar menos apoio social para as «famílias» (pior saúde, pior ensino, etc) logo, as «familias» não ganham com isso.

Não é por acaso que a crise explodiu nos EUA. A instituição do Ordenado Mínimo protegeu a economia europeia. A maneira de sair da crise é aumentar os ordenados e reajustar a produção para satisfazer novas necessidades em vez de necessidades que já estão saturadas (por exemplo, menos automóveis e mais geradores eólicos ou solares).

Por outro lado, há que combater os mecanismos especulativos que contribuem fortemente para o crescimento da desigualdade.

Sabem porque é que os administradores da sociedades anónimos têm ordenados e bónus tão extraordinários? Por serem pessoas excepcionais e terem uma influência determinante no sucesso da sociedade? Nada disso!!!!

Tanto quanto percebo, o mecanismo é o seguinte: um pequeno grupo de pessoas tem uma percentagem de acções que lhes garante direito a um lugar no Conselho de Administração; suponhamos que representam 20% do capital da empresa. Essa empresa gera lucros sobre todo o seu capital, suponhamos que tem uma rentabilidade de 3%. Se ela distribuisse dividendos, todos os accionistas teriam um rendimento de 3% do capital investido, para além de eventuais mais valias das suas acções. Mas, se em vez de distribuírem dividendos, agarrarem nos lucros da empresa e os pagarem como prémios ou ordenados aos Administradores? Como eles representam 20% do capital da empresa, isso significa que obtêm assim uma rentabilidade de 5x3= 15% do capital que investiram.

Claro que isto é uma descrição simplificada do mecanismo. Mas agora já se entende melhor porque é que os lugares dos conselhos de administração dos bancos são tão ferozmente disputados e porque é que recebem quantias tão extraordinárias, não é verdade?

Depois, aparecem administradores de sociedades que são participadas pelo estado, dependentes de capitais públicos, que se auto-atribuem ordenados milionários com o argumento que estão a «alinhar pelos preços de mercado». Isto é roubo puro. Às vezes, têm por detrás processos de financiamento dos partidos.

Ora esta teia tem de ser desmontada. As sociedades por acções têm de passar a pagar dividendos, o que vai acabar com os ordenados exorbitantes dos seus administradores; os ordenados dos administradores de empresas publicas ou participadas pelo Estado terão de baixar em consequência (para «alinhar pelo mercado», não é?)

O Dr. Victor Constâncio tem dito repetidas vezes que «os portugueses estão a ganhar demais»; é um homem sério, frontal, corajoso, todos o dizem; será pois altura de começar a dizer «Eu estou a ganhar de mais e os portugueses estão a ganhar de menos».
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segunda-feira, novembro 10, 2008

Quantificando a «Depressão»

Apesar da pouca estima que os números merecem da maior parte de nós, não há nada como uma quantificação para nos fazer entender os problemas. Por isso, vou apresentar uns calculozinhos para que se compreenda bem a verdadeira natureza e dimensão da actual crise financeira.

Consideremos a distribuição do rendimento dum país capitalista (tipo EUA mas não só) no ano 2006: 70% do rendimento vai para 10% da população. Vamos admitir que o PIB desse ano nesse país cresceu 2%. Mas na nossa sociedade capitalista, o rendimento das pessoas não cresce por igual, o rendimento dos mais ricos cresce bem mais depressa; vamos admitir que o rendimento dos 10% mais ricos cresceu apenas 8% - e digo «apenas» porque uns números que vi eram maiores, mas não quero assustar-vos demasiado, vou limitar-me a uns míseros 8%. Vejamos agora como variou no mesmo período o rendimento dos restantes 90% da população.

As contas são simples e podemos apresentá-las na seguinte tabela:


Portanto, o rendimento médio de 90% da população diminuiu 12%!!

Mas olhamos à volta e parece que cada vez há mais dinheiro! Como é isso?

Primeiro, nem todas as pessoas destas 90% viram o seu rendimento diminuído. Vamos refinar a nossa análise dividindo o grupo de 90%; a distribuição de rendimentos que vamos supor agora é a seguinte: 10% têm 70% do rendimento, 40% têm 20% e 50% têm 10%. E vamos supor que esses 40% tiveram um crescimento do rendimento nulo: 0%. A tabela fica agora:


Concluímos que 50% da população teve uma perda média de rendimento brutal: -36%!!!

Vocês nem podem acreditar, pois não? Como é possível? Alguns não notam porque estão nos 50% da população que não sofreu isso, e 50% ainda é muita gente, chega perfeitamente para encher restaurantes, bares, discotecas e espectáculos da Madona. Além disso, o crédito fácil veio disfarçar essa perda de rendimento: o rendimento que se perdeu a pronto obteve-se a crédito. O endividamento das «famílias» aumentou. É fácil acusar as «famílias» e a banca desta gestão aparentemente irresponsável das finanças; difícil é suportar tal perda de rendimento, sobretudo a quem já se encontra no limiar de sobrevivência...

Reparem noutra coisa: a percentagem de rendimento que fica nos 10% mais ricos cresce sempre; em 2007, no caso em estudo, passou a ser de 75,6/102=74%. Portanto, o problema agrava-se rapidamente e é fácil perceber em que ano se torna insustentável.

Mas se pensam que isto é um problema só de países como os EUA, podemos analisar os números de um país tipo China, onde os 10% mais ricos ficam com 50% do rendimento. Arbitremos então para um país imaginário neste estadio do seu capitalismo um PIB de 8% e crescimento dos mais ricos de 16%; a primeira tabela é agora:

Portanto, o rendimento médio de 90% da população estacionou; isto significa que parte dela já está a empobrecer. Avancemos mais um ano, reduzindo as taxas de crescimento para 7% e 14%, como é costume acontecer nestas economias (as percentagens de rendimento são agora 58/108=53,7 e 50/108=46,3):

Mais um ano, reduzindo em 1% as taxas de crescimento:

Suponho que não preciso de calcular mais outro ano para verem como a situação na China rapidamente se tornará como a dos EUA.
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Percebe-se agora como é que um candidato que fala em «espalhar a riqueza» ganha as eleições nos EUA: mais de 50% da população está a empobrecer aceleradamente. «Espalhar a riqueza» é do interesse imediato da maioria das pessoas.
(na verdade, é uma situação pré-revolução... que os governos tentam adiar aumentando a massa monetária, mas o quadro agrava-se aceleradamente e conduz fatalmente ao caos)
Como se chega a esta situação? Na verdade, tudo começa em cada um de nós, quando procura pagar à mulher-a-dias o mínimo possível...
(continua)
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sexta-feira, novembro 07, 2008

Felizmente há Recessão!

Os meus leitores que me perdoem, eu tenho coisas bem interessantes e revolucionárias para apresentar, mas tenho de esclarecer os meus próprios raciocínios sobre a actual crise económica, tenho de encontrar uma compreensão que me permita sossegar o pensamento e partir para outras aventuras (bem mais dentro dos meus conhecimentos...). Este texto sou eu a tentar perceber com a ajuda dos meus «botões»; não procurem aqui ensinamentos de quem sabe, porque aqui apenas há reflexões de quem não sabe.

Como é que o PIB cresce sempre (ou quase) e a massa monetária não? Estar «mais rico» não é «ter mais dinheiro»?

Deixa-me lá ver um exemplo básico, que é como poderei começar a perceber as coisas.
Vou supôr uma comunidade de 10 agricultores; todos cultivavam a sua propriedade e faziam tudo o que precisavam: a sua casa, as suas ferramentas, os seus móveis. Um deles, o Loulel (inventei este nome agora), era um grande azelha como agricultor, ou então o seu terreno era mau, o certo é que as culturas eram sempre um desastre. O homem estava bem magrinho, coitado. Em compensação, esmerava-se nas outras coisas, não entrava água no seu telhado, as suas foices eram excelentes, as rodas da sua carroça nunca se partiam, etc. Mas as couves... Um dia teve mesmo de ir pedir comida aos outros, já não dava para aguentar tanta fomeca.
Um vizinho propôs-lhe então o seguinte: dar-lhe-ia couves em troca de uma foice nova! Dito e feito! Outro vizinho surgiu logo com nova proposta: um coelho pelo arranjo do telhado!
E assim o nosso agricultor desastrado ganhou uma nova vida. A agricultura, esqueceu-a. A sua actividade era fornecer os vizinhos de todo o tipo de objectos – foices, mochos, carroças, arados, etc.. E assim ganhava a sua comida.

Mas surgiram problemas: a comida tem as suas épocas, as necessidade de objectos outra; a comida que um vizinho tinha para lhe fornecer não era a que ele queria mas sim a de outro vizinho! Então inventaram um sistema, uns objectos a que chamaram «dinheiro» e que serviam de vale – ele fornecia uma foice a troco de uma certa quantidade de dinheiro que depois trocaria, com esse vizinho ou outro, pelo produto alimentar desejado.

Não era preciso muito dinheiro. Entregava uma foice, recebia dinheiro, que trocava por comida; entregava outra foice, recebia outra vez o dinheiro, voltava a comprar mais comida.
O total de comida que ele conseguia tinha a ver não com a quantidade de dinheiro mas com a velocidade com que circulava, com o fluxo de dinheiro.

Ahh, já estou a perceber porque é que podemos ficar todos mais ricos sem aumentar a quantidade de dinheiro: o que tem de aumentar é a circulação de dinheiro!! O Fluxo monetário é que interessa!!!
Então, para ficarmos todos mais ricos, o que há a fazer é aumentar a produção / consumo. Daí as teorias económicas como a da «
Oxidação do dinheiro». Deixa-me lá voltar à história para ver o que isto dá.


Então, o Loulel pensou: se eles cultivarem mais terreno vão produzir mais comida e vão precisar de mais foices e arados; se eu produzir mais e os convencer a trabalharem mais, vou ter mais comida! O magricelas do Loulel tinha-se transformado num grande comilão...
E assim foi: o Loulel teve artes de levar os outros a entrarem em competição, a ver quem produzia mais; quanto mais produziam, mais foices e arados o Loulel vendia.

Surge um problema: precisam de arados mas só poderão pagar com a colheita futura. Arranja-se uma solução: cria-se um «banco», onde cada um põe uma pequena quantidade de dinheiro; esse banco empresta então dinheiro a quem precisar para comprar arados ou foices, que depois devolverá ao banco quando fizer a sua colheita e a vender ao Loulel – com uma pequena taxa, bem entendido, é preciso pagar ao Tinol que, para tomar conta do Banco, teve de desistir da agricultura.

E outra nova ideia! Em vez de cada agricultor negociar individualmente a venda dos seus produtos, porque não fazer com os alimentos o mesmo que com o dinheiro? Criaram uma cooperativa que centralizava a compra e venda de alimentos. Mas isso teve uma consequência de que os agricultores não se aperceberam: na hora de vender à cooperativa, todos queriam o preço mais alto; mas na hora de comprar, agricultores e não-agricultores queriam o preço mais baixo. Em consequência, a tendência dos preços foi para baixar. Isso não preocupou os agricultores a princípio porque a produção estava a crescer com os novos meios que o Loulel ia produzindo.

(estou a perceber-me... nós queremos pagar o mínimo possível à empregada e, ao fazê-lo, estamos a fomentar o mecanismo que faz com que o nosso empregador nos pague o mínimo possível)

O Loulel, inteligente como é, desenvolve métodos de produção em série, que permitem que o produto saia muito mais barato e satisfaça a crescente procura. O Loulel produz, produz, mas então surge um problema: a produção dos agricultores não pode crescer indefinidamente, as pessoas só têm um estomago, não é? Mas os preços continuavam a descer e o rendimento em queda dos agricultores não lhe permitia comprar ao ritmo que o Loulel produzia, a produção em série tem esta limitação, não dá para produzir pouco, o Loulel estava a produzir para o armazém.

Bem, isto está um bocadinho forçado mas serve para representar a grande depressão americana dos anos 20 e 30 – os ordenados dos trabalhadores não lhes dava poder de compra para consumir a grande produção das fábricas. A crise instalou-se porque o fluxo monetário ficou estrangulado nos trabalhadores.

Para escapar ao desastre e escoar a sua produção, o Loulel tomou duas medidas: passou a pagar mais pela comida, para recuperar o poder de compra dos seus clientes, e globalizou a sua actividade, passou a fornecer também os agricultores doutras zonas – uma óptima ideia para a Loulel e para os outros agricultores, que ganharam acesso a equipamentos que muito lhes aumentavam a produção de alimentos. Os agricultores do início desta história também passaram a vender para outros mercados e puderam assim aumentar a produção.

A carteira de clientes do Loulel cresce novamente. Para evitar saturar o mercado, o Loulel vai introduzindo novos produtos e vai introduzindo novos modelos de arados e foices, mais sofisticados e mais caros, naturalmente. Os agricultores são estimulados a aderirem aos novos produtos. Não tem ainda uma mesa de cabeceira? Que vergonha!! ? Mochos em vez de cadeiras? O seu arado é do modelo básico? O seu trator não tem GPS? Tschh tschhh...

A competição entre agricultores deixa de ser entre quem produz mais mas entre quem tem mais. Quem consome mais, porque o Loulel está sempre a sair com novos modelos para todos os seus produtos, o que torna os anteriores obsoletos «socialmente». Os empréstimos do banco deixam de ser amortizados, pois se se pode apenas pagar os juros, para quê amortizar? O próprio Loulel já nem vende a «pronto», apenas a «crédito», a etiqueta que dantes anunciava o preço do produto anuncia agora apenas o valor da prestação. Que interessa o preço? A prestação é que interessa...

Os agricultores compram, compram; e, às tantas, tudo o que produzem só chega para pagar as prestações, já não podem comprar mais nada! Alguns nem percebem como chegaram a essa situação, pois viviam ainda na ilusão de que os seus rendimentos continuariam a crescer no futuro como cresceram no passado. Já não crescem, a globalização já deu o que tinha a dar. Mas o certo é que essa situação é uma tragédia, o Loulel já não poderia vender nada, o fluxo monetário pararia, regressariam à miséria inicial. Mas todo o problema tem solução, não é? Então o banco surge com uma solução – todas as dívidas são integradas numa só, a coberto da hipoteca da casa; como a casa é um bem duradouro, a amortização do empréstimo fica para as calendas e os agricultores, agora designados por «as famílias», uma nova designação para «povo», passam a pagar só juros do empréstimo!!! Que o empréstimo seja um pouco maior que o valor da casa não impressiona, o negócio dos juros mais do que cobre o risco associado.

Folga para mais compras. O Loulel a produzir mais produtos irresistíveis,que muito facilitam a alegram a vida das famílias. Rapidamente, a folga financeira conseguida com a renegociação dos créditos se esgota. As «famílias» não têm dinheiro para mais créditos. Deixam de comprar. O Loulel começa a fazer «promoções». As famílias não compram, ele não vende. Isto vai mal. O preço das casas cai, não há quem compre. Drama. Uma solução surge no horizonte: se as casas agora já só valem metade da hipoteca que têm em cima, entrega-se a casa ao banco e parte-se para outra, que só custa metade da dívida! Aí os bancos tremem. Contraproposta desesperada – um período de carência em que as pessoas só pagam uma renda pela casa, menos que o juro da dívida, algo como o juro que teriam de pagar por um empréstimo do valor actual da casa.

Mas a crise está instalada: as «famílias» reduzem drasticamente as compras. Os «Loulel» não escoam os produtos. As empresas fabricantes quebram lucros. As acções na bolsa desvalorizam. Tudo porque o fluxo monetário se reduziu. É preciso aumentar o fluxo monetário de novo. Os governos injectam dinheiro no sistema.

Hummm... não está mal a descrição... a causa da confusão é o estrangulamento do fluxo monetário nas «famílias». No fundo, o mesmo que já aconteceu na grande depressão... só que agora o aparecimento do crédito permitiu ir disfarçando e adiando a crise... o problema não estará, portanto, no crédito, está na real diminuição de rendimento de 90% das pessoas. Que, como já referi, aqui e aqui, é uma consequência fatal do facto de os 10% mais ricos dominarem muito mais de 50% do fluxo monetário e terem um crescimento muito superior ao PIB.

Será uma característica do Capitalismo? O Capitalismo será um sistema óptimo quando se parte de uma situação de igualdade mas conduz fatalmente a uma desigualdade crescente que acaba por o estrangular?

Hummm... a Revolução Francesa aconteceu porque a desigualdade era enorme... a monarquia acabou em Portugal quando a miséria do povo bateu no fundo... não, o crescimento da desigualdade não é uma característica do Capitalismo, é uma tendencia sistemática das sociedades humanas.

É essa tendência que o Socialismo pretende contrariar. O problema é que o Socialismo, como teoria económica, ainda tem de ser inventado (o que existe é a definição de funções sociais do Estado e um teoria de actividades planificadas, não é uma teoria económica; os países nórdicos têm alguma coisa mas funciona só em espaços fechados, o que é uma limitação importante). Como construir um sistema económico que se inicia numa sociedade desigual e produza crescimento sem aumentar a desigualdade média, pelo contrário?

Mas, reparo agora, em recessão estou eu há vários anos – o meu rendimento líquido só tem diminuído. Na verdade, 90% das pessoas do mundo ocidental estão a perder rendimento, em média, há vários anos. Muitos anos. Nos EUA, desde 2000 que o ordenado médio diminui. Quem pode ser afectado pela «crise» são os 10% mais ricos. Claro, isso já se sabia, a sua riqueza não podia continuar a crescer várias vezes acima do PIB! Então a recessão é para os ricos, para os outros significa que o seu rendimento terá de aumentar para repôr o fluxo monetário necessário ao funcionamento do Capitalismo! Viva a Recessão!!

E por que é que o PIB tem de crescer indefinidamente? Vamos trabalhar mais para produzir mais coisas para ganharmos mais dinheiro para comprarmos mais coisas? Que coisas? Que tal comprarmos TEMPO para variar? Menos horas de trabalho, mais tempo para pensar, para conviver, para estar vivo simplesmente? Os japoneses não estão em recessão há uma data de anos e não são o povo com a esperança de vida mais alta?

Hummm.... deve ter sido isso que os americanos pensaram quando escolheram o Obama... e eu preocupado com a «recessão»!! Ora bolas! A Recessão só significa que as coisas vão melhorar!!!

E o problema está nesta questão: Como construir um sistema económico que se inicie numa sociedade desigual e produza crescimento sem aumentar a desigualdade média, pelo contrário?

quarta-feira, outubro 29, 2008

Carbono, Nuclear ou Solar


O potencial do pais em energia solar, considerando um rendimento de 5%, ao pé do nosso consumo de energia obtida das outras fontes de energia

Vamos agora, na continuação da análise do balanço energético, espreitar rapidamente a nossa situação.

Energia Solar disponível:

Área do território continental: 92 000 km^2
Radiação solar média: 1500 kWh/m^2/ano

Donde:

Energia Solar bruta em Portugal: 1,4*10^17 Wh/ano=1.4*10^5 TWh/ano= 140 000 TWh/ano

(TWh = Tera Watt hora; Tera =10^12 ou seja, um milhão de milhão – um bilião em diversos países)

Consumo Energético:

Estimámos já que o consumo individual médio português anual é 100 MWh de energias manufacturadas (quer na forma de combustível, quer na de energia eléctrica, quer de produtos e serviços) e de 100 MWh de energia solar bruta necessária à fotossíntese do nossos alimentos. A igualdade destes dois valores é mera coincidência, sendo o primeiro válido apenas na sociedade ocidental actual. Como somos 10 milhões:

Consumo de energia manufacturada: 10^15 Wh/ano = 1000 TWh/ano
Consumo de energia solar bruta (fotossíntese): 10^15 Wh/ano = 1000 TWh/ano

Vejamos agora que área do território necessitaríamos de utilizar se quiséssemos obter uma quantidade de energia igual à que consumimos.

Percentagem do território necessário à fotossíntese.

Para a alimentação precisaríamos de 1000 TWh do total de 140 000 TWh de que dispomos; isso significa a necessidade de utilizarmos 1/140 ou 0,7% do território na agricultura de produtos destinados à alimentação humana.

Muito pouco, não é? Note-se que grande parte da área do pais está ocupada com floresta (1/3), vinha, olival, girassol, que não são produtos alimentares propriamente ditos.

O valor obtido acima é a área efectivamente utilizada; mas seria preciso mais área pois é necessário prever zonas de pousio e excesso de capacidade para compensar as perdas devidas a geadas, granizos, pragas, incêndios e outros; muitas culturas exigem acessos para tratamento e colheita; finalmente, uma exploração agrícola exige muito mais área do que a cultivada, para apoios, armazenagem, tratamentos, acessos, reservas de água, etc., o que me faz estimar ente 6% e 10% a área do território que é necessário destinar actividades de produção de alimentos.

Não estou a contabilizar áreas de pasto e estou a ignorar a importância da pesca na satisfação das necessidades alimentares.

No Eurostat podemos ler que a área irrigável máxima em 2005 em Portugal seria de 616 970 ha, o que representa 6,7 % da área do país; este valor, que já foi mais alto, parece de acordo com o calculado, pois parte desta área é utilizada para produções não alimentares, como o girassol, e parte não é sequer utilizada, o que significa que a área utilizada será consideravelmente inferior aos 6,7% da área que pode ser irrigada.

A conclusão importante é que, apesar do clima seco, temos condições para produzir a alimentação necessária à nossa alimentação – desde que disponhamos da energia necessária a fabricar os adubos, processar, transportar, etc.. E é isso que vamos ver agora:

Como obter os 1000 TWh/ano de energia manufacturada (equivalente do PIB em unidades de energia) que consumimos?

Vimos atrás que dispomos duma energia solar bruta de 140 000 TWh/ano; mesmo com um rendimento de 5%, a percentagem de território necessária para obter 1000 TWh/ano seria de 14%, sensivelmente metade da actual área de floresta; para substituir totalmente os chamados combustíveis fósseis, que não chegam a 250 TWh/ano, bastaria menos de 5% do território. (note-se que é apenas a área útil)

As outras formas de energia alternativa não têm o potencial da Solar nem de perto; o horizonte de potencial da Eólica em Portugal será de uns 15 TWh/ano, portanto uma insignificância em relação às nossas necessidades.

É, portanto, claríssimo que só há, para nós, três verdadeiras opções energéticas: Carbono, Solar e Nuclear.

O rendimento da opção Solar depende muito da insolação do local. Por isso, a energia Solar não é muito interessante para paises de latitudes elevadas, onde o rendimento pode ser baixíssimo (até negativo) e onde a Eólica pode ter mais importancia, sem nunca constituir uma verdadeira alternativa para o problema energético.

Para esses países, para terem uma alternativa ao Carbono (combustíveis fósseis) terão de recorrer ao Nuclear; solar ou eólica locais serão apenas paliativos para o problema energético.

Em paises tropicais, como o Brasil, a cana de açúcar é uma alternativa adicional, neste momento talvez a melhor.

Curiosamente, podemos verificar que, apesar disso, muitos desses paises têm feito um considerável investimento na Energia Solar. Contrariamente a Portugal, com um papel passivo, onde os esforços de desenvolvimento resultam de iniciativas autónomas.

A utilização da energia solar tem ainda grandes problemas para resolver, como o do armazenamento; em pequena escala, o problema não se põe, mas para uma produção maciça ele é incontornável. As opções são várias, como baterias, ar comprimido, elevação de água, gasolina sintética, hidrogénio, mas todas implicam uma importante perda de rendimento global do sistema.

O sistema de produção mais simples será o das células fotoeléctricas; mas o seu rendimento fraco leva à procura de outras soluções à base de fornos solares, quer para alimentar uma turbina, quer para a produção directa de hidrogénio (um pouco o inverso das células de combustível).

Os investimentos a fazer, mesmo num pais pequeno como Portugal, serão perto do bilião de euros (milhão de milhão); qualquer pequeno avanço tecnológico representa um imenso volume de dinheiro, um verdadeiro euromilhões. Por isso, investir no desenvolvimento da energia Solar, como muitos paises estão a fazer, é dos melhores investimentos que se pode fazer.

Vamos, à maneira Árabe, deixar esse negócio para os países mais desenvolvidos? Ou vamos fazer como, por exemplo, a Alemanha, e criar um Instituto para o sector, como a Alemanha fez para a Eólica? Um bom modelo poderia ser o do Instituto Fraunhofer, em parceria com Espanha, Grécia e Itália.

Vamos seguir o exemplo do Iraque ou da Alemanha?

Dependermos do «saber fazer» dos outros para a energia solar é o mesmo que depender dos combustíveis fósseis – o que teremos de pagar por eles será o valor da energia que fornecem, quem beneficiará do nosso Sol será quem fornecer os sistemas. Têm de rentabilizar o custo do desenvolvimento que fizeram, não é? Não é difícil perceber isso, pois não?

Três notas:

- Actualmente, a energia eólica sai mais barata que a fotoeléctrica; por isso, não é disparatado começar, por agora, por montar umas eólicas. Mas é preciso ter presente que esta não é uma solução de futuro para Portugal e que o investimento na solar não tem alternativa no campo das energias renováveis; o desenvolvimento de «saber fazer» e capacidade industrial na solar é vital e começar já poderá resultar em economias brutais no futuro.

- A produção de Biogás é a mais básica das actividades de reciclagem, pois consiste em retirar dos restos orgânicos, animais ou vegetais, a energia que foi usada na sua produção – é a reciclagem da Energia!

- A energia hídrica e eólica, somadas, que produzimos actualmente - uns 15 TWh/ano - é uma insignificância ao pé dos cerca de 250 TWh/ano de combustíveis fósseis que importamos.

segunda-feira, outubro 20, 2008

As Rainhas

Durante milénios, com interrupções muito pontuais, Dona Escassez foi Rainha dos preços dos produtos. Tudo era escasso, excepto as pessoas. Até muito recentemente. Grandes livros de Economia que mesmo hoje fazem escola são ainda desse tempo.

Mas a Humanidade, na sua luta estrénua e milenar contra a sinistra Dona Escassez, encontrou finalmente armas poderosas: a força dos Combustíveis fósseis e do Conhecimento rebentou os limites da capacidade de produção. Energia e Conhecimento, são estas as duas armas capazes de derrotar, destruir, aniquilar, a misantrópica, tristonha Dona Escassez.

A capacidade de produção de muitos bens (os mais importantes) cresceu imenso, tornou-se muito maior que a capacidade de absorção do mercado. Mas Dona Escassez viu aí o seu ponto de fuga, ágil como qualquer velhaco saltou dos Bens para o Mercado - a Escassez passou a ser de Mercado, não dos bens essenciais.

Desenvolveram-se então novas teorias económicas, assentes no marketing, ou seja, na geração de um mercado que já não resulta de reais necessidades das pessoas. Na invenção de novas necessidades para criar mais mercado. Produtos de sucesso são produtos de alguma forma «especiais», seja por serem «melhores», «diferentes», «novos», «únicos», «verdes», «empenhados numa sociedade melhor», etc.. Produtos que satisfazem em quem os compra uma necessidade que não é apenas aquela que directamente corresponde ao produto, mas uma necessidade de outro tipo – de estatuto, de diferenciação, de poder, de novidade, de mudança, de estética, de qualidade, de pertença a um grupo, ou o oposto, etc.

Paralelamente, desenvolveu-se também uma nova filosofia adequada à situação do excesso de oferta – cartelização, lobbying, destruição de produção em excesso, introdução de prazos de validade, definição de quotas de produção, incentivos à não-produção, etc. Isso permitiu evitar uma catástrofe da actividade de produção e adequar a oferta ao mercado. A esquálida, feia, assexuada Dona Escassez foi enquadrada, espartilhada, manietada, tornada quase inofensiva.

Quase, mas não totalmente: alguns bens continuaram genuinamente escassos – por exemplo, a Habitação nos novos locais de agregação social.

Os livros de gestão iam ensinando as novas técnicas para viver neste novo sistema de abundância: os sinais para combinar preços, a forma de fazer propostas ganhadoras que conduzissem a inevitáveis «trabalhos a mais», etc, etc..

Mas eis que uma personagem, até aí de fraca figura, porque só pode crescer na Abundância, faz a sua brusca aparição neste teatro humano: Dona Corrupção cresceu, engordou, os papudos dedos encheram-se de anéis, as mãos agarrando toda a riqueza que devora, devora, possuída de frenesim mórbido, Rainha cega, indiferente, à destruição que vai causando.

Entretanto a Humanidade globalizou a economia, numa tentativa de expansão de alguns mercados. A Dona Corrupção exultou, abocanhou, engordou.

As técnicas dos concursos já não são de como responder aos cadernos de encargos mas de como os fazer para que ganhe quem se quer que ganhe, com as margens para «trabalhos a mais» necessários à fome da Dona Corrupção; por todo o lado se multiplicam astronómicos «bónus», «prémios», «comparticipações», «pensões», «indemnizações», jogos de poder, atribuição de lugares sem mérito, favores, etc., porque Dona Corrupção é esperta, sabe gerir a infinita cupidez humana para fazer de todos os humanos seus cúmplices. Tudo a trabalhar para o lucro imediato. Todas as actividades tendem a ser actividades de especulação, como a Bolsa, ou de extorsão – os cartões de crédito, os esquemas de vendas, os leasings, as «fidelizações» obrigatórias a serviços, os empréstimos. No início da actividade bancária, dizia-se que os bancos só emprestavam a quem não precisava; agora o negócio consiste em emprestar a quem não pode pagar, para depois cobrar juros usuários e crescentes a quem não consegue ver-se livre da dívida. Os empréstimos vencem juros, a amortização é a mínima possível.

Dona Corrupção entra em paranóia mórbida. Por exemplo, os administradores dos bancos americanos falidos nem pensam em prescindir dos seus brutais bónus, cerca de 10% do dinheiro com que a Reserva Federal tem de entrar para salvar as empresas que administram. Mas isto é só um exemplo, porque a Dona Corrupção está em todo o lado, do ex-administrador do Banco de Portugal que abifa uma pensão milionária sem qualquer justificação moral, ao Juíz que não quer prescindir dos seus 2 meses de férias, ao médico que não quer picar o ponto, ao paizinho que inscreve o filho na escola particular para «comprar» a entrada na Universidade, ao trabalhador que consegue um atestado médico injustificado. Pessoas que surgem ricas a partir do nada, com fortunas colossais sem que se lhes conheça qualquer actividade produtiva, são incensadas, eleitas, comendadas. A Rainha Dona Corrupção é o exemplo a seguir. Pais educam os filhos no activo repúdio da Honestidade, esse estigma dos perdedores.

Tudo isto se tornou possível sob o beneplácito da bonacheirona Dona Abundância. Uma «não-te-rales». Convencida de que o «amanhã» só pode ser melhor do que o «hoje». Que o seu crescimento é garantido. Um dígito ou dois dígitos de crescimento, eis a única questão. A impensável situação de não crescer é batizada com nomes feios, como «Recessão».

Mas os benefícios da Globalização começam a esgotar-se – os mercados para onde se pretendia a expansão desataram a produzir e a Globalização, mais do que uma solução, ameaça tornar-se um problema económico.

Dona Corrupção é uma nova-rica, uma arrivista; ao invés, Dona Escassez tem milénios de sabedoria nos ossos velhos. Silenciosamente, pé ante pé, alheia ao corre-corre em redor da Dona Corrupção, cada um procurando servi-la quanto pode, Dona Escassez instala-se na Energia, com a estratégia milenar: primeiro o petróleo muito barato para eliminar as possíveis concorrências e estabelecer a dependência, depois o controlo da extracção para fazer subir o preço.

O preço dos produtos que são não-escassos - agora, quase todos os produtos essenciais são não-escassos, enquanto que os produtos não-essenciais são escassos - está sujeito à concorrência e tende para o preço da energia necessária à sua obtenção. A subida do preço da energia afecta sobretudo os mais pobres, que são os que consomem os produtos essenciais, os de «linha branca», aqueles cujo preço reflecte directamente o preço da energia. Os menos pobres compram produtos de marca ou, de alguma forma, «especiais», cujo preço é muitas vezes superior ao custo energético, portanto, muito menos sensível a este.

A subida do preço da energia implica assim um aumento de pobreza, não por as pessoas passarem a ganhar menos dinheiro mas por o preço dos bens essenciais ter de reflectir essa subida no orçamento daqueles que já estão no limiar da sobrevivência.

Instalada na Energia, Dona Escassez deixa-se expulsar da Habitação, «peanuts» ao pé do que ela tem agora na mão, enquanto um gargalhada sinistra lhe desce pela garganta.

Se o fim da escassez da Habitação é uma boa notícia a prazo, por agora traz uma grave consequência: o excesso de preço da habitação desaparece subitamente em mercados importantes e isso corresponde ao desaparecimento de uma imensa massa monetária virtual.

Todo o processo de extorsão que a Dona Corrupção tinha baseado no valor do imobiliário explode de repente – em vez de ficarem dependentes da dívida que não amortiza, as pessoas simplesmente entregam a casa ao banco e arranjam outra (ou a mesma) a um preço inferior ao da dívida que tinham. Poof, os grandes extorsionários entram em crise e, com eles os grandes especuladores, que são dependentes do crescimento da massa monetária virtual. De repente percebe-se que Dona Abundância não crescera, apenas estava inchada de riqueza virtual. Um fluxo monetário flui acelerado dos muitos consumidores de Energia para os poucos que controlam a produção e Dona Abundância corre atrás.

Há muitos anos que os Governos perceberam a jogada da Dona Escassez; tentaram contrariá-la com a técnica da «mentira conveniente», que é forma possível de gerir os humanos quando o conceito de «Inferno» já perdeu a força. Primeiro, foi o «arrefecimento global» produzido pelas partículas de carbono que os combustíveis fósseis introduziam na atmosfera, tal como o demonstram as explosões dos grandes vulcões, depois foi o «aquecimento global» pela libertação do CO2, tal como o mostra o passado quente da Terra. Mas foi um combate fraco porque Dona Abundância exigia sempre mais Energia e barata.

Os bancos centrais estão a injectar biliões de dólares, euros e libras; uma forma de temporariamente compensar a perda de riqueza resultante da subida do preço da energia e da perda de moeda virtual causada pelos mecanismos de extorsão e especulação que colapsaram.

Por agora, a redução no consumo de energia fez baixar o preço desta (não é coisa facilmente armazenável, tem uma resposta lenta às flutuações de consumo); mas os reajustes da OPEP e a retoma de «liquidez» do mercado vai fazer subir de novo o preço da energia. A única forma de realmente conter a presente crise é através de fontes alternativas de energia, estabelecer concorrência no sector, combater este novo reduto da Dona Escassez.

Os combustíveis fósseis não são nocivos ao planeta; como veremos, o seu consumo é mesmo essencial à saúde do planeta; o que é nocivo, para o nosso sistema económico, é a dependência deles. Como seria nociva uma dependência da energia nuclear, ou de um fabricante de paineis solares. Não é o tipo de energia que é bom ou mau, é a dependência do fornecedor.

... a guerra contra a Dona Escassez poderemos vir a ganhá-la... mas a guerra contra a Dona Corrupção que, ao contrário da Dona Escassez, vive dentro de nós, poderemos algum dia ganhá-la?
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sábado, outubro 11, 2008

A Energia Moeda-Forte

Como é que vamos saber quanta energia consumimos? Somando a energia importada com a produzida... com a energia dos alimentos que consumimos... mas não, não são as calorias dos alimentos que interessa, é a energia que foi necessária para os produzir, e isso engloba a energia necessária para produzir os adubos, os insecticidas, para tratar, conservar, transportar os alimentos... e não só, quando compramos um televisor, um carro, um telemóvel, seja o que for, estamos a consumir a energia que foi necessária para os fabricar... e não só, quando fazemos uma chamada telefónica, quando utilizamos um serviço, qualquer que ele seja, estamos a consumir a energia necessária a esse serviço... afinal, parece que sempre que gastamos dinheiro estamos a comprar energia... hummm, interessante... o que o dinheiro faz é comprar energia... Mas qual é o preço da energia afinal???

Vejamos a gasolina:1 litro de gasolina produz uma energia de cerca de 10 kWh; ora um litro custa cerca de 1,5 euros, logo o preço do kWh da gasolina é de cerca de 15 cêntimos.

Vejamos a electricidade: vejam o total da vossa factura de electricidade e dividam pelo total de kWh consumidos. No meu caso dá.... 15 cêntimos por kWh!

Boa! Então o preço do kWh da electricidade e da gasolina é o mesmo, apesar de se tratarem de dois sistemas de energia tão distintos! Como é possível?? Que significará isto?



Em minha opinião significa que, no fundo, o valor de tudo o que produzimos, compramos, vendemos, se mede em unidades de energia, em kWh por exemplo, e as regras do mercado fazem com que os diferentes produtos tendam para o mesmo valor da unidade de energia necessária à sua produção, quer o produto seja um iogurte, um televisor, uma casa, um automóvel.

Então, como já sabemos o preço da unidade energia – 0,15 € / kWh, podemos fazer uma estimativa da energia que consumimos – é só dividir o que o dinheiro que gastamos pelo preço do kWh.

Admitindo que o PIB possa ser um bom indicador do que gastamos, sendo este de 162,9 mil milhões de euros, temos então 16290 euros per capita deste pais de 10 milhões de habitantes, o que permite a cada um de nós, em média, comprar 108,6 MWh de energia por ano.
Isso são contas grosseiras, não podemos atribuir significado a algarismos para além do primeiro, pelo que o resultado deste cálculo é que originamos anualmente um consumo médio individual de cerca de 100 Mwh:

Energia per capita dum cidadão ocidental médio: 100 MWh/ano

Notem uma coisa: nesta energia não está incluída a energia solar. No preço dos alimentos não está incluída a energia disponibilizada directamente pelo Sol para os processos fotossintéticos, apenas a energia que foi necessário ir buscar a outras fontes. Um iogurte tem trezentos e tal kJ, ou seja, pouco mais de 0,01 euros de energia; mas a energia solar necessária à sua produção será mais de cem vezes isto, pois já vimos que o rendimento fotossintético médio não será superior a 1%, portanto, não está incluída no seu preço, da ordem do 0,5 € (se estivesse, um iogurte teria de custar mais de 1€ ). O preço do iogurte reflete essencialmente a energia produzida pela humanidade a partir do petróleo, carvão ou outras fontes que foi, directa ou indirectamente, consumida na produção do iogurte.

Já vimos que a energia que um ser humano tem de obter dos alimentos é de cerca de 1 MWh/ano, o que significa, atendendo ao rendimento médio da fotosintese, que um humano da sociedade ocidental usa por ano 100 MWh de energia solar directa e outros 100 MWh de energia intermediada pela civilização, num total de 200 MWh, portanto.

Será que este nosso cálculo tão simples tem alguma razoabilidade? Só há uma maneira de o saber: comparando com outras fontes. Aqui podem encontrar um texto que afirma o mesmo que escrevi acima e onde se diz:

every time anyone spends an American dollar, the energy equivalent of half a liter of oil is burned to produce what that dollar buys!

Ora sendo o Dólar americano cerca de 0,75 euros (0,732 hoje), vamos obter o mesmo valor de 0,15€/kWh.

Claro que se fizéssemos as contas a partir do preço da gasolina ou da electricidade nos EUA ,como fizemos para aqui, obteríamos um valor mais baixo; a razão é que os kW da gasolina ou da electricidade são «em bruto» enquanto que os kW dos produtos têm de ser extraídos dessa «matéria prima», havendo um perda no processo. Em Portugal, os impostos e os lucros exorbitantes da EDP tornam a «matéria prima» da energia mais cara para o consumidor, colocando-a ao mesmo preço do «kW manufacturado».

Na World Nuclear Association podemos encontrar o seguinte magnífico gráfico:


Os cerca de 340 GJ que se pode ler como sendo o valor do consumo individual de energia do “Homem Tecnológico” correspondem (1 Wh=3600 J) a 94 MWh, portanto o mesmo valor (100 MWh) atrás obtido.

Além de termos ficado a saber que energia gastamos, o que nos vai permitir chegar a interessantes e agradáveis conclusões nos próximos posts, ficamos conscientes que:

Dinheiro = Energia
Câmbio: 1 kWh = 0,15 €


Isto permite-nos perceber, por exemplo, que um aumento do preço da energia equivale a uma desvalorização da moeda. Combater a subida do preço da energia é tão importante como combater a inflação. Para sentirem bem isso, podem reduzir o vosso ordenado a kWh – basta dividi-lo pelo preço do litro da gasolina e multiplicar por 10. Se quiserem ser perfectionistas, podem ver quanto estão a pagar por kWh consumido à EDP e fazerem a média dos dois valores. E depois vejam como o vosso ordenado em kWh vai variando no tempo.

(em vez dos índices de inflação, seria mais útil que alguém se desse ao trabalho de obter o indicador «preço do kWh»)

E podem também fazer uns raciocínios divertidos... por exemplo, uma “bica” (café expresso), em Portugal, são 4 kWh, um cinema são 30 kWh, um almoço serão uns 60 kWh. Quando estão a olhar para uma moeda de 1 euro, estão a olhar para 6,7 kWh... Já repararam nesta coisa interessante:


um café expresso representa o mesmo consumo energético de uma lâmpada de 100 W acesa durante 40 horas!

E não estou a incluir a energia de fotossíntese – apenas a energia manipulada pelo homem.
E podem ainda notar o seguinte: tomar como objectivo da gestão dos países o aumento do PIB equivale a ter como objectivo aumentar o consumo de energia. Os EUA consomem mais energia per capita que muitos outros países porque têm um PIB mais alto. Os EUA não são mais perdulários com a energia do que a França, Espanha, Brasil, Portugal ou a média mundial; têm simplesmente mais dinheiro. Corolário: gerir apenas para um aumento do PIB pode ser gerir mal.




Este gráfico está disponível aqui