quinta-feira, novembro 27, 2008
Estou a Ganhar de Mais e os Portugueses a Ganhar de Menos
Isso significa controlar as actividades especulativas e aumentar o rendimento das «famílias» através da diminuição de preços e aumento dos ordenados.
Mas quem decide são os «ricos»; ora aceitar a ideia de que este sistema económico é um jogo que chegou ao fim porque os outros jogadores estão na bancarrota está difícil de aceitar, eles querem continuar a jogar, querem continuar a ganhar muito. Mas já não há mais para ganhar, o jogo tem de voltar ao princípio para se poder voltar a jogar.
Assim, as medidas que se perfilam para sair da crise mais não visam do que tentar a todo o custo manter o fluxo monetário em direcção aos ricos; como as «famílias» já não suportam esse fluxo, a solução miraculosa é alimentá-lo a partir do Estado.
Em vez do aumento dos ordenados, que sai do fluxo dos «ricos», pretende-se baixar o IVA, que é uma forma aparente de repor o poder de compra, de aumentar o ordenado útil; mas isso é um engano, porque o dinheiro que o Estado deixa de receber vai significar menos apoio social para as «famílias» (pior saúde, pior ensino, etc) logo, as «familias» não ganham com isso.
Não é por acaso que a crise explodiu nos EUA. A instituição do Ordenado Mínimo protegeu a economia europeia. A maneira de sair da crise é aumentar os ordenados e reajustar a produção para satisfazer novas necessidades em vez de necessidades que já estão saturadas (por exemplo, menos automóveis e mais geradores eólicos ou solares).
Por outro lado, há que combater os mecanismos especulativos que contribuem fortemente para o crescimento da desigualdade.
Sabem porque é que os administradores da sociedades anónimos têm ordenados e bónus tão extraordinários? Por serem pessoas excepcionais e terem uma influência determinante no sucesso da sociedade? Nada disso!!!!
Tanto quanto percebo, o mecanismo é o seguinte: um pequeno grupo de pessoas tem uma percentagem de acções que lhes garante direito a um lugar no Conselho de Administração; suponhamos que representam 20% do capital da empresa. Essa empresa gera lucros sobre todo o seu capital, suponhamos que tem uma rentabilidade de 3%. Se ela distribuisse dividendos, todos os accionistas teriam um rendimento de 3% do capital investido, para além de eventuais mais valias das suas acções. Mas, se em vez de distribuírem dividendos, agarrarem nos lucros da empresa e os pagarem como prémios ou ordenados aos Administradores? Como eles representam 20% do capital da empresa, isso significa que obtêm assim uma rentabilidade de 5x3= 15% do capital que investiram.
Claro que isto é uma descrição simplificada do mecanismo. Mas agora já se entende melhor porque é que os lugares dos conselhos de administração dos bancos são tão ferozmente disputados e porque é que recebem quantias tão extraordinárias, não é verdade?
Depois, aparecem administradores de sociedades que são participadas pelo estado, dependentes de capitais públicos, que se auto-atribuem ordenados milionários com o argumento que estão a «alinhar pelos preços de mercado». Isto é roubo puro. Às vezes, têm por detrás processos de financiamento dos partidos.
Ora esta teia tem de ser desmontada. As sociedades por acções têm de passar a pagar dividendos, o que vai acabar com os ordenados exorbitantes dos seus administradores; os ordenados dos administradores de empresas publicas ou participadas pelo Estado terão de baixar em consequência (para «alinhar pelo mercado», não é?)
O Dr. Victor Constâncio tem dito repetidas vezes que «os portugueses estão a ganhar demais»; é um homem sério, frontal, corajoso, todos o dizem; será pois altura de começar a dizer «Eu estou a ganhar de mais e os portugueses estão a ganhar de menos».
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segunda-feira, novembro 10, 2008
Quantificando a «Depressão»
Portanto, o rendimento médio de 90% da população diminuiu 12%!!
Concluímos que 50% da população teve uma perda média de rendimento brutal: -36%!!!
Portanto, o rendimento médio de 90% da população estacionou; isto significa que parte dela já está a empobrecer. Avancemos mais um ano, reduzindo as taxas de crescimento para 7% e 14%, como é costume acontecer nestas economias (as percentagens de rendimento são agora 58/108=53,7 e 50/108=46,3):
Suponho que não preciso de calcular mais outro ano para verem como a situação na China rapidamente se tornará como a dos EUA..
sexta-feira, novembro 07, 2008
Felizmente há Recessão!
Como é que o PIB cresce sempre (ou quase) e a massa monetária não? Estar «mais rico» não é «ter mais dinheiro»?
Deixa-me lá ver um exemplo básico, que é como poderei começar a perceber as coisas.
Vou supôr uma comunidade de 10 agricultores; todos cultivavam a sua propriedade e faziam tudo o que precisavam: a sua casa, as suas ferramentas, os seus móveis. Um deles, o Loulel (inventei este nome agora), era um grande azelha como agricultor, ou então o seu terreno era mau, o certo é que as culturas eram sempre um desastre. O homem estava bem magrinho, coitado. Em compensação, esmerava-se nas outras coisas, não entrava água no seu telhado, as suas foices eram excelentes, as rodas da sua carroça nunca se partiam, etc. Mas as couves... Um dia teve mesmo de ir pedir comida aos outros, já não dava para aguentar tanta fomeca.
Um vizinho propôs-lhe então o seguinte: dar-lhe-ia couves em troca de uma foice nova! Dito e feito! Outro vizinho surgiu logo com nova proposta: um coelho pelo arranjo do telhado!
E assim o nosso agricultor desastrado ganhou uma nova vida. A agricultura, esqueceu-a. A sua actividade era fornecer os vizinhos de todo o tipo de objectos – foices, mochos, carroças, arados, etc.. E assim ganhava a sua comida.
Mas surgiram problemas: a comida tem as suas épocas, as necessidade de objectos outra; a comida que um vizinho tinha para lhe fornecer não era a que ele queria mas sim a de outro vizinho! Então inventaram um sistema, uns objectos a que chamaram «dinheiro» e que serviam de vale – ele fornecia uma foice a troco de uma certa quantidade de dinheiro que depois trocaria, com esse vizinho ou outro, pelo produto alimentar desejado.
Não era preciso muito dinheiro. Entregava uma foice, recebia dinheiro, que trocava por comida; entregava outra foice, recebia outra vez o dinheiro, voltava a comprar mais comida.
O total de comida que ele conseguia tinha a ver não com a quantidade de dinheiro mas com a velocidade com que circulava, com o fluxo de dinheiro.
Ahh, já estou a perceber porque é que podemos ficar todos mais ricos sem aumentar a quantidade de dinheiro: o que tem de aumentar é a circulação de dinheiro!! O Fluxo monetário é que interessa!!!
Então, para ficarmos todos mais ricos, o que há a fazer é aumentar a produção / consumo. Daí as teorias económicas como a da «Oxidação do dinheiro». Deixa-me lá voltar à história para ver o que isto dá.
Então, o Loulel pensou: se eles cultivarem mais terreno vão produzir mais comida e vão precisar de mais foices e arados; se eu produzir mais e os convencer a trabalharem mais, vou ter mais comida! O magricelas do Loulel tinha-se transformado num grande comilão...
E assim foi: o Loulel teve artes de levar os outros a entrarem em competição, a ver quem produzia mais; quanto mais produziam, mais foices e arados o Loulel vendia.
Surge um problema: precisam de arados mas só poderão pagar com a colheita futura. Arranja-se uma solução: cria-se um «banco», onde cada um põe uma pequena quantidade de dinheiro; esse banco empresta então dinheiro a quem precisar para comprar arados ou foices, que depois devolverá ao banco quando fizer a sua colheita e a vender ao Loulel – com uma pequena taxa, bem entendido, é preciso pagar ao Tinol que, para tomar conta do Banco, teve de desistir da agricultura.
E outra nova ideia! Em vez de cada agricultor negociar individualmente a venda dos seus produtos, porque não fazer com os alimentos o mesmo que com o dinheiro? Criaram uma cooperativa que centralizava a compra e venda de alimentos. Mas isso teve uma consequência de que os agricultores não se aperceberam: na hora de vender à cooperativa, todos queriam o preço mais alto; mas na hora de comprar, agricultores e não-agricultores queriam o preço mais baixo. Em consequência, a tendência dos preços foi para baixar. Isso não preocupou os agricultores a princípio porque a produção estava a crescer com os novos meios que o Loulel ia produzindo.
(estou a perceber-me... nós queremos pagar o mínimo possível à empregada e, ao fazê-lo, estamos a fomentar o mecanismo que faz com que o nosso empregador nos pague o mínimo possível)
O Loulel, inteligente como é, desenvolve métodos de produção em série, que permitem que o produto saia muito mais barato e satisfaça a crescente procura. O Loulel produz, produz, mas então surge um problema: a produção dos agricultores não pode crescer indefinidamente, as pessoas só têm um estomago, não é? Mas os preços continuavam a descer e o rendimento em queda dos agricultores não lhe permitia comprar ao ritmo que o Loulel produzia, a produção em série tem esta limitação, não dá para produzir pouco, o Loulel estava a produzir para o armazém.
Bem, isto está um bocadinho forçado mas serve para representar a grande depressão americana dos anos 20 e 30 – os ordenados dos trabalhadores não lhes dava poder de compra para consumir a grande produção das fábricas. A crise instalou-se porque o fluxo monetário ficou estrangulado nos trabalhadores.
Para escapar ao desastre e escoar a sua produção, o Loulel tomou duas medidas: passou a pagar mais pela comida, para recuperar o poder de compra dos seus clientes, e globalizou a sua actividade, passou a fornecer também os agricultores doutras zonas – uma óptima ideia para a Loulel e para os outros agricultores, que ganharam acesso a equipamentos que muito lhes aumentavam a produção de alimentos. Os agricultores do início desta história também passaram a vender para outros mercados e puderam assim aumentar a produção.
A carteira de clientes do Loulel cresce novamente. Para evitar saturar o mercado, o Loulel vai introduzindo novos produtos e vai introduzindo novos modelos de arados e foices, mais sofisticados e mais caros, naturalmente. Os agricultores são estimulados a aderirem aos novos produtos. Não tem ainda uma mesa de cabeceira? Que vergonha!! ? Mochos em vez de cadeiras? O seu arado é do modelo básico? O seu trator não tem GPS? Tschh tschhh...
A competição entre agricultores deixa de ser entre quem produz mais mas entre quem tem mais. Quem consome mais, porque o Loulel está sempre a sair com novos modelos para todos os seus produtos, o que torna os anteriores obsoletos «socialmente». Os empréstimos do banco deixam de ser amortizados, pois se se pode apenas pagar os juros, para quê amortizar? O próprio Loulel já nem vende a «pronto», apenas a «crédito», a etiqueta que dantes anunciava o preço do produto anuncia agora apenas o valor da prestação. Que interessa o preço? A prestação é que interessa...
Os agricultores compram, compram; e, às tantas, tudo o que produzem só chega para pagar as prestações, já não podem comprar mais nada! Alguns nem percebem como chegaram a essa situação, pois viviam ainda na ilusão de que os seus rendimentos continuariam a crescer no futuro como cresceram no passado. Já não crescem, a globalização já deu o que tinha a dar. Mas o certo é que essa situação é uma tragédia, o Loulel já não poderia vender nada, o fluxo monetário pararia, regressariam à miséria inicial. Mas todo o problema tem solução, não é? Então o banco surge com uma solução – todas as dívidas são integradas numa só, a coberto da hipoteca da casa; como a casa é um bem duradouro, a amortização do empréstimo fica para as calendas e os agricultores, agora designados por «as famílias», uma nova designação para «povo», passam a pagar só juros do empréstimo!!! Que o empréstimo seja um pouco maior que o valor da casa não impressiona, o negócio dos juros mais do que cobre o risco associado.
Folga para mais compras. O Loulel a produzir mais produtos irresistíveis,que muito facilitam a alegram a vida das famílias. Rapidamente, a folga financeira conseguida com a renegociação dos créditos se esgota. As «famílias» não têm dinheiro para mais créditos. Deixam de comprar. O Loulel começa a fazer «promoções». As famílias não compram, ele não vende. Isto vai mal. O preço das casas cai, não há quem compre. Drama. Uma solução surge no horizonte: se as casas agora já só valem metade da hipoteca que têm em cima, entrega-se a casa ao banco e parte-se para outra, que só custa metade da dívida! Aí os bancos tremem. Contraproposta desesperada – um período de carência em que as pessoas só pagam uma renda pela casa, menos que o juro da dívida, algo como o juro que teriam de pagar por um empréstimo do valor actual da casa.
Mas a crise está instalada: as «famílias» reduzem drasticamente as compras. Os «Loulel» não escoam os produtos. As empresas fabricantes quebram lucros. As acções na bolsa desvalorizam. Tudo porque o fluxo monetário se reduziu. É preciso aumentar o fluxo monetário de novo. Os governos injectam dinheiro no sistema.
Hummm... não está mal a descrição... a causa da confusão é o estrangulamento do fluxo monetário nas «famílias». No fundo, o mesmo que já aconteceu na grande depressão... só que agora o aparecimento do crédito permitiu ir disfarçando e adiando a crise... o problema não estará, portanto, no crédito, está na real diminuição de rendimento de 90% das pessoas. Que, como já referi, aqui e aqui, é uma consequência fatal do facto de os 10% mais ricos dominarem muito mais de 50% do fluxo monetário e terem um crescimento muito superior ao PIB.
Será uma característica do Capitalismo? O Capitalismo será um sistema óptimo quando se parte de uma situação de igualdade mas conduz fatalmente a uma desigualdade crescente que acaba por o estrangular?
Hummm... a Revolução Francesa aconteceu porque a desigualdade era enorme... a monarquia acabou em Portugal quando a miséria do povo bateu no fundo... não, o crescimento da desigualdade não é uma característica do Capitalismo, é uma tendencia sistemática das sociedades humanas.
É essa tendência que o Socialismo pretende contrariar. O problema é que o Socialismo, como teoria económica, ainda tem de ser inventado (o que existe é a definição de funções sociais do Estado e um teoria de actividades planificadas, não é uma teoria económica; os países nórdicos têm alguma coisa mas funciona só em espaços fechados, o que é uma limitação importante). Como construir um sistema económico que se inicia numa sociedade desigual e produza crescimento sem aumentar a desigualdade média, pelo contrário?
Mas, reparo agora, em recessão estou eu há vários anos – o meu rendimento líquido só tem diminuído. Na verdade, 90% das pessoas do mundo ocidental estão a perder rendimento, em média, há vários anos. Muitos anos. Nos EUA, desde 2000 que o ordenado médio diminui. Quem pode ser afectado pela «crise» são os 10% mais ricos. Claro, isso já se sabia, a sua riqueza não podia continuar a crescer várias vezes acima do PIB! Então a recessão é para os ricos, para os outros significa que o seu rendimento terá de aumentar para repôr o fluxo monetário necessário ao funcionamento do Capitalismo! Viva a Recessão!!
E por que é que o PIB tem de crescer indefinidamente? Vamos trabalhar mais para produzir mais coisas para ganharmos mais dinheiro para comprarmos mais coisas? Que coisas? Que tal comprarmos TEMPO para variar? Menos horas de trabalho, mais tempo para pensar, para conviver, para estar vivo simplesmente? Os japoneses não estão em recessão há uma data de anos e não são o povo com a esperança de vida mais alta?
Hummm.... deve ter sido isso que os americanos pensaram quando escolheram o Obama... e eu preocupado com a «recessão»!! Ora bolas! A Recessão só significa que as coisas vão melhorar!!!
E o problema está nesta questão: Como construir um sistema económico que se inicie numa sociedade desigual e produza crescimento sem aumentar a desigualdade média, pelo contrário?
quarta-feira, outubro 29, 2008
Carbono, Nuclear ou Solar

O potencial do pais em energia solar, considerando um rendimento de 5%, ao pé do nosso consumo de energia obtida das outras fontes de energia
Donde:
Energia Solar bruta em Portugal: 1,4*10^17 Wh/ano=1.4*10^5 TWh/ano= 140 000 TWh/ano
(TWh = Tera Watt hora; Tera =10^12 ou seja, um milhão de milhão – um bilião em diversos países)
Estimámos já que o consumo individual médio português anual é 100 MWh de energias manufacturadas (quer na forma de combustível, quer na de energia eléctrica, quer de produtos e serviços) e de 100 MWh de energia solar bruta necessária à fotossíntese do nossos alimentos. A igualdade destes dois valores é mera coincidência, sendo o primeiro válido apenas na sociedade ocidental actual. Como somos 10 milhões:
Consumo de energia manufacturada: 10^15 Wh/ano = 1000 TWh/ano
Percentagem do território necessário à fotossíntese.
Muito pouco, não é? Note-se que grande parte da área do pais está ocupada com floresta (1/3), vinha, olival, girassol, que não são produtos alimentares propriamente ditos.
O valor obtido acima é a área efectivamente utilizada; mas seria preciso mais área pois é necessário prever zonas de pousio e excesso de capacidade para compensar as perdas devidas a geadas, granizos, pragas, incêndios e outros; muitas culturas exigem acessos para tratamento e colheita; finalmente, uma exploração agrícola exige muito mais área do que a cultivada, para apoios, armazenagem, tratamentos, acessos, reservas de água, etc., o que me faz estimar ente 6% e 10% a área do território que é necessário destinar actividades de produção de alimentos.
Não estou a contabilizar áreas de pasto e estou a ignorar a importância da pesca na satisfação das necessidades alimentares.
No Eurostat podemos ler que a área irrigável máxima em 2005 em Portugal seria de 616 970 ha, o que representa 6,7 % da área do país; este valor, que já foi mais alto, parece de acordo com o calculado, pois parte desta área é utilizada para produções não alimentares, como o girassol, e parte não é sequer utilizada, o que significa que a área utilizada será consideravelmente inferior aos 6,7% da área que pode ser irrigada.
A conclusão importante é que, apesar do clima seco, temos condições para produzir a alimentação necessária à nossa alimentação – desde que disponhamos da energia necessária a fabricar os adubos, processar, transportar, etc.. E é isso que vamos ver agora:
Como obter os 1000 TWh/ano de energia manufacturada (equivalente do PIB em unidades de energia) que consumimos?
Vimos atrás que dispomos duma energia solar bruta de 140 000 TWh/ano; mesmo com um rendimento de 5%, a percentagem de território necessária para obter 1000 TWh/ano seria de 14%, sensivelmente metade da actual área de floresta; para substituir totalmente os chamados combustíveis fósseis, que não chegam a 250 TWh/ano, bastaria menos de 5% do território. (note-se que é apenas a área útil)
É, portanto, claríssimo que só há, para nós, três verdadeiras opções energéticas: Carbono, Solar e Nuclear.
O rendimento da opção Solar depende muito da insolação do local. Por isso, a energia Solar não é muito interessante para paises de latitudes elevadas, onde o rendimento pode ser baixíssimo (até negativo) e onde a Eólica pode ter mais importancia, sem nunca constituir uma verdadeira alternativa para o problema energético.
Para esses países, para terem uma alternativa ao Carbono (combustíveis fósseis) terão de recorrer ao Nuclear; solar ou eólica locais serão apenas paliativos para o problema energético.
Em paises tropicais, como o Brasil, a cana de açúcar é uma alternativa adicional, neste momento talvez a melhor.
Curiosamente, podemos verificar que, apesar disso, muitos desses paises têm feito um considerável investimento na Energia Solar. Contrariamente a Portugal, com um papel passivo, onde os esforços de desenvolvimento resultam de iniciativas autónomas.
A utilização da energia solar tem ainda grandes problemas para resolver, como o do armazenamento; em pequena escala, o problema não se põe, mas para uma produção maciça ele é incontornável. As opções são várias, como baterias, ar comprimido, elevação de água, gasolina sintética, hidrogénio, mas todas implicam uma importante perda de rendimento global do sistema.
O sistema de produção mais simples será o das células fotoeléctricas; mas o seu rendimento fraco leva à procura de outras soluções à base de fornos solares, quer para alimentar uma turbina, quer para a produção directa de hidrogénio (um pouco o inverso das células de combustível).
Os investimentos a fazer, mesmo num pais pequeno como Portugal, serão perto do bilião de euros (milhão de milhão); qualquer pequeno avanço tecnológico representa um imenso volume de dinheiro, um verdadeiro euromilhões. Por isso, investir no desenvolvimento da energia Solar, como muitos paises estão a fazer, é dos melhores investimentos que se pode fazer.
Vamos, à maneira Árabe, deixar esse negócio para os países mais desenvolvidos? Ou vamos fazer como, por exemplo, a Alemanha, e criar um Instituto para o sector, como a Alemanha fez para a Eólica? Um bom modelo poderia ser o do Instituto Fraunhofer, em parceria com Espanha, Grécia e Itália.
Vamos seguir o exemplo do Iraque ou da Alemanha?
Dependermos do «saber fazer» dos outros para a energia solar é o mesmo que depender dos combustíveis fósseis – o que teremos de pagar por eles será o valor da energia que fornecem, quem beneficiará do nosso Sol será quem fornecer os sistemas. Têm de rentabilizar o custo do desenvolvimento que fizeram, não é? Não é difícil perceber isso, pois não?
- Actualmente, a energia eólica sai mais barata que a fotoeléctrica; por isso, não é disparatado começar, por agora, por montar umas eólicas. Mas é preciso ter presente que esta não é uma solução de futuro para Portugal e que o investimento na solar não tem alternativa no campo das energias renováveis; o desenvolvimento de «saber fazer» e capacidade industrial na solar é vital e começar já poderá resultar em economias brutais no futuro.
- A produção de Biogás é a mais básica das actividades de reciclagem, pois consiste em retirar dos restos orgânicos, animais ou vegetais, a energia que foi usada na sua produção – é a reciclagem da Energia!
- A energia hídrica e eólica, somadas, que produzimos actualmente - uns 15 TWh/ano - é uma insignificância ao pé dos cerca de 250 TWh/ano de combustíveis fósseis que importamos.
segunda-feira, outubro 20, 2008
As Rainhas
Mas a Humanidade, na sua luta estrénua e milenar contra a sinistra Dona Escassez, encontrou finalmente armas poderosas: a força dos Combustíveis fósseis e do Conhecimento rebentou os limites da capacidade de produção. Energia e Conhecimento, são estas as duas armas capazes de derrotar, destruir, aniquilar, a misantrópica, tristonha Dona Escassez.
A capacidade de produção de muitos bens (os mais importantes) cresceu imenso, tornou-se muito maior que a capacidade de absorção do mercado. Mas Dona Escassez viu aí o seu ponto de fuga, ágil como qualquer velhaco saltou dos Bens para o Mercado - a Escassez passou a ser de Mercado, não dos bens essenciais.
Desenvolveram-se então novas teorias económicas, assentes no marketing, ou seja, na geração de um mercado que já não resulta de reais necessidades das pessoas. Na invenção de novas necessidades para criar mais mercado. Produtos de sucesso são produtos de alguma forma «especiais», seja por serem «melhores», «diferentes», «novos», «únicos», «verdes», «empenhados numa sociedade melhor», etc.. Produtos que satisfazem em quem os compra uma necessidade que não é apenas aquela que directamente corresponde ao produto, mas uma necessidade de outro tipo – de estatuto, de diferenciação, de poder, de novidade, de mudança, de estética, de qualidade, de pertença a um grupo, ou o oposto, etc.
Paralelamente, desenvolveu-se também uma nova filosofia adequada à situação do excesso de oferta – cartelização, lobbying, destruição de produção em excesso, introdução de prazos de validade, definição de quotas de produção, incentivos à não-produção, etc. Isso permitiu evitar uma catástrofe da actividade de produção e adequar a oferta ao mercado. A esquálida, feia, assexuada Dona Escassez foi enquadrada, espartilhada, manietada, tornada quase inofensiva.
Quase, mas não totalmente: alguns bens continuaram genuinamente escassos – por exemplo, a Habitação nos novos locais de agregação social.
Os livros de gestão iam ensinando as novas técnicas para viver neste novo sistema de abundância: os sinais para combinar preços, a forma de fazer propostas ganhadoras que conduzissem a inevitáveis «trabalhos a mais», etc, etc..
Mas eis que uma personagem, até aí de fraca figura, porque só pode crescer na Abundância, faz a sua brusca aparição neste teatro humano: Dona Corrupção cresceu, engordou, os papudos dedos encheram-se de anéis, as mãos agarrando toda a riqueza que devora, devora, possuída de frenesim mórbido, Rainha cega, indiferente, à destruição que vai causando.
Entretanto a Humanidade globalizou a economia, numa tentativa de expansão de alguns mercados. A Dona Corrupção exultou, abocanhou, engordou.
As técnicas dos concursos já não são de como responder aos cadernos de encargos mas de como os fazer para que ganhe quem se quer que ganhe, com as margens para «trabalhos a mais» necessários à fome da Dona Corrupção; por todo o lado se multiplicam astronómicos «bónus», «prémios», «comparticipações», «pensões», «indemnizações», jogos de poder, atribuição de lugares sem mérito, favores, etc., porque Dona Corrupção é esperta, sabe gerir a infinita cupidez humana para fazer de todos os humanos seus cúmplices. Tudo a trabalhar para o lucro imediato. Todas as actividades tendem a ser actividades de especulação, como a Bolsa, ou de extorsão – os cartões de crédito, os esquemas de vendas, os leasings, as «fidelizações» obrigatórias a serviços, os empréstimos. No início da actividade bancária, dizia-se que os bancos só emprestavam a quem não precisava; agora o negócio consiste em emprestar a quem não pode pagar, para depois cobrar juros usuários e crescentes a quem não consegue ver-se livre da dívida. Os empréstimos vencem juros, a amortização é a mínima possível.
Dona Corrupção entra em paranóia mórbida. Por exemplo, os administradores dos bancos americanos falidos nem pensam em prescindir dos seus brutais bónus, cerca de 10% do dinheiro com que a Reserva Federal tem de entrar para salvar as empresas que administram. Mas isto é só um exemplo, porque a Dona Corrupção está em todo o lado, do ex-administrador do Banco de Portugal que abifa uma pensão milionária sem qualquer justificação moral, ao Juíz que não quer prescindir dos seus 2 meses de férias, ao médico que não quer picar o ponto, ao paizinho que inscreve o filho na escola particular para «comprar» a entrada na Universidade, ao trabalhador que consegue um atestado médico injustificado. Pessoas que surgem ricas a partir do nada, com fortunas colossais sem que se lhes conheça qualquer actividade produtiva, são incensadas, eleitas, comendadas. A Rainha Dona Corrupção é o exemplo a seguir. Pais educam os filhos no activo repúdio da Honestidade, esse estigma dos perdedores.
Tudo isto se tornou possível sob o beneplácito da bonacheirona Dona Abundância. Uma «não-te-rales». Convencida de que o «amanhã» só pode ser melhor do que o «hoje». Que o seu crescimento é garantido. Um dígito ou dois dígitos de crescimento, eis a única questão. A impensável situação de não crescer é batizada com nomes feios, como «Recessão».
Mas os benefícios da Globalização começam a esgotar-se – os mercados para onde se pretendia a expansão desataram a produzir e a Globalização, mais do que uma solução, ameaça tornar-se um problema económico.
Dona Corrupção é uma nova-rica, uma arrivista; ao invés, Dona Escassez tem milénios de sabedoria nos ossos velhos. Silenciosamente, pé ante pé, alheia ao corre-corre em redor da Dona Corrupção, cada um procurando servi-la quanto pode, Dona Escassez instala-se na Energia, com a estratégia milenar: primeiro o petróleo muito barato para eliminar as possíveis concorrências e estabelecer a dependência, depois o controlo da extracção para fazer subir o preço.
O preço dos produtos que são não-escassos - agora, quase todos os produtos essenciais são não-escassos, enquanto que os produtos não-essenciais são escassos - está sujeito à concorrência e tende para o preço da energia necessária à sua obtenção. A subida do preço da energia afecta sobretudo os mais pobres, que são os que consomem os produtos essenciais, os de «linha branca», aqueles cujo preço reflecte directamente o preço da energia. Os menos pobres compram produtos de marca ou, de alguma forma, «especiais», cujo preço é muitas vezes superior ao custo energético, portanto, muito menos sensível a este.
A subida do preço da energia implica assim um aumento de pobreza, não por as pessoas passarem a ganhar menos dinheiro mas por o preço dos bens essenciais ter de reflectir essa subida no orçamento daqueles que já estão no limiar da sobrevivência.
Instalada na Energia, Dona Escassez deixa-se expulsar da Habitação, «peanuts» ao pé do que ela tem agora na mão, enquanto um gargalhada sinistra lhe desce pela garganta.
Se o fim da escassez da Habitação é uma boa notícia a prazo, por agora traz uma grave consequência: o excesso de preço da habitação desaparece subitamente em mercados importantes e isso corresponde ao desaparecimento de uma imensa massa monetária virtual.
Todo o processo de extorsão que a Dona Corrupção tinha baseado no valor do imobiliário explode de repente – em vez de ficarem dependentes da dívida que não amortiza, as pessoas simplesmente entregam a casa ao banco e arranjam outra (ou a mesma) a um preço inferior ao da dívida que tinham. Poof, os grandes extorsionários entram em crise e, com eles os grandes especuladores, que são dependentes do crescimento da massa monetária virtual. De repente percebe-se que Dona Abundância não crescera, apenas estava inchada de riqueza virtual. Um fluxo monetário flui acelerado dos muitos consumidores de Energia para os poucos que controlam a produção e Dona Abundância corre atrás.
Há muitos anos que os Governos perceberam a jogada da Dona Escassez; tentaram contrariá-la com a técnica da «mentira conveniente», que é forma possível de gerir os humanos quando o conceito de «Inferno» já perdeu a força. Primeiro, foi o «arrefecimento global» produzido pelas partículas de carbono que os combustíveis fósseis introduziam na atmosfera, tal como o demonstram as explosões dos grandes vulcões, depois foi o «aquecimento global» pela libertação do CO2, tal como o mostra o passado quente da Terra. Mas foi um combate fraco porque Dona Abundância exigia sempre mais Energia e barata.
Os bancos centrais estão a injectar biliões de dólares, euros e libras; uma forma de temporariamente compensar a perda de riqueza resultante da subida do preço da energia e da perda de moeda virtual causada pelos mecanismos de extorsão e especulação que colapsaram.
Por agora, a redução no consumo de energia fez baixar o preço desta (não é coisa facilmente armazenável, tem uma resposta lenta às flutuações de consumo); mas os reajustes da OPEP e a retoma de «liquidez» do mercado vai fazer subir de novo o preço da energia. A única forma de realmente conter a presente crise é através de fontes alternativas de energia, estabelecer concorrência no sector, combater este novo reduto da Dona Escassez.
Os combustíveis fósseis não são nocivos ao planeta; como veremos, o seu consumo é mesmo essencial à saúde do planeta; o que é nocivo, para o nosso sistema económico, é a dependência deles. Como seria nociva uma dependência da energia nuclear, ou de um fabricante de paineis solares. Não é o tipo de energia que é bom ou mau, é a dependência do fornecedor.
... a guerra contra a Dona Escassez poderemos vir a ganhá-la... mas a guerra contra a Dona Corrupção que, ao contrário da Dona Escassez, vive dentro de nós, poderemos algum dia ganhá-la?
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sábado, outubro 11, 2008
A Energia Moeda-Forte
Vejamos a gasolina:1 litro de gasolina produz uma energia de cerca de 10 kWh; ora um litro custa cerca de 1,5 euros, logo o preço do kWh da gasolina é de cerca de 15 cêntimos.
Vejamos a electricidade: vejam o total da vossa factura de electricidade e dividam pelo total de kWh consumidos. No meu caso dá.... 15 cêntimos por kWh!
Boa! Então o preço do kWh da electricidade e da gasolina é o mesmo, apesar de se tratarem de dois sistemas de energia tão distintos! Como é possível?? Que significará isto?
Em minha opinião significa que, no fundo, o valor de tudo o que produzimos, compramos, vendemos, se mede em unidades de energia, em kWh por exemplo, e as regras do mercado fazem com que os diferentes produtos tendam para o mesmo valor da unidade de energia necessária à sua produção, quer o produto seja um iogurte, um televisor, uma casa, um automóvel.
Então, como já sabemos o preço da unidade energia – 0,15 € / kWh, podemos fazer uma estimativa da energia que consumimos – é só dividir o que o dinheiro que gastamos pelo preço do kWh.
Admitindo que o PIB possa ser um bom indicador do que gastamos, sendo este de 162,9 mil milhões de euros, temos então 16290 euros per capita deste pais de 10 milhões de habitantes, o que permite a cada um de nós, em média, comprar 108,6 MWh de energia por ano.
Isso são contas grosseiras, não podemos atribuir significado a algarismos para além do primeiro, pelo que o resultado deste cálculo é que originamos anualmente um consumo médio individual de cerca de 100 Mwh:
Energia per capita dum cidadão ocidental médio: 100 MWh/ano
Notem uma coisa: nesta energia não está incluída a energia solar. No preço dos alimentos não está incluída a energia disponibilizada directamente pelo Sol para os processos fotossintéticos, apenas a energia que foi necessário ir buscar a outras fontes. Um iogurte tem trezentos e tal kJ, ou seja, pouco mais de 0,01 euros de energia; mas a energia solar necessária à sua produção será mais de cem vezes isto, pois já vimos que o rendimento fotossintético médio não será superior a 1%, portanto, não está incluída no seu preço, da ordem do 0,5 € (se estivesse, um iogurte teria de custar mais de 1€ ). O preço do iogurte reflete essencialmente a energia produzida pela humanidade a partir do petróleo, carvão ou outras fontes que foi, directa ou indirectamente, consumida na produção do iogurte.
Já vimos que a energia que um ser humano tem de obter dos alimentos é de cerca de 1 MWh/ano, o que significa, atendendo ao rendimento médio da fotosintese, que um humano da sociedade ocidental usa por ano 100 MWh de energia solar directa e outros 100 MWh de energia intermediada pela civilização, num total de 200 MWh, portanto.
Será que este nosso cálculo tão simples tem alguma razoabilidade? Só há uma maneira de o saber: comparando com outras fontes. Aqui podem encontrar um texto que afirma o mesmo que escrevi acima e onde se diz:
“every time anyone spends an American dollar, the energy equivalent of half a liter of oil is burned to produce what that dollar buys!”
Ora sendo o Dólar americano cerca de 0,75 euros (0,732 hoje), vamos obter o mesmo valor de 0,15€/kWh.
Claro que se fizéssemos as contas a partir do preço da gasolina ou da electricidade nos EUA ,como fizemos para aqui, obteríamos um valor mais baixo; a razão é que os kW da gasolina ou da electricidade são «em bruto» enquanto que os kW dos produtos têm de ser extraídos dessa «matéria prima», havendo um perda no processo. Em Portugal, os impostos e os lucros exorbitantes da EDP tornam a «matéria prima» da energia mais cara para o consumidor, colocando-a ao mesmo preço do «kW manufacturado».
Na World Nuclear Association podemos encontrar o seguinte magnífico gráfico:

Os cerca de 340 GJ que se pode ler como sendo o valor do consumo individual de energia do “Homem Tecnológico” correspondem (1 Wh=3600 J) a 94 MWh, portanto o mesmo valor (100 MWh) atrás obtido.
Além de termos ficado a saber que energia gastamos, o que nos vai permitir chegar a interessantes e agradáveis conclusões nos próximos posts, ficamos conscientes que:
Dinheiro = Energia
Câmbio: 1 kWh = 0,15 €
Isto permite-nos perceber, por exemplo, que um aumento do preço da energia equivale a uma desvalorização da moeda. Combater a subida do preço da energia é tão importante como combater a inflação. Para sentirem bem isso, podem reduzir o vosso ordenado a kWh – basta dividi-lo pelo preço do litro da gasolina e multiplicar por 10. Se quiserem ser perfectionistas, podem ver quanto estão a pagar por kWh consumido à EDP e fazerem a média dos dois valores. E depois vejam como o vosso ordenado em kWh vai variando no tempo.
(em vez dos índices de inflação, seria mais útil que alguém se desse ao trabalho de obter o indicador «preço do kWh»)
E podem também fazer uns raciocínios divertidos... por exemplo, uma “bica” (café expresso), em Portugal, são 4 kWh, um cinema são 30 kWh, um almoço serão uns 60 kWh. Quando estão a olhar para uma moeda de 1 euro, estão a olhar para 6,7 kWh... Já repararam nesta coisa interessante:
um café expresso representa o mesmo consumo energético de uma lâmpada de 100 W acesa durante 40 horas!
E não estou a incluir a energia de fotossíntese – apenas a energia manipulada pelo homem.
E podem ainda notar o seguinte: tomar como objectivo da gestão dos países o aumento do PIB equivale a ter como objectivo aumentar o consumo de energia. Os EUA consomem mais energia per capita que muitos outros países porque têm um PIB mais alto. Os EUA não são mais perdulários com a energia do que a França, Espanha, Brasil, Portugal ou a média mundial; têm simplesmente mais dinheiro. Corolário: gerir apenas para um aumento do PIB pode ser gerir mal.

Este gráfico está disponível aqui
terça-feira, outubro 07, 2008
Ooooops! Enganei-me nos zeros!
Até que....
... descobri que me tinha enganado nos zeros quando calculei a potência que o Sol coloca na Terra! São mil milhões de Tera watthora e não de Giga watthora! Ou seja, são 10^21Wh!
Isto é o resultado de eu ter querido fugir à notação exponencial, que poderia não ser «amigável» para alguns leitores... Burrice!!!
Quando abri o blogue «outra Física» esclareci que nele iria apresentar aquilo que eu sei com uma grande margem de confiança – conhecimentos já muito amadurecidos, muito longe da fronteira do meu conhecimento – enquanto que o «outramargem» ficava reservado para a aventura da descoberta – onde iriamos pisar os escorregadios terrenos da fronteira da ignorância. O caminho da descoberta é assim: cheio de erros, tropeções, enganos, vai e volta. Se fosse fácil seriamos todos muito mais sábios, não é? Foi o que prometi, levar-vos pelos turtuosos caminhos da Descoberta...
Mas os erros também podem ser úteis, como sabemos. E, graças a este, descobri coisas muito interessantes. Querem ver? (é assim o caminho da Descoberta: descobrimos pepitas ao tropeçar nas pedras.)
PS - já emendei os dois posts afectados pelo erro, este e este.
quarta-feira, outubro 01, 2008
A Saga Alimentar
Comecemos por considerar só a terra firme. Ora esta representa apenas uns 30% da superfície do planeta – 3 milhões de TWh/ano disponíveis por fotossíntese. Mas é claro que nem toda a terra é arável. E precisamos de área de floresta e área urbanizada. Na internet podemos encontrar a % de terra arável país a país ; se a média for 30% o número acima reduz-se para 1 milhão de TWh/ano.
Mas vejamos mais: nós não somos herbívoros, não podemos utilizar directamente grande parte da energia produzida pela biossíntese. Só podemos comer frutos e tubérculos. E o resto da planta? O resto só transformado em carne por outros seres vivos capazes dessa proeza. Mas esse é um processo de baixo rendimento, porque esses seres vivos consomem energia para viverem. Portanto, uma parte da potência fotossintética tem de ser consumida para manter vivos os seres que transformam a matéria vegetal em matéria que nós podemos comer. Ou seja, o rendimento fotossintético na produção de matéria orgânica que podemos consumir é muitíssimo inferior ao valor utilizado nas contas anteriores, que se refere à matéria orgânica total!!
Reparem agora no que acontece em regiões sem acesso ao mar: ou a população é muito baixa ou então, como acontece na China, têm de comer tudo o que vive para poderem sobreviver – gado, lagartos, cobras, insectos, animais domésticos. Nenhuma energia pode ser desperdiçada.

. Os chineses comem insectos como nós comemos... peixe!
Se recuarmos um século no nosso país, saberemos que nenhum cantinho deste jardim à beira mar plantado ficava por cultivar. Por todo o país encontramos muros e socalcos feitos com as pedras que cobriam o terreno e permitindo cultivar monte acima (os chineses até construíam montes artificiais para aumentar a área arável). Não havia incêndios antigamente, dizem os velhos; pois não, tirando o pinhal de Leiria não haveria muito mais floresta, todo o terreno estava cultivado nessa altura. E, apesar de uma população mais pequena do que a actual, apesar da pesca, havia fome, muita fome – uma sardinha dava para o jantar de uma família, nunca ouviram dizer? E sopa de erva, conhecem?
A produção de alimentos deu um salto muito grande no espaço de um século. A taxa de matéria orgânica das plantas que podemos usar directamente cresceu imenso. Uma árvore de fruto actual produz uma massa de fruto em relação à massa da árvore que é muitas vezes o valor das árvores antigas (os frutos são menos saborosos? É o preço do aumento de rendimento na produção de alimentos directamente utilizáveis por nós). As espigas dos cereais são muito mais volumosas. E o gado? O gado é um intermediário entre formas orgânicas que não podemos consumir e carne. O rendimento desta transformação é tanto maior quanto mais rápido for o crescimento do gado, como é evidente. Portanto, o gado agora aumenta de peso muito mais rapidamente do que antigamente. Por selecção de espécies, hormonas e antibióticos, é claro, um animal que adoece é uma perda de energia.
O aumento do rendimento da transformação da energia solar em energia que nós podemos consumir exige aquelas coisas todas que causa repulsa ao nosso espírito «ecológico»: hormonas, insecticidas, selecção, engenharia genética.
Mas não basta a energia do Sol para a produção dos compostos orgânicos: é preciso também a matéria prima de que são feitos: carbono, oxigénio, hidrogénio, azoto, e mais uma mão cheia de outros elementos em pequenas quantidades. Os 4 mais importantes estão disponíveis na atmosfera, na forma de CO2, H2O e N2; mas, helás!, o azoto molecular da atmosfera é muito difícil de incorporar em compostos! As plantas têm de usar os compostos de azoto do solo e este esgota-se!
Já falamos da importancia dos adubos (o "ciclo das fezes"); a sua descoberta foi um passo muito importante na produção de alimentos. Um segundo passo muito importante foi a descoberta de que as leguminosas conseguem fixar o azoto atmosférico (ou melhor, umas bactérias que vivem nas suas raízes). Esta descoberta foi em parte responsável por uma quase duplicação da população mundial durante os séculos XI e XII (ajudado por um período de aquecimento global, com todas as vantagens inerentes) – as leguminosas eram plantadas e, muitas vezes, nem sequer eram colhidas: eram incorporadas no terreno como adubo para a plantação seguinte. O Umberto Eco escreveu que a as leguminosas permitiram esse salto populacional por serem um alimento muito rico em proteínas; não foi essa a importância crucial das leguminosas, foi a de «azotarem» os terrenos (a batata é que veio a ter impacto directo na alimentação devido à sua alta taxa de matéria orgânica por nós assimilável, mas isso foi só a partir do séc XVI, ela foi trazida do Perú pelos Espanhóis)
. ciclo do azoto (wikipedia)
A disponibilidade de hulha e minério de ferro, ou seja, a disponibilidade de energia, ocorrida em finais do sec XVII, veio alterar profundamente a situação da humanidade – pela primeira vez, a humanidade deixou de depender da energia recebida do Sol para a produção de alimentos porque os adubos puderam então ser produzidos industrialmente. Isto permitiu à humanidade crescer.
Portanto, o problema da alimentação da humanidade parece que reside na capacidade de produzir industrialmente os elementos necessários aos processos químicos das plantas; e esta capacidade depende da disponbilidade de densidades de potência elevadas, conseguida através do recurso aos combustíveis fósseis.
Mas quanta é, afinal, a energia que consumimos?
PS - a versão inicial deste post foi alterada, interessando, para quem leu a versão inicial, reparar nos "amarelos"
sábado, setembro 27, 2008
Trabalhar para quê?
Que mensagem?
O ordenado mínimo é menos de 3 euros por hora. Dois euros e trinta por hora é quanto se paga nas empresas que prestam serviços com pessoal pouco especializado. 2.30€. 2 Euros e 30 cêntimos de Euro! 2,30€/ hora!
Trabalhar para quê? Mais vale pedir! Ou roubar! Basta entrar numa logeca qualquer uma vez por semana e assaltar a caixa para ganhar mais do que o ordenado mínimo em Portugal... Mais vale pedir. Trabalhar? Para quê???
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quarta-feira, setembro 24, 2008
A Crise Financeira Ocidental
Os recentes acontecimentos financeiros nos EUA e na Europa, contrariamente ao que em sido afirmado pelos «entendidos», não resultam de falhas no sistema, de falta de fiscalização, de créditos mal concedidos. Os banqueiros podem ser gananciosos mas não são loucos nem incompetentes, não concedem crédito se não presumirem que têm uma perspectiva razoável de ele ser satisfeito. Então porque é que isto aconteceu?
Num post antigo, eu mostro, e isso não é uma opinião minha, que uma percentagem considerável da população está a empobrecer nas economias capitalistas. Por exemplo, é um facto indiscutível, que, em média, 90% das pessoas ficam mais pobres quando os 10% mais ricos enriquecerem a uma taxa superior a 10 vezes a do PIB. Notem que é «em média», portanto, um cenário mais detalhado poderá ser:
30% das pessoas estão a empobrecer
30% estão estacionárias
30% estão a enriquecer lentamente
10% estão a enriquecer rapidamente.
Na nossa sociedade capitalista há necessariamente um fluxo de riqueza dos mais pobres para os mais ricos; se este fluxo é superior ao aumento da riqueza média, alguém terá de empobrecer. A teoria capitalista é incompatível com um baixo crescimento do PIB e as sociedades ocidentais chegaram a um ponto onde o PIB só pode crescer devagarinho ou mesmo estacionar. Numa sociedade pobre, o capitalismo pode funcionar em economia fechada, mas nas nossas sociedades ocidentais as suas regras têm de sofrer grandes alterações.
Na primeira grande crise bolsista, em 1929, as empresas não conseguiam vender os seus produtos porque as pessoas já não tinham dinheiro para os comprar; com o aparecimento do crédito, as pessoas passaram a ter dinheiro para gastar mas depois não tiveram dinheiro para satisfazer o crédito – a actual crise tem as mesmas causas da primeira, a desigualdade na distribuição da riqueza.
A não existência de «pobres» não é uma preocupação social, é uma preocupação económica. Quando a UE define taxas máximas do número de «pobres» não está a fazer caridade, está a ser economicamente inteligente. E note-se que a definição de «pobre» não é uma definição absoluta, é apenas uma medida de desigualdade.
Quando alguns países, nomeadamente Portugal, excedem essas taxas, isso significa que estão a ser economicamente incapazes – a “pobreza”, esta “pobreza”, não é um problema social, é um problema do sistema económico, porque ele só pode funcionar bem se as pessoas não forem “pobres”. Ou seja, o capitalismo é uma teoria incompatível com um cenário de excessiva desigualdade na distribuição de riqueza, “crasha” neste cenário.
Como é que a actual crise aconteceu? Temos de distinguir dois problemas, o do crédito mal parado e o da bolsa.
Em relação ao crédito, será que as pessoas e as instituições de crédito assumiram compromissos que já sabiam que não podiam ser satisfeitos? Não! O que acontece é que nem uns nem outros perceberam que as pessoas estão a empobrecer, todos pensaram que o futuro seria mais abonado que o passado – as pessoas contraíram os empréstimos a pensar que tinham condições para os satisfazer e os bancos concederam-nos porque na altura as pessoas reunião as condições necessárias. O problema nasceu porque as pessoas empobreceram e esta possibilidade não foi contabilizada!
(você não está a pensar que irá ficando menos rico nos anos que aí vêem, pois não? mas talvez não fosse má ideia fazer um gráfico dos seus rendimentos líquidos dos últimos anos, corrigidos da inflacção, só para ver se há alguma tendência...)
Em relação à bolsa, acontece o seguinte: a Sociedade Anónima foi uma invenção genial destinada a criar um fluxo de riqueza para os «pobres», compensando a tendência para a desigualdade inerente ao sistema capitalista – através da compra de acções toda a gente poderia participar dos lucros das empresas por distribuição de dividendos. Só que as regras foram mal definidas e o mercado das acções tornou-se para as empresas um meio de obter capital «de borla» - nada de dividendos! O pagamento de dividendos deveria ser uma obrigação, prioritária em relação à atribuição de gratificações aos administradores, por exemplo. Mas não é. Então, se as empresas não pagam dividendos, porque hão-de as pessoas comprar acções? Porque se inventou um jogo de «dona branca» com elas! As pessoas, toda a gente salvo uma pequenina parte, sofre de cupidez e, por isso, caiu na armadilha da especulação bolsista como cai em todos os esquemas do tipo «dona branca» até que a polícia lhes ponha cobro.
Assim, ao longo de muitos anos, a bolsa tem servido para criar um fluxo de riqueza dos mais pobres para os mais ricos; porque o «pequeno investidor» só pode perder na bolsa, apenas o grande investidor pode ganhar.
Ora quando 70% da riqueza está na mão de 10% das pessoas, já não sobra riqueza suficiente para sustentar o casino bolsista. Então os grandes especuladores tiveram de deixar a bolsa e voltar-se para outro lado – foram especular com as matérias primas! A bolsa caiu, o preço das matérias primas subiu (mas abriram uma frente de batalha com os cartéis que controlam as matérias primas – felizmente há cartéis, como veremos noutro post... se o meu inconsciente o decidir...).
Como corrige o Sistema o problema? Criando um fluxo de riqueza para os mais «pobres»: os Bancos Centrais planeiam injectar cerca de um milhão de milhões de dólares.
Há quem pense que isto é inerente ao sistema e não tem problema: periodicamente surge uma crise destas, que se resolve desta maneira, e tudo retoma o bom caminho.
Mas pensemos: o dinheiro da Reserva Federal, ou do Banco Central Europeu, não é o dinheiro dos mais ricos, é de todos; quem injecta o dinheiro são todos os contribuintes. Isso significa que todos ficaram um pouco mais pobres (excepto os beneficiários da injecção). Então, alguns da classe «estacionária» empobreceram e dos que enriqueciam lentamente deixaram de enriquecer.
Tudo se irá repetir, é certo, mas a base de pobreza vai sendo cada vez maior pois continua a não haver espaço para o crescimento do PIB. Ou seja, a crise será cada vez maior. Portanto, o sistema tende para a ruptura.
Mas não é só isto. A massa crescente de pessoas que vai «batendo no fundo» fica numa situação psicologicamente muito má. Não podemos esperar que todas essas pessoas se resignem a isso. Revoltar-se-ão uns. Outros olharão para a sociedade como um campo de caça – todos os dias farão o seu assalto para prover as suas necessidades, a da sobrevivência e a de não ter menos que os outros. Este Capitalismo criou uma classe de pobres no interior de uma sociedade rica que não é uma sociedade de classes.
A assistência social pode assegurar a sobrevivência mas não a dignidade. Para assegurar a dignidade precisamos de um sistema que se preocupe com isso. Os Nórdicos têm um sistema desses. Terá os seus problemas, mas, pelo menos, mostra que isso é possível.
Se este é um problema grave, há outros ainda muito mais graves inerente ao actual sistema económico ocidental, que surgem ao fim de algum tempo. Num próximo post tentarei mostrar porque é que a cartelização é, por agora, a única forma conhecida de evitar catástrofes maiores – ou isso, ou um governo esclarecido, como o da China, que há muito compreendeu este e outros problemas cruciais. Pelo menos, é o que o meu inconsciente me sussurra...
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