terça-feira, abril 15, 2008
O «Triângulo das Bermudas» da Física (1)
O vento sopra agreste... sopra sempre assim na primavera, nesta esplanada sobre a praia da Torre. Gosto disto. Os arranjos ajardinados e a vista soberba sobre o mar transportam-me para muito longe do caótico ambiente da cidade. A presença do forte de Oeiras dá aquele toque esotérico que liberta a imaginação. Mas hoje deve estar-se melhor na esplanada dos Moinhos ou na dos Gémeos, são mais abrigadas.
“É hoje que vais explicar a Luz ou o tempo ainda não está suficientemente do teu agrado?” a Luísa interrompe-me a contemplação com a sua voz entusiasmada e remata com uma pequena gargalhada. Esforço-me para renunciar ao apelo hipnótico da luz do mar: “Tem de ser, não é? Senão, ainda me bates...”, o meu sorriso amarelo merece uma risadita de todos.
“Confesso que estou curioso para saber como vais explicar a teoria da Relatividade às meninas.” O Mário com aquela pose que ele tão bem sabe assumir.
“Mário, pensas que somos burras?” Luísa não deixa escapar a oportunidade de dar um beliscão ao Mário, propiciador de outras intimidades que lhe estão a apetecer.
“Eu não vou explicar a Teoria da Relatividade! Seria o mesmo que pôr-me a explicar a teoria de Ptolomeu!” Mário suspendeu imediatamente o carinho que estava a fazer à Luísa. “Como é isso?”
“É do Universo que eu vou falar. Estou muito além da Teoria da Relatividade. Para saber que os planetas se movem à volta do Sol também não é preciso saber calcular as suas posições em cada instante, não é verdade?
“Sim, mas para nos mostrares que o que dizes não é fantasia, tens de o provar com recurso à matemática.”
“Talvez eheh”, procuro relaxar um pouco o Mário, “mas vamos ver aonde consigo chegar usando ao máximo a lógica e ao mínimo a matemática!”
Noto que as minhas palavras parecem tê-lo irritado. Afasta um pouco a Luísa para falar, quer dizer algo sério.
“Tu queres explicar logicamente o Universo? Mesmo o Einstein, que defendeu que isso era possível, fez o quê? Partiu dessa propriedade misteriosa que o Princípio da Relatividade enuncia para obter equações ainda mais misteriosas; digamos que gerou magia a partir de magia, matando qualquer veleidade que poderíamos ter de compreender o Universo. O que tu queres fazer nasceu com o Newton mas morreu com o Einstein!”.
Não estranho o que ele disse, já sei que a crença na incompreensibilidade do Universo é tão forte na Física como na Religião. Tenho de contestar, mas com calma:
“O objectivo último de Einstein era compreender. Eu limitei-me a continuar os raciocínios do Einstein e consegui atingir a compreensão que ele buscava. É por isso que a Ana e a Luísa me vão poder compreender.”
“Estás a dizer que vamos ficar a compreender melhor o Universo do que o Mário?”
“Ana, não compreendes tu melhor o Universo do que esse grande génio que foi o Ptolomeu? Não compreenderão as crianças de amanhã o que parece transcendente aos físicos de hoje? Imagina que eu sou uma criança do Futuro que te veio ensinar o que para nós é trivial e para vocês transcendente!” Pego na mão da Ana, que se sorri com a ideia... ou será que é com o toque da minha mão?
“Que és uma criança não tenho dúvidas!”, a Luísa deixa explodir mais uma das suas alegres gargalhadas, atirada do pescoço do Mário onde descansava a cabeça. Aproveito para ir directo no assunto, com entusiasmo:
“LUZ! Não precisamos mais do que analisar, sem preconceitos, as propriedades da Luz para desvendar a natureza da Matéria e do Espaço! Nas coisas elementares, como na ingenuidade das crianças, se revelam as grandes verdades. Na Luz e no Teorema de Pitágoras!”
“Pois...”
“Que sabemos nós da Luz?” pergunto, ignorando o Mário.
“Sabemos que a velocidade da Luz é constante!”
“Ooops, Luísa, vamos devagarinho! A primeira coisa que sabemos é que tem velocidade, que não é instantânea. O que quer dizer que quando olhamos para um planeta, como Vénus, Marte ou Júpiter, ele já não está exactamente onde o vemos, porque a Luz levou algum tempo a viajar entre ele e nós. Ora, para os astrónomos é importante determinar a posição exacta dos planetas e para isso precisam de saber o tempo que a Luz levou até nós”
“Então, sabendo a velocidade da Luz...”
“Sim, mas precisamos da velocidade da Luz em relação a NÓS, não é verdade? E como é que vamos saber isso?”
“Então, sabendo a velocidade do planeta, a nossa, ...”
“Luísa, parece-me que estás a admitir que a velocidade da Luz é relativa à sua fonte, isto é, se sai do planeta, é relativa ao planeta, como se fosse uma bala de canhão!”
“E não é?”
“Na realidade não. É diferente do que se passa com os corpos. Se atirarmos uma bola, a velocidade da bola é a mesma em relação a nós quer estejamos num comboio em movimento ou paradinhos no chão. Claro que em relação ao chão a velocidade da bola é diferente nos dois casos.”
“Então como é com a Luz?”
“Há maneiras de testar se a velocidade da Luz é relativa à fonte. Por exemplo, observando os satélites de Júpiter: se a velocidade da Luz fosse relativa à fonte, quando um satélite, ao orbitar Júpiter, se está a afastar de nós, a luz dele viria mais devagarinho, levaria mais tempo, do que quando o satélite se está a aproximar de nós. Então, nós veríamos o satélite a atrasar-se durante meia órbita e a adiantar-se durante a outra meia órbita. Ora isso não se verifica, o que significa que a velocidade da Luz em relação a nós não depende da velocidade da fonte.”
“Então essa é a primeira coisa importante que sabemos acerca da velocidade da Luz: que é independente da velocidade da fonte!”, a Ana atenta como uma boa aluna na aula.
“Mas então depende de quê?”
“Boa pergunta Luísa! Há algumas respostas possíveis, por exemplo, a velocidade da Luz ser relativa à distribuição média de matéria no Universo; ou à posição espacial do suposto Big Bang; ou ao espaço... mas não estamos ainda em condições de poder responder a essa pergunta. Vamos deixa-la em aberto enquanto continuamos a descobrir mais coisas sobre a velocidade da Luz.”
“E que tal em relação ao aether? Ou ao centro do Universo?” o Mário está provocante, o instinto reage por mim:
“Boa sugestão Mário! Vamos então, por agora, pensar que a velocidade da Luz é relativa ao centro do Universo, seja lá isso o que for. Assim definimos a primeira das propriedades da velocidade da Luz!” Mário franze o sobrolho, não era esta a reacção que esperava, mas eu continuo sem lhe dar tempo para contestar, “Vejamos agora o que podemos saber em relação à medida da velocidade da Luz.”
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“É hoje que vais explicar a Luz ou o tempo ainda não está suficientemente do teu agrado?” a Luísa interrompe-me a contemplação com a sua voz entusiasmada e remata com uma pequena gargalhada. Esforço-me para renunciar ao apelo hipnótico da luz do mar: “Tem de ser, não é? Senão, ainda me bates...”, o meu sorriso amarelo merece uma risadita de todos.
“Confesso que estou curioso para saber como vais explicar a teoria da Relatividade às meninas.” O Mário com aquela pose que ele tão bem sabe assumir.
“Mário, pensas que somos burras?” Luísa não deixa escapar a oportunidade de dar um beliscão ao Mário, propiciador de outras intimidades que lhe estão a apetecer.
“Eu não vou explicar a Teoria da Relatividade! Seria o mesmo que pôr-me a explicar a teoria de Ptolomeu!” Mário suspendeu imediatamente o carinho que estava a fazer à Luísa. “Como é isso?”
“É do Universo que eu vou falar. Estou muito além da Teoria da Relatividade. Para saber que os planetas se movem à volta do Sol também não é preciso saber calcular as suas posições em cada instante, não é verdade?
“Sim, mas para nos mostrares que o que dizes não é fantasia, tens de o provar com recurso à matemática.”
“Talvez eheh”, procuro relaxar um pouco o Mário, “mas vamos ver aonde consigo chegar usando ao máximo a lógica e ao mínimo a matemática!”
Noto que as minhas palavras parecem tê-lo irritado. Afasta um pouco a Luísa para falar, quer dizer algo sério.
“Tu queres explicar logicamente o Universo? Mesmo o Einstein, que defendeu que isso era possível, fez o quê? Partiu dessa propriedade misteriosa que o Princípio da Relatividade enuncia para obter equações ainda mais misteriosas; digamos que gerou magia a partir de magia, matando qualquer veleidade que poderíamos ter de compreender o Universo. O que tu queres fazer nasceu com o Newton mas morreu com o Einstein!”.
Não estranho o que ele disse, já sei que a crença na incompreensibilidade do Universo é tão forte na Física como na Religião. Tenho de contestar, mas com calma:
“O objectivo último de Einstein era compreender. Eu limitei-me a continuar os raciocínios do Einstein e consegui atingir a compreensão que ele buscava. É por isso que a Ana e a Luísa me vão poder compreender.”
“Estás a dizer que vamos ficar a compreender melhor o Universo do que o Mário?”
“Ana, não compreendes tu melhor o Universo do que esse grande génio que foi o Ptolomeu? Não compreenderão as crianças de amanhã o que parece transcendente aos físicos de hoje? Imagina que eu sou uma criança do Futuro que te veio ensinar o que para nós é trivial e para vocês transcendente!” Pego na mão da Ana, que se sorri com a ideia... ou será que é com o toque da minha mão?
“Que és uma criança não tenho dúvidas!”, a Luísa deixa explodir mais uma das suas alegres gargalhadas, atirada do pescoço do Mário onde descansava a cabeça. Aproveito para ir directo no assunto, com entusiasmo:
“LUZ! Não precisamos mais do que analisar, sem preconceitos, as propriedades da Luz para desvendar a natureza da Matéria e do Espaço! Nas coisas elementares, como na ingenuidade das crianças, se revelam as grandes verdades. Na Luz e no Teorema de Pitágoras!”
“Pois...”
“Que sabemos nós da Luz?” pergunto, ignorando o Mário.
“Sabemos que a velocidade da Luz é constante!”
“Ooops, Luísa, vamos devagarinho! A primeira coisa que sabemos é que tem velocidade, que não é instantânea. O que quer dizer que quando olhamos para um planeta, como Vénus, Marte ou Júpiter, ele já não está exactamente onde o vemos, porque a Luz levou algum tempo a viajar entre ele e nós. Ora, para os astrónomos é importante determinar a posição exacta dos planetas e para isso precisam de saber o tempo que a Luz levou até nós”
“Então, sabendo a velocidade da Luz...”
“Sim, mas precisamos da velocidade da Luz em relação a NÓS, não é verdade? E como é que vamos saber isso?”
“Então, sabendo a velocidade do planeta, a nossa, ...”
“Luísa, parece-me que estás a admitir que a velocidade da Luz é relativa à sua fonte, isto é, se sai do planeta, é relativa ao planeta, como se fosse uma bala de canhão!”
“E não é?”
“Na realidade não. É diferente do que se passa com os corpos. Se atirarmos uma bola, a velocidade da bola é a mesma em relação a nós quer estejamos num comboio em movimento ou paradinhos no chão. Claro que em relação ao chão a velocidade da bola é diferente nos dois casos.”
“Então como é com a Luz?”
“Há maneiras de testar se a velocidade da Luz é relativa à fonte. Por exemplo, observando os satélites de Júpiter: se a velocidade da Luz fosse relativa à fonte, quando um satélite, ao orbitar Júpiter, se está a afastar de nós, a luz dele viria mais devagarinho, levaria mais tempo, do que quando o satélite se está a aproximar de nós. Então, nós veríamos o satélite a atrasar-se durante meia órbita e a adiantar-se durante a outra meia órbita. Ora isso não se verifica, o que significa que a velocidade da Luz em relação a nós não depende da velocidade da fonte.”
“Então essa é a primeira coisa importante que sabemos acerca da velocidade da Luz: que é independente da velocidade da fonte!”, a Ana atenta como uma boa aluna na aula.
“Mas então depende de quê?”
“Boa pergunta Luísa! Há algumas respostas possíveis, por exemplo, a velocidade da Luz ser relativa à distribuição média de matéria no Universo; ou à posição espacial do suposto Big Bang; ou ao espaço... mas não estamos ainda em condições de poder responder a essa pergunta. Vamos deixa-la em aberto enquanto continuamos a descobrir mais coisas sobre a velocidade da Luz.”
“E que tal em relação ao aether? Ou ao centro do Universo?” o Mário está provocante, o instinto reage por mim:
“Boa sugestão Mário! Vamos então, por agora, pensar que a velocidade da Luz é relativa ao centro do Universo, seja lá isso o que for. Assim definimos a primeira das propriedades da velocidade da Luz!” Mário franze o sobrolho, não era esta a reacção que esperava, mas eu continuo sem lhe dar tempo para contestar, “Vejamos agora o que podemos saber em relação à medida da velocidade da Luz.”
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quarta-feira, abril 09, 2008
O Consumo como Partilha

Estavam à espera que o Jorge começasse a falar sobre as misteriosas propriedades da luz? Estamos todos, não é? Mas acontece que o Jorge diz que para falar da Luz quer estar numa esplanada numa bela tarde de sol! Estamos assim todos à espera que estes dias de chuva passem e que o Sol nos traga a Luz! Mas a chuva aqui nunca demora muito, não é?
Entretanto, tenho um assunto para vos falar que me parece importante. Algo que me surgiu em consequência das conversas com o Manuel Rocha, o Tarzan, o Diogo, a Pink e não só...
Vivemos numa sociedade aparentemente orientada para o Consumo. Só ouvimos falar do consumidor, dos direitos do consumidor. A ideia do “direito ao trabalho” soa a coisa arcaica, um esquerdismo ultrapassado. “Direito ao emprego”, é o que se defende, ou seja, a um ordenado, para se ter dinheiro para satisfazer o vício do consumismo.
Mas, no fundo de nós mesmos, sentimos algo que nos incomoda nesta ideia de sociedade do consumo. Há aqui algo que não bate certo.
Como referi ao Tarzan, li, há muitos anos, num livro de economia, suponho que americano, o exemplo da orquestra. Para o autor desse livro, a orquestra consubstanciava o essencial do problema da Economia.
Porque é que se constitui uma orquestra?
Nesta sociedade de consumo somos tentados a responder: para que possamos ouvir as belas peças musicais!
Só que não é assim. As orquestras não nascem por causa dos ouvintes. As orquestras nascem por causa dos músicos. Os músicos que querem tocar é que formam orquestras. Orquestras, coros, agrupamentos musicais, conjuntos de rock. Tudo nasce por haver quem queira fazer, não por haver quem queira consumir.
(às vezes tenta inverter-se, aproveitando a existência do consumidor que se criou para um determinado produto; por exemplo, “inventam-se” grupos musicais para servir o mercado da música ligeira, como as Tentações e outros. Mas nunca resulta, não é?)
Mas a produção não tem só a ver com realização pessoal ou satisfação de necessidades: o ímpeto de produzir é que move a sociedade humana. Os índios parintintins, que vivem na selva amazónica, são consumidores líquidos da esmagadora natureza. Produzir o quê em tal cenário? Mas se não vale a pena produzir, a sociedade estagna.
O mesmo pode acontecer numa sociedade ocidental. Por exemplo, em Portugal: se no estrangeiro se faz tudo, ficamos como os índios parintintins em face da selva amazónica.
É por isso que o exemplo da orquestra é importante, porque nos lembra que o problema central da Economia é satisfazer a necessidade das pessoas de fazerem coisas, porque é isso que gera a felicidade e o progresso. Evidentemente que esta é uma visão subtil da Economia; mas Deus é subtil, lembram-se?
Mas é claro que uma orquestra só faz sentido pleno se houver alguém para a ouvir. E é aqui que nasce a necessidade do consumidor. Nós, humanos, temos necessidade de nos exteriorizarmos, de fazer coisas, de intervir, de participar; mas isso só faz sentido se houver quem aprecie o que realizamos, se houver consumidores.
Como os blogues. Os blogues não surgem para satisfazer uma necessidade dos leitores, pois não? Mas se um blogue não tiver leitores, não produz realização para o seu autor.
Para que a necessidade de produzir, vital para o desenvolvimento da sociedade humana, se possa cumprir, é, portanto, indispensável criar o consumidor. A teoria económica direccionou-se para o “consumidor”. As técnicas de “marketing” assumem grande protagonismo.
Chegou-se a uma sociedade de viciados no consumo. Para saciar esse vício que alimentamos, desenvolvemos a produção em massa. Mas esta produção tem cada vez menos a ver com a necessidade das pessoas de “produzirem”, de terem um papel na sociedade.
Entretanto, tenho um assunto para vos falar que me parece importante. Algo que me surgiu em consequência das conversas com o Manuel Rocha, o Tarzan, o Diogo, a Pink e não só...
Vivemos numa sociedade aparentemente orientada para o Consumo. Só ouvimos falar do consumidor, dos direitos do consumidor. A ideia do “direito ao trabalho” soa a coisa arcaica, um esquerdismo ultrapassado. “Direito ao emprego”, é o que se defende, ou seja, a um ordenado, para se ter dinheiro para satisfazer o vício do consumismo.
Mas, no fundo de nós mesmos, sentimos algo que nos incomoda nesta ideia de sociedade do consumo. Há aqui algo que não bate certo.
Como referi ao Tarzan, li, há muitos anos, num livro de economia, suponho que americano, o exemplo da orquestra. Para o autor desse livro, a orquestra consubstanciava o essencial do problema da Economia.
Porque é que se constitui uma orquestra?
Nesta sociedade de consumo somos tentados a responder: para que possamos ouvir as belas peças musicais!
Só que não é assim. As orquestras não nascem por causa dos ouvintes. As orquestras nascem por causa dos músicos. Os músicos que querem tocar é que formam orquestras. Orquestras, coros, agrupamentos musicais, conjuntos de rock. Tudo nasce por haver quem queira fazer, não por haver quem queira consumir.
(às vezes tenta inverter-se, aproveitando a existência do consumidor que se criou para um determinado produto; por exemplo, “inventam-se” grupos musicais para servir o mercado da música ligeira, como as Tentações e outros. Mas nunca resulta, não é?)
Mas a produção não tem só a ver com realização pessoal ou satisfação de necessidades: o ímpeto de produzir é que move a sociedade humana. Os índios parintintins, que vivem na selva amazónica, são consumidores líquidos da esmagadora natureza. Produzir o quê em tal cenário? Mas se não vale a pena produzir, a sociedade estagna.
O mesmo pode acontecer numa sociedade ocidental. Por exemplo, em Portugal: se no estrangeiro se faz tudo, ficamos como os índios parintintins em face da selva amazónica.
É por isso que o exemplo da orquestra é importante, porque nos lembra que o problema central da Economia é satisfazer a necessidade das pessoas de fazerem coisas, porque é isso que gera a felicidade e o progresso. Evidentemente que esta é uma visão subtil da Economia; mas Deus é subtil, lembram-se?
Mas é claro que uma orquestra só faz sentido pleno se houver alguém para a ouvir. E é aqui que nasce a necessidade do consumidor. Nós, humanos, temos necessidade de nos exteriorizarmos, de fazer coisas, de intervir, de participar; mas isso só faz sentido se houver quem aprecie o que realizamos, se houver consumidores.
Como os blogues. Os blogues não surgem para satisfazer uma necessidade dos leitores, pois não? Mas se um blogue não tiver leitores, não produz realização para o seu autor.
Para que a necessidade de produzir, vital para o desenvolvimento da sociedade humana, se possa cumprir, é, portanto, indispensável criar o consumidor. A teoria económica direccionou-se para o “consumidor”. As técnicas de “marketing” assumem grande protagonismo.
Chegou-se a uma sociedade de viciados no consumo. Para saciar esse vício que alimentamos, desenvolvemos a produção em massa. Mas esta produção tem cada vez menos a ver com a necessidade das pessoas de “produzirem”, de terem um papel na sociedade.
E faz ainda outra coisa: esta produção transforma recursos em produtos que o consumo excessivo transforma em lixo. O processo produção->consumo reduz-se, em grande parte, a um processo de transformação recursos->lixo.
Criou-se assim um quadro de consumidores viciados, de consumismo desesperado em busca de uma felicidade inalcançável por essa via, e de uma produção que tende para o exagero, delapidando recursos finitos.
Quando compramos o produto estrangeiro estamos a fazer o mesmo que o índio parintintim, porque estamos a ser consumidores líquidos, não estamos a suportar a necessidade de produzir das pessoas que nos rodeiam, não estamos a contribuir para a evolução da nossa sociedade. As pessoas que nos rodeiam é que são os potenciais consumidores do que produzirmos, não é? São elas que formam a sociedade a que pertencemos, não é?
Deve haver blogues muito interessantes. Mas eu não deixo de ler os blogues dos meus amigos, ou das pessoas que, por alguma razão, estão ligadas a mim. Como prefiro ouvir os coros onde cantam as pessoas que me são próximas. Consumir deve ser um acto de partilha. Deve ser um acto útil à sociedade a que, queiramos ou não, pertencemos.
Desde que as orquestras nacionais passaram a ter metade dos músicos com nomes terminados em “ov” deixei de as ir ouvir. Uma orquestra estrangeira de qualidade excepcional faz sentido uma vez por outra, agora uma orquestra nacional “normal” que contrata sistematicamente músicos estrangeiros em vez dos nacionais é que não faz sentido nenhum. Prefiro ir ver O Bando, que é nacional e excepcional.
A sociedade do Futuro depende do nosso comportamento como consumidores. Se percebermos que nos realizamos com o que produzimos, não com o que consumimos, então consumiremos a produção daqueles que consomem a nossa e poderemos navegar no rio do progresso e sair da “selva”; se não percebermos, ficaremos como os índios parintintins, com a diferença de que seremos tornados escravos da máquina que alimenta o consumo. E nesse papel inútil embrulharemos a nossa existência.
quinta-feira, abril 03, 2008
Temos de pensar em algo...
Alita demorou-se a ler o discurso do Papa. Quando chegou ao fim, voltou ao princípio, como que à procura de qualquer coisa no texto; Tulito aproveitou para falar:
“Temos de ter em atenção duas coisas na interpretação desse discurso: a personalidade do Papa e a alteração do quadro do Evento.”
“Alteração do quadro do Evento? A que te referes?”, perguntou Alita sem desviar os olhos pensadores do texto.
“Sabes que a actividade solar, embora sempre crescente em média, tem uns períodos em que cresce de ciclo para ciclo, outros em que diminui. Na primeira metade do século XX ela esteve a crescer muito. O facto de o número de manchas solares ter ultrapassado todos os registos anteriores terá criado uma certa preocupação sobre o que poderia acontecer se a actividade solar continuasse a aumentar.”
“Queres tu dizer que poderá ter havido quem pensasse que o Evento poderia ocorrer ao terminar o século XX?”
“É uma possibilidade.”
“E a alteração do quadro a que te referes é o facto de desde então o Sol estar na fase decrescente do ciclo?”
“Certo. Há uns cinquenta anos que a actividade solar diminui, embora ligeiramente. Imagino que aqueles que levantaram a possibilidade do Evento poder vir a ocorrer na sequência do crescimento anterior estejam agora desacreditados e a credibilidade esteja do lado daqueles que, nada entendendo do fenómeno, nada previram.”
“Hummm, isso parece estar de acordo com uma coisa que o Papa diz: «... evitar desnecessariamente predições alarmantes quando não estão sustentadas por dados suficientes ou que ultrapassam a capacidade actual da ciência para fazer previsões.». Ora a única predição alarmante do conhecimento público é a do aquecimento global e não me parece ser a essa que ele se refere...”
Tulito assentiu e continuou: “De qualquer maneira, agora não há uma ameaça próxima do Evento, estamos a pouco mais de meio da fase descendente; a probabilidade é reduzida. Portanto, o tempo agora é de estratégias de longo prazo; é, por isso, um quadro diferente do que existiu no século XX, com a ameaça do Evento a exigir estratégias de curto prazo.”
Alita desistiu de continuar a rever o texto e resolveu prestar toda a atenção ao Tulito, afinal ele tinha ideias já feitas sobre o assunto. Virou-se para ele. “E sobre a personalidade do Papa, o que é que descobriste?”
“Não investiguei muito, estive só a ler a análise que ele fez do 3º segredo de Fátima. Claramente, ele é um intelectual materialista, sem qualquer conhecimento para além do que os 5 sentidos disponibilizam, ou seja, não é um crente nem é um espiritual. É reveladora a análise lógica e inteligente que ele faz do que seja uma Visão. Só que é a análise de quem nunca teve uma Visão ou uma premonição. É lógica, inteligente e errada a análise, ele fala do que não sabe mas pensa que sabe.”
“Só teoria especulativa, portanto... e que diz ele desse segredo?”
“ O que ele escreve é uma tese de advogado a provar que o tal segredo não diz nada de novo e não passa do fruto de imaginação de crianças com a cabeça cheia de descrições apocalípticas, pois era uso nesse tempo os religiosos encherem a cabeça das crianças com visões do inferno e do apocalipse.”
“Naturalmente que a análise dele só pode ser essa... afinal, ele não é crente nem sabe o que seja uma Visão, logo não pode pensar outra coisa...” os olhos semicerrados da Alita indicavam que estava a tentar construir um modelo da personalidade do Papa.
“Claro, e provavelmente até estará certo, mas o facto de não ter feito uma análise mais equilibrada é que é reveladora de que se guia por objectivos, como qualquer político, sendo-lhe indiferente a verdade.”
“Porque dizes isso?” Alita acendeu olhos de genuíno espanto, algo não bateria certo com o seu modelo papal.
“Ora, depois lês e percebes logo. Há coisas que saltam à vista. Por exemplo, por que razão iriam as crianças inventar uma cena onde a hierarquia da Igreja é chacinada? Estavam zangadas com algum padre lá da terra? Ou era para assustar as pessoas com o que os russos fariam, tipo «os russos comem criancinhas ao pequeno-almoço»? Nessa época inventavam-se muitas atoardas anticomunistas. Uma análise correcta exige considerar várias hipóteses e ele não fez isso, limitou-se a afirmar o que era conveniente para sustentar o seu ponto de vista.”
“Em resumo, o Papa não é crente, só tem 5 sentidos e não hesita nos meios para atingir os objectivos que considera úteis, é isso? Ah, e está num quadro onde a pressão para o Evento desapareceu.”
“Isso mesmo. Diz-me lá agora o que achas que ele pretende com esse discurso.”
“Admitindo esse quadro que definiste, o que me salta à vista é que ele está a determinar para a Ciência um papel secundário. Cita João Paulo II para dizer «por isso os cientistas, precisamente porque “sabem mais”, estão chamados a “servir mais”»; ora isto, não deixando de ser verdade, está aqui usado habilidosamente para sustentar que o papel dos cientistas não é guiar, aconselhar, mas servir, até diz generosamente que a Igreja os ajudará nessa difícil tarefa... ora onde é que isso está...”, Alita calou-se, percorreu rapidamente o texto, “ah sim, aqui está, «os cientistas encontrarão ajuda na Igreja na hora de enfrentar estes temas», diz ele...” Alita calou-se por momentos, arrumava as ideias, para logo concluir:
“Portanto, o papel da Ciência é ajudar a enfrentar, sem temor, os autênticos problemas que vão surgindo no caminho da humanidade mas não é o de guiar a humanidade porque não tem capacidade de previsão e não deve criar alarmismo injustificado.”
Tulito levantou-se de um salto e exclamou: “Exactamente! Foi exactamente o que me pareceu. Este Papa quer assumir o papel de guia da Humanidade do lado do Poder, à maneira tradicional da Igreja Católica, e não do lado do povo. A estratégia de Poder da Igreja entrou numa nova fase com este Papa. Para isso, começa por chutar para fora a Ciência. Em vez de peregrinações como as do anterior Papa, este deverá fazer visitas de Estado aos maiores líderes políticos do Mundo; ele não quer aparecer junto ao povo, a sua estratégia não é a de ouvir o povo, ele não é irmão do povo, ele é irmão dos líderes! Ou Pai deles! Assim que sentir força para isso, declarará guerra às outras religiões e aos ateus. O caminho para o Poder absoluto não passa pela tolerância.” Sentou-se novamente, como que esgotado pela exaltação que o acometera.
Um vinco de preocupação surgiu na testa de Alita. O Tulito não estava bem. A seguir teria de o convencer a ir ao gabinete médico. O melhor seria tentar concluir a conversa rapidamente, sem grandes excitações, pensou ela.
“É com Política e Religião que se guia o humano rebanho, sempre foi; o papel da Ciência é servir os donos do Poder, sempre foi. Resta saber quem tem mais força: a Política ou a Religião?”
“Humm... basta ver o escândalo que causam as relações amorosas e sexuais entre adultos que não seguem a moral religiosa! São o principal motivo de interesse dos media e causa de demissão de políticos; queres melhor prova que os teus humanos não passam de ovelhas ansiosas por cair nas mãos dos pastores religiosos? Eles são essencialmente crentes, não são racionais, e a Religião tem vantagem no domínio dos crentes.”
Alita reagiu com visível incómodo mas, não encontrando argumento sólido, preferiu ultrapassar o assunto: “Os meus humanos, como dizes, ainda te vão surpreender, vais ver... Mas que pensas que vai o Papa fazer em relação ao Evento?”
“Nada! Isso não lhe interessa, nem é para o tempo dele.”
“Portanto, a Ciência deles não vai descobrir nada porque está baseada em falsas certezas, como a da constante solar, e aqueles em quem depositávamos a esperança que pudessem fazer alguma coisa vão ficar parados, temes tu...”
O cansaço e a preocupação que Tulito exibira no início da conversa abateram-se de novo sobre ele. Com ar muito sério, respondeu marcando as palavras: “Podes crer que temo. Penso que se depender só dos humanos, pode ser uma grande catástrofe.” Com ar meditativo acrescentou: “Ficarmos só pelo papel de observadores é capaz de ser pouco. Temos de pensar em algo...”
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“Temos de ter em atenção duas coisas na interpretação desse discurso: a personalidade do Papa e a alteração do quadro do Evento.”
“Alteração do quadro do Evento? A que te referes?”, perguntou Alita sem desviar os olhos pensadores do texto.
“Sabes que a actividade solar, embora sempre crescente em média, tem uns períodos em que cresce de ciclo para ciclo, outros em que diminui. Na primeira metade do século XX ela esteve a crescer muito. O facto de o número de manchas solares ter ultrapassado todos os registos anteriores terá criado uma certa preocupação sobre o que poderia acontecer se a actividade solar continuasse a aumentar.”
“Queres tu dizer que poderá ter havido quem pensasse que o Evento poderia ocorrer ao terminar o século XX?”
“É uma possibilidade.”
“E a alteração do quadro a que te referes é o facto de desde então o Sol estar na fase decrescente do ciclo?”
“Certo. Há uns cinquenta anos que a actividade solar diminui, embora ligeiramente. Imagino que aqueles que levantaram a possibilidade do Evento poder vir a ocorrer na sequência do crescimento anterior estejam agora desacreditados e a credibilidade esteja do lado daqueles que, nada entendendo do fenómeno, nada previram.”
“Hummm, isso parece estar de acordo com uma coisa que o Papa diz: «... evitar desnecessariamente predições alarmantes quando não estão sustentadas por dados suficientes ou que ultrapassam a capacidade actual da ciência para fazer previsões.». Ora a única predição alarmante do conhecimento público é a do aquecimento global e não me parece ser a essa que ele se refere...”
Tulito assentiu e continuou: “De qualquer maneira, agora não há uma ameaça próxima do Evento, estamos a pouco mais de meio da fase descendente; a probabilidade é reduzida. Portanto, o tempo agora é de estratégias de longo prazo; é, por isso, um quadro diferente do que existiu no século XX, com a ameaça do Evento a exigir estratégias de curto prazo.”
Alita desistiu de continuar a rever o texto e resolveu prestar toda a atenção ao Tulito, afinal ele tinha ideias já feitas sobre o assunto. Virou-se para ele. “E sobre a personalidade do Papa, o que é que descobriste?”
“Não investiguei muito, estive só a ler a análise que ele fez do 3º segredo de Fátima. Claramente, ele é um intelectual materialista, sem qualquer conhecimento para além do que os 5 sentidos disponibilizam, ou seja, não é um crente nem é um espiritual. É reveladora a análise lógica e inteligente que ele faz do que seja uma Visão. Só que é a análise de quem nunca teve uma Visão ou uma premonição. É lógica, inteligente e errada a análise, ele fala do que não sabe mas pensa que sabe.”
“Só teoria especulativa, portanto... e que diz ele desse segredo?”
“ O que ele escreve é uma tese de advogado a provar que o tal segredo não diz nada de novo e não passa do fruto de imaginação de crianças com a cabeça cheia de descrições apocalípticas, pois era uso nesse tempo os religiosos encherem a cabeça das crianças com visões do inferno e do apocalipse.”
“Naturalmente que a análise dele só pode ser essa... afinal, ele não é crente nem sabe o que seja uma Visão, logo não pode pensar outra coisa...” os olhos semicerrados da Alita indicavam que estava a tentar construir um modelo da personalidade do Papa.
“Claro, e provavelmente até estará certo, mas o facto de não ter feito uma análise mais equilibrada é que é reveladora de que se guia por objectivos, como qualquer político, sendo-lhe indiferente a verdade.”
“Porque dizes isso?” Alita acendeu olhos de genuíno espanto, algo não bateria certo com o seu modelo papal.
“Ora, depois lês e percebes logo. Há coisas que saltam à vista. Por exemplo, por que razão iriam as crianças inventar uma cena onde a hierarquia da Igreja é chacinada? Estavam zangadas com algum padre lá da terra? Ou era para assustar as pessoas com o que os russos fariam, tipo «os russos comem criancinhas ao pequeno-almoço»? Nessa época inventavam-se muitas atoardas anticomunistas. Uma análise correcta exige considerar várias hipóteses e ele não fez isso, limitou-se a afirmar o que era conveniente para sustentar o seu ponto de vista.”
“Em resumo, o Papa não é crente, só tem 5 sentidos e não hesita nos meios para atingir os objectivos que considera úteis, é isso? Ah, e está num quadro onde a pressão para o Evento desapareceu.”
“Isso mesmo. Diz-me lá agora o que achas que ele pretende com esse discurso.”
“Admitindo esse quadro que definiste, o que me salta à vista é que ele está a determinar para a Ciência um papel secundário. Cita João Paulo II para dizer «por isso os cientistas, precisamente porque “sabem mais”, estão chamados a “servir mais”»; ora isto, não deixando de ser verdade, está aqui usado habilidosamente para sustentar que o papel dos cientistas não é guiar, aconselhar, mas servir, até diz generosamente que a Igreja os ajudará nessa difícil tarefa... ora onde é que isso está...”, Alita calou-se, percorreu rapidamente o texto, “ah sim, aqui está, «os cientistas encontrarão ajuda na Igreja na hora de enfrentar estes temas», diz ele...” Alita calou-se por momentos, arrumava as ideias, para logo concluir:
“Portanto, o papel da Ciência é ajudar a enfrentar, sem temor, os autênticos problemas que vão surgindo no caminho da humanidade mas não é o de guiar a humanidade porque não tem capacidade de previsão e não deve criar alarmismo injustificado.”
Tulito levantou-se de um salto e exclamou: “Exactamente! Foi exactamente o que me pareceu. Este Papa quer assumir o papel de guia da Humanidade do lado do Poder, à maneira tradicional da Igreja Católica, e não do lado do povo. A estratégia de Poder da Igreja entrou numa nova fase com este Papa. Para isso, começa por chutar para fora a Ciência. Em vez de peregrinações como as do anterior Papa, este deverá fazer visitas de Estado aos maiores líderes políticos do Mundo; ele não quer aparecer junto ao povo, a sua estratégia não é a de ouvir o povo, ele não é irmão do povo, ele é irmão dos líderes! Ou Pai deles! Assim que sentir força para isso, declarará guerra às outras religiões e aos ateus. O caminho para o Poder absoluto não passa pela tolerância.” Sentou-se novamente, como que esgotado pela exaltação que o acometera.
Um vinco de preocupação surgiu na testa de Alita. O Tulito não estava bem. A seguir teria de o convencer a ir ao gabinete médico. O melhor seria tentar concluir a conversa rapidamente, sem grandes excitações, pensou ela.
“É com Política e Religião que se guia o humano rebanho, sempre foi; o papel da Ciência é servir os donos do Poder, sempre foi. Resta saber quem tem mais força: a Política ou a Religião?”
“Humm... basta ver o escândalo que causam as relações amorosas e sexuais entre adultos que não seguem a moral religiosa! São o principal motivo de interesse dos media e causa de demissão de políticos; queres melhor prova que os teus humanos não passam de ovelhas ansiosas por cair nas mãos dos pastores religiosos? Eles são essencialmente crentes, não são racionais, e a Religião tem vantagem no domínio dos crentes.”
Alita reagiu com visível incómodo mas, não encontrando argumento sólido, preferiu ultrapassar o assunto: “Os meus humanos, como dizes, ainda te vão surpreender, vais ver... Mas que pensas que vai o Papa fazer em relação ao Evento?”
“Nada! Isso não lhe interessa, nem é para o tempo dele.”
“Portanto, a Ciência deles não vai descobrir nada porque está baseada em falsas certezas, como a da constante solar, e aqueles em quem depositávamos a esperança que pudessem fazer alguma coisa vão ficar parados, temes tu...”
O cansaço e a preocupação que Tulito exibira no início da conversa abateram-se de novo sobre ele. Com ar muito sério, respondeu marcando as palavras: “Podes crer que temo. Penso que se depender só dos humanos, pode ser uma grande catástrofe.” Com ar meditativo acrescentou: “Ficarmos só pelo papel de observadores é capaz de ser pouco. Temos de pensar em algo...”
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O Segredo
sábado, março 29, 2008
A Estratégia da Culpa e Expiação
“O que me chamou a atenção, Alita, foi uma academia científica, como supostamente o é a Pontifícia Academia, ter organizado uma sessão plenária sobre «A possibilidade de predição na ciência: precisão e limitações»; estranhei porque os cientistas reúnem-se para apresentar novos resultados, analisar problemas com vista à sua ultrapassagem, nunca para concordar em que a ciência tem esta ou aquela limitação intrínseca.”
“De facto, um cientista nunca aceita que a ciência tem limitações que não possam ser ultrapassadas... mesmo quando está convencido disso declara que a limitação é da natureza e não da ciência, como no Princípio da Incerteza... como interpretas isso?”
“Penso que esta assembleia não tinha, na realidade, o objectivo de discutir fosse o que fosse mas foi uma forma de fazer uma declaração: a academia científica do Vaticano declara que a Ciência é incapaz de fazer predições fiáveis!”
“Para muita gente isso seria o mesmo que afirmar que a Ciência não serve para nada...”
“Claro; é por isso que é um bocado despropositado uma academia científica fazer tal declaração.”
“Mas é uma academia do Vaticano. Repara: os cientistas não são autónomos, estão sempre ao serviço dum Poder, seja político, económico ou religioso. Essa academia está ao serviço da Religião e essa declaração parece-me inserida na luta pelo papel de guia máximo da humanidade que a Ciência e a Religião travam há longo tempo.”
“ A Ciência e a Religião a disputarem o lugar de Pastor da Humanidade!”
“Exactamente! Ou melhor, o velho pastor, a Religião, a afirmar que o novo Pastor, a Ciência, não pode prever o Futuro. Isso é muito importante para a Religião porque a sua força também depende da ideia de que «o Futuro a Deus pertence» e ela é o intermediário para Deus, logo, para o Futuro.”
“Interessante falares do velho pastor e do novo pastor... tive um sonho sabes...” Subitamente, a expressão de Tulito mostrou cansaço e preocupação. Alita pousou a mão no ombro dele, o olhar preocupado e terno, e segredou-lhe maternalmente:
“A nossa missão é de observação, não podes envolver-te tanto...”
“Eu sei, mas não posso ficar indiferente, estou como um torcedor de futebol, não posso intervir mas isso não me impede de sofrer por uma equipa e de tentar perceber as tácticas em campo... e isto não é um jogo de futebol!”
Alita reagiu de imediato, aproveitando a deixa: “Boa imagem! Vamos então agir como espectadores de um jogo e descodificar as tácticas!” Percebia-se o falso entusiasmo da declaração com que procurava combater o momento de desânimo do Tulito. “Ora conta-me lá esse sonho” rematou, decidida.
Tulito deitou-lhe um olhar quase divertido, a tentar mostrar um ânimo que ainda não sentia, e começou a contar: “Havia um pastor novo e um velho... percebi que eram a ciência e a religião... e havia um abismo que percebi que era o Evento... o velho sabia disso mas o novo não... “
“E?”
“ E o velho percebeu que não podia avisar o outro, nem as ovelhas do outro, porque ao conhecimento do velho já ninguém ligava.”
“Normal.”
“Mas o velho viu então uma possibilidade de tirar vantagem da situação: se ele fizesse um aviso, sem insistir, deixando que pensassem que o aviso era uma maluqueira dele, as ovelhas que sobrevivessem lembrar-se-iam do aviso e passariam a acreditar no conhecimento do velho e a segui-lo; desta forma, ele poderia a voltar a ser o único pastor.”
“humm... não sei não... se essas ovelhas são os humanos...”
“Pois, o velho do meu sonho teve então uma reacção estranha, que me ficou vivamente marcada na memória.”
“ Qual?”
“ Entrou em pânico, começou a chamar burro a si mesmo, a dizer que ninguém poderia saber nada, nunca, nunca! Acordei nessa aflição, de um segredo que tem ser mantido a todo o custo; e com a sensação de que precisava desesperadamente de encontrar uma solução.”
“Claro!”
“Claro? Porquê? Não estou a perceber nada.” O espanto misturava-se com algum desânimo.
“Querias que as humanas ovelhas dissessem: que burras que nós fomos, bem nos avisou o velho? Nada disso!”
“ Então?!”
“Então, os humanos têm sempre de arranjar um culpado para tudo o que lhes acontece. A primeira coisa que vai surgir na cabeça das ovelhas é: quem é o culpado? Ora a resposta «eu» nunca serve; logo, elas irão fatalmente culpar o velho pastor. Afinal, ele sabia e não as protegeu, não as avisou devidamente!”
“...mas se elas nunca acreditariam nele...”
“Claro, mas na altura do desastre elas não vão pensar isso, pensarão que ele não as convenceu de propósito.”
“ Então a solução seria o velho pastor não dizer nada, fazer segredo do que sabia e deixar a catástrofe acontecer?”
“De certeza que não; a função dos pastores é proteger as ovelhas, se acontecer a catástrofe ambos os pastores serão crucificados pelas sobreviventes. A história dos humanos é fértil em situações em que a ocorrência de um desastre natural determinou o massacre dos sacerdotes.”
“O que dizes faz sentido, excepto numa coisa: se eu não sabia isso, como pude sonhar isso?”
“O teu cérebro sabe muito mais do que aquilo de que tens consciência. Essa informação toda que tu pesquisas, tu analisas, seleccionas e depois esqueces o que achas que não tem interesse; o teu cérebro, porém, faz a escolha dele e memoriza a nível inconsciente coisas que ele acha importante, mesmo que o teu consciente não ache. E é com esse material que ele constrói os sonhos. Isso é básico.” O olhar de Alita tinha o mesmo ar condescendente das mulheres humanas quando falam duma coisa que é trivial para elas mas não para os homens.
“Talvez tenhas razão. De facto, este sonho liga-se a coisas que eu já li. Como o tão falado 3º segredo de Fátima que não é mais do que uma descrição do clássico massacre dos sacerdotes quando acontece uma catástrofe. E já percebi que o Vaticano tinha uma estratégia para enfrentar o Evento, que era a do Deus Colérico, um deus que iria escaqueirar o planeta irritado pelos pecados humanos, sobretudo pelos que não crêem nele. Li discursos de altos dignitários do Vaticano e afirmações da vidente que definiam claramente essa estratégia. Com essa estratégia inocentava-se a Igreja e definia-se a priori quem era o culpado: os “pecadores” e os não-crentes!”
“Vês? Afinal até estava no teu consciente o conhecimento que gerou o sonho!” Alita suspendeu-se meditativa. “Mas não percebo uma coisa: os sonhos desse tipo resultam de um conflito entre as informações de que o cérebro dispõe, e a angústia com que terminam é a procura de uma solução para o conflito; ora eu não estou a ver onde está o conflito.”
“Ahh, mas eu estou!” Tulito num súbito recobro de confiança, “ O conflito está entre essa estratégia e o discurso do Papa. O Papa fez um discurso nessa assembleia. Esse discurso tem de ter um significado, toda essa cerimónia foi preparada para passar uma mensagem. Ora o que esse discurso mostra é que há uma nova estratégia. Mas eu ainda não percebi exactamente os seus contornos. Queres ver?”
“De facto, um cientista nunca aceita que a ciência tem limitações que não possam ser ultrapassadas... mesmo quando está convencido disso declara que a limitação é da natureza e não da ciência, como no Princípio da Incerteza... como interpretas isso?”
“Penso que esta assembleia não tinha, na realidade, o objectivo de discutir fosse o que fosse mas foi uma forma de fazer uma declaração: a academia científica do Vaticano declara que a Ciência é incapaz de fazer predições fiáveis!”
“Para muita gente isso seria o mesmo que afirmar que a Ciência não serve para nada...”
“Claro; é por isso que é um bocado despropositado uma academia científica fazer tal declaração.”
“Mas é uma academia do Vaticano. Repara: os cientistas não são autónomos, estão sempre ao serviço dum Poder, seja político, económico ou religioso. Essa academia está ao serviço da Religião e essa declaração parece-me inserida na luta pelo papel de guia máximo da humanidade que a Ciência e a Religião travam há longo tempo.”
“ A Ciência e a Religião a disputarem o lugar de Pastor da Humanidade!”
“Exactamente! Ou melhor, o velho pastor, a Religião, a afirmar que o novo Pastor, a Ciência, não pode prever o Futuro. Isso é muito importante para a Religião porque a sua força também depende da ideia de que «o Futuro a Deus pertence» e ela é o intermediário para Deus, logo, para o Futuro.”
“Interessante falares do velho pastor e do novo pastor... tive um sonho sabes...” Subitamente, a expressão de Tulito mostrou cansaço e preocupação. Alita pousou a mão no ombro dele, o olhar preocupado e terno, e segredou-lhe maternalmente:
“A nossa missão é de observação, não podes envolver-te tanto...”
“Eu sei, mas não posso ficar indiferente, estou como um torcedor de futebol, não posso intervir mas isso não me impede de sofrer por uma equipa e de tentar perceber as tácticas em campo... e isto não é um jogo de futebol!”
Alita reagiu de imediato, aproveitando a deixa: “Boa imagem! Vamos então agir como espectadores de um jogo e descodificar as tácticas!” Percebia-se o falso entusiasmo da declaração com que procurava combater o momento de desânimo do Tulito. “Ora conta-me lá esse sonho” rematou, decidida.
Tulito deitou-lhe um olhar quase divertido, a tentar mostrar um ânimo que ainda não sentia, e começou a contar: “Havia um pastor novo e um velho... percebi que eram a ciência e a religião... e havia um abismo que percebi que era o Evento... o velho sabia disso mas o novo não... “
“E?”
“ E o velho percebeu que não podia avisar o outro, nem as ovelhas do outro, porque ao conhecimento do velho já ninguém ligava.”
“Normal.”
“Mas o velho viu então uma possibilidade de tirar vantagem da situação: se ele fizesse um aviso, sem insistir, deixando que pensassem que o aviso era uma maluqueira dele, as ovelhas que sobrevivessem lembrar-se-iam do aviso e passariam a acreditar no conhecimento do velho e a segui-lo; desta forma, ele poderia a voltar a ser o único pastor.”
“humm... não sei não... se essas ovelhas são os humanos...”
“Pois, o velho do meu sonho teve então uma reacção estranha, que me ficou vivamente marcada na memória.”
“ Qual?”
“ Entrou em pânico, começou a chamar burro a si mesmo, a dizer que ninguém poderia saber nada, nunca, nunca! Acordei nessa aflição, de um segredo que tem ser mantido a todo o custo; e com a sensação de que precisava desesperadamente de encontrar uma solução.”
“Claro!”
“Claro? Porquê? Não estou a perceber nada.” O espanto misturava-se com algum desânimo.
“Querias que as humanas ovelhas dissessem: que burras que nós fomos, bem nos avisou o velho? Nada disso!”
“ Então?!”
“Então, os humanos têm sempre de arranjar um culpado para tudo o que lhes acontece. A primeira coisa que vai surgir na cabeça das ovelhas é: quem é o culpado? Ora a resposta «eu» nunca serve; logo, elas irão fatalmente culpar o velho pastor. Afinal, ele sabia e não as protegeu, não as avisou devidamente!”
“...mas se elas nunca acreditariam nele...”
“Claro, mas na altura do desastre elas não vão pensar isso, pensarão que ele não as convenceu de propósito.”
“ Então a solução seria o velho pastor não dizer nada, fazer segredo do que sabia e deixar a catástrofe acontecer?”
“De certeza que não; a função dos pastores é proteger as ovelhas, se acontecer a catástrofe ambos os pastores serão crucificados pelas sobreviventes. A história dos humanos é fértil em situações em que a ocorrência de um desastre natural determinou o massacre dos sacerdotes.”
“O que dizes faz sentido, excepto numa coisa: se eu não sabia isso, como pude sonhar isso?”
“O teu cérebro sabe muito mais do que aquilo de que tens consciência. Essa informação toda que tu pesquisas, tu analisas, seleccionas e depois esqueces o que achas que não tem interesse; o teu cérebro, porém, faz a escolha dele e memoriza a nível inconsciente coisas que ele acha importante, mesmo que o teu consciente não ache. E é com esse material que ele constrói os sonhos. Isso é básico.” O olhar de Alita tinha o mesmo ar condescendente das mulheres humanas quando falam duma coisa que é trivial para elas mas não para os homens.
“Talvez tenhas razão. De facto, este sonho liga-se a coisas que eu já li. Como o tão falado 3º segredo de Fátima que não é mais do que uma descrição do clássico massacre dos sacerdotes quando acontece uma catástrofe. E já percebi que o Vaticano tinha uma estratégia para enfrentar o Evento, que era a do Deus Colérico, um deus que iria escaqueirar o planeta irritado pelos pecados humanos, sobretudo pelos que não crêem nele. Li discursos de altos dignitários do Vaticano e afirmações da vidente que definiam claramente essa estratégia. Com essa estratégia inocentava-se a Igreja e definia-se a priori quem era o culpado: os “pecadores” e os não-crentes!”
“Vês? Afinal até estava no teu consciente o conhecimento que gerou o sonho!” Alita suspendeu-se meditativa. “Mas não percebo uma coisa: os sonhos desse tipo resultam de um conflito entre as informações de que o cérebro dispõe, e a angústia com que terminam é a procura de uma solução para o conflito; ora eu não estou a ver onde está o conflito.”
“Ahh, mas eu estou!” Tulito num súbito recobro de confiança, “ O conflito está entre essa estratégia e o discurso do Papa. O Papa fez um discurso nessa assembleia. Esse discurso tem de ter um significado, toda essa cerimónia foi preparada para passar uma mensagem. Ora o que esse discurso mostra é que há uma nova estratégia. Mas eu ainda não percebi exactamente os seus contornos. Queres ver?”
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O Segredo
segunda-feira, março 24, 2008
O Limite dos Modelos Matemáticos
“Para perceberes o que o Papa disse, é preciso que eu te fale primeiro sobre os limites da ciência dos humanos, Alita.”
“Aiii.... está bem, mas promete-me que não te vais esquecer que a minha área não é a matemática!” Um sorriso doce sublinhou o pedido da Alita e transformou-o em ordem. Tulito sorriu-se, não conseguia reagir doutra maneira aos encantos de sereia da Alita.
“Claro, Alita, vou só tentar mostrar a natureza do problema. Diz-me por favor: qual é o objectivo essencial da Ciência, aquele que faz com as pessoas estejam dispostas a pagar os seus custos?”
“Ora, a previsão do Futuro, ou melhor, a previsão dos perigos que podem surgir no futuro, claro; a que propósito vem essa pergunta?” A mão suspensa traduzia o espanto da Alita.
“Acontece que o Método Científico deles se resume à construção de Modelos Matemáticos de ajuste aos resultados das observações. Tu não saberás, mas há uma coisa que os modelos matemáticos não podem fazer: é prever o Futuro!” Tulito pensou um instante, pegou no apontador e começou a fazer um desenho:
“Aiii.... está bem, mas promete-me que não te vais esquecer que a minha área não é a matemática!” Um sorriso doce sublinhou o pedido da Alita e transformou-o em ordem. Tulito sorriu-se, não conseguia reagir doutra maneira aos encantos de sereia da Alita.
“Claro, Alita, vou só tentar mostrar a natureza do problema. Diz-me por favor: qual é o objectivo essencial da Ciência, aquele que faz com as pessoas estejam dispostas a pagar os seus custos?”
“Ora, a previsão do Futuro, ou melhor, a previsão dos perigos que podem surgir no futuro, claro; a que propósito vem essa pergunta?” A mão suspensa traduzia o espanto da Alita.
“Acontece que o Método Científico deles se resume à construção de Modelos Matemáticos de ajuste aos resultados das observações. Tu não saberás, mas há uma coisa que os modelos matemáticos não podem fazer: é prever o Futuro!” Tulito pensou um instante, pegou no apontador e começou a fazer um desenho:

Modelo Matemático para dois pontos? Fácil! Uma recta, 1º grau (azul)! Mais um ponto? Fácil! 2º grau (amarelo)! Mais outro ponto! Fácil, sempre fácil, mais um grau no polinómio! E o ponto nº 5, onde é que vai aparecer? Ahh, isso agora... o Futuro não pertence à Matemática...
“Vou dar-te um exemplo simples. Fazer um Modelo Matemático é como estabelecer o polinómio que passa por uma série de pontos do plano; se os pontos forem apenas dois, há sempre uma recta que passa por eles; se forem três, há sempre um polinómio do segundo grau que se ajusta a eles; se foram 4, o polinómio será do 3º grau; e por aí fora.”
“Aí ainda chego!” A Alita com voz condescendente, quase ofendida, mas ainda suave como a sua presença.
“Eu sei, espera, falta-me terminar. Se tiveres 3 pontos não tens dificuldade em obter o polinómio do 2º grau que por eles passa, certo?” Tulito apontou a linha amarela do seu desenho.
“Certo, certo”
“Mas supõe que os pontos afinal eram 4 e tu só viste 3. Qual a probabilidade a priori de o polinómio que calculaste para os 3 pontos passar também pelo 4º?”
“Ora, nula!”
“Claro, Alita, isso mesmo! O Modelo Matemático que fizeste para os 3 dados que consideraste não vai acertar com outros dados, ou seja, não pode prever qual é o acontecimento seguinte. Ou melhor, em muitos casos pode prever aproximadamente um acontecimento na vizinhança de um dos pontos usados no modelo, mas o erro cresce com o afastamento e torna a extrapolação do modelo matemático sem valor.”
“Ou seja, estás a dizer que a Ciência deles é incapaz de prever o Futuro porque se baseia apenas em Modelos Matemáticos?”
“Isso mesmo.”
“Estou a perceber, falta-lhe a outra perna, como disseste, a perna da Intuição, de que falou o Poincaré. Embora eu não entenda bem porque chamou ele “Intuição” à geração de hipóteses...”
“Porque essa geração de hipóteses não é conseguida pela aplicação de um método, é uma capacidade mental que os humanos têm mais ou menos desenvolvida, não é um processo consciente.”
“Como é isso?” O ar surpreendido da Alita parecia dizer «sabes coisas sobre os humanos que eu, a especialista, não sei?»
“Eu sei lá!” Tulito riu-se com gosto.”A especialista em Humanologia és tu, não sou eu!”
Alita sorriu contrafeita, o seu jeito sedutor enrodilhou-se. Reagiu: “Eu já coleccionei alguma informação sobre isso, mas ainda a não consegui ordenar. Eles falam de ter «jeito», ou «intuição», ou «dom», ou «talento» mas ainda não percebi de que se trata. Ainda hoje vi uma frase dum tal Martin Heidegger que dizia «Nunca chegamos aos pensamentos. São eles que vêm». Já vi várias frases deste tipo. São um bocado estranhos os Humanos: são «hipnotizáveis», têm «talentos» e «intuição», e não sei que mais irei eu descobrir sobre eles...”
“Olha, que são muito arrogantes, com a mania da infalibilidade. A Igreja é infalível, a Ciência é infalível... uma obsessão com a infalibilidade. Em parte, penso que será por isso que se limitam aos modelos matemáticos, porque esses podem ser construídos por métodos simples e «infalíveis»... podem sempre determinar os polinómio que passa pelos acontecimentos... mas não podem é prever o Futuro e isso é fatal!”
“Tu mostraste-me o que é um Modelo Matemático e eu percebi porque é que não pode prever o Futuro; mas qual é a alternativa?”
“A alternativa é um modelo Físico. A alternativa é descobrir o que é que gera os pontos no plano em vez de determinar o polinómio que passa por eles. Só sabendo a causa dos pontos, ou seja, a rede de relações causa-efeito que os gera, é que se pode prever o próximo acontecimento. A alternativa é, pois, simplesmente, «compreender»!”
“Pois, lembro-me que o Einstein falou disso.”
“E que responderam os Físicos?”
“Que era a coisa mais estúpida que ele tinha dito.”
“Vês? É muito mais fácil fazer Modelos Matemáticos do que «Compreender», por isso eles limitam-se a fazer Modelos Matemáticos e ainda chamam estúpidos aos que buscam a compreensão. Mas os Modelos Matemáticos condenam-nos ao desastre porque não podem ser extrapolados.”
“Deixa-me então adivinhar: o discurso do Papa é sobre a incapacidade da Ciência para prever o Futuro?”
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O Segredo
sábado, março 22, 2008
O Pastor Cego
“Essa relva faz mal às barriguinhas, xooo, xooo”, aquilo é que ele tem uma lata, sempre a orientar o rebanho para aqui e para ali, inventando perigos constantes; e as ovelhas acreditam, acreditam sempre, muitas das minhas já passaram para o rebanho dele, conquistadas pelo ar de quem sabe, pela convicção dele. Duvidam dos próprios olhos para acreditarem nos olhos de quem não vê.
O velho pastor, apoiado no bordão, mirava o outro pastor apontando com o cajado um novo pasto ao seu imenso rebanho, já bem maior que o rebanho do velho. O novo pastor, que com ele aprendera a arte para depois iniciar o seu próprio rebanho em vez de se tornar seu ajudante. Uma sombra turvou o olhar do velho.
O velho pastor, apoiado no bordão, mirava o outro pastor apontando com o cajado um novo pasto ao seu imenso rebanho, já bem maior que o rebanho do velho. O novo pastor, que com ele aprendera a arte para depois iniciar o seu próprio rebanho em vez de se tornar seu ajudante. Uma sombra turvou o olhar do velho.
Com alguma dificuldade conseguia convencer as suas ovelhas a ficarem. Ia-lhes dizendo que o outro pastor estava tão cego que nem a própria ignorância via; lá ficavam na dúvida, hesitando assim em trocar o pastor que já dos pais delas cuidara pelo novo pastor e suas promessas.
Mas o novo pastor não tinha aprendido tudo o que ele podia ensinar, percebeu subitamente o velho, que reconhecia agora aquele local. O pai do seu pai, lembrava-se, dele lhe falara. Os sinais ainda lá estavam. “Quando os vires”, avisara ele,”sabe que o fim do terreno está próximo. Dentro do canavial se acaba o solo, as ovelhas desaparecem tragadas pela cova sem fundo. Sem tempo para um balido. Umas atrás das outras. Apenas as mais ligeiras ou as que o destino escolher se salvarão.”
Um sorriso doce e triste conquistou a face. Era a recordação das histórias que o pai do pai contava nas longas tardes da sua infância, voltados para poente, assistindo ao pôr-do-sol nos longínquos cumes de contornos diáfanos na contraluz. Com um abanão de cabeça afastou tais memórias, tinha de estar atento, o canavial já se avistava.
Claro que o outro nada sabia disso e a soberba cegava-lhe a prudência. Conduzia o seu rebanho direitinho para o canavial. Avisá-lo? Seria inútil, para o outro nada havia a aprender com o velho, como lhe chamava. Avisar as ovelhas inútil era, rir-se-iam, confiantes que estavam na sabedoria do seu pastor. Mais cego é quem não quer ver do que quem não tem olhos.
Um pensamento malicioso despontou. As ovelhas do outro perceberiam que o seu pastor sempre era cego e ignorante quando começassem a cair... nessa altura viriam ter consigo... as que se salvassem... como filhos pródigos regressando a casa... O rebanho voltaria a ser um só, e ele o seu pastor!
Endireitou-se. Quase que sentiu remorsos, aquela alegria com o desastre iminente não lhe parecia própria. De qualquer maneira, pensou, não está na sua mão evitar o desastre. Este pensamento aliviou-lhe a culpa. O plano está traçado: dirá a todas as ovelhas, às suas e também às do outro, que o novo pastor está cego e as conduz atrás de enganos; as ovelhas do novo não acreditarão evidentemente, porque haveriam de acreditar?; mas quando acontecer o desastre, as sobreviventes lembrar-se-ão, e perceberão então que apenas ele, o velho pastor, as pode guiar, pois apenas ele vê, apenas ele tem o conhecimento verdadeiro.
Mas o novo pastor não tinha aprendido tudo o que ele podia ensinar, percebeu subitamente o velho, que reconhecia agora aquele local. O pai do seu pai, lembrava-se, dele lhe falara. Os sinais ainda lá estavam. “Quando os vires”, avisara ele,”sabe que o fim do terreno está próximo. Dentro do canavial se acaba o solo, as ovelhas desaparecem tragadas pela cova sem fundo. Sem tempo para um balido. Umas atrás das outras. Apenas as mais ligeiras ou as que o destino escolher se salvarão.”
Um sorriso doce e triste conquistou a face. Era a recordação das histórias que o pai do pai contava nas longas tardes da sua infância, voltados para poente, assistindo ao pôr-do-sol nos longínquos cumes de contornos diáfanos na contraluz. Com um abanão de cabeça afastou tais memórias, tinha de estar atento, o canavial já se avistava.
Claro que o outro nada sabia disso e a soberba cegava-lhe a prudência. Conduzia o seu rebanho direitinho para o canavial. Avisá-lo? Seria inútil, para o outro nada havia a aprender com o velho, como lhe chamava. Avisar as ovelhas inútil era, rir-se-iam, confiantes que estavam na sabedoria do seu pastor. Mais cego é quem não quer ver do que quem não tem olhos.
Um pensamento malicioso despontou. As ovelhas do outro perceberiam que o seu pastor sempre era cego e ignorante quando começassem a cair... nessa altura viriam ter consigo... as que se salvassem... como filhos pródigos regressando a casa... O rebanho voltaria a ser um só, e ele o seu pastor!
Endireitou-se. Quase que sentiu remorsos, aquela alegria com o desastre iminente não lhe parecia própria. De qualquer maneira, pensou, não está na sua mão evitar o desastre. Este pensamento aliviou-lhe a culpa. O plano está traçado: dirá a todas as ovelhas, às suas e também às do outro, que o novo pastor está cego e as conduz atrás de enganos; as ovelhas do novo não acreditarão evidentemente, porque haveriam de acreditar?; mas quando acontecer o desastre, as sobreviventes lembrar-se-ão, e perceberão então que apenas ele, o velho pastor, as pode guiar, pois apenas ele vê, apenas ele tem o conhecimento verdadeiro.
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quinta-feira, março 20, 2008
Vida de Estrela
"Estás a ver esta imagem tirada pelo telescópio espacial Hubble duma estrela num processo de expulsão de matéria?"
Alita semicerrou os olhos, tentando perceber bem o que Tulito lhe mostrava. “Ah, sim, já estou a perceber, há umas linhas de luz que são artefactos do sistema óptico... e a imagem de baixo é uma ampliação da zona central...”
“Exacto. Esta imagem já é antiga, do ano 2000 da Era deles. Mas continua a ser um enigma para eles, porque não pode ser explicada por nada que eles conheçam. E vão encontrando, aqui e além, estrelas em processos de expulsão de matéria que ele não podem explicar a não ser com recurso a fantasias como buracos negros na vizinhança ou campos magnéticos mágicos; às vezes nem isso.”
“Será que já perceberam que os processos violentos nas estrelas não ocorrem só durante a sua formação e extinção?”
“Não encontrei isso dito em lado nenhum, Alita. Penso que os cientistas humanos ainda não colocaram essa hipótese, o que não me admira, porque eles não sabem gerar hipóteses; mas não me admirava que os que trabalham para a Igreja o tivessem feito, porque esses têm as “duas pernas”, ou seja, sabem usar a intuição e a lógica.”
“E daí pensares que eles começam a perceber que os processos de expulsão de matéria ocorrem ao longo de toda a vida da estrela e estarem alarmados...”
“Exactamente; e desconfiei que eles sabem isso por causa de um recente discurso do Papa.”
“Mas tu já lês os discursos do Papa?” Alita deixou escapar um sorriso leve, com temperos de admiração e de troça, “não me digas que te começas a interessar também pela personalidade dos humanos?”
“Interessar, interessa-me, mas tenho-te a ti para ma explicares!” Um sorriso largo respondeu ao sorriso de Alita, dois sorrisos a medir forças, dois corações a palpitarem mais rápido. “Eu estou a investigar a organização científica deles que, basicamente, tem duas estruturas, a ciência que depende dos governos e a que depende do Vaticano. É por isso que sei a história da Academia Linceana e foi assim que tropecei nesse discurso, entre muitas outras coisas.”
“E que disse o Papa de tão importante?” A curiosidade irrompeu dos olhos da Alita, que tomaram cor de nuvem banhada em Sol.
Alita semicerrou os olhos, tentando perceber bem o que Tulito lhe mostrava. “Ah, sim, já estou a perceber, há umas linhas de luz que são artefactos do sistema óptico... e a imagem de baixo é uma ampliação da zona central...”
“Exacto. Esta imagem já é antiga, do ano 2000 da Era deles. Mas continua a ser um enigma para eles, porque não pode ser explicada por nada que eles conheçam. E vão encontrando, aqui e além, estrelas em processos de expulsão de matéria que ele não podem explicar a não ser com recurso a fantasias como buracos negros na vizinhança ou campos magnéticos mágicos; às vezes nem isso.”
“Será que já perceberam que os processos violentos nas estrelas não ocorrem só durante a sua formação e extinção?”
“Não encontrei isso dito em lado nenhum, Alita. Penso que os cientistas humanos ainda não colocaram essa hipótese, o que não me admira, porque eles não sabem gerar hipóteses; mas não me admirava que os que trabalham para a Igreja o tivessem feito, porque esses têm as “duas pernas”, ou seja, sabem usar a intuição e a lógica.”
“E daí pensares que eles começam a perceber que os processos de expulsão de matéria ocorrem ao longo de toda a vida da estrela e estarem alarmados...”
“Exactamente; e desconfiei que eles sabem isso por causa de um recente discurso do Papa.”
“Mas tu já lês os discursos do Papa?” Alita deixou escapar um sorriso leve, com temperos de admiração e de troça, “não me digas que te começas a interessar também pela personalidade dos humanos?”
“Interessar, interessa-me, mas tenho-te a ti para ma explicares!” Um sorriso largo respondeu ao sorriso de Alita, dois sorrisos a medir forças, dois corações a palpitarem mais rápido. “Eu estou a investigar a organização científica deles que, basicamente, tem duas estruturas, a ciência que depende dos governos e a que depende do Vaticano. É por isso que sei a história da Academia Linceana e foi assim que tropecei nesse discurso, entre muitas outras coisas.”
“E que disse o Papa de tão importante?” A curiosidade irrompeu dos olhos da Alita, que tomaram cor de nuvem banhada em Sol.
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segunda-feira, março 17, 2008
Os Jardins Secretos do Vaticano
“Ahh, isto é interessante...” Alita endireitou-se, levantou os olhos, deixou pender a cabeça para trás, o que acabara de ler incendiara-lhe o pensamento.
“Siimm? Então de que se trata?” Tulito respondeu automaticamente, estava habituado aquele «pensar em voz alta» com que Alita brindava os pensamentos que a intrigavam.
“ A Pontifícia Academia de Ciências propôs ao Papa a colocação nos Jardins do Vaticano de uma estátua do Galileu.”
“Interessante isso!? A mim parece-me estranho... se a Academia quer uma estátua do Galileu, que a ponha nas suas instalações... ou então é o Papa que quer e usou a Academia...”
“Tu sabes o que é a Pontifícia Academia da Ciência, não sabes?” a voz de Alita era suave como um sonho.
“Olha, sei que é algo muito estranho. Uma Academia Científica tutelada pelo Vaticano? Mais uma originalidade dos humanos...”
“E já viste a composição?” o olhar da Alita tornou-se agora vivo; levantou-se e aproximou-se do Tulito.
“Já. Uns 80 ilustríssimos cientistas. Mais de quarenta prémios Nobel já fizeram parte dela, muitos deles nomeados antes de terem sido laureados. Talvez a maior concentração de ilustres cérebros da ciência que os humanos têm. E para quê?”
“Vejo que já andaste a investigar essa Academia. Sabes que remonta à famosa Academia do Lince, de que Galileu foi membro?”
“Considerada a primeira academia científica dos humanos.” Tulito sentiu-se satisfeito consigo próprio por este pequeno pedaço de conhecimento que acalmou os grandes olhos expectantes da Alita.
“Sabes muito... eheh... mas não saberás porque foi tão importante para a Igreja que o Galileu investigasse em segredo, que não defendesse publicamente as teorias copernicanas, que a Igreja já sabia que estavam certas desde o Papa anterior?”
Tulito sentiu-se subitamente estúpido. Claro! A preocupação da Igreja com Galileu nunca foi por causa das ideias dele, o que ela não queria era que ele as divulgasse! O livro do Copérnico foi posto no Índex só para evitar a sua divulgação, porque continuou a ser avidamente estudado no seio da Igreja. O que a Igreja queria era Segredo, sempre quis, continua a querer: há muitos anos que a Igreja investiga em segredo, pois investe aí recursos demasiadamente importantes para a aparente pobreza de resultados! Veio-lhe à lembrança um momento embaraçoso do seu tempo de estudante. Balbuciou, sentindo-se como aluno apanhado em falta:
“Pois, realmente não pensei nisso...” desviou para baixo o olhar, perdendo contacto com os fascinantes olhos em arco-íris da Alita, mas a eles logo regressou, expulsando a sensação que do passado o inibia.
“Passa-te pela cabeça que a Ciência deles ainda não conseguiu juntar a geração de hipóteses à lógica?”
“Estás a brincar comigo?”
“Sério! Os humanos raramente têm as duas capacidades: ou são bons na geração de hipóteses, bons intuitivos dizem eles, ou são bons na lógica, bons matemáticos dizem eles. Mas, para os estudos de Física, não fazem equipas simbióticas, não sabem sequer o que é. Para eles, o mérito é um conceito individual!”
“Nãooo!”
“Verdade! Não te admires muito, porque nós, há três gerações atrás, também éramos assim, não sabias?” As cores dos olhos da Alita fundiram-se num tom doce e suave, reflectindo alguma recordação do seu passado, ou talvez a nostalgia do seu longínquo planeta.
“Sim, eu sei, mas isso parece-me agora tão primitivo...”
“Pois, lá primitivo é.”
“E o que tem isso a ver com o que estávamos a falar, Alita?”
“O que era o Galileu? Um Intuitivo ou um Matemático?”
“Seria um Intuitivo, evidentemente; como o Copérnico, o Newton, o Poincaré, o Einstein....”
“Claro Tulito. Agora repara, a generalidade dos intuitivos que ficaram famosos agiram à margem da Ciência, porque a Ciência é dominada pelos Lógicos, ou Matemáticos.”
“Sim, és capaz de ter razão. Lembro-me de ler lido que o Copérnico afirmou temer os «matemáticos» e pediu a protecção do Papa.”
“Tanto quanto percebi, o pensamento Aristotélico foi adoptado como guia entre os europeus, determinando a primazia da lógica sobre a geração de hipóteses. Foi o primeiro passo natural e necessário no caminho do conhecimento, mas nunca deram o segundo, o domínio da geração de hipóteses.”
“Ou seja, a Ciência deles é como um homem com uma só perna, a perna da Lógica, por isso anda devagarinho e não ultrapassa grandes obstáculos...”
“Ena, como tu estás imaginativo Tulito! Influências dos Humanos?”
“Eh eh ... se calhar..”
“Mas é isso mesmo, é uma boa imagem.” Os olhos da Alita encheram-se de todas aquelas cores que tão fascinante a tornavam para o Tulito.
“Mas é tão óbvio que é necessário dominar a geração das hipóteses...”
“Para a maioria deles, pelos vistos, não é óbvio. O Poincaré escreveu que «a lógica, a única que pode dar a certeza, é o instrumento da demonstração; a intuição é o instrumento da invenção». A Igreja sabe que sem os intuitivos não se fazem descobertas. E, como sabemos, a Igreja tem um projecto de investigação muito especial desde há muitos séculos...”
“Obviamente.”
“Por isso, Tulito, a Igreja procurou ter uma estrutura própria, pequena que fosse mas com as duas pernas. Essa estrutura é encabeçada pela Pontifícia Academia. Bom, isto é o que eu sei; agora temos de pensar sobre essa notícia...”
“... a notícia de que as grandes cabeças que formam essa academia se reuniram, pensaram sobre magnos problemas, pensaram, e a importante conclusão a que chegaram foi: vamos pedir ao Papa para pôr uma estátua de Galileu nos Jardins do Vaticano!”
“Estás a ironizar mas és capaz de ter razão...”
“Razão? Como? Mas não me admira eheh... nós somos uma boa equipa simbiótica!”
“Eu penso que esse pedido será uma metáfora. Os verdadeiros jardins do Vaticano são os jardins do conhecimento que laboriosa e secretamente o Vaticano vem construindo. Galileu foi aquele que não aceitou a imposição do segredo sobre as suas investigações. Que divulgou algum conhecimento que o Papa pretendia que ficasse na Igreja. Associar Galileu aos Jardins do Vaticano será uma forma de pedir ou anunciar a divulgação do conhecimento secreto do Vaticano. Devem ter descoberto algo que os assustou muito.”
“Hummm... talvez eu saiba do que se trata...”
.
“Siimm? Então de que se trata?” Tulito respondeu automaticamente, estava habituado aquele «pensar em voz alta» com que Alita brindava os pensamentos que a intrigavam.
“ A Pontifícia Academia de Ciências propôs ao Papa a colocação nos Jardins do Vaticano de uma estátua do Galileu.”
“Interessante isso!? A mim parece-me estranho... se a Academia quer uma estátua do Galileu, que a ponha nas suas instalações... ou então é o Papa que quer e usou a Academia...”
“Tu sabes o que é a Pontifícia Academia da Ciência, não sabes?” a voz de Alita era suave como um sonho.
“Olha, sei que é algo muito estranho. Uma Academia Científica tutelada pelo Vaticano? Mais uma originalidade dos humanos...”
“E já viste a composição?” o olhar da Alita tornou-se agora vivo; levantou-se e aproximou-se do Tulito.
“Já. Uns 80 ilustríssimos cientistas. Mais de quarenta prémios Nobel já fizeram parte dela, muitos deles nomeados antes de terem sido laureados. Talvez a maior concentração de ilustres cérebros da ciência que os humanos têm. E para quê?”
“Vejo que já andaste a investigar essa Academia. Sabes que remonta à famosa Academia do Lince, de que Galileu foi membro?”
“Considerada a primeira academia científica dos humanos.” Tulito sentiu-se satisfeito consigo próprio por este pequeno pedaço de conhecimento que acalmou os grandes olhos expectantes da Alita.
“Sabes muito... eheh... mas não saberás porque foi tão importante para a Igreja que o Galileu investigasse em segredo, que não defendesse publicamente as teorias copernicanas, que a Igreja já sabia que estavam certas desde o Papa anterior?”
Tulito sentiu-se subitamente estúpido. Claro! A preocupação da Igreja com Galileu nunca foi por causa das ideias dele, o que ela não queria era que ele as divulgasse! O livro do Copérnico foi posto no Índex só para evitar a sua divulgação, porque continuou a ser avidamente estudado no seio da Igreja. O que a Igreja queria era Segredo, sempre quis, continua a querer: há muitos anos que a Igreja investiga em segredo, pois investe aí recursos demasiadamente importantes para a aparente pobreza de resultados! Veio-lhe à lembrança um momento embaraçoso do seu tempo de estudante. Balbuciou, sentindo-se como aluno apanhado em falta:
“Pois, realmente não pensei nisso...” desviou para baixo o olhar, perdendo contacto com os fascinantes olhos em arco-íris da Alita, mas a eles logo regressou, expulsando a sensação que do passado o inibia.
“Passa-te pela cabeça que a Ciência deles ainda não conseguiu juntar a geração de hipóteses à lógica?”
“Estás a brincar comigo?”
“Sério! Os humanos raramente têm as duas capacidades: ou são bons na geração de hipóteses, bons intuitivos dizem eles, ou são bons na lógica, bons matemáticos dizem eles. Mas, para os estudos de Física, não fazem equipas simbióticas, não sabem sequer o que é. Para eles, o mérito é um conceito individual!”
“Nãooo!”
“Verdade! Não te admires muito, porque nós, há três gerações atrás, também éramos assim, não sabias?” As cores dos olhos da Alita fundiram-se num tom doce e suave, reflectindo alguma recordação do seu passado, ou talvez a nostalgia do seu longínquo planeta.
“Sim, eu sei, mas isso parece-me agora tão primitivo...”
“Pois, lá primitivo é.”
“E o que tem isso a ver com o que estávamos a falar, Alita?”
“O que era o Galileu? Um Intuitivo ou um Matemático?”
“Seria um Intuitivo, evidentemente; como o Copérnico, o Newton, o Poincaré, o Einstein....”
“Claro Tulito. Agora repara, a generalidade dos intuitivos que ficaram famosos agiram à margem da Ciência, porque a Ciência é dominada pelos Lógicos, ou Matemáticos.”
“Sim, és capaz de ter razão. Lembro-me de ler lido que o Copérnico afirmou temer os «matemáticos» e pediu a protecção do Papa.”
“Tanto quanto percebi, o pensamento Aristotélico foi adoptado como guia entre os europeus, determinando a primazia da lógica sobre a geração de hipóteses. Foi o primeiro passo natural e necessário no caminho do conhecimento, mas nunca deram o segundo, o domínio da geração de hipóteses.”
“Ou seja, a Ciência deles é como um homem com uma só perna, a perna da Lógica, por isso anda devagarinho e não ultrapassa grandes obstáculos...”
“Ena, como tu estás imaginativo Tulito! Influências dos Humanos?”
“Eh eh ... se calhar..”
“Mas é isso mesmo, é uma boa imagem.” Os olhos da Alita encheram-se de todas aquelas cores que tão fascinante a tornavam para o Tulito.
“Mas é tão óbvio que é necessário dominar a geração das hipóteses...”
“Para a maioria deles, pelos vistos, não é óbvio. O Poincaré escreveu que «a lógica, a única que pode dar a certeza, é o instrumento da demonstração; a intuição é o instrumento da invenção». A Igreja sabe que sem os intuitivos não se fazem descobertas. E, como sabemos, a Igreja tem um projecto de investigação muito especial desde há muitos séculos...”
“Obviamente.”
“Por isso, Tulito, a Igreja procurou ter uma estrutura própria, pequena que fosse mas com as duas pernas. Essa estrutura é encabeçada pela Pontifícia Academia. Bom, isto é o que eu sei; agora temos de pensar sobre essa notícia...”
“... a notícia de que as grandes cabeças que formam essa academia se reuniram, pensaram sobre magnos problemas, pensaram, e a importante conclusão a que chegaram foi: vamos pedir ao Papa para pôr uma estátua de Galileu nos Jardins do Vaticano!”
“Estás a ironizar mas és capaz de ter razão...”
“Razão? Como? Mas não me admira eheh... nós somos uma boa equipa simbiótica!”
“Eu penso que esse pedido será uma metáfora. Os verdadeiros jardins do Vaticano são os jardins do conhecimento que laboriosa e secretamente o Vaticano vem construindo. Galileu foi aquele que não aceitou a imposição do segredo sobre as suas investigações. Que divulgou algum conhecimento que o Papa pretendia que ficasse na Igreja. Associar Galileu aos Jardins do Vaticano será uma forma de pedir ou anunciar a divulgação do conhecimento secreto do Vaticano. Devem ter descoberto algo que os assustou muito.”
“Hummm... talvez eu saiba do que se trata...”
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quarta-feira, março 12, 2008
O Chamamento

Despediu-se rapidamente do Mário e da Luísa, o vento frio cortava-lhe a nuca como navalhas, má ideia cortar o cabelo. De qualquer maneira, era tardíssimo, não era hora para despedidas demoradas, até porque mais logo ali se encontrariam de novo. Estugou o passo, cerrando os olhos na direcção onde pensava ter deixado o carro. Lá estava, com o seu azul clarinho, azul do céu diurno, dir-se-ia um pedaço de dia que a luz dos candeeiros afagava na noite fria. Entrou rápido, ligou de imediato o motor, deixando-o aquecer uns segundos enquanto punha o cinto. Ajeitou-se na cadeira. Meteu a primeira, pisca, espelho, “... Galileu... jardins do Vaticano..”, que era aquilo?, fez um esforço de memória para recuperar a noticia que tinha acabado de ouvir no auto rádio “...qualquer coisa sobre o Papa ir pôr uma estátua do Galileu nos Jardins do Vaticano, era isso, sem dúvida!”
Desengatou a primeira, desligou o pisca. A cabeça pendeu-lhe sobre o volante. “Era o Sinal. Sabia-o. O Papa fazia o chamamento. Que fazer?”
Tinha-o desejado tanto quanto o tinha temido. Fosse o João Paulo I a dar o sinal e teria ido a correr. Mas agora hesitava. Sentia o projecto de poder por detrás deste Papa. Tinha de pensar... “ Se calhar o Papa tem razão, a humanidade tem de ser gerida com mão firme... o Pastor é que sabe para onde leva o seu rebanho, as ovelhas nada entendem dos desígnios que determinam as suas vidas. Só pode haver uma Vontade.”
...
...
“... ou não?”
Desengatou a primeira, desligou o pisca. A cabeça pendeu-lhe sobre o volante. “Era o Sinal. Sabia-o. O Papa fazia o chamamento. Que fazer?”
Tinha-o desejado tanto quanto o tinha temido. Fosse o João Paulo I a dar o sinal e teria ido a correr. Mas agora hesitava. Sentia o projecto de poder por detrás deste Papa. Tinha de pensar... “ Se calhar o Papa tem razão, a humanidade tem de ser gerida com mão firme... o Pastor é que sabe para onde leva o seu rebanho, as ovelhas nada entendem dos desígnios que determinam as suas vidas. Só pode haver uma Vontade.”
...
...
“... ou não?”
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O Segredo
terça-feira, março 11, 2008
Todo o Universo é composto de mudança
. "Todo o Mundo é composto de mudança..."“O que é que eu fiz...” repito em voz alta a pergunta da Ana mas pergunto a mim mesmo o que vou eu fazer... ao mesmo tempo sinto o destino tão traçado e inescapável como Jesus o terá sentido quando rumou a Jerusalém...
“Sim, qual é a tua descoberta?!” insiste a Ana, estranhamente inquisitiva para alguém que eu me habituara a pensar tão suave. Afasto as dúvidas e respondo:
“A generalidade das pessoas, antes de Copérnico, considerou naturalmente que a Terra estava no centro do Universo, pois é isso que corresponde às informações dos sentidos; outra hipótese nem sequer se punha. Mas move-se, como sabemos, não é?”
“Claro”, a Ana com os grandes olhos abertos a olhar desconfiada para mim.
“Bem, mas não presumimos apenas que a Terra estava parada; presumimos mais coisas. Digam uma por exemplo.”
O ar atónito de todos não surpreende, pois se há coisa de que não temos consciência é das inúmeras presunções que fazemos; mas espero que alguém diga alguma coisa, me dê uma ponta para eu puxar o fio.
“Que existe Deus?!?”
“Bem, isso é outra questão Luísa; refiro-me às propriedades do Universo.”
... parece que não vão lá, tenho de ser eu a puxar...
“Por exemplo, presumimos que o Universo é eterno, inalterável, que os fenómenos que ocorrem hoje ocorrerão sempre da mesma maneira, não é? Ou seja, presumimos que as características fundamentais do Universo são invariantes no Tempo.”
“Não é bem assim, Jorge. Não presumimos nada, medimos. Por exemplo, medimos a massa do protão e sabemos hoje que a possibilidade de esta poder variar no tempo é ridiculamente pequena.”
“Daí concluis, portanto, que a massa do protão é invariante no tempo, não é?”
“Claro! Não vou negar o resultado das observações. Essa é a grande força do método científico, nunca contrariar as observações!”
“Pois, foi mais ou menos isso que disseram ao Galileu quando ele defendeu uma ideia tão contrária às evidências. Não te ocorreu que, da mesma maneira que não podemos medir o estado de movimento do nosso sistema, talvez também não possamos medir a variação ao longo do tempo da massa das partículas atómicas?”
“Não podemos medir a velocidade da Terra, mas ela move-se; não podemos medir a variação da massa mas ela varia. É isso?”
O tom seguro da Ana faz-me um arrepio na espinha. Há qualquer coisa que esses olhos misteriosos escondem.
“Não pode ser isso”, adianta-se seguro o Mário, “porque nós podemos observar a massa das partículas agora e no passado: basta analisarmos os fenómenos físicos nas estrelas distantes. A luz que delas nos chega demorou muito tempo a cá chegar e traz-nos, por isso, imagens do passado distante, imagens que nós podemos analisar!”
“Exactamente Mário! E que nos diz essa luz do passado?”
“Uma coisa especial... que as estrelas se estão a afastar de nós, tanto mais depressa quanto mais distantes elas se encontram de nós; mas não nos indicam nenhum fenómeno diferente, pelo contrário, mostram que a Física do passado distante era exactamente a mesma de hoje.”
“Mário, confundiste uma presunção com uma conclusão! Nós presumimos que a Física é a mesma e por isso concluímos que a diferença que encontramos, o desvio da frequência da luz para o vermelho, se deve a uma velocidade de afastamento ou a uma expansão do espaço! Mas, Mário, presumimos mal, porque é exactamente ao contrário: o espaço não expande, as propriedades fundamentais do Universo é que mudam no tempo.”
“Jorge, se estás a pensar que a massa varia no tempo desengana-te: isso já foi testado!”
“Mário, quem pensou isso foi a Ana, não fui eu!” Larguei uma gargalhada, o que fez estampar na cara da Ana uma expressão de profundo espanto. Gostei. “Não vos disse já que Deus é subtil? É preciso muito mais subtileza para entender o Universo! Variar a massa!! Mas que hipótese tão simplória!”
“Já me estás a fazer nervos! Desembucha de vez!”
“Calma Luísa, primeiro vamos ver um mistério do Universo: o mistério da invariância da velocidade da luz!”
“Estou a ver que neste Universo tudo parece invariante mas tudo varia!” Luísa esboçou o começo de uma gargalhada, mas eu nem lhe dou tempo, espetando o dedo na direcção dela afirmo:
“Sim, qual é a tua descoberta?!” insiste a Ana, estranhamente inquisitiva para alguém que eu me habituara a pensar tão suave. Afasto as dúvidas e respondo:
“A generalidade das pessoas, antes de Copérnico, considerou naturalmente que a Terra estava no centro do Universo, pois é isso que corresponde às informações dos sentidos; outra hipótese nem sequer se punha. Mas move-se, como sabemos, não é?”
“Claro”, a Ana com os grandes olhos abertos a olhar desconfiada para mim.
“Bem, mas não presumimos apenas que a Terra estava parada; presumimos mais coisas. Digam uma por exemplo.”
O ar atónito de todos não surpreende, pois se há coisa de que não temos consciência é das inúmeras presunções que fazemos; mas espero que alguém diga alguma coisa, me dê uma ponta para eu puxar o fio.
“Que existe Deus?!?”
“Bem, isso é outra questão Luísa; refiro-me às propriedades do Universo.”
... parece que não vão lá, tenho de ser eu a puxar...
“Por exemplo, presumimos que o Universo é eterno, inalterável, que os fenómenos que ocorrem hoje ocorrerão sempre da mesma maneira, não é? Ou seja, presumimos que as características fundamentais do Universo são invariantes no Tempo.”
“Não é bem assim, Jorge. Não presumimos nada, medimos. Por exemplo, medimos a massa do protão e sabemos hoje que a possibilidade de esta poder variar no tempo é ridiculamente pequena.”
“Daí concluis, portanto, que a massa do protão é invariante no tempo, não é?”
“Claro! Não vou negar o resultado das observações. Essa é a grande força do método científico, nunca contrariar as observações!”
“Pois, foi mais ou menos isso que disseram ao Galileu quando ele defendeu uma ideia tão contrária às evidências. Não te ocorreu que, da mesma maneira que não podemos medir o estado de movimento do nosso sistema, talvez também não possamos medir a variação ao longo do tempo da massa das partículas atómicas?”
“Não podemos medir a velocidade da Terra, mas ela move-se; não podemos medir a variação da massa mas ela varia. É isso?”
O tom seguro da Ana faz-me um arrepio na espinha. Há qualquer coisa que esses olhos misteriosos escondem.
“Não pode ser isso”, adianta-se seguro o Mário, “porque nós podemos observar a massa das partículas agora e no passado: basta analisarmos os fenómenos físicos nas estrelas distantes. A luz que delas nos chega demorou muito tempo a cá chegar e traz-nos, por isso, imagens do passado distante, imagens que nós podemos analisar!”
“Exactamente Mário! E que nos diz essa luz do passado?”
“Uma coisa especial... que as estrelas se estão a afastar de nós, tanto mais depressa quanto mais distantes elas se encontram de nós; mas não nos indicam nenhum fenómeno diferente, pelo contrário, mostram que a Física do passado distante era exactamente a mesma de hoje.”
“Mário, confundiste uma presunção com uma conclusão! Nós presumimos que a Física é a mesma e por isso concluímos que a diferença que encontramos, o desvio da frequência da luz para o vermelho, se deve a uma velocidade de afastamento ou a uma expansão do espaço! Mas, Mário, presumimos mal, porque é exactamente ao contrário: o espaço não expande, as propriedades fundamentais do Universo é que mudam no tempo.”
“Jorge, se estás a pensar que a massa varia no tempo desengana-te: isso já foi testado!”
“Mário, quem pensou isso foi a Ana, não fui eu!” Larguei uma gargalhada, o que fez estampar na cara da Ana uma expressão de profundo espanto. Gostei. “Não vos disse já que Deus é subtil? É preciso muito mais subtileza para entender o Universo! Variar a massa!! Mas que hipótese tão simplória!”
“Já me estás a fazer nervos! Desembucha de vez!”
“Calma Luísa, primeiro vamos ver um mistério do Universo: o mistério da invariância da velocidade da luz!”
“Estou a ver que neste Universo tudo parece invariante mas tudo varia!” Luísa esboçou o começo de uma gargalhada, mas eu nem lhe dou tempo, espetando o dedo na direcção dela afirmo:
“Exacto, Luísa, agora é que tu disseste uma coisa muito acertada! E vamos desmontar essas aparentes invariâncias uma por uma. Vamos começar pela LUZ.”
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