
Entretanto, tenho um assunto para vos falar que me parece importante. Algo que me surgiu em consequência das conversas com o Manuel Rocha, o Tarzan, o Diogo, a Pink e não só...
Vivemos numa sociedade aparentemente orientada para o Consumo. Só ouvimos falar do consumidor, dos direitos do consumidor. A ideia do “direito ao trabalho” soa a coisa arcaica, um esquerdismo ultrapassado. “Direito ao emprego”, é o que se defende, ou seja, a um ordenado, para se ter dinheiro para satisfazer o vício do consumismo.
Mas, no fundo de nós mesmos, sentimos algo que nos incomoda nesta ideia de sociedade do consumo. Há aqui algo que não bate certo.
Como referi ao Tarzan, li, há muitos anos, num livro de economia, suponho que americano, o exemplo da orquestra. Para o autor desse livro, a orquestra consubstanciava o essencial do problema da Economia.
Porque é que se constitui uma orquestra?
Nesta sociedade de consumo somos tentados a responder: para que possamos ouvir as belas peças musicais!
Só que não é assim. As orquestras não nascem por causa dos ouvintes. As orquestras nascem por causa dos músicos. Os músicos que querem tocar é que formam orquestras. Orquestras, coros, agrupamentos musicais, conjuntos de rock. Tudo nasce por haver quem queira fazer, não por haver quem queira consumir.
(às vezes tenta inverter-se, aproveitando a existência do consumidor que se criou para um determinado produto; por exemplo, “inventam-se” grupos musicais para servir o mercado da música ligeira, como as Tentações e outros. Mas nunca resulta, não é?)
Mas a produção não tem só a ver com realização pessoal ou satisfação de necessidades: o ímpeto de produzir é que move a sociedade humana. Os índios parintintins, que vivem na selva amazónica, são consumidores líquidos da esmagadora natureza. Produzir o quê em tal cenário? Mas se não vale a pena produzir, a sociedade estagna.
O mesmo pode acontecer numa sociedade ocidental. Por exemplo, em Portugal: se no estrangeiro se faz tudo, ficamos como os índios parintintins em face da selva amazónica.
É por isso que o exemplo da orquestra é importante, porque nos lembra que o problema central da Economia é satisfazer a necessidade das pessoas de fazerem coisas, porque é isso que gera a felicidade e o progresso. Evidentemente que esta é uma visão subtil da Economia; mas Deus é subtil, lembram-se?
Mas é claro que uma orquestra só faz sentido pleno se houver alguém para a ouvir. E é aqui que nasce a necessidade do consumidor. Nós, humanos, temos necessidade de nos exteriorizarmos, de fazer coisas, de intervir, de participar; mas isso só faz sentido se houver quem aprecie o que realizamos, se houver consumidores.
Como os blogues. Os blogues não surgem para satisfazer uma necessidade dos leitores, pois não? Mas se um blogue não tiver leitores, não produz realização para o seu autor.
Para que a necessidade de produzir, vital para o desenvolvimento da sociedade humana, se possa cumprir, é, portanto, indispensável criar o consumidor. A teoria económica direccionou-se para o “consumidor”. As técnicas de “marketing” assumem grande protagonismo.
Chegou-se a uma sociedade de viciados no consumo. Para saciar esse vício que alimentamos, desenvolvemos a produção em massa. Mas esta produção tem cada vez menos a ver com a necessidade das pessoas de “produzirem”, de terem um papel na sociedade.
E faz ainda outra coisa: esta produção transforma recursos em produtos que o consumo excessivo transforma em lixo. O processo produção->consumo reduz-se, em grande parte, a um processo de transformação recursos->lixo.
Criou-se assim um quadro de consumidores viciados, de consumismo desesperado em busca de uma felicidade inalcançável por essa via, e de uma produção que tende para o exagero, delapidando recursos finitos.
Quando compramos o produto estrangeiro estamos a fazer o mesmo que o índio parintintim, porque estamos a ser consumidores líquidos, não estamos a suportar a necessidade de produzir das pessoas que nos rodeiam, não estamos a contribuir para a evolução da nossa sociedade. As pessoas que nos rodeiam é que são os potenciais consumidores do que produzirmos, não é? São elas que formam a sociedade a que pertencemos, não é?
Deve haver blogues muito interessantes. Mas eu não deixo de ler os blogues dos meus amigos, ou das pessoas que, por alguma razão, estão ligadas a mim. Como prefiro ouvir os coros onde cantam as pessoas que me são próximas. Consumir deve ser um acto de partilha. Deve ser um acto útil à sociedade a que, queiramos ou não, pertencemos.
Desde que as orquestras nacionais passaram a ter metade dos músicos com nomes terminados em “ov” deixei de as ir ouvir. Uma orquestra estrangeira de qualidade excepcional faz sentido uma vez por outra, agora uma orquestra nacional “normal” que contrata sistematicamente músicos estrangeiros em vez dos nacionais é que não faz sentido nenhum. Prefiro ir ver O Bando, que é nacional e excepcional.
A sociedade do Futuro depende do nosso comportamento como consumidores. Se percebermos que nos realizamos com o que produzimos, não com o que consumimos, então consumiremos a produção daqueles que consomem a nossa e poderemos navegar no rio do progresso e sair da “selva”; se não percebermos, ficaremos como os índios parintintins, com a diferença de que seremos tornados escravos da máquina que alimenta o consumo. E nesse papel inútil embrulharemos a nossa existência.





