quinta-feira, março 20, 2008

Vida de Estrela


"Estás a ver esta imagem tirada pelo telescópio espacial Hubble duma estrela num processo de expulsão de matéria?"

Alita semicerrou os olhos, tentando perceber bem o que Tulito lhe mostrava. “Ah, sim, já estou a perceber, há umas linhas de luz que são artefactos do sistema óptico... e a imagem de baixo é uma ampliação da zona central...”

Exacto. Esta imagem já é antiga, do ano 2000 da Era deles. Mas continua a ser um enigma para eles, porque não pode ser explicada por nada que eles conheçam. E vão encontrando, aqui e além, estrelas em processos de expulsão de matéria que ele não podem explicar a não ser com recurso a fantasias como buracos negros na vizinhança ou campos magnéticos mágicos; às vezes nem isso.”

Será que já perceberam que os processos violentos nas estrelas não ocorrem só durante a sua formação e extinção?”

Não encontrei isso dito em lado nenhum, Alita. Penso que os cientistas humanos ainda não colocaram essa hipótese, o que não me admira, porque eles não sabem gerar hipóteses; mas não me admirava que os que trabalham para a Igreja o tivessem feito, porque esses têm as “duas pernas”, ou seja, sabem usar a intuição e a lógica.”

“E daí pensares que eles começam a perceber que os processos de expulsão de matéria ocorrem ao longo de toda a vida da estrela e estarem alarmados...”

Exactamente; e desconfiei que eles sabem isso por causa de um recente discurso do Papa.”

“Mas tu já lês os discursos do Papa?”
Alita deixou escapar um sorriso leve, com temperos de admiração e de troça, “não me digas que te começas a interessar também pela personalidade dos humanos?”

Interessar, interessa-me, mas tenho-te a ti para ma explicares!Um sorriso largo respondeu ao sorriso de Alita, dois sorrisos a medir forças, dois corações a palpitarem mais rápido. “Eu estou a investigar a organização científica deles que, basicamente, tem duas estruturas, a ciência que depende dos governos e a que depende do Vaticano. É por isso que sei a história da Academia Linceana e foi assim que tropecei nesse discurso, entre muitas outras coisas.”

E que disse o Papa de tão importante?” A curiosidade irrompeu dos olhos da Alita, que tomaram cor de nuvem banhada em Sol.
.

segunda-feira, março 17, 2008

Os Jardins Secretos do Vaticano

“Ahh, isto é interessante...” Alita endireitou-se, levantou os olhos, deixou pender a cabeça para trás, o que acabara de ler incendiara-lhe o pensamento.

Siimm? Então de que se trata?”
Tulito respondeu automaticamente, estava habituado aquele «pensar em voz alta» com que Alita brindava os pensamentos que a intrigavam.

“ A Pontifícia Academia de Ciências propôs ao Papa a colocação nos Jardins do Vaticano de uma estátua do Galileu.”

Interessante isso!? A mim parece-me estranho... se a Academia quer uma estátua do Galileu, que a ponha nas suas instalações... ou então é o Papa que quer e usou a Academia...”

“Tu sabes o que é a Pontifícia Academia da Ciência, não sabes?”
a voz de Alita era suave como um sonho.

Olha, sei que é algo muito estranho. Uma Academia Científica tutelada pelo Vaticano? Mais uma originalidade dos humanos...

“E já viste a composição?”
o olhar da Alita tornou-se agora vivo; levantou-se e aproximou-se do Tulito.

Já. Uns 80 ilustríssimos cientistas. Mais de quarenta prémios Nobel já fizeram parte dela, muitos deles nomeados antes de terem sido laureados. Talvez a maior concentração de ilustres cérebros da ciência que os humanos têm. E para quê?”

“Vejo que já andaste a investigar essa Academia. Sabes que remonta à famosa Academia do Lince, de que Galileu foi membro?”

Considerada a primeira academia científica dos humanos.
Tulito sentiu-se satisfeito consigo próprio por este pequeno pedaço de conhecimento que acalmou os grandes olhos expectantes da Alita.

“Sabes muito... eheh... mas não saberás porque foi tão importante para a Igreja que o Galileu investigasse em segredo, que não defendesse publicamente as teorias copernicanas, que a Igreja já sabia que estavam certas desde o Papa anterior?”

Tulito sentiu-se subitamente estúpido. Claro! A preocupação da Igreja com Galileu nunca foi por causa das ideias dele, o que ela não queria era que ele as divulgasse! O livro do Copérnico foi posto no Índex só para evitar a sua divulgação, porque continuou a ser avidamente estudado no seio da Igreja. O que a Igreja queria era Segredo, sempre quis, continua a querer: há muitos anos que a Igreja investiga em segredo, pois investe aí recursos demasiadamente importantes para a aparente pobreza de resultados! Veio-lhe à lembrança um momento embaraçoso do seu tempo de estudante. Balbuciou, sentindo-se como aluno apanhado em falta:

Pois, realmente não pensei nisso...”
desviou para baixo o olhar, perdendo contacto com os fascinantes olhos em arco-íris da Alita, mas a eles logo regressou, expulsando a sensação que do passado o inibia.

“Passa-te pela cabeça que a Ciência deles ainda não conseguiu juntar a geração de hipóteses à lógica?”

Estás a brincar comigo?”

“Sério! Os humanos raramente têm as duas capacidades: ou são bons na geração de hipóteses, bons intuitivos dizem eles, ou são bons na lógica, bons matemáticos dizem eles. Mas, para os estudos de Física, não fazem equipas simbióticas, não sabem sequer o que é. Para eles, o mérito é um conceito individual!”

Nãooo!”

“Verdade! Não te admires muito, porque nós, há três gerações atrás, também éramos assim, não sabias?”
As cores dos olhos da Alita fundiram-se num tom doce e suave, reflectindo alguma recordação do seu passado, ou talvez a nostalgia do seu longínquo planeta.

Sim, eu sei, mas isso parece-me agora tão primitivo...

“Pois, lá primitivo é.”

E o que tem isso a ver com o que estávamos a falar, Alita?”

“O que era o Galileu? Um Intuitivo ou um Matemático?”

Seria um Intuitivo, evidentemente; como o Copérnico, o Newton, o Poincaré, o Einstein....”

“Claro Tulito. Agora repara, a generalidade dos intuitivos que ficaram famosos agiram à margem da Ciência, porque a Ciência é dominada pelos Lógicos, ou Matemáticos.”

Sim, és capaz de ter razão. Lembro-me de ler lido que o Copérnico afirmou temer os «matemáticos» e pediu a protecção do Papa.”

“Tanto quanto percebi, o pensamento Aristotélico foi adoptado como guia entre os europeus, determinando a primazia da lógica sobre a geração de hipóteses. Foi o primeiro passo natural e necessário no caminho do conhecimento, mas nunca deram o segundo, o domínio da geração de hipóteses.”

Ou seja, a Ciência deles é como um homem com uma só perna, a perna da Lógica, por isso anda devagarinho e não ultrapassa grandes obstáculos...”

“Ena, como tu estás imaginativo Tulito! Influências dos Humanos?”

Eh eh ... se calhar..”

“Mas é isso mesmo, é uma boa imagem.”
Os olhos da Alita encheram-se de todas aquelas cores que tão fascinante a tornavam para o Tulito.

Mas é tão óbvio que é necessário dominar a geração das hipóteses...”

“Para a maioria deles, pelos vistos, não é óbvio. O Poincaré escreveu que «a lógica, a única que pode dar a certeza, é o instrumento da demonstração; a intuição é o instrumento da invenção». A Igreja sabe que sem os intuitivos não se fazem descobertas. E, como sabemos, a Igreja tem um projecto de investigação muito especial desde há muitos séculos...”

Obviamente.

“Por isso, Tulito, a Igreja procurou ter uma estrutura própria, pequena que fosse mas com as duas pernas. Essa estrutura é encabeçada pela Pontifícia Academia. Bom, isto é o que eu sei; agora temos de pensar sobre essa notícia...”

“... a notícia de que as grandes cabeças que formam essa academia se reuniram, pensaram sobre magnos problemas, pensaram, e a importante conclusão a que chegaram foi: vamos pedir ao Papa para pôr uma estátua de Galileu nos Jardins do Vaticano!”

“Estás a ironizar mas és capaz de ter razão...”

Razão? Como? Mas não me admira eheh... nós somos uma boa equipa simbiótica!”

“Eu penso que esse pedido será uma metáfora. Os verdadeiros jardins do Vaticano são os jardins do conhecimento que laboriosa e secretamente o Vaticano vem construindo. Galileu foi aquele que não aceitou a imposição do segredo sobre as suas investigações. Que divulgou algum conhecimento que o Papa pretendia que ficasse na Igreja. Associar Galileu aos Jardins do Vaticano será uma forma de pedir ou anunciar a divulgação do conhecimento secreto do Vaticano. Devem ter descoberto algo que os assustou muito.”

Hummm... talvez eu saiba do que se trata...


.

quarta-feira, março 12, 2008

O Chamamento



Despediu-se rapidamente do Mário e da Luísa, o vento frio cortava-lhe a nuca como navalhas, má ideia cortar o cabelo. De qualquer maneira, era tardíssimo, não era hora para despedidas demoradas, até porque mais logo ali se encontrariam de novo. Estugou o passo, cerrando os olhos na direcção onde pensava ter deixado o carro. Lá estava, com o seu azul clarinho, azul do céu diurno, dir-se-ia um pedaço de dia que a luz dos candeeiros afagava na noite fria. Entrou rápido, ligou de imediato o motor, deixando-o aquecer uns segundos enquanto punha o cinto. Ajeitou-se na cadeira. Meteu a primeira, pisca, espelho, “... Galileu... jardins do Vaticano..”, que era aquilo?, fez um esforço de memória para recuperar a noticia que tinha acabado de ouvir no auto rádio “...qualquer coisa sobre o Papa ir pôr uma estátua do Galileu nos Jardins do Vaticano, era isso, sem dúvida!”

Desengatou a primeira, desligou o pisca. A cabeça pendeu-lhe sobre o volante. “Era o Sinal. Sabia-o. O Papa fazia o chamamento. Que fazer?”

Tinha-o desejado tanto quanto o tinha temido. Fosse o João Paulo I a dar o sinal e teria ido a correr. Mas agora hesitava. Sentia o projecto de poder por detrás deste Papa. Tinha de pensar... “ Se calhar o Papa tem razão, a humanidade tem de ser gerida com mão firme... o Pastor é que sabe para onde leva o seu rebanho, as ovelhas nada entendem dos desígnios que determinam as suas vidas. Só pode haver uma Vontade.”

...
...

“... ou não?”

.

terça-feira, março 11, 2008

Todo o Universo é composto de mudança

. "Todo o Mundo é composto de mudança..."

“O que é que eu fiz...” repito em voz alta a pergunta da Ana mas pergunto a mim mesmo o que vou eu fazer... ao mesmo tempo sinto o destino tão traçado e inescapável como Jesus o terá sentido quando rumou a Jerusalém...

Sim, qual é a tua descoberta?!
insiste a Ana, estranhamente inquisitiva para alguém que eu me habituara a pensar tão suave. Afasto as dúvidas e respondo:

“A generalidade das pessoas, antes de Copérnico, considerou naturalmente que a Terra estava no centro do Universo, pois é isso que corresponde às informações dos sentidos; outra hipótese nem sequer se punha. Mas move-se, como sabemos, não é?”

Claro”,
a Ana com os grandes olhos abertos a olhar desconfiada para mim.

“Bem, mas não presumimos apenas que a Terra estava parada; presumimos mais coisas. Digam uma por exemplo.”

O ar atónito de todos não surpreende, pois se há coisa de que não temos consciência é das inúmeras presunções que fazemos; mas espero que alguém diga alguma coisa, me dê uma ponta para eu puxar o fio.

Que existe Deus?!?

“Bem, isso é outra questão Luísa; refiro-me às propriedades do Universo.”

... parece que não vão lá, tenho de ser eu a puxar...

“Por exemplo, presumimos que o Universo é eterno, inalterável, que os fenómenos que ocorrem hoje ocorrerão sempre da mesma maneira, não é? Ou seja, presumimos que as características fundamentais do Universo são invariantes no Tempo.”

Não é bem assim, Jorge. Não presumimos nada, medimos. Por exemplo, medimos a massa do protão e sabemos hoje que a possibilidade de esta poder variar no tempo é ridiculamente pequena.

“Daí concluis, portanto, que a massa do protão é invariante no tempo, não é?”

Claro! Não vou negar o resultado das observações. Essa é a grande força do método científico, nunca contrariar as observações!”

“Pois, foi mais ou menos isso que disseram ao Galileu quando ele defendeu uma ideia tão contrária às evidências. Não te ocorreu que, da mesma maneira que não podemos medir o estado de movimento do nosso sistema, talvez também não possamos medir a variação ao longo do tempo da massa das partículas atómicas?”

Não podemos medir a velocidade da Terra, mas ela move-se; não podemos medir a variação da massa mas ela varia. É isso?”

O tom seguro da Ana faz-me um arrepio na espinha. Há qualquer coisa que esses olhos misteriosos escondem.

Não pode ser isso”,
adianta-se seguro o Mário, “porque nós podemos observar a massa das partículas agora e no passado: basta analisarmos os fenómenos físicos nas estrelas distantes. A luz que delas nos chega demorou muito tempo a cá chegar e traz-nos, por isso, imagens do passado distante, imagens que nós podemos analisar!

“Exactamente Mário! E que nos diz essa luz do passado?”

Uma coisa especial... que as estrelas se estão a afastar de nós, tanto mais depressa quanto mais distantes elas se encontram de nós; mas não nos indicam nenhum fenómeno diferente, pelo contrário, mostram que a Física do passado distante era exactamente a mesma de hoje.

“Mário, confundiste uma presunção com uma conclusão! Nós presumimos que a Física é a mesma e por isso concluímos que a diferença que encontramos, o desvio da frequência da luz para o vermelho, se deve a uma velocidade de afastamento ou a uma expansão do espaço! Mas, Mário, presumimos mal, porque é exactamente ao contrário: o espaço não expande, as propriedades fundamentais do Universo é que mudam no tempo.”

Jorge, se estás a pensar que a massa varia no tempo desengana-te: isso já foi testado!”

“Mário, quem pensou isso foi a Ana, não fui eu!”
Larguei uma gargalhada, o que fez estampar na cara da Ana uma expressão de profundo espanto. Gostei. “Não vos disse já que Deus é subtil? É preciso muito mais subtileza para entender o Universo! Variar a massa!! Mas que hipótese tão simplória!”

Já me estás a fazer nervos! Desembucha de vez!

“Calma Luísa, primeiro vamos ver um mistério do Universo: o mistério da invariância da velocidade da luz!”

Estou a ver que neste Universo tudo parece invariante mas tudo varia!
Luísa esboçou o começo de uma gargalhada, mas eu nem lhe dou tempo, espetando o dedo na direcção dela afirmo:


“Exacto, Luísa, agora é que tu disseste uma coisa muito acertada! E vamos desmontar essas aparentes invariâncias uma por uma. Vamos começar pela LUZ.”

.

sexta-feira, março 07, 2008

O princípio do Princípio da Relatividade



Do Einstein queres tu dizer, o Princípio da Relatividade é do Einstein, isso eu ainda sei ah ah!” A satisfação de Luísa é tanta que até me custa desiludi-la:

“O Einstein tornou-o famoso, alargou o seu âmbito de aplicação, mas a ideia nasce com Galileu.”

Bem, lá estás tu a trocares-nos as voltas! Ah ah ... “,
a Luísa está imparável, “sempre quero ver o que vai sair daí.”

“Repara: o Galileu sustentava que a Terra se movia, não é verdade? O que é que os seus opositores diriam?”

Ora, que é evidente, incontornavelmente evidente, que a Terra não se move, penso eu...”,
a Luísa agora séria, puxa pela memória, “ acho que até já li um poema... era qualquer coisa a gozar com a ideia de que a Terra podia estar a mover-se mais depressa que uma bala...

“Claro, qualquer pessoa de bom senso «percebe» que a Terra não se move! Se ninguém nos tivesse ensinado em pequeninos que a Terra se move, não acreditaríamos em tal disparate! Não se está mesmo a ver que este chão que pisamos está solidamente parado, não há a mais pequena vibração, nenhum objecto estremece ou escorrega, não há nada, nada, que possa suportar a mínima suspeita de que a Terra se move? O Galileu teria de ser um doido para pensar outra coisa, não é?”

Acho que concordo contigo!”,
a Luísa solta nova gargalhada, a alegria é perfume do ar que ela respira.

“E como podia o esperto Galileu contestar estes argumentos?”

Sei lá! Isso pode contestar-se? Não é evidente que não se move?”
Mais uma risada, parece-me que agora para chamar a atenção do Mário, algo distante, que reage com um sorriso um pouco forçado.

“Bem, o Galileu foi analisar o que acontece num sistema em movimento. Num barco, por exemplo. Será que uma pessoa fechada na cabina de um barco é capaz de determinar se o barco se move ou está ancorado? Que experiência é que tu farias, Luísa, para o descobrires?”

Euuu?”,
consegui surpreender a Luísa, dá-me uma certa sensação de controlo, “espera aí, deixa-me pensar... hummm, já sei! Teria de fumar um cigarro e observar o movimento do fumo... se o fumo subir na vertical o barco está parado... assim fumar passava a ser uma experiência científica e já podia fumar num espaço fechado! Risada desbragada. Pufff, lá se foi a minha ilusão de controlo...

“O Galileu tem um texto onde refere isso”,
respondo como se a resposta dela fosse para levar a sério, “e também refere outras experiências, como levar moscas ou borboletas e observar o seu voo, e conclui que não é possível saber se o barco se move a uma velocidade constante ou se está ancorado; qualquer que seja a velocidade uniforme de deslocamento, tudo se passa como se o sistema estivesse em repouso absoluto.”

Recordo-me que na primeira vez que andei de avião fiquei surpreendida por a sensação ser a mesma de andar de comboio, embora a velocidade fosse umas dez vezes maior.
Um prazer ouvir a voz suave da Ana; não entendo porque mexe tanto comigo esta misteriosa Ana... talvez seja por isso mesmo, há algo de secreto nela...

Não foi só o Galileu, outros fizeram experiências de queda de corpos do alto dos mastros de um barco em movimento para verificar se a trajectória difere consoante o barco se move ou não.”

“Certo Mário, mas ninguém se atreveu, como ele, a usar isso para afirmar que a Terra se movia.”

E o que é que isso tem a ver com o Princípio da Relatividade?”

Tudo!”, o
Mário ri-se do espanto da Luísa, “a invariância das leis físicas num sistema em movimento inercial é o enunciado do PR.”

A invariância de quêêê?

“Eu dou-te um enunciado melhor Luísa. O Princípio da Relatividade consiste na seguinte propriedade: em qualquer sistema isolado tudo se passa como se esse sistema estivesse em repouso absoluto no centro do Universo.”

Eh lá, isso não me parece uma boa definição! Repouso absoluto? O que é isso? Centro do Universo? Isso existe?”

“Pois é Mário, esta estranha definição é que é a definição certa, como te mostrarei; por agora tem paciência, a seu tempo compreenderás.”
Colocar o Mário numa situação em que eu sou o mestre e ele o aluno é certamente algo de inaceitável para o Mário; dou uma risada ligeira como que troçando eu próprio da situação e continuo:

“Não sei se já te deste a esse trabalho, Mário, mas basta o PR para estabelecer toda a Dinâmica dos corpos.”

Como é isso?”

“A partir do PR, deduz-se imediatamente a Lei da Inércia, a lei do choque elástico, e por aí fora, todas as leis da Dinâmica da Mecânica.”

Nunca tinha pensado nisso... queres dizer, em vez de deduzir a Mecânica a partir dos princípios de Newton, deduzir do Princípio da Relatividade? Interessante ideia... não é de estranhar, se as leis físicas satisfazem o PR também poderão ser deduzidas dele...
Ficamos em silêncio a observar a expressão subitamente ausente do Mário, fechado com os seus pensamentos. Conhecemos esses momentos autistas, que fascinam, pois temos a sensação que quase conseguimos «ver» os seus pensamentos. Receamos perturbar, aguardamos, mas a Luísa já se agita, a Luísa é um míni-tufão em tarde de Verão:

Mas então, se o PR é do Galileu, o que é que fez o Einstein?”

“Einstein generalizou o PR às situações que envolvem campos de forças, ou seja, o campo gravítico e o electromagnético. No tempo de Galileu o conceito de campo de força ainda não tinha sido estabelecido, o seu PR preocupava-se apenas com o movimento uniforme, ignorava os campos.”

É mais relevante do que parece assim dito”,
o Mário «saltou» lá de dentro dele num piscar de olhos, “porque enquanto a Relatividade de Galileu não contraria muito a nossa percepção da realidade, a de Einstein chega a resultados surpreendentes, como a interdependência entre espaço e tempo.

E tu, o que é que fizeste?”,
a voz suave da Ana foi como onda de mar que invade subitamente a praia quando a maré começa a encher. Não sei porque me sinto tão intimidado pelo olhar dela, que parece ter contagiado os outros, pois afinal é para falarmos do que eu descobri que nos reunimos. Hesito, espreita-me a sensação de que não sou já eu o promotor desta conversa, que estou a ser induzido a falar do que deveria permanecer secreto.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A Invariância da Medida de G

Porque é que os planetas se afastam do Sol? Eheh.... Meu caro Jorge, se há coisa que sabemos é que isso não acontece! Pelo menos à taxa que tu dizes, igual à do afastamento da Lua.”

Quanto é que se afasta a Lua?”

Luísa, a Lua afasta-se 3,8 cm por ano.

Mas como se sabe, é calculado?”

Não não, é medido, graças a um reflector que foi colocado na Lua pela Apolo 11. Mede-se o tempo que a luz de um potente laser leva a ir a esse reflector e voltar.”

Ahh, pode-se medir! Então também há medidas das distâncias entre planetas!”

Não, não há. Seria preciso ter lá um reflector e os planetas rodam em relação à Terra, o que torna tudo mais complicado. Talvez um dia se possa fazer isso em Marte, mas para já não.”

Humm, então não existem medidas directas suficientemente precisas que permitam concluir se os planetas se afastam do Sol ou não?”

Não há; mas nem é preciso!”

Não?! Então?”

A distância dos planetas ao Sol depende da Massa do Sol, da Velocidade do planeta e da Constante de Gravitação, não é Jorge?”

Eu estava tão sossegadinho a assistir à conversa entre o Mário e a Luísa... mas evidentemente, é a mim que o Mário quer convencer, não é à Luísa.

Pelo menos é o que diz a Lei da Gravitação de Newton.”

Muito bem; portanto, basta-nos saber o que se passa com esses três parâmetros para podermos deduzir o que se passa com as órbitas planetárias, não é Jorge?”

Sim, se admitirmos que as propriedades do espaço não se alteram.”

Mário hesita... “Então a tua ideia é a de que as propriedades do espaço se alteram?”

Não, nada disso, estava só a completar o teu raciocínio.”

O alívio invade de imediato a expressão do Mário. Inspira e continua:

Então, no que se refere à massa do Sol, sabemos que diminui, o Sol ejecta continuamente matéria e energia, mas sabemos calcular quanto e sabemos que nem de perto poderia produzir tal alargamento orbital.

De acordo.”

Também sabemos que a velocidade do planeta está sujeita a interacções com poeiras interplanetárias e à pressão da radiação solar; porém, também isso não poderia ter o efeito de afastamento que dizes acontecer Jorge.

Inteiramente de acordo.” Um sorriso de triunfo surge fugidio ao canto da boca do Mário:

Bem, resta a Constante Gravitacional, G. Portanto, tu estás convencido que G varia ao longo do tempo, produzindo o alargamento das órbitas planetárias!”

Que ideia Mário, é exactamente ao contrário, os planetas afastam-se do Sol e a prova é que a medida da Constante Gravitacional é mesmo constante!”

Um ar de genuína surpresa, quase atordoamento, molda a expressão do Mário. “Que raio estás tu a dizer?? Se a medida de G é invariante, as órbitas também o serão!”

Meu caro Mário, esqueces-te que, como o Einstein disse, Deus é subtil!”

Pá, já sabes que eu não alinho em desconversas dessas!

Parece uma desconversa mas não é! Einstein falou da subtileza que é necessária para entender o Universo. Se puseres em equação a afirmação A MEDIDA DA CONSTANTE GRAVITACIONAL É INVARIANTE perceberás que os planetas se afastam do Sol.”

Mas como, santo Deus?!?

Einstein fez a Teoria da Relatividade baseado na invariância da medida da velocidade média da luz, não foi? Estás a ver que medidas invariantes podem ter significados profundos?”

Estou completamente baralhado! Pôr em equação a invariância da medida da Constante de Gravitação? Nem entendo o que queres dizer com isso!!!!”

Penso que o Einstein entenderia; tal como o Newton, ou o Galileu. Ou o Poincaré. Mas ninguém aprendeu nada com o Einstein, pois não? Afinal, ele nem era bem um cientista... acharam que ele não sabia bem o que dizia... ninguém entende realmente o artigo dele da relatividade restrita, não é? Por isso não entendes o significado da invariância da medida da Constante Gravitacional, nem sabes o que esconde o Teorema de Pitágoras, ambos fora do alcance da cabeça dum cientista actual.”

O ar sombrio do Mário faz-me pensar que terei abusado. “Estás-te a esquecer que eles eram cientistas, afirma quase irritado.

Não, não eram cientistas, estiveram toda a vida em conflito com os cientistas, não seguiram a metodologia científica, não fizeram carreira na ciência; eram outra coisa.”

Outra coisa?” a Luísa quase que saltou da cadeira, as lâmpadas que lhe iluminam o olhar acenderam na força máxima. Espreito a Ana. Os seus olhos semicerrados aguardam a continuação. Mas o Mário não está disposto a perder o controlo:

Estás a divertir-te? Eu mostrei que as órbitas planetárias têm de ser invariantes ou quase; e tu contestas com conversas esotéricas; já sabes que eu não tenho paciência para isso!”.

Não são conversas esotéricas. Como disse o Einstein, Deus é subtil, e muitos cientistas pensaram que podiam entender o Universo sem o serem. Não podem. Não é uma questão de inteligência, é uma questão de metodologia mental.”

Continuas a dizer disparates!”

Só tenho uma maneira de te mostrar que sei o que digo não é?”

Exactamente: pega na caneta e no papel e prova-me matematicamente o que afirmas, sem mais afirmações gratuitas.”

Vou fazer melhor do que isso. Disse o Máximo Gorky: tudo o que é verdadeiramente sábio é simples e claro. Se assim é, então, em vez de encher algumas folhas de papel com equações matemáticas que só alguns poderão entender, vou explicar os segredos profundos do Universo não apenas ti mas à Luísa e à Ana.”

Ahh, para isso tens de ser muuuuuiiito simples e claro, sem dúvida.” Luísa ri-se ante o olhar suspenso da Ana e surpreendido do Mário.

É esse o teste Luísa: se vocês entenderem é porque o que eu digo é verdadeiramente sábio.” Rio-me. “Eu preciso de descobrir até que ponto é sábio o meu conhecimento.”

Olham-me intrigados. Mário cometa cauteloso: “estou ansioso por ver isso.

Vamos então começar pela grande descoberta de Galileu: o Princípio da Relatividade.”
.
.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

As Árvores Obesas

“Incrível, isto é incrível!”
Alita dá um salto com o susto mas acalma-se de imediato. Com voz suave pergunta:

“Que foi que descobriste agora, Tulito?”

É o máximo. Não acredito!”

“Diz lá, imagino que seja qualquer coisa sobre os «meus humanos»...”, a Alita esboçando um sorriso.

Árvores Obesas!!! É lá possível!!!”

“Tulito, desembucha de uma vez!”

Então não é que os teus Humanos, face à insustentabilidade daquele disparate do aquecimento global, inventaram agora uma outra maneira de diabolizar o CO2!”

“Sim!?”, a Alita agora curiosa, “qual?”

Eles estão fartos de saber que a Terra tem falta de CO2, as estufas dos países mais evoluídos têm atmosfera enriquecida em CO2, sabem que dobrando ou triplicando a concentração do CO2 as plantas crescem mais rápido, mais fortes, mais saudáveis e mais resistentes às pragas...”

“E..”, Alita interrompe, impaciente.

“...e agora vêm dizer que o aumento do CO2 na atmosfera tornará as árvores obesas!!”

“Árvores obesas?! Mas isso é o máximo, a imaginação deles é fantástica!”Alita dobra-se de riso.

Estás a rir-te?”, Tulito surpreendido, “devias ficar em pânico, eles são loucos varridos!”

“Tulito, sabes muito de Física mas não percebes nada dos Humanos.”

Pois, mas vais explicar-me, é para isso que cá estás.”

“Há milénios que os líderes deles recorrem à técnica da Mentira Conveniente. É assim: os líderes querem que a sua população assuma um determinado comportamento; então inventam uma ideia simples, que faça sentido no quadro das poucas coisas que o humano povo sabe, que mexa com os seus instintos básicos, e que o conduza à acção pretendida.”

"Não estou a entender o que é que isso tem a ver com árvores obesas.”

“Um exemplo: para a recente invasão do Iraque criaram a Mentira Conveniente das armas de destruição maciça; outro exemplo: há umas décadas, os líderes alemães, convencidos, pela teoria do espaço vital, que para garantir a sobrevivência do seu povo teriam de exterminar os outros povos, criaram a Mentira Conveniente da superioridade rácica do povo alemão.”

Pois, essa eu analisei para tentar entender a ciência deles; é que foram os próprios cientistas que inventaram as provas científicas e arqueológicas dessa pretensa superioridade, o que é incrível!”

“Nada incrível, a Ciência deles depende totalmente do poder político, não é um poder autónomo como acontece connosco. As Mentiras Convenientes, para serem credíveis, têm sempre origem ou na Ciência ou na Religião. Por exemplo, a grande expansão da religião cristã deve-se, em grande parte, à ideia de que os infiéis irritam o Deus dos cristãos. Esta simples Mentira Conveniente está na base de um imenso esforço missionário, movido pela necessidade de converter ou aniquilar os que não seguem o deus cristão, antes que este tenha um acesso de cólera e castigue todos por igual.”

Como é possível uma ideia tão estúpida ter uma força dessas?!”

“Ahh, parece que esse é um requisito para a Mentira Conveniente ser eficiente ahaha... quanto mais estúpida mais indiscutível!”

Pois, não se pode discutir o que não é lógico...”

“Exactamente, as Mentiras Convenientes baseiam-se sobretudo no poder do Medo. Outro exemplo, quando decidiram acabar com o tabaco inventaram que o tabaco provoca o cancro. Dizer que não faz bem à saúde, que causa diversos problemas pulmonares, que pode ser depressivo e outros malefícios verdadeiros não resultava, de modo que invocaram o medo máximo, o cancro! E, assim, resultou!”

E ninguém quis provas disso?”

“Esqueces-te que a Ciência deles não é autónoma... o líder decide e as provas científicas aparecem logo... ”

Ahhh... livra!”

“A teoria do Aquecimento Global é uma Mentira Conveniente, inventada para promover o desenvolvimento de energias alternativas ao petróleo. Uma necessidade óbvia mas se calhar impossível de conseguir sem o recurso à Mentira Conveniente. Impossível porque os Humanos não são comandados pela Razão.”

Pois, isso já percebi, daí atacarem o CO2, pois a queima do petróleo produz CO2 e água, e a água não serve para culpar...”

“Claro; e não hesitaram em usar modelos climáticos SEM NUVENS, para que o aumento do CO2 pudesse produzir os resultados pretendidos.”

Pois, isso é incrível, como é possível usar modelos climáticos sem nuvens, que são o regulador fundamental do clima?!”

“Estás a ver? E foi com a chancela da Ciência que isso se fez.”

Eu vi declarações de cientistas a dizerem que o aquecimento global causava ondas de calor e fenómenos extremos, quando é exactamente o contrário!”

“Claro, qualquer humano aluno de ciências têm obrigação de perceber que um aquecimento global se traduz em mais humidade, temperaturas máximas mais baixas e temperaturas mínimas mais altas. Ou seja, um clima melhor.”

Para não falar na burrice incrível de dizer que o degelo árctico faria subir o nível das águas. Mas como é possível os humanos aceitarem tais disparates?”

“Andei a investigar isso. Uma das razões é que o cérebro deles é hipnotizável, ou seja, é possível aceder directamente ao inconsciente profundo. Uma das maneiras de o conseguir é pela repetição da mesma ideia. Eles mesmo dizem que uma mentira muitas vezes repetida torna-se verdade.”

Essa é boa!!!”

“E agora, como a temperatura média da Terra está a descer há meia dúzia de anos, e assim vai continuar, a mentira do aquecimento global corre o risco de se tornar insustentável; então, eles têm de inventar outra coisa para continuarem a culpar o CO2. Estás a perceber?”

Estou. Devem andar a testar a próxima mentira. Essa coisa das árvores obesas deve ser um ensaio.”

“Exacto, tem todas as características necessárias, é uma mentira, é estúpida e aproveita o movimento anti-obesos que andam a implantar.”

Assim já faz mais sentido... hummmm.... e que achas tu dessa técnica de comandar os humanos? Poderá ser usada para enfrentar o Evento?”

“Não gosto. As soluções dos líderes deles são sempre as que envolvem o uso do poder máximo. Vê lá o caso da teoria do espaço vital: os líderes alemães, japoneses e não só acharam que a solução seria o genocídio da restante humanidade. Não pensaram noutra solução.”

Mas parece funcionar bem para combater o tabaco, promover as energias alternativas, etc...”

“Pois, não sei, não sei o suficiente dos humanos para ter uma certeza do que será melhor no caso... mas isso seria completamente inaceitável entre nós.”

Eles estão num nível mais primitivo ... entre o animal e nós, já têm Razão mas esta ainda não comanda...

“... não sei... não gosto... e pode ter efeitos colaterais.”

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

As Fases da Vida


. Bioesfera 2, um grande falhanço mas uma primeira tentativa



“Repara Ana, podemos facilmente perceber as fases porque tem passado todo o processo da Vida. Na Fase I, temos as condições extremas de pressão e temperatura, necessárias à formação dos componentes da Vida”

Uma espécie de siderurgia dos componentes da Vida?”

“Boa imagem Luísa; as condições necessárias para fabricar os componentes das células não poderiam ser as condições em que as células iriam existir, não é verdade?”

Assim como as condições necessárias ao fabrico das peças de um automóvel não podem ser as condições em que o automóvel funciona...”,
a Ana a pensar em voz alta.

“Isso mesmo. Mas as condições terrestres não mudam bruscamente entre umas e outras condições, há uma lenta fase de transição.”

A Fase II?”,
um brilho esperto nos olhos vivos da Luísa.

“Exactamente. Mas a Natureza não esteve parada durante essa fase de transição, foi construindo as máquinas possíveis nas condições existentes. Assim que a temperatura descia o suficiente para permitir moléculas mais complexas, logo surgiam formas de vida que tiravam partido disso. Se a temperatura na Terra tivesse descido mais rapidamente, a evolução da vida teria sido possivelmente mais rápida.”

Ehhh lá, espera aí, o que estás tu a dizer?”,
o Mário parece que acordou agora para a conversa, “a evolução da Vida foi sendo a que a diminuição de temperatura foi permitindo, ouvi bem?”

“É uma possibilidade”,
respondo com ar mais natural deste mundo.

Hummm... se fosse assim, com a descida de temperatura a uma taxa quase constante, a evolução seria um processo contínuo... mas não é isso que se verifica, a evolução parece ter sido aos saltos, momentos de rápida evolução alternam com períodos de estagnação... como os degraus de uma escada...”

“Dizes muito bem Mário, como os degraus de uma escada!”,
exulto, “ que é exactamente o que devemos esperar; repara, sempre que a temperatura desceu o suficiente para permitir o grau seguinte de complexidade proteica, surge uma multiplicidade de novas formas de vida tirando proveito das novas estruturas; depois há que aguardar que a temperatura desça novamente o suficiente para permitir novo nível de complexidade proteica.”

Estou a perceber, a velocidade natural da evolução será a que ela apresenta nos períodos de evolução rápida; nos intervalos, a evolução está parada porque a temperatura a impede...”

“Mais ou menos Ana, pelo menos é o que penso.”

Bem, o Stephen Jay Gould tem outra explicação... Então e as quedas bruscas de temperatura associadas às grandes extinções? Se fosse como dizes teriam originado saltos evolutivos!”

“Essas quedas foram temporárias, da ordem do milhar de anos, enquanto a escala de tempo dos fenómenos evolutivos é da ordem do milhão de anos; e proteínas mais sofisticadas que tivessem aparecido nessa altura teriam desaparecido quando a temperatura recuperou o seu valor normal.” O Mário acalmou tão rapidamente como se tinha manifestado; mas percebo que o assunto não estava encerrado para ele, matutava.

E porque é que ocorrem essas quedas bruscas de temperatura?

“Bem, Ana, isso será outra conversa. Há uns Eventos que causam isso. Mas agora não posso falar disso, vamos deixar para outra altura, está bem?”
Os meus olhos fazem um pedido silencioso para não insistir na questão; percebo que acede. Ainda com os olhos nos meus olhos ensaia outra pergunta:

E essa Fase II durou até quando?”

Os meus olhos agradecem-lhe. “O que determina o fim da Fase II é a altura em que a temperatura das células deixa de ser função do clima, a altura em que surgem os animais de sangue quente.”

Estou a perceber, a natureza não dispõe de processos eficientes de arrefecimento das células abaixo da temperatura ambiente, apenas de aquecimento, por isso teve de esperar que a temperatura estivesse suficientemente baixa para poder estabilizar a temperatura da célula no valor mais conveniente... ehehe, engraçada a tua teoria!”

“Ainda bem que gostas Mário.”,
respondo prontamente com um sorriso.” E isso aconteceu aí há uns 250 milhões de anos atrás, altura em que entramos na Fase III.”

Que é a actual?”

“Não exactamente Luísa.”

Lá começas tu a contrariar”,
a Luísa com humor, despertando sorrisos em todos.

“Na fase III a Natureza assume o controlo da temperatura das células, quer por processos biológicos, que são os mecanismos internos de regulação de temperatura, quer por processos comportamentais. Por exemplo, as Aves têm sangue quente e penas, que são adaptações biológicas, e chocam os ovos, um comportamento com que a Natureza as programou para garantir a temperatura necessária aos ovos.”

Mas os comportamentos instintivos não têm só a ver com o controlo da temperatura.”

“Claro que não Mário. A Natureza apenas acrescentou novos comportamentos destinados a ultrapassar as dificuldades decorrentes da baixa temperatura da Terra. E isto em todas as espécies; por exemplo, as tartarugas põem os ovos numas determinadas praias cujas areias asseguram a temperatura necessária. Até as formigas têm soluções para manter uma certa temperatura no interior do formigueiro.”

Mas se é isso acontece agora, porque é que dizes que não estamos na Fase III?

“Porque, Luísa, a Natureza já deu mais um passo. Para fazer face ao progressivo e inelutável arrefecimento do planeta, os recursos próprios da Natureza não bastam. Pior ainda, a solução «sangue quente» esgota mais rapidamente os recursos, consome muita energia, cada um de nós é uma lâmpada de 100 W acesa noite e dia. E os recursos que se vão esgotando não são apenas energéticos, o CO2 também tende a desaparecer. Sem outra solução que não essa, daqui a umas centenas de milhões de anos a vida na Terra estaria irremediavelmente extinta.”

Explica-te, não estou a perceber nada!!!”,
as mulheres do princípio de Abril são mesmo assim, dá-lhes repentes de autoridade, mas nunca perdem a graça.

“A Natureza avançou para uma espécie viva que é capaz de desenvolver autonomamente soluções de sobrevivência em ambiente adverso, os Humanos. Repara a diferença: em todas as espécies, os recursos para sobreviver no actual clima terrestre foram fornecidos por uma Inteligência exterior, a Inteligência que está por detrás do processo evolutivo, a Inteligência da Natureza; mas nos Humanos, esses recursos vêm da sua própria inteligência.”

Portanto... ehehe... estás a dizer que a Natureza fez uma mudança de estratégia: em vez de estar ela a descobrir processos de tornar as suas criaturas capazes de sobreviver em condições adversas, passou a investir numa criatura com inteligência própria e capaz de ser ela a encontrar soluções a que a Natureza não pode aceder!

“Exactamente Mário. Repara que não estou a dizer que isto é um processo consciente, como já vos disse entendo a Inteligência como um fenómeno natural.”

Então a Fase IV é determinada pelo aparecimento do Homem?

“Exactamente. Nos Humanos a Natureza como que desiste de investir em soluções biológicas e comportamentais de adaptação ao clima e passa a investir tudo numa espécie capaz de construir uma sociedade com inteligência suficiente para encontrar soluções para o problema do arrefecimento progressivo do planeta e para o esgotamento doutros recursos necessários à Vida.”

Então cabe aos Humanos a tarefa de salvar a Vida na Terra?”,
a Luísa parece-me de repente mais alta, será que o pescoço se alongou com o entusiasmo?

“Hummm, está-me a parecer que o Homem não estará ainda à altura de tão exigente tarefa... o Homem dificilmente conseguirá mais do que usar os recursos acumulados em depósitos a que a Natureza não consegue aceder, como os combustíveis fósseis... é preciso mais do que isso... mas sabes que a evolução não parou, um dia destes poderá começar a surgir uma versão melhorada do Homem... uma nova geração de Humanos...”

Nova geração...”,
algo no tom de voz da Ana me chama de imediato a atenção, “... portanto... o Filho do Homem...”, trocamos um olhar silencioso, partilhamos por momentos o conhecimento suspeitado; sem desviar o olhar dos meus olhos, da boca da Ana saem outras palavras:

E porque se afastam os planetas do Sol?
.
.

domingo, fevereiro 17, 2008

Paleotemperature trend for Precambrian life



Até foi bom o nosso último encontro ter sido interrompido daquela maneira.

Então porquê Mário?”

Porque, Ana, entretanto saiu um número da Nature que traz um artigo que deve interessar muito ao Jorge!”
Mário exibe um largo sorriso de contentamento; fico imediatamente interessado, embora não o mostre, espero que ele fale; mas é a Luísa quem fala:

Mário, não me digas que descobriste outra teoria como a Ecopoese, dando suporte às coisas que o Jorge diz?”
a Luísa entre o sério e o jocoso.

Então não é que uns maduros de uns cientistas”,
o Mário ignorando a observação da Luísa,se lembraram de reconstruir proteínas das bactérias antigas e analisar a sua estabilidade térmica, tendo concluído que entre 3500 milhões de anos atrás e 500 milhões de anos a temperatura da Terra esteve a diminuir de forma progressiva?”

Ahhh, então provaram que o Jorge tem razão, que afinal a temperatura da Terra variou ao longo do tempo como ele diz?”
oiço a Ana perguntar enquanto avidamente tiro a Nature das mãos do Mário. O número 451, de 7 de Fevereiro, aberto na pagina 704. Leio o sumário da Letter enquanto oiço o Mário responder:

Não exactamente, porque concluem que a variação de temperatura nesse período foi de 30 ºC, muito menos do que o Jorge afirma.”

“Isto é muito importante”
oiço-me a pensar em voz alta, “ pela primeira vez se estabelece o facto de que a temperatura da Terra tem vindo a descer monotonamente desde sempre, uma vez que já se sabia que nos últimos 500 milhões de anos assim foi.”

Nunca ouvi falar disso...”,
a Luísa com ar entre o desconfiado e o surpreendido.

“Claro que não Luísa, pois essa é uma verdade inconveniente. Provavelmente já viste documentários sobre a Snow Ball Earth”,
a Luísa diz que sim com a cabeça, certamente viu no Odisseia ou no Discovery, “ esse é o tipo da Verdade Conveniente, daquela que as pessoas gostam, que lhes diz que o presente é muito melhor que o passado e será eterno e imutável, a perfeita obra de Deus que apenas pode ser estragada pelo Homem. A ideia de que a Terra existe num processo de arrefecimento contínuo, pelo contrário, assusta, diz que o Universo é composto de mudança e não é isso que as pessoas querem ouvir. Certamente que não será tão depressa que a BBC irá produzir um documentário sobre o progressivo arrefecimento do planeta...”

Espera lá Jorge, isto não prova que estás certo, prova que estás errado, porque eles concluem que a variação de temperatura foi de apenas 30 ºC!

“Meu caro Mário, não te esqueças que o modelo oficial é o da Snow Ball Earth, que sustenta que a Terra esteve congelada nesse período. Agora, de repente, aparece a afirmação espantosa de que a temperatura da Terra cresce sempre em direcção ao passado, e não é nada pouco, esse crescimento de 30ºC em cima da temperatura da Terra há 500 milhões de anos é um valor inalcançável mesmo pela erradíssima teoria do efeito de estufa do CO2. Se os autores desse trabalho apresentassem um valor superior, o trabalho seria impublicável; aliás, ter sido publicado este estudo que fala de apenas 30ºC já me enche de espanto. E repara o cuidado com que o fizeram, salientando que está de acordo com outras evidências!”

E não está? Não estou a perceber onde queres chegar.

“As evidências geológicas e isotópicas têm décadas, mas se nunca foram aceites como prova de que a Snow Ball Earth é um disparate, como podem agora ser prova de que esta teoria está certa? Além de que não é bem isso que essas evidências mostram.”

Não é?”

“Não; o que elas mostram é que é de todo impossível que as temperaturas fossem inferiores a esses valores.”

Ahh, queres tu dizer que estes são os valores mínimos?”

“Exactamente. Isto é um valor mínimo, e este estudo certamente que não entra em conta com o aumento de pressão com a temperatura.”

Pois, a uma temperatura mais alta aumenta o vapor de água e a pressão sobe...”

“Claro Mário! A estabilidade das proteínas é uma função da temperatura e da pressão. Não conhecemos nós arqueobactérias que vivem junto de fontes hidrotermais submarinas a temperaturas superiores a 100 ºC? E são bactérias que remontarão a apenas 1000 ou 1500 milhões de anos. Imagina agora as proteínas de há 3500 milhões de anos...”

Estou a perceber-te... à pressão atmosférica actual há um limite máximo para a temperatura que podem suportar, a 100 ºC a água ferve, mas se a pressão for subindo com a temperatura esse limite desaparece...”

“Ora aí tens! O que este artigo prova, feitas bem as contas, é que a temperatura da Terra tem vindo a decrescer desde a formação da Terra, e não se trata de um processo de arrefecimento, esse seria muitíssimo mais rápido, é um processo intrínseco do sistema.”

Queres tu dizer que esse arrefecimento que existiu durante todo o passado vai continuar no futuro?”

“Claro Luísa, estou farto de o dizer, a Terra, como todos os planetas, está a afastar-se do Sol. Mas estou a ver que só começas a acreditar em mim agora que vês a mesma afirmação publicada numa revista científica...”,
não resisto a embaraçar a Luísa, falando com um ar ligeiramente afectado, como que desiludido. Teatro, é claro, não podia esperar outra coisa, a Luísa só me conhece dumas jantaradas, não sabe o que possa valer o que eu digo em matéria desta. Interessa-me mais perceber o que pensa a Ana, espreito-a escondido na minha máscara, mas ela também tem uma máscara afivelada.

Mas este é um arrefecimento lentíssimo, nada que possamos percepcionar durante a nossa vida... nem mesmo desde que existe o Homem!

“Claro Mário, isto só é importante quando analisamos em grandes escalas de tempo. Como fizemos na nossa última conversa, em que estabelecemos um paralelo entre a variação de temperatura e a evolução da Vida.”

A propósito”,
interrompe a Ana, “ tu ficaste de dizer qualquer coisa sobre o que a Vida espera de nós ou lá o que era, não foi?

“Ahh, mas agora é fácil perceber Ana!”

terça-feira, janeiro 29, 2008

Carnaval

Carnaval não é a melhor altura para pensamentos profundos pois não? Deixemos então a intuição dominar o pensar e o sentir e voltemos à Razão só depois do Carnaval!

Um bom Carnaval. Aqui nos encontraremos depois da folia!