
“Uma espécie de siderurgia dos componentes da Vida?”
“Boa imagem Luísa; as condições necessárias para fabricar os componentes das células não poderiam ser as condições em que as células iriam existir, não é verdade?”
“Assim como as condições necessárias ao fabrico das peças de um automóvel não podem ser as condições em que o automóvel funciona...”, a Ana a pensar em voz alta.
“Isso mesmo. Mas as condições terrestres não mudam bruscamente entre umas e outras condições, há uma lenta fase de transição.”
“A Fase II?”, um brilho esperto nos olhos vivos da Luísa.
“Exactamente. Mas a Natureza não esteve parada durante essa fase de transição, foi construindo as máquinas possíveis nas condições existentes. Assim que a temperatura descia o suficiente para permitir moléculas mais complexas, logo surgiam formas de vida que tiravam partido disso. Se a temperatura na Terra tivesse descido mais rapidamente, a evolução da vida teria sido possivelmente mais rápida.”
“Ehhh lá, espera aí, o que estás tu a dizer?”, o Mário parece que acordou agora para a conversa, “a evolução da Vida foi sendo a que a diminuição de temperatura foi permitindo, ouvi bem?”
“É uma possibilidade”, respondo com ar mais natural deste mundo.
“Hummm... se fosse assim, com a descida de temperatura a uma taxa quase constante, a evolução seria um processo contínuo... mas não é isso que se verifica, a evolução parece ter sido aos saltos, momentos de rápida evolução alternam com períodos de estagnação... como os degraus de uma escada...”
“Dizes muito bem Mário, como os degraus de uma escada!”, exulto, “ que é exactamente o que devemos esperar; repara, sempre que a temperatura desceu o suficiente para permitir o grau seguinte de complexidade proteica, surge uma multiplicidade de novas formas de vida tirando proveito das novas estruturas; depois há que aguardar que a temperatura desça novamente o suficiente para permitir novo nível de complexidade proteica.”
“Estou a perceber, a velocidade natural da evolução será a que ela apresenta nos períodos de evolução rápida; nos intervalos, a evolução está parada porque a temperatura a impede...”
“Mais ou menos Ana, pelo menos é o que penso.”
“Bem, o Stephen Jay Gould tem outra explicação... Então e as quedas bruscas de temperatura associadas às grandes extinções? Se fosse como dizes teriam originado saltos evolutivos!”
“Essas quedas foram temporárias, da ordem do milhar de anos, enquanto a escala de tempo dos fenómenos evolutivos é da ordem do milhão de anos; e proteínas mais sofisticadas que tivessem aparecido nessa altura teriam desaparecido quando a temperatura recuperou o seu valor normal.” O Mário acalmou tão rapidamente como se tinha manifestado; mas percebo que o assunto não estava encerrado para ele, matutava.
“E porque é que ocorrem essas quedas bruscas de temperatura?”
“Bem, Ana, isso será outra conversa. Há uns Eventos que causam isso. Mas agora não posso falar disso, vamos deixar para outra altura, está bem?” Os meus olhos fazem um pedido silencioso para não insistir na questão; percebo que acede. Ainda com os olhos nos meus olhos ensaia outra pergunta:
“E essa Fase II durou até quando?”
Os meus olhos agradecem-lhe. “O que determina o fim da Fase II é a altura em que a temperatura das células deixa de ser função do clima, a altura em que surgem os animais de sangue quente.”
“Estou a perceber, a natureza não dispõe de processos eficientes de arrefecimento das células abaixo da temperatura ambiente, apenas de aquecimento, por isso teve de esperar que a temperatura estivesse suficientemente baixa para poder estabilizar a temperatura da célula no valor mais conveniente... ehehe, engraçada a tua teoria!”
“Ainda bem que gostas Mário.”, respondo prontamente com um sorriso.” E isso aconteceu aí há uns 250 milhões de anos atrás, altura em que entramos na Fase III.”
“Que é a actual?”
“Não exactamente Luísa.”
“Lá começas tu a contrariar”, a Luísa com humor, despertando sorrisos em todos.
“Na fase III a Natureza assume o controlo da temperatura das células, quer por processos biológicos, que são os mecanismos internos de regulação de temperatura, quer por processos comportamentais. Por exemplo, as Aves têm sangue quente e penas, que são adaptações biológicas, e chocam os ovos, um comportamento com que a Natureza as programou para garantir a temperatura necessária aos ovos.”
“Mas os comportamentos instintivos não têm só a ver com o controlo da temperatura.”
“Claro que não Mário. A Natureza apenas acrescentou novos comportamentos destinados a ultrapassar as dificuldades decorrentes da baixa temperatura da Terra. E isto em todas as espécies; por exemplo, as tartarugas põem os ovos numas determinadas praias cujas areias asseguram a temperatura necessária. Até as formigas têm soluções para manter uma certa temperatura no interior do formigueiro.”
“Mas se é isso acontece agora, porque é que dizes que não estamos na Fase III?”
“Porque, Luísa, a Natureza já deu mais um passo. Para fazer face ao progressivo e inelutável arrefecimento do planeta, os recursos próprios da Natureza não bastam. Pior ainda, a solução «sangue quente» esgota mais rapidamente os recursos, consome muita energia, cada um de nós é uma lâmpada de 100 W acesa noite e dia. E os recursos que se vão esgotando não são apenas energéticos, o CO2 também tende a desaparecer. Sem outra solução que não essa, daqui a umas centenas de milhões de anos a vida na Terra estaria irremediavelmente extinta.”
“Explica-te, não estou a perceber nada!!!”, as mulheres do princípio de Abril são mesmo assim, dá-lhes repentes de autoridade, mas nunca perdem a graça.
“A Natureza avançou para uma espécie viva que é capaz de desenvolver autonomamente soluções de sobrevivência em ambiente adverso, os Humanos. Repara a diferença: em todas as espécies, os recursos para sobreviver no actual clima terrestre foram fornecidos por uma Inteligência exterior, a Inteligência que está por detrás do processo evolutivo, a Inteligência da Natureza; mas nos Humanos, esses recursos vêm da sua própria inteligência.”
“Portanto... ehehe... estás a dizer que a Natureza fez uma mudança de estratégia: em vez de estar ela a descobrir processos de tornar as suas criaturas capazes de sobreviver em condições adversas, passou a investir numa criatura com inteligência própria e capaz de ser ela a encontrar soluções a que a Natureza não pode aceder!”
“Exactamente Mário. Repara que não estou a dizer que isto é um processo consciente, como já vos disse entendo a Inteligência como um fenómeno natural.”
“Então a Fase IV é determinada pelo aparecimento do Homem?”
“Exactamente. Nos Humanos a Natureza como que desiste de investir em soluções biológicas e comportamentais de adaptação ao clima e passa a investir tudo numa espécie capaz de construir uma sociedade com inteligência suficiente para encontrar soluções para o problema do arrefecimento progressivo do planeta e para o esgotamento doutros recursos necessários à Vida.”
“Então cabe aos Humanos a tarefa de salvar a Vida na Terra?”, a Luísa parece-me de repente mais alta, será que o pescoço se alongou com o entusiasmo?
“Hummm, está-me a parecer que o Homem não estará ainda à altura de tão exigente tarefa... o Homem dificilmente conseguirá mais do que usar os recursos acumulados em depósitos a que a Natureza não consegue aceder, como os combustíveis fósseis... é preciso mais do que isso... mas sabes que a evolução não parou, um dia destes poderá começar a surgir uma versão melhorada do Homem... uma nova geração de Humanos...”
“Nova geração...”, algo no tom de voz da Ana me chama de imediato a atenção, “... portanto... o Filho do Homem...”, trocamos um olhar silencioso, partilhamos por momentos o conhecimento suspeitado; sem desviar o olhar dos meus olhos, da boca da Ana saem outras palavras:
“E porque se afastam os planetas do Sol?”








