
“Então porquê Mário?”
“Porque, Ana, entretanto saiu um número da Nature que traz um artigo que deve interessar muito ao Jorge!” Mário exibe um largo sorriso de contentamento; fico imediatamente interessado, embora não o mostre, espero que ele fale; mas é a Luísa quem fala:
“Mário, não me digas que descobriste outra teoria como a Ecopoese, dando suporte às coisas que o Jorge diz?” a Luísa entre o sério e o jocoso.
“Então não é que uns maduros de uns cientistas”, o Mário ignorando a observação da Luísa, “se lembraram de reconstruir proteínas das bactérias antigas e analisar a sua estabilidade térmica, tendo concluído que entre 3500 milhões de anos atrás e 500 milhões de anos a temperatura da Terra esteve a diminuir de forma progressiva?”
“Ahhh, então provaram que o Jorge tem razão, que afinal a temperatura da Terra variou ao longo do tempo como ele diz?” oiço a Ana perguntar enquanto avidamente tiro a Nature das mãos do Mário. O número 451, de 7 de Fevereiro, aberto na pagina 704. Leio o sumário da Letter enquanto oiço o Mário responder:
“Não exactamente, porque concluem que a variação de temperatura nesse período foi de 30 ºC, muito menos do que o Jorge afirma.”
“Isto é muito importante” oiço-me a pensar em voz alta, “ pela primeira vez se estabelece o facto de que a temperatura da Terra tem vindo a descer monotonamente desde sempre, uma vez que já se sabia que nos últimos 500 milhões de anos assim foi.”
“Nunca ouvi falar disso...”, a Luísa com ar entre o desconfiado e o surpreendido.
“Claro que não Luísa, pois essa é uma verdade inconveniente. Provavelmente já viste documentários sobre a Snow Ball Earth”, a Luísa diz que sim com a cabeça, certamente viu no Odisseia ou no Discovery, “ esse é o tipo da Verdade Conveniente, daquela que as pessoas gostam, que lhes diz que o presente é muito melhor que o passado e será eterno e imutável, a perfeita obra de Deus que apenas pode ser estragada pelo Homem. A ideia de que a Terra existe num processo de arrefecimento contínuo, pelo contrário, assusta, diz que o Universo é composto de mudança e não é isso que as pessoas querem ouvir. Certamente que não será tão depressa que a BBC irá produzir um documentário sobre o progressivo arrefecimento do planeta...”
“Espera lá Jorge, isto não prova que estás certo, prova que estás errado, porque eles concluem que a variação de temperatura foi de apenas 30 ºC!”
“Meu caro Mário, não te esqueças que o modelo oficial é o da Snow Ball Earth, que sustenta que a Terra esteve congelada nesse período. Agora, de repente, aparece a afirmação espantosa de que a temperatura da Terra cresce sempre em direcção ao passado, e não é nada pouco, esse crescimento de 30ºC em cima da temperatura da Terra há 500 milhões de anos é um valor inalcançável mesmo pela erradíssima teoria do efeito de estufa do CO2. Se os autores desse trabalho apresentassem um valor superior, o trabalho seria impublicável; aliás, ter sido publicado este estudo que fala de apenas 30ºC já me enche de espanto. E repara o cuidado com que o fizeram, salientando que está de acordo com outras evidências!”
“E não está? Não estou a perceber onde queres chegar.”
“As evidências geológicas e isotópicas têm décadas, mas se nunca foram aceites como prova de que a Snow Ball Earth é um disparate, como podem agora ser prova de que esta teoria está certa? Além de que não é bem isso que essas evidências mostram.”
“ Não é?”
“Não; o que elas mostram é que é de todo impossível que as temperaturas fossem inferiores a esses valores.”
“Ahh, queres tu dizer que estes são os valores mínimos?”
“Exactamente. Isto é um valor mínimo, e este estudo certamente que não entra em conta com o aumento de pressão com a temperatura.”
“Pois, a uma temperatura mais alta aumenta o vapor de água e a pressão sobe...”
“Claro Mário! A estabilidade das proteínas é uma função da temperatura e da pressão. Não conhecemos nós arqueobactérias que vivem junto de fontes hidrotermais submarinas a temperaturas superiores a 100 ºC? E são bactérias que remontarão a apenas 1000 ou 1500 milhões de anos. Imagina agora as proteínas de há 3500 milhões de anos...”
“Estou a perceber-te... à pressão atmosférica actual há um limite máximo para a temperatura que podem suportar, a 100 ºC a água ferve, mas se a pressão for subindo com a temperatura esse limite desaparece...”
“Ora aí tens! O que este artigo prova, feitas bem as contas, é que a temperatura da Terra tem vindo a decrescer desde a formação da Terra, e não se trata de um processo de arrefecimento, esse seria muitíssimo mais rápido, é um processo intrínseco do sistema.”
“Queres tu dizer que esse arrefecimento que existiu durante todo o passado vai continuar no futuro?”
“Claro Luísa, estou farto de o dizer, a Terra, como todos os planetas, está a afastar-se do Sol. Mas estou a ver que só começas a acreditar em mim agora que vês a mesma afirmação publicada numa revista científica...”, não resisto a embaraçar a Luísa, falando com um ar ligeiramente afectado, como que desiludido. Teatro, é claro, não podia esperar outra coisa, a Luísa só me conhece dumas jantaradas, não sabe o que possa valer o que eu digo em matéria desta. Interessa-me mais perceber o que pensa a Ana, espreito-a escondido na minha máscara, mas ela também tem uma máscara afivelada.
“Mas este é um arrefecimento lentíssimo, nada que possamos percepcionar durante a nossa vida... nem mesmo desde que existe o Homem!”
“Claro Mário, isto só é importante quando analisamos em grandes escalas de tempo. Como fizemos na nossa última conversa, em que estabelecemos um paralelo entre a variação de temperatura e a evolução da Vida.”
“A propósito”, interrompe a Ana, “ tu ficaste de dizer qualquer coisa sobre o que a Vida espera de nós ou lá o que era, não foi?”
“Ahh, mas agora é fácil perceber Ana!”








