segunda-feira, janeiro 14, 2008

Vruummm, Tchac, Tchac, Tchac


O que a Vida espera de nós?”, o Mário surpreendido, “mas não é ao contrário? Eheh”, a risada como expressão do espanto.

Ahhh, vais ver que não, e é importante que percebamos que temos uma tarefa pela frente; mas vamos com calma, para já vou dizer-vos mais uma coisa sobre a Vida que vocês não sabem.”

Não sabe quem? Eu não sei??”, a Ana e a Luísa riem-se do ar de espanto fingido do Mário.

Tu me dirás. Lembram-se de eu ter referido a divisão celular como exemplo da inteligência das células? De eu ter lido aquela descrição do livro de biologia, que refere uns centríolos que se movem, uns microtúbulos que avançam em direcção aos cromossomas, etc.”

Sim, tenho uma ideia”, a Ana a primeira a assentir, a Luísa faz agora também um sinal de Sim com a cabeça.

E lembram-se de eu ter referido que essa descrição omitia questões essenciais, até perguntei se os centríolos tinham pernas para se moverem?”

Essas das pernas lembro-me!”, a Luísa a recuperar a vivacidade.

Pois bem, vou responder-vos a essa questão! Não têm pernas, têm motores!”

“Motores?!” admiram-se as duas em coro, o Mário dá uma risadinha.

Sim, micomotores, a célula tem micromotores que movem toda a maquinaria celular de um lado para o outro, os centríolos, os microtúbulos, os ribossomas, etc.”

Quer dizer, tem um sistema de transportes públicos ehehe!” a risada do Mário é secundada pela da Luísa. “Vrummm, vrummm”, faz a Luísa imitando o barulho de um motor de explosão, desencadeando o riso do Mário.

Essa eu nunca tinha ouvido! Onde foste buscar tal coisa?

Então, Mário, parece que afinal há coisas que tu não sabes! Onde fui buscar? Ora, à Ciência, onde havia de ser?”

Não me lembro de ouvir falar de tal coisa...”, o Mário com ar desconfiado.

"Bem, talvez ainda não tenhas ouvido... sabes, como eu sou viajante do tempo, pode ser algo que a ciência ainda vai descobrir, não sei ao certo...”. Pus um ar de quem se está a tentar lembrar onde deixou os óculos. Pelo canto do olho observo o ar incrédulo de todos. Continuo:

Mas os motores são só uma das muitas máquinas electromecânicas que existem na célula.

Máquinas electromecânicas? Que raio estás para aí a dizer?

"Então, Mário, o vinho do jantar fez-te mal? O que é uma proteína senão uma máquina electromecânica?" O ar surpreendido do Mário dá lugar a uma careta de concentração, está a ver se percebe o que eu quero dizer. Esperamos.

Bem, as proteínas constroem estruturas tridimensionais, com formas complexas... uma proteína pode assumir várias estruturas, alternando entre elas quando executa a sua função biológica...”

Pois é, como acontece no ribossoma enquanto constrói uma proteína correndo ao longo do RNA, tchac, tchac, tchac.” Pensei que se iam rir mas não, ficaram com ar surpreendido. Continuo:

"Mesmo em repouso, em solução, todas as proteínas apresentam oscilações da sua estrutura, que resultam de vibrações térmicas e choques de moléculas do meio; uma proteína é uma máquina electromecânica, não é uma simples peça de Lego.”

Pois, isso eu sei, mas nunca tinha consciencializado que uma proteína, realmente, é muito mais do que uma simples peça, ela tem partes que se mexem.”

Pois é, e por isso uma proteína não é robusta como uma simples peça, é delicada como qualquer máquina! Tanto mais delicada quanto mais complexa. E qual é a grande fragilidade das proteínas?”

A... temperatura?”, arriscou o Mário; um génio este Mário.

Exacto! As proteínas têm uma janela térmica na qual mantêm a forma e estão, portanto, activas; mas fora dessa janela a sua estrutura desmancha-se e elas ficam inoperativas. Ora esta característica das proteínas permite-nos saber que os dinossáurios não poderiam existir hoje, e que o Homem não poderia existir no tempo do apogeu dos dinossáurios.”

Não poderia existir? Queres dizer que o Homem não poderia existir nessa altura porque a Evolução ainda não tinha chegado ao Homem?”

Não! Há um factor que travou a evolução, senão o Homem poderia ter aparecido mais cedo!”

Essa é boa!! O Homem poderia ter aparecido mais cedo??" não percebo se o Mário está espantado ou indignado, “E como é isso?”

Estás a dizer que o Jurassic Park é uma impossibilidade?”, a Ana parece que levou um choque, os olhos muito abertos de espanto mostrando a doçura da sua alma.

Exactamente Ana, os dinossáurios não sobreviveriam na Terra de hoje. E o tempo que o Homem demorou a aparecer não é consequência do processo evolutivo, que é muitíssimo mais rápido do que se imagina. Basta associarem a janela térmica das proteínas à curva da temperatura terrestre que eu vos apresentei para perceberem; querem ver?”
..

Imagem : Wikipedia


quinta-feira, janeiro 10, 2008

Há quem Saiba?


. Uma semana antes... (João Paulo I, Wikipedia)



Apanharam-no! Apanharam-no!
Que desgraça! Tudo perdido...
Olha, conseguiu atirar a pasta... os papeis... os papeis... se o vento os levar... ainda há esperança... se o vento os levar para fora...


...Dio mio, Dio mio, por favor... ai... espalhados pelos telhados... estão a apanhá-los... não há vento, nem um voa...


...estão a apanha-los... vão apanha-los todos...


...piedade Dio mio...


...falhado, tudo falhado, não terei outra oportunidade...
e o meu corajoso companheiro... Deus tenha piedade... Deus o perdoe... Deus me perdoe... a Humanidade me perdoe... que terrível falhanço...

Fechou a janela abafando o ruído surdo dos passos dos guardas que percorriam os telhados, ainda à procura de alguma folha de papel que ainda não tivessem apanhado. Ao virar-se para o interior do quarto, não foi os seus aposentos que viu; com os olhos cegos pela luz exterior e pelas lágrimas, a imagem do pequeno cofre onde o segredo era guardado surgiu-lhe como um fantasma no fundo escuro. Numa fracção de segundo, a história da milenar demanda passou-lhe inteira mas o que permaneceu foi a lembrança do momento em que percebeu. O momento em que tudo mudara, em que todos os seus projectos e ideias perderam subitamente o sentido; o momento em que soube que a sua vida estava consagrada a um único objectivo: alertar a Humanidade! E soube-o com a clarividência que acompanha uma premonição, ele conheci-a bem.


Lembrou-se da repulsa que lhe causou a argumentação deles. “Que, na verdade, não sabiam quando seria nem como seria; que divulgar o segredo apenas iria servir para desacredita-los; que seriam acusados de espalhar o pânico, não sabia ele o que tinha acontecido no ano 1000? Claro que agora tinham novos elementos, mas não eram ainda suficientes. E havia que pensar no depois: depois do Evento a Igreja precisaria de todo o seu poder para controlar os sobreviventes; não sabia ele como a escassez transforma os homens em lobos? Não tivera já a Igreja de intervir tantas vezes no passado?”

Nunca acreditara que eles não soubessem mais do que diziam; simplesmente, optavam pela estratégia segura a longo prazo, conseguindo permanecer indiferentes às consequências de curto prazo, numa conversa de “os fins justificam os meios”. Mas as consequências seriam tais que ele não podia aceitar que nada se fizesse para as minimizar. Não podia, tão simples quanto isso, era mais forte do que ele.

A imagem do sofrimento que estava para chegar ocupava-lhe agora a mente com detalhes que começavam a ser dolorosos. Deixou-se cair na cama, curvado, em posição fetal, as lágrimas escorriam-lhe através das pálpebras fechadas. A angústia desses dias descia-lhe agora pelas entranhas para logo subir de novo. A intensidade da sensação crescia, multiplicava-se, ocupava todos os recantos do seu ser; como se a angústia de toda a humanidade se estivesse a concentrar nele, como se ele estivesse a sofrer no lugar de todas as outras criaturas. Esse pensamento, ele a sofrer no lugar da humanidade inteira, ele a conseguir finalmente proteger a humanidade de todo aquele imenso sofrimento, fez surgir uma ténue alegria no fundo do seu ser, uma luz a cintilar na escuridão em que se afundava. Ainda teve forças para murmurar uma prece de agradecimento - Obrigado Pai.

Seriam umas duas da manhã quando os dois homens entraram silenciosamente no quarto. O mais velho aproximou-se do vulto deitado em posição fetal, pôs-lhe dois dedos na carótica, e disse:
- Podes chamar os embalsamadores. Anuncia a morte de Sua Santidade.


Com um gesto lento, Alita faz desaparecer o texto:
Realmente, é muito misterioso... E foi a máquina de inteligência artificial que fez isto? Como?”


Estava a testar um novo programa de geração de hipóteses; e lembrei-me de o pôr a analisar os dados referentes a um qualquer crime não resolvido.”


Dos humanos?”


Claro! A máquina, a MIA, como lhe chamo, está ligada à Net deles. Pedi-lhe uma lista de mortes suspeitas e pu-la a analisar a primeira da lista. Ela devolveu-me uma lista de dados que tinha encontrado e que estavam em conflito, para eu resolver


Quer dizer que encontrou informações erradas?”


Sim, é normal, os nossos cérebros interpretam os dados de acordo com as suas presunções e chegam a certezas erradas, que depois inquinam a investigação; a máquina detecta os conflitos e já é capaz de resolver alguns, atribuindo graus de confiança inversos às presunções que detecta; mas muitos ainda não consegue resolver.”


E então, corrigiste a lista?”


Não!”


Não?”


Enquanto a máquina estava no seu processamento, eu estive a ver a lista de mortes suspeitas e saltou-me à vista esta do Papa. Assassinarem um Papa?? Isso é muito revelador do estado actual da sociedade deles. Muito mais interessante que um crime passional qualquer, ou mafioso, ou por jogos de poder, que não acrescenta nada ao que já sabemos deles.”


Ahh, então puseste a MIA a analisar este...”


Claro! Pedi-lhe a reconstrução da morte do Papa. E ela surgiu logo com isto! Nenhuma lista de conflitos, nada! Para a MIA, isto é clarinho.”


Nem tanto... repara que ela não afirma que ele foi assassinado...”


Isso significa insuficiência de dados, mas se ele foi ou não assassinado já deixou de me interessar. A possibilidade de haver quem saiba do Evento é que me interessou!”


Pois é... e parece que quem sabe está disposto a tudo para que não se saiba...”


Isso fez-me pensar... no estado primitivo deles, o que será melhor? Serão capazes de usar o conhecimento do Evento utilmente ou vão entrar em paranóia?”


Já andam em paranóia com a treta do aquecimento global...


Eles já sobreviveram a Eventos... hão-de voltar a sobreviver... à rasquinha...”


Temos de pensar muito bem... será que está afinal certo quem não quer que se saiba? Esse alguém deve conhecer os Humanos melhor do que nós...”


Ufff, mais uma complicação... agora nem sabemos se devemos intervir ou não!”

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Educação 3: "Chumbo" versus "Competição"



O “chumbo” nos primeiros anos escolares é algo muito diferente de, por exemplo, o “chumbo” num exame de condução.



Quem faz exame de condução é alguém que tem o objectivo de ter a carta de condução; o jovem estudante, ao contrário, não tem objectivo nenhum deste tipo, está na escola porque a isso é obrigado.



O “chumbo” num exame de condução, ou no fim de um curso profissional, ou de um curso universitário, não tem nenhum efeito de motivação, é apenas uma medida de uma aptidão conseguida ou não pela pessoa. A motivação está no objectivo, não no exame.



O que nos interessa saber é se o recurso ao “chumbo” na escolaridade obrigatória pode contribuir para a motivação dos alunos, ou seja, se a ameaça de “chumbo” permite melhorar o sucesso escolar.



O “chumbo” não é certamente uma recompensa, logo o papel que pode desempenhar é o de “penalização”; e pode fazê-lo de duas formas.



Uma forma é indirecta: é o sinal que é dado aos pais e são estes que verdadeiramente estabelecem a penalização.



Mas atenção: nem todos os pais o fazem. O sucesso escolar em Portugal está fortemente relacionado com a atitude dos pais: têm sucesso os filhos dos pais que fazem disso quase uma questão de vida ou de morte, falham os outros. Portanto, o “chumbo” não é capaz de ultrapassar as insuficiências dos pais, embora seja algo que os pais que se preocupam com o sucesso escolar dos filhos usam nas suas estratégias de motivação.



Mas o “chumbo” também é uma penalização directa para os alunos.



Salta à vista que é uma penalização muito diferente da dor provocada pelo fogo na mão ou a pancada com o jornal no cãozinho: a dor do “chumbo” não passa com o tempo, daí em diante o “chumbado” será sempre um aluno humilhado, os colegas de turma serão mais novos, é uma condenação de vários anos. Portanto, como humilha, é gerador de revolta, e não cumprirá adequadamente a função de informação do Inconsciente porque é uma agressão.



Como é um estigma, gera marginais. Tal como o ostracismo ou a marcação a fogo, que têm exactamente o objectivo de colocar pessoas fora da sociedade.



Note-se que, em parte, esse sempre foi um objectivo do sistema de ensino. Antigamente não se pretendia que todas as pessoas soubessem ler e escrever. O modelo de sociedade era o “formigueiro”, ou seja, é preciso pessoas ignorantes para fazerem trabalhos braçais, e uns quantos, mais sábios, para dirigir. Portanto, o sistema de ensino visava colocar cada um no seu “lugar” na sociedade “formigueiro”, uns como operários, outros como doutores. A ideia de “igualdade de oportunidades” é uma coisa ainda sem sentido, assustadora mesmo, para muita gente.



Portanto, o “chumbo” nos primeiros anos escolares funciona sobretudo como processo de separar os futuros operários dos futuros doutores e não como uma penalização. Notemos ainda o seguinte: para uma criança de 10 anos, um ano é um espaço de tempo subjectivamente tão dilatado como a duração de todo o curso superior quando entrar na universidade. Ora as ameaças perdem força com a distância, como é sabido. O efeito de “penalização” reside mais nas “faltas” e “notas intermédias” do que no “chumbo”.



No nosso sistema de ensino, é na relação professor-aluno que reside sobretudo a motivação para os mais jovens. Consegue bons resultados o professor que é capaz de estabelecer a adequada relação com cada um do seus alunos. Suponho que isto tenha raízes num tempo em que o professor era um Mestre.



Para verem como esta relação é importante posso citar a minha experiência pessoal: tive como professor de Física no antigo segundo ciclo dos liceus o professor Salvador do Carmo. Recordo-me que houve um período em que a nota mínima a Física na minha turma foi 14, num liceu em que essa era a nota máxima nas outras disciplinas; o professor Salvador do Carmo descontava meio valor por cada erro ortográfico, como uma vírgula mal colocada, nas respostas aos testes e dava matéria para além do programa. Era, pois, muito exigente. Sabíamos que era pessoa generosa e não me lembro de ele alguma vez ter dado uma falta de castigo a um aluno, numa época em que isso era trivial. Os outros professores diziam que só estudávamos Física mas não era verdade – a verdade é que saíamos da aula dele de cabeça iluminada e com a matéria já sabida.



Portanto, isto é um resultado possível. Mas não será um resultado ao alcance do comum dos mortais, nem é exigível à generalidade dos professores. Temos de procurar formas de conseguir um resultado destes com professores “normais”, ou seja, profissionais sérios mas não necessariamente “Mestres”.



Quando o sistema de ensino não consegue estabelecer processos de motivação nem existe uma acção social eficaz, o que acontece é que as classes sociais perpetuam-se, os filhos de doutores, doutores serão, os de operários serão operários como os pais.



É o que acontece em Portugal, de uma forma sem paralelo noutros países europeus.



Isto não acontece só por incompetência, acontece porque este é o tipo de sociedade que muitas pessoas querem, daí a falta de uma genuína vontade de mudar.



Qual a diferença civilizacional entre as pessoas que viviam na Península Ibérica há 2000 anos e as que viviam há 200 anos? Muito, muito pequena. E os Amishe pretendem ainda hoje viver numa sociedade completamente estagnada no tempo do seu fundador, não é verdade? O jogo dos interesses individuais conduz as sociedades humanas à estratificação e à estagnação, a evolução surge apenas pela mão de visionários.


Uma sociedade que visa a máxima formação de todas as pessoas é uma sociedade que poderá evoluir muito mais depressa, é o oposto da sociedade estratificada e estagnada. Isto tem uma exigência, porém: todas as actividades terão de ser consideradas igualmente dignas, porque sendo todos “doutores”, um doutor tanto pode trabalhar como juiz ou como homem do lixo.



Há ainda hoje uma alternativa: o homem do lixo é um imigrante. É a persistência da sociedade “formigueiro”, apenas a classe “de baixo” vem de fora por livre vontade.



No primeiro caso temos os países nórdicos, no segundo caso os restantes países do 1º mundo. Os países nórdicos são por isso fechados à imigração, pelo menos à imigração que possa desqualificar empregos.



Hoje não há alternativa à evolução da sociedade, a escola tipo “demónio de Maxwell” a separar "doutores" de "operários" não tem sentido, a única coisa que tem sentido é uma escola que visa a máxima formação para a sociedade do futuro e que, por isso, tem de conseguir a máxima motivação dos alunos.



Este é, portanto, o problema: maximizar a motivação dos alunos! Não é com “chumbos” que vamos lá, nem pode ser com recurso a professores excepcionais.



Sugestões?



Aqui vai uma:



Eu penso que uma boa solução é, como em quase todas as situações, uma solução próxima da realidade, que faça a pessoa enfrentar as consequências dos seus actos.



Um profissional pouco dedicado numa empresa moderna põe em causa o sucesso da empresa e é, por isso, pressionado pelos seus colegas de trabalho; ao jogador de uma equipa amadora que não se esforça acontece-lhe o mesmo; ou seja, qualquer situação em que o resultado se reflecte sobre todos mas depende do esforço de cada um, sem excepção, é altamente motivante, gerando internamente as recompensas e penalizações que maximizam os resultados.



Pode-se criar uma situação análoga nas escolas, pondo as turmas em competição.



Não é verdade que o ranking das escolas fez estas empenharem-se mais? Empenha-se a direcção, empenham-se os professores e empenham-se os próprios alunos. Pois é aplicar a mesma receita, agora ao nível da escola.



Se a as turmas estiverem em competição, cada um sentirá no concreto a relevância do seu esforço; será claro para todos que os que não se esforçam prejudicam os outros e ninguém vai querer ficar com esse ónus; os que se comportam mal nas aulas deixarão de ser uns “heróis”, que enfrentam a autoridade do professor, para passarem a ser alguém que está a prejudicar o esforço colectivo.




O professor passa a ser como o treinador da equipa de andebol, alguém crucial para o sucesso do grupo. Algum aluno se faz de palhaço num treino de andebol? Claro que não! Não é (apenas) por o andebol ser mais interessante que a História, é por o enquadramento ser diferente.




Lembram-se do Harry Potter? Slytherin e Gryffindor? Diz a Wikipedia:

“In the Harry Potter series, Hogwarts School of Witchcraft and Wizardry is divided into four houses, each bearing the last name of its founder: Godric Gryffindor, Salazar Slytherin, Rowena Ravenclaw and Helga Hufflepuff. The houses compete throughout the school year, by earning and losing points for various events, for the House Cup.”



Isto é não é uma invenção da Rowlings, é uma metodologia há muito usada nos colégios e universidades (Yale, Harvard) dos países de língua Inglesa – com uma diferença importante, não é uma competição entre “bons” e “maus”, é uma competição entre “bons” e “bons”.



Processos deste tipo são usados em empresas de mão-de-obra intensiva; e o que é uma escola senão uma empresa de mão-de-obra intensiva? O “produto”, aqui, é a totalidade de conhecimentos e capacidades adquiridos.


Outras sugestões?

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Educação 2: Motivação = Recompensa x Penalização


O suiço Hans Schlegel ensina liderança a executivos através dos 5 lobos que mantém na sua escola
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Na Natureza, a capacidade de manter um olhar atento sobre possíveis ameaças é certamente uma vantagem; por isso, essa será uma característica de todos os seres vivos mais evoluídos. Bom, mas para isso é preciso saber identificar as ameaças e as situações de risco. O cérebro vem assim programado para obter esse conhecimento, tão rapidamente quanto possível.


As crianças têm uma grande necessidade de descobrir os limites, de encontrar o muro, de saber até onde podem ir e donde não podem passar, ou seja, aprender onde estão as situações de risco. Criadas num ambiente permissivo entram em descompensação afectiva e em sofrimento porque não encontram a tão essencial fronteira entre o “bom” e o “mau” que eles sabem que existe algures.


Alguns estudiosos do assunto dizem que as crianças sofrem porque num ambiente permissivo não se sentem amadas, mas creio que não é bem isso; trata-se simplesmente de o seu cérebro não conseguir perceber onde está essa fronteira!


Como é que se ensina isso? Associando uma penalização adequada, que sinalize ao cérebro a posição da fronteira. Isso, e apenas isso. Ou seja, a penalização tem apenas o objectivo de informar o cérebro, não tem o objectivo de causar sofrimento.


Na educação dos animais isso é bem sabido – a penalização tem de ser bem adequada para o animal perceber que ultrapassou uma fronteira, mas apenas isso; se tiver uma característica de agressão, o animal revoltar-se-á em vez de aprender. Connosco é exactamente o mesmo.


No pólo oposto à permissividade está o autoritarismo. Há pessoas que sentem prazer em sentir autoridade, ou que têm frustrações diversas, e que usam todos os pretextos para, a título de penalização, exercer poder, humilhar outro, agredir outro. O marido que bate na mulher, a mulher que ralha com o marido, o chefe que insulta o empregado, a dona de casa que abusa da empregada, o polícia que bate no ladrão, os pais sempre prontos a castigar os filhos, o professor que espalha o terror na aula.


Educar uma pessoa é essencialmente o mesmo que educar um animal, ou seja, um processo de penalização e recompensa. A diferença está no que se ensina e no tipo de penalizações e recompensas a usar.


Muitas pessoas pensaram, e pensarão ainda, que a motivação para a educação é uma relação aritmética entre recompensa e penalização, ou seja:

Motivação = Recompensa + Penalização,

medindo a intensidade da recompensa e da penalização em escalas positivas; daqui a ideia de que seria possível educar recorrendo apenas à recompensa, portanto, com penalização nula.


Isso é um erro e grave. Sem penalização não há qualquer possibilidade de educar.


É costume gabar-se o civismo das pessoas dos países nórdicos em especial e dos países mais civilizados em geral. A razão disso está num claro e bem estabelecido esquema de penalizações. Existem penalizações para todos os comportamentos que perturbem o desejado funcionamento da sociedade. Criteriosamente estabelecidas e implacavelmente aplicadas. É por isso que as pessoas são tão cumpridoras.


Não se pense que estas pessoas vivem numa atmosfera de medo. É como o fogo – sabemos que se pusermos a mão no fogo queimamo-nos, logo não pomos. Mas não vivemos apavorados com o fogo, pelo contrário, até gostamos de saltar à fogueira e de uma boa lareira.


Para que a penalização funcione eficientemente tem de ser clara, sistemática e adequada. Se a cidade está cheia de radares e a cobrança de multas funcionar, os cidadãos tornam-se conscienciosos cumpridores dos limites de velocidade; se não for assim, sentem-se parvos a cumprir esses limites idiotas e andarão preocupados em saber onde estão os poucos radares, fazendo questão em andar em excesso de velocidade, chegando a conseguir poupar uns dois minutos num percurso urbano médio. Às vezes mesmo 3 minutos!


Na ausência de penalização tudo se desmorona: muitos médicos, professores, juízes, ou seja, muitos senhores doutores, engenheiros, advogados, arquitectos, etc (tsch tsch, as coisas que eu aprendo com o António...) não cumprem minimamente aquilo para que foram contratados. É natural, são humanos, funcionam em função da resposta exterior, o sistema que não estabelece penalizações é que é culpado.


Volto a chamar a atenção para um aspecto essencial da penalização: ela não pode ser nunca, mas nunca mesmo, humilhante, agressiva. Bater com um jornal num cão pode ser uma penalização adequada ao cão, mas não o é para uma pessoa. Ralhar é uma forma de penalização proibida, não é penalização, é agressão.
Nós, os humanos, temos um ego muito frágil e é preciso muito cuidado com a penalização. Operários japoneses chegaram a usar como forma de penalizar o patrão uma braçadeira preta no braço. Símbolo do seu descontentamento. Porque são tontos e não sabem fazer greve? Não!!!! Porque era uma forma de penalização muito mais eficiente do que a greve!


Consciente da importância da penalização, outra corrente de opinião defende que basta a penalização, podemos anular a recompensa. Isso pode ser verdade em sociedades estagnadas, mas não é verdade numa sociedade que se pretende em evolução. Sem recompensa, as pessoas limitam-se ao quanto baste para evitar a penalização. Mas isso é claramente insuficiente na sociedade actual. Numa empresa, as pessoas empenharem-se “quanto baste” conduzirá provavelmente a empresa à falência, porque a concorrência terá colaboradores muito mais motivados, com mais autoestima, conseguida através do uso apropriado da recompensa.


Isto apenas considerando o limitado aspecto “interesseiro” da questão, porque há outro mais importante: um objectivo da sociedade é fazer-nos felizes e conduzir os humanos apenas através da penalização não contribui suficientemente para a felicidade.


Sem entrar em grande análise da importância relativa de Recompensa e Penalização, podemos tomar como boa a equação:

Motivação = Recompensa x Penalização

Um valor nulo quer para recompensa quer para a penalização conduz a uma motivação nula.


E isto é assim porque nós somos descobridores num mundo desconhecido, no nosso cérebro profundo corre um programa que traça cuidadosamente a fronteira entre o “bom” e o “mau” no mundo tal qual o percepciona, independentemente da nossa vontade.

Vejamos agora a questão do “chumbo”


(conclui no próximo)

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Educação 1: O Grande Inconsciente



Tenho uma posta do Tulito retida já há algum tempo, pois considerei que não era adequado a este período; apenas a seguir ao dia de reis, depois de as pessoas terem arrumados o presépio, a árvore de natal, os enfeites, acabado os restos do bolo-rei, as últimas filhós e rabanadas, é que publicarei tal posta. Isto porque só nessa altura as pessoas trancam novamente as janelas da alma que se atreveram a entreabrir pelo Natal.

Entretanto, tenho aqui algo diferente para postar. Alguns dos blogues que eu visito são de professores, onde naturalmente vem à baila o problema do “chumbo”. No “
As minhas Leituras” comprometi-me a fazer uma posta sobre o problema. Aqui vai o que eu penso. Creio que ajuda a entendermos um pouco melhor certas caracteristicas do ser humano, pelo que estou certo que a Alita convencerá o Tulipo a perdoar-me... mas notem que eu não sou especialista nesta matéria, não sou o Mário, nem o Jorge, sou apenas o Alf...

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Neste mundo “Plug & Play”, os equipamentos são muito inteligentes – por exemplo, liga-se a “pen”, ou a máquina fotográfica, na porta do computador e ele imediatamente “reconhece” o dispositivo. Ainda há limitações, ainda é preciso ligar um cabito, ou nalgumas situações, como fazer uma rede, é preciso dar algumas instruções. Algumas pessoas reclamam, ainda não faz tudo sozinho, não adivinha todos os nossos pensamentos; mas para lá caminhamos.
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São muito inteligentes? Na realidade não. A inteligência que torna isso possível é a dos milhares de pessoas que trabalham para que assim seja. Todo o “conhecimento” dos nossos equipamentos é fornecido por humanos, descarregado através da internet. Estes nossos equipamentos domésticos são incapazes de comunicar com um dispositivo desconhecido – se não tivermos o “driver”, se ele não estiver disponível na Net, nada feito! E os diversos dispositivos têm de ter “portas” normalizadas, é claro.
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A “inteligência” e o “conhecimento” dos equipamentos que construimos, por enquanto, são a do seu criador, isto é, nós. Face a uma situação não conhecida, não definida previamente, são incapazes prosseguir. Alguns até podem "aprender", mas apenas aquilo que já estão programados para aprender. Lidar com algo desconhecido é ainda impossível para os nossos equipamentos.
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Nós, humanos, não somos assim tão diferentes; afinal, vimos equipados para comunicar uns com os outros, pode-se dizer que temos as “portas” necessárias a esta comunicação e os respectivos “drivers”, que nos permitem criar uma linguagem de comunicação. Mas, contrariamente aos nossos equipamentos, somos capazes de interagir com o mundo exterior em geral. Onde vamos buscar o conhecimento para isso?
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Uma coisa parece certa: não dispomos desse conhecimento a priori. Só sabemos que o fogo queima depois de pormos a mão no lume. Nenhum Criador, nem nenhum gene, nos deu o conhecimento a priori deste mundo em que existimos (o que não quer dizer que, pontualmente, não possamos obter conhecimento de uma forma que não sabemos explicar – pelo menos o Jorge está certo disso).
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Como não estamos dotados de um conhecimento a priori, teremos de estar preparados para descobrir este desconhecido mundo. Somos, portanto, exploradores do Universo.
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Como é que fazemos isso?
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A descoberta do Universo começa à saída do útero materno, quando arranhamos a cara com as unhas; prossegue quando damos uma queda e descobrimos, com surpresa, que faz dói-dói; pomos a mão no fogo, queimamo-nos, aprendemos que não devemos pôr a mão no fogo, não pomos mais a mão no fogo; descobrimos assim que há coisas “más” e percebemos que temos de saber quais são, onde está a fronteira do “mal”.
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Para funcionarmos na nossa sociedade é necessário que aprendamos um conjunto de regras e adoptemos um conjunto de procedimentos complexo. Isto não pode ser aprendido empiricamente, não podemos aprender a não roubar como aprendemos a não pôr a mão no fogo ou a não cair. Como podemos então aprender estas coisas sem ser por via empírica?
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Esta aprendizagem é o que se chama de “educação”. Basicamente, aprendemos isto associando a cada comportamento um prémio ou uma penalização. Ou seja, por via empírica na mesma, mas indirecta, tipo “reflexo de Pavlov”.
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Um prémio ou uma penalização??? Então não temos nós a Razão para nos dizer o que devemos ou não fazer?
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A Razão é muito importante, mas não tem o poder de nos comandar. Quem nos comanda é o Inconsciente – uma espécie de computador que temos na cabeça que opera numa linguagem-máquina que desconhecemos e que decide se fazemos isto ou aquilo. Através da Razão podemos aprender Matemática, Ciências, Contabilidade, muitas coisas, mas não é a Razão que determina o nosso comportamento.
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Isto é algo que a generalidade das pessoas se recusa a aceitar, o elevado conceito que fazemos de nós próprios não o permite.
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O Inconsciente não obedece à Razão; tem os seus mecanismos próprios de obter informações do mundo exterior, de construir o seu modelo de realidade, e de decidir em função desse modelo e da sua matriz afectiva, definida geneticamente ou dependente de factores que a Razão desconhece.
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A Razão pode ser usada para tentar convencer o Inconsciente disto ou daquilo, mas o Inconsciente não se deixa enganar facilmente: ou o que a Razão diz corresponde às suas informações e às coisas que o Inconsciente já anteriormente aceitou como verdade, ou então ele rejeita. Note-se que o Inconsciente não é casmurro, simplesmente desconhece o que seja obediência – não aceita um “porque sim”, tudo tem de ser logicamente consistente, no quadro do seu Modelo de Realidade. O pavloviano reflexo condicionado não é uma resposta estúpida e automática, é uma resposta inteligente, que mostra a existência de um processo de aprendizagem.
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É por isso que, por exemplo, se torna difícil deixar de fumar: para o Inconsciente o tabaco não faz mal, os seus sentidos não lhe dão essa informação relativamente ao tabaco, é apenas a Razão que lha dá, logo o Inconsciente ignora essa informação da Razão. E é por isso que uma forma de ajudar as pessoas que querem deixar de fumar é através de exemplos de malefícios do tabaco que penetrem directamente no Inconsciente. O mesmo em relação ao uso do preservativo.
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Um problema das normas de segurança é que as pessoas têm de ser sistematicamente treinadas no seu uso e penalizadas pelo seu incumprimento. Um trabalhador que usa capacete há uns anos e nunca serviu para nada, “aprendeu” que o capacete é inútil e deixará de o usar a menos que esteja sujeito a uma penalização imediata.
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Todos sabemos que o cinto de segurança salva vidas. Mas digam-me: usariam sistematicamente o cinto se a polícia não multasse? Alguns até poderão pensar que sim, mas não é verdade, ao fim de algum tempo deixariam de usar. Precisamos de sobreviver a um acidente para que o Inconsciente possa aprender, pelos seus mecanismos próprios, que o cinto faz falta. Na ausência disso, é preciso a Penalização pelo seu não-uso. A Razão é praticamente irrelevante no processo.
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Lembram-se dum filme recente em que um homem se torna invisivel e depois começa a fazer todo o tipo de crimes? Isso não é propriamente ficção, é assim que nos comportamos quando nos sentimos impunes. É por isso que as claques assaltam as estações de serviço onde passam, ou grupos de turistas tendem por vezes a actos de vandalismo no estrangeiro. É por isso que o Poder corrompe.
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O que a Razão faz é sobretudo construir argumentos que justifiquem as decisões que o Inconsciente já tomou. A Razão funciona a posteriori, mas cria-nos a ilusão de que o nosso comportamento tem a base racional que construímos para o justificar.
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Esta é a primeira coisa que é preciso ter presente: a Razão do educando quase não conta no processo educativo básico! Educar é estabelecer um diálogo com o Inconsciente. Para educar é preciso ser capaz de comunicar com o Inconsciente dos educandos, saber usar as “portas”, ter os “drives”.

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Vamos agora alinhar umas ideias sobre “educação”.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

A Manjedoura da Vida

. Josefa de Óbidos - Natividade

“Então, querem saber o que os Superherois andaram a fazer! Cusquinhas....”, eu a tentar trazer a Luísa e a Ana mais para a conversa.


Não me digas que depois dos amores dos átomos agora vamos ter Superamores!”, a Luísa ri-se com o desprendimento que a caracteriza.


“Amores não, mas romance!” O romântico Supercêodois materializa o seu amor com belos cristais que oferece à sua amada Superágua! Não é bonito?”


Eu preferiria diamantes, já agora...eheh


“Interesseira!! Diamantes? Poof, isso não passa de um cristal incolor, sem graça... o Supercêodois fez coisas muito mais belas! Claro que é preciso ter olhos de Superágua para apreciar a beleza única das construções que o Supercêodois fez.”

"Pronto, está bem, já me despertaste a curiosidade”, uma contagiante gargalhada, aquela explosão de alegria tão natural na Luísa, sublinha a frase, “diz lá o que é que o Super –cê-oohoh-dois inventou!”


“Ele fez uns cristais muito especiais... já que falamos em cristais... Mário, sabes como é que se produzem cristais, por exemplo, de quartzo?”


Isso é um teste? Eh eh... esqueces que estás a falar comigo por certo! Os cristais de quartzo produzem-se pelo método hidrotermal, que foi inventado pelo senhor Bunsen, muito conhecido dos alunos de química.


“E em que consiste?”


Então, usa-se a água como solvente a pressões e temperaturas elevadas; o Bunsen usou uma pressão de mais de 100 atmosferas e mais de 200 ºC para os cristais que fez, numas ampolas de vidro espesso, hoje usa-se uma autoclave. Pequenos grãos da substância a cristalizar são fornecidos ao solvente, saturando-o, e depois, por um abaixamento de temperatura, o solvente fica supersaturado e origina a cristalização.”


“Portanto, para produzir um cristal precisas de um solvente apropriado que, ao supersaturar origina o crescimento do cristal; e sabes porque é que eu estou a falar de cristais, não é verdade?”


Penso que sim, alguns cientistas sustentam que o processo de formação dos polímeros orgânicos deverá ter sido um processo do tipo da cristalização.”


“Aí está meninas, o que o Supercêodois fez: cristais orgânicos, longas cadeias de monómeros, fascinantes criações, cheias de beleza e variedade aos olhos encantados da Superágua!”


Aí está?!?”, o Mário com ar de meio-riso, “não estou a ver... fez como?”


“Ora ora Mário, estou surpreendido... “, tiro os gráficos da minha pastinha e mostro-o ao Mário, “olha aqui a temperatura e a pressão do H2O; penso que consegues descrever às nossas princesas como seria nos primeiros tempos a atmosfera terrestre, não é?”


O Mário lança-me um olhar entre o surpreendido e o curioso, debruça-se sobre os gráficos.
Bem, no primeiro meio milhar de milhão de anos, teríamos então uma atmosfera aí de 300 atm e uma temperatura de superfície de muitas centenas de graus segundo dizes; na base da atmosfera dominaria então o CO2 supercrítico, algumas quantidades doutros gases como o N2O, também supercrítico, a que se sobrepunha a tua Superágua, depois vapor de água e outros gases como o NH3.


“Exactamente!”, fiquei sinceramente surpreendido com a facilidade com que o Mário tinha identificado o cenário, “de certa forma, podemos dizer que o primeiro oceano foi de CO2, não é verdade?”


De certa forma sim... embora não seja o mesmo que um líquido, tem menos viscosidade e maior capacidade de difusão... vá lá, seria uma espécie de oceano eheh.”


Então, e o oceano de água?”


“Ana, a água líquida só apareceu quando a temperatura da Terra ficou abaixo da temperatura crítica da água, 374ºC, o que só aconteceu há 3,8 mil milhões de anos, cerca de 800 milhões de anos depois da sua formação; isto porque a Terra estava muito mais próxima do Sol do que está hoje, como vos disse.”


Então, existia uma espécie de oceano de CO2 e depois, há 3,8 mil milhões de anos, apareceu o oceano de água?”


“Exactamente Ana! Vejamos agora o que é que o Mário, grande especialista na formação de cristais, pensa que se poderia passar nessa espécie de oceano de CO2!”


Sendo o CO2 um solvente dos compostos orgânicos, parece-me que uma espécie de oceano de CO2 em arrefecimento seria um bom meio para os monómeros orgânicos se ligarem num processo com semelhanças com o crescimento dum cristal... ou seja, a Superágua ia fabricando os monómeros, fornecendo ao CO2, que ia formando os polímeros...


“Exactamente; e um dos problemas da formação dos polímeros é que a ligação entre os monómeros liberta moléculas de água e é preciso um meio que extraia essas moléculas de água, o CO2 podia ser esse meio.”


“...e podiam surgir polímeros autoreplicantes, que teriam condições ideias para a autoreplicação... embora a duplicação dos cromossomas seja um processo muito complexo, experimentem ir à Wikipedia consultar «replicação do ADN» e verão...”,


o Mário a pensar em voz alta, os olhos brilham agora com um entusiasmo novo, deixou cair a atitude de simpatia polida e distante,


“...o aparecimento da água veio estragar a festa dos polímeros no banho de CO2, será então com a água que as membranas ganham importância... não necessariamente, mesmo no oceano de CO2 podiam já ter servido para proteger uns polímeros de serem canibalizados por outros... e com a água acaba-se a «sopa orgânica»... hummm... com a água, a essa temperatura e pressão, os polímeros poderiam ser hidrolisados, desmontados... as membranas seriam indispensáveis à protecção dos polímeros...”,


o Mário está lançado, as hipóteses surgem-lhe na mente em catadupa, vou atalhar:


“Pois é, a água representou um desafio novo, seleccionou as estruturas formadas no oceano de CO2, que passaram a ter de existir num meio adverso, onde os nutrientes, ou seja, os monómeros, passaram a rarear; mas foi este meio adverso, a água, que forçou a degrau evolutivo seguinte, a criação da individualidade, ou seja, da célula; depois, esta tem de se dividir para aumentar as possibilidades de conseguir nutrientes – a célula que se divide tem vantagem sobre a célula que cresce.”


Mas isso não implica que se tivesse formado Vida!”, a Luísa espetando o dedo.


“Claro que não! Mas o Mário concordará que se tivesse de definir as condições ideais para se formar Vida, essas condições seriam estas ou próximas! A prova é que nós, quando pretendemos fabricar produtos semelhantes escolhemos este tipo de condições”, o Mário diz que sim com a cabeça.


E onde é que isso altera as contas do Fred Hoyle?”


“O Fred Hoyle fez as contas como se os átomos das 200 000 proteínas que usamos se tivessem juntado por acaso de entre os muitos átomos existentes; ora nas condições iniciais da Terra os monómeros formaram-se necessariamente e, portanto, a probabilidade é só a dos monómeros se ligarem pela ordem certa; depois, não é preciso as 200 000 proteínas para se formar a Vida, bastará umas moléculas de RNA encapsuladas; ele incluiu a evolução no cálculo mas essa é outra questão.”


Mas qual é a probabilidade pelas tuas contas então?”


“Neste modelo de Terra «autoclave», a quantidade de monómeros que se formam é muito elevada, basta pensar que existem perto de 10 elevado a 46 moléculas de água, ou seja, um “1” seguido de 46 zeros; o tempo para ensaiar diferentes combinações foi de centenas de milhões de anos, ou seja, uns 10 elevado a 16 segundos; nestas condições pode ser alta a probabilidade de obter sequências específicas de comprimento superior à centena de monómeros, o suficiente para iniciar processos de Vida; a formação da Vida na Terra passa de acontecimento improvável a acontecimento possível.”

"Então achas que não existiu a intervenção de um Criador?”


“Credo, que ideia! Eu sei lá se existiu um Criador ou não. Isso é irrelevante!! Porque, bem vês, se existiu um Criador da Vida, certamente que fez como nós faríamos: criou a vida usando os processos adequados. Ou seja, não esteve a ligar os átomos um a um em condições adversas. Com ou sem um Criador da Vida, as condições em que a Vida surgiu têm de ser as mais adequadas ao processo de fabrico das suas peças!”


Nunca tinha pensado nisso... ou melhor, não tinha pensado que pudessem existir condições aparentemente tão favoráveis...”


“O cenário que apresentei parece conduzir necessariamente ao tipo de estruturas de que a Vida é feita, portanto, o caminho para entender a Vida pode iniciar-se aqui. Mas só é possível encontrar este início sabendo o como e o porquê do fenómeno que faz a Terra afastar-se do Sol, a Lua afastar-se da Terra e o Universo parecer expandir.”


E quando é que vais falar disso?”, a Luísa sempre directa ao assunto.


“ Eh eh.. se eu te dissesse agora tu não irias acreditar, há umas quantas coisas que é preciso perceber primeiro... vais ter um choque tão grande como o dos contemporâneos de Galileu... tem calma, tem calma, que lá chegaremos!”


Sabes que há um brasileiro, como é que ele se chama... Félix de Sousa, que fez uma teoria, a Ecopoese, em que defende que a Vida teria de se originar em condições supercarbónicas do tipo do que tu dizes; o problema da teoria dele é que não tem maneira plausível de explicar como é que essas condições se produziram. É curioso porque a tua teoria de que a Terra estava mais próximo do Sol fornece exactamente as condições necessárias.”


“Olha que interessante! Tenho de ver isso! Mas não penses que a variação da distância da Terra ao Sol marca apenas a origem da Vida. Marca toda a evolução da Vida. Queres perceber porque é que os Dinossáurios, os seres vivos mais avançados na altura, se extinguiram, e outros mais primitivos não?”


Ena, então isto tem continuação!”, de novo o riso alegre e contagiante da Luísa.


Se marca toda a evolução da Vida, também marcará o nosso futuro?”, finalmente oiço a minha adorada Ana, que encontrou a oportunidade de fazer uma pergunta inteligente, como é seu timbre.


“Claro Ana! Queres saber o que A VIDA ESPERA DE NÓS?”

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Os Humanos não são Deuses

O Alf resolveu de vez em quando vir aqui dizer das dele. Enfim, há que ter alguma paciência... e sempre se vai aprendendo alguma coisa sobre os humanos...

Parece que os Humanos não percebem que não são deuses. A sua posição de superioridade em relação aos restantes habitantes da Terra impede-os de terem uma perspectiva das suas limitações.

E, como não são deuses, erram! Constroem sistemas, sociais, políticos, científicos, tecnológicos, convencidos de que esses sistemas são perfeitos; bem, se os humanos fossem perfeitos, qualquer sistema seria perfeito; mas como os humanos são limitados, nenhuma sistema é perfeito.

Convencidos como estão da perfeição dos seus sistemas, passam a vida a acusarem-se uns aos outros das coisas que não correm como gostariam.

É tão engraçado!!! A política não funciona porque os políticos devem ter sido escolhidos entre os piores, com a justiça idem, a polícia idem, a informação idem, o ensino idem, a ciência idem...

Diz a Alita que os humanos carecem sempre de encontrar um culpado para tudo o que lhes corre menos bem - evitam assim ter de fazer o esforço de compreender os problemas em toda a sua complexidade e ter de enfrentar as suas próprias responsabilidades. Thssss, thssss, thsss, assim não vão lá....

Esqueçam os "culpados". Simplesmente, os Humanos não são deuses, estão muito longe da perfeição. Aprendam com os erros e encontrem soluções para eles. Os erros são descobertas. Não dizem os Humanos que só não erra quem nada faz?

Os Humanos têm de construir o Paraíso na Terra! Ainda não conseguiram pois não? Então, vão em frente!

Ahh, e mais uma coisa: nesta vossa caminhada, as soluções que eram boas ontem são más hoje e as boas para hoje serão más amanhã. Por isso os sistemas têm de estar sempre em mudança, e isso é um bom sinal, sinal de que estão vivos e em movimento.

Tulito

terça-feira, dezembro 18, 2007

pseudo-ciência

Aqui e ali, a pouco a pouco, a ciência vai degenerando em pseudo-ciência, qual lepra tenebrosa que corroie a face e a alma da ciência. O falhanço das teorias fundamentais, que se mostram incapazes de prever ou explicar os resultados das observações que se fazem em áreas importantes, abriu a porta da oportunidade a alguns pseudo-cientistas, alimentados pelos media e por interesses políticos e económicos. Serão uma minoria, mas são suas as mãos que recebem dinheiro e poder e são, portanto, suas as mãos que comandam em vários domínios da Ciência.

Para que não pensem que isto são palavras ocas, aqui vos deixo uma entrevista do Rui Moura que mão amiga me enviou. Muito interessante e esclarecedora.

(a conversa do Jorge segue já já a seguir, não se impacientem)

Alf

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Fluidos Supercríticos: os Superheróis da Vida


. Jacques-Louis David– Eros e Psique


Nós, temerosas criaturas, vivemos obcecados com o poder destrutivo de qualquer coisa que seja mais poderosa do que cada um de nós. Quando falamos da força da Natureza estamos a falar das tempestades, dos furacões, dos terramotos, dos raios. Mas a força da Natureza não está nessas pequeninas perturbações que nos incomodam, evidentemente, está em todos os processos que mantêm a vida, que actuam duma maneira tão suave, poderosa e continuada que não damos por eles.”


Hummm.... estás a falar dos Superheróis então!! Ah ah!”, o vinho do jantar deve estar a subir à cabeça do Mário... mas até que não é má ideia!


Exactamente, Mário, acertaste!”, o Mário perdeu o riso subitamente, consegui surpreendê-lo, “A Natureza tem Superheróis que se encarregam de manter o Universo nos trilhos!”


Como é isso?


É verdade Luísa. E vou apresentar-vos os dois Superheróis que são responsáveis pela montagem do Boeing da Vida! Ou melhor, o Mário é que vai apresentar-vos!!”


Eu??? Que estás tu para aí a dizer? Quais Superheróis??”, a Luísa e a Ana desmancham-se a rir com o ar de pânico do Mário, continuo, sem evitar um sorriso maroto:


Sabes o que é um fluido supercrítico, não sabes?”


Claro que sei!!”, o Mário entre o sentir-se ofendido ou espantado.


Então explica aqui às nossas meninas o que é isso.”


Um pouco hesitante o Mário; percebo que está a ver se entende onde quero eu chegar; mas lá começa, a falar para elas e a olhar para mim pelo canto do olho:
Por exemplo, a água. Sabem que se aquecerem água, ela passa a vapor de água; se arrefecerem o vapor, condensa-se em água. Certo?


Sim, até aí ainda vamos!”, a Luísa com ar aliviado.


Pois bem, essa mudança de estado vapor-líquido deixa de ocorrer acima de determinada temperatura ou pressão. Se aquecerem água acima de 374 ºC, podem comprimi-la o que quiserem que ela nunca se torna líquida; se aumentarem a pressão acima de 218 atmosferas, também não é possível liquefazer a água. Acima de 374 ºC ou 218 atmosferas de pressão deixa de haver esses dois estados distintos, líquido e gasoso, para existir apenas uma variação contínua das propriedades do fluido «água» em função da pressão e da temperatura. O ponto 374 ºC e 218 atm chama-se o ponto crítico da água. Quando a água excede um pouco estes dois valores, diz-se que é um fluido supercrítico.”


Mas que estranho; mas aí a água comporta-se como líquido ou como vapor?”


Podes dizer que é uma espécie de líquido mais compressível... ou de vapor menos compressível e mais denso... enfim, está entre os dois, com propriedades que variam com a pressão e temperatura...”


E esse é que é o Superherói?”, a Luísa com ar algo desiludido.


Um deles! O outro é o Dióxido de Carbono.”


O Dióxido de Carbono?? Então esse não é o Vilão? Rimo-nos os três com a resposta da Luísa.


Então Luísa, não sabes que os Superheróis são sempre confundidos com Vilões?” Rimo-nos novamente, o vinho do jantar tinha tornado o riso fácil.


Já não me lembro exactamente do ponto crítico do Dióxido de Carbono...


73 atmosferas e 31 ºC.”


Então, nas condições iniciais da Terra, segundo as tuas ideias, teríamos Água Supercrítica e Dióxido de Carbono Supercrítico...”, o Mário sentia que estava a chegar perto do que eu queria dizer.


Exactamente! E já sabemos que uma mistura de água Supercrítica com Azoto, Oxigénio e, ou, Dióxido de Carbono, origina compostos de Azoto, porque é essencialmente nisso que consiste o processo industrial para a sua produção. Portanto, sem dúvida que a Água Supercrítica é um Superherói desta história, ou melhor, uma Superheroína! Ela é essencial à formação dos monómeros orgânicos.”


E, claro, o Dióxido de Carbono supercrítico há-de ser o Superherói! Só não entendo uma coisa: não dizes que o Dióxido de Carbono é quase inexistente na atmosfera, um gás raro?


Isso é hoje Luísa; a abundância do Carbono no Universo é muito grande, metade da do Oxigénio; se pensares que só o Oxigénio que existe na água hoje chega para 270 atmosferas de vapor de água já tens uma ideia da quantidade de Carbono que pode existir na Terra. A quantidade de Carbono sedimentar conhecida poderia ter originado cerca de 50 atmosferas de CO2 na Terra primordial. Tudo indica que a Terra terá tido uma importante quantidade de CO2, o qual diminuiu rapidamente por dissolução nos oceanos e por processos químicos.”


Mesmo assim, o Superherói era anão ao pé da Superheroína! Mulheres primeiro!”, a Luísa de punho no ar e ar de riso. “Não sabes que os homens não se medem aos palmos?” pergunto de imediato, possibilitando mais um momento de gargalhadas, que os vapores etílicos estavam a pedir. Recomeço:


Mário, sabes para que se usa industrialmente este Superherói?”


Bem, tanto quanto me lembro é um poderoso solvente de compostos orgânicos... usa-se, por exemplo, para extrair a cafeína do café...


Pois é, a Superheroína é especialista em lidar com os elementos, o Superherói com os compostos orgânicos. Vamos agora ver o que é que estes superheróis andaram a fazer na Terra primordial."

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Os Amores dos Átomos

As Estrelas fabricam incansavelmente elementos cada vez maiores, 10 protões no núcleo, 20, 100, ... mas são sempre átomos, não passam de átomos, e a partir de certo tamanho são instáveis, não adianta fabricá-los porque decompõem-se em pouco tempo. Mas como é isso o que as Estrelas sabem fazer, elas, incansavelmente, vão sempre fabricando átomos e espalhando-os pelo espaço circunvizinho, originando os sistemas planetários. Noutra altura contarei como nasce um Sistema Planetário, agora vou-vos contar a mais linda história de amor.”


Ah, isso sim, conta lá”, os olhos da Luísa a brilharem de entusiasmo,


Não há amor mais forte e constante que o do Hidrogénio e do Oxigénio. Sabem, os cientistas que deram nome aos elementos percebiam pouco destas coisas do Amor, coitados, sempre metidos nos seus laboratórios e, não percebendo que eles têm sexo, deram aos elementos nomes masculinos. E, imaginem, inventaram escalas de electronegatividade para medir uma coisa que não passa de atracção sexual!”


Ah ah”, ri-se o Mário, “Luísa, sinto que há uma grande electronegatividade entre nós!”, Luísa ri-se e eu continuo:


O Hidrogénio é um macho galanteador e apaixonado, mas o elemento mais abundante a seguir, o Hélio, é assexuado, um solitário convicto. As damas disponíveis são o Carbono, o Azoto, o Oxigénio e o Flúor. O Flúor é cá uma sereia... o Hidrogénio perde completamente a cabeça com o Flúor! Uma paixão tão intensa que pode acabar em explosão. Felizmente o Flúor é raro, se fosse abundante como os outros três teríamos um Universo muito truculento. O Carbono, ao contrário, tem claras tendências bissexuais, tanto fazendo uniões com o másculo Hidrogénio como com a feminina Oxigénio.”


Essa do Carbono bissexual é boa...”, o Mário está divertido com a ideia.


O Azoto (N) é uma fêmea pouco namoradeira, de sedução não percebe nada, e é preciso muita pressão para a conseguir convencer a unir-se seja a quem for. Digamos que é tipo Aquário, assim mais virada para a Amizade do que para o Amor.”


Ah ah, para o que te havia de dar!!”, o Mário está divertido, ainda bem, continuo:

É, pois, apenas com o Oxigénio que o Hidrogénio pode viver um grande amor, intenso, estável, fiel, dando origem ao mais abundante dos compostos, a Água.”


Mas o Oxigénio não é um elemento pouco abundante? pergunta a Ana.


Não, apenas o assexuado Hélio é mais abundante que o Oxigénio, excepção feita ao Hidrogénio evidentemente. O Carbono tem metade da abundância do Oxigénio e o Azoto apenas um sexto.”


Então a Água é o composto mais provável do Universo, resulta da ligação entre os dois elementos reactivos mais abundantes...”, a Ana a pensar em voz alta, imagino que estivesse convencida de que a água fosse rara...


A Água está para os compostos como o Hidrogénio para os elementos. E agora que estamos a par da dança amorosa dos elementos, é fácil entendermos o que aconteceu na Terra. Logo no início temos a formação de maciças quantidades de água. Como a Terra era muito quente, a Água só podia existir como vapor. Na Terra, existe hoje água que vaporizada originaria uma atmosfera 270 vezes maior que a actual, portanto este é o primeiro acontecimento da química terrestre, uma atmosfera de vapor de água possivelmente superior a 270 atmosferas, um ambiente dominado pelos 5 elementos a uma temperatura superficial de muitas centenas de graus. O que é que acham que vai acontecer?”


Suponho que o Carbono e o Azoto não se deixaram ficar solteiros, perdão, solteiras ahah...”, a Luísa sempre esperta.


Pois claro que não! Já vos disse que vapor de água a alta pressão e temperatura sobre carbono produz petróleo, ou seja, hidrocarbonetos, que são compostos de Carbono e Hidrogénio; e também vos disse que a essas pressões e temperaturas o Azoto condescende a ligar-se aos outro elementos”.


Portanto”, o Mário com ar interessado, “ formam-se todos os compostos simples entre os quatro elementos reactivos mais abundantes:

H e O formam água
C e O, o dióxido de carbono
H e N, a amónia
H e C, os hidrocarbonetos, que são o petróleo e o gás natural,
H, C e O, os hidratos de carbono, como os açucares,
H, C, N e O, os outros compostos de azoto da química orgânica
.”


Exactamente Mário, como já percebeste a Terra era uma espécie de autoclave gigantesca, produzindo as combinações possíveis dos 4 elementos reactivos mais abundantes, a que chamamos compostos orgânicos. Nessa autoclave produziram-se em quantidades maciças os tijolos que a Vida usa.” Observo o Mário pensativo, estranhará que afinal fosse tão fácil perceber como se formaram os tijolos da Vida.


Então porque é que fizeram aquele modelo com as faíscas para gerarem esses compostos?”, a Ana desconfiada.


Porque não perguntaram ao Jorge!”, o Mário desata a rir e contagia-nos. Lá me controlo. Ocorre-me responder com uma pergunta: “ E porque é que acreditaram durante tantos séculos que o Universo inteiro rodava à volta da Terra?”


Talvez porque tenhamos grande dificuldade em conceber modelos em conflito com a nossa experiência sensorial...”, o Mário a pensar em voz alta... estou a gostar de ouvir, eu já tenho dito que os cientistas tendem sempre para os modelos primitivos que resultam da nossa aprendizagem empírica através dos sentidos...


E aquela conversa da bissexualidade, o que é que tem a ver com a formação destes compostos?”


Então Luísa, não vês que é o Carbono, ao unir-se simultaneamente ao Hidrogénio e Oxigénio, que origina os hidratos de carbono, o primeiro composto de 3 elementos? Sem a bissexualidade do Carbono esta forte união não seria possível! E esta união é o núcleo de toda a química da Vida porque o Azoto apenas vai estabelecer uma relação de amizade, a que se seguirão outras. Todas essas relações de amizade são indispensáveis, mas o núcleo forte é a relação tripla do Hidrogénio, Carbono e Oxigénio; uma relação forte porque é uma relação de Amor, impossível sem a bissexualidade do, ou da, Carbono!”


Estás cá com uma conversa...eheh... Luísa, e se arranjássemos uma carbonazinha para formarmos um hidrato de carbono?”, o Mário está muito divertido. Nos olhos da Luísa corre um brilho travesso.


Estás sem sorte! Os hidratos de carbono engordam! E se arranjássemos antes um hidrogéniozinho para formarmos uma molécula de água?"


Bem, esquece, esquece, os amores dos átomos não são exemplo para nós eheh!”


Os olhos semicerrados da Luísa indicam-me que ela procura uma resposta... mas não, endireita-se, vai tentar falar a sério, vira-se para mim:
Esta tua interessante explicação ainda é apenas a primeira fase do processo da Vida; até agora, é apenas como se tivéssemos as peças dum avião; e a montagem das peças, a construção do avião?”


Como verás Luísa, os cálculos do Fred Hoyle estão errados; a magia do Universo em nada é inferior à do Luis de Matos: com a maior das facilidades realiza o que parece impossível!”


Sim?! Então explica!”