
Quem faz exame de condução é alguém que tem o objectivo de ter a carta de condução; o jovem estudante, ao contrário, não tem objectivo nenhum deste tipo, está na escola porque a isso é obrigado.
O “chumbo” num exame de condução, ou no fim de um curso profissional, ou de um curso universitário, não tem nenhum efeito de motivação, é apenas uma medida de uma aptidão conseguida ou não pela pessoa. A motivação está no objectivo, não no exame.
O que nos interessa saber é se o recurso ao “chumbo” na escolaridade obrigatória pode contribuir para a motivação dos alunos, ou seja, se a ameaça de “chumbo” permite melhorar o sucesso escolar.
O “chumbo” não é certamente uma recompensa, logo o papel que pode desempenhar é o de “penalização”; e pode fazê-lo de duas formas.
Uma forma é indirecta: é o sinal que é dado aos pais e são estes que verdadeiramente estabelecem a penalização.
Mas atenção: nem todos os pais o fazem. O sucesso escolar em Portugal está fortemente relacionado com a atitude dos pais: têm sucesso os filhos dos pais que fazem disso quase uma questão de vida ou de morte, falham os outros. Portanto, o “chumbo” não é capaz de ultrapassar as insuficiências dos pais, embora seja algo que os pais que se preocupam com o sucesso escolar dos filhos usam nas suas estratégias de motivação.
Mas o “chumbo” também é uma penalização directa para os alunos.
Salta à vista que é uma penalização muito diferente da dor provocada pelo fogo na mão ou a pancada com o jornal no cãozinho: a dor do “chumbo” não passa com o tempo, daí em diante o “chumbado” será sempre um aluno humilhado, os colegas de turma serão mais novos, é uma condenação de vários anos. Portanto, como humilha, é gerador de revolta, e não cumprirá adequadamente a função de informação do Inconsciente porque é uma agressão.
Como é um estigma, gera marginais. Tal como o ostracismo ou a marcação a fogo, que têm exactamente o objectivo de colocar pessoas fora da sociedade.
Note-se que, em parte, esse sempre foi um objectivo do sistema de ensino. Antigamente não se pretendia que todas as pessoas soubessem ler e escrever. O modelo de sociedade era o “formigueiro”, ou seja, é preciso pessoas ignorantes para fazerem trabalhos braçais, e uns quantos, mais sábios, para dirigir. Portanto, o sistema de ensino visava colocar cada um no seu “lugar” na sociedade “formigueiro”, uns como operários, outros como doutores. A ideia de “igualdade de oportunidades” é uma coisa ainda sem sentido, assustadora mesmo, para muita gente.
Portanto, o “chumbo” nos primeiros anos escolares funciona sobretudo como processo de separar os futuros operários dos futuros doutores e não como uma penalização. Notemos ainda o seguinte: para uma criança de 10 anos, um ano é um espaço de tempo subjectivamente tão dilatado como a duração de todo o curso superior quando entrar na universidade. Ora as ameaças perdem força com a distância, como é sabido. O efeito de “penalização” reside mais nas “faltas” e “notas intermédias” do que no “chumbo”.
No nosso sistema de ensino, é na relação professor-aluno que reside sobretudo a motivação para os mais jovens. Consegue bons resultados o professor que é capaz de estabelecer a adequada relação com cada um do seus alunos. Suponho que isto tenha raízes num tempo em que o professor era um Mestre.
Para verem como esta relação é importante posso citar a minha experiência pessoal: tive como professor de Física no antigo segundo ciclo dos liceus o professor Salvador do Carmo. Recordo-me que houve um período em que a nota mínima a Física na minha turma foi 14, num liceu em que essa era a nota máxima nas outras disciplinas; o professor Salvador do Carmo descontava meio valor por cada erro ortográfico, como uma vírgula mal colocada, nas respostas aos testes e dava matéria para além do programa. Era, pois, muito exigente. Sabíamos que era pessoa generosa e não me lembro de ele alguma vez ter dado uma falta de castigo a um aluno, numa época em que isso era trivial. Os outros professores diziam que só estudávamos Física mas não era verdade – a verdade é que saíamos da aula dele de cabeça iluminada e com a matéria já sabida.
Portanto, isto é um resultado possível. Mas não será um resultado ao alcance do comum dos mortais, nem é exigível à generalidade dos professores. Temos de procurar formas de conseguir um resultado destes com professores “normais”, ou seja, profissionais sérios mas não necessariamente “Mestres”.
Quando o sistema de ensino não consegue estabelecer processos de motivação nem existe uma acção social eficaz, o que acontece é que as classes sociais perpetuam-se, os filhos de doutores, doutores serão, os de operários serão operários como os pais.
É o que acontece em Portugal, de uma forma sem paralelo noutros países europeus.
Isto não acontece só por incompetência, acontece porque este é o tipo de sociedade que muitas pessoas querem, daí a falta de uma genuína vontade de mudar.
Qual a diferença civilizacional entre as pessoas que viviam na Península Ibérica há 2000 anos e as que viviam há 200 anos? Muito, muito pequena. E os Amishe pretendem ainda hoje viver numa sociedade completamente estagnada no tempo do seu fundador, não é verdade? O jogo dos interesses individuais conduz as sociedades humanas à estratificação e à estagnação, a evolução surge apenas pela mão de visionários.
Uma sociedade que visa a máxima formação de todas as pessoas é uma sociedade que poderá evoluir muito mais depressa, é o oposto da sociedade estratificada e estagnada. Isto tem uma exigência, porém: todas as actividades terão de ser consideradas igualmente dignas, porque sendo todos “doutores”, um doutor tanto pode trabalhar como juiz ou como homem do lixo.
Há ainda hoje uma alternativa: o homem do lixo é um imigrante. É a persistência da sociedade “formigueiro”, apenas a classe “de baixo” vem de fora por livre vontade.
No primeiro caso temos os países nórdicos, no segundo caso os restantes países do 1º mundo. Os países nórdicos são por isso fechados à imigração, pelo menos à imigração que possa desqualificar empregos.
Hoje não há alternativa à evolução da sociedade, a escola tipo “demónio de Maxwell” a separar "doutores" de "operários" não tem sentido, a única coisa que tem sentido é uma escola que visa a máxima formação para a sociedade do futuro e que, por isso, tem de conseguir a máxima motivação dos alunos.
Este é, portanto, o problema: maximizar a motivação dos alunos! Não é com “chumbos” que vamos lá, nem pode ser com recurso a professores excepcionais.
Sugestões?
Aqui vai uma:
Eu penso que uma boa solução é, como em quase todas as situações, uma solução próxima da realidade, que faça a pessoa enfrentar as consequências dos seus actos.
Um profissional pouco dedicado numa empresa moderna põe em causa o sucesso da empresa e é, por isso, pressionado pelos seus colegas de trabalho; ao jogador de uma equipa amadora que não se esforça acontece-lhe o mesmo; ou seja, qualquer situação em que o resultado se reflecte sobre todos mas depende do esforço de cada um, sem excepção, é altamente motivante, gerando internamente as recompensas e penalizações que maximizam os resultados.
Pode-se criar uma situação análoga nas escolas, pondo as turmas em competição.
Não é verdade que o ranking das escolas fez estas empenharem-se mais? Empenha-se a direcção, empenham-se os professores e empenham-se os próprios alunos. Pois é aplicar a mesma receita, agora ao nível da escola.
Se a as turmas estiverem em competição, cada um sentirá no concreto a relevância do seu esforço; será claro para todos que os que não se esforçam prejudicam os outros e ninguém vai querer ficar com esse ónus; os que se comportam mal nas aulas deixarão de ser uns “heróis”, que enfrentam a autoridade do professor, para passarem a ser alguém que está a prejudicar o esforço colectivo.
O professor passa a ser como o treinador da equipa de andebol, alguém crucial para o sucesso do grupo. Algum aluno se faz de palhaço num treino de andebol? Claro que não! Não é (apenas) por o andebol ser mais interessante que a História, é por o enquadramento ser diferente.
Lembram-se do Harry Potter? Slytherin e Gryffindor? Diz a Wikipedia:
“In the Harry Potter series, Hogwarts School of Witchcraft and Wizardry is divided into four houses, each bearing the last name of its founder: Godric Gryffindor, Salazar Slytherin, Rowena Ravenclaw and Helga Hufflepuff. The houses compete throughout the school year, by earning and losing points for various events, for the House Cup.”
Isto é não é uma invenção da Rowlings, é uma metodologia há muito usada nos colégios e universidades (Yale, Harvard) dos países de língua Inglesa – com uma diferença importante, não é uma competição entre “bons” e “maus”, é uma competição entre “bons” e “bons”.
Processos deste tipo são usados em empresas de mão-de-obra intensiva; e o que é uma escola senão uma empresa de mão-de-obra intensiva? O “produto”, aqui, é a totalidade de conhecimentos e capacidades adquiridos.
Outras sugestões?






