
Entretanto, tenho aqui algo diferente para postar. Alguns dos blogues que eu visito são de professores, onde naturalmente vem à baila o problema do “chumbo”. No “As minhas Leituras” comprometi-me a fazer uma posta sobre o problema. Aqui vai o que eu penso. Creio que ajuda a entendermos um pouco melhor certas caracteristicas do ser humano, pelo que estou certo que a Alita convencerá o Tulipo a perdoar-me... mas notem que eu não sou especialista nesta matéria, não sou o Mário, nem o Jorge, sou apenas o Alf...
Neste mundo “Plug & Play”, os equipamentos são muito inteligentes – por exemplo, liga-se a “pen”, ou a máquina fotográfica, na porta do computador e ele imediatamente “reconhece” o dispositivo. Ainda há limitações, ainda é preciso ligar um cabito, ou nalgumas situações, como fazer uma rede, é preciso dar algumas instruções. Algumas pessoas reclamam, ainda não faz tudo sozinho, não adivinha todos os nossos pensamentos; mas para lá caminhamos.
São muito inteligentes? Na realidade não. A inteligência que torna isso possível é a dos milhares de pessoas que trabalham para que assim seja. Todo o “conhecimento” dos nossos equipamentos é fornecido por humanos, descarregado através da internet. Estes nossos equipamentos domésticos são incapazes de comunicar com um dispositivo desconhecido – se não tivermos o “driver”, se ele não estiver disponível na Net, nada feito! E os diversos dispositivos têm de ter “portas” normalizadas, é claro.
A “inteligência” e o “conhecimento” dos equipamentos que construimos, por enquanto, são a do seu criador, isto é, nós. Face a uma situação não conhecida, não definida previamente, são incapazes prosseguir. Alguns até podem "aprender", mas apenas aquilo que já estão programados para aprender. Lidar com algo desconhecido é ainda impossível para os nossos equipamentos.
Nós, humanos, não somos assim tão diferentes; afinal, vimos equipados para comunicar uns com os outros, pode-se dizer que temos as “portas” necessárias a esta comunicação e os respectivos “drivers”, que nos permitem criar uma linguagem de comunicação. Mas, contrariamente aos nossos equipamentos, somos capazes de interagir com o mundo exterior em geral. Onde vamos buscar o conhecimento para isso?
Uma coisa parece certa: não dispomos desse conhecimento a priori. Só sabemos que o fogo queima depois de pormos a mão no lume. Nenhum Criador, nem nenhum gene, nos deu o conhecimento a priori deste mundo em que existimos (o que não quer dizer que, pontualmente, não possamos obter conhecimento de uma forma que não sabemos explicar – pelo menos o Jorge está certo disso).
Como não estamos dotados de um conhecimento a priori, teremos de estar preparados para descobrir este desconhecido mundo. Somos, portanto, exploradores do Universo.
Como é que fazemos isso?
A descoberta do Universo começa à saída do útero materno, quando arranhamos a cara com as unhas; prossegue quando damos uma queda e descobrimos, com surpresa, que faz dói-dói; pomos a mão no fogo, queimamo-nos, aprendemos que não devemos pôr a mão no fogo, não pomos mais a mão no fogo; descobrimos assim que há coisas “más” e percebemos que temos de saber quais são, onde está a fronteira do “mal”.
Para funcionarmos na nossa sociedade é necessário que aprendamos um conjunto de regras e adoptemos um conjunto de procedimentos complexo. Isto não pode ser aprendido empiricamente, não podemos aprender a não roubar como aprendemos a não pôr a mão no fogo ou a não cair. Como podemos então aprender estas coisas sem ser por via empírica?
Esta aprendizagem é o que se chama de “educação”. Basicamente, aprendemos isto associando a cada comportamento um prémio ou uma penalização. Ou seja, por via empírica na mesma, mas indirecta, tipo “reflexo de Pavlov”.
Um prémio ou uma penalização??? Então não temos nós a Razão para nos dizer o que devemos ou não fazer?
A Razão é muito importante, mas não tem o poder de nos comandar. Quem nos comanda é o Inconsciente – uma espécie de computador que temos na cabeça que opera numa linguagem-máquina que desconhecemos e que decide se fazemos isto ou aquilo. Através da Razão podemos aprender Matemática, Ciências, Contabilidade, muitas coisas, mas não é a Razão que determina o nosso comportamento.
Isto é algo que a generalidade das pessoas se recusa a aceitar, o elevado conceito que fazemos de nós próprios não o permite.
O Inconsciente não obedece à Razão; tem os seus mecanismos próprios de obter informações do mundo exterior, de construir o seu modelo de realidade, e de decidir em função desse modelo e da sua matriz afectiva, definida geneticamente ou dependente de factores que a Razão desconhece.
A Razão pode ser usada para tentar convencer o Inconsciente disto ou daquilo, mas o Inconsciente não se deixa enganar facilmente: ou o que a Razão diz corresponde às suas informações e às coisas que o Inconsciente já anteriormente aceitou como verdade, ou então ele rejeita. Note-se que o Inconsciente não é casmurro, simplesmente desconhece o que seja obediência – não aceita um “porque sim”, tudo tem de ser logicamente consistente, no quadro do seu Modelo de Realidade. O pavloviano reflexo condicionado não é uma resposta estúpida e automática, é uma resposta inteligente, que mostra a existência de um processo de aprendizagem.
É por isso que, por exemplo, se torna difícil deixar de fumar: para o Inconsciente o tabaco não faz mal, os seus sentidos não lhe dão essa informação relativamente ao tabaco, é apenas a Razão que lha dá, logo o Inconsciente ignora essa informação da Razão. E é por isso que uma forma de ajudar as pessoas que querem deixar de fumar é através de exemplos de malefícios do tabaco que penetrem directamente no Inconsciente. O mesmo em relação ao uso do preservativo.
Um problema das normas de segurança é que as pessoas têm de ser sistematicamente treinadas no seu uso e penalizadas pelo seu incumprimento. Um trabalhador que usa capacete há uns anos e nunca serviu para nada, “aprendeu” que o capacete é inútil e deixará de o usar a menos que esteja sujeito a uma penalização imediata.
Todos sabemos que o cinto de segurança salva vidas. Mas digam-me: usariam sistematicamente o cinto se a polícia não multasse? Alguns até poderão pensar que sim, mas não é verdade, ao fim de algum tempo deixariam de usar. Precisamos de sobreviver a um acidente para que o Inconsciente possa aprender, pelos seus mecanismos próprios, que o cinto faz falta. Na ausência disso, é preciso a Penalização pelo seu não-uso. A Razão é praticamente irrelevante no processo.
Lembram-se dum filme recente em que um homem se torna invisivel e depois começa a fazer todo o tipo de crimes? Isso não é propriamente ficção, é assim que nos comportamos quando nos sentimos impunes. É por isso que as claques assaltam as estações de serviço onde passam, ou grupos de turistas tendem por vezes a actos de vandalismo no estrangeiro. É por isso que o Poder corrompe.
O que a Razão faz é sobretudo construir argumentos que justifiquem as decisões que o Inconsciente já tomou. A Razão funciona a posteriori, mas cria-nos a ilusão de que o nosso comportamento tem a base racional que construímos para o justificar.
Esta é a primeira coisa que é preciso ter presente: a Razão do educando quase não conta no processo educativo básico! Educar é estabelecer um diálogo com o Inconsciente. Para educar é preciso ser capaz de comunicar com o Inconsciente dos educandos, saber usar as “portas”, ter os “drives”.
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Vamos agora alinhar umas ideias sobre “educação”.





