
“Hummm.... estás a falar dos Superheróis então!! Ah ah!”, o vinho do jantar deve estar a subir à cabeça do Mário... mas até que não é má ideia!
“Exactamente, Mário, acertaste!”, o Mário perdeu o riso subitamente, consegui surpreendê-lo, “A Natureza tem Superheróis que se encarregam de manter o Universo nos trilhos!”
“Como é isso?”
“É verdade Luísa. E vou apresentar-vos os dois Superheróis que são responsáveis pela montagem do Boeing da Vida! Ou melhor, o Mário é que vai apresentar-vos!!”
“Eu??? Que estás tu para aí a dizer? Quais Superheróis??”, a Luísa e a Ana desmancham-se a rir com o ar de pânico do Mário, continuo, sem evitar um sorriso maroto:
“Sabes o que é um fluido supercrítico, não sabes?”
“Claro que sei!!”, o Mário entre o sentir-se ofendido ou espantado.
“Então explica aqui às nossas meninas o que é isso.”
Um pouco hesitante o Mário; percebo que está a ver se entende onde quero eu chegar; mas lá começa, a falar para elas e a olhar para mim pelo canto do olho:
“Por exemplo, a água. Sabem que se aquecerem água, ela passa a vapor de água; se arrefecerem o vapor, condensa-se em água. Certo?”
“Sim, até aí ainda vamos!”, a Luísa com ar aliviado.
“Pois bem, essa mudança de estado vapor-líquido deixa de ocorrer acima de determinada temperatura ou pressão. Se aquecerem água acima de 374 ºC, podem comprimi-la o que quiserem que ela nunca se torna líquida; se aumentarem a pressão acima de 218 atmosferas, também não é possível liquefazer a água. Acima de 374 ºC ou 218 atmosferas de pressão deixa de haver esses dois estados distintos, líquido e gasoso, para existir apenas uma variação contínua das propriedades do fluido «água» em função da pressão e da temperatura. O ponto 374 ºC e 218 atm chama-se o ponto crítico da água. Quando a água excede um pouco estes dois valores, diz-se que é um fluido supercrítico.”
“Mas que estranho; mas aí a água comporta-se como líquido ou como vapor?”
“Podes dizer que é uma espécie de líquido mais compressível... ou de vapor menos compressível e mais denso... enfim, está entre os dois, com propriedades que variam com a pressão e temperatura...”
“E esse é que é o Superherói?”, a Luísa com ar algo desiludido.
“Um deles! O outro é o Dióxido de Carbono.”
“ O Dióxido de Carbono?? Então esse não é o Vilão?” Rimo-nos os três com a resposta da Luísa.
“Então Luísa, não sabes que os Superheróis são sempre confundidos com Vilões?” Rimo-nos novamente, o vinho do jantar tinha tornado o riso fácil.
“Já não me lembro exactamente do ponto crítico do Dióxido de Carbono...”
“73 atmosferas e 31 ºC.”
“Então, nas condições iniciais da Terra, segundo as tuas ideias, teríamos Água Supercrítica e Dióxido de Carbono Supercrítico...”, o Mário sentia que estava a chegar perto do que eu queria dizer.
“Exactamente! E já sabemos que uma mistura de água Supercrítica com Azoto, Oxigénio e, ou, Dióxido de Carbono, origina compostos de Azoto, porque é essencialmente nisso que consiste o processo industrial para a sua produção. Portanto, sem dúvida que a Água Supercrítica é um Superherói desta história, ou melhor, uma Superheroína! Ela é essencial à formação dos monómeros orgânicos.”
“E, claro, o Dióxido de Carbono supercrítico há-de ser o Superherói! Só não entendo uma coisa: não dizes que o Dióxido de Carbono é quase inexistente na atmosfera, um gás raro?”
“Isso é hoje Luísa; a abundância do Carbono no Universo é muito grande, metade da do Oxigénio; se pensares que só o Oxigénio que existe na água hoje chega para 270 atmosferas de vapor de água já tens uma ideia da quantidade de Carbono que pode existir na Terra. A quantidade de Carbono sedimentar conhecida poderia ter originado cerca de 50 atmosferas de CO2 na Terra primordial. Tudo indica que a Terra terá tido uma importante quantidade de CO2, o qual diminuiu rapidamente por dissolução nos oceanos e por processos químicos.”
“Mesmo assim, o Superherói era anão ao pé da Superheroína! Mulheres primeiro!”, a Luísa de punho no ar e ar de riso. “Não sabes que os homens não se medem aos palmos?” pergunto de imediato, possibilitando mais um momento de gargalhadas, que os vapores etílicos estavam a pedir. Recomeço:
“Mário, sabes para que se usa industrialmente este Superherói?”
“Bem, tanto quanto me lembro é um poderoso solvente de compostos orgânicos... usa-se, por exemplo, para extrair a cafeína do café...”
“Pois é, a Superheroína é especialista em lidar com os elementos, o Superherói com os compostos orgânicos. Vamos agora ver o que é que estes superheróis andaram a fazer na Terra primordial."




