
“Isso do acreditar ou não acreditar não pode ter lugar nas nossas conversas, o conhecimento não se constrói com isso”, digo com a naturalidade de quem diz uma banalidade. Tiro o gráfico do oxigénio da pasta e ponho-a em cima da mesa, virado para o Mário.
“Mário, o que achas disto?”
O Mário olhou atentamente a figura, mas não teve grande dificuldade em perceber do que se tratava.
“Então, isto é a Catástrofe do Oxigénio!”o Mário com ar de quem diz algo óbvio, forçando o espanto da Luísa e da Ana.
“A Catástrofe do Oxigénio?? De que raio estás tu a falar?” disparou a Luísa, como o maroto do Mário certamente já esperava, o seu sorriso travesso denuncia-o.
“Donde é que veio o Oxigénio que nós respiramos? Pensas que existiu desde sempre? Nada disso, estás muito enganada!!!”
“Então??”
“O Oxigénio só surgiu na Terra aí há uns 2,5 giga anos, ou seja, 2,5 biliões de anos, ou seja 2500 milhões de anos.”
“Essa é boa!”, Luísa não segurou o espanto, “Então como aparece o Oxigénio?”
“E é a isso que se chama a Catástrofe do Oxigénio??”, a Ana com o seu habitual ar céptico.
“Repara Ana, as células dessa altura viviam numa atmosfera sem oxigénio, eram anaeróbicas; ora as células anaeróbicas, quase todas, morrem na presença do oxigénio, que é tóxico para elas.”
“De certa forma, pode-se então dizer que as células desse tempo morreram em consequência da poluição que elas próprias causaram!”. O sorriso de Luísa denunciava o pensamento que lhe corria no cérebro. “Ora aqui está um grande argumento a favor do ambientalismo!”
“Sim, sim, já conheço a tua lenga-lenga”, Luísa ri-se.
“Mário, olha bem para o gráfico, essa é mesmo a curva da Catástrofe do Oxigénio?”
Mário olha-me de soslaio, desconfiado, observa novamente o gráfico, e comenta:
“O que eu me lembro é que até há 2,5 biliões de anos atrás o nível de Oxigénio seria muito baixo e que pelos 1,8 biliões de anos atrás já seria superior a 1% ou 2% da atmosfera. E lembro-me de ver esta curva em artigos sobre o assunto; ou esta ou uma muito parecida.”
“Sabes que há dificuldades com a origem biológica do oxigénio, não sabes?”
“Sim, a fotossíntese terá surgido uns 300 milhões de anos antes de haver vestígios do oxigénio; além disso, para que o oxigénio fique na atmosfera é necessário que os restos orgânicos não sejam reciclados, isto é, que se transformem em carvão ou óleos ou fiquem enterrados em sedimentos; humm, deixa lá ver que mais....
“Lembras-te do meu gráfico da temperatura?”
“Sim, porquê?”
“Quando a temperatura era muito alta, existia muito mais vapor de água, tornando a atmosfera muito maior.”
“Claro, a atmosfera inicial era uma atmosfera de vapor, isso é sabido!”
“Se considerarmos que na Terra inicial o que existia era o que existe agora, essa atmosfera de vapor seria mais de 270 vezes a atmosfera actual, tal é a quantidade de água actual, não é?”
“Suponho que sim, o triplo da atmosfera de Vénus, não é?”
“Lá estás tu! Mas se está mais que provado que não existia Oxigénio para que é que vou supor isso?”
“Pois”, atalho, evitando o embaraço do cálculo mental, “ seria menos de 0,4% do nível actual, ou seja, 0,07%!!! Estás a perceber?”
“Estou... é como se o Oxigénio... quase não existisse....”
“Exactamente. À medida que a temperatura vai descendo, o vapor de água vai condensando-se, formando os oceanos. Aqui tens a curva da diminuição da atmosfera e a do crescimento dos oceanos”.

“Essa curva do Oxigénio é a que resulta simplesmente da diminuição da atmosfera e, no entanto, está de acordo com as observações. Interessante, não concordas?”
“ Sii...iim”, o Mário anui, hesitante. Um súbito entusiasmo ilumina-lhe o olhar: “Claro, torna muito mais fácil entender o fenómeno! E a curva dos oceanos também está de acordo com o que me lembro!” Um desalento súbito: “Mas isto é no pressuposto da tua ideia maluca de que a Terra se está a afastar do Sol...”
“Maluca?!” Que linguagem científica é essa?”.
“ Sim, mas as leis físicas não prevêem a variação das órbitas no tempo, para isso seria preciso que a constante gravitacional variasse no tempo.”
“Estás enganado, a constante gravitacional não varia e as órbitas variam.”
“Que estás para aí a dizer? Nunca ouvi falar nessa possibilidade!”
“Duas chaves?”, interroga Ana.
“Ah, sim, já me lembro.Mas ainda não tinhas falado nesta!”
"Pois, sempre a tirares coelhos da cartola..."
“Esqueço as teorias? Isso seria negar o Conhecimento!”
“Pois, mas é aí que reside a diferença entre Ciência e Religião. O que disseste foi o que disseram ao Galileu e ao Newton; mas um verdadeiro cientista, como o Einstein, sabe que todas as teorias são temporárias; cem anos foi o prazo previsto por Einstein para aparecer uma teoria que suplantasse a sua própria.”
“Cem anos? Já passaram, O Einstein falhou essa ehehe”
“Eu sei que os paleontólogos não têm dúvidas de que o passado da Terra é quente, em face das evidências geológicas e biológicas, mas ainda não se atreveram a propor uma variação de temperatura dessas...”.
“Pois não; como não conhecem nenhum fenómeno capaz de suportar um tão lento arrefecimento da Terra, têm dificuldade em aceitar a plenitude dos factos.”
“Quais factos?”
“Por exemplo, os factos que designam como Mistérios! Os fenómenos que já não ocorrem na Terra!”
“Então Luísa, por exemplo, já não se cria Vida pois não? Todo o ser vivo que existe hoje na Terra descende doutro, não é?”
“Ahh, vamos finalmente à criação da Vida!”, a Ana exulta mas eu estrago-lhe logo a alegria:
“Mas antes temos de analisar outros fenómenos desta classe!”, afirmo com ar decidido. “Por exemplo, o Mistério da Dolomite. Mário, sabes o que é, não sabes?” e pisco um olho ao Mário.
“ Claro que sei! O da Dolomite, ou o do Petróleo, substâncias que se formaram abundantemente num passado remoto em condições de pressão e temperatura que já não existem na Terra. Esse é um tema muitíssimo interessante.” Mário percebeu a piscadela e entrou no meu jogo de arreliar a Ana.
“Oh não! É muitíssimo interessante para vocês, decerto, mas não é para mim! Ou vamos falar da origem da Vida ou vamos para o Bairro Alto, não vou desperdiçar a minha noite em conversas de geologia!”
O Mário e eu rimo-nos a bom rir, sobretudo com o ar espantado da Ana com o nosso riso. “Pronto Ana”, lá consegui dizer, “ vamos então falar da Origem da Vida!”










