quarta-feira, outubro 17, 2007

A Catástrofe do Oxigénio


Ver que confiança nos pode merecer o teu gráfico da temperatura terrestre?!?”, a Ana solta uma gargalhada e conclui: “Jorge, eu não tenho dúvidas nenhumas de que se o apresentaste é porque estás muito seguro de que está certo! Risos. A Ana continua, um pouco embaraçada com o meu olhar reprovador:eu estou só a ver se evito que fiques o resto da noite a provar por A mais B que a tua curva de temperatura está certo e acabamos por sair daqui ainda sem perceber nada sobre a origem da Vida!”, as faces coraditas pelo riso e pelo embaraço.

“Isso do acreditar ou não acreditar não pode ter lugar nas nossas conversas, o conhecimento não se constrói com isso”, digo com a naturalidade de quem diz uma banalidade. Tiro o gráfico do oxigénio da pasta e ponho-a em cima da mesa, virado para o Mário.
“Mário, o que achas disto?”

O Mário olhou atentamente a figura, mas não teve grande dificuldade em perceber do que se tratava.

Então, isto é a Catástrofe do Oxigénio!”o Mário com ar de quem diz algo óbvio, forçando o espanto da Luísa e da Ana.

A Catástrofe do Oxigénio?? De que raio estás tu a falar? disparou a Luísa, como o maroto do Mário certamente já esperava, o seu sorriso travesso denuncia-o.

Donde é que veio o Oxigénio que nós respiramos? Pensas que existiu desde sempre? Nada disso, estás muito enganada!!!”

Então??”

O Oxigénio só surgiu na Terra aí há uns 2,5 giga anos, ou seja, 2,5 biliões de anos, ou seja 2500 milhões de anos.

Essa é boa!”, Luísa não segurou o espanto, “Então como aparece o Oxigénio?

Bactérias, cara Luísa, foi a Vida que produziu o Oxigénio que agora temos! Já ouviste falar da fotossíntese? Foi o aparecimento desse processo na Terra que produziu o Oxigénio que existe!”

E é a isso que se chama a Catástrofe do Oxigénio??”,
a Ana com o seu habitual ar céptico.

Repara Ana, as células dessa altura viviam numa atmosfera sem oxigénio, eram anaeróbicas; ora as células anaeróbicas, quase todas, morrem na presença do oxigénio, que é tóxico para elas.”

De certa forma, pode-se então dizer que as células desse tempo morreram em consequência da poluição que elas próprias causaram!”. O sorriso de Luísa denunciava o pensamento que lhe corria no cérebro.Ora aqui está um grande argumento a favor do ambientalismo!”

“Não te entusiasmes antes de tempo Luísa” e, numa voz de reco-reco:” Deus é subtil Luísa, o que parece nunca é, os raciocínios simplórios são sempre errados...”

Sim, sim, já conheço a tua lenga-lenga,
Luísa ri-se.

“Mário, olha bem para o gráfico, essa é mesmo a curva da Catástrofe do Oxigénio?”
Mário olha-me de soslaio, desconfiado, observa novamente o gráfico, e comenta:

“O que eu me lembro é que até há 2,5 biliões de anos atrás o nível de Oxigénio seria muito baixo e que pelos 1,8 biliões de anos atrás já seria superior a 1% ou 2% da atmosfera. E lembro-me de ver esta curva em artigos sobre o assunto; ou esta ou uma muito parecida.”

“Sabes que há dificuldades com a origem biológica do oxigénio, não sabes?”

“Sim, a fotossíntese terá surgido uns 300 milhões de anos antes de haver vestígios do oxigénio; além disso, para que o oxigénio fique na atmosfera é necessário que os restos orgânicos não sejam reciclados, isto é, que se transformem em carvão ou óleos ou fiquem enterrados em sedimentos; humm, deixa lá ver que mais....
O Mário fechou os olhos num esforço de concentração... haveria mais qualquer informação na formidável base de dados do enciclopédico Mário...
Ahh, há um problema com os ultravioletas, parece que é necessário um nível mínimo de 0,2% para formar ozono para protecção contra eles, o que significaria um nível mínimo de 0,2% há 3,5 biliões de anos! “

Sabe cada coisa este Mário... ponho-lhe na frente o gráfico da temperatura
“Lembras-te do meu gráfico da temperatura?”

“Sim, porquê?”

“Quando a temperatura era muito alta, existia muito mais vapor de água, tornando a atmosfera muito maior.”

“Claro, a atmosfera inicial era uma atmosfera de vapor, isso é sabido!”

“Se considerarmos que na Terra inicial o que existia era o que existe agora, essa atmosfera de vapor seria mais de 270 vezes a atmosfera actual, tal é a quantidade de água actual, não é?”

“Suponho que sim, o triplo da atmosfera de Vénus, não é?”

“Exactamente. Então agora supõe que a quantidade de Oxigénio que existia no início era a que existe agora.”

“Lá estás tu! Mas se está mais que provado que não existia Oxigénio para que é que vou supor isso?”

“Calma! Diz-me lá, se existisse a mesma quantidade de Oxigénio, qual seria a sua percentagem nessa atmosfera?”

Mário baqueia. De repente percebe onde eu quero chegar. Começa a fazer contas. Então, o nível actual é de 21%, nessa altura seria 270 vezes menos...”

“Pois”,
atalho, evitando o embaraço do cálculo mental, “ seria menos de 0,4% do nível actual, ou seja, 0,07%!!! Estás a perceber?”

“Estou... é como se o Oxigénio... quase não existisse....”

“Exactamente. À medida que a temperatura vai descendo, o vapor de água vai condensando-se, formando os oceanos. Aqui tens a curva da diminuição da atmosfera e a do crescimento dos oceanos”.
Ponho o novo gráfico em cima da mesa, ao lado do gráfico do Oxigénio; circula pelos três, que o observam cuidadosamente em silêncio. Ficam à espera que eu continue.

“Essa curva do Oxigénio é a que resulta simplesmente da diminuição da atmosfera e, no entanto, está de acordo com as observações. Interessante, não concordas?”

Sii...iim, o Mário anui, hesitante. Um súbito entusiasmo ilumina-lhe o olhar: Claro, torna muito mais fácil entender o fenómeno! E a curva dos oceanos também está de acordo com o que me lembro!Um desalento súbito:Mas isto é no pressuposto da tua ideia maluca de que a Terra se está a afastar do Sol...”

“Maluca?!” Que linguagem científica é essa?”.
Rio-me. “A única medida duma variação das órbitas é a da Terra-Lua; ora a Lua está a afastar-se da Terra exactamente à mesma taxa que eu considerei para o afastamento Terra-Sol!! Eu não disse nada que não esteja de acordo com os factos; está é em desacordo com as tuas presunções, mas isso não é problema meu, estou como o Newton, hypoteses non fingo, não faço hipóteses.”

Sim, mas as leis físicas não prevêem a variação das órbitas no tempo, para isso seria preciso que a constante gravitacional variasse no tempo.”

“Estás enganado, a constante gravitacional não varia e as órbitas variam.”

“Que estás para aí a dizer? Nunca ouvi falar nessa possibilidade!”

“Pois não ouviste, embora o próprio Newton tenha pensado nisso; há uma propriedade comum a todas as leis físicas que esconde uma das duas chaves que permitem descodificar o Universo que conhecemos.

Duas chaves?”, interroga Ana.

“Já vos falei de que existe uma escondida no teorema de Pitágoras...”

Ah, sim, já me lembro.Mas ainda não tinhas falado nesta!”

"Pois, sempre a tirares coelhos da cartola..."

“ Eh eh, cada coisa a seu tempo! Mas não te preocupes Mário, por agora basta que sigas o método científico, isto é, que olhes para os factos e esqueças as teorias e presunções eheheh.”

Esqueço as teorias? Isso seria negar o Conhecimento!”

“Pois, mas é aí que reside a diferença entre Ciência e Religião. O que disseste foi o que disseram ao Galileu e ao Newton; mas um verdadeiro cientista, como o Einstein, sabe que todas as teorias são temporárias; cem anos foi o prazo previsto por Einstein para aparecer uma teoria que suplantasse a sua própria.”

“Cem anos? Já passaram, O Einstein falhou essa ehehe

“Não falhou não... Como é que tu pensas que eu sei que a Terra se está afastar do Sol? Por inspiração divina? Talvez uns extraterrestres me tenham dito eheheh.
Mas nota o seguinte: a minha curva da temperatura pode ser deduzida de dois factos, a inexistência de água até há 3,8 biliões de anos e o decrescimento quase linear da temperatura nos últimos 100 milhões de anos; portanto, ela é a interpretação directa das observações”.

Eu sei que os paleontólogos não têm dúvidas de que o passado da Terra é quente, em face das evidências geológicas e biológicas, mas ainda não se atreveram a propor uma variação de temperatura dessas...”.

“Pois não; como não conhecem nenhum fenómeno capaz de suportar um tão lento arrefecimento da Terra, têm dificuldade em aceitar a plenitude dos factos.”

Quais factos?”

“Por exemplo, os factos que designam como Mistérios! Os fenómenos que já não ocorrem na Terra!”

Fenómenos que já não ocorrem? O que é isso?

“Então Luísa, por exemplo, já não se cria Vida pois não? Todo o ser vivo que existe hoje na Terra descende doutro, não é?”

Ahh, vamos finalmente à criação da Vida!”,
a Ana exulta mas eu estrago-lhe logo a alegria:

“Mas antes temos de analisar outros fenómenos desta classe!”, afirmo com ar decidido. “Por exemplo, o Mistério da Dolomite. Mário, sabes o que é, não sabes?” e pisco um olho ao Mário.

Claro que sei! O da Dolomite, ou o do Petróleo, substâncias que se formaram abundantemente num passado remoto em condições de pressão e temperatura que já não existem na Terra. Esse é um tema muitíssimo interessante.” Mário percebeu a piscadela e entrou no meu jogo de arreliar a Ana.

Oh não! É muitíssimo interessante para vocês, decerto, mas não é para mim! Ou vamos falar da origem da Vida ou vamos para o Bairro Alto, não vou desperdiçar a minha noite em conversas de geologia!”

O Mário e eu rimo-nos a bom rir, sobretudo com o ar espantado da Ana com o nosso riso. “Pronto Ana”, lá consegui dizer, “ vamos então falar da Origem da Vida!”

sexta-feira, outubro 12, 2007

Os Desafios da Vida


Ena, Tulito, estás muito pensativo, o que se passa? Esta missão está a desarmonizar-te?

Nem imaginas o que me saiu na máquina de inteligência artificial....

Então?

Fica para depois, quero fazer umas verificações primeiro. Fala-me mas é tu do tal assunto muito importante que ficou no ar.

Não é nada que nós não soubéssemos já, é algo que ultrapassámos com facilidade, o problema está em que as características mentais deles estão a criar uma situação em que eles não só não identificam o problema como o vão precipitar.

Deixa-te de considerandos e passa aos finalmentes, Alita.

Uiii, não estás nada bem não... mas eu não estou a divagar, já sabes que tenho de seguir o meu raciocínio...

Pois, já sei, as fêmeas não têm o poder de síntese dos machos em espécie nenhuma ehehe... segue lá o teu raciocínio!

Ainda bem que contribuí para o bem-estar do teu ego masculino. Responde-me lá a esta questão: qual é o primeiro grande problema de sobrevivência que a Vida enfrenta?

Além do Evento Solar?

Claro; esse não é um problema de fundo, é pontual, há sempre sobreviventes.

A diminuição progressiva de temperatura?

Bem, esse é, tens razão, mas esse é um problema que a vida ultrapassou pelos seus próprios recursos. Eu refiro-me ao primeiro problema que exige uma actuação específica da espécie inteligente.

O esgotamento dos biocomponentes?

Claro! Estava a ver que nunca mais lá chegavas!

Estava a pensar que te referias a alguma coisa dramática, pelo teu ar, Alita...

Não é um problema dramático, mas estes humanos estão em vias de o transformar em tal.

Como assim?

Qual é o primeiro biocomponente a faltar?

O Azoto. Os compostos de azoto bio-utilizáveis. Mas eles já ultrapassaram isso, produzem esses compostos industrialmente...

Claro. Os compostos de Azoto já não são produzidos no planeta deles há vários milhares de milhões de anos e a quantidade inicial vai saindo fora do bio-ciclo, diminuindo a quantidade utilizável; os seres vivos têm uma reduzidíssima capacidade de fixar o Azoto. Nós resolvemos o problema investindo na proliferação das formas vivas capazes de fixarem o Azoto, eles resolveram industrialmente.

E onde é que está o grande problema?

Calma Tulito! Qual é o segundo grande biocomponente a faltar?

O carbono. Ou melhor, o dióxido de Carbono.

Claro. O Dióxido de Carbono é essencial à Vida. Mas é um gás reactivo, solúvel na água e que se combina com outros elementos formando compostos que os seres vivos não processam. A imensa quantidade inicial de dióxido de Carbono vai desaparecendo ao longo do tempo e, a partir de uma certa altura, a quantidade da biomassa passa a ser proporcional à quantidade de dióxido de carbono, diminuindo à medida que este vai diminuindo.

Ainda não disseste nada de novo, Alita. Esse é um processo lento. Há muitos milhões de anos que eles estão nessa fase.

Pois estão. A biomassa no tempo dos dinossáurios era muito maior que a actual, mas à medida que o dióxido de carbono foi diminuindo, assim foi diminuindo a biomassa. Hoje, a vegetação é quase toda anã e os animais, com a única excepção das baleias, também o são. As plantas já nem crescem a partir de certa altitude. Grande parte do planeta já não tem vida quase nenhuma. Mas eles não têm consciência disso, medem tudo sempre em relação a eles próprios, eles pensam que a fauna e a flora no tempo dos dinossáurios é que era gigante, vê lá tu!

Pois, eu sei. A biomassa, portanto a quantidade e tamanho dos seres vivos, diminui proporcionalmente ao dióxido de carbono. Mas eles estão numa era em que a produção de energia se faz com produção de dióxido de carbono, o que irá equilibrar o processo o tempo suficiente para encontrarem forma de ultrapassar essa dificuldade.

Chegaste ao busílis da questão! É que os paleontólogos humanos cometeram um erro com consequências dramáticas.

????? Os paleontólogos???

Sim. E dada a capacidade tecnológica que eles parecem ter, a ocorrência em breve do Evento Solar até pode ser uma sorte... uma tragédia que evitará outra maior...

De que raio estás a falar, Alita?

Eh eh, não te preocupes, já percebi que este erro não pode aguentar-se muito mais... mas sabes quem acaba de ganhar o Nobel da Paz?

Explica-te de uma vez, Alita, não comeces com os teus números de suspense. O que tem a ver o Al Gore com os paleontólogos e o Nobel da Paz com essa putativa tragédia que eu ainda não percebi qual é?

quinta-feira, outubro 11, 2007

O que vale a Verdade para os Media


Acabo de ver um episódio de uma esplendorosa série inglesa sobre o rei Henrique VIII, creio que no canal 1, onde assisti pasmado ao casamento da irmã do rei, Margarida Tudor, com um rei Português, podre de velho, que a dita Margarida assassina com uma almofada, para poder regessar a inglaterra com o amante inglês. Claro que a corte portuguesa era um bando de saloios, contrastando com o bem parecido amante inglês.


Acham bem? Aguma vez ouviram falar desta rainha de Portugal? Pois, eu também não. Vejam o que consta na Wikipedia sobre a dita senhora:


"Pelo Tratado de Paz Perpétua, assinado entre Henrique VII e Jaime IV da Escócia, foi acertado o casamento entre Margarida e o monarca escocês, dezesseis anos mais velho que ela... O casal teve seis filhos, mortos na infância, exceto o quarto, o príncipe Jaime.
Quando seu marido foi assassinado, em 1513, seu filho tornou-se Jaime V."


Viram, afinal, não foi com o rei de Portugal, foi com o da Escócia!!!


Que tal este exemplo da qualidade das verdades veiculadas pelos media? E isto numa matéria que qualquer um pode entender. Imaginem agora o que se passará nos que versam temas "científicos"...


Imagem: Margarida Tudor, fonte Wikipedia

terça-feira, outubro 09, 2007

A Dança dos Planetas


“O clima terrestre se a Terra estivesse onde está Vénus? Então, era capaz de ser parecido com o de Vénus hoje....”, a Ana não se sentia nada segura neste palpite.

“Pois é, Ana, é capaz de ser isso. Mas podemos testar essa possibilidade. Primeiro, deixem mostrar-vos como varia a distância entre a Terra e o Sol ao longo do tempo, considerando que a Terra se tem vindo a afastar do Sol à mesma taxa que a Lua se está a afastar do Terra, e eu sei que é mesmo assim”. Abri a pastinha que tinha trazido para esta conversa e pus em cima da mesa a primeira das figuras.


Estão a ver? A Terra já esteve mais perto do Sol do que Vénus está hoje, e daqui a cerca de 5 mil milhões de anos, ou seja, 5 giga anos, estará tão longe como está hoje Marte”.
Ana e Luísa olharam interessadamente para figura, Mário hesitou entre mostrar ou não interesse; a curiosidade acabou por vencer:

Isto considerando a mesma taxa de afastamento da Lua, dizes tu?”. Percebo que na cabeça de Mário se agita a afirmação de que o afastamento da Lua seria uma consequência do efeito de Maré; apetece-lhe dizer isso mas ele sabe que não existe a mais pequena confirmação, nem teórica nem experimental, de tal hipótese; resolvo-lhe a hesitação avançando na conversa:

Exactamente Mário. Agora, sabendo como variou a distância e sabendo também como tem variado a energia radiada pelo Sol, a fazer fé no modelo actualmente aceite pela ciência, é fácil estimarmos a variação da energia recebida na Terra por metro quadrado, ou seja, a irradiação solar”.
Abri novamente a pastinha e exibi a segunda figura:



Ora aqui está!” – exclamei - “como podem ver, há 4,2 mil milhões de anos a irradiação na Terra seria a mesma que Vénus recebe hoje!”

Então há 4,2 Ga a temperatura da Terra seria de 450ºC, na tua opinião?” - Mário ostentava um sorriso maroto.

Aproximadamente”.

Já viste o que isso implica? Não existiria água à superfície da Terra, teríamos apenas uma atmosfera de vapor!”

Claro”, respondi tranquilamente, “e era uma atmosfera de respeito, porque se a água que existe actualmente na Terra se vaporizar, gera uma atmosfera imensa, com uma pressão atmosférica superior a 270 atmosferas, ou seja, 270 vezes a pressão atmosférica actual. O triplo da atmosfera de Vénus, que é de apenas umas 90 atmosferas! Na Terra não existia água líquida não. Mas sabes onde é que existia água no estado líquido nesses tempos recuados?”
"Não entendo o que queres dizer – Mário ficou baralhado com a pergunta.

Em Marte! Porque Marte também se tem vindo a afastar do Sol!”, respondi de pronto
Água em Marte?”, admirou-se Luísa; olhou para mim e depois para o Mário, em busca duma confirmação.

Sim, já ouvi falar nisso”, entusiasmou-se a Ana.

Há, de facto, algumas análises que sustentam terem existido em Marte grandes cursos de água, mesmo oceanos, aí há uns 3,8 Ga, o Mário entre o doutoral e o desconfiado, não lhe agradava certamente estar a fornecer provas que sustentassem as minhas bizarras teorias...

Exacto”, atalhei de pronto, “existem evidências de que correria água em Marte; mas existe uma evidência ainda mais importante do que essa: a de que não existia água à superfície da Terra até há 3,8 Ga!

Não existia água?!? Que queres dizer com isso?” – a Ana estava a ficar baralhada.

Eh eh , eu esclareço: não existia água porque ela não estava no estado líquido. Existia vapor de água na atmosfera mas não existia água líquida à superfície! Estava toda no estado de vapor!”

Ah, estou a perceber, queres dizer que a temperatura da Terra seria superior a 100ºC”, comentou a Luísa.

Que ideia Luísa! Nada disso! A temperatura da Terra teria de ser superior a 374ºC! Não é Mário?” – uma oportunidade de envolver Mário na conversa, eu bem percebia que ele se queria manter à margem para não ser associado ao que eu fosse dizer. Ele não resistiria a mostrar o seu conhecimento. O Mário pensou uns segundos e concordou:

Certo Jorge. A água só ferve a 100ºC à pressão atmosférica normal, ou seja, à pressão de uma atmosfera. Se a pressão for maior, a temperatura a que ferve também é maior. Lembram-se das panelas de pressão?”

Ana e Luísa entreolharam-se. Dizia-lhes qualquer coisa o nome de panela de pressão, mas obviamente não era utensílio que usassem. Até que a Luísa disse:”eu lembro-me que a minha mãe usava uma, mas confesso que não sei porquê...

Numa panela de pressão, à medida que a água que está lá dentro vai aquecendo, o vapor de água vai aumentado a pressão lá dentro, por isso se chama panela de pressão. Isso faz com que a temperatura da água possa subir acima dos 100ºC sem ferver, o que permite cozer a uma temperatura mais alta, logo com maior rapidez, perceberam?”

Ahh, então é por isso que era tão popular!”, exclamou Luísa, rindo-se. Mário continuou:

Na Terra acontece o mesmo: se a temperatura for subindo, a água vai evaporando; como há muita água na Terra, a pressão atmosférica vai subindo e a água nunca chega a ferver. Isto até se atingir a temperatura de 374ºC, a chamada temperatura crítica da água. A esta temperatura a água já não pode ser liquefeita por maior que seja a pressão. É por isso que o Jorge diz que há 3,8 Ga a temperatura da Terra teria de ser 374ºC, porque abaixo dessa temperatura existiria água no estado líquido e acima não”.

Muito bom este Mário, pensei com os meus botões. Sem preparação, soube explicar o assunto duma maneira que me pareceu clara. Ana e Luísa pareciam esclarecidas, olhavam agora para mim à espera da continuação.
Admitindo então que a água surge nessa altura, obtemos um dado precioso: ficamos a saber que há 3,8 Ga a temperatura da Terra era de 374ºC. E, com isso, podemos saber algo muito importante!”

O quê?”, interrogou o Mário, meio sorriso.

Lembram-se daquelas continhas sobre a temperatura da Terra e de Vénus em que se concluía que uma atmosfera de nuvens como as da Terra e de Vénus teria uma sensibilidade térmica de 0,35ºC/W? Ou seja, por cada W a mais de irradiação a temperatura sobe 0,35ºC, lembram-se disso?” . Ana e Luísa assentiram vagamente com a cabeça. Não desmoralizei e continuei:
"Bem, agora podemos fazer as mesmas contas comparando as condições na Terra há 3,8 Ga e as actuais. E sabem que valor obtemos para a sensibilidade térmica?”

Qual?

"Obtemos 0,34 ºC/W. Ou seja, o mesmo valor, dentro da margem de erro da data!”

Senti que o meu ar triunfante contrastava com as expressões de perplexidade que me rodeavam. Tentei ser mais claro:
Reparem, este valor foi agora obtido por uma via completamente diferente; no entanto, este cálculo baseado nas condições terrestres em duas épocas muito diferentes veio confirmar o valor obtido comparando Vénus e Terra na actualidade. Isto vem-nos dar confiança para este valor. E isso é muito importante sabem porquê?”

Explica lá”, antecipou-se Mário

Porque agora podemos fazer uma estimativa da variação da temperatura da Terra ao longo do tempo, dado que sabemos a irradiação e a sensibilidade térmica. E o que se obtém é isto!”- da pasta tirei a terceira folha e coloquei-a em cima da mesa, exibindo, triunfante, o gráfico da temperatura.

Isto é muito bonito”, retorquiu o Mário após uns segundos a examinar o gráfico, “mas onde estão os factos que comprovam isto? Meu caro Jorge, se isto fosse verdade, não faltariam evidências!!”

Mas é que não faltam mesmo Mário, queres ver?”
Espera aí, esclarece-me aqui uma coisa antes de prosseguires” – interrompeu Ana – “se Marte teve água e oceanos, um clima parecido com o da Terra hoje, enquanto a Terra era ainda um inferno quente, quer isso dizer que a Vida surgiu primeiro em Marte? – os olhos de Ana brilhavam de dúvida e de excitação.

Eh lá, espera aí “, ri-me, “é ainda cedo para falarmos da origem da Vida. Vamos primeiro ver que confiança nos pode merecer este gráfico da temperatura terrestre.”

quinta-feira, outubro 04, 2007

O Primeiro Amor


Conta lá então a tua teoria sobre o atraso científico deles, Alita.

Bem, para começar, nós fomos mal informados sobre o estádio de desenvolvimento em que eles se encontram.

Como assim?

Não é habitual a fase tecnológica desenvolver-se tanto antes da fase científica, e isso terá levado a um erro de apreciação do desenvolvimento deles.

Estás a dizer que eles ainda não entraram na fase científica?

Estão na fronteira, quase entraram com Galileu, Newton, Einstein, mas depois resvalaram.

Como assim?

Estás a repetir-te muito Tulito! Ah ah ah, parece que hoje sou eu quem dá as novidades aqui!

Deixa-te de coisas e explica-te.

Bem, temos de voltar à plasticidade do cérebro deles. Como achas que será a primeira percepção que eles têm do Universo?

Então, que o Universo é feito de matéria e espaço vazio, Céu e Terra, um Sol que traz o dia, sei lá que mais... uma percepção antropomórfica e imediatista das informações dos sentidos... como nós, há uns milhares de anos...

Isso tudo e mais uma coisa: eles como que gravam uma fotografia de como vêem o Universo na sua infância e essa imagem estabelece o modelo de Universo que ficará com eles toda a vida.

E então?

Estás distraído? Eu não te falei na grande plasticidade do cérebro deles? Este primeiro modelo do Universo vai estruturar o seu cérebro. Tão marcadamente como o conceito de linha recta, por exemplo.

Não sei, eles desenvolveram outros modelos do Universo, disparatados mas diferentes desse, não estou a ver que estejas certa, Alita.

Parece-te que são diferentes. Podem até nascer diferentes. Mas depois tendem sempre para esse modelo.

Por exemplo?

Bem, o de Aristóteles corresponde exactamente ao modelo primitivo que descreveste, não é verdade?

Sim, mas e o modelo actual, o tal do Big Bang? É verdade que é estupidamente antropomórfico, mas as outras características não estou a ver...

Repara no que se tornou o modelo: segundo ele, o Universo será feito de matéria, matéria negra e energia negra. Mas na vizinhança deles não existe matéria negra nem energia negra, nem expansão do espaço, nada disso, apenas matéria ordinária e espaço ordinário, invariante; à distancia, ou seja, no “céu”, ao contrário, quase que só existe matéria negra e energia negra, representando 96% do Universo! E isso é por enquanto, porque à medida que forem aumentando o rigor das medidas terão de concluir que a matéria ordinária é incompatível com o modelo.

Estou a perceber, é a mesma visão dicotómica do modelo de Aristóteles, que é a mesma do modelo primitivo. E estou a gostar de ver esse teu ar de olhos esbugalhados de espanto, ficas muito bonita assim!

Cala-te! Tinhas de acrescentar um disparate à coisa certa que disseste. Mas é isso. A geometria é diferente, claro, mas a natureza conceptual do modelo é a mesma. O conceito de “Terra” alargou-se à galáxia e, tal como no modelo de Aristóteles, tem um “céu” distante onde existe uma coisa desconhecida e com propriedades inimagináveis, a matéria negra, e onde existe uma coisa que suporta os astros, impedindo-os de colapsarem, a energia negra. O conceito cósmico é basicamente o mesmo, apenas os nomes são outros.

Bom, isso que dizes faz algum sentido, eu já me tinha interrogado como tinha surgido um disparate assim.

Mas repara que um disparate destes só é possível porque eles se encontram ainda na fase tecnológica, fazem apenas modelos matemáticos dos dados, não fazem modelos físicos, como Galileu, Newton ou Einstein tentaram fazer, ainda que primitivos.

Pois, isso já eu percebi.

O aspecto importante para a nossa missão é o seguinte: o modelo primitivo que fazem do Sol, como algo que é fonte da luz, do calor, da vida, eterno e protector, impede-os de descobrir a verdade. Já viste a teoria deles para a formação do Sistema Solar?

Pois, tão inacreditável como o modelo do Big Bang.

Exacto. Mete-se pelos olhos dentro como é que o sistema solar se formou. Está escrito em todos os seus detalhes, são inúmeras as evidências que mesmo isoladamente dizem logo como é que os planetas se formaram. No entanto, eles como que se recusam a ver isso e insistem numa hipótese obviamente impossível, que eles sabem que é impossível porque andam há décadas a tentar modelar e não conseguem.

Estou a perceber, a verdade é contrária ao modelo primitivo que eles têm do Sol. A hipótese correcta é logo eliminada nos níveis profundos do seu cérebro, pois entra em conflito com as ligações neuronais que a percepção primitiva estabeleceu. Como eles se encontram ainda na fase tecnológica, nada sabem de geração de hipóteses e não têm forma de tornear isso.

Bingo. Já percebeste porque é que eles vão falhar a previsão do próximo Evento Solar!

Sim, preocupante.

Preocupante? Ah, mas espera aí porque eu descobri algo ainda mais preocupante!

Mau... deixa-me digerir isto primeiro, tenho de pôr as ideias em ordem porque esta informação vai alterar os meus cenários. Vou usar a máquina de inteligência artificial para verificar umas coisas.

Está bem. Mas despacha-te porque o outro assunto é importante.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Homo Sapiens Societaris


Tulito, já percebi porque é que os humanos ainda têm um conceito do Universo tão atrasado.

Porque são muito estúpidos?

Lá estás tu! Estupidez não pode ser a resposta: a tecnologia deles impressiona!

Está bem, está bem, não resisti a ser engraçado, já sabes como sou, Alita. Conta lá.

O cérebro deles tem uma curiosa propriedade: os seus circuitos neuronais são moldados pelas coisas em que acreditam.

Como é isso?

Quando o cérebro deles aceita uma coisa como verdadeira, todas as hipóteses geradas pelo seu inconsciente passam a ter que satisfazer essa “verdade”. Ora em vez do cérebro continuar a gerar múltiplas hipóteses e depois analisar e rejeitar as que contrariam essas “verdades”, ele cria ligações neuronais que só permitem a geração de hipóteses compatíveis com essas “verdades”. Digamos que a rejeição de hipóteses “falsas” é feita logo ao nível do “hardware” e não por “software”.

Portanto, estás a dizer que, contrariamente a nós, a estrutura física do cérebro deles depende das coisas em que acreditam?

Exacto. É uma forma de o cérebro conseguir ser mais eficiente. Quando a sobrevivência pode depender da rapidez de decisão e o cérebro ainda é relativamente lento, esta solução permite maior rapidez de decisão, maior eficiência.

Então é uma vantagem?

É uma forma de tornar o cérebro mais eficiente em situações rotineiras, vantajosa nas espécies inferiores, mas tem um grave inconveniente quando se trata da espécie mais avançada.

Qual?

O seu cérebro fica moldado pelas “verdades” em que acredita. Fica incapaz de gerar hipóteses contrárias a essas “verdades” e incapaz de entender qualquer ideia externa que as contrarie.

Ahh, estou a perceber o problema... as “verdades” deles podem não ser verdades nenhumas e o cérebro deles fica prisioneiro de crenças erradas, impossíveis de corrigir porque moldadas no próprio “hardware” do seu cérebro.

Exactamente. Mas nota que isto também acontece connosco, esta é uma propriedade geral dos seres vivos. A diferença está em que neles esta plasticidade cerebral é muito mais marcada do que em nós. Na espécie dominante esta característica deve regredir, foi o que aconteceu connosco, mas neles aumentou.

E porquê?

Eu penso que terá a ver com uma longa fase de sobrepopulação com que tiveram de viver; a organização em grupos dava vantagem, tanto maior quanto maior o grupo. Porém, para conseguir grupos grandes e coesos era necessário uniformizar o pensamento.

Estou a ver, estou a ver: os que têm um cérebro menos moldável perdem-se em dúvidas, contestam as ordens dos chefes, não aderem a grupos, acabam preteridos pela sociedade deles.

Certo. Os humanos com cérebros menos moldáveis terão sido descriminados negativamente, a sua sobrevivência e reprodução foi pior do que a dos “moldáveis”.

Estou a ver: as sociedades deles criaram uma pressão evolutiva que favoreceu a capacidade de ser moldado pelas ideias, ou seja, de ser crente. Crente no sentido geral, não me refiro ao aspecto religioso.

Exacto. Já viste os animais domésticos deles? Os cães?

Sim. O que têm?

Os cães descenderão do lobo mas foram sucessivamente seleccionados para servir o humano. Assim, a generalidade dos cães está geneticamente condicionada para viver com os humanos, para os servir, para os adorar, para recorrer a eles na resolução dos seus problemas.

Estou a compreender. As sociedades humanas fizeram aos humanos o mesmo que os humanos fizeram aos lobos.

Aproximadamente. E daqui resultam dois graves problemas. Um deles é responsável pelo atraso científico dos humanos, o outro pela facilidade com que são manipuláveis por ideias completamente erradas. E descobri que este último problema pode ter uma consequência inesperadamente séria, muito mais grave que o Evento Solar que aqui nos trouxe. A sua alta capacidade tecnológica associada a esta limitação pode causar um estrago definitivo à vida no planeta fora dos oceanos.

De que estás tu a falar?

Ah ah, já vi que prendi a tua curiosidade! Deixa-me começar pelo problema responsável pelo atraso científico.



Foto: S. Roque e o seu cão, Praga (da Wiki)

sábado, setembro 15, 2007

Dois Universos


Ana corta a galhofa e puxa a conversa para onde lhe interessa:
“Jorge, não estamos aqui para isso, estamos aqui para tu nos falares da história da Vida na Terra, tu prometeste!”

Pousa o copo de vinho branco e percebo que se esforça por manter um ar sério. Luísa secunda-a:
“Isso Jorge, agora queremos ouvir-te!” E bebeu mais um gole do seu copo como se assim selasse a mudança de assunto.

Olho lentamente para os três, leio a expectativa nos olhos da Ana e da Luísa, Mário nada diz. Começo então, com um arzinho de mistério que me parece adequado à criação de um ambiente favorável:
“Quando a Terra se formou, as coisas eram muuuuito diferentes...”

“Claro, que novidade! A Terra estava muito quente inicialmente, o processo de colisões que formou o planeta gerou muita energia térmica. A Terra levou uns milhões de anos a arrefecer”.
O Mário não se conteve, pelo vistos o meu ar de mistério não lhe agradou.

“Achas que sim?”, pergunto.

“Se acho? Tenho a certeza! Uns largos milhões de anos.” Respondia sériamente, ignorando ostensivamente o meu ar entre o brincalhão e o misterioso. Replico, manhoso:
“E arrefeceu muito?”

“Muito mesmo! Arrefeceu até ficar congelada. Totalmente congelada!”

“Totalmente congelada? Como é isso?” admira-se Luísa, meio a sério, meio a rir-se.

“É que a actividade das estrelas aumenta ao longo do tempo. Nos primórdios da Terra, o Sol radiava menos energia do que hoje. É por isso que a Terra esteve congelada até há umas centenas de milhões de anos atrás.”

É chegada a altura de contestar; sinto a minha expressão deslizar para a dúvida enquanto digo:
“A sério? Mas olha que os estudos que tenho visto de registos geológicos e biológicos concluem que a Terra sempre foi mais quente e que os gelos são um fenómeno recente.”

“Essas evidências são dificeis de interpretar
, o Mário recorre ao ar de autoridade, “mas a teoria estelar é sólida, o que não deixa dúvidas nenhumas: a Terra foi uma bola de gelo durante milhares de milhões de anos!”

“Ou seja
”, altura de atirar uma farpa, “das evidências conclui-se uma coisa, da teoria outra, logo as evidências estão erradas, uma vez que a teoria não pode estar... esse tipo de argumentação remonta à época do Galileu, não te parece?”

A Ana solta uma sonora gargalhada. A Luísa interroga Galileu porquê? Não estou a perceber?”, a Ana explica:

Não te lembras de os cientistas do tempo de Galileu se recusarem a espreitar pela luneta porque se a teoria dizia que os corpos celestes eram perfeitos seria inútil observá-los? O Mário está a fazer o mesmo: se a teoria diz que a Terra esteve sempre congelada no passado, é inútil observar os vestígios geológicos e biológicos do passado.”

Mário responde muito calmamente: não sou eu quem o diz, a teoria não é minha, é a teoria da Snow Ball Earth e é sustentada pelos melhores cientistas da actualidade. Mas já percebi que tens outra teoria Jorge. Conta lá então.

O Mário exibe um sorriso, está satisfeito com a forma como se retirou desta discussão, sinal de que não será fã da teoria. Altura de eu recomeçar:
“Quando a Terra se formou as coisas eram muito diferentes... porque a Terra estava muito mais perto do Sol do que está hoje!”

Ah ah ah”, o Mário solta uma sonora gargalhada, “Essa é muito boa. Nunca tinha ouvido disparate semelhante!!!”

A Ana agita-se e salta em minha defesa:
Eu estou a perceber!”, diz, com um brilho nos olhos, A expansão do espaço tem vindo a afastar a Terra do Sol! Claro que, se o espaço expande, necessariamente a Terra estava mais próxima do Sol antigamente! Óbvio!

Oiço-me a pensar: grande Ana, nada como as pessoas que não sabem matemática para destapar as aberrações lógicas das teorias matemáticas.

Que disparate!”, o Mário assume o ar doutoral, “a expansão do espaço não actua no Sistema Solar. Os seus efeitos são apenas a nível extragaláctico!”

Como é isso? O espaço fora das galáxias expande e dentro não?

Exacto!

E como é que o espaço sabe se está fora ou dentro da galáxia?, diz a Luísa com um sorriso mordaz, ela adora picar o Mário nas suas certezas. Uma manifestação da forte atracção sexual entre os dois, por certo...

Não fui eu quem fez o Universo eheheh”, o Mário ri-se, agora menos doutoral, “a sério, o fenómeno da expansão do espaço só se verifica em grande escala, é por isso que não existe ao nível da galáxia.”

Não estou a perceber...”, a Ana não desistia facilmente das suas ideias, ...como é que o espaço pode expandir numa escala grande e não expandir numa escala pequena? Se eu fizer uma parede de tijolos, pode a parede aumentar se os tijolos não aumentarem?”

O Mário agita-se na cadeira. Hesita na explicação que os cientistas costumam usar nestas ocasiões, ou porque calcula que eu a contestaria ou porque sabe que não é correcta. Aproveito o momento:
“Eu explico, eu explico. A teoria da expansão do espaço, na verdade, tornou-se na teoria da expansão do Céu! Basicamente, o que a teoria diz actualmente é que na nossa vizinhança, o universo é feito das coisas que conhecemos, matéria e espaço, obedecendo às boas leis da Física clássica e da Relatividade, sendo a matéria e o espaço eternos e invariantes ; lá longe, fora da galáxia, o Universo é feito de coisas completamente desconhecidas, a que se chama matéria negra e energia negra, e o espaço expande!

“Bolas, parece que estás a descrever o modelo de Aristóteles”,
exclama a Luisa.

Grande Luísa, murmuro para dentro, “Mas é que é o mesmo modelo! Conceptualmente, é o mesmo modelo, apenas a escala é diferente, o “Céu” agora é mais longínquo. A matéria negra é a nova versão da matéria etérea de Aristóteles e a energia negra corresponde à esfera que suportava os astros."

É só disparates o que vocês dizem”,
o Mário agora com um ar aborrecido, “a teoria da expansão do espaço é uma complexa teoria matemática, não pode ser interpretada nem explicada com raciocínios simples. Se querem entender, têm de estudar toda a matemática que a suporta. Se não sabem, não podem entender, tão simples como isso.”

A Ana, que detesta que lhe respondam como se fosse uma criança pequena, decide encarrilar a conversa:
“Vamos mas é ouvir o que o Jorge tem para dizer. Afinal, foi para isso que nos reunimos.”

Percebo que tenha de fazer um ponto prévio ou estarei sempre a ser interrompido pelo Mário.
“Mário, o Universo que tens na cabeça é constituído em mais de 96% por matéria negra e energia negra, que são coisas indescritíveis em termos físicos, e cheio de propriedades que apenas o poder da matemática permite ir descrevendo, sendo completamente inacessível à compreensão do comum dos mortais. Um Universo que devia caminhar para o caos mas faz o contrário em consequência de constantes de valor crítico, de coincidências e de acontecimentos de baixíssima probabilidade. Ou seja, um Universo de transcendências e milagres."

Uma pequena pausa. Mário não contesta. Prossigo:

"O Universo de que eu vou falar é o contrário de tudo isso, cheio de magia mas sem nenhum milagre. Ao contrário do teu, é um universo que podemos ir entendendo. Por isso, ouve-me como se eu estivesse a falar de outro universo, o que pensas saber deste não interessa nada porque o Universo que vou descrever não é o que conheces. Entendes?”

Ou seja, queres que eu me comporte como se estivesse a assistir a um filme de ficção!”

“Exactamente, é mesmo isso. Até porque, por agora, eu não vou entrar em explicações, vou apenas descrever como se estivesse a ver”

“Podemos, finalmente, ouvir a tua história da vida na Terra, Jorge?”

“É para já, Ana! Como eu disse, a Terra estava mais perto do Sol no princípio; estava aproximadamente onde está hoje Vénus, a energia que recebia do Sol era quase o dobro da que recebe hoje. Podem imaginar como seria o clima terrestre na altura?”

terça-feira, setembro 11, 2007

O Puzzle encaixou!


É isso! Subitamente, a penumbra do quarto pareceu encher-se de luz; todos os pensamentos, as análises, os dados, as conjecturas formavam um grande arco na frente dos meus olhos, tudo fazia agora sentido, tudo tinha ficado unido pelo impulso que as palavras da Ana tinham imprimido ao meu pensamento. A Inteligência, a Evolução, a coesão dos povos, o fim dos impérios, a disputa entre avisar e não avisar, o sentido de tudo isso era agora claro! Era o cimento que unia agora as minhas teorias. Tantas vezes me interroguei sobre o porquê dos impulsos para esses assuntos tão desviados dos meus objectivos e agora aí estava a resposta clarinha como água! Incrível! Impensável! Afinal, não sou um mensageiro da desgraça, a minha mensagem, a minha descoberta, é a da salvação! Que alívio. Dia 7 de Setembro de 2007, o dia em que finalmente eu percebo o sentido de tudo isto.

Será mesmo? Ou será que a angústia de me sentir mensageiro da desgraça me criou uma solução fictícia para meu alívio? Não, não me parece uma solução fictícia. Só pode ser isto.

Sinto uma paz tão grande que até temo perder o ímpeto para continuar. É a busca que me move mas agora a busca cessou e eu perco-me na contemplação da extasiante descoberta. Sinto-me leve e também extremamente cansado. Esvaziado. Um renascer, preciso de renascer. Reordenar de novo todos os elementos. Repensar o que devo fazer. Repensar? Talvez não, talvez o melhor seja esperar serenamente. Deixar que a Inspiração faça o seu trabalho sem muitas interferências da Razão. Ela já provou saber mais do que a Razão.

segunda-feira, setembro 03, 2007

O que se segue

Nas próximas 3 semanas é possível que a actividade do blogue seja quase nula – um intervalo antes de entrarmos numa nova fase, a fase 2

Nesta fase 2, Jorge irá descrever a fascinante aventura da Vida na Terra, que é bastante diferente do se pensa e que nos fará compreender o papel crucial que a Inteligência humana tem a desempenhar para que a Vida se possa perpetuar.

A seguir, Jorge descreverá outra fascinante história: a história passada e futura do Universo. Todos os grandes mistérios conhecidos, excepto a própria criação, serão esclarecidos. Além de fascinante, é também uma história cheia de surpresas, simplicidade, magia

Ambas serão apenas descrições – o relato do que um observador veria. Não há porquês nem explicações – isso caberá à fase 3.

Em paralelo, surgirão acontecimentos algo tipo “Dan Brown” mas com uma diferença fundamental: estão para além da imaginação. E não está na nossa mão saber até que ponto o que se dirá é verdade ou não. Mas temos de o descobrir.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Sua Alteza Sereníssima o Sol


Vamos lá então ver se conseguimos imaginar um processo de o Sol esconder de nós o bater do seu coração. Dei-vos uma pista: água a ferver! Isto sugeriu-vos alguma coisa? Em que consiste este fenómeno?


É uma mudança de estado... líquido para vapor...

Certo... e...?

E a temperatura da água não varia...

Exacto! Apesar do constante fornecimento de energia, a temperatura não varia! E não varia porque toda essa energia é absorvida na mudança de estado. Ora bem, há um fenómeno no Sol semelhante à vaporização da água. Chama-se ionização. Sabem o que é?

É a perda de electrões dos átomos

Muito bem. Vejamos o que se passa com o átomo de hidrogénio, mais de 9o% dos átomos do Sol, e se compõe simplesmente de um electrão a orbitar um protão.
Na zona mais externa do Sol, esta estrutura mantém-se estável, enquanto no interior profundo do Sol as condições energéticas são tais que arrancam o electrão: o hidrogénio desaparece, desfaz-se em protões e electrões.

São as camadas convectiva e radiativa do Sol

Vejo que estudaste o Sol. Explica lá isso aos outros, se fazes favor.

A zona convectiva é a externa e a radiativa fica entre esta e o núcleo do Sol. Na zona externa, o transporte de energia para o exterior é feito pelos átomos, que se movimentam e que transmitem a sua energia uns aos outros por contacto; na zona radiativa, a energia já não é transportada pela matéria mas pela radiação, sucessivamente absorvida e re-radiada pelos átomos.

E isso são dois estados da matéria? Como água e vapor?

Não... isso tudo está certo, mas permitam-me uma colherada. O que é realmente importante, na minha análise, é se os átomos de hidrogénio estão ou não ionizados. Na zona profunda estão ionizados, na zona superficial não estão. E estes é que são os dois estados da matéria, como vapor e água.

Ionizado corresponde a vapor?

Exactamente. A outro nível, mas é na mesma um processo de dissociação, não de átomos ou moléculas, mas das próprias partículas atómicas. A uma gás ionizado chama-se “plasma” e considera-se este o quarto estado da matéria: sólido, liquido, gasoso e plasma. Em qualquer dos casos, a mudança para o estado seguinte consome energia.



Humm, estou a ver... então a fronteira entre a zona ionizada e não ionizada é como a superfície da água a ferver?

Não será exactamente, mas tem as suas semelhanças. Seria complicado entrar agora em detalhes.

Mas no Sol o processo está ao contrário: o “lume” está do lado do “vapor”...

Pois é, mas isso não vai impedir pessoas com a nossa imaginação de perceber o que acontece quando esse “lume”, como muito bem disseste, varia, pois não?

Então... quando aumenta a energia... aumenta a ionização...

Lógico. E como é preciso muita energia para ionizar um átomo, esse é um processo muito eficiente de absorção das variações da energia solar: essas variações são convertidas em mudança de estado, entre plasma e gás. Estão a ver?

Sim

E reparem também no seguinte: se não fosse este processo de ionização, o escoamento dum excesso de energia produzida seria lento; então, como a energia produzida cresce com a energia acumulada, facilmente o Sol entraria num processo explosivo. É este processo de ionização que garante estabilidade ao Sol.

Estou a ver que o Sol é uma máquina muito bem construída...

Podes dizê-lo. Mas o Sol é uma máquina muito mais espantosa do que o que imaginas.

O Rei Sol!!

Rei? Ahahah estás enganado! O Sol não é um Rei, é uma Rainha!

Rainha? Como é isso?

Pois, altura de falarmos das manchas solares.

foto Sol: Nasa; desenho: www.infomet.com.br/imagens/s_plasma1.gif