
Hoje não te escapas eheheh. Jorginho, isto não é só mandar bocas, é preciso ter as respostas. O papel da Ciência é esse, o de dar respostas!
Estás a falar de quê?
Ficaste de explicar como é que o Universo evolui no sentido da complexidade em vez de evoluir para o caos, não te lembras? Esta noite não dormi por causa disso e agora quero ter a certeza de que tu... tu não sabes a resposta eheheh!
Não te fies muito nisso – respondeu-lhe Luísa, com um sorriso maroto, sempre pronta a provocar o Mário. Riu-se, com o seu riso solto e contagiante.
Sabes o que é inteligência? - Atirei
Se sei o que é inteligência? A que propósito vem essa pergunta?
Nós somos seres inteligentes, não é verdade? Onde reside a nossa inteligência? Será uma característica sobrenatural ou, pelo contrário, será o resultado de fenómenos naturais que ocorrem no cérebro, dos nosso circuitos neuronais?
Claro que é dos nossos circuitos neuronais!
Não será assim tão claro... há muita gente que pensa que a inteligência não é um fenómeno natural... - comentou Ana – mas vamos pensar que se trata de um fenómeno natural, senão ficamos sem conversa eheheh.
A inteligência é um processo muito complexo, é claro.. – continuei - mas pensemos o que seja a definição mais elementar de Inteligencia. Alguma sugestão?
Eu diria ... que é a capacidade de resolver um problema... - arriscou Mário
Boa. Peguemos então nessa definição e consideremos um problema elementar. Por exemplo, encontrar o caminho para sair de um labirinto, um popular passatempo de jornais e revistas. Como é que se resolve esse problema?
Isso é um bocado por acaso, um processo de tentativa e erro.
Posso dizer isso doutra maneira: é um processo de geração de hipóteses, a hipótese de seguir este ou aquele caminho, acrescido de um processo de selecção, que consiste em chegar à saída do labirinto. Ou seja, a reunião de dois processos, em que um gera hipóteses, ou alternativas, e o outro faz a selecção das hipóteses produzidas pelo primeiro, gera um sistema inteligente, pois pode resolver o problema do labirinto.
Sim ... parece-me correcto – assentiu Mário – mas isso não é propriamente uma novidade, a teoria da evolução das espécies assenta nisso mesmo, na ideia de que existe um processo aleatório de alteração, ou seja, geração de novas hipóteses, e um processo de selecção.
Boa comparação Mário! Maaaassss .... a evolução é que se calhar não está de acordo! – não pude reprimir mais um sorriso perante perplexidade dos três - Eu estou a falar de um sistema de inteligência elementar, a TEORIA da evolução das espécies baseia-se neste sistema elementar, mas isso não significa que seja este o mecanismo que conduz à Evolução.
Então qual é? – interrogou Mário, desafiador – não me digas que és adepto do ID?
ID?? Intelligent Design? Aquela teoria que diz que a evolução resulta de uma vontade exterior que vai “desenhando” os sucessivos seres vivos, uma nova versão das ideias criacionistas? – perguntou Ana.
Se aceitássemos a explicação da existência de uma vontade exterior aos fenómenos, ainda pensaríamos que quando chove é por vontade de um deus – comentou Mário, visivelmente incomodado. Fui em seu socorro:
Nós buscamos incansavelmente o Como e o Porquê de todas as coisas; se aceitamos que a resposta ao Porquê é “porque assim Deus o quis”, ficamos reduzidos ao Como. Também há quem sustente que é inútil buscarmos os Porquê, pois que se trata de uma busca interminável. Engano!!!! não poderemos avançar no Conhecimento apenas pela via do Como. A busca do Porquê é que nos faz verdadeiramente avançar no caminho do Conhecimento; mas exige metodologias que a humanidade ainda não soube desenvolver. Quando alguém consegue entender um pouco essas metodologias e rasga novos caminhos dizemos que é um Génio..
Ena, pareces um Mestre oriental a falar – disparou Luísa.
Ri-me, uma forma de disfarçar o embaraço de sentir que tinha sido apanhado em falta. Voltei à velha fórmula de picar o Mário:
Mas há um aspecto em que as teorias criacionistas estão certas!
Qual? – atirou Mário com ar indignado
Pronto, já tinha de novo o Mário preso à capa. Podia agora voltar à lide. O Mário parecia-me indispensável ao meu objectivo. Sem ele, sentir-me-ia a falar no deserto, ele era a ponte intelectual entre o meu mundo e o da Humanidade.
Um passo de cada vez. Primeiro passo: perceber que o Universo é Inteligente!
Ahahaha – Mário não conteve uma sonora gargalhada. Luísa, espantada, reagiu: Mário, esse riso é meu!!! – exclamou, com um ar tão sério quanto lhe foi possível.
Desculpa, desculpa – respondeu Mário abafando o riso – mas o Jorge tem tiradas impagáveis. E, virando-se para mim, que conservava o mesmo ar impassível com que tinha proferido a afirmação, disse, pondo a mão no meu ombro: Ias tão bem a explicar a Inteligência que eu até pensei que desta vez irias dizer coisas sensatas...
Eu quero ouvir o que o Jorge tem para dizer – atalhou Ana com ar definitivo. Agradeci-lhe com um olhar silencioso. Comecei:
Prestem então atenção.