sábado, agosto 25, 2007

Inteligência Natural e Divina


Como é a tua pergunta? Qual é a diferença entre afirmar que a Inteligência é uma propriedade natural, ou seja, que o Universo é inteligente, e as ideias panteístas?

Exactamente.

A diferença entre um Universo Inteligente e Panteísmo...eu não sei... ou melhor, qual é a semelhança? Lembras-te de há tempos eu ter perguntado quantos sentidos temos?

Sim... foi uma conversa um pouco estranha...não cheguei a perceber onde querias chegar

A análise que estivemos a fazer acerca da Inteligência fez uso exclusivo da Razão aplicada às informações que obtemos pelos 5 sentidos, não é verdade?

Acho que sim. E então?

Então, achas que ideias como o Panteísmo resultam do uso da Razão?

Claro que não; resultam da falta dela! ehehehe

Nem dela nem da falta dela Mário. Resultam doutros sentidos que tu nem sabes que tens.

Ena, o que para aí vai!! Agora eu tenho coisas que não sei??

Tu e muitas pessoas. Porque estes sentidos de que falo não são omnipresentes, parecem funcionar só de vez em quando, as suas indicações podem parecer-nos fantasias nossas, resultado do que comemos ontem ao jantar... há sempre uma explicação racional para os negarmos. É preciso atenção e persistência para essa percepção se tornar um bocadinho mais forte.

Pois pois...

Eu sei do que estás a falar Jorge.
– Ana falou com ar sereno e um pouco distante, como se quisesse apenas evitar que a reacção do Mário me impedisse de continuar. Pôs a mão sobre a minha e eu senti amizade.

O Panteísmo é um esforço de tradução racional de uma percepção que transcende os 5 sentidos. Há muitos tipos de panteísmo, tentativas diferentes de racionalizar essa percepção e de satisfazer, por essa via, alguma necessidade subtil. Não satisfaz necessidades instintivas, não implica imortalidade, não assegura justiça divina, não garante protecção. E essa percepção está na base doutras doutrinas, religiões, normalmente visando já objectivos claros em termos de gestão da sociedade humana.

Estás a falar de Fé, portanto.

Não exactamente. Não sei. O conceito de fé está muitas vezes ligado a um processo de aprendizagem – diz-se a uma criança que existe um deus assim e assado, ela acredita, e essa crença passa a dominar-lhe a mente para o resto da vida, a um nível inconsciente.

Pois, as coisas que se aprendem muito novo formatam o cérebro, ficam incorporadas na sua estrutura, como aprender a falar, por exemplo. Depois, elas ficam a fazer parte tão integrante de nós como qualquer outra parte do corpo, como uma mão ou um pé.

Exacto. Tenho sempre a sensação que as pessoas que veneram um “livro sagrado”, que o interpretam à letra, que “temem a Deus”, são pessoas sem qualquer espécie de percepção exterior aos 5 sentidos, a sua pretensa Fé resulta apenas duma aprendizagem. As certezas nesta matéria são sinal de ignorância, de falta de capacidade de percepção.

Ahaha, essa é boa, estás a dizer que os crentes são os que menos sabem em matéria de sobrenatural?

Não necessariamente. Mas os que tentam impor aos outros as suas certezas estão certamente errados. Ou têm objectivos que não têm nada a ver com o sobrenatural ou religião.

Ah sim, nisso estou de acordo contigo, sem dúvida.

Mas o que é importante por agora é perceber que “natural” e “divino” pertencem a planos distintos; e que, embora não sejam necessariamente independentes, a Natureza funciona sem qualquer necessidade de intervenções divinas. Tudo o que os nossos 5 sentidos detectam resulta de propriedades gerais do Universo, e tanto faz tratar-se da Chuva como da formação do Sistema Solar como da própria Vida.

Era bom que as pessoas pensassem assim, mas a realidade é que muitos precisam de ver nos fenómenos naturais a “mão de Deus”. Olha, por exemplo, os criacionistas...
.... É verdade, se bem me lembro, disseste no princípio da conversa que os criacionistas tinham razão num ponto. Essa é boa!! Isso é o contrário do que estás agora a dizer!!! Como é que os criacionistas podem ter razão???

quarta-feira, agosto 22, 2007

Mitosis

A Inteligência das Células


Luísa, a inteligência não é um exclusivo do nosso cérebro, é uma propriedade intrínseca do universo. Porque é que ela havia de estar excluída das células vivas? Tu tens ideia da complexidade de uma célula?

Bem, alguma...

Vou-te mostrar. Ana, tens para aí um livro de biologia não tens?

Tenho... deixa lá ver... por exemplo, este, do curso dos liceus – Ana rodou e tirou da estante um volume de cor azulada.


Serve. Vejamos o que diz sobre a reprodução duma célula. Cá está. Vou ler por alto... “... Os dois pares de centríolos começam a afastar-se em sentidos opostos, formando entre eles um sistema de microtúbulos proteicos que se agregam para formar fibrilas... Quando os centríolos atingem os pólos, a membrana nuclear fragmenta-se... algumas fibrilas ligam-se aos cromossomas... enquanto outras vão de pólo a pólo... os cromossomas dispõem-se no plano equatorial... cada par de cromossomas separa-se, as fibrilas ligadas a eles encurtam-se e os dois cromossomas de cada par começam a afastar-se migrando para pólos opostos... a membrana nuclear reorganiza-se à volta de cada grupo polar de cromossomas e a célula divide-se em duas.”

Sim, realmente isso é sofisticado.
Tu achas? Sofisticado é o que aqui não está dito! Repara: os centríolos movem-se ... mas movem-se como e porquê? Têm pernas para andar de um lado para o outro? Tem cabeça para decidir quando se movem e para onde? E depois formam um sistema de microtúbulos... mas formam como? Têm uma máquina para fabricar microtúbulos? E como é que as fibrilas sabem que têm de se ligar aos cromossomas? E que têm de os arrastar para os pólos? E como fazem isso?

Pois, estou a perceber onde queres chegar

Uma célula é algo muito complexo. Digamos que é necessário mais quantidade de informação para fazer uma célula do que a que é necessária para, tendo a célula básica, chegar ao ser humano.

Hummm, nunca tinha pensado nisso... por alguma razão foi necessário perto de 3 mil milhões de anos para o desenvolvimento da célula, enquanto os seres vivos pluricelulares apenas se desenvolveram nos últimos 600 milhões de anos ou coisa parecida...

Não custa muito pensar que um sistema tão complexo como uma célula, que desenvolve procedimentos tão “inteligentes”, disponha também de uma capacidade sofisticada, “inteligente”, de evoluir. Pelo contrário, basta pensar o seguinte: se, por um acaso, surgir uma célula com capacidade de evoluir melhor que as outras, essa célula vai originar células superiores às outras; em consequência, essas células irão dominar. Portanto, será inerente ao próprio processo da vida o desenvolvimento de capacidades evolutivas nas células.

Queres tu dizer – Mário fala lentamente – que não são apenas as espécies que evoluem, as espécies adaptam as capacidades das células às condições exteriores, a evolução das células é que permite seres mais sofisticados?

Deixo que o meu silêncio valha por um “sim” enquanto Mário parece estar a digerir esta ideia que aparentemente nunca lhe tinha ocorrido. Antes de perceber isto ele não poderá perceber onde eu quero chegar. Há que caminhar com o passo do aluno....


Isso é o que acontece com a tecnologia, os computadores de hoje não eram possíveis sem uma evolução dos chips
– Mário como que pensava em voz alta.


A comparação parece-me boa – a cada salto evolutivo das células uma variedade de novos seres são produzidos, adaptados às suas condições ambientais. Da mesma forma, cada vez que há um aumento significativo de capacidade dos processadores, surgem novos programas, e jogos, que fazem uso da nova capacidade de processamento. Evoluem os programas e evoluem os processadores; se os processadores não evoluíssem, os programas também não evoluiriam a partir de um certo ponto

Humm, essa dupla evolução, por um lado a evolução da célula, por outro, a das espécies aproveitando as novas capacidades da célula poderia explicar muitas das características da evolução...

Então aquela cena do Jurassic Park de produzir Dinossáurios injectando DNA de Dinossáurio em células de réptil, ou batráquio, não poderia ser, não é? As células dos Dinossáurios seriam mais evoluídas do que as dos répteis... ou não?

Brilhante Ana! É exactamente como dizes. Isso seria como tentar correr um programa actual num computador antigo. Mas o que eu estou a querer dizer é mais do que isso que vocês estão a pensar.

Mais? Como assim?

Uma coisa é a evolução da vida, algo que hoje é bem evidente, outra é perceber como se gera essa evolução.

Isso é sabido, ela ocorre devido a erros acumulados no processo de reprodução.

Estás distraído Mário, o Jorge já disse várias vezes que pensa que as células dispõem de inteligência evolutiva...

Exactamente Luísa. Um nível elementar de inteligência, como andar ao acaso no labirinto, não é suficiente para explicar a evolução; e não é nada lógico pensar que uma estrutura tão complexa como uma célula, que desempenha funções com tanta inteligência, não detenha capacidades evolutivas intrínsecas. Como já disse, pensar isso até é contrário aos fundamentos da teoria da evolução, pois dispor de uma tal capacidade representa uma clara vantagem evolutiva.

E como seria essa “máquina de evolução”?

Não faço ideia; mas lembro que a maior parte do nosso código genético não é usado na produção de proteínas, não parece ter qualquer função; mas seria muito estranho que assim fosse, que o nosso genoma estivesse cheio de “lixo”.

Estou meio fascinada com essa ideia de que o universo é inteligente, de que as células são inteligentes... isso é quase uma ideia panteísta... qual é a diferença para o conceito de um deus que está em todo o lado?

Uii Luísa, do que te foste lembrar!!!!
Não gozes!! E responde-me à pergunta!- o sorriso brincalhão típico da Luísa bailou por instantes nos seus olhos.

domingo, agosto 19, 2007

Níveis de Inteligência


Reparem: se tivermos uma certa quantidade de átomos que se podem mover livremente, eles vão interagir e, em certas condições, podem formar novas estruturas estáveis. As diferentes novas estruturas representam outras tantas hipóteses; algumas destas estruturas irão depois dar origem a novas interacções, ou seja, são seleccionadas pela nova interacção. Neste caso, estamos perante um processo inteligente elementar.

Sim, mas para haver essa fixação de átomos vai ocorrer uma libertação de energia. A energia final do sistema será menor.

Percebo que o Mário busca um ponto fraco; a resposta sai-me imediata:
Não há almoços grátis! – rimo-nos todos – Eu não disse que a inteligência não tinha um custo! O que eu pretendo mostrar, de uma forma apenas intuitiva por agora, é que o Universo é naturalmente inteligente!

Como? explica lá isso outra vez

O Universo, um imenso sistema de partículas e estruturas que interagem livremente, num quadro energético continuamente variável, é um sistema dotado de inteligência intrínseca, elementar mas imensa, tão imensa como o Universo.

Pá, essa é nova para mim. Nunca tinha pensado nisso assim e confesso que me está a fazer confusão atribuir inteligência a um processo de choques de átomos.

Só tens duas alternativas: ou consegues entender que um processo físico desta natureza é um processo elementar de inteligência ou então tens de considerar, como os que se opunham às investigações sobre inteligência artificial, que a inteligência é um processo sobrenatural. Ou pensas como eu ou pensas como eles, ehehehe.

Isso não deve estar lá muito bem mas não é neste momento que eu posso contestar isso. Tenho de pensar.

O momento de pausa é imediatamente aproveitado pela Ana: põe a mão sobre a minha e pergunta-me:

Mas, e a evolução das espécies, como é?

Retiro a minha mão como se dela precisasse para expor a resposta, interrompendo o fluxo de calor que me corria já pelo braço em direcção às orelhas. Juntando as mãos começo a responder:
Se existe um processo elementar de inteligência, o que podemos esperar que aconteça é que este processo elementar gere sistemas de inteligência mais complexos e potentes. Por exemplo, voltando ao caso do labirinto, sabes como é que eu os resolvo?

Não é por tentativa e erro?


Claro que não. Limito-me a fazer o percurso sempre encostado a um dos lados, ou sempre ao lado direito ou sempre ao lado esquerdo. Assim chego sempre à saída do labirinto. Mas para descobrir isto já é preciso um processo de geração de hipóteses mais sofisticado e actuando sobre uma maior quantidade de informação. Digamos que é preciso fazer um uso inteligente da inteligência elementar, no sentido em que as hipóteses já não são opções elementares, ou seja, as que resultam da informação mínima.

Espera lá, estás a dizer que os labirintos se resolvem se formos sempre encostados ao mesmo lado?

Claro!!! Pelo menos certo tipo de labirintos. Mas, pelos vistos, nunca te tinha ocorrido que pudesse existir um processo mais inteligente de resolver um labirinto do que andar ao acaso! Luísa, estás ver a diferença entre um processo inteligente elementar e outro mais avançado?

Isso é o que o Virgílio Ferreira diz interrompe-me a Ana, apanhando-me de novo a mão esquecida sobre a mesa.

Diz o quê?

Diz assim, num dos livros dele: “de que te serve a inteligência se não tens a inteligência de a usar com inteligência? – um brilho de satisfação iluminou aqueles olhos que aceleravam o meu coração. Sinto-me logo mais estimulado. Respondo:
É isso mesmo! – nada como uma afirmação entusiasmada para justificar a retirada da mão - A Inteligência da Natureza desenvolve-se de duas maneiras: por um lado, cada nova estrutura é mais complexa do que as anteriores, o que corresponde a uma hipótese construída sobre uma maior quantidade de informação; por outro lado, estes processos são encadeáveis.

Estás-a-querer-dizer que as células dispõem de uma certa capacidade de inteligência mais sofisticada que o processo elementar?
– Luísa martelou as sílabas, a sua cara tem um ar sério e tenso que eu nunca lhe tinha visto. Sinto que tenho de prosseguir com cuidado.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Inteligência


Hoje não te escapas eheheh. Jorginho, isto não é só mandar bocas, é preciso ter as respostas. O papel da Ciência é esse, o de dar respostas!

Estás a falar de quê?

Ficaste de explicar como é que o Universo evolui no sentido da complexidade em vez de evoluir para o caos, não te lembras? Esta noite não dormi por causa disso e agora quero ter a certeza de que tu... tu não sabes a resposta eheheh!

Não te fies muito nisso
– respondeu-lhe Luísa, com um sorriso maroto, sempre pronta a provocar o Mário. Riu-se, com o seu riso solto e contagiante.

Sabes o que é inteligência? -
Atirei

Se sei o que é inteligência? A que propósito vem essa pergunta?

Nós somos seres inteligentes, não é verdade? Onde reside a nossa inteligência? Será uma característica sobrenatural ou, pelo contrário, será o resultado de fenómenos naturais que ocorrem no cérebro, dos nosso circuitos neuronais?

Claro que é dos nossos circuitos neuronais!

Não será assim tão claro... há muita gente que pensa que a inteligência não é um fenómeno natural... -
comentou Ana – mas vamos pensar que se trata de um fenómeno natural, senão ficamos sem conversa eheheh.

A inteligência é um processo muito complexo, é claro..
– continuei - mas pensemos o que seja a definição mais elementar de Inteligencia. Alguma sugestão?

Eu diria ... que é a capacidade de resolver um problema...
- arriscou Mário

Boa. Peguemos então nessa definição e consideremos um problema elementar. Por exemplo, encontrar o caminho para sair de um labirinto, um popular passatempo de jornais e revistas. Como é que se resolve esse problema?

Isso é um bocado por acaso, um processo de tentativa e erro.

Posso dizer isso doutra maneira: é um processo de geração de hipóteses, a hipótese de seguir este ou aquele caminho, acrescido de um processo de selecção, que consiste em chegar à saída do labirinto. Ou seja, a reunião de dois processos, em que um gera hipóteses, ou alternativas, e o outro faz a selecção das hipóteses produzidas pelo primeiro, gera um sistema inteligente, pois pode resolver o problema do labirinto.

Sim ... parece-me correcto – assentiu Mário – mas isso não é propriamente uma novidade, a teoria da evolução das espécies assenta nisso mesmo, na ideia de que existe um processo aleatório de alteração, ou seja, geração de novas hipóteses, e um processo de selecção.

Boa comparação Mário! Maaaassss .... a evolução é que se calhar não está de acordo! – não pude reprimir mais um sorriso perante perplexidade dos três - Eu estou a falar de um sistema de inteligência elementar, a TEORIA da evolução das espécies baseia-se neste sistema elementar, mas isso não significa que seja este o mecanismo que conduz à Evolução.

Então qual é? – interrogou Mário, desafiador – não me digas que és adepto do ID?

ID?? Intelligent Design? Aquela teoria que diz que a evolução resulta de uma vontade exterior que vai “desenhando” os sucessivos seres vivos, uma nova versão das ideias criacionistas?
– perguntou Ana.

Se aceitássemos a explicação da existência de uma vontade exterior aos fenómenos, ainda pensaríamos que quando chove é por vontade de um deus comentou Mário, visivelmente incomodado. Fui em seu socorro:

Nós buscamos incansavelmente o Como e o Porquê de todas as coisas; se aceitamos que a resposta ao Porquê é “porque assim Deus o quis”, ficamos reduzidos ao Como. Também há quem sustente que é inútil buscarmos os Porquê, pois que se trata de uma busca interminável. Engano!!!! não poderemos avançar no Conhecimento apenas pela via do Como. A busca do Porquê é que nos faz verdadeiramente avançar no caminho do Conhecimento; mas exige metodologias que a humanidade ainda não soube desenvolver. Quando alguém consegue entender um pouco essas metodologias e rasga novos caminhos dizemos que é um Génio..

Ena, pareces um Mestre oriental a falar – disparou Luísa.

Ri-me, uma forma de disfarçar o embaraço de sentir que tinha sido apanhado em falta. Voltei à velha fórmula de picar o Mário:

Mas há um aspecto em que as teorias criacionistas estão certas!

Qual? – atirou Mário com ar indignado

Pronto, já tinha de novo o Mário preso à capa. Podia agora voltar à lide. O Mário parecia-me indispensável ao meu objectivo. Sem ele, sentir-me-ia a falar no deserto, ele era a ponte intelectual entre o meu mundo e o da Humanidade.

Um passo de cada vez. Primeiro passo: perceber que o Universo é Inteligente!

Ahahaha
– Mário não conteve uma sonora gargalhada. Luísa, espantada, reagiu: Mário, esse riso é meu!!! – exclamou, com um ar tão sério quanto lhe foi possível.

Desculpa, desculpa – respondeu Mário abafando o riso – mas o Jorge tem tiradas impagáveis. E, virando-se para mim, que conservava o mesmo ar impassível com que tinha proferido a afirmação, disse, pondo a mão no meu ombro: Ias tão bem a explicar a Inteligência que eu até pensei que desta vez irias dizer coisas sensatas...

Eu quero ouvir o que o Jorge tem para dizer – atalhou Ana com ar definitivo. Agradeci-lhe com um olhar silencioso. Comecei:

Prestem então atenção.

sábado, agosto 11, 2007

intervalito

Até dia 15 não devo ter acesso a net...tenho de ir dar um pulo ao Futuro, parece que tenho lá uma mensagem importante... proximo post só a 16! Divirtam-se por cá e até já.

quinta-feira, agosto 09, 2007

O Coração do Sol


Vocês pensam que o Sol é apenas uma fonte constante e quase eterna de luz e calor, não verdade?

E não é?

Para os antigos egípcios era um Deus ahahaah

Pois saibam que os egípcios estavam muito mais próximos da verdade do que vocês!

Como assim? O Sol é Deus?

Descobrirão que o Sol determinou tudo o que existe no Sistema Solar, desde o mais longínquo planeta até nós, e vai continuar a marcar o Futuro. Mas, por agora, digam-me: sabem porque é que o Sol não está condensado como os planetas?

É porque no interior do Sol há uma reacção nuclear que emite radiação e esta empurra a matéria para fora, impedindo-a de colapsar sobre o centro do Sol.

Exactísssimamente António! No Sol existe um equilíbrio entre a força da gravidade, que puxa os átomos de Hidrogénio e Hélio que compõem o Sol para o centro, e a pressão da radiação, que os empurra para fora.

Eu sou bom, eheheh

Sogadito António. Agora reparem no seguinte: quanto maior a pressão da matéria solar sobre o núcleo solar, maior a intensidade da fusão nuclear, ou seja, a energia radiada varia na razão directa da pressão no centro.

Por outro lado, quanto maior a energia radiada, como esta contraria a pressão gravítica, menos esta será; ou seja, a pressão varia inversamente à energia radiada. Isto não vos lembra nada?

Sim! O Ciclo Presa-Predador! A pressão é como os coelhos e a radiação como as raposas: a relação é directa no sentido pressão-radiação e inversa no sentido radiação-pressão.

Tarzan, tu hoje estás inspiradíssimo. É isso mesmo!!

Mas se fosse assim o Sol teria de oscilar, tal como o ciclo presa-predador!

Exactissimamente Indy! E não oscila, pois não?

Nunca ouvi falar....

Pois não! Não se observa tal oscilação. Mas ela tem de existir porque um sistema destes nunca pode ter um equilíbrio estacionário. Chegamos pois a um mistério: o Sol tem de oscilar mas não se observa nenhuma oscilação!!!! Mistéeerioooo! Ideias??

Há o ciclo das manchas solares....

Bruno, Muito bem. E já vos disse que existiam semelhanças entre os dois ciclos. Que facilmente podemos aumentar, pois as equações usadas são apenas equações de princípio. Nessas equações, a interacção entre os coelhos e raposas, ou seja, o número de coelhos caçados, é representada pelo seu valor médio; ora na realidade, o número de coelhos caçados é mais bem representado por uma distribuição estatística, o mesmo acontecendo com os fenómenos solares. Basta fazermos esta correcção para obtermos curvas que já apresentam uma variabilidade do tipo das do ciclo solar.

Vejam na figura que como as duas curvas têm comportamentos semelhantes. Notem que a curva dos predadores é sempre diferente cada vez que se calcula, o que apresento é um exemplo, não está suposto as curvas serem iguais, apenas terem algumas características comuns.

E os reactores nucleares terrestres? Também dependem de fenómenos estatísticos?

Claro! E chamo-vos a atenção para o seguinte: esta oscilação do Sol não é estável! O seu comportamento é caótico e cedo ou tarde pode originar oscilações com amplitudes extremas.

O Sol sobre de taquicardia? Ahahah

Ri-te... enquanto podes... não é bem taquicardia.... há quem diga que é uma questão de personalidade....

Personalidade do Sol! Essa é boa!!!!

Os Mayas falavam disso!!! Ciclos solares de não sei quantos milhares de anos... já li sobre isso!


Os Mayas? A que propósito te lembraste desses agora?

Não vêm assim tão a despropósito, não senhor. A nossa memória é estranhamente curta. Quando a humanidade começou a contruir sociedades organizadas, a primeira preocupação de cada novo senhor foi a de destruir os vestigios da história anterior. Mas é aparente que os Mayas teriam um medo terrivel do Sol e isso levanta a possibilidade de ter acontecido alguma coisa num passado remoto de que eles conservaram a memória de geração em geração.

E deve ter sido algo bem terrível... para que pudessem considerar que os sacrifícios humanos que faziam eram um pequeno preço a pagar para manter o Sol apaziguado...

Bem, bem, estamos a desviar-nos. Se querem entender o Sol, esqueçam os Mayas e tratem é de desvendar este mistério: como é que o Sol esconde de nós o bater do seu coração? Vou dar-vos uma pista: água a ferver numa panela ao lume!

domingo, agosto 05, 2007

Presas e Predadores (1)


Hoje é uma data muito importante!!! Sabem o que marca o dia de hoje?

Nããããoooo!

Marca o vosso primeiro grande passo em direcção ao Futuro! Hoje, vocês vão começar a saber coisas sobre o Universo que mais ninguém sabe. Coisas essenciais, que determinam a evolução do Universo, que permitem entender o porquê e o para onde. O Passado e o Futuro! Hoje, vocês vão começar a ser donos do Passado e do Futuro numa escala que nunca vos passou pela cabeça que fosse possível.

Xiiii, isso até assusta!

É um comentário. Mais comentários?

Não acredito nisso. É um desafio irrecusável. Estou para ver. Quando é que começamos? Paga-se imposto? Ahahahah

Pela vossa reacção, vejo que, como de costume, estão cheios de curiosidade. Vamos lá então. Vamos falar de um fenómeno essencial à evolução do Universo. É um fenómeno Físico completamente desconhecido dos cientistas. Porém, há um fenómeno análogo bem conhecido em biologia e ecologia: o ciclo Presa-Predador.

Presa-predador? Já ouvi falar nisso! Não é aquela coisa das raposas e coelhos, quando há muitos coelhos o número de raposas cresce porque têm muito alimento.

Exactiiiissimamente! Muito bem Laura. E o que acontece quando o número de raposas cresce muito?

Hummm, os coelhos vão ser dizimados...

Certíiiiiissimo Nuno! O número de coelhos comidos pelas raposas ultrapassa os que nascem e o nº de coelhos começa a diminuir. E então o que irá acontecer?

Ora, se o nº de coelhos diminui, então as raposas deixam de ter alimento e começam também a diminuir de número..

Exaaaaaaaaaacto! Muito bem Pat!

Ehehe, de bichos percebo eu...

Portanto, temos aqui um processo onde o número de raposas varia no mesmo sentido do número de coelhos – quanto mais coelhos, mais raposas, quanto menos coelhos, menos raposas...

E o número de coelhos varia inversamente ao número de raposas – mais raposas implica menos coelhos e menos raposas implica mais coelhos!

Muito bem António!!! É isso exactamente. Podemos caracterizar este processo em termos gerais dizendo que temos uma realimentação positiva no sentido coelhos->raposas e negativa no sentido inverso.

Em 1925/1926 dois matemáticos, independentemente, Alfred Lotka e Vito Volterra, apresentaram umas equações para este processo, que são conhecidas pelas equação de Lotka-Volterra.

Na figura podem ver como varia tipicamente uma população de coelhos e raposas de acordo com estas equações.

Mas é assim uma variação tão certinha?

Claro quer não, Filipa. Estas equações são muito simples. Mas dão-nos uma primeira ideia das características essenciais deste processo que, como vos disse, é um processo essencial do Universo.

Não sabia que coelhos e raposas eras essenciais ao Universo...

Ahahahah


Riem-se? Pois digo-vos que as curvas da figura não representam apenas coelhos e raposas. Representam também o pulsar do coração de todas as estrelas.

Coração das estrelas? Agora as estrelas têm coração????

Pois é. Grande surpresa, não é verdade? Reparem, para já, numa característica típica destas curvas: o tempo de subida da curva das raposas é menor que o de descida. Se forem ver as curvas dos ciclos de manchas solares encontrarão a mesma característica.

No nosso próximo encontro veremos como bate o coração do Sol.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Luz Apagada


Ena, olha-me esta!

Que se passa? Até empalideceste!!

Isto é sério... muito mais sério do que eu pensava...

Estás a falar de quê?

A Nature publicou um artigo onde se compara a pluviosidade com as projecções dos modelos climáticos incipientes que eles fazem; como detectou uma diferença, concluiu que isso era prova de que a actividade humana está a afectar a pluviosidade no planeta!!!!

?????

Sério!

Parece que cada vez entendo menos a cabeça dos humanos. Há qualquer coisa neles que me está a escapar... Isso não é novo, presumem sempre que os modelos estão certos, a realidade é que está errada... matéria negra, energia negra, Universo inflacionário, clima alterado pela actividade humana...não entendo, não encontro lógica nenhuma que suporte isto...

Mas esta fase “climática” é o máximo... O clima está sempre em evolução, como tudo no Universo, o futuro é sempre diferente do passado, até os poetas deles sabem disso. Sabem perfeitamente que o clima muda sempre, têm dados que remontam até há 100 milhões de anos atrás...

... e os cientistas desta geração resolveram que o clima que fazia na sua juventude é que era o clima “normal”! Fizeram a média dos valores entre 1961 e 1990, e declaram todos os desvios a esses valores como sendo uma anomalia!!! Se o clima continuasse igual é que seria uma “anomalia”!

Pois, mas estás a ver o que podemos concluir do facto de uma revista científica de topo publicar uma coisa destas, não estás?

Estou-te a perceber... assim nunca conseguirão descobrir o que vai acontecer...

Pois não, eles nunca aceitam nada que contrarie as teorias existentes e escolhem sistematicamente uma explicação simplória para o desajuste entre teorias e observações. Assim, é completamente impossível construirem teorias correctas. Será por se especializarem em campos muito estreitos e perderem informação contextual?


É uma possibilidade... ainda não sabem inserir a especialização no contexto... por isso é que os astrofísicos sustentam que a Terra estaria completamente congelada no passado, por ser o que resulta do seu modelo de universo.. em vez de concluirem que o seu modelo está errado.


Ah ah, errado... isso é impossível para eles... Alita, os teus humanos são terrivelmente arrogantes, é o que é!

Ainda te hei-de fazer gostar deles, apesar de tudo. As coisas não se explicam com essa simplicidade. Começo a suspeitar que existirá um defeito no cérebro deles... tenho de fazer umas investigações...

Isto está feio, nós não podemos interferir, eles não são capazes de descobrir...

Não costumas dizer que há sempre uma solução?

Pois, mas isto desmoralizou-me... sinto-me verdadeiramente impotente e sem esperança... pela primeira vez.


(imagem: Nasa, Wikipedia)

segunda-feira, julho 30, 2007

Quem me dera já o Futuro


Quem me dera já o Futuro, onde fábricas completamente automatizadas produzirão tudo o que precisamos e deixaremos de ter necessidade de trabalhar!

Necessidade de trabalhar??? Que queres dizer com isso?

Então, ter de me vender oito horas por dia para conseguir o dinheiro necessário à sobrevivência! Qual é o teu espanto?!?

Desejas então um futuro em que ninguém precisa de fazer nada para sobreviver, não há empregos, toda a gente recebe uma certa quantidade de dinheiro que pode gastar como quiser. E como é que pensas que as pessoas iriam ocupar o seu tempo, o que iram fazer com a sua vida?

Olha, eu sei o que faria com a minha: divertir-me com os amigos, passear, beber uns copos, ler uns livros, ver filmes. E não é preciso ir ao futuro para viver assim – isso já acontece no Kuwait! Uns felizardos esses tipos!

Pois, mas isso é apenas ser rico, não é uma sociedade que funciona sem trabalho humano. Nessa sociedade do futuro em que a produção está toda automatizada, tu provavelmente não irias querer móveis iguais aos de toda a gente; então irias encontrar uma forma de ter móveis diferentes, se calhar um senhor muito habilidoso iria pôr-se a fazer ele mesmo uns móveis especiais. Ou seja, paralelamente à produção automática iria surgir novamente a produção manual. E o mesmo se passaria com todas as outras coisas – com as roupas, com a comida, com as casas, com os carros, tc.

Ahah, queres tu dizer que mesmo que tudo pudesse ser produzido automaticamente, o trabalho continuaria na mesma?

Claro! Tu não dizes que quererias ler livros? Então é preciso alguém que os escreva, não te parece? Queres ver filmes? É preciso quem os faça.

Quer dizer, a produção automatizada não serve para nada?

Claro que serve! Serve para nós podermos escolher o trabalho que fazemos. Não serve para acabar com o trabalho porque trabalhar é simplesmente fazer coisas com um objectivo e nós precisamos de objectivos na nossa vida. Precisamos de nos sentir úteis, de ser apreciados, etc. O Saramago não escreve livros por precisar mas por querer, não é?

O Trabalho deixa de ser uma questão económica para passar a ser uma questão social, queres tu dizer?

Exacto. Isso já aconteceu várias vezes no passado. As grandes obras do passado foram, em parte, formas de inventar trabalho para as pessoas. Os egípcios tiveram essa preocupação, os gregos e os romanos também. Isso permite dedicarmo-nos a coisas muito mais interessantes e que nos levam a novos patamares da existência. Não concordas comigo?

Eu sei, foi só um desabafo de Verão. De certa forma, a maioria de nós já vive dessa forma, eu adoro o meu trabalho e não me imagino sem ele.

Claro. Na realidade, nós já vivemos nesse Futuro, os conflitos sociais na Europa já não são movidos pela necessidade de sobrevivência mas pela necessidade de realização pessoal.

Mário pousou o copo ao lado da espreguiçadeira, levantou-se e puxou Luísa pela mão.

Pára de me picar os miolos e anda dar um mergulho.