sábado, junho 16, 2007

Aquecimento Global (1)


Quais as duas coisas que mais influenciam a temperatura da Terra?
Pergunta fácil, não é verdade? O Sol é, obviamente, a mais importante. Depois, vêm as Nuvens. As nuvens reflectem a energia solar e limitam a perda de calor da superfície. Nada na Terra tem uma influência no clima que se compare à das nuvens.

Há muitas décadas que se sabe que a actividade solar, ou seja, a energia radiada pelo Sol, não é constante, embora a sua variação seja pequena. Mas se varia, então a temperatura da superfície terrestre variará também.

Como estimar a relação entre actividade solar e temperatura?

Nuvens! Temos de modelar o sistema de nuvens!

Todos sabemos que se a noite tiver nuvens fica menos fria do que se não tiver. E que o contrário acontece de dia.

As nuvens reflectem a energia solar, por um lado e, por outro, limitam a perda de energia da Terra para o espaço. As nuvens formam uma cobertura variável, um tecto que abre e fecha!

Ciclo da água: evapora-se, sobe na atmosfera, condensa-se formando nuvens, precipita-se em chuva. Se aumentar a temperatura, aumenta a evaporação e aumenta a formação de nuvens

A energia perdida através das nuvens pode ser estimada a partir da temperatura exterior das nuvens. As medidas por satélite indicam que esta varia desde cerca de -30ºC (negativos) até cerca de -60ºC e mesmo inferior. À medida que aumenta a massa de nuvens, mais baixa é a temperatura exterior porque mais alto estão os cristais de gelo.

Eis então um modelo muito simples: as nuvens são uma cobertura de extensão variável, com uma temperatura da ordem dos -50ºC, que impede a entrada da energia solar na Terra, reflectindo-a.

Vejamos como isto funciona: se aumentar a actividade solar, começa a aumentar a temperatura superficial; em consequência, cresce a evaporação e a formação de nuvens – a “cobertura” fecha-se mais um pouco, cortando a entrada de energia solar.
Caracterização do novo ponto de equilíbrio:
- aumenta a temperatura superficial
- aumenta a cobertura de nuvens
- diminuí a energia solar que chega ao solo

Notem o seguinte: a eficiência das nuvens a bloquear a energia solar é muito maior do que a impedir a saída de calor da Terra. Se a Terra estivesse totalmente coberta de nuvens, a perda de energia para o espaço apenas diminuiria uns 30%, mas a diminuição de energia solar que chegaria ao solo seria muito maior. Por isso, este sistema de nuvens é altamente estável, nunca entra em catástrofe térmica! Assim que aumenta a temperatura superficial, as nuvens fecham a entrada de energia solar, estabilizando o sistema!

Como é inteligente a natureza! Não há hipótese de uma catástrofe térmica!

O leitor mais dentro destas coisas estará a pensar: então e Vénus? Não ocorreu uma catástrofe térmica em Vénus, que elevou a sua temperatura superficial para valores da ordem dos 450ºC?

segunda-feira, junho 11, 2007

Notaram?

Notaram?

Notaram que o António do último post tinha na cabeça um modelo relacional em vez de uma colecção de fórmulas, como todos os outros?

O cérebro nascerá apto para as duas coisas, mas umas pessoas vão desenvolver sobretudo a capacidade de memorizar dados, enquanto que outras a de identificar relações, propriedades gerais e conceitos.
A primeira dessas capacidades satisfaz a necessidade de “saber”; a segunda a de “compreender”. Das pessoas que desenvolvem excepcionalmente a primeira diz-se que são “sábias”, das que desenvolvem a segunda que são “muito inteligentes”.

....Inteligentes? Hummmm ..... mas o que é Inteligência? Um dom divino? Uma propriedade de uns circuitos muito especiais que um milagre da natureza, ou uma Inteligência externa, colocou nas humanas cabecitas? Ou o quê???

quarta-feira, junho 06, 2007

Um Burro carregado de Livros.


(O professor não chegava mas, como não tinha avisado que faltaria, ainda estávamos à espera dele. A conversa generalizara-se, como é natural )
- Agora é que tu nos vais explicar porque é que dizes que não percebes como é que fizemos a quarta classe!
O tom agressivo cortou bruscamente as conversas naquela aula do último ano do nosso curso.
....................

No súbito silêncio, uma imagem pendurou-se na minha mente: o António, no quadro, acabando de resolver um daqueles exercícios em que se tinha de ir de fórmula em fórmula calculando o valor de sucessivos parâmetros até se conseguir obter o valor do parâmetro pretendido. Mas o António não usava fórmulas: pensava aí uns 3 segundos e, veloz como um raio, escrevia uma regra de 3 simples, ou composta, directa, inversa, mista, o que fosse, e obtinha rapidamente a solução do problema enquanto nós ainda andávamos a ver que fórmulas deveríamos usar. Parecia magia!
Depois percebi: as fórmulas não são mais do que relações de proporcionalidade, directa ou inversa. Na mente do António existiria um modelo, uma espécie de grafo pluridimensional estabelecendo as relações de proporcionalidade entre todos os parâmetros. Na dele, não na minha, eu tinha de juntar as fórmulas no papel para conseguir perceber.
Em face do espanto dos colegas, e dos professores, ele comentava então, com ar de desabafo:
que vocês tenham feito o liceu, eu entendo, agora como fizeram a quarta classe, isso é que eu não percebo!!!!
Eu conhecia bem o feitio modesto, amigo, brincalhão do António. Nunca me ofendi nem estranhei o dito, entendi-o apenas como uma forma de dizer “não olhem assim para mim, eu não sou nenhum génio”. Isto aconteceu várias vezes ao longo dos três ou quatro últimos anos do curso.

.....................

A turma estava suspensa a olhar para os dois. De repente, todos percebemos que aquela frase não era uma mera brincadeira. Mas era o quê? Todos sentíamos a urgência duma resposta.

Após os seus habituais 3 segundos de pausa, o António comandou, com voz segura e decidida:
- Muito bem. Resolvam o seguinte exercício: um tanque tem duas torneiras. Uma enche o tanque em duas horas e a outra esvazia-o em três. Se estiverem as duas abertas, quantas horas leva o tanque a encher?

Problema de caca! Quantos segundos levarei eu a resolver? Um sorriso aflora-me os lábios. Era um bife, aquilo era um problema canónico dos exames de admissão ao liceu do nosso tempo. Lembro-me bem. Eu tinha tido 20 na prova! Fui o orgulho da minha escola. A imagem da professora a felicitar-me surge-me viva e colorida como um dia de primavera. Ora vamos lá a ver... como é que era?
Um vazio assustador enche a minha cabeça. A memória nada diz. Eu insisto, concentro-me, mas nada.
Tenho de racionar, penso. Concentra-te. Deve ser um problema de fracções. Soma de fracções, será? Ou será diferença? Produto não deve ser... E quais fracções? Bolas, não me lembro. Mas isto é só uma questão de raciocínio... Como é que é, deixa ver, uma a encher e a outra a vazar... será uma diferença de fracções? Bolas, não estou a conseguir pensar, estou só a puxar pela memória... mas não me lembro, tenho de raciocinar...
A cabeça dói-me. Tento desesperadamente visualizar a água a entrar e a sair do tanque, construir um modelo. A resistência inesperada daquele problema de “caca” desorienta os meus circuitos mentais. Parece que cada neurónio age independentemente dos outros. A minha mente alterna entre o caos e o vazio.

- Bem – oiço a voz do António, no mesmo tom sereno e seguro de anteriormente - há quase dez minutos que vocês estão a tentar resolver este problema...

Levanto a cabeça e olho em volta. Uma expressão de atordoamento molda por igual todas as faces, as que do meu lugar vejo e certamente as outras também, assim o denuncia a posição da nuca dos infelizes colegas.

... no entanto, este problema saía obrigatoriamente no exame de admissão aos liceus, vocês já foram capazes de o resolver.

Entendo o que ele quer dizer como se um raio me fulminasse. Passar nos exames do liceu, ou da faculdade, é uma questão de decorar e debitar, não é preciso usar a inteligência – qualquer burro o pode fazer. Por isso ele não se admirava que nós, burros como éramos, tivéssemos feito o liceu! As “regras de três”, ao contrário, eram um exercício de raciocínio; mas eram matéria da escola primária, pelo que para fazer a escola primária é preciso ser inteligente! Ou ter sido inteligente!

Eu tornara-me burro! Essa era a verdade indesmentível, acabadinha de ser provada. Sinto pânico a crescer dentro de mim. Eu, tão espertinho que até dou explicações de matemática a alunos doutras faculdades. Mas afinal sou burro. Ou estou burro. Burro. A cabeça cheia de sabedoria mas esvaziada de inteligência. Nem fui capaz de elaborar os raciocínios que o elementar problema das torneiras exigia. Nem eu nem ninguém naquela turma de finalistas do nosso conceituado curso da nosso conceituada universidade!!!

uma frase de Virgílio Ferreira martela-me devagarinho na cabeça: "de que te serve a inteligência se não tens inteligência para a usar com inteligência?"

sábado, junho 02, 2007

O grande Cisma do Conhecimento


"Feche-se com uns amigos na cabina principal sob o convés num qualquer grande navio, e leve consigo algumas moscas, borboletas e outros pequenos animais voadores. ... Com o navio parado, observe com cuidado como os pequenos animais voam com igual velocidade para qualquer lado da cabine. .... Observado isto... faça o navio mover-se com qualquer velocidade que deseje, desde que o movimento seja uniforme e não flutuante para este e aquele lado ... Não descobrirá a mínima alteração nos efeitos descritos, não poderá concluir de nenhum deles se o navio está a mover-se ou parado. ... E se for queimado incenso, o fumo subirá na forma de uma pequena nuvem, permanecendo imóvel e não se movendo mais para um lado do que para outro."
Desta forma procurava Galileu convencer os seus contemporâneos de que seria possível a Terra rodar sem que isso fosse notado.
Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso podia ver que isso é um disparate. Um disparate que um astrónomo brilhante como Copérnico tinha tido a desfaçatez de propor. Como escreveu o famoso filósofo Jean Bodin num livro colocado no Índex:
"Ninguém em seu perfeito juízo, ou tendo um mínimo conhecimento de física. alguma vez pensará que a Terra, pesada e pouco manobrável, devido ao seu próprio peso e massa, oscile para acima e para baixo sobre o seu próprio centro e sobre o Sol; pois, à mais pequena vibração da Terra, veríamos cidadelas e fortalezas, cidades e montanhas deitadas abaixo" (1)
Um poema publicado em França em 1578 e imensamente popular durante os 125 anos seguintes em França e Inglaterra argumentava contra a teoria que:
"...uma vez que a breve carreira,
Que a nossa Terra redonda devia diariamente galopar,
Deve precisar de exceder cem vezes, em rapidez,
Pássaros, balas, ventos; as suas asas, a sua força, o seu impulso"
Não podemos estranhar que se estranhasse, se pensarmos que nos deslocamos a uma velocidade supersónica em relação ao centro da Terra. Num tempo em que a referência de velocidade era um cavalo a galope.
Para os Protestantes, a teoria de Copérnico era mais do que uma tontice. Copérnico fora um reputado e influente clérigo, o seu livro fora dedicado ao Papa e a sua publicação apoiada por um bispo católico e um cardeal, entre outros. Para os Protestantes, era um sinal da leviandade da atitude da Igreja Católica para com a Sagrada Escritura. Lutero, Calvino e Melanchthon destacaram-se a exigir a repressão contra os copernicanos. Ainda antes da publicação do livro de Copérnico já Lutero afirmara:
"... Este louco deseja subverter toda a ciência da astronomia; mas a Sagrada Escritura diz-nos [Josué 10:13] que Josué mandou o Sol estar parado, e não a Terra"
Melanchthon, seis anos depois da morte de Copérnico, escreveu:
"Os olhos são testemunhas de que o céu gira no espaço de 24 horas. Mas certos homens, ou pelo amor à novidade, ou para fazerem uma demonstração de génio, concluíram que a Terra se movia; e sustentam que nem as oito esferas nem o Sol se movem... Ora é uma falta de honestidade e decência afirmar tais noções publicamente e o exemplo é pernicioso."
Para os académicos da época, ela punha em perigo todo o seu saber, no qual assentava o seu estatuto. Copérnico referiu explicitamente que temia os matemáticos. E, no prefácio ao seu livro escreveu:
"Como cheguei a ousar conceber tal opinião sobre a Terra, contrária à opinião recebida dos Matemáticos e, na verdade, contrária, á opinião autorizada, é o que Vossa Santidade esperará ouvir" e, mais adiante: " Vós sois considerado o mais eminente em virtude da dignidade do Vosso Cargo e do vosso amor pelas letras e ciências. Vós, pela vossa influência e juízo, podeis prontamente suster os difamadores de me morderem, embora o provérbio diga que não há remédio contra os dentes de sicofantas"
No meio disto tudo, Roma foi o porto de abrigo das novas ideias. Galileu foi mais apoiado pelos círculos eclesiásticos de Roma do que pelos seus colegas aristotélicos da Universidade de Pádua.
Aparentemente devido à pressão que sofria quer pela frente protestante, quer pelos académicos, quer por temer os riscos de instabilidade social que as novas ideias podiam implicar, a Igreja acabou por proibir o ensino da teoria heliocêntrica e condenar Galileu, já velho e quase cego, a prisão domiciliária para o resto dos seus dias.

Hoje, a Ciência aponta este período como um episódio negro na história do conhecimento humano. Reclama-se herdeira de Galileu, putativo pai da metodologia que submete as hipóteses ao veredicto da experiência.

Terá sido com o caso de Galileu que a Igreja percebeu que não podia deixar o estudo do Universo nas mãos dos Académicos.

(1) Esta citação e as seguintes podem ser encontradas no livro de Thomas Kuhn "A Revolução Copernicana", edições 70
(1) Esta citação e as seguintes podem ser encontradas no livro de Thomas Kuhn "A Revolução Copernicana", edições 70

quarta-feira, maio 30, 2007

Quem lê, entenda


Todo o Sul de França se encontra agora em chamas, estando em curso a maior evacuação de pessoas jamais realizada em território europeu. A conferencia de Paris vai aprovar medidas drásticas de combate ao aquecimento global. Às 20 horas apresentaremos uma reportagem exclusiva sobre os últimos desenvolvimentos, logo a seguir à habitual conferência de imprensa dos líderes mundiais.
- Desliga isso, já nada do que a televisão diz nos pode interessar. Tens os últimos resultados do nível de metalicidade do Sol? – perguntou, impaciente, o mais velho.
O outro baixou o som do televisor e respondeu desinteressadamente - Que interessa isso? Já passou do nível crítico, vai ser antes do próximo máximo, nem é preciso telescópio para ver as manchas ao longo de todo o equador solar...
- Desculpa, claro, é do stress. Esta espera dá-me cabo dos nervos.
- O quê, estás farto de esperar? – o mais novo, na casa dos trinta, pele morena denunciando as suas origens latinas, soltou sonora gargalhada, atirando a cabeça para trás com gosto.
Um leve sorriso descontraiu um pouco a face tensa do outro – Realmente... é um bocado ridículo... estar a desejar que aconteça...
O jovem ficou então sério – Estamos mesmo decididos, não é verdade? – perguntou com uma voz saída do fundo dos pulmões e da alma também.
- Eu estou. Este observatório tinha por finalidade descobrir isto atempadamente; como chefe dele, estou como o comandante de um navio que se afunda. A tua decisão é que não me parece muito racional.
- Mas é, podes crer... embora... – riu-se novamente – embora nós sejamos homens de fé e não de razão! – outra sonora gargalhada rematou a frase. Mas curta; subitamente sério, o jovem continuou – quero testemunhar o que vai acontecer, quero estar nas mesmas condições de toda a gente que vai sofrer isto na pele. Se o fizer, e se sobreviver, poderei ajudar. Agora, se for lá para baixo com os outros e sair do abrigo depois da explosão, qual será a minha moral para enfrentar as pessoas? Dirão: sabias que isto ia acontecer e não nos avisaste?
- Os grandes líderes não são da tua opinião... estas vídeo-conferências deles... percebe-se que estão a fazê-las de abrigos... há mais de um mês que estão dentro de abrigos... os seus assessores devem ter concluído que avisar a humanidade iria causar mais pânico e mais estragos do que a própria explosão... optaram por continuar a culpar o dióxido de carbono; assim, depois podem dizer que não sabiam de nada...
- Pois, conclusão muito cómoda para eles.
- Não os podemos criticar pois não? A opção do Papa não foi, no fundo, a mesma?
- Sei lá... preferiu apoiar esses grupos que anunciam que a cólera de Deus se vai abater sobre os infiéis e os pecadores... Assim, depois, pode dizer que a Igreja bem avisou que o braço de Deus iria punir a humanidade – o braço do jovem moveu-se no ar mas conteve-se no momento de bater no braço da cadeira.
- Parece cruel, mas isso pode garantir a continuidade da Igreja após a catástrofe. E as pessoas vão precisar mais do que nunca de acreditar num Deus. Os sobreviventes vão pensar que foram eleitos por Deus para serem salvos, e essa fé dar-lhes-á forças... e bem irão precisar delas...
- Talvez tenhas razão mas eu não sou político, sou um cientista jesuíta.
Os dois homens calaram-se. Os olhares estavam fixos no écran, onde imagens de incêndios, fome e conflitos se sucediam. Finalmente, o chefe quebrou o silêncio.
- Esta estupidez do aquecimento global e do dióxido de carbono... comentou entre-dentes.
- Realmente – concordou o jovem – como é possível um disparate destes ter-se mantido tanto tempo! Combater o frágil dióxido de carbono, o gás vital da vida, como é possível tal nível de imbecilidade!!! – agitou-se, tinha ali um tema que lhe permitia dar algum escape à sua adrenalina de jovem. O mais velho já sabia o que se seguiria, e procurou acalmá-lo – Foram os interesses, não te exaltes, interessava a toda a gente, os governos criaram novas taxas, novas indústrias floresceram, os ecologistas ganharam protagonismo, as pessoas tinham uma explicação para tudo o que corria mal e a quem culpar... os ricos ficaram mais ricos, e a culpa foi para toda a gente e para o dióxido de carbono...
-... pois, e os cientistas que apoiavam a teoria ganhavam fundos – acrescentou inconformado o jovem jesuíta.
- O financiamento sempre foi o grande problema da Ciência.
- A Academia Linceana já foi fundada por causa disso... acrescentou o jovem com um ar tão longínquo como a Academia Linceana. Subitamente agitou-se - Eu estava a esquecer-me de algo que te quero dizer a propósito da tua decisão de “ires ao fundo com o navio”. Tu não tens a minha idade, dificilmente sobreviverás, não vejo a utilidade da tua decisão. E tu não te podes considerar responsável por só recentemente termos descoberto o fenómeno das expulsões estelares. Há que séculos que tentamos descobri-lo! Para isso é o Vaticano apoiou o Copérnico e o Galileu, para isso é que tem a maior colecção de meteoros do Mundo, para isso é que tem este observatório no Monte Graham, um dos melhores observatórios ópticos do Mundo, como já o eram o de Tucson, o do Castelo Gandolfo e anteriores. Há mais de mil anos que andamos a tentar entender a “personalidade de Deus”, como eufemisticamente dizemos. Ou seja, que andamos a tentar entender que fenómeno é este de que falam as escrituras e que as pessoas chamam de “fim do mundo”. Não és tu, ou eu, ou qualquer um de nós o responsável de o não termos conseguido, fizemos tudo o que pudemos. Aliás, não está escrito que ninguém sabe quando ocorrerá, nem o Filho? Se o tivéssemos descoberto estaríamos a contrariar o que está escrito!
- Deve ser por isso que o Vaticano já anda há bastante tempo a divulgar a ideia de que o braço de Deus vai escaqueirar isto tudo... ou não acreditava que descobríssemos, ou já sabia doutras fontes, ou jogou pelo seguro...
- Isso é bem visto... desde Fátima, não é?
- Pois, ouve – com ar calmo e seguro pôs a mão sobre o braço do jovem, tentando transmitir pelo toque a certeza que o animava - eu entendo a tua visão de homem de Fé e confiante numa Sabedoria Superior. Mas eu sou obrigado a ter uma visão mais pragmática. Era nosso objectivo descobrir a tempo. Cabe-me a mim a última responsabilidade e seria impensável reservar-me uma sorte diferente da das outras pessoas.
- Agora está tu a ser romântico em vez de pragmático. Encontras justificações para os responsáveis políticos safarem a sua pele mas não as queres para ti. Afinal, mesmo que nós não o tenhamos descoberto a tempo, houve quem o fizesse, não te esqueças...
- Sim, mas ele deu um passo grande demais para a ciência, que se move em passinhos curtos. Mas nós, que não temos as limitações da Ciência, que sabíamos do fenómeno, deveríamos tê-lo entendido. Acho que no fundo, ao fim de tantos séculos de pesquisa, já duvidávamos que o fenómeno pudesse voltar a acontecer...
Os dois homens mergulharam em silêncio profundo. O jovem ainda ruminou – pois, mas a ciência também sabia que existe um fenómeno que de vez em quando causa extinções maciças e desde o fim do século XX que se sabe que não é um meteoro nem é a actividade vulcânica... deveriam ter prestado mais atenção ao assunto...
O silêncio envolveu de novo os dois homens. O écran mostrava imagens da conferência de líderes, que os dois olhavam sem ouvir.
- O Sol já se pôs – comentou com ar casual o jovem – os outros devem estar a aparecer.
- Sim – concordou num sopro o velho jesuíta, quase sem mover os lábios, os olhos nas imagens do écran, o olhar muito distante. De repente disparou – tu ainda tens aquela ideia de que estas explosões determinam um salto evolutivo?
- Claro! – o jovem sorriu-se – tudo isto são dores de parto. A seguir virá a próxima geração de humanos. Isso também está escrito... homem de pouca fé!!!
Um ligeiro sorriso iluminou suavemente a face cansada do mais velho. Talvez tivesse razão, talvez tivesse de ser assim...

segunda-feira, maio 28, 2007

por causa do 25 de Abril ou apesar dele?


Nesta altura em que vemos a Espanha disparar na nossa frente e o país afundar-se pesadamente nos lugares do ranking europeu merecedores de despromoção, a necessidade de encontrar o culpado começa a perfilar explicações mais ou menos óbvias: em Espanha não houve revolução, em Espanha há estabilidade... é isso, a instabilidade, a revolução são ao causa do nosso atraso!


Mas será mesmo?


Já reparam no seguinte: a Espanha é umas 5 vezes maior do que Portugal. Numa economia de mercado tendencialmente global, isso é uma vantagem enorme. Porquê? Por várias razões.


Uma das razões, talvez a mais importante para já, é o mercado interno. Qualquer indústria instalada num país produz prioritariamente para esse país. Só em casos muito especiais isto não se verifica, por exemplo, quando se trata de explorar mão-de-obra mais barata, ou outros esquemas de vantagem, como apoios estatais. Mas estes casos não contam, não têm peso no PIB, estas indústrias desaparecem assim que essas vantagens temporárias se esgotam. O mercado interno é ainda o suporte esmagador do PIB.


Por exemplo, faz sentido a cerveja produzida em Portugal ser destinada à exportação? Claro que não. Se houver um mercado para cerveja noutro país, faz-se lá uma fábrica de cerveja, não se exporta.


Para compensar o seu menor mercado interno, um país pequeno tem de ser intransigente na defesa da sua produção. E isso tem de ser feito pelos seus cidadãos - por exemplo, não passa pela cabeça de um dinamarquês comprar produtos alemães, ele compra produtos dinamarqueses, é claro! Claro que o Estado tem de dar uma ajudinha e ir encontrando formas de dar alguma vantagem à produção nacional.


Por outro lado, as empresas dos países pequenos são mais pequenas, logo, fáceis de comprar por empresas estrangeiras. A ideia de que as grandes empresas não têm nacionalidade, que são de inúmeros accionistas, é treta: na realidade, têm um conjunto muito pequeno de accionistas que controlam a empresa, que são os seus verdadeiros donos. Os lucros da empresa ficam com eles. São canalizados para os seus países de origem. Mas não só: por exemplo, as empresas espanholas que actuam em Portugal na área da construcção fazem a compra de bens e serviços a Espanha, naturalmente. E, naturalmente também, o estado Espanhol só adjudica a empresas espanholas! E nós (como é possível?!?) até já tivemos um PR que foi a Espanha pedir que ao menos uma vez adjudicassem a uma empresa portuguesa!!! Em vez de aprender com os espanhóis, o estado português quer que Espanha faça os mesmos erros! Como é possível?!?


Outro factor tem a ver com a capacidade de produzir indivíduos particularmente aptos para determinadas actividades. Como no futebol - hoje o poder futebolístico de um pais já não depende do número de pessoas do país porque nos países mais avançados a esmagadora maioria das pessoas não se dedica a jogar futebol, os futebolistas vêm quase sempre de meios de pobreza; mas ainda não há muitos anos a dimensão do pais tinha enorme peso nos seus feitos futebolisticos.


Em conclusão, precisamos de ter consciência de que somos um país pequeno e que isso representa um desafio acrescido ao desenvolvimento. Como os dinamarqueses, precisamos de ter uma atitude decidida na defesa do que é produzido em Portugal e temos de ter um esforço de investimento na formação muito maior que um pais maior. É assim que os paises pequenos sobrevivem, à custa de uma fortíssima união em torno do interesse colectivo e de um esforço enorme na formação e desenvolvimento. Nós partimos em desvantagem para esta corrida e temos de fazer um esforço mais concentrado para compensarmos a nossa pequenez.



quarta-feira, maio 23, 2007

Vários dos comentários que tenho recebido contêm afirmações importantes para nos ajudarem a entender o porquê das coisas. Hoje resolvi postar um comentário da Indomável (colocado em Desvios 2) que mostra bem como o pragmatismo pode ser não só inútil como prejudicial. É pelo caminho da inteligência, da subtileza, que se avança. O do pragmatismo só dá para "safar". Se queremos avançar, temos de deixar fluir a nossa inteligência e alimentar o fascínio de que a Indomável fala ao concluir. Para deixarmos de pensar em "safarmo-nos" e passarmos a abraçar a Vida. Aqui vai:

Há dois anos dei explicações de lingua portuguesa e francesa a uma rapariga que estava com uma enorme dificuldade em acompanhar as aulas da sua turma, porque trabalhava ao mesmo tempo. O problema dela era que precisava de fazer o exame nacional e a professora estava a dar as aulas, resolvendo com os alunos exames de anos anteriores...Estas aulas não mais eram do que resumos dos exames que a própria professora tinha resolvido - ela limitava-se a dar as respostas aos alunos.Como eu não estava por dentro do programa do 12º ano, comprei um pequeno livro de preparação para os exames de lingua portuguesa, com análises das obras. Posso-te garantir que era uma bosta. O que será fazer um resumo sobre a obra de Cesário Verde sem nunca ter saboreado um dos seus poemas?Sabes o que fiz?Na internet pesquisei os autores estudados, imprimi um sem numero de textos - poesia ou prosa, consoante o autor - e pusemo-nos a ler cada um deles. Digo-te que aquela rapariga nunca tinha lido um texto de Pessoa e apaixonou-se pela mensagem. Ao fim de pouco tempo ela sabia distinguir de olhos fechados os pseudónimos de Pessoa, apenas pela sensibilidade transmitida no texto.

Quando fez o exame ia cheia de medo e depois de o ter feito ficou desconsolada porque nenhum dos colegas tinha respondido da mesma maneira. Nas nossas sessões limitei-me a ler com ela, a ver os textos à luz da história pessoal do autor, da sua biografia, dizendo-lhe que o escritor quando escreve não está a ver se o poema é decassilábico ou se a rima é emparelhada ou o raio que a parta. Ainda assim, era bom que ela soubesse o que isso era, para poder esquecê-lo quando lesse as obras. Ela lia e eu perguntava-lhe de quem ela pensava que era o texto, porque não lhe dava o nome, por isso te digo que ela distinguia o autor de olhos fechados!

Posso dizer-te ainda, que aquela rapariga teve uma das notas mais altas da escola dela nos exames nacionais de lingua portuguesa.Vais dizer-me que foi mérito meu, eu respondo-te que o mérito é todo dela. O trabalho foi dela, o interesse foi dela, eu apenas lhe transmiti um bocadinho de curiosidade e gosto pela leitura de autores que são analisados na escola como se fossem coisas chatas e sem interesse.Os nossos miudos interrogam-se porque raio têm de ler Herculano, Camões, Pessoa e mais tarde, quando são adultos e com um bocadinho de sorte até gostam de ler, descobrem livros empoeirados em alguma biblioteca ou num alfarrabista e apaixonam-se pelos clássicos, porque eles disseram coisas que parece estarem eles a descobrir agora.

A escola não ensina porque tudo é normalizado, tudo é ensinado como se fossem verdades absolutas. Se houve coisa que aprendi na Universidade e que me chocou imenso foi que não existem verdades absolutas. Se nas escolas isto fosse ensinado, garanto-te que a curiosidade seria enorme. Toda a gente teme a incerteza mas ela atrai-nos como a luz atrai as melgas. Talvez porque o fascinio de descobrir algo novo e diferente seja a luz que nos move...

segunda-feira, maio 21, 2007

O Alfabeto do Futuro


Estranhará quem lê a diversidade de assuntos postados. E tem razão, pois não parecerá de quem tem muito juizo este constante saltitar - afinal, estamos a discutir o fim dos impérios, ou a creatividade, ou o ensino, ou ciclo do Azoto, ou estamos somente numa divagação inconsequente?



Na realidade, estamos a tomar contacto com um alfabeto. Todos estes assuntos e os mais que se lhes seguirão são as letrinhas com que iremos escrever a palavra "FUTURO".



O Humano primitivo vivia na Natureza; saber os Porquês da Natureza afigurava-se empresa dificil, grande esforço para fracos resultados. Por isso, surgiram as filosofias do Como. Descobrir, ou aprender, como usar a natureza em nosso benefício é que era útil, a demanda dos Porquês era canseira, vaidade vã.


O Humano actual vive num sistema por si criado. Este sistema determina grande parte das suas acções e das suas condições de vida e de sobrevivência. Este sistema e o próprio ser humano. O resto, se chove, se faz sol, se o peixe vem à rede, só já muito remotamente influencia os humanos destinos. O Humanos dependem deles e do seu Sistema.


Mas agora entender os Porquês já não é tarefa transcendente. Só temos de entender os porquês do Sistema que criamos, e temos de nos conhecer a nós mesmos.


Conhece-te a ti mesmo é algo que há muito a humanidade sabe que tem de fazer. Conhecer o Sistema que criou é algo que se torna cada vez mais importante há medida que este vai aumentando de complexidade.


Se não entendemos os porquês de nós e do nosso sistema, somos apenas espectadores do presente, peões já não de um deus mas do nosso próprio sistema, o Futuro surge-nos como um mistério absoluto e indecifrável. Se, porém, começarmos a entender um pouco estes porquês, o nosso olhar começa a penetrar na bruma do Futuro. Saberemos então melhor escolher os caminhos do Futuro.


Actualmente, a crença num Deus já não sossega os nosso medos porque vamos consciencializando que já não é dum Deus (a Natureza) que dependemos, mas de nós e do nosso Sistema. Dependemos do Homem e não de um Deus. E isso assusta alguns, não querem, querem antes depender de um Deus, por isso pretendem destruir o que o Homem criou. Anseiam que o seu Deus ponha um fim a isto, rezam por um Fim do Mundo.


Neste blogue não estamos preocupados em achar que isto está mal e aquilo está bem; que deveria ser assim ou assado; estamos preocupados em ir entendendo o que pudermos sobre nós e o nosso Sistema.


Para o conseguirmos teremos de encontrar respostas para muitos porquês. Por isso, a diversidade de posts, tão diversos como as perguntas de uma criança. Mas cada resposta, cada pequenino detalhe que vamos entendendo, é uma letra do alfabeto com que escreveremos o Futuro.


Há algo de quase mágico na maneira como estas "letras" vão operando. Assim como uma criança, com o seu constante perguntar, ascende até ao Presente, nós prosseguiremos a viagem mais além, quase sem darmos por isso.

O Ciclo das Fezes

Eis uma descoberta mais importante que a roda! Ninguém fala nela por causa do cheiro...

Certamente já leram que a invenção da agicultura deu origem ao sedentarismo. Bom, isso é só meia verdade.

Sabem que a Vida se baseia esencialmente em 4 elementos: Carbono, Oxigénio, Hidrogénio e Azoto. C, O, H e N. Os 3 últimos são superabundantes na atmosfera. O Carbono já foi, na forma de Dióxido de Carbono, mas infelizmente este gás é retirado da atmosfera em grandes quantidades por processos quimicos, nomeadamente formando calcários, e hoje encontra-se reduzido a uma expressão insignificante. Hoje, o CO2, o dióxido de carbono, é mais raro que o Árgon que, como sabem, é um gás raro. A sua quantidade é tão diminuta que não se mede em percentagem mas em partes por milhão, ou ppm. São cerca de 300 ppm, ou seja, 0,03%!!!

A falta de dióxido de carbono tem consequências gravíssimas para a vida no planeta, como é fácil de perceber, mas isso será assunto para outro post.

Nós, os animais, obtemos esses preciosos átomos de C, O, H e N directa ou indirectamente a partir das plantas, que os transformam em compostos que podemos processar. Cabe essencialmente às plantas obter esses elementos da natureza e incorporá-los em matéria orgânica. Ora as plantas têm uma grave limitação nesta tarefa: salvo raras excepções, elas não são capazes de fixar o Azoto, de retirar o Azoto da Atmosfera. Para incorporarem o Azoto, elas necessitam de compostos de Azoto que vão buscar ao solo!

O que é que aconteceu quando a humanidade começou a fazer agricultura? ao fim de pouco tempo os solos ficavam sem esses compostos de azoto e tornavam-se estéreis! Solução: ir cultivando sempre novos campos, deixando um deserto para trás.

Portanto, a agricultura "tout court" não podia suportar sedentarismo de longa duração.

Soluções. Uma solução foi cultivar nas margens de rios. Por causa da água? Não, por causa das cheias! É que as cheias dos rios transportavam lamas azotados de montante que depositavam nos terrenos agrícolas que submergiam. O Nilo, a civilização egípcia, recordam-se? os aluviões do Tejo?
Bem, mas e onde não existia um rio? A solução só podia ser uma: devolver à terra tudo o que se tirava dela. Nós não libertamos azoto a não ser nos gases intestinais e nas fezes. Por isso, à terra era devolvido tudo o que não era aproveitado: restos não usados das plantas cultivadas e as fezes. As fezes tinham de ser cuidadosamente aproveitadas. Disto tudo se fazia o estrume.
Verdadeiramente, foi o estabelecimento deste ciclo de fezes que permitiu o sedentarismo.

Actualmente, produzem-se industrialmente os compostos de azoto, os adubos.
Esta produção industrial de adubos é um marco na evolução da vida sobre a Terra. Porque até essa altura a bio massa, a quantidade total de Vida sobre a Terra, estava limitada pela quantidade de Azoto fixado nas origens da Terra. Pela primeira vez, a quantidade total de Vida sobre a Terra pode aumentar, por acção dos Humanos!

Portanto, o Homem, ao libertar-se do ciclo das fezes, alterou profundamente um equilíbrio que existirá há uns 3 milhares de milhões de anos: a quantidade de biomassa!

Olha se os ecologistas e os fundamentalistas religiosos tivessem percebido isso? O que eles estariam fartos de protestar!
... porque eles não sabem que nos ombros da humanidade e seus descendentes repousa a continuidade da Vida sobre a Terra... coisa que descobriremos quando avançarmos um pouco para o Futuro...

sábado, maio 19, 2007

A Ilusão de Riqueza


Já referi noutro post que estamos cada vez mais pobres mas que, em consequência da diminuição de preços de muitos produtos, não o percebemos ainda.

Uma outra razão para o não percebermos é a seguinte: desde há várias décadas que se tem vindo a operar uma inversão nos valores relativos das coisas. Por exemplo, um televisor era um objecto de luxo há 40 anos, hoje pode custar uma bagatela. Um gira-disco era um objecto de culto na minha adolescência, hoje um leitor de DVD chega a custar menos que um DVD!

Ao poder ter estes objectos, ao poder fazer coisas que dantes eram quase inacessíveis, como viajar, temos a sensação de que estamos muito mais ricos do que estavamos. O que eram objectos de desejo, de sonho, passaram a estar ao nosso alcance.

Estas coisas, porém, não são indispensáveis à sobrevivência. O facto de elas estarem muito baratas pode ter a ver com qualidade de vida mas não com aspectos essenciais da sobrevivência.

Há coisas, parte integrante do conceito de sobrevivência, que não ficaram mais baratas. Ter um filho por exemplo. Dantes, ter um, ou dois, ou três filhos, educá-los adequadamente, estava ao alcance de qualquer familia "remediada". Mas hoje já não está pois não?

Estamos iludidos com sonhos que se tornaram realidade, e isso enviezou a nossa escala de medida de riqueza. Não estamos mais ricos por podermos comprar um LCD ; estamos mais pobres porque já não podemos educar 3 filhos!

Educar três filhos é o limiar de sobrevivência. É o mínimo necessário à manutenção da população, à transmissão à posteridade daquilo que recebemos. Podemos comprar um LCD, ir passar férias ao estrangeiro e, no entanto, estamos abaixo do limiar de sobrevivência.

Poder-se-á dizer: não é por falta de dinheiro, é por opção, muitos preferem a carreira profissional a ter filhos. Ora não é bem assim. Acontece simplesmente que as pessoas não têm essa opção. O mundo profissional tornou-se extremamente competitivo; tentar partilha-lo com filhos pode significar perca de competitividade profissional, logo perca de rendimentos, logo insuficiência de meios para sobrevivência.


Há outro facto que pesa nisto, que é o total desajuste do sistema de ensino, concebido a pensar apenas nos homens, em relação a este problema. A ele virei em breve mas, para já, é bom que tenhamos consciência que já somos pobres demais para podermos educar 3 filhos, que é o mínimo em termos de conceito de sobrevivência.