sexta-feira, maio 18, 2007

Sonhar o Futuro


Sabem, o Futuro é um sítio muuuito diferente do passado. Já viram como é diferente o presente dum passado de há 100 anos? Por isso, para se dar uns passinhos na direcção do Futuro é necessário termos a mente preparada para pensar coisas diferentes. Mas o nosso cérebro está treinado a fazer algo muito diferente. O que o cérebro faz durante todo o dia é identificar as situações que enfrentamos, seleccionar a situação mais parecida que temos em memória, e aplicar a solução já estudada para essa situação.

Durante o dia o cérebro não pensa! o que o cérebro faz é um trabalho de "ordenador" - identificação de situações e escolha de solução de entre as que existem no seu banco de dados.

Por exemplo, se forem a atravessar uma rua e aparecer um carro, o cérebro surge logo com a solução de fuga para a frente ou fuga para trás; como são duas soluções, pode acontecer que fiquem um momento paralisados sem saber por qual das duas optar. O cérebro não surge com uma opção de "voar" porque essa opção não consta do seu banco de dados, foi previamente eliminada.

Se não fosse assim, se o cérebro se pusesse a fazer o levantamento das opções possíveis e depois se dedicasse à análise da melhor, morreriamos atropelados.

Portanto, durante o dia, o cérebro não "pensa", o cérebro "ordena" informação. E isso é assim para que consigamos sobreviver, porque se o cérebro "pensasse" seria demasiado lento.

Bom, o cérebro não pensa de dia mas pensa de noite: durante a noite, o cérebro vai buscar as situações enfrentadas de dia, ou cria mesmo situações derivadas dessas, e entretem-se a procurar solução para elas. Enquanto dormimos, o cérebro pensa! É durante a noite que ele preenche o banco de dados que nos habilita à rápida tomada de decisão indispensável à sobrevivência.

Para sermos "criativos", para termos ideias novas, que não sejam a repetição de ideias antigas, precisamos de ser capazes de pensar sem estarmos completamente a dormir. Precisamos de "enganar" o cérebro. Ou precisamos de ser capazes de pôr o cérebro a pensar naquilo que queremos enquanto dormimos.

Se adormecemos preocupados com um assunto, durante a noite o cérebro vai analisar essa situação e de manhã podemos ter a solução - acontece muito aos estudantes, não é?

Mas há outras maneiras. Durante a noite o cérebro tende a mudar para o estado "pensador", por isso os intelectuais ou criativos sentem que têm mais rendimento quando trabalham de noite.

Podemos também "trabalhar" quando nos sentimos a cair de sono - óptima altura para o cérebro se assumir como "pensador". Ou, e isso é o que mais resulta comigo, quando começo a acordar não saio da cama - deixo o pensamento fluir, fluir, até começarem a surgir ideias novas, soluções para os problemas da véspera.

Pergunta e ser-te-á respondido. Já ouviram isso, não é verdade? E está certo. Ao "perguntar" colocamos uma questão ao nosso cérebro. Depois ele vai pensar nisso, de uma forma inconsciente, nós não damos por nada. E, de repente, pode surgir-nos a resposta. Para isso basta que saibamos perguntar ao nosso cérebro. Que perguntemos e o deixemos em paz para pensar no assunto, não podemos pôr o chato do consciente sempre a interferir, a dar sugestões, analisa isto, analisa aquilo.

Bem, já vimos aqui o que são os sonhos (alguns), como funciona o cérebro para garantir a sobrevivência, como o podemos usar para "pensar". Fui um pouco radical na exposição, porque o cérebro também é capaz de pensar durante o dia. Mas não é essa a sua tendência e temos de tomar alguns cuidados senão deixamos de ser "racionais", passamos simplesmente a ser capazes de reproduzir o passado. Por isso é que tantas pessoas vivem quase toda a sua vida repetindo-se dia após dia.

quinta-feira, maio 17, 2007

O Suor do Rosto

Todos já ouvimos falar de ganhar o pão com o suor do rosto. No tempo dos nossos avós era assim. Muito suor era preciso verter antes de ganhar o pão. Mas isso não foi sempre assim nem no tempo nem no espaço. Por exemplo, nos climas tropicais a sobrevivência pode ser coisa fácil. Não é preciso proteger do frio, logo não é preciso fazer roupas nem cuidar delas. Muito suor se poupa só aí. Comer? Apanha-se a fruta da árvore. Há sempre fruta na árvore. Também não é preciso suar para isso. E pode-se caçar. Sua-se, mas sua-se de prazer, não é desse suor que estamos a falar...

As condições dificeis que a humanidade, em consequência do seu crescente número, foi tendo que suportar é que foram exigindo "o suor do rosto" para garantir a sobrevivência.

Mas a humanidade foi descobrindo maneiras de suar menos. Aprendeu a comunicar, aprendeu a organizar-se, inventou a agricultura, a pecuária, etc. Ou seja, criou um sistema que faz que com o mesmo esforço seja possível obter muito mais. Menos suor para mais produto.

Portanto, o conjunto de conhecimentos e capacidades que a humanidade foi desenvolvendo ao longo das eras funciona como um amplificador do trabalho humano. A riqueza produzida pela humanidade já não é o directo resultado do suor do rosto mas do Sistema construido, passado de geração em geração e sucessivamente ampliado. Nós, humanos, somos agora operadores deste sistema.

Para termos uma ideia da relação entre o nosso trabalho, o suor do nosso rosto, e a riqueza produzida pelo sistema em que estamos inseridos podemos recorrer ao seguinte exemplo:

Uma viagem de comboio entre Lisboa e Porto custa aproximadamente o mesmo que duas horas de um trabalho indiferenciado (duas horas de ordenado mínimo). Portanto, por duas horas de trabalho não especializado o nosso Sistema transporta-nos a 300 km de distância. Se não existisse o Sistema, que distância percorreríamos em 2 horas? A corta-mato... uns 10 km? Bom, então o Sistema ampliou 30 vezes o nosso "suor"!

Isto poderá parecer-vos ridiculo à primeira vista, mas se começarem a comparar as diferenças de ordenado em países com diferentes graus de desenvolvimento, ou seja, com Sistemas de diferente eficiência, vêm que essas diferenças de ordenado estão relacionadas com as diferenças de eficiência.

Por outro lado, se forem trabalhar para um lugar onde não disponham de computador nem da organização nem das muitas coisas que constituem o Sistema que aqui existe, logo verão o que acontece à vossa capacidade de produzir riqueza.

Daqui podemos concluir uma coisa: o pagamento que recebemos pelo trabalho que realizamos não é uma medida do "suor do nosso rosto", como o era no tempo dos nossos avós. O condutor do comboio que transporta 500 pessoas em 3 horas de Lisboa ao Porto não é mais sábio que o cocheiro que nesse tempo, para levar dois passageiros ao mesmo destino tinha de conhecer uma infinidade de caminhos entre aldeias, cuidar dos cavalos, da carruagem e dos passageiros. Antes pelo contrário. Nós hoje recebemos muito mais em troco do mesmo suor porque temos um Sistema muito mais desenvolvido

Portanto, a riqueza, o PIB se quiserem, não é directamente produzido por nós mas por um sistema que operamos. Essa riqueza é depois redistribuída sob diversas formas, uma das quais é o vencimento que recebemos. Mas esse vencimento já não é a contrapartida directa do nosso suor, ela resulta de um processo de redistribuição da riqueza produzida.

A cobrança de impostos pelo Estado faz parte do processo de redistribuição de riqueza, como o pagamento de reformas, ou da assistência médica, ou do ensino.

As reformas não têm nada a ver com os descontos que fizemos no passado, os impostos que pagamos não são tirados ao suor do nosso rosto. O suor do nosso rosto só corresponde a uma pequenina parte do que recebemos.

Percebo daqui a indignação do leitor. Mas pense um pouco. Faça umas continhas. Veja, por exemplo, que um horita do seu trabalho dá para pagar uma refeição num restaurante. Mas já viu o que foi preciso para essa refeição? Foi preciso criar legumes, criar gado, dispôr de água potável, produzir a sua bebida, transportar isso tudo, cozinhar, e para isso foi preciso fabricar utensílios com materiais retirados das entranhas da terra, usar combustível idem, e foi servido numa casa que teve de ser construida, etc, etc, etc. Tudo isso por uma hora do seu trabalho. É bom, não é?
No tempo dos nossos avós, às vezes um dia inteiro de trabalho só dava para uma codea de pão...
Mas, graças a eles, aos nossos pais, que se esforçaram por melhorar o Sistema, hoje dispomos de uma verdadeira máquina de produzir riqueza.

Agora podemos começar a pensar sobre o processo de redistribuição de riqueza, ainda usando conceitos do tempo em que o Sistema era pouco eficiente mas já namorando o futuro.

terça-feira, maio 15, 2007

Não resisto!

Não resisto a pegar na comentário do António ao post anterior e a desenvolver um pouco a ideia...

O António tem de certeza alguma razão ... como o ensino não forma para a autonomia, as pessoas que entram no sistema de ensino tendem a sair menos autónomos... logo empresários só os que escaparam à acção do sistema de ensino...

Agora vejam o seguinte: as pequenas e médias empresas é que geram a riqueza nacional - essas grandes empresas, que tanto enchem os noticiários, representam uns 2% do PIB. Ou seja, com elas ou sem elas ficavamos na mesma!

Muitas das pessoas que se formam vão trabalhar para as grandes empresas de capital estrangeiro. O seu impacto na riqueza nacional é mínimo.

Imaginem agora que o sistema de ensino se torna muito eficiente, deixa de haver abandono escolar. Então, catástrofe das catástrofes, essa massa de gente que faz empresas desaparece! Paasamos a ter só bons alunos, desesperadamente à procura de emprego numa multinacional qualquer. Como muitos não conseguem, ficam desempregados, porque a alternativa, fazer a sua própria empresa, é-lhes impensável, têm 20 anos de escola onde foram ensinados a NÃO fazer isso!

Os sinais já aí estão, o desemprego entre licenciados está a aumentar! (porque é que as pessoas de baixa formação saem do desemprego fazendo empresas e os licenciados não? Os centros de emprego promovem o empreeendedorismo entre os licenciados desempregados?)

Felizmente que já sabemos, por informação da Laura-que-anda-na-chuva, que se dão cursos de empreendedorismo aos maus alunos! Agora percebemos porquê! Pois se são eles que fazem as empresas, nada como prepara-los melhor para essa actividade. Afinal, são eles que nos vão sustentar...

segunda-feira, maio 14, 2007

noticia

"na última década do século XX, os donos das empresas que surgiram tinham, em média, 7,7 anos de escolaridade."
(dados do Ministério do Trabalho, notícia do Destak de hoje)

Isto é dramático, não é? Só nos países muito, muito, terceiro mundo, não será?

De toda a gente deste país, só há um grupo de pessoas que de certeza não tem culpa nesta situação - estas pessoas de baixa formação que criaram empresas.

mas animem-se: o próximo post dirá coisas estimulantes, para tristezas já chega!

domingo, maio 13, 2007

Ecossistema Humano

Quando eu comecei a trabalhar, a minha natureza e juventude levou-me a tentar introduzir alterações em alguns processos de trabalho existentes no meu emprego. A reacção (indignada) de 90% das pessoas era: mas eu sempre fiz assim! há 20 anos que eu faço assim!

Durante séculos, as pessoas fizeram o mesmo geração após geração - já o meu pai e o meu avô faziam assim. No séc XX isto passou a mudar de geração para geração mas a permanecer invariante em cada geração.

Numa sociedade que não evolui, em que a riqueza produzida é sensivelmente constante, o objectivo de "ter sucesso na vida", quase que só pode ser conseguido à custa dos outros. Ou seja, para eu ter mais dinheiro, alguém terá de ter menos; para eu ser considerado o melhor numa área, os outros terão de se considerados piores. A ascensão, material ou social, faz-se à custa dos outros.

Num quadro destes, a exigência de conceitos morais sólidos torna-se importante para evitar o descalabro. O pior é que depois os que ascendem são os que não se limitam por esses conceitos.

Disse-me uma vez, com dôr, um brilhante astrónomo do Porto: os conselhos da avózinha são o estigma do fracasso.

Assim, a pouco e pouco, uma sociedade que não evolui acaba refém dos espertos, dos que pregam para os outros uma moral que não seguem. As pessoas "ricas", "importantes", são normalmente muito "crentes", pois a Igreja é o veículo da moral que lhes convém que os outros sigam. A Igreja é muito mais do que isso, mas também é isso.

A alternativa, a porta de saída para esta situação infernal, é as pessoas procurarem contribuir para um aumento da riqueza colectiva - um aumento do bolo.

Por exemplo, se a banca investir em novas empresas, contribuir para o aumento da riqueza colectiva, os seus lucros serão algo a festejar, sinal de que estamos, no conjunto, mais ricos.

Mas não, a banca não faz isso, os seus lucros resultam de taxas sobre os utilizadores dos seus serviços e actividades especulativas. Não geram riqueza colectiva, apenas ficam com uma fatia maior do bolo. Se a banca fica mais rica, então nós ficamos mais pobres. (este ano ficamos perto de mil milhões de euros mais pobres... )

Esta mentalidade do salve-se quem puder impregna toda a sociedade. Por isso a relutância no investimento na pré-primária, porque convém a quem já tem uma fatia do bolo maior que o analfabetismo funcional se propague. Por isso a falta de orientação de um ensino para a autonomia. Por isso os privilégios de que beneficiam os colégios estrangeiros. As médias de entrada em Medicina não vos causam espanto? Claro, muitos tem aquelas médias por processos fraudulentos, ainda que "legais". Mas ninguém se incomoda com isso, quem sabe quer é aproveitar-se.

Quem pode mudar este estado de coisas que nos arrasta colectivamente para o fundo?
Para começar, os professores. Eu tenho uma grande fé nos professores. Os professores dos níveis de ensino até ao 12º ano têm nas suas mãos a sociedade do futuro. São os primeiros agentes do Futuro.
Antigamente, a Escola ensinava os conhecimentos do Passado, porque estes se mantinham válidos no Futuro; os empregos pediam pessoas com experiência, esta era uma vantagem. Mas hoje os conhecimentos do passado já não são os do Futuro, e a experiência serve para quê? Os empregos pedem pessoas sem experiência e com capacidade de aprendizagem.
A Escola de hoje não pode ficar no passado, os professores têm de ensinar o que ainda não sabem! Tem de ensinar os vectores do conhecimento, da cidadania e da autonomia. Parece transcendente mas não é: basta a Escola seguir aquilo que é a verdadeira herança da nossa civilização, o primado da razão, ou a herança helénica, Socrática, se assim o quiserem. Abrirem as cabeças ao livre pensamento. Imensos professores já fazem isso, mas haverá que transformar em vaga gigante o que são ainda ondas dispersas.

E quanto a valores? Só os valores fundados na razão funcionam! Os outros, heranças mais ou menos religiosas, as suas obscuras bases sossobram no primeiro embate com o Interesse. Aceitamos os valores que compreendemos.

Bom, mas isso é para a próxima geração. E nós, o que podemos fazer agora?

sábado, maio 12, 2007

Educar para a autonomia


Educar para a autonomia... o que é isso? Para mim, duas componentes fundamentais o caracterizam.

Uma é desenvolver a capacidade de questionar, de procurar pontos de vista alternativos, de saber pensar à luz doutros interesses.


Por exemplo, que eu saiba, não se estuda religiões no nosso ensino. Ou estuda-se uma, sem sentido crítico. Não se estudam morais, estuda-se que uma é boa, a nossa, as outras estão erradas. Sendo a religião católica tão importante na nossa sociedade, analisa-se, por exemplo, os seus dogmas? Santíssima Trindade ... Pai, Filho e... Espírito Santo?!? Porquê? A mãe de Jesus era... Virgem? Que se aprende das outras religiões, que estão a ter uma importância fundamental na história actual?

Outra, é ensinar o que é a nossa sociedade. Antigamente, as sociedades humanas tinham uma estrutura relativamente simples, não era preciso ensiná-la, mas hoje é ao contrário: o Universo Humano, as regras, as forças, os agentes da sociedade que construímos atingiram uma elevada complexidade. Saber coexistir com isto tornou-se muito mais importante do que saber botânica ou mineralogia.


Por exemplo, os jovens saem do 12º ano com idade para votar. Mas que sabem eles do nosso sistema político? Que pensam do facto de os nosso deputados não responderem directamente perante os seus eleitores? que pensam da disciplina partidária? Têm capacidade crítica do sistema ou pensarão que esta é a única forma de uma democracia?


Quando olhamos para os outros países europeus vemos que, em muitos, estas questões já estão resolvidas, que há a preocupação de ensinar aquilo que é importante para a vida e responsabilidades que esperam os jovens. Então, porque é que cá não se faz isso?

(e quando se tenta qualquer coisa nesse sentido surgem logo as vozes críticas - estou a lembrar-me duma tentativa de discutir os "reality show" nas escolas...)


Laura-que-anda-na-chuva, esclareça por favor esta angústiante interrogação que paira na minha mente: estará o nosso ensino mais próximo do que é praticado nos países islâmicos do que nos países mais avançados?


Eu desconfio que o nosso ensino não prepara cidadãos mas súbditos e que não é por incompetência, é de propósito, é por ser esse o interesse dos grupos dominantes. O que liga este assunto à visão do António da sociedade humana como um ecossistema autónomo. A analisar num próximo post...

sexta-feira, maio 11, 2007

Desvio 2 - Ordenados Baixos


A interacção com os leitores está frutuosa, nomeadamente com o António e a Laura-anda-à-chuva, e aqui vai mais uma ideia nela originada .


O que é que faz os ordenados serem altos ou baixos? A ganância dos patrões? A luta dos sindicatos? A intervenção do Estado?

Consideremos um cenário de empresas pouco sofisticadas, de baixa eficiência e produtividade. Não carece de empregados muito eficientes, não precisa de seleccionar os seus trabalhadores, qualquer um serve. Os ordenados serão baixos.
Consideremos o caso das empresas altamente eficientes. Cada posto de trabalho é um lugar de responsabilidade, onde o trabalhador tem normalmente de ter uma visão geral da empresa, onde é um componente importante do sistema. A sua eficiência reflete-se na eficiência da empresa. O patrão tem de seleccionar os empregados e pagará muito mais, dependendo da oferta do mercado.

Num cenário como o português, com muitas pessoas com baixa formação e empresas de todos os tipos, a tendência será para a existência de um grande leque salarial.

Consideremos agora que o sistema educativo é altamente eficiente e todas as pessoas são altamente qualificada. Então, mesmo que as empresas sejam todas altamente eficientes, exigindo trabalhadores muito competentes, os ordenados são todos baixos porque volta a não ser preciso selecção, todas as pessoas são qualificadas. Paradoxal, não é?


Qual é a solução para evitar o esmagamento dos ordenados? Simples:

Cada trabalhador tem de ser um empresário em potência. Se não lhe pagam o que ele quer como empregado, então ele tem de ser capaz de montar a sua própria empresa. Sozinho ou com outros. E isto que lhe dá poder negocial.

Isto exige dois tipos de condições:

1- um sistema educativo que prepare as pessoas para a vida empresarial
2- um adequado sistema de apoio (financeiro, estatal) à criação de novas empresas

Se o sistema educativo for capaz disso, o resto vem por arrastamento.

Conclusão: uma escola que não prepara para a vida empresarial não prepara os seus alunos para o futuro

quinta-feira, maio 10, 2007

Desvios 1 - Sobrevivência

Os vários comentários, alguns recebidos só por email, estão a fervilhar na minha cabeça e preciso de pôr alguma ordem nisto. Vou tentar organizar algumas ideias, divagando um pouco.

Em relação ao fim dos impérios, continuo com a ideia de que é o facto de as condições de sobrevivência não estarem asseguradas para uma parte significativa da população que vai determinar o descalabro.

O conceito de condições de sobrevivência é relativo - em África o que é necessário para sobreviver é incomparavelmente menos do que numa cidade ocidental, sobretudo num clima extremo. Moçambique será dos países mais pobres do mundo, no entanto a taxa de população em risco de sobrevivência pode ser muito menor que noutros paises supostamente muito mais "ricos". E não é só uma questão de clima, por exemplo, no Brasil uma significativa parte da população, porque vendeu os terrenos para o cultivo da cana de açucar e outras razões, e porque, ao contrário do que ainda acontece em África, não pode alimentar-se da fruta das árvores, deixou de ter condições de sobrevivência, pois a sociedade brasileira ainda não tem emprego para cerca de 200 milhões de pessoas. A "civilização" já impede as pessoas de viverem da natureza mas ainda não fornece uma alternativa para todos.

As pessoas que fazem desacatos em França e incendiam automóveis estão possivelmente com um problema de sobrevivência. Eles percebem que não terão condições de sobrevivência - ou seja condições para terem casa, dignidade, não passarem fome, terem filhos - no quadro actual da sociedade francesa.
Assim, temos de entender o conceito de sobrevivência como a capacidade de viver com dignidade e assegurar a reprodução no quadro da sociedade em que se vive. Estas condições são muito diferentes em diferentes sociedades. Quando insuficientes no quadro de uma dada sociedade, levam à emigração ou à revolta. Em grande escala, determinarão o descalabro, o caos, o fim desse modelo de sociedade. O fim do Império.

Ainda pegando no conceito de sobrevivência, podemos entender melhor o 25 de Abril, como referiu um amigo que me contactou por email. A guerra em África tinha-se tornado algo eterno, sem fim à vista. Todo o jovem tinha presente que um dia iria andar na selva africana a disparar tiros sem saber porquê e arriscar-se a ficar estropiado ou morto. Todos os pais tinham presente que os seus filhos teriam de passar pela guerra em África. O 25 de Abril fez-se para acabar com a guerra, não se fez por causa da ditadura, até porque esta estava em clara reforma pelo Marcelo Caetano. A única coisa que os portugueses não queriam do sistema antigo era a guerra. A guerra estava a manchar a sobrevivência. O resto do sistema estava de acordo com as suas mentalidades.

Ora isto leva-me a um terceiro aspecto - os portugueses exibem uma clara tendência para serem súbditos, empregados, dependentes, em vez de cidadãos, empresários, responsáveis. É nisto que está a diferença entre uma ditadura e uma democracia. A democracia faz-se com cidadãos, não com súbditos.

Porque é que é assim? Eu não acredito em explicações genéticas, portanto será algo que tem a ver com o sistema, a educação. Quem dá explicações?

terça-feira, maio 08, 2007

porque caem os impérios

Procupamo-nos muito com as catástrofes naturais que se repetem, desde tremores de terra à queda de meteoros, mas ignoramos as catástrofes que ocorrem no seio da sociedade humana e que até são mais destrutivas que as naturais. E não estamos conscientes deste tipo de catástrofes por duas razões: porque ignoramos a sua natureza e porque pensamos que eram coisas dum passado atrasado e ultrapassado - até falamos do "fim da história", tal como muitos cientistas falam do "fim da física", dois máximos exemplos da ilimitada estupidez que Eisntein referiu.

Eu estava convencido que razão principal da queda sistemática das grandes civilizações tinha a ver com o problema da sobrepopulação. Os grandes impérios formam-se na sequência de grandes desenvolvimentos na organização e na produção de alimentos, como foi o caso dos Fenícios, Egípcios, Romanos, etc.. As zonas vizinhas, sem esses avanços, suportam densidades populacionais mais baixas, e essas civilizações vão se expandido porque a aplicação do seu conhecimento nesses espaços cria zonas que suportam mais população; e têm de viver em continua expansão porque a população vai crescendo e atingindo a saturação no espaço existente.

Mas há sempre um limite para a expansão que a organização consegue suportar e quando já não há mais expansão possível, o Império deixa de ser capaz de assegurar a sobrevivência dos seus cidadãos e entra em colapso - primeiro instala-se a desordem, o salve-se quem puder, o sistema organizativo começa a degradar-se, a capacidade de prover a sobrevivência agrava-se e dá-se o colapso.

Depois do último post e graças aos comentários recebidos, a minha visão alargou-se. A razão do colapso continua a ser a mesma, i. e., a incapacidade da assegurar a sobrevivência, mas a sobrepopulação não é a única causa do colapso. E esta causa é que vai ser determinante no futuro próximo.

O que é preciso para a sobrevivência? Diz-se que a Guiné-Bissau é dos paises mais pobres do mundo. Quererá então isso dizer que que lá a sobrevivência é crítica?
Nada disso. Eu estive lá. No interior. Vi pessoas que nada tinham, praticamente nem roupa tinham e, no entanto, sentiam-se no paraiso. Nada lhes faltava. A comida estava nas árvores. E ainda tinham uns pequenos porcos pretos para quando queriam variar a ementa. Que se criavam à solta, por si sós, quase sem ser necessário cuidar deles. As suas tabancas eram tudo o que precisavam para dormir. E dei por mim a discutir complexos conceitos filosóficos com eles. Não admira: têm o tempo todo para pensar... e falavam uma data de linguas: o português, o crioulo, a lingua nativa deles, a da mulher deles, o francês do pais vizinho... no mínimo.

Portanto, aquela gente não é pobre, não tem carências, tem tudo o que precisa para a sua sobrevivência. Não têm a minha angústia com o dia seguinte ou com o fim do mês. (note-se, isto era no interior, em Bissau já não é bem assim)

Vejamos agora a situação na nossa sociedade ocidental. Para sobreviver uma pessoa precisa de dinheiro para comprar roupa, alimentação, casa (não pode fazer a sua com o que apanha na natureza...), luz, água, transportes, comunicações; precisa de dinheiro para ter filhos e para lhes dar a educação necessária à vida na nossa sociedade. Quanto dinheiro representa isso tudo? Será que a nossa sociedade está a assegurar esse montante à sua população? Será a sobrevivência mais fácil aqui ou na Guiné-Bissau? Quem é mais pobre: um português com ordenado mínimo ou um guineense do interior sem ordenado nenhum mas dispondo da natureza?

Quando um "império" está a começar, as pessoas são basicamente iguais em direitos e o que há é distribuido por todos; depois acontece um fenómeno: a taxa de enriquecimento de cada um torna-se proporcional à riqueza já adquirida. Então, os mais ricos vão ficando cada vez mais ricos e poderosos e os outros vão tendo uma fracção cada vez menor da riqueza produzida. Nos primeiros tempos esta situação é sustentável porque o aumento de riqueza produzido pela nova sociedade é tal que dá para ir enriquecendo todos, apenas mais uns do que outros; mas a partir de certa altura, quando metade da riqueza produzida passa a estar na posse de muito poucos, o crescimento da riqueza destes passa a fazer-se sobretudo à custa dos outros e não já da riqueza produzida pela sociedade. A consequência é que a maioria da população começa a empobrecer. Começa a ter dificuldade em reunir o dinheiro necessário à sua sobrevivênvia como seres humanos. Um primeiro sinal, na nossa sociedade capaz de controlar a natalidade, é o deixarem de ter filhos.

Será que o ordenado mínimo assegura a sobrevivência de uma familia que trabalha na zona de Lisboa? Eu gostava de saber como é que tantas familias conseguem sobreviver assim. Se calhar não conseguem - não têm filhos porque o dinheiro não dá, passam um frio de rachar no inverno porque não podem ter aquecimento, etc.

Claro que já foi pior para muitas pessoas. Houve um ciclo de melhoria, enquanto os mais ricos não enriqueceram à custa dos outros, não atingiram os 50% do PIB. Mas esso ciclo já acabou, agora o peso dos mais ricos determina necessariamente o empobrecimento sustentado de mais de 90% da população.

A Globalização não surge como uma necessidade de acabar com a fome e o atraso no mundo. É que nos paises onde os 10% mais ricos já ultrapassaram há muito os 50% do PIB, o enriquecimento destes já não pode ser feito à custa da sua própria população (nos EUA, esta já só representa menos de 30% do PIB). Então tem de ser feita sobre o resto do mundo. Claro que primeiro é preciso engordar o porco antes de o matar, por isso a globalização pode determinar uma primeira fase de "desenvolvimento" antes de entrar na fase do "esmagamento".

Eu tenho até agora falado de riqueza, mas esta e o poder são duas faces do mesmo. As democracias gregas sossobraram porque o poder foi-se concentrando e acabaram por degenerar em ditaduras. Por isso é que a solução para este ciclo infernal passa sempre por retirar poder a quem o tem a mais. Mas isso nem sempre é possivel, quando a população de um país deixa de ter peso económico, quando 90% representam menos de 20% do PIB, então ficam na condição de escravos. Estamos quase lá.

Um exemplo: os lucros dos bancos têm crescido brutalmente. À custa de quê? De gerarem mais riqueza para o país? Nada disso. Apenas os consumidores dos seus serviços estão a pagar mais e a serem mais aldrabados com propostas de investimento enganadoras. A EDP teve lucros fabulosos. E os consumidores ainda vão ter de pagar uma taxa adicional para compensar as baixas tarifas??? Vêem: a riqueza e poder dos mais ricos crescem aceleradamente. A "crise", isto é, o empobrecimento de 90% da população, e o aumento dos lucros dos mais ricos estão associados. E escusam de esperar que o partido A ou B resolva a situação, quem for para o Governo vai estar demasiadamente preocupado com a sobrevivência do Estado, sem perceber que a diminuição de receitas é inexorável, como referi no post anterior, e vai estar ocupado a inventar taxas novas... e só vai acelerar o empobrecimento da população.

Este problema terá de ser resolvido por nós ou pelos nosso filhos. Falta é descobrir como. Se não descobrirmos, cedo ou tarde teremos mais um colapso civilizacional.

Notem que eu não sou do Bloco de Esquerda, não tenho ideias comunistas nem estou integrado em nenhum movimento politico. Busco apenas entender. Como qualquer filósofo. No meu caso, formado no interior da Guiné-Bissau (não é nas universidades que aprende a procurar os Porquês).

Notem também que nada me move contra os "ricos". São pessoas como outras quaisquer, agindo em consequência das regras do Sistema e dos seus interesses. Como todas as pessoas. O Sistema é que tem falhas.

sábado, maio 05, 2007

Porque não há solução para a crise

Sabem porque é que não há saída para a crise? Reparem nos seguintes dois factos:

1- Em todas as economias liberais, os 10% mais ricos concentram pelo menos 50% da riqueza produzida, do PIB - creio que a China não atingiu ainda este valor mas está muito perto e que nos EUA andará pelos 70%.

2- a riqueza dos 10% mais ricos cresce mais que o PIB (os PIB crescem 1 digito, a riqueza dos 10% mais cresce muitas vezes na casa dos 2 digitos; já viram como têm crescido os lucros da banca neste Portugal de pobrezinhos?)

Destes dois factos surje uma conclusão inevitável: 90% da população está cada vez mais pobre! Óbvio, não é verdade? Se um pais tiver 50% da riqueza na mão de 10%, se o seu PIB crescer 3% e a riqueza do 10% mais ricos crescer 8%, a riqueza do restante 90% das pessoas vai diminuir 2%.

Portanto, o actual sistema conduz inexoravelmente ao empobrecimento de 90% da população!
Isto é um facto. Como pertenceremos a estes 90% (os 10%mais não têm tempo para blogs) vamos ficar sempre mais pobres!

Claro que isto é em termos médios. Os governos têm de ir subindo ordenados mínimos (em Portugal parece que já nem isso...). Então, vão descer nalgum outro lado - nas reformas, nos gastos sociais, nomeadamente na saude, etc

Por outro lado, há uma razão para não notarmos esse empobrecimento: é que o preço de muitos produtos está sempre a descer.

O PIB resulta do produto do aumento de produção pelo valor do que se produz. Se a produção dobrar mas o preço do produto cair para metade, o PIB não aumenta. O que acontece é que o aumento de produção suplanta ligeiramente a queda de preços.

Essa queda de preços é fácil de constatar nos produtos electrónicos. Mas noutros produtos está a ficar complicado, porque as exigencias de qualidade são crescentes. Os carros "baratos" não embaratecem porque cada vez têm de cumprir mais especificações. A alimentação já bateu no fundo, já usou lixo reciclado como alimento para animais, mas hoje começa a não o poder fazer.

Ou seja, o preço dos bens e serviços essenciais começa a ter dificuldade em descer. E, não descendo, o embobrecimento da população começa a sentir-se fortemente.

Não quer dizer que estes preços já tenham atingido o mínimo - em breve será talvez possivel criar músculo em laboratório, acabando com a necessidade de criação de gado, por exemplo, o que poderá significar uma nova janela de preços descendentes na alimentação. Mas no entretanto...

Outro problema mais grave: como 90% da população está cada vez mais pobre, os rendimentos de 90% da população vão tendendo para o ordenado mínimo; ora estes não pagam IRS. Então, acontece que, com o actual sistema de impostos, as receitas do Estado e da segurança social vão diminuir! O Estado vai ficar cada vez mais pobre! Cerca de 50% dos portugueses já não pagam IRS porque não têm rendimentos suficientes. Este número tende a aumentar, a taxa média de IRS tende a descer.

Para fazer face a isto o Estado começa a cortar despesas, que é como quem diz, serviços. E começa a querer cobrar noutro tipo de impostos, o que conduz a um empobrecimento ainda maior dos 90% da população - é o que acontece com o aumento do IVA: se o IVA aumenta 3% isso significa que ficamos 3% mais pobres porque o nosso poder de compra diminui 3%. E introduz ecotaxas, taxas moderadoras, impostos para os reformados...

A situação é pois esta: no nosso sistema económico 90% da população, o Estado e a segurança social estão cada vez mais pobres. Isto é inerente ao sistema tal como está a funcionar. O Estado será cada vez mais fraco e incapaz de controlar o aumento de riqueza e de poder dos 10% mais ricos. O Estado vai tentar manter as suas receitas à custa dos 90% cada vez mais pobres e os 10% mais ricos vão culpar o Estado da situação para que ninguém os culpe a eles. Vamos tender todos para o ordenado mínimo, degradado por cada vez mais taxas e menos serviços tendencialmente gratuitos, e depois teremos de inventar uma revolução. Outra vez.

Nos paises mais fortes, tentarão ir buscar riqueza no estrangeiro, tentarão que o aumento de riqueza dos 10% mais ricos se faça à custa doutros povos. Que terão de se revoltar. Outra vez.

No entretanto, aproveitemos as viagens de avião cada vez mais baratas...