Procupamo-nos muito com as catástrofes naturais que se repetem, desde tremores de terra à queda de meteoros, mas ignoramos as catástrofes que ocorrem no seio da sociedade humana e que até são mais destrutivas que as naturais. E não estamos conscientes deste tipo de catástrofes por duas razões: porque ignoramos a sua natureza e porque pensamos que eram coisas dum passado atrasado e ultrapassado - até falamos do "fim da história", tal como muitos cientistas falam do "fim da física", dois máximos exemplos da ilimitada estupidez que Eisntein referiu.
Eu estava convencido que razão principal da queda sistemática das grandes civilizações tinha a ver com o problema da sobrepopulação. Os grandes impérios formam-se na sequência de grandes desenvolvimentos na organização e na produção de alimentos, como foi o caso dos Fenícios, Egípcios, Romanos, etc.. As zonas vizinhas, sem esses avanços, suportam densidades populacionais mais baixas, e essas civilizações vão se expandido porque a aplicação do seu conhecimento nesses espaços cria zonas que suportam mais população; e têm de viver em continua expansão porque a população vai crescendo e atingindo a saturação no espaço existente.
Mas há sempre um limite para a expansão que a organização consegue suportar e quando já não há mais expansão possível, o Império deixa de ser capaz de assegurar a sobrevivência dos seus cidadãos e entra em colapso - primeiro instala-se a desordem, o salve-se quem puder, o sistema organizativo começa a degradar-se, a capacidade de prover a sobrevivência agrava-se e dá-se o colapso.
Depois do último post e graças aos comentários recebidos, a minha visão alargou-se. A razão do colapso continua a ser a mesma, i. e., a incapacidade da assegurar a sobrevivência, mas a sobrepopulação não é a única causa do colapso. E esta causa é que vai ser determinante no futuro próximo.
O que é preciso para a sobrevivência? Diz-se que a Guiné-Bissau é dos paises mais pobres do mundo. Quererá então isso dizer que que lá a sobrevivência é crítica?
Nada disso. Eu estive lá. No interior. Vi pessoas que nada tinham, praticamente nem roupa tinham e, no entanto, sentiam-se no paraiso. Nada lhes faltava. A comida estava nas árvores. E ainda tinham uns pequenos porcos pretos para quando queriam variar a ementa. Que se criavam à solta, por si sós, quase sem ser necessário cuidar deles. As suas tabancas eram tudo o que precisavam para dormir. E dei por mim a discutir complexos conceitos filosóficos com eles. Não admira: têm o tempo todo para pensar... e falavam uma data de linguas: o português, o crioulo, a lingua nativa deles, a da mulher deles, o francês do pais vizinho... no mínimo.
Portanto, aquela gente não é pobre, não tem carências, tem tudo o que precisa para a sua sobrevivência. Não têm a minha angústia com o dia seguinte ou com o fim do mês. (note-se, isto era no interior, em Bissau já não é bem assim)
Vejamos agora a situação na nossa sociedade ocidental. Para sobreviver uma pessoa precisa de dinheiro para comprar roupa, alimentação, casa (não pode fazer a sua com o que apanha na natureza...), luz, água, transportes, comunicações; precisa de dinheiro para ter filhos e para lhes dar a educação necessária à vida na nossa sociedade. Quanto dinheiro representa isso tudo? Será que a nossa sociedade está a assegurar esse montante à sua população? Será a sobrevivência mais fácil aqui ou na Guiné-Bissau? Quem é mais pobre: um português com ordenado mínimo ou um guineense do interior sem ordenado nenhum mas dispondo da natureza?
Quando um "império" está a começar, as pessoas são basicamente iguais em direitos e o que há é distribuido por todos; depois acontece um fenómeno: a taxa de enriquecimento de cada um torna-se proporcional à riqueza já adquirida. Então, os mais ricos vão ficando cada vez mais ricos e poderosos e os outros vão tendo uma fracção cada vez menor da riqueza produzida. Nos primeiros tempos esta situação é sustentável porque o aumento de riqueza produzido pela nova sociedade é tal que dá para ir enriquecendo todos, apenas mais uns do que outros; mas a partir de certa altura, quando metade da riqueza produzida passa a estar na posse de muito poucos, o crescimento da riqueza destes passa a fazer-se sobretudo à custa dos outros e não já da riqueza produzida pela sociedade. A consequência é que a maioria da população começa a empobrecer. Começa a ter dificuldade em reunir o dinheiro necessário à sua sobrevivênvia como seres humanos. Um primeiro sinal, na nossa sociedade capaz de controlar a natalidade, é o deixarem de ter filhos.
Será que o ordenado mínimo assegura a sobrevivência de uma familia que trabalha na zona de Lisboa? Eu gostava de saber como é que tantas familias conseguem sobreviver assim. Se calhar não conseguem - não têm filhos porque o dinheiro não dá, passam um frio de rachar no inverno porque não podem ter aquecimento, etc.
Claro que já foi pior para muitas pessoas. Houve um ciclo de melhoria, enquanto os mais ricos não enriqueceram à custa dos outros, não atingiram os 50% do PIB. Mas esso ciclo já acabou, agora o peso dos mais ricos determina necessariamente o empobrecimento sustentado de mais de 90% da população.
A Globalização não surge como uma necessidade de acabar com a fome e o atraso no mundo. É que nos paises onde os 10% mais ricos já ultrapassaram há muito os 50% do PIB, o enriquecimento destes já não pode ser feito à custa da sua própria população (nos EUA, esta já só representa menos de 30% do PIB). Então tem de ser feita sobre o resto do mundo. Claro que primeiro é preciso engordar o porco antes de o matar, por isso a globalização pode determinar uma primeira fase de "desenvolvimento" antes de entrar na fase do "esmagamento".
Eu tenho até agora falado de riqueza, mas esta e o poder são duas faces do mesmo. As democracias gregas sossobraram porque o poder foi-se concentrando e acabaram por degenerar em ditaduras. Por isso é que a solução para este ciclo infernal passa sempre por retirar poder a quem o tem a mais. Mas isso nem sempre é possivel, quando a população de um país deixa de ter peso económico, quando 90% representam menos de 20% do PIB, então ficam na condição de escravos. Estamos quase lá.
Um exemplo: os lucros dos bancos têm crescido brutalmente. À custa de quê? De gerarem mais riqueza para o país? Nada disso. Apenas os consumidores dos seus serviços estão a pagar mais e a serem mais aldrabados com propostas de investimento enganadoras. A EDP teve lucros fabulosos. E os consumidores ainda vão ter de pagar uma taxa adicional para compensar as baixas tarifas??? Vêem: a riqueza e poder dos mais ricos crescem aceleradamente. A "crise", isto é, o empobrecimento de 90% da população, e o aumento dos lucros dos mais ricos estão associados. E escusam de esperar que o partido A ou B resolva a situação, quem for para o Governo vai estar demasiadamente preocupado com a sobrevivência do Estado, sem perceber que a diminuição de receitas é inexorável, como referi no post anterior, e vai estar ocupado a inventar taxas novas... e só vai acelerar o empobrecimento da população.
Este problema terá de ser resolvido por nós ou pelos nosso filhos. Falta é descobrir como. Se não descobrirmos, cedo ou tarde teremos mais um colapso civilizacional.
Notem que eu não sou do Bloco de Esquerda, não tenho ideias comunistas nem estou integrado em nenhum movimento politico. Busco apenas entender. Como qualquer filósofo. No meu caso, formado no interior da Guiné-Bissau (não é nas universidades que aprende a procurar os Porquês).
Notem também que nada me move contra os "ricos". São pessoas como outras quaisquer, agindo em consequência das regras do Sistema e dos seus interesses. Como todas as pessoas. O Sistema é que tem falhas.