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quarta-feira, junho 10, 2009

Todas as Células são «Neurónios» (1ª parte)

Vou fazer agora a um exercício de divagação. Divagar é um processo indispensável à Descoberta (no fundo, é uma forma sofisticada de «acaso+selecção»). Vamos divagar pelo nosso próprio percurso desde o nascimento e prestar atenção ao nosso funcionamento.

Como é que iniciamos a nossa interacção com o exterior? Aparentemente, colhendo informações ao acaso – fazemos movimentos, colhemos percepções visuais, tácteis, sonoras. Com isto, podemos fazer uma tabela dos impulsos a aplicar aos músculos para executarmos os movimentos pretendidos. Depois, apenas temos de «consultar a Tabela» para executar os movimentos pretendidos, ou interpretar as imagens, falar, ouvir, etc.

Será? Será assim tão simples?


Não é nada simples, exige imenso processamento. Por exemplo, a nossa representação do exterior usa um espaço euclidiano a 3 dimensões, mas isto não corresponde directamente às informações dos sentidos. O cérebro tem de processar muita informação de todos os sentidos para chegar a esse modelo 3D. Não é o que «os olhos vêem». Eu sou míope e posso usar óculos ou lentes de contacto. A imagem que se forma na minha retina num caso e noutro é muito diferente porque os óculos distorcem a imagem. Qualquer míope sabe que quando muda de graduação tem de ter cuidado a descer uma escada porque os degraus não estão onde ele os vê enquanto o cérebro não corrige a nova informação visual. O meu cérebro tem duas Tabelas de conversão – uma para os óculos, outra para as lentes de contacto. Experiências com voluntários mostraram que o cérebro até é capaz de corrigir a informação de lentes que invertem horizontalmente as imagens.

O modelo 3D também não resulta das informações musculares por si só, pois estamos sujeitos a um campo gravítico, sendo o esforço a fazer para um movimento dependente da direcção deste. Apenas a conjunção das informações visuais e motoras pode, se puder, descortinar a característica euclidiana do espaço.

Levanta-se então uma questão: é o cérebro que conclui que o espaço é 3D, euclidiano, à custa de imenso processamento das informações sensoriais, ou essa informação é herdada, como qualquer outra característica fisiológica? Hummm, talvez nem uma coisa nem outra, este é apenas o modelo espacial mais simples, pode vir associado ao programa de processamento de imagem.... Interessante questão, tenho de voltar a ela, mas agora está a «bater-me» na tola outra coisa: é impressionante como as informações musculares estão tão bem adaptadas: tanto me custa levantar como abaixar um braço; no entanto, são dois movimentos com um esforço bem diferente.

E quando pegamos num objecto, o cérebro já sabe que força vai fazer – nunca vos aconteceu pegar num objecto que era muito mais leve do que pensavam e o movimento sair muito brusco? Mas isso é raro acontecer, porque o cérebro já tem uma Tabela que lhe permite saber o peso de todos os objectos... muito bem preenchida a «Tabela»!

Como é o processo de Inteligência que usamos para preencher estas tabelas de informação? É... «acaso+feedback+selecção». «A+F+S». A selecção é feita pelo cérebro, através do processamento da informação fornecida pelo «feedback».

Ora temos aqui algo novo em relação à «selecção natural»! A aprendizagem de funcionamentos não é feita pela natureza mas pelo próprio indivíduo. Ele é o Seleccionador. E para isso tem um processo de recolha de informação, de feedback.

Mas reparo que há uma coisa a que eu não estou a dar o devido relevo: os programas que o cérebro tem de ter para processar toda esta informação. Para a Visão, tem de ter um programa muito complexo para conseguir identificar as formas, como o pessoal que trabalha em processamento de imagem tem vindo a descobrir... é muito espertinho o cérebro... e se formos analisar a fala, e a audição, novamente encontramos a necessidade de sofisticados programas com que o cérebro tem de vir dotado.

O que me leva de novo ao espaço 3D... é herdado ou descoberto? E se o cérebro vem cheio de programas à nascença, também pode trazer informação... que informação trazemos nós quando nascemos sobre o mundo exterior?

Claro, há os «instintos»... as aves conhecem o falcão mesmo sem nunca terem visto nenhum... ou melhor, identificam qualquer silhueta voadora com pescoço curto como «perigo»... e todos os animais sabem andar logo que nascem, não é? Já nascem com essa Tabela preenchida!!

A propósito do saber andar: a principal diferença entre nós e um veadinho, um «Bambi», é que o Bambi nasce «terminado» e nós nascemos por acabar, andamos cerca de um ano depois de nascermos em «acabamentos»; nesse caso, será que somos mesmo nós que preenchemos essas tabelas em função da nossa interacção com o mundo exterior, somos nós que descobrimos como se anda, ou é uma informação que já está em nós e que vai sendo colocada no lugar durante o nosso primeiro ano de vida «exterior»?

Ou seja, é como se o nosso período de gestação fosse de uns 20 meses mas temos de sair da barriga da mãe antes disso. É que não faz sentido nenhum pensar que nós perdemos uma informação que as crias de veado têm... não somos menos do que o Bambi, não é? Assim, com este truque de nascer antes de tempo, numa tribo humana, que é muito mais capaz do que a «tribo» do Bambi para cuidar dos seus recém-nascidos, as fêmeas podem engravidar todos os anos em vez de ser de dois em dois anos, aumentando a taxa de reprodução. Inteligente a Natureza...

Preenchemos a Tabela ou ela vem preenchida? As duas coisas, pelos vistos... Certamente que a preenchemos, pois aprendemos a identificar objectos que não existiam anteriormente; mas parece que a informação indispensável à sobrevivência já lá vem – a silhueta do falcão nas galinhas e outras aves, o «saber andar» do Bambi. As duas coisas portanto...

Bom, mas se este conhecimento é herdado, teve alguma origem – e só podem ter sido os nossos antepassados muito distantes, desde há uns 500 milhões de anos que esta informação vem sendo adquirida e transmitida aos descendentes... e adaptada por estes à medida que os órgãos de locomoção e dos sentidos iam sofrendo evoluções...

Oops, mas para que isto possa ser assim, é preciso que a informação adquirida por um ser vivo possa ser transmitida aos descendentes!!! Não há hipótese nenhuma de explicar plausivelmente pela «selecção natural» que uma ave que nunca viu um falcão fuja da sua silhueta, ou que o Bambi saiba andar à nascença, não é verdade?

Há outra alternativa para explicar os «instintos»? Se alguém souber, que o diga.

Notem: não estou a dizer o mesmo que o Lamarck, não estou a falar da transmissão de modificações fisiológicas, mas de «transmissão de informação funcional».

(continua)

quinta-feira, maio 28, 2009

Quatro Sistemas para Exploração do Universo



A pequena bactéria iniciou, aos primeiros raios do nascer do Sol daquele longínquo dia, há quase mil milhões de anos, a extraordinária aventura de exploração deste Mundo desconhecido e em mudança. Para isso ela teve de se associar com outras bactérias, construir imensas máquinas de exploração, que receberam nomes como «plantas» e «animais». E para realizar esse imenso e complexo percurso ela dispôs de 4 sistemas de navegação. Quatro magníficos sistemas que ela soube usar com a perícia que o tempo dá. Quatro sistemas que lhe disseram o que fazer e como o fazer.

Vamos conhecer esses sistemas. São sistemas que permitem resolver problemas. Genericamente, são sistemas de Inteligência. Mas vamos detalhar a sua natureza e classificação.

Voltemos ao exemplo do Labirinto.

O nível mais elementar de actuação que permite resolver o labirinto é andar ao acaso até dar com a saída, o que designei por «Hipóteses+Selecção», ou «H+S» no texto anterior; mal designado, penso eu hoje... «Acaso+Selecção», ou «A+S» parece-me mais adequado, e é assim que o referirei de agora em diante. Não esqueçam: o «H+S» foi substituído pelo «A+S»!

Já vimos que este nível só é eficiente em situações onde a geração de acasos seja muito elevada e o custo de cada hipótese falhada irrisório.

Depois, referi que podia resolver um labirinto se andasse sempre encostado ao mesmo lado. Sem dúvida que este processo é muito mais eficiente, 100% eficiente. Mas a Inteligência não está na aplicação desta regra resolvente, está no processo que conduziu a ela. E que processo foi esse? Foi um processo de geração de hipóteses com um grau de complexidade superior – nada de transcendente, pois “virar sempre para o mesmo lado” é a alternativa mais básica a “virar ao acaso” – seguido do teste da hipótese.

Temos aqui um processo mais estruturado de elaboração de alternativas, de Hipóteses, seguido da aplicação da hipótese escolhida; depois, a análise do resultado e a aprovação ou rejeição da hipótese. Portanto, temos algo de novo em relação ao primeiro processo: temos «Feedback», ou seja, precisamos do resultado do teste para aprovar ou rejeitar a hipótese. Uma vez aprovada, a hipótese fica a fazer parte duma base de conhecimento, associada ao problema do labirinto.

Este nível de Inteligência apresenta grandes diferenças para o primeiro: assenta num processo mais estruturado de geração de hipóteses, que já não são obtidas por mecanismos de acaso, seguido do teste e da análise do resultado do teste. E o resultado deste processo é o quê? Um item duma base de conhecimentos. Um Conhecimento.
Como poderemos nomear este nível? Dissequemos.

As Hipóteses não saem de uma base de conhecimentos, são algo de novo, mas também não são fruto de acaso; são fruto de um processo... criativo! Portanto, podemos designar o primeiro passo do processo por «Criatividade». O segundo passo é o teste da hipótese, a experimentação, a acção. Vou escolher a palavra «Acção». O terceiro é o «Feedback». Esta palavra representa bem o terceiro passo e é bem conhecida. Todos sabemos que o organismo se regula por «bio-feedback». O «Feedback» é um processo corrente na interacção dos organismos vivos com o meio.

Portanto, vou designar este nível de Inteligência por «Criatividade+Acção+Feedback» ou «C+A+F».

O que é específico desta sequência é a Criatividade, pois os outros dois passos são comuns aos mecanismos de regulação, ao bio-feedback. No próximo post tentaremos perceber como se realiza o processo de Criatividade.

Inteligência é um processo associado à geração de hipóteses novas; mas isso não é sempre necessário para resolver problemas – rarissimamente usamos hipóteses novas, o que fazemos é aplicar o que já sabemos às situações que nos vão aparecendo. Podemos assim identificar dois tipos de processos: o de Inteligência e o de Ajustamento (escolhi esta palavra agora mesmo... em inglês diria “fitting”... aceito sugestões).

O «Feedback» é um processo de Ajustamento de nível 1; não é de Inteligência porque não há criatividade no processo.

Reparemos agora como actua um médico: primeiro, faz o Diagnóstico da situação, identificando um quadro a que chama «doença»; depois, aplica um Procedimento, que é o tratamento conhecido para essa doença. Desta forma, ele resolve um problema, o mal-estar da pessoa. Reparem que «doença» não significa a identificação da causa da doença, apenas o quadro de sintomas. No caso de uma pneumonia, sabemos qual é a causa, mas no caso de uma doença reumática, por exemplo, não sabemos – temos apenas um quadro de sintomas e um conjunto de tratamentos que sabemos poderem dar algum resultado, mas não temos necessariamente uma relação lógica ou de causa-efeito entre as duas coisas.

Este processo de «Diagnóstico+Procedimento» é um processo geral que aplicamos constantemente em tudo o que fazemos - quando andamos, comemos, consultamos o email, resolvemos as questões da nossa vida profissional, das nossas relações sociais, etc. Resolve problemas cuja solução já é conhecida ou que se podem decompor em problemas conhecidos. Reparem: «aprender a andar» é um processo de inteligência de nível 1, um processo de tentativa e erro; mas «andar» já não é um processo de Inteligência mas sim de Ajustamento, pois depende da base de conhecimentos construída no processo de aprendizagem e não da geração de hipótese novas.


Organizemos então o que já percebemos:

- Dois tipos de processos de resolução de problemas: os de «Inteligência» e os de «Ajustamento»; vou designá-los por processos I e processos A

- Dois níveis de Inteligência: o nível 1 «Acaso+Selecção» e o nível 2 «Criatividade+Acção+Feedback». Simbolicamente direi que temos: I1=«A+S» e I2=«C+A+F»

- Dois níveis de Ajustamento: de nível 1 o «Feedback» e de nível 2 «Diagnóstico+Procedimento»; A1=«F», A2=«D+P»


Veremos a seguir alguma coisa sobre o uso que fazemos destes processos, o que nos permitirá compreendê-los melhor e saber tirar melhor partido das nossas capacidades. E, muito importante, compreender as nossas limitações.

Dotados de uma melhor compreensão destes 4 processos, poderemos então abordar a questão da Evolução. Reparem a vantagem que temos à partida sobre o Darwin: vamos «armados» com 4 processos capazes de produzirem modificações nos seres vivos, enquanto ele só tinha 1 processo de Inteligência e nem sabia da existência de genes.

quinta-feira, maio 14, 2009

Processos Inteligentes da Evolução: «H+S»




A Mãe Natureza é extremosa e tudo faz para que nos sintamos bem, confortáveis, felizes. Impressionante a forma como consegue dotar-nos de corpos tão bem adaptados ao nicho ecológico em que vivemos! De tal maneira o faz que até pensamos que é ao contrário, que o mutável Mundo foi feito à nossa medida e não o contrário. Assim está escrito no Livro. E falamos de «alterações climáticas» porque se o clima se parece alterar, desajustar em relação às nossas memórias de infância, isso só pode ser devido à intervenção humana.

Mas como o consegue ela? Como adapta o focinho do urso-formigueiro, o bico do pica-pau, o voo do beija-flor, o pescoço da girafa, o sonar do morcego?

Há, sem dúvida, por definição (o conceito que propus), um processo Inteligente por detrás desta capacidade de adaptação. Sabemos qual é o processo Inteligente elementar: geração de Hipóteses + Selecção. Será este?

Darwin analisou este, o mais elementar dos processos Inteligentes. Fez bem, há que começar pelo princípio.

Pensou então Darwin que as crias de cada espécie não serão apenas uma mistura das características dos progenitores mas contêm um elemento de diversidade. Os seus «parâmetros de projecto» contêm um elemento aleatório. Por exemplo, o tamanho do bico poderia ser mais ou menos 10% do tamanho que resultaria das características dos pais (o exemplo é meu). Ou o tamanho do pescoço. Consideremos o caso da Girafa. O pescoço dos descendentes seria nuns casos mais pequeno que o dos pais, noutros igual, noutros maior. Os que nascem com pescoço maior chegam a ramos mais altos e comem mais, crescendo mais fortes, sobrevivendo mais, reproduzindo-se mais. Com os seus descendentes o mesmo se passará. Ao fim de umas gerações, o pescoço das Girafas estaria, em média, bem mais alto. Até atingir a altura óptima para a vegetação do seu nicho.

Convincente, não é verdade? Sem dúvida, uma explicação simples e elegante.

Antes de Darwin, Lamarck tinha proposto algo diferente: as adaptações ocorriam nos indivíduos em função das suas necessidades; depois, pela reprodução, seriam transmitidas aos descendentes. Esta ideia, porém, tem dois problemas: por um lado, a observação parece mostrar que os indivíduos adultos não sofrem modificações, não se adaptam – o que serão em adultos parece estar definido à nascença; por outro lado, as células germinativas são definidas nos primeiros tempos de vida, como poderiam então elas adquirir informação sobre posteriores adaptações do ser a que pertencem?

As ideias de Darwin parecem capazes de explicar o processo evolutivo. É este, pois, o indiscutível processo usado pela Natureza para adaptar os seres vivos aos respectivos nichos ecológicos?

Analisemos com mais detalhe o funcionamento do processo de Selecção. Uma via de selecção é a sexual – os machos mais capazes ou favorecidos pelas fêmeas reproduzem-se mais. Assim, os genes dos machos são seleccionados. Mas atenção: os das fêmeas não são! Os machos engravidam todas as fêmeas, não fazem esse tipo de selecção. Ora os genes das crias vêem do pai e da mãe (algo que o Darwin não saberia). Portanto a metade dos genes de origem maternal não é seleccionada por esta via. Quais as consequências?

Voltemos ao caso da Girafa. A cria da girafa contém um gene do pescoço do pai e outro do pescoço da mãe (não será apenas um gene, isto é uma exemplificação). Se o gene do pai dominar, ela poderá ter um pescoço longo. Mas se for o da mãe, ela poderá ter um pescoço curto, pois a mãe não foi seleccionada pelo tamanho do pescoço. Ou seja, a facto dos genes da mãe não serem seleccionados origina um alargamento da distribuição do tamanho dos pescoços no sentido do alongamento. Podem aparecer girafas com pescoços grandes mas não deixam de aparecer girafas com pescoços curtos. Ora não é isto que se observa, a selecção unissexuada não parece suficiente para explicar o alongamento do pescoço das girafas sem aumento da dispersão.



Diferença nas consequências de um processo de selecção que afecta os dois sexos (em cima) ou só um (em baixo); a azul a distribuição inicial (esquemática) de uma caracteristica (no caso o tamanho do pescoço de uma população de girafas) e a vermelho a distribuição final.


Haverá outra selecção? As mães com pescoço mais longo são mais robustas e sobrevivem mais e procriam mais?
Pode ser. Mas agora o processo já não é tão eficiente. Esta selecção implica que as girafas de pescoço curto e normal tenham vida curta. Para funcionar, este tipo de selecção exige que apenas uma minoria de girafas sobreviva, só assim este processo de selecção pode ser eficiente.

Além disso, um pescoço longo envolve muito mais do que umas vértebras maiores; para além das modificações do esqueleto, há adaptações do sistema circulatório e outras; uma girafa com um pescoço maior, sem as outras adaptações, não seria um ser com vantagem mas o contrário. A selecção natural eliminaria tal ser, não o seleccionaria.

Entendamos:

1 - As modificações morfológicas dos seres vivos, todas elas, sejam internas ou externas, o desenvolvimento do olho ou da asa ou o andar em duas pernas, revelam um «Processo Inteligente» de acordo com o conceito de Inteligência que propus;
2- «Hipóteses + Selecção» é o mais elementar processo de Inteligência;
3- por ser um processo de Inteligência, podemos explicar todas as modificações dos seres vivos com ele;
4-
mas essa não é a questão. A questão é saber se foi este o processo utilizado ou se foi outro!
5- A dificuldade está em que nós não fomos ainda capazes de definir / descobrir outro processo. O equivalente a
resolver o labirinto virando sempre para o mesmo lado.

O processo «Hipóteses+Selecção», ou «H+S», é um processo que depende da possibilidade de gerar hipóteses em alto número e de uma selecção muito eficiente que só selecciona uma parte ínfima das hipóteses; mas é completamente ineficiente se estas duas condições não estiverem reunidas.

Este processo exigiria um número de crias alto por ninhada, tempo de maturação sexual curto, e sistemática geração de crias com «parâmetros» fora dos «parâmetros» dos pais. Ora, nos animais, parece não existir nenhum mecanismo sistemático de geração da requerida dispersão dos valores dos parâmetros, apenas uma ínfima percentagem de erros de cópia em relação ao total de crias, os quais só geram alguma minúscula vantagem apenas numa percentagem ínfima de casos. Portanto, o intenso processo de geração de hipóteses essencial a um processo «H+S» não existe nos seres vivos com alguma complexidade.


Que sugerem estas considerações? Que o processo proposto por Darwin poderá funcionar nos virus, nas bactérias, eventualmente em espécies inferiores, onde a procriação se faz em grande número.

Nas espécies superiores, porém, não parece nada adequado: o número de crias é demasiado pequeno para a selecção ser um mecanismo eficiente, o investimento nas crias é demasiadamente grande para servir de suporte a um processo com o desperdício deste, e a geração de crias «mutantes», com características que não resultem exclusivamente dos pais é ínfima e geralmente catastrófica. «H+ S» não parece um processo de Inteligência nem suficiente nem adequado para explicar as adaptações das espécies superiores.

Bom, mas então como será? Que sofisticados procedimentos desenvolveu a Natureza para assegurar a adaptação das espécies superiores, nomeadamente o Humano, aos seus nichos ecológicos?

sexta-feira, maio 01, 2009

Processos Inteligentes Não Evolutivos


A lagarta da Biston Betulária assume a cor castanha à esquerda e a verde à direita (da Wikipedia)

Um caso que se apresenta como paradigmático do Darwinismo é o das borboletas da espécie Biston Betularia: em Inglaterra, antes da revolução industrial, estas borboletas seriam maioritariamente de cor clara; depois, com o ambiente escuro produzido pela poluição, as borboletas pretas tornaram-se dominantes; actualmente, a população das claras tem vindo a aumentar. Um claro exemplo da Selecção Natural, diz-se: as borboletas pretas viam-se melhor antes da revolução industrial, por contrastarem com o fundo claro das bétulas em que repousavam, sendo comidas pelos pássaros, enquanto o contrário sucederia depois da revolução industrial, onde eram as pretas que escapavam às esfomeadas aves, assegurando uma descendência de borboletas pretas – a Selecção Natural encontrara assim a cor certa para assegurar a sobrevivência das borboletas.

Este caso, frequentemente citado ainda hoje, mostra bem como as ideias mais absurdas podem ser aceites como verdadeiras e lógicas desde que sejam simplórias. Mas isto é «Lógica da Batata». Porque se as coisas se passam assim, este caso é completamente banal, não tem o mais pequeno interesse, não prova absolutamente nada. Antes pelo contrário, as borboletas brancas estão de volta, logo isto nada pode ter a ver com «evolução», porque esta tem um sentido, o homem não pode evoluir para o macaco...

Subjacente a esta explicação inútil está a ideia de que a Natureza é estúpida, sendo a Inteligência propriedade exclusiva dos humanos, o seu dom Divino; como estúpida que é, gera indiscriminadamente borboletas pretas, brancas e cinzentas. Mas cabe uma questão: se a natureza é tão estúpida, porque se dá ao trabalho de fazer borboletas em 3 tons?

Há, porém, um aspecto completamente ignorado neste processo que pode dar-lhe algum interesse:
a borboleta, antes de o ser, é uma lagarta! Então, enquanto lagarta, ela percepciona o mundo exterior e pode fazer escolhas sobre a borboleta que há-de ser. Será que é a experiência de vida da lagarta que determina a cor da borboleta? Será a lagarta uma espia do mundo exterior? Não sei, ninguém se lembrou de fazer tal experiência... Mas há um aspecto que deveria ter chamado a atenção dos cientistas: a lagarta desta borboleta tem propriedades miméticas!

Já viram como pode ser útil a capacidade de espiar como é o Mundo antes de fabricar o produto final?

Já repararam que nós temos esta capacidade?

Na verdade, um bebé não deixa de ser uma forma larvar do ser humano. Porque no bebé não está completamente definido o adulto – os módulos que hão-de integrar o seu cérebro não estão ainda definidos. O bebé nasce com o objectivo de interagir com o mundo exterior, de o explorar, e é a partir dessa exploração que se definirão as suas capacidades.

Por exemplo, sabe-se que uma criança que cresça isolada dos humanos e não aprenda a falar até aos 8 anos, nunca conseguirá falar correctamente – o seu módulo de comunicação pela linguagem não se desenvolveu. Mas outros módulos de comunicação se desenvolveram, mais adequados ao mundo que ela experienciou.

Sabemos também que alguns têm «ouvido musical», outros nem pouco mais ou menos. É outro módulo mental. Como a aptidão para a matemática é também um módulo mental. Ou a aptidão para descodificar as expressões faciais. Ou a aptidão para a dança. Ou para o teatro. Ou para a pintura. Ou para a poesia. Ou para a corrida. Ou para sonhar.

Há inúmeros parâmetros no projecto do nosso cérebro, envolvendo a maneira de pensar e de sentir; são parcialmente definidos geneticamente e são parcialmente definidos na nossa fase larvar, ou seja, nos nossos primeiros anos de vida, em que somos espiões do Mundo.

A capacidade da Vida de se definir em função da sua vizinhança é a base da construção dos seres vivos e das sociedades de seres vivos. É assim que o nosso corpo se forma: cada célula vai-se definindo em função das células vizinhas. É assim que uma célula estaminal se pode tornar em qualquer tipo de célula, ao ser colocada no meio de células desse tipo. É assim que certas espécies podem mudar de sexo mesmo na fase adulta.

É por isso que os primeiros anos de vida são tão importantes. É por isso que é mais importante a antecipação da idade escolar para os 5 anos do que o aumento da escolaridade obrigatória.

Dirão: «
então pessoas criadas exactamente no mesmo ambiente teriam as mesmas capacidades e personalidades». Nem pouco mais ou menos! Nascemos diferentes, o que a experiência dos primeiros anos de vida faz é a optimização dos parâmetros com que nascemos para o ambiente em que crescemos. A Diversidade é uma característica essencial da Vida.

Há em África uma região de lagos próximos. Lagos interiores, sem comunicação com o mar. Nesses lagos,
peixes ciclídeos foram introduzidos, e originaram muitas centenas de espécies em cada lago. E, coisa extraordinária, parece que essas espécies, que se terão desenvolvido independentemente em cada lago, apresentam grandes semelhanças em lagos diferentes. Quase como a especiação das células em dois seres da mesma espécie.

Isto sugere que a geração de espécies não resultou de um processo de erro, aleatório. Uma explicação é que a selecção sexual seria a responsável pela geração de novas espécies. Outra é que isto indicia a existência de um programa, um processo determinístico de geração de espécies. De geração de Diversidade. Seja como for, um facto sobreleva: a espantosa geração de diversidade, mais de mil espécies se originaram de um número pequeno (8, segundo um estudo) de espécies iniciais.

Notem que isto é o oposto das ideias que regem muitas teorias económicas, políticas e sociais: na Natureza, se tivermos 1000 espécies no mesmo ambiente, elas não competem até que fique só uma, mas é exactamente ao contrário, se existir só uma geram-se mil. A Natureza tem horror à uniformidade! A competição não é a regra, a lei não é a do mais forte.

Também a História da Matéria se inicia num estado de uniformidade absoluta, retratado pelo Ruído do Fundo Cósmico, e toda ela é o percurso da uniformidade para a diversidade, para a complexidade.

É por isso que somos todos diferentes. Mas todos iguais, porque não somos melhores nem piores em valor em absoluto.
Somos... diversos!

Percebemos assim que

- temos uma herança genética,
- temos um processo que gera, de forma possivelmente determinística, diversidade a partir dessa herança,
- temos uma fase «larvar» em que os nossos parâmetros são ajustados ao mundo em que vamos supostamente viver.

Três etapas na construção de cada indivíduo!

E nada disto tem a ver com «Evolução». Nem a cor das borboletas, nem as espécies dos ciclídeos. Seria o mesmo que dizer que as células da retina são uma evolução das células do fígado.

Mas ainda há outro factor que contribui para a nossa definição... a Natureza ainda é mais inteligente do que aqui se disse.

terça-feira, abril 14, 2009

Inteligências: a Aprendizagem



O nível de Inteligência mais elementar já conhecemos:

[Geração Aleatória de Hipóteses + Selecção].

Este nível de Inteligência é o mais eficiente quando a capacidade de geração de hipóteses é da ordem de grandeza do número de hipóteses possíveis. Por exemplo, como qualquer apostador do euromilhões sabe, as suas chaves, geradas aleatóriamente, nunca acertam – o número de hipóteses que um apostador pode produzir não é significativo. Mas, por outro lado, quase todas as semanas há quem acerte – o número total de apostas é significativo em relação ao número de combinações possíveis. O método é eficiente considerando a totalidade de apostas geradas mas ineficiente a nível individual.

Um caso onde a Natureza teria usado este método foi na geração da Vida. No cenário que apresentei (ver etiqueta «Origem da Vida»), ter-se-ão produzidas combinações dos átomos que formam a vida em número significativo em relação ao número de combinações possíveis. Nesse cenário, este método elementar é tão capaz de produzir Vida como o conjunto dos apostadores de produzir uma chave ganhadora no euromilhões. Este é o método mais eficiente para um problema deste tipo.

Depois, a Vida, para evoluir, carece de outros métodos de Inteligência porque a capacidade de gerar hipóteses em número significativo deixa de existir; e quanto mais a vida evolui, menor é a capacidade de gerar hipóteses, porque cada vez é menor o número de indivíduos e maior o tempo de reprodução; e maior é o número de combinações possíveis. A Evolução da Vida suporta-se certamente em processos de Inteligência altamente sofisticados. Não podemos esperar entendê-los imediatamente, teremos de ir dando os passinhos que as nossas pernas permitem.

Vamos, por isso, analisar processos de Inteligência sucessivamente mais sofisticados.

Um processo de inteligência completamente diferente é o da Aprendizagem.
Os seres vivos usam extensivamente este processo na seguinte combinação de acções:

[(Aprendizagem+Arquivo) + (Identificação Situação+Selecção Solução)]

Este processo é imbatível em velocidade de resposta, que é essencial à sobrevivência.

O cérebro recolhe continuamente dados do mundo exterior, testa sistematicamente as possiveis soluções para cada situação que experiencia ou que imagina, e arrruma em memória as situações e as soluções correspondentes.

Durante o período de vigília, identifica as situações que vai encontrando e aplica as soluções que tem em memória;

durante o sono, processa as experiências do dia, analisa situações que podem ocorrer, através de um processo de geração de novas situações que analisaremos noutra altura, testa soluções e finalmente arruma e completa o seu arquivo de situações-soluções. Os sonhos são, em parte, a análise de situações possíveis e potencialmente perigosas. As crianças têm muitos «pesadelos», que vão desaparecendo à medida que a experiência de vida permite ao cérebro estreitar a possibilidade de situações perigosas.

Portanto, durante a vigília o cérebro «enche» uma base de dados temporária com informações da experiência diária; durante o sono, processa toda esta informação, actualiza e arruma o seu arquivo de situações-soluções, e «limpa» a base de dados temporária. A necessidade de sono é, por isso, um pouco como a necessidade de esvaziar periodicamente a bexiga.

A nossa actividade mental resume-se a isto em mais de 99%. Porém, quando temos de enfrentar um problema completamente novo, este sistema fica incapaz de encontrar uma solução, ficamos desorientados, sentimo-nos «estúpidos». Em parte por isso, toda a mudança nos causa grande ansiedade, pois ela representa a necessidade de modificarmos o nosso «arquivo de situações-soluções».

Este processo tem a vantagem da rapidez de resposta mas para enfrentar um problema novo é totalmente ineficaz. Aí, é preciso recorrer a outros processos de Inteligência. Note-se que mesmo este processo se apoia noutros processos de inteligência para gerar tentativas de solução no processamento noturno.

O sistema de ensino funciona quase exclusivamente com base neste processo. Um grave inconveniente desta exclusividade é que conduz à atrofia da capacidade de usar outros sistemas. É isso que ilustro no post « Um Burro carregado de Livros».

Bem, agora que referimos um pouco a importância e as limitações da Aprendizagem nos processos de Inteligência, estamos em condições de observar como é que a Natureza usa a Aprendizagem para nos fazer como somos.

quarta-feira, abril 01, 2009

Lição de Humildade




O século XX terminou em pleno apogeu da confiança do Homem na sua extraordinária Inteligência. As pessoas comuns tinham a sensação que a Humanidade se tinha elevado às alturas dos Deuses dos antigos, que tudo era agora possível, nenhum problema era desafio bastante para as capacidades Humanas, a Democracia era um sistema político perfeito, a Fome em breve desapareceria, a cura do cancro estaria ao virar da esquina, quiça mesmo a juventude eterna. As teorias do Homem dominavam o Clima, o Cosmos, a Matéria; a Física estava quase concluída, o que faltava cairia aos pés do grande acelerador em breve. As misteriosas catástrofes que repetidamente ameaçaram a continuidade da Vida na Terra não passavam de um meteoro que as formidáveis capacidades tecnológicas poderiam enfrentar. Falava-se já das possibilidades de fabricar vida em laboratório, de melhorar as capacidades mentais com recurso a chips, de transformar o Homem em Super-homem. A Evolução deixaria de ser tarefa da limitada Natureza para passar a ser assegurada pelas mãos sábias e muito mais generosas do Homem Qualquer coisa que tivesse origem nas vozes autorizadas era aceite como verdade sagrada e só os pobres de espírito questionavam ainda a sublime superioridade das fontes de conhecimento humanas.

O século XXI tem vindo a desnudar o imenso equívoco. O inquestionável «Aquecimento Global» transmutou-se silenciosamente em «Alterações Climáticas», o superacelerador de partículas autodestrói-se para não destruir a Física Atómica, a teoria Cosmológica tornou-se mais fabulosa do que a Astrológica – os Sábios de hoje recorrem aos mesmos expedientes e à mesma linguagem dos bruxos de antigamente para iludir o imenso povo.

Mas eis que explode a crise económica. Os mais incensados Economistas, apanhados de surpresa, começaram por confessar que não a entendiam, que ninguém poderia prever o que iria acontecer.

Isso era preocupante, as pessoas podiam começar por duvidar dos «Sábios». A linguagem foi mudada. Transformaram-se os sintomas da crise em causas dela - o «subprime» é um sintoma, uma consequência da crise, não é a causa, é exactamente como as indústrias que abrem falência. Apontam-se culpados, os banqueiros. E fazem-se previsões: em 2010 a crise acaba. Assim se sossegam as massas, se restabelece a confiança na humana «Inteligência». Desta forma, sem nada perceberem do que se está a passar (exceptue-se o PM inglês...), sem fazerem a mínima ideia do que vai acontecer, os «Sábios» mantêm o seu estatuto. E manterão sempre, porque este processo de ir transformando consequências e sintomas em causas dos problemas pode ser repetido ad eternum. Felizmente, porque se não fizessem podia instalar-se o pânico.

Donde vem esta confiança cega nas humanas capacidades? Dos sucessos tecnológicos. Se somos capazes de fazer telemóveis, aviões e foguetões, certamente que seremos capazes de fazer teorias sobre o clima ou sobre a economia, não é verdade?

A verdade é que... não é verdade!

Se olharmos para a história do conhecimento humano, em qualquer área, percebemos que apesar dos milhares e milhares de pessoas a ele inteiramente dedicadas, o essencial desse conhecimento é devido a um número reduzidíssimo de pessoas. Cuja maior dificuldade foi, em muitos casos, não o desenvolvimento desse conhecimento mas simplesmente convencer os outros. Isto tem sido objecto de muito debate, mas agora vão ter a oportunidade de começar a perceber o PORQUÊ.

Muitos defendem que os «génios» mais não fizeram do que antecipar o normal curso do conhecimento. Ilusão. Mostra a História que Humanidade patina longamente no erro, muitas vezes em dramas sucessivos, ergue-se apenas para cair novamente, até que surge alguém que quebra o ciclo do erro. Esse «alguém» segue uma metodologia muito diferente, que misteriosamente tem permanecido incompreensível para a generalidade das pessoas.

No post « Níveis de Inteligência» já referi, e exemplifiquei com o labirinto, como a Inteligência tem um nível elementar, o da «geração de hipóteses+selecção» e tem outros níveis. Um desses níveis permite a Tecnologia. Muitas pessoas estão preparadas para esse nível. Por isso a Tecnologia evolui sustentadamente. Por isso não identificamos «génios» nas áreas tecnológicas, não porque eles não existam, mas porque abundam.

Mas nas áreas de importância crucial para a evolução da sociedade humana, aí a metodologia tecnológica é tão incapaz como um cego é de conduzir um carro. A sociedade humana é conduzidas por pessoas que não podem ver para onde vão. Na Ciência como na Política ou na Economia. Só quando se começam a «estampar» é que se vai à procura de quem consiga «ver» alguma coisa. Por isso elegeram o Obama. Mas também esta procura é «cega» porque as pessoas não sabem qual é o problema nem o que procurar. Nem vão entender o remédio.

A diferença entre os níveis de Inteligência não é uma diferença de capacidade. É uma diferença de adequação. O nível elementar é o melhor, o mais adequado, quando a «geração de hipóteses» é muito grande e o preço do «erro» é baixo. É muito usado pela Natureza com a sua imensa capacidade de gerar situações diversas. Os outros níveis são adequados a outros quadros e outros objectivos. Não são melhores nem piores em valor absoluto. E também são muito usados pela Natureza, como veremos.

Perceber os níveis de Inteligência é crucial para sairmos do «buraco» em que as nossas teorias erradas, seja na Economia, Política, Educação ou Ciência, nos estão a meter. E também para começarmos a perceber os limites da nossa inteligência. E ainda para, como disse o Virgílio Ferreira, começarmos a usar inteligentemente a nossa Inteligência ( “De que te serve a inteligência se não tens inteligência para a usar com inteligência?”)

Vamos então olhar para os níveis de Inteligência no próximo texto. Tanto quanto os nossos olhos meio cegos conseguem ver.

sexta-feira, março 13, 2009

A Teoria da Evolução



Em 1744 nascia aquele que estabeleceu a Teoria da Evolução das Espécies: Jean-Baptiste de Lamarck. Com ilustríssima actividade no campo da biologia (termo por ele cunhado), a sua atenção foi despertada por uma colecção de moluscos marinhos que lhe foi legada e que permitia o estabelecimento de uma sequência evolutiva de moluscos primitivos até aos modernos. A ideia da Evolução apresentava solução para dois problemas.

Um era o da aparentemente perfeita adaptação dos seres vivos ao seu ambiente. A resposta da época era a de que assim teria de ser, pois eram criaturas por Deus criadas. Uma prova da perfeição da obra de Deus. Mas Lamarck sabia que as condições terrestres variam muitíssimo e, portanto, um ser vivo criado em determinado altura fatalmente estaria desadaptado a condições existentes noutra altura. A não ser que se adaptasse, ou que evoluísse de forma a estar sempre adaptado às condições existentes.

O outro era o das espécies estarem quase todas extintas. Em vez de Extinção, ele propunha Evolução. Os fósseis antigos são de seres que já não existem porque evoluiram, não por terem sido vítimas de alguma catástrofe.

Mas como se processa a Evolução? Lamark usou ideias já existentes na época, como a Lei do Uso e Desuso: os órgãos que os seres vivos mais usam tendem a desenvolver-se, os que não usam tendem a desaparecer. Por exemplo, não usamos os dedos dos pés, eles tornaram-se rudimentares. Não precisamos das unhas dos dedos dos pés, elas passaram de garras a coisas em vias de desaparecer (estes exemplos antropomórficos são meus, ele referiu a cegueira das toupeiras, os dentes dos mamíferos ou os bicos das aves). Mas acrescentou-lhe algo: "Le pouvoir de la Vie" ou "la force qui tend sans cesse à composer l'organisation". A tendência que os sistemas vivos têm de evoluírem para a complexidade. De se organizarem. De contrariarem o sentido termodinâmico da evolução dos sistemas mecânicos constituídos por partículas iguais.

Isto é uma evidência, o porquê disto é que é a grande dôr de cabeça.

A sequência de etapas do processo evolutivo era para o Lamarck a seguinte: a vida surgiria de geração espontânea (era a ideia da época), o "pouvoir de la vie" gerava complexidade, depois "l'influence des circunstances", através da lei do uso e desuso, determinava a direcção da evolução, e, finalmente, a experiência de vida era transmitida aos descendentes de uma forma limitada mas suficiente para que ela contribuísse para o sentido da evolução. Em resumo:

geração espontânea + "le pouvoir de la vie" + "l'ínfluence des circunstances" + hereditariedade das características adquiridas.

Esta "abominável" ideia de as espécies evoluírem e o homem vir do macaco foi implacavelmente perseguida, é claro. Porque Lamarck afirmou-o despudoradamente, coisa que Darwin teve a sabedoria de não o fazer. Para a abater, era preciso abater a ideia chave do processo, a única que podia ser contestada: a ideia da hereditariedade das características adquiridas. E não vale a pena acusar a Igreja desta perseguição – as perseguições às ideias inovadoras partem sempre do mainstream, em todos os tempos, em todos os lados.

Um exemplo de um argumento usado é o seguinte: como os judeus são circuncidados, se essa hereditariedade existisse os seus filhos já nasceriam circuncidados. Ou a experiência de cortar a cauda a um animal e verificar que os seus descendentes não nascem de cauda cortada. E, com a descoberta das células reprodutoras e de que elas seriam autónomas do resto do organismo desde a nascença, a ideia da hereditariedade dos caracteres adquiridos foi considerada definitivamente arrumada por não existir mecanismo para levar essa informação às células germinativas. Todas estas "provas" contra as ideias de Lamarck estão erradas, como veremos.

As ideias de Lamarck, muito perseguidas em França, foram mais bem acolhidas em Inglaterra. E, no mesmo ano em que Lamarck publicou a sua teoria da Evolução, 1809, no livro Philosophie Zoologique, nasce Darwin que, 50 anos mais tarde, encontra forma e arte de ultrapassar as contestações.
Darwin propôs a ideia da:

«Selecção Natural e Sexual" em vez de «"l'ínfluence des circunstances" + hereditariedade do uso».

Portanto, o "pouvoir de la vie" gerava complexidade de forma cega (uma vez que não recebia a informação do uso) e a «Selecção Natural e Sexual» fazia a escolha do que convinha mais. E, para "pouvoir de la vie", escolheu inteligentemente o «Acaso» – não porque seja suficiente para o explicar, mas porque é a única coisa conhecida que pode ter a ver com o assunto.

As guerras do Conhecimento contra o Mainstream são sempre duras e demoradas. A guerra contra o geocentrismo começou em Copérnico e só acabou em Newton, com contribuições de vulto como a de Galileu e contribuições indispensáveis como a de Kepler.

A guerra pela Evolução começou em Lamarck. Darwin é o Galileu desta luta. Que ainda não chegou ao fim, muito longe disso.

Neste blogue já percebemos porque é que não existe geração espontânea. Mas só quem leu os posts sobre a Origem da Vida sabe o porquê disso. Mais ninguém sabe que as condições terrestres quando a vida se formou eram tão diferentes das actuais e só alguns sabem que apenas nessas condições a vida se pode formar.

Também já percebemos algo sobre o misterioso "pouvoir de la vie". Percebemos que «Inteligência» é um processo que resulta de dois processos, «Inteligência=geração de hipóteses+selecção»; e que é um processo natural de certos sistemas, não uma propriedade mística das nossas cabeças, portanto, não é exclusivo nosso. Ainda só espreitamos os feitos desta Inteligência natural quando descobrimos que um dos processos que a nossa humana inteligência desenvolveu para produzir compostos azotados é o mesmo que a natureza usou para resolver o mesmo problema na origem da vida; e que as condições naturais em que as longas cadeias orgânicas iniciais se terão formado são semelhantes às que usamos para produzir cristais; mas muito mais iremos perceber quando virmos como a matéria se organizou até chegar ao nosso sistema planetário (estou a começar a falar disso no «outrafísica»).

O processo proposto por Darwin, «acaso+selecção natural» é um processo de Inteligência elementar. Que pode ter funcionado nas primeiras etapas de evolução da vida. Mas que, naturalmente, tal como gerou formas de vida mais complexas, também gerou processos de Inteligência mais complexos.

São esses processos mais complexos que temos de começar a desvendar. Porque é deles que depende a Evolução da Sociedade.

Por outro lado, as ideias que temos sobre os mecanismos da evolução ou criação, independentemente de serem certas ou erradas, têm por si só consequências cruciais nas sociedades que construímos. As ideias, não o mecanismo da evolução. Porque nós somos «racionais», deixamo-nos conduzir por ideias. No próximo post vamos espreitar como ideias simplórias podem ser perigosas, para no post seguinte dedicarmos atenção à compreensão dos mecanismos da evolução e de como podemos perspectivar a Evolução da Sociedade a partir dessa compreensão.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

O Terceiro Nível da Evolução



Suponho que os cientistas já saibam que as nossas células não são iguais às dos répteis. Elas são capazes de produzir proteínas mais complexas do que as possíveis com as células dos répteis; estas proteínas permitem uma «organização de células», isto é, nós, mais sofisticada do que a «organização de células», por exemplo, um crocodilo, que as células dos répteis são capazes de produzir. Este é um aspecto de que muitos não têm ainda consciência: a evolução das espécies suporta-se na evolução das células. As nossas células são mais sofisticadas do que as dos répteis e estas que as dos peixes. E não estou a referir-me ao código genético, não é apenas o «programa» que é mais sofisticado, é a própria maquinaria celular.

(como num computador, o pioneiro ZX81 não pode executar os programas actuais; sem a evolução do hardware não poderia ter havido esta evolução do software)

Este é, portanto, o primeiro nível de evolução que conhecemos: a Célula. O Hardware da Vida.

O segundo nível é o Organismo, o ser vivo que as células formam. As nossas células serão tão evoluídas como as do chimpanzé, mas formam um organismo ligeiramente mais evoluído, o Humano. Esta evolução está no código genético, no «programa» da célula. No código genético está o Software da Vida.

Uma característica da Vida que remonta às suas origens é a cooperação. As primeiras formas de vida que identificamos como tal existiam por si só. Mas desde muito cedo a Natureza descobriu as vantagens da cooperação. De facto, até ao nível das bactérias podemos encontrar fenómenos de cruzamento de código genético que podemos classificar como sendo «cooperação». As nossas próprias células serão uma construção que incorpora diferentes tipos de células mais primitivas, o resultado de um processo simbiótico. Qualquer organismo multicelular resulta de um processo de cooperação de células.

Esta cooperação não se limita ao nível celular, alastra pelos organismos, que formam «sociedades». As que mais nos impressionam serão as dos insectos, especialmente as das formigas. Assentam na especialização dos indivíduos, tal como acontece num organismo, onde as células se diferenciam para executarem funções específicas.

Este tipo de organização social não acrescenta nada ao conceito de «organismo» - é o mesmo conceito, o do sistema de células especializadas que executam cegamente um programa pré-definido.

A evolução das «Sociedades» de seres vivos tem assentado no desenvolvimento de um conjunto muito complexo de comportamentos e capacidades, quer instintos e afectos, quer capacidades de comunicação, de aprendizagem e de adaptação comportamental. Através deles, a Natureza procura a formação de sociedades onde cada indivíduo conserva algum livre-arbítrio, o que possibilita que a Inteligência do conjunto seja maior do que a Inteligência de um só indivíduo.

Comparando com uma rede informática, a Natureza busca construir redes com terminais inteligentes e não redes centralizadas com terminais «burros». Essa é a diferença entre «Sociedade» e «Organismo».

No entanto, até há umas dezenas de milhares de anos atrás, as sociedades que os seres vivos faziam eram quase totalmente determinadas pela informação nos seus genes.

Finalmente, talvez na altura em que o Homo Sapiens beirou a extinção, o Homo Sapiens Sapiens atingiu a capacidade de gerar uma Sociedade Evolutiva. Capacidade na verdade muito limitada até há cerca de uns 10 mil anos.

Este é um marco evolutivo. A Sociedade Humana é algo de novo na Evolução, um salto evolutivo como o salto das bactérias para as células nucleadas, ou destas para os organismos multicelulares. O Terceiro Nível da Evolução.

O que é que há realmente de novo na Sociedade, porque é que digo que ela é um terceiro nível evolutivo? Porque o suporte da sua evolução não é a maquinaria da célula nem é o código genético: a Informação que a suporta é exterior ao ser vivo, é o Conhecimento, a Cultura desenvolvida pelos seres vivos que a formam. Que é transmitida por via mental e não por via celular.

Claro que a evolução das Sociedades tem raízes fundas no ser vivo, tal como os programas que o código genético executa dependem da maquinaria celular. Sem as capacidades avançadas de comunicação, aprendizagem, descoberta, adaptação, a Sociedade não seria possível. E sem os instintos e afectos, os seres vivos não seriam compelidos a formarem sociedades.

A Sociedade que nós, humanos, somos capazes de formar não é, portanto, uma qualquer – ela está condicionada pelas nossas capacidades e sobretudo pelos nossos instintos e afectos.

Temos de perceber isso, mas só isso também não chega. Uma sociedade é uma construção complexa, por alguma razão a Natureza se preparou tão longamente antes de despoletar o Terceiro Nível da Evolução. Com regras simplórias temos uma sociedade constantemente a tropeçar em ciclos presa-predador e a estagnar em vez de evoluir. Ou a evoluir na direcção errada.

A Sociedade Humana é a nossa obra, como nós somos a obra das nossas células. Nossa obra, nossa responsabilidade.

quarta-feira, agosto 20, 2008

O Princípio da IN (Inteligência Natural)


Em 2005, o prémio Nobel Robert Laughlin publicou um livro algo revolucionário para os cientistas: A Different Universe (reinventing physics from the bottom down).

A tese fundamental desse livro, onde ele diz outras coisas muito importantes e «inconvenientes», é que a ideia de modelar o Universo apenas à custa da matemática e de leis fundamentais é um mito. E isto por duas razões.

Uma é a própria ideia de “Lei Fundamental”. As leis de Newton são leis fundamentais? Para um físico atómico não, são propriedades de corpos neutros, estruturas complexas cujas propriedades resultarão das propriedades mais elementares das partículas.

Serão as propriedades das partículas «leis fundamentais»? Claro que não, as partículas compõem-se, segundo a teoria atómica, de quarks. Serão as propriedades dos quarks as «leis fundamentais»? Etc.

O que acontece é que em sucessivos níveis de complexidade e em diferentes situações os sistemas exibem propriedades regulares, sistemáticas, que podemos designar por Leis ou Princípios. E, embora estas leis possam ser consequência das propriedades do nível anterior, não está na nossa mão obtê-las por dedução matemática, dada a complexidade dos sistemas naturais.
Isto é a base da Tecnologia. Ninguém projecta uma viga ou uma antena a partir das leis ditas fundamentais. Já imaginaram o que seria calcular os complexos movimentos dos electrões dentro de um condutor para daí deduzir as propriedades duma antena? Impossível, sem sentido. O que se faz é estudar as propriedades relevantes à escala que nos interessa e projectar a partir delas.

Porque é que isto é revolucionário para a Ciência? Porque a ideia de que a ciência «terminaria» com a descoberta (?) das leis fundamentais fica sem sentido. O próprio conceito de «Lei Fundamental» não tem cabimento. A Natureza apresenta comportamentos regulares e sistemáticos numa enormidade de escalas e situações e é o levantamento infindável desses comportamentos que permite modelar o Universo. Que é o que a Tecnologia vai fazendo, nas áreas que lhe vão interessando.

Porque é que isto é relevante para o nosso problema de prever o Futuro? Porque nos abre uma possibilidade de o fazermos: uma vez que existem comportamentos sistemáticos, traduzíveis em Leis, nas mais diversas escalas, o que temos de fazer é procurar, intuir, um comportamento, uma relação causa-efeito, que seja válido numa escala adequada ao Futuro que queremos prever.

Isto tem sido tentado, mas sempre numa óptica de encontrar o que se conserva, o que não muda, ou o que é periódico ou, pelo menos, extrapolável. E temos até uma lei que nos diz qualquer coisa sobre a evolução dos sistemas, uma lei termodinâmica, que diz que um sistema isolado evolui no sentido da desorganização.

A aplicação destes métodos e leis, no entanto, é decepcionante. A economia é talvez o ramo do conhecimento que mais se especializou nisto, tanto que até já há cientistas que investigam a aplicação dos métodos econométricos à previsão climática, mas os resultados continuam muito fracos. Quanto à lei termodinâmica, aplica-se a sistemas só com interacção «mecânica», o Universo ri-se dela evoluindo no sentido oposto.

Em conclusão, precisamos de uma propriedade do Universo que nos permita balizar caminhos do Futuro mas nada do que temos actualmente serve esse propósito.

Tenho vindo a referir que parece existir uma misteriosa propriedade, a que chamei Inteligência Natural, que faz com que os sistemas evoluam para a organização desde que exista energia adequadamente disponível. A disponibilidade de energia determinará se o sistema evolui para a organização ou para a desorganização e a velocidade a que o faz. Até já referi que se poderá medir a Inteligência Natural de um sistema pelo simétrico da derivada da entropia do sistema (ou seja, a velocidade de variação da negentropia).

Note-se que já em 1944, o grande Erwin Schrödinger, reconhecido como físico mas, tal como Poincaré, alguém cujo pensamento não conhecia fronteiras, considerou no seu livro «O que é a Vida (considerado a fonte inspiradora para a pesquisa do DNA) que a vida se alimentava de entropia negativa ou negentropia. Salientou como a natureza segue geralmente o princípio evolutivo «ordem a partir da desordem», enquanto a termodinâmica trata de «desordem a partir da ordem» e a vida se pode entender como «ordem a partir da ordem».




não, não é o «pianista», é o Schrödinger lá para 1933, ano em que recebeu o Nobel. Ele e Poincaré são dois dos pais do Conhecimento que está para chegar... (foto da wikipedia)


A compreensão do fenómeno do Desvanecimento permite-nos traçar um quadro muito geral do processo à escala universal: as «partículas» surgem com uma certa «energia»; esta expande-se na forma de campo, desvanecendo a partícula; o campo move as partículas e leva-as a organizarem-se em átomos, galáxias, estrelas, átomos pesados; este processo transforma parte da energia em radiação; aglomerados de átomos pesados, a que chamamos planetas, desenvolvem processos de associar átomos em moléculas; nalguns casos, as moléculas organizam-se em Vida; a Vida usa a energia da radiação para continuar a gerar mais organização na forma de sistemas de seres vivos; neste processo transforma-se a energia de alta frequência absorvida (luz) em energia de frequência mais baixa (calor).

Portanto, a Natureza ganha organização à custa da «desorganização» da energia inicial – que passa do confinamento em «partículas» para a indiferenciação na forma de campo e radiação.

A descrição acima é válida em grande escala; se analisarmos numa escala mais pequena, isso pode não suceder – por exemplo, surgiu vida na Terra e não (provavelmente) em Vénus. A razão que apresentei é que apenas a Terra teve as condições necessárias à formação das moléculas da vida em grande quantidade, pois teve uma pressão atmosférica de umas 300 atmosferas (indispensável à fixação dos átomos de azoto), algo que Vénus não teve. Portanto, temos de ter atenção à escala de aplicabilidade desta propriedade. A Inteligência Natural é como a difusão – um processo ordenado numa escala grande que resulta de um processo desordenado à escala molecular.

O termo «Inteligência» que tenho usado para designar esta propriedade presta-se a confusão com o conceito de inteligência humana; convirá arranjar outro termo. Alguém tem uma sugestão a apresentar? Entretanto passarei a usar a abreviatura «IN» para Inteligência Natural.

Será que este «princípio da Inteligência Natural» ou «princípio da IN» nos poderá servir para prescrutarmos as alamedas do Futuro? No próximo post vamos verificar como ele pode ajudar a compreender a história da civilização humana.

terça-feira, agosto 12, 2008

Prever o Futuro: a inutilidade das Leis Fundamentais


Prever o Futuro, não é isso que mais nos importa? Saber que perigos, que Monstros se escondem no Futuro? E, mais do que isso, encontrar forma de os arredar do nosso Destino?

As antigas religiões foram a primeira estrutura que criamos com essas supostas capacidades, tanto a de prever como a de domar o Destino, recorrendo a rituais variados (danças, sacrifícios, mezinhas, orações).

O Conhecimento veio dar-nos novas ferramentas. A primeira foi a detecção de períodos. Diariamente o Sol se repete a repelir a noite, todos os 28 dias a Lua desaparece dos céus, todos os 12 ciclos lunares as plantas se renovam e dão as suas flores e seus frutos, os rios transbordam os seus leitos. Sete anos são de vacas gordas e sete de vacas magras (o ciclo das manchas solares). Parecia que todo o Universo estava inscrito em Ciclos. Dominar o Futuro era uma questão de conhecer os Ciclos do Universo. A Astrologia é a Ciência de excelência na procura de Ciclos, usando o grande Relógio dos planetas, não só o único disponível na Antiguidade como certamente o mais adequado, pois seria o relógio do próprio Relojoeiro.


influências astrologicas no corpo humano - da wikipedia





Mas afinal o Universo parece não se repetir assim tanto; a mesma água não passa duas vezes sob a mesma ponte. O universo flui, pode evoluir em ciclos mas estes parecem não se repetir exactamente. A expectativa de dominar os monstros do Futuro esmorece, os olhos dos humanos carregam-se de nuvens de preocupação; as videntes ganham favores dos lideres.

Mas eis que uma nova esperança surge com as newtonianas Leis da Mecânica! Agora sim, o Universo revelava as suas Leis Fundamentais! Conhecer o Futuro era uma mera questão de fazer contas. Passos de gigante deu então a Ciência, desnudando impiedosamente o Universo, revelando a impotência dos Deuses que as religiões tinham criado. Crescia aquilo que é capaz de fazer surgir água no deserto, criar maná e destruir os inimigos: a Tecnologia!

A Tecnologia não prevê o Futuro, o Futuro a Deus pertence, a Tecnologia é apenas o seu poderoso Arcanjo. Mas a Ciência podia agora prever o Futuro! Bastava fazer as contas. A Física estava terminada, como disse Lord Kelvin, esclarecendo que “O trabalho das gerações vindouras será apenas o de acrescentar algumas casas decimais às constantes físicas conhecidas”.

Um pequeno soluço perturbou brevemente este convencimento mas logo surgiu a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade para devolver o brilho ao ego dos cientistas. De novo a Ciência capaz de cavalgar as estepes do Futuro. Era só fazer as contas, porque os modelos do Universo estavam concluidos.


Bem, há sempre um chato em todas as histórias cor-de-rosa não é? O chato desta história foi o Poincaré.




o incrível Henri Poincaré - da Wikipedia



Pois o chato – não tem outro nome – do Poincaré resolveu analisar o comportamento de 3 corpos gravitacionalmente ligados (bem... havia um prémio...). Uma coisa simples, tipo Sol-Terra-Lua. E descobriu algo que o deixou siderado: que podiam existir comportamentos não-periódicos, irregulares, com mudanças bruscas de características. Insignificantes mudanças das condições iniciais podiam conduzir a cenários completamente diferentes a breve trecho. A determinação do Futuro do sistema tornava-se impossível porque é impossível conhecer as posições iniciais com precisão infinita e efectuar os cálculos com precisão infinita. A pequena nuvem de erro nos cálculos e na posição inicial logo se transformaria em nevoeiro impenetrável.

Um exemplo elementar do que acontece pode ser dado pela aplicação logística, na Wiki e aqui. Quanto ao problema dos 3 corpos, pode ver aqui, no 4ºexemplo, uma emulação do problema (muito interessante, não percam); se escolher «2 planetas» verá como uma diferença de 1% na velocidade inicial conduz a trajectórias completamente diferentes em pouco tempo.

Poincaré lançou as bases do que viria a ser a Teoria do Caos. Não se pense que este tipo de situação que ocorre com os 3 corpos é rara na natureza – pelo contrário, ela ocorre por todo o lado, desde os fenómenos de turbulência às paragens cardíacas.


A Teoria do Caos pode perspectivar que tipo de situações podem ocorrer, pode explicar situações que observamos, mas não pode prever se determinada situação vai ou não ocorrer e muito menos prever quando!


Vejamos então em que ponto estamos em relação à previsão do Futuro:

1- sistemas muito pequenos, como o dos 3 corpos, podem ter comportamentos caóticos que, por dependerem criticamente do conhecimento das condições iniciais e da precisão de cálculos, são imprevisíveis por emulação numérica – os fenómenos da natureza são qualitativamente complexos;

2- os sistemas da natureza não são pequenos; porque se compõem de muitos elementos, não podemos ter detalhe de cálculo que permita aplicar as leis fundamentais a cada elemento individualmente – os fenómenos da natureza são quantitativamente complexos;

3- Temos um problema de fundo com as nossas leis fundamentais pois elas conduzem inexoravelmente a um Universo que se desorganiza enquanto este é um Universo que se organiza.


Estamos tramados, não é?


Mas não somos de desistir pois não? Até dobrámos o Bojador... Se não podemos prever o Futuro por emulação numérica a partir das Leis Fundamentais, não haverá outras maneiras?

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sexta-feira, agosto 01, 2008

Nos teus ombros carregarás a Vida



5. “mas Deus sabe que no dia em que dele comerdes, os vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal".
6. Então a mulher notou como era tentador o fruto da árvore, pois era atraente aos olhos e desejável para se alcançar Inteligência (Sabedoria?). Colheu o fruto...”


Os antigos tinham esta arte: em curtas parábolas condensavam grandes conhecimentos. Uma «estória» é um excelente algoritmo de correcção de erro e fornece suporte seguro à nossa memória. Uma genial invenção para que a tradição oral pudesse passar o testemunho de geração em geração sem degradação da informação. As parábolas eram os livros de antes dos livros. Pena que a banalização da escrita nos tenha feito perder a arte de as entender.


Aquelas poucas palavras do Génesis 3 retratam um acontecimento da maior importância para a Vida na Terra. Todos os seres vivos contêm um programa que os comanda. Que determina os seus actos. Dizemos que são «os instintos». Esse programa determina as regras de vida e é tal que assegura que a vida exista em equilíbrio.


O equilíbrio das espécies não resulta de um empate na luta pela sobrevivência de seres que se regem por interesses imediatos. Esta é uma ideia nefasta, uma pobre compreensão da Natureza, com consequências deploráveis a nível das teorias de organização da sociedade humana e da economia.


O equilíbrio das espécies resulta da existência de rígidas regras que os programas instintivos cumprem sem hesitação. Regras que estabelecem mecanismos de autolimitação para cada espécie. Que evitam os ciclos presa-predador.


Em consequência, a densidade ecológica de cada espécie é mantida nos níveis adequados. Especialmente a dos grandes animais.
Não é muito mais poderosa a águia do que o pardal? A Lei da Natureza não é a «do mais forte?» Então porque é, e sempre foi, muito mais rara a águia do que o pardal?


A resposta é que as próprias águias estabelecem os seus limites, e logo a nível das características de reprodução. A impiedade com que a águia recém nascida se apressa a deitar os irmãos do ninho abaixo é indispensável não para assegurar a sua sobrevivência, mas para assegurar que o número de águias não põe em perigo o equilibrio ecológico. Para assegurar a sobrevivência das espécies, não a do indivíduo.


Estes comportamentos instintivos exigem a total ausência de consciência individual do «bem» e do «mal»; a total ausência de autonomia de decisão. Exactamente porque resultam de uma sabedoria que não é de curto prazo nem da escala individual, logo incompreensível a nível individual.


Não significa isto que os animais ditos irracionais não disponham de Inteligência. Claro que são inteligentes, em menor ou maior grau. O seu cérebro é capaz de resolver problemas, mesmo ao nível dos insectos.


O que os distingue qualitativamente dos humanos é que estes são «conhecedores do bem e do mal». São «como os deuses». Os humanos não são necessariamente comandados por uma vontade que os transcende, consubstanciada no programa gravado no cérebro. Os humanos são capazes de desrespeitar os seus instintos, que comandam acções, para satisfazerem necessidades mais sofisticadas, como a de amar e ser amado. Isso, porém, exige um nível de Inteligência, e de Sabedoria, mais elevado, que o «fruto da árvore proibida» lhes concedeu, no dizer da parábola.


Tendo «comido o fruto proibido», os Humanos atreveram-se a desrespeitar os instintos. Os instintos que mantiveram a espécie em equilibrio ecológico durante milénios. Porque razão eram tão poucos, em relação ao actual, os humanos da pré-história? Porque obedeciam aos instintos e se autolimitavam através de lutas territoriais. Se o não fizessem, morreriam de fome. O número de humanos que o planeta pode suportar em equilibrio natural é o que existiu durante mais de 20 000 anos: em média, cerca de 5 milhões em todo o planeta, menos de 10 milhões no máximo. Cinco milhões de pessoas, esse é o número que o conhecimento do passado nos diz ser o número médio possível de humanos em equilibrio natural no seio da Mãe Natureza, vivendo uma vida de máxima simplicidade e mínimo consumo energético. Cinco milhões de humanos, é essa a capacidade do jardim do Éden.


Há uns dez mil anos atrás, o Humano ousou imitar os deuses. Ousou desrespeitar os instintos primários. Em vez de lutar ferozmente pelo seu direito ao alimento, em vez de matar o próximo para que não lhe faltasse o alimento, em vez de fazer como a cria da águia, ousou tentar obter da natureza mais alimento do que aquele que ela dava voluntariamente, violando a clara ordem que os seus instintos ditavam.

Diz o Génesis que foi a Mulher que o fez. É provável. O Homem estava concentrado na luta e na caça, actividades do agrado da generalidade dos homens. Ainda hoje, em muitas sociedades primitivas, a agricultura e pecuária dependem exclusivamente das mulheres.


Veja-se a maldição lançada sobre o homem:

17. “Porque obedeceste à voz da mulher e comeste da árvore da qual eu te ordenara: «Não comas», amaldiçoada será a terra por tua causa. E só com fadiga tirarás dela o alimentodurante todos os dias da tua vida. Produzirá para ti espinhos e abrolhos e comerás as ervas do campo. Comerás o pão com o suor do rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado...“


As contantes guerras e lutas que costuram a história da humanidade não constam do “castigo” porque lutar é natural para o homem, é o programa que nele está inscrito, é o programa da autolimitação; a agricultura é que é o “castigo” porque ela é que representa a desobediência ao instinto, a vontade Humana a desafiar a da Natureza, ou seja, a dos Deuses.

Não haja ilusões: não existimos em equilibrio ditado pela Natureza. Não existimos em equilíbrio ecológico. O equilibrio da Vida na Terra não depende das leis da Natureza, dos programas inscritos nos seres vivos. Depende da nossa acção. Não é já a «Mãe Natureza» que cuida da vida na Terra, são os Humanos. Foi esse o papel que assumimos quando «comemos» o fruto da Inteligência e da Sabedoria, quando abrimos os olhos e ousamos desafiar a Natureza.


Não se pense que há alternativa. Não há. Como saberemos depois de compreender a Teoria do Desvanecimento, as condições de vida na Terra dentro de alguns milhões de anos serão incompatíveis com a vida tal como a conhecemos. Apenas uma Vontade Inteligente poderá assegurar a continuação da Vida para além disso. Na Verdade, a «expulsão do Paraíso» não é um castigo divino, é a solução encontrada pelos Deuses para que a vida possa continuar. «Proibir o fruto» foi apenas um ardil para o tornar irresistível... de outra forma, como entender que


3. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse «não o comeis, nem sequer lhe toqueis, morrereis se o fizerdes.»

Então a árvore proibida iria estar logo no meio do jardim? Não foi Ele quem pôs lá a árvore? Seria estúpido esse Deus?


Claro que não... a árvore que Deus não quer que o Homem descubra é outra, pois:


22. E disse Deus: «Foi aqui que o homem, ao conhecer o bem e o mal, se tornou como um de nós. Que não estenda agora a mão também à árvore da vida, para comer dela e viver para sempre.»
...24. Tendo expulso o homem, colocou querubins a oriente do Jardim de Éden, e uma espada flamejante que se movia em todas as direções, para guardar o caminho da árvore da vida.


Como é evidente, esta é a árvore cujo fruto o Homem não pode comer; se o fizesse, estagnaria a evolução. Esta árvore, Deus não colocou no meio do jardim.
(Já agora, porque diz Deus que o homem se tornou «como um de nós»? «Nós» quem??? E para quem fala Deus?)


E porque «Deus» recorreria a tal ardil da árvore proibida no meio do jardim? Porque doutra forma o Homem culparia Deus das suas canseiras e revoltar-se-ia. Perceberia que para regressar ao Jardim, bastar-lhe-ia perder a consciencia do bem e do mal. Autolimitar-se, como as outras espécies. Mas assim o Homem recusaria a sua Missão – a de salvar a Vida. Que terá de ser salva já não pela Natureza mas pela espécie inteligente que a Natureza criou como seu instrumento.


Esta não é, porém, uma missão fácil. Sucessivas ascensões e colapsos marcam a história dos humanos. A ignorância da verdadeira razão dos colapsos anteriores é o estigma do próximo colapso. Não é com a ignorância mas com Inteligência e Sabedoria que o homem pode cumprir a magna missão que pesa sobre os seus ombros. Que não é a de carregar os Céus, mas a Vida.

quinta-feira, julho 24, 2008

A Divina Trindade: Energia, Inteligência e Entropia


. Tentação e Queda, Miguel Ângelo, tecto da Capela Sistina

O Humano primitivo vivia dos recursos da natureza – portanto, no estado de perfeito equilíbrio ecológico. O número máximo de humanos era o que a natureza podia sustentar por si própria. Esse número era muitíssimo mais baixo do que a população actual. A ocupação indígena da América do Norte, da Amazónia e da Austrália à data das suas colonizações retrata a densidade de ocupação humana que a Natureza suporta.


Há muitos milhares de anos, quando a densidade dos humanos era ainda inferior aos limites naturais, a vida era um paraíso. O Humano viva em climas tropicais, amenos, propiciantes de uma sensação de bem estar, a vida corria sem preocupações de relevo, o alimento era fácil de obter, tão fácil que não carecia de armazenamento nem de ser providenciado antes de a fome apertar. Quando se tinha fome, apanhava-se fruta ou ia-se à caça. Ou à pesca.


Mas o sexo... o sexo foi fazendo aumentar a população humana e os limites naturais foram ultrapassados. O paraíso terrestre acabou. Para sobreviver, o Humano teve de emigrar para climas mais duros e passou a ter de Trabalhar! Foi expulso do Paraíso e condenado ao Trabalho, «comerás o pão com o suor do rosto».


O Humano teve de deixar de depender da generosidade da Natureza e passou a ter de providenciar as suas necessidades. Inventou maneiras de conseguir extrair mais alimento do que aquele que a natureza voluntariamente providencia e organizou-se, criou a Civilização.


A Civilização, o progresso, resultam da necessidade de sobrevivência nos locais onde a população ultrapassou os limites suportáveis pela natureza. A alternativa à Civilização é unicamente os humanos morrerem à fome ou matarem-se uns aos outros. Começaram certamente por aí, organizando-se em tribos para defenderem territórios, tribos que se combatiam e dessa forma limitavam a densidade humana, tal como acontece com os machos em muitas espécies animais. Mas umas tribos terão tido mais sucesso que outras nestas guerras, o que lhes terá permitido crescer e, depois, ou teriam de inventar guerras internas para se poderem matar uns aos outros ou teriam de inventar maneira de conseguir ultrapassar as limitações da Natureza.


Os primeiros focos de civilização começaram a surgir em tempos remotos mas, como luz de vela em dia de temporal, a extinção foi sempre o seu destino. Uma segunda leva se ergueu dos seus escombros, menos luminosa mas mais perene, e conduziu a humanidade até hoje. O brilho ofuscante que esta civilização global começou a adquirir no último século levanta uma interrogação: será possível que o actual surto luminoso venha o sofrer o mesmo destino escuro das civilizações da Antiguidade? Que podemos fazer para garantir a perenidade da nossa Civilização?Que forças moldaram a ascensão e queda das civilizações antigas? Continuam elas a determinar os destinos da Humanidade?


Esta misteriosa questão pode afinal ser entendida em termos muito simples.


Uma civilização é uma diminuição de entropia da sociedade humana, ou seja, um aumento de organização. Mas sabemos que uma diminuição de entropia traduz a existência de um processo «Inteligente» (até podemos usar como medida da «inteligência» de um sistema a velocidade de diminuição da sua entropia). E sabemos que um processo «inteligente» carece de energia para ocorrer.


Portanto, as civilizações emergem quando há energia disponível para alimentar um processo «inteligente» e afundam-se quando não há. E «energia disponível» é a energia para além da indispensável à sobrevivência das pessoas.


Esta é a Trindade que comanda todo o Universo: Energia, Inteligência e Entropia. Ou, para algum poeta que nos leia, o Espírito Santo, Deus e o Diabo.


Um superavit de energia pode ser fruto de um avanço tecnológico, ou de uma melhoria das condições climáticas proporcionando melhor produção agrícola, ou, ao contrário, fruto de uma qualquer catástrofe que faça diminuir o número de humanos sem prejudicar os seus recursos, como uma guerra, uma epidemia, um tremor de terra.


Mas uma civilização, mesmo que primitiva, consome energia adicional apenas para se manter. O Trabalho só por si já exige mais energia humana que o repouso; mas também é preciso a energia dos animais que transportam os produtos de um lado para o outro e dos que ajudam a lavrar, é preciso a energia do fogo para o ferreiro poder malhar o ferro, a energia da fogueira para cozinhar os alimentos e fornecer aquecimento nos climas duros onde o Humano se viu obrigado a viver, etc.


Assim, para cada grau de Civilização, só para a sua manutenção, é necessária uma certa energia per capita que é maior que a energia de sobrevivência. Se a energia disponível for maior que este valor, essa civilização poderá evoluir; se for menor, terá de regredir.


Portanto, para evitar que uma civilização regrida, é indispensável garantir que a energia per capita não diminui. E aqui surge o grande problema: a população tende a aumentar, cada mulher pode ter mais de 20 filhos. Fazer crescer a energia disponível ao mesmo ritmo da população parece tarefa impossível, pelo que a manutenção e desenvolvimento das civilizações passa necessariamente por alguma forma de controlo populacional.


Sem um eficiente controlo populacional, o que sucederá? A sequência de acontecimentos inicia-se com um qualquer avanço tecnológico que providenciará um aumento de energia; em consequência, emergirá uma civilização, que evoluirá até que a energia disponível seja a de manutenção da civilização. Mas a população continuará a crescer e a energia per capita diminuirá. A civilização terá de regredir. Isso fará diminuir a produção de energia e a civilização entrará num processo acelerado de degradação. Os recursos tornam-se insuficientes para assegurar a sobrevivência da população e esta terá forçosamente de diminuir, seja pela matança interna na luta pela sobrevivência, pela fome, por epidemias, por guerras movidas do exterior ou pela emigração.


O destino da Civilizações é assim traçado pelo sucesso ou insucesso do controlo populacional. Conscientes da importância deste balanço energético, vamos agora olhar rapidamente para a História e encontrar nela uma nova perspectiva; e até vamos descobrir a pegada dum pequenino Evento...

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quarta-feira, novembro 07, 2007

A Dúvida é boa companheira

Passou terça-feira na RTP2, mais uma vez, um documentário “científico” analisando as diferenças entre homens e mulheres.

Para além do erro básico de tentar explicar estas diferenças com a experiência de vida dos humanos primitivos, esquecendo que elas têm uma origem muito mais remota – a cadeia de instintos que nos condiciona começou a ser construída com os primeiros seres vivos – esse documentário sistematicamente concluía de acordo com as presunções ancestralmente estabelecidas acerca do assunto.

Um exemplo. Questão: capacidade dos cérebros masculino e feminino para interpretar os sinais dos estados afectivos. Metodologia: a um pequeno grupo de homens e mulheres eram mostradas imagens de caras expressando intensos estados emocionais enquanto um TAC ao cérebro media a actividade cerebral. Resultado: os cérebros masculinos mostravam uma actividade muito superior à dos femininos. Conclusão: as mulheres são muito mais eficientes que os homens na interpretação dos sinais faciais, carecendo de muito menos processamento para a fazer.

Parece evidente a conclusão, não é verdade? Incontestável? Pois isso é apenas o resultado de ela estar de acordo com a presunção que temos sobre o assunto. Vamos já ver como podemos concluir exactamente o oposto.

Um estado afectivo não se resume a ser de “tristeza” (por exemplo). Qual é a intensidade dessa tristeza? É tristeza ou frustração? É devida a uma perda, por exemplo, de um ente querido, ou a um arrependimento? É gerada por acontecimentos relacionados com a pessoa ou resulta da observação de um acontecimento exterior, sem relação com a pessoa? É um estado habitual dessa pessoa ou não? Qual a atitude da pessoa em relação a esse estado afectivo, procura reagir ou não? E como é a personalidade da pessoa? Como são os seus sentimentos? Etc, etc, etc, posso escrever dúzias de linhas com perguntas destas. Uma cara é um livro inteiro sobre a pessoa.

Se o cérebro feminino despachou tão complexa questão com um mínimo de processamento, isso quererá dizer que não analisou nada disso. Limitou-se a identificar a emoção básica aparente. Do livro, leu apenas o título!!!

Portanto, a conclusão será a de que o cérebro masculino é muito mais competente na leitura dos sinais faciais do que o feminino. O que até nem espanta pois sabemos como o instinto maternal tem uma importância crítica nos processos cerebrais femininos – para a fêmea, a interpretação rápida dos sinais básicos das crias é prioritário. Nas crias não há complexos estados de alma a perceber. Os machos, ao contrário, para desenvolverem os seus jogos de poder e de sedução, precisam de uma compreensão muto mais profunda do outro.

Vêm como as presunções nos conduzem facilmente a conclusões erradas? Estão agora convencidos de que a conclusão certa é a que eu apresentei?

Desenganem-se pois! O estabelecimento de duas interpretações diferentes dos factos é apenas o primeiro passo no caminho do conhecimento. Deus é subtil...

As pessoas do teste apenas viram imagens estáticas, fotografias. Pensar que isto é um bom modelo da realidade é mais uma presunção que precisa de ser testada. E se, em vez dos sinais estáticos duma fotografia, se usasse os sinais dinâmicos dum filme, muito mais ricos em informação? E se o cérebro feminino estiver preparado para interpretar os sinais dinâmicos e não os estáticos? Os resultados podem agora ser ao contrário!! Até podem ser iguais nos dois sexos, conduzindo a uma nova conclusão.

Isto concluiria o nosso estudo? Claro que não! Quem disse que um filme é um bom modelo da realidade? Há que pôr as pessoas em presença. Outros mecanismos podem então entrar em acção. Por exemplo, os Inconscientes das pessoas talvez tenham processos de comunicação que desconhecemos. Processos que permitam a uma pessoa saber muito mais acerca de outra do que a lenta interpretação dos sinais faciais.

Transmissão de pensamento? perguntarão, admirados! A Ciência já provou que isso não existe!! Pois provou – provou que as pessoas não parecem ser capazes de transmitir imagens ao nível do Consciente. Isso dava muito jeito aos espiões. Seria útil... Mas não investigou se o Inconsciente é ou não capaz de comunicar independentemente da vontade e do Consciente. Será, não será?

Se for, então talvez uma outra conclusão surja – a de que os cérebros femininos são mais capazes de obterem informação relativamente ao outro através de comunicação inconsciente, por isso não dependem tanto do processamento da informação visual. O cérebro masculino, ao contrário, tem de depender mais desta. Assim como um cego tem de depender do processamento auditivo porque lhe falta a vista.

Mas porque o inconsciente masculino haveria de ter esta capacidade menos desenvolvida que o feminino? Será que é mesmo assim? Ou será que nada disto tem a ver com capacidades mas com objectivos de momento, determinados pelo enquadramento social? Será que este enquadramento moldou os cérebros irreversivelmente na infância ou não? Ou é genético? Será que é alterável no espaço de duas gerações ou não?

Vêm onde nos conduziu termos começado a duvidar? Perdemos uma certeza muito cómoda mas provavelmente errada. Somos agora um mar de dúvidas. Mas entramos no caminho do conhecimento. Só por termos pensado um pouco sobre o assunto, temos uma compreensão muito maior. A Dúvida é boa companheira...

Olhando para o começo do texto perceberão agora como é simplória a conclusão que o tal documentário apresentou. E como é fácil sermos induzidos em erro através de processos simplórios que vão de encontro às nossas crenças, medos, instintos... e como é possível moldar os comportamentos sociais usando a “pseudo-ciência” como dantes se usava a religião... e como o Universo é desafiante, interessante, subtil...