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sexta-feira, março 30, 2012
Manda quem for O Mais Rico
D. Dinis, o "Rei Rico"
Há tempos, vi uma
reportagem na TV onde um jornalista perguntava a um angolano se achava bem que
o J. Eduardo dos Santos (JES) fosse a pessoa mais rica de Angola; a resposta,
dada com toda a tranquilidade, foi: se fosse outro o mais rico, seria outro a
mandar.
Esse angolano
está certíssimo mas nós, com a cabeça cheia de utopias simplórias e ideias
erradas, não percebemos que essa é tendencialmente a realidade. Não é o Puttin
o mais rico da Rússia? A sua fortuna pessoal passou do zero às dezenas de
milhares de milhões de euros em duas décadas... Os Bush e os Kennedy não são
das famílias mais ricas dos EUA? O candidato republicano Mitt Romney também tem
uma fortuna pessoal de umas centenas de milhões de euros... que se saiba...
A história mostra
que a riqueza é indispensável ao Poder, mesmo a nossa: o rei D. Dinis, na
sequência do esforço iniciado por D. Afonso II, tratou de se tornar o mais rico
do país, enfrentando nobres e clero, e assim ter o poder que lhe permitiu,
graças à sua enorme visão política, fazer finalmente de Portugal um país.
A Igreja Católica
tornou-se poderosa porque enriqueceu; aqueles que criticam a riqueza da Igreja
percebem muito pouco do ser humano; e a ostentação da riqueza é tão essencial à
Igreja como a qualquer pessoa que queira ter poder pessoal.
O Poder escorre
para as mãos dos ricos naturalmente; qualquer pequenina manifestação de riqueza
dá logo vantagem. Os ricos não têm de fazer nada para terem
mais poder, são as outras pessoas que se apressam a elevá-los, a endeusá-los.
Além disso, a verdade é que a generalidade das pessoas se vende, a honestidade
é um mito que se alimenta da falta de oportunidade, toda a pessoa (as eventuais excepções são irrelevantes) tem o seu
preço.
Esta relação
entre poder e riqueza existe à escala dos países – o país mais poderoso é o que
for mais rico. Na Europa, é a Alemanha; no mundo, são os EUA. E ser mais rico é
evidentemente uma vantagem porque o mais rico tem mais capacidade de enriquecer
do que os outros. A única forma de um país
menos rico não ser esmagado nesta economia é violando as suas regras, que é o
que fazem todos os países, protegendo as suas actividades internas e gerindo a
globalização na medida dos seus interesses. A comunidade europeia faz o mesmo
em relação à sua fronteira externa, enquanto internamente franceses e alemães
enriquecem à custa dos países do sul do Europa, que deixaram de proteger os
seus interesses; os pequenos países da CE desenvolveram esquemas que lhes
permitem subsistir parasitando os outros países, nomeadamente através das
offshores que criam e mantêm em territórios fora do controlo económico.
O sistema
democrático visa ultrapassar o maior problema das sociedades humanas: o abuso
do poder, tornando-o temporário, limitado, e acessível a qualquer pessoa que as
outras entendam ser a mais adequada. Mas quem é escolhido para governar tem de
ter poder e isso só é possível se, enquanto governante, for o mais rico – o
Estado tem de ser mais rico que o mais rico dos ricos. Como é que os pais fundadores
da democracia conseguiram isso? De diversas maneiras, nomeadamente estas 3: impostos, leis anti-monopólio e o poder de emitir dinheiro,
através do controlo do “banco central”; esta é a pedra de toque do poder do
Estado.
No entanto, se
essas medidas garantiam poder aos vencedores das eleições, não impediam que
quem for mais rico tenha mais capacidade de ganhar eleições; e, assim, e por
diversos caminhos, os mais ricos passaram geralmente a controlar o poder
político. O sistema americano dá a um candidato a possibilidade de ser momentaneamente rico com as doações para a campanha, o que teoricamente dá a qualquer pessoa a possibilidade de fazer frente aos ricos.
Como se sabe, o
poder exerce uma enorme atração e, por isso, não falta quem se julgue como o
mais capaz de exercer o poder. Os Reis e os Religiosos, porque são uma emanação
de Deus, os Militares porque a Força está com eles, os Cientistas porque são
donos do Conhecimento, os Juízes porque são o poder acima de todos os outros,
os Tecnocratas porque são eles que fazem as coisas, os Financeiros porque são
eles quem controla o dinheiro. Todos eles já sonharam conquistar o poder
político, directa ou indirectamente.
Porém, agora está
a ocorrer algo de novo!
Se existe esta
relação directa entre riqueza e poder, então para quê perder tempo com o poder
político? Se se puder ser mais rico que os Estados, comanda-se o Mundo; o papel dos políticos é tornado inútil, e com eles esse custo improdutivo representado pelas eleições, o mundo gere-se como se fosse uma grande empresa.
Como é que se
pode ser mais rico que os Estados? Controlando os bancos centrais e
sobrecarregando os Estados com despesas para que as receitas de impostos se
tornem insuficientes. Por isso, a obtenção do poder absoluto, a capacidade de
regular os destinos do mundo, passa por estas duas únicas coisas; e quem é pode
conseguir isto? Apenas os Financeiros.
Notemos que os
Financeiros já conseguiram ser donos de quase tudo – neste mundo competitivo
todas as empresas têm de recorrer à banca para aumentarem a sua capacidade
competitiva; mas ao fazê-lo colocam-se na dependência destes e acabam
controladas pelos bancos. É por isso que actualmente quase todas as grandes
empresas são controladas por grupos financeiros. Um pequeno número de grupos
financeiros domina quase toda a actividade económica; as leis anti-monopólio perderam a eficácia porque as empresas "concorrentes" têm por detrás, em muitos casos, os mesmos grupos. Este pilar do poder do Estado já caiu.
No próximo post
vamos ver o esquema genial inventado pelos financeiros para controlarem totalmente o mundo
ocidental.
Notemos que os
financeiros não são “os maus” – eles são tão “maus” como todos nós sempre
prontos a abusar do poder, disponíveis para ficarmos mais ricos se surgir a
oportunidade (apenas a falta desta nos alimenta a ilusão de que “somos
melhores”); mas foram mais espertos e conseguiram aquilo que nós não
conseguimos; porém, se continuarmos a ser burros, vamos ter uma vidinha
miserável, por isso é melhor que comecemos a abrir os olhos.
sábado, março 17, 2012
A malandrice do BCE
tirei esta imagem daqui; recomendo vivamente o blogue.
Ao ler a coluna
do Luís Duque no Expresso tive um “flash”: percebi a última malandrice do BCE!
Este texto não é
o que estava previsto na sequência do anterior mas vem muito a propósito do que
ando a querer expor; ora vejam:
Sabem como é que
alguns ou todos os países que têm sido intervencionados pelo FMI por este mundo
fora (as intervenções do FMI são como as operações militares dos EUA... há
sempre uma razão para intervirem nesta ou naquela parte do mundo...) se têm
livrado dele?
Como a
intervenção do FMI conduz a uma recessão crescente, os títulos da dívida
soberana desse país caem no mercado secundário; e como a recessão cresce
sempre, os títulos caem sempre. Quando estão suficientemente baixos, o país vai
ao mercado secundário e compra os seus próprios títulos de dívida – e é assim
que se vê livre dela, comprando-a por uma fracção do preço.
Mas quem é que
fica perder, perguntarão vocês? Bem, entendam, o negócio financeiro não tem por
objectivo criar riqueza, é tudo “dona branca”, é tudo esquemas em que uns
tentam sacar dinheiro a outros. Podia não ser assim, os países nórdicos vão
implementando esquemas para impedir que assim seja, mas nesta parte do mundo
dita de economia liberal é assim. No balanço, eles ganham sempre, mesmo quando
perdem alguma coisa, porque já ganharam antes nos juros usuários e já estão a
ganhar de novo noutra qualquer parte do mundo; por isso, o seu objectivo é
manter o processo.
Mas agora, ao FMI
juntou-se o BCE. Aparentemente, o BCE é muito mais sinistro que o FMI. E tem objectivos de Poder, não apenas de Dinheiro.
Sabendo que a
válvula de escape tem sido os países comprarem a sua própria dívida soberana no
mercado secundário, que faz o BCE? Adianta-se aos países e compra ele mesmo a
dita dívida, impedindo uma queda demasiadamente acentuada, impedindo essa
válvula de escape dos países.
Em nome de que teoria liberal é que o BCE intervém no mercado secundário?? O mercado não se
“auto-regula?” Ou o mercado só é “livre” quando convém aos bancos e “regulado”
quando não lhes convém??
Se o BCE fosse
uma instituição para defender os países, faria o mesmo que faz a reserva
federal americana e os outros bancos centrais – compram dívida para arquivar.
Mas não, o BCE não vai fazer nada disso, vai depois exigir aos países o
pagamento dessa dívida. E quem é o BCE? São os alemães!
Os gregos
conseguiram renegociar a sua dívida com os credores privados pois a estes o que
interessa é manter o processo; mas nós, quando a quisermos renegociar, ela vai
estar na mão do BCE; e acham que o BCE vai “perdoar” como fizeram os privados?
Não pode, não é verdade? Pois se os títulos foram comprados com o dinheiro dos
contribuintes alemães... então, o que acham que eles vão fazer?
sábado, março 03, 2012
As Teorias que nos regem são Ciência ou Bruxaria?
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Há um conjunto de teorias que moldam o nosso entendimento do mundo e condicionam a tomada de decisões; serão teorias fiáveis?
Começando pela
teoria económica; vemos a situação económica resvalar continuamente, a
realidade sempre pior do que as previsões, um total desacerto entre as medidas
que se tomam, baseadas em certezas inabaláveis, e os resultados que delas se
obtêm.
Diz-se que a
Economia é muito boa a explicar o passado mas nula a prever o futuro. É
fantástico como a notícia da subida ou descida da bolsa é sempre acompanhada de
uma explicação “lógica”; mas se a bolsa tem um comportamento lógico, porque é
que nunca sabem prever o dia seguinte?
Será que a
Economia é simplesmente algo que ultrapassa a nossa inteligência, a realidade é
tão complexa que a não conseguimos dominar? Estamos condenados a sofrer crise
atrás de crise, mesmo nesta era de abundância?
Na análise desta questão, ocorre-me uma
pergunta: o que é que os dinamarqueses pensarão da Economia? Para os
dinamarqueses, a Economia é Ciência certa! As previsões batem certinho, se é
preciso mudar alguma coisa, tomam-se medidas e as coisas aparecem corrigidas
como pretendido. Para os dinamarqueses, suecos, noruegueses... para quase toda
a gente, afinal... para os chineses...
Os chineses sabem
exactamente o que pretendem e como o conseguir. A sua Economia é Ciência certa.
Não interessa se o gato é branco ou preto, eles caçam sempre o rato! Já quase
não há ratos na China, desaparecem a um ritmo vertiginoso.
Aqui, ao
contrário, nada caça os ratos! Os ratos são a miséria das pessoas, a pobreza, o
atraso, a exploração.
Afinal, a
Economia só não é Ciência certa nos países que seguem a economia dita liberal,
a economia do Milton Friedman! Nos outros países, a Economia parece funcionar
muito bem. O problema não está na ciência económica, está na teoria que aqui se
segue!
Mas não é só a
Economia; a teoria do Aquecimento Global não acerta e, no entanto, continua a
ser afirmada como um facto. Desde que há registos de temperaturas por estes
lados, só houve um mês de Fevereiro tão frio como o último. A Terra está a
arrefecer há mais de uma década, mas isso não perturba os cientistas nem os
políticos: a Terra arrefece por causa do aquecimento! Isto depois de terem negado o
arrefecimento durante anos, até que a wikileaks invadiu o seu correio e
desmascarou o encobrimento do arrefecimento. As pessoas comuns não sabem, mas
quem tem um mínimo de conhecimentos de Física sabe há muito tempo que o
aquecimento global é uma fraude. Descarada. Despudorada. Como é possível manter
tal embuste a tão larga escala e contra as evidências? Afinal, pode-se enganar
toda a gente durante todo o tempo?
Bom, e que dizer
da teoria do Big Bang? O Universo é composto em 96% por matéria negra e energia
negra?? Como a teoria não acerta com o Universo... cria-se um Universo de
fantasia e afirma-se que o que conhecemos... não existe! Nem o Ptolomeu chegou
a tanto. Pura bruxaria. Mas, para as pessoas comuns, crentes hoje na Ciência
como dantes na Igreja, nada disto é estranho; nem o facto de os próprios nomes
serem os mesmos que os bruxos usam é capaz de as alertar, pelo contrário!
Espantoso. A verdade é que parece mesmo possível enganar toda a gente durante
todo o tempo – no fundo, as religiões sempre o fizeram...
Bem, e a Teoria
Atómica? A “partícula de Deus” ia ser descoberta no dealbar deste terceiro
milénio com o novo mega-acelerador, não era? Que piada! Desde a invenção do
neutrino que a teoria atómica não acerta uma previsão, esta “partícula de Deus”
é apenas o culminar da cadeia de disparates que tem sido construída. Claro que
não descobriu nada nem descobrirá – como eu previ e escrevi, o mega-acelerador
começou por não entrar em funcionamento e agora finge que vai obtendo
resultados importantes. Para quem lá trabalha, trata-se de ir aguentado a coisa
até à reforma.
E não acaba aqui,
há mais disparates, como este que já referi em post antigo. E, é claro, não foi
um meteoro que aniquilou os Dinossáurios; e sim, isso é um fenómeno repetitivo
e vai voltar a acontecer.
Bem, parece que
toda a Ciência que se tem feito depois de Einstein no chamado ocidente não
passa de ... Bruxaria!!!! Não é assim, há muita Ciência para além dessa; mas há
uma Ciência feita ao serviço das crenças e dos interesses, que se recusa a
aceitar o erro. É por isso que a Economia do ocidente é tão disparatada como
tudo o resto – isso não é uma limitação da Economia, é apenas desta Economia.
Isto tudo é
disfarçado com a Tecnologia, essa sim, essa é que tem evoluído e é responsável
por toda a evolução da sociedade – é que na tecnologia o projecto tem mesmo de
estar correcto, inventar energias negras ou partículas divinas não resolve.
Não são inócuos
estes disparates; em relação à Economia, o resultado é que em plena época da
abundância, fruto da árvore da Tecnologia, grande parte da população ocidental
vive em condições crescentemente miseráveis; em relação às outras teorias,
roubam-nos o entendimento deste fantástico Universo e atrasam o nosso
desenvolvimento, tal como as teorias do Aristóteles e do Ptolomeu o fizeram
durante 2 milénios (não por culpa deles, mas por quem não foi capaz de as
ultrapassar) e deixam-nos à mercê de catástrofes como a que vitimou os
Dinossáurios e não só. Como pode uma humanidade que acredita em energias
negras, matérias negras, partículas de Deus e outras coisas do mesmo calibre,
que adopta teorias económicas baseadas no elogio da Ganância, ganhar o direito ao
Futuro?
Estes disparates
teóricos subsistem porque há quem tenha interesse neles, evidentemente; claro
que há interesses fortes por detrás do Aquecimento Global, tão fortes que
conseguem que as pessoas aceitem como certa uma teoria que prevê o oposto do
que toda a gente vê; e as pessoas aceitam esta teoria porque no fundo lhes
agrada, o truque está aí, em dar às pessoas o que elas querem e que sirva o
interesse de quem o promove – é assim que funcionam as igrejas, os vigaristas,
os políticos.
E no caso da
Economia? Que interesses são esses?
É isso que vamos
ver... é uma pena a wikileaks não ter
violado o correio dos bancos centrais... mas isso seria perigoso demais é
claro...
domingo, fevereiro 26, 2012
O TABU
(foto tirada do blogue tabusdecavaco; origem desconhecida)
Lembram-se
daquele episódio das escutas do Cavaco? Não estranharam tanta histeria? O que é
que o Cavaco não quereria que fosse escutado? Se só havia uma suspeita, baseada nem se sabe em quê, não seria aconselhável alguma investigação antes
de se pôr a fazer comunicações ao País, como se alguém nos tivesse declarado
guerra, ou uma qualquer catástrofe natural tivesse assolado o território? Compreende-se a indignação mas não tanto a histeria; como
se explica isto?
Depois soube-se a
história do BPN, o Dias Loureiro, as acções, a casa no Algarve; pode-se
imaginar as conversas entre o Cavaco e o Dias Loureiro e os outros amigos
premiados com vivendas no Algarve. Isso sim, isso é motivo para pânico. Basta
passar os olhos sobre a matéria aqui exposta. Na dúvida de estar a ser
escutado, certamente que uma boa estratégia seria vir a público bramar que
estava a ser alvo de uma tramóia qualquer – quem quer que estivesse a escutá-lo
temeria divulgar essas escutas de forma assumida uma vez que a sua ilegalidade
já estava declarada (no caso do Sócrates, a ilegalidade das escutas já não serviu
de nada porque só foi “descoberta” depois da sua divulgação).
Esta história do
BPN também nos ajudou a perceber a política do TABU do Cavaco. Vejamos:
com os seus colegas economistas a nadarem em dinheiro, o Cavaco devia estar a
sentir-se algo estúpido em optar por cargos políticos de responsabilidade. Até
estou a ouvir a Maria a dizer: “então tu é que és o líder, o chefe, o mais
competente, e são os outros que andam a encher-se de dinheiro enquanto tu
pensas em candidatar-te a Presidente de República para teres imensas
responsabilidades e ganhares quase nada?” E agora, depois da nomeação do
Catroga, dirá: “Estás a ver? Os portugueses acham que tu ganhas muito, mas
pagam dez vezes mais ao Catroga, através da continha da electricidade, para ele
não fazer nada, e não refilam!!!” Sempre achei a Maria uma primeira-dama muito
contrariada e compreende-se: teve de prescindir da vida de professora, da sua
liberdade e de uma vida faustosa por causa da vontade política do marido. Ao contrário de outras primeiras-damas, a Maria só perde em sê-lo. Ou
seja, os tabus do Cavaco não foram tabus, ele simplesmente não sabia o que
decidir, se optar pela política e condenar-se a si e à família a ser o “parente pobre” e sem vida pessoal, ou
mandar passear a política e viver à grande e à francesa. Decisão difícil, de
facto. Respeito-o pela decisão que tomou porque ele tinha outras opções,
claramente vantajosas do ponto de vista pessoal.
Tudo isto faz
algum sentido, tanto o pânico com as escutas como as penosas decisões que aparentaram tabu. A verdade, porém, é sempre algo subtil, para além da lógica
aparente das coisas. Temos de procurar mais fundo. E, procurando mais fundo,
surge-me uma outra coisa: quem passou pelo Banco de Portugal está obrigado a
Sigilo para toda a vida. Sigilo indiscriminado, sobre tudo. Não será um pouco
excessivo? O Banco de Portugal não tem segredos comerciais, a sua actuação
deveria ser transparente, clara. Sigilo como os maçons? O Banco de Portugal é
alguma sociedade secreta?
É isso que
veremos no próximo post.
domingo, fevereiro 12, 2012
E se fosse ao contrário?
E se o BCE
emprestasse aos estados à mesma taxa de juro que empresta aos bancos? Se
injectasse 490 mil milhões de euros nas dívidas soberanas como fez com a banca?
É que, afinal, o
problema não é das dívidas soberanas, elas só se tornaram insustentáveis com a
subida da taxa de juro; o problema é da banca, que agora não tem como receber o
dinheiro emprestado porque com o aumento da desigualdade as pessoas estão mais
pobres. É por isso que os bancos começaram a falir. QUEM ESTÁ EM CRISE SÃO OS
BANCOS.
Portanto, nada
como ajudar os bancos, nomeando uma troika para os fiscalizar e impor-lhes
medidas de austeridade – ordenados obscenos dos seus gestores, pagos com a
nossa ajuda? Nem pensar. Luxos e regalias de toda a espécie para os empregados
da banca? Um corte já nos salários, um corte nos subsídios, um corte nas
pensões. Uma agência bancária em casa esquina? Sedes palacianas? Como se admite
um tal gasto de dinheiro em obras de construção civil? Redução das agências
bancárias para metade já (afinal, para que servem quando quase tudo se trata
pela net?) e despedimento dos empregados. Austeridade para a Banca!
Isto é o que
seria lógico, não é verdade? E seria assim se o banco central fosse nosso – dos
cidadãos – em vez de ser dos bancos.
Mas como quem
comanda está ao serviço dos bancos, o que fazem? Tapam os buracos dos bancos à custa dos dinheiros públicos,
cobrando taxas usuárias às dívidas soberanas, e à custa dos funcionários
públicos e, por arrasto, de todos os outros excepto (!!!!) os funcionários da
banca que mantêm todos os seus privilégios, dos administradores ao porteiro –
da banca que está à beira da falência.
Mas se a banca
falisse seria o caos, dirão; pois, mas assim vai falir na mesma; porque ao
empobrecerem as pessoas, mais as dívidas se tornarão incobráveis; ao subirem as
taxas de juro, menos as pessoas recorrerão ao crédito – estão a subir o preço
de um produto para além do seu valor ótimo, gerando lucros decrescentes.
Claro que estas coisas começam pelos mais fracos - o pessoal comenta à boca pequena: põe o dinheiro neste banco holandês, ou neste banco alemão; os depósitos nos bancos portugueses caem, as taxas são mais altas mas o pessoal não arrisca, os bancos portugueses vão falir mas entretanto os bancos alemães e holandeses estão a encher-se, para eles tudo bem, nada há a mudar no sistema. As regras são definidas pelos mais fortes desde que deixámos de ter governos ao serviço do povo.
Na verdade, o
verdadeiro problema não é a banca, é o empobrecimento da maioria das pessoas; e
só se sai daqui redistribuindo a riqueza e alterando as regras para que o
limite mínimo dos ordenados não seja o limiar da sobrevivência ou da revolta;
ora o que se está a fazer é o contrário, evidentemente, querem lá agora os mais
ricos “redistribuir a riqueza”? Lutarão até ao fim contra essa ideia. Só que
antigamente as pessoas podiam sobreviver da horta e hoje já não podem,
portanto, isto só não acabará numa revolta se entretanto os ricos perceberem
que não conseguem conservar a sua riqueza quando as pessoas empobrecem.
As sociedades
cuja riqueza está baseada na produção de bens, como a Alemanha, vão em breve
começar a perceber que a situação actual é insustentável. O actual sistema
económico implode quando a desigualdade ultrapassa certo valor porque isso
estrangula o fluxo financeiro.
terça-feira, janeiro 31, 2012
O capitalismo desenfreado dos financeiros
O actual sistema
económico ocidental caminha, conduzido pelas suas próprias regras, para um
desfecho: um mundo de escravos governado por uma pequenina minoria. Nada de
verdadeiramente novo na história da humanidade, que quase sempre existiu nesse
estado, pontualmente cortado por uma revolução que repôs alguma igualdade...
mas sempre durante pouco tempo.
A razão deste
desfecho no quadro actual é a seguinte.
Nas pequenas
actividades económicas, como os cafés, os cabeleireiros, as mercearias, é fácil
surgir uma nova empresa, um concorrente; isto estabelece pressão sobre a
qualidade dos serviços prestados ou dos bens produzidos, força a inovação, a
eficiência e mantém os preços baixos.
Nestas
actividades não se enriquece, vive-se.
Mas no mundo das
grandes empresas não é assim. Onde há grandes empresas, as pequenas
desaparecem, comidas pelas grandes; como uma nova grande empresa, ao contrário
das pequenas, não pode surgir do nada, não há novos concorrentes. Isto tem uma
consequência: estas empresas competem em termos de qualidade e inovação, mas
não em termos de preço. As áreas onde existem grandes empresas tornam-se
inacessíveis às outras e, por isso, estas cartelizam e tornam-se muito
lucrativas (repare-se no prodígio da TDT portuguesa, limitada a 4 canais para não provocar descida dos preços no cabo).
O preço nas áreas
de actividade onde as grandes empresas já eliminaram as pequenas é o que maximiza
o lucro global na respectiva área de actividade.
Por exemplo, o
preço da gasolina é o que maximiza o ganho das petrolíferas. Aumentar o preço
provocaria redução de consumo e menores lucros. O mesmo com o preço dos
chamadas de telemóveis, dos juros bancários, etc, etc.
A única área onde
as grandes empresas não fazem subir os preços é no retalho – porque aí o que
elas fazem é esmifrar os produtores, porque elas controlam o acesso ao mercado.
É por isso que os
juros das dívidas soberanas europeias sobem tanto – porque como o dinheiro
passou a ser propriedade do BCE e a sua colocação no mercado monopólio dos
bancos, estes fazem-no ao preço que maximiza os seus lucros – se subissem mais
os juros ou os Estados deixariam de pagar, como a Grécia, ou passariam sem o
empréstimo, como fez a Alemanha há pouco tempo.
Vejamos o caso do
petróleo; o preço do barril de petróleo continua muito baixo (muito mais baixo
do que o preço pelo qual pagamos a gasolina) porque não se consente que os
países produtores controlem o preço deste (quando estes ameaçam fazê-lo, são
atacados militarmente; é por isso que o Irão quer uma bomba nuclear ou, pelo
menos, quer conseguir chegar a uma situação em que os EUA pensem mesmo que eles
a podem ter, para poder controlar o preço do petróleo sem receio de que lhe
aconteça o mesmo que ao Iraque e Líbia).
Ora o dinheiro,
ao contrário do petróleo, é livremente controlado pelo BCE e sua clique de
banqueiros que, na Europa, se tornaram independentes do poder político. Os
árabes não podem controlar o preço do petróleo mas o BCE e os banqueiros podem
controlar o preço do dinheiro.
As grandes
empresas, como estão cotadas em bolsa, estão à mercê (nem todas, algumas
blindaram os estatutos) de quem disponha de uma coisa: dinheiro. Ora isso é o que
os bancos e os vários tipos de instituições financeiras têm. Por isso, as
grandes empresas vão sendo, uma após a outra, directamente ou indirectamente,
propriedade de bancos ou doutras instituições financeiras. Sabem qual é a
empresa mais poderosa do mundo ocidental? O Barclays. Entre as 10 empresas mais
poderosas do mundo há apenas um grupo industrial; ver aqui. E os bancos são
propriedade de quem? De uns quantos financeiros no mundo ocidental.
Assim, o mundo
ocidental acaba governado pelos seus financeiros. Como têm o dinheiro, são o
sustentáculo, logo os donos, dos partidos políticos. É por isso que temos os
governos a servirem o interesse dos banqueiros e não o das pessoas, em toda a
Europa, com a eventual excepção da Islândia. É por isso que os bancos centrais
são mais autónomos do poder político do que a justiça e se gerem por regras
mais secretas que as da maçonaria – como é que funciona o Banco de Portugal?
Donde vêm os seus lucros? Quem paga as pensões milionárias aos seus
ex-gestores? A quinta com cavalos? O BdP não pode cortar os subsídios e o de
Espanha pode??
Para acabar com a
actual crise das dívidas soberanas, basta o BCE emprestar aos Estados como o
faz à banca; mas essa possibilidade nem se põe. Porquê? Pode-se mudar os
tratados europeus, pode-se exigir perdas de soberania, alterar Constituições,
mas mexer no estatuto do BCE é que não!!! Em vez disso, o BCE andará a gastar
(imprimir) centenas de milhar de milhões de euros (até agora 500 mil milhões
segundo ouvi dizer) a comprar dívida soberana no mercado secundário a juros
fabulosos para enriquecer os bancos. Claro que há um problema de solvência da
banca, mas o dinheiro que falta aí não está nos bolsos das pessoas, está no incalculável poder económico acumulado pelos financeiros.
Os financeiros
não actuam para produzir uma sociedade melhor; o seu único objectivo é serem
cada vez mais ricos e a curto prazo. Aliás, nem têm muita escolha: neste sistema, ou se luta
para se ser o mais rico ou se fica o mais pobre.
O plano dos
financeiros, após terem conseguido a sua independência do poder político e o
controlo deste, consiste em ficarem donos de todas empresas dos chamados
monopólios naturais. As pessoas dependem da actividade dessas empresas, por
isso quem as detém pode espoliar todos os rendimentos das pessoas – é o
conhecido “golpe da cantina”, uma velha técnica de escravização de que já
falei. Reparem: estas empresas não podem ser compradas na bolsa, foi preciso
inventar um esquema para conseguir pôr a mão nelas, estão a perceber?
Com a
privatização das empresas públicas e a consequente instauração do “sistema de
cantina”, rapidamente se chegará a um estado final tipo marajás das Índias: uns
quantos imensamente ricos servidos por uma multidão de escravos. Esta situação
desenha-se a traços largos em todos os países da Europa; não nos iludamos pelos
altos valores dos ordenados mínimos noutros países: em termos de paridade de
poder de compra, uma grande parte da população em toda a Europa vive em
condições mínimas de sobrevivência, qualquer que seja o país
Este é o objectivo
essencial do plano dos banqueiros; o ataque às dívidas soberanas é apenas um
passo intermédio, que serve este objectivo. Vender as empresas públicas não
altera rigorosamente nada o problema da dívida soberana, este existe qualquer
que seja o valor da dívida (a dívida da Espanha é das mais pequenas da Europa,
do mundo); essa exigência das troikas não tem nada a ver com a regularização
das contas públicas, é um objectivo em si mesmo. Repare-se na metodologia:
começa-se por privatizar as empresas lucrativas, como a EDP, e tornam-se
lucrativas as que o não são, como nos transportes com a subida dos preços, e
depois é que se privatizam; ora vender empresas lucrativas só piora as contas
públicas, não as melhora. Além disso, as verbas que se encaixam com estas
privatizações são ridiculamente pequenas, sem qualquer significado no montante
da dívida pública.
Este plano teria
sido inexoravelmente bem sucedido se, felizmente para nós, não existisse um
país no mundo com outro sistema económico, com força suficiente para intervir e
com boas relações com os portugueses.
Na China, o
Governo é que detém o poder económico. Um Governo é eleito e tem sempre na sua
agenda melhorar as condições de vida das pessoas. Por isso, entre o capitalismo
desenfreado dos financeiros, que não têm quaisquer responsabilidades sociais, e
um capitalismo regulado pelo Estado, o segundo é muito melhor para as pessoas.
Foi assim que os países ocidentais se desenvolveram, até que os Estados
perderam o poder económico e desde então as condições de vida de grande parte
das pessoas só piorou. Evidentemente. Porque o poder financeiro visa
objectivamente o empobrecimento das pessoas, o aumento da desigualdade, o único
processo de conseguirem o enriquecimento rápido.
Mas atenção: não
são os chineses que vão fazer esta guerra por nós. Eles estão na guerra deles,
os governantes chineses não são eleitos por nós, estão apenas a usar-nos para
os seus objectivos, que não são os nossos, embora tenhamos um inimigo comum. Os
nossos aliados têm de ser os povos europeus, a começar pelos gregos, espanhóis
e italianos. A união faz a força e quem tiver medo do “contágio” vai morrer;
somos patos a serem caçados de trás para a frente, sem perceberem que o que
aconteceu ao de trás acontece depois a eles.
Esta guerra ainda
está a começar. E nós, os portugueses, podemos ter uma responsabilidade
especial nela. Penso mesmo que aqui é o único sítio da Europa
onde a guerra se pode começar a ganhar.
No próximo post
vou falar de uma coisa muito interessante: o tabu do Cavaco Silva, o pânico das
escutas, o papel do Constâncio e outros detalhes desta operação. E depois vou
começar a apresentar a minha contribuição para esta guerra.
quinta-feira, janeiro 19, 2012
Como deixamos de ser "lixo"
A figura acima, que me chegou via email mas sem referir a origem (as minhas desculpas ao autor, que não sei quem é) mostra bem que os ratings das agências financeiras não são ciência oculta nem ataques ao euro nem manipulações políticas; são simplesmente a tradução do estado da balança de pagamentos, como referi no post anterior. Podem ver aqui que há mais quem pense assim. Portanto, deixar de ser "lixo" é resolver o problema da balança de pagamentos: passar a ter um fluxo positivo do dinheiro que entra no país. Para isso, há que reduzir importações, saídas de capital, e aumentar as exportações e as entradas de capital.
Parte do problema deve-se às regras actuais, por isso há quem aconselhe a cortar as importações oriundas da Alemanha, para criar sobre ela uma pressão que eleve à adopção de condições mais equilibradas. Isso é uma verdade, mas não é só isso: grande parte do problema resulta de os alemães serem uma sociedade onde os interesses da sociedade são prioritários e nós sermos um balde de gente onde os interesses individuais têm a primazia. O colectivo é sempre mais forte do que o indivíduo.
Mas vejamos o que podemos fazer de imediato enquanto não resolvemos o nosso problema de fundo.
Quanto às importações e saídas de capital
A ASAE fez
finalmente algo que devia ter feito há muito – atacou os produtos importados em
dumping.
Os espanhóis e os
franceses há muito que exploram este país de parvos. Fazem assim: os preços nos
seus países são mantidos adequadamente altos, controlando as quantidades de
produtos alimentares que colocam no mercado, nomeadamente fruta e peixe (no caso
dos espanhóis); depois os excedentes mandam para Portugal a qualquer preço,
arruinando a produção nacional. E malta vai a correr comprar o peixe espanhol à
lota ou ao supermercado, sem questionar como é que o peixe espanhol se vende mais barato em
Portugal do que em Espanha, ou comprar o leite a 13 cêntimos no Continente sem
se questionar que leite é esse que é mais barato do que a água.
O nosso clima
também é descaradamente explorado com a construção de aldeamentos e hotéis
estrangeiros, o que permite a alemães e ingleses virem passar férias ao algarve
sem deixarem cá um tostão. Porreiro pá! É preciso sermos ceguinhos de todo.
E isso traz-me ao
terceiro aspecto: o negócio que os pequenos países do norte da europa exploram,
que consiste em cobrarem uma taxa pequenina para as empresas enviarem os seus
lucros para offshores. Ora diz o ditado que se não podes lutar com eles,
junta-te a eles. Portanto, temos é de fazer o mesmo: copiar a legislação
holandesa ou irlandesa e fazer o esquema com o offshore da Madeira.
Isto é o que o
Governo tem de fazer; tem de fazer mas não fará, é claro; e cada um de nós? É
fácil, é só fazermos o mesmo que os outros povos: não compramos produto
estrangeiro a não ser que seja indispensável e não haja nenhum produto
português alternativo.
Porque,
entendamo-nos: o que arruinou o país não foram as obras públicas, as
autoestradas, os hospitais – isso foi feito com grande incorporação nacional e
comparticipação de fundos europeus. As reparações que eu faço cá em casa não me empobrecem, pelo contrário. O que empobrece são a compras ao estrangeiro – são
os carros, os telemóveis, etc, etc; são os lucros das empresas de
telecomunicações que são exportados, são os lucros fabulosos da EDP que vão
passar a ir para a China, etc, etc.
Portanto, em
grande parte, o responsável por esta situação é o nosso perfil de consumidor.
Esta é uma diferença fundamental entre norte e sul: os povos do norte são
ensinados de pequeninos a não comprar o produto estrangeiro. Fazem esse
sacrifício. Nós é que não estamos para isso, era só o que faltava! e enganamo-nos com teorias pseudo-liberais para podermos fechar os olhos à realidade.
E quanto às
exportações?
É passarmos a
consumir mais produto nacional; isso fortalece as empresas nacionais e aumenta
a sua capacidade de exportar. Nenhuma empresa existe cá se não tiver mercado
interno (a não ser que pretenda explorar mão-de-obra escrava, o que cá é cada
vez mais fácil e noutros lados mais difícil).
Em resumo, se nós
agirmos a pensar no nosso interesse individual imediato, estaremos todos
lixados. Essa é a grande armadilha dos poderosos: pôr os pequeninos a pensarem
que é lícito, normal, conveniente, agir no seu interesse pessoal. Isso até
funciona um pouco no tempo de vacas gordas, mas leva às vacas magras e depois
ao desastre total. Os poderosos deste mundo associam-se em maçonarias,
partidos, cartéis e mais entidades secretas; e é assim que facilmente fazem o que
querem neste mundo de zés onde cada um puxa a brasa à sua sardinha. É por isso
que os povos do norte não caem nestas armadilhas, pois lá o povo sabe o que tem
a fazer, é uma comunidade, é uma “maçonaria”; as obrigações dos portugueses uns
com os outros são iguais às dos irmãos duma maçonaria. Ou percebemos isso ou
vamos ser riscados do mapa, merecidamente, porque as sociedades não se
constroem com pessoas que não têm consciência colectiva.
Bem, caros
leitores e amigos, tenho uma má notícia: esta negociata da dívida soberana vai
em breve desaparecer para dar lugar a outra muuuuito melhor; no próximo post.
segunda-feira, janeiro 16, 2012
Porque o rating está certo
Tem sido lançada
uma grande confusão na cabeça das pessoas com a constante referência à dívida
soberana, como se ela fosse a causa da presente crise financeira. Ora salta aos
olhos que não pode ser: a Espanha tem uma dívida externa pequeníssima, muito
mais pequena do que as dos países que aparecem cotados com altos ratings, e
está com problemas.
Quando comprei o
meu andar, fiquei com uma dívida muito maior do que o meu rendimento anual – o
meu “PIB”; fiquei com uma dívida de mais de 200% do meu PIB; no entanto, o meu
rating era AAA para a banca; Porquê? Porque o que eu ganhava era superior aos
que eu gastava e aos meus encargos com essa dívida.
E este é que é o
busílis da questão: o que se ganha dar ou não para pagar as despesas.
O que é isto de
“o que se ganha” em termos de um país? É o dinheiro que entra, pelas
exportações, turismo, remessas de emigrantes. E o que se gasta? É o dinheiro
que sai, pelas importações, turismo, movimentos de capital, remessas de
imigrantes.
Portanto, o que
faz com que um país seja AAA ou lixo é este balanço, não é a sua dívida
soberana. Basicamente, é a balança de pagamentos do país. É por isso que a
Alemanha tem necessariamente um rating AAA.
A balança de
pagamentos é por isso a preocupação nº 1 de qualquer outro país.
Portugal tem uma
balança de pagamentos altamente deficitária há décadas; é um país que gasta
mais do que ganha, portanto. Como é que Portugal pode ter um rating que não seja
“lixo”??? Naturalmente que é lixo! É como uma pessoa que todos os anos pede um
novo empréstimo para conseguir pagar os encargos dos empréstimos anteriores.
Como é que
deixamos de ser lixo? Veremos no próximo post.
quarta-feira, janeiro 11, 2012
Génese e evolução da Crise
Esta crise e as
anteriores têm a sua origem profunda num erro filosófico, que será abordado num
próximo texto; mas mudar esse erro não é fácil, pelo que o que interessa para
já são as causas directas da crise, a fim de percebermos o que podemos esperar
do futuro próximo.
Vou dar uma
explicação muito simples, não completamente correcta mas reveladora do busílis
da questão, de acordo com o meu entendimento.
Existe uma certa
quantidade de dinheiro físico. Na Europa, o BCE imprime todos os anos mais um
pouco – não sei qual é o montante, arbitremos 2%. Portanto, excluindo o resto
do Mundo do nosso raciocínio, o montante de dinheiro cresce à taxa de 2% ao
ano.
Este dinheiro
está aonde? Nos bancos. Que fazem os bancos com ele? Emprestam. Vamos supor que
o emprestam todo e que a taxa média de juro que conseguem é 10%. Então, ao fim
de 1 ano, a dívida representa 110% do dinheiro inicial; este, por sua vez,
aumentou os 2% que o BCE imprimiu. Temos, portanto, que ao fim de 1 ano a dívida
é quase 8% mais do que o dinheiro existente.
Ou seja, o total
em dívida supera o dinheiro existente devido às taxas de juros serem superiores
ao dinheiro introduzido pelo BCE; e esta diferença cresce anualmente (na
verdade, cresce também por outra razão, mas não compliquemos porque esta é que é mais relevante devido ao seu efeito cumulativo).
Se ao fim de 1
ano as dívidas tivessem de ser todas pagas mais os juros, haveria uma crise
porque não haveria dinheiro suficiente.
Os financeiros
sabem disso, e têm uma solução: não querem que lhes paguem as
dívidas, querem é que lhes paguem os juros. Por isso emprestam
indiscriminadamente e com prazos a perder de vista.
As pessoas têm
empréstimos para a casa, carro, etc; o que elas pagam por mês é quase só juros,
as amortizações são a 40 anos (até para carros...). Portanto, o real encargo
das pessoas não é a dívida, são os juros da dívida.
Assim, o problema só surge quando os juros excedem o dinheiro existente
- os devedores deixam de poder pagar os juros. O crescimento da desigualdade
agrava a situação.
É nessa altura
que estala a crise: ao deixar de receber os juros, os credores querem reaver os
créditos (os bancos têm de depositar no banco central as dívidas em falha) e
gera-se uma “corrida às dívidas”. Uma corrida sem solução porque simplesmente
não existe dinheiro físico suficiente para o total em dívida. Ainda por cima,
parte do dinheiro físico está retido como reserva, uma medida destinada a
evitar a “corrida à banca”. O sistema financeiro acautelou a “corrida à banca”,
porque ela já aconteceu no passado, mas não acautelou a “corrida à dívida”.
Como se resolve
isto? Há várias maneiras. Uma é “redistribuir a riqueza”, que consiste em o
Estado cobrar mais sobre os altos ganhos dos financeiros e injectar esse
dinheiro na base da economia; outra consiste em reajustamentos de taxas de
juros a valores mais baixos; outra é o banco central “comprar” dívida
incobrável à banca que depois não cobra, o que equivale a injectar dinheiro no
montante da diferença entre o dinheiro real e o crédito (esta solução foi
inventada pelos japoneses); outra é anular parcialmente as dívidas.
Porém, quando
toca a haver crise, todos querem é safar-se o mais rapidamente possível.
Renegociar os empréstimos baixando os juros? Nem pensar, isso iria diminuir os
ganhos. Há é que aumentar os juros para tentar sacar o máximo dinheiro antes
que se acabe.
No Japão e nos
EUA ainda há quem mande no sistema financeiro e por isso surgem algumas medidas
adequadas, como redistribuição de riqueza, a intervenção do banco central na
dívida soberana, embora indirecta, e a compra pelo banco central de crédito
mal-parado.
A Europa, sem
qualquer controlo político sobre o sistema financeiro, tem um esquema próprio
desenvolvido por este. Um esquema em duas fases.
A primeira fase
consiste em meter muito dinheiro na banca para que ela possa gerir os créditos
mal-parados. Onde é que se vai buscar esse dinheiro? Aos bolsos dos pobres,
naturalmente, pois são os ricos que definem o jogo e não querem corrigir a
situação indo aos seus próprios bolsos. E como? Através das dívidas soberanas.
O facto de o BCE
não intervir directamente nas dívidas soberanas deixou estas sem capacidade de
negociação e os seus juros podem subir ilimitadamente. Isto é uma mina de ouro
para a banca.
Percebamos o
processo: a Banca compra os títulos de dívida soberana e revende ao BCE,
ganhando uma taxa enorme no processo. A banca tem um negócio fabuloso, o de
intermediário entre as dívidas públicas e o BCE. Todo o dinheiro dos cidadãos
comuns irá ser escoado para o pagamento dos juros da dívida, ou seja, para a
Banca. Notem que o BCE comprar os títulos é indispensável ao processo porque,
como veremos, eles vão ficar incobráveis.
Como é que os Estados vão arranjar dinheiro
para pagar os altos juros?
Compreendamos a
situação: imaginem que têm um empréstimo para compra de casa, pelo qual pagam
500 euros por mês. Um bom investimento, pois se arrendassem uma casa pagariam o
mesmo ou mais e não teriam nada. Comprar casa própria é um investimento e uma
poupança. Agora imaginem que recebem uma carta do banco a dizer que resolveram
unilateralmente subir os juros, pois há falta de crédito, e que passam a pagar
1700 euros por mês! O vosso ordenado é de 1000 euros. Vocês dizem ao banco que
não podem pagar isso. O banco então acha-se no direito de entrar na vossa vida
e desatar a vender os vossos bens, sacar o dinheiro todo que tiverem e ainda
vos insulta, seus malandros, a quererem ter casa com dinheiro que não é vosso –
vão é viver para debaixo da ponte, seus caloteiros.
Isto é mais ou
menos o que se passa com as dívidas soberanas.
Assim, os
financeiros entram nos Estados e impõem a “Austeridade”. Austeridade mas não
para os ricos. Corta-se nos ordenados e nos direitos sociais. Duas coisas que
não afectam os ricos. Impostos sobre o capital, parcerias público-privadas,
fundações, denúncia de dívidas fraudulentas mesmo quando a fraude já está
provada, como no caso dos submarinos, isso não!
Os críticos da
austeridade dizem que ela corta o crescimento e que sem crescimento não há dinheiro
para pagar dívidas; são uns utópicos, o crescimento não interessa nada aos
financeiros, ele não fabrica dinheiro; “crescimento” num
lado significa decrescimento noutro lado, para os financeiros é
irrelevante, o que interessa é sacar o mais possível do pouco dinheiro físico
que existe. O que falta não é produção, é dinheiro físico, pura e simplesmente,
e o objectivo é sacar o máximo de dinheiro já já; se o país fica destruído, se
as empresas fecham, se as pessoas passam fome, isso não interessa nada, cada um
trata dos seus interesses. Na verdade, isso é a consequência necessária do
saque que é preciso fazer para que os interesses dos ricos não fiquem
prejudicados. Vamos viver para “debaixo da ponte”.
Mas por maior que
seja a “austeridade” nunca se pode obter o dinheiro necessário porque ele não
existe. A austeridade esvazia os trocos dos bolsos dos pobres mas depois não há
mais trocos.
Entendamos o
seguinte: na Europa, os bancos são apenas retalhistas do dinheiro. O produtor
do dinheiro é o BCE. A Banca tem o exclusivo do retalho deste produto, que o
BCE produz em monopólio; o BCE faz como qualquer outro monopolista: produz nas
quantidades que mais aumentam o seu ganho – se produzisse mais euros, o euro
desvalorizava-se e ele tinha menos ganho. Ele e a Banca, pois isso baixaria os
juros. O BCE e a Banca são uma entidade só, a desempenhar dois papéis. Estados,
cidadãos, empresas, são todos clientes do retalhista do dinheiro, que é a
Banca.
Os bancos vão ter
de enfrentar muito crédito incobrável porque as pessoas ficam sem dinheiro para
pagar os empréstimos, mas vão ser compensados pelos ganhos na intermediação
entre as dívidas soberanas e o BCE. Este processo transfere para o Estado, ou
seja, para todos nós os que dependemos directa ou indirectamente dele, o
problema gerado pelo excesso de ganhos financeiros. A banca transforma assim os
seus ganhos virtuais em dinheiro real extraindo o dinheiro real das pessoas.
Entendamos:
criou-se um dinheiro virtual de que todos beneficiámos, uns mais do que outros;
mas agora o dinheiro virtual dos ricos é substituído por dinheiro real e o
nosso dinheiro real desaparece e o virtual esfuma-se através da utilização de
uma ferramenta chamada “Austeridade”.
No fim desta
primeira fase, o BCE está cheio de títulos de dívida soberana, que comprou no
mercado secundário; que vai ele fazer com esses títulos? Cobrá-los? Como, se
não há dinheiro??
Ele não vai
cobrá-los, o que o BCE tem a fazer é escrevinhar os títulos na contabilidade do
BCE e deixá-los lá arquivadinhos. O BCE apenas está a fazer aquilo que todos os
bancos centrais fazem, comprar dívida soberana para arquivo, só que usando a
Banca como intermediário, pois a Banca é o seu retalhista exclusivo.
Mas há uma diferença para os outros bancos
centrais; os outros estão ao serviço do seu país, arquivam a dívida porque isso
serve os interesses desse país. O BCE não está ao serviço de nada a não ser de
si próprio. Ele irá querer negociar alguma vantagem, qual? uma perca de
soberania? Os senhores do dinheiro vão tomar conta do poder político? Será que
a Merkel consegue alterar os tratados a tempo e de forma a retirar poderes ao
BCE? Ou também ela está ao serviço do BCE?
E o nosso governo
está ao serviço de quem?
Pessoalmente,
penso que por agora vamos ser salvos pela ameaça chinesa – com as pernas a
tremer de medo perante o Dragão, o BCE vai arquivar já já as dívidas soberanas
para travar a entrada da mitológica criatura.
terça-feira, janeiro 03, 2012
O artigo 123 do Tratado de Lisboa
Que a origem da crise se situava no facto de os governos não terem capacidade de negociar as condições da dívida já tínhamos percebido; que isso se devia ao facto de lhes ter sido retirada a capacidade de imprimir dinheiro também já tínhamos percebido; o que não sabíamos era onde exactamente estava escrito que devia ser assim. Este vídeo explica: no artigo 123 do Tratado de Lisboa.
Note-se que não
se tratará de uma originalidade deste tratado – na primeira versão do vídeo, um
pouco mais detalhada, diz que já vem do Tratado de Maastricht e de uma lei
francesa de 1973 (não sei se está correcto).
Há pois uma
enorme ingenuidade (ou esperteza...) neste artigo. O preço deve resultar duma
negociação entre as partes e é este princípio liberal básico que é aqui violado
porque assim os Estados ficaram sem qualquer capacidade de negociação. E se eu
sugiro que o artigo 123 pode ser uma esperteza em vez de uma ingenuidade é
porque a estratégia básica das financeiras consiste em criar situações em que a
outra parte perde capacidade de negociação – é por isso que os bancos estão
constantemente a “oferecer” empréstimos aos seus clientes. E é isso que é feito
com este artigo 123.
Portanto, há que
encontrar uma nova redacção a este artigo, que devolva aos Estados capacidade
negocial adequada. Alguém tem uma sugestão?
Este é apenas um
dos dois problemas fundamentais que vão levar o caos à Europa do Euro. No próximo
post veremos o outro.
quinta-feira, dezembro 29, 2011
A Lógica da Batata no Capitalismo e a bomba Chinesa
Vivemos uma época
que ficará para a História; a época em que a humanidade, pelo menos o Ocidente,
viveu sob a batuta da Lógica da Batata. A Lógica da Batata é perfeita para
defender os interesses pessoais num mundo movido pela cupidez. Sempre foi usada
pelos sindicatos, pelas classes, pelos patrões, pelos cientistas, etc, etc, mas
felizmente sempre houve quem estivesse acima dela. Mas agora parece que não há.
A Lógica da
Batata é a lógica do pensamento simplório, imediatista, ao serviço das
conveniências próprias.
A Economia é um
exemplo acabado deste estado de coisas. É por isso que numa era de abundância
conseguimos o prodígio de empobrecer, de estar a regressar aos tempos antigos,
de as pessoas deixarem de ter electricidade em casa, de irem buscar água à
fonte, de a iluminação pública estar desligada – estamos a caminhar a passos
largos para uma era de escravatura.
Vejam como a
Lógica da Batata nos orienta: em qualquer jornal se pode encontrar um artigo de
opinião de um qualquer economista a dizer basicamente isto:
- Precisamos de
investidores para gerar emprego
- Para que os
investidores invistam cá, precisamos de lhes dar melhores condições que os
outros; senão, vão para outros lados, não é?
- Logo, o capital
não pode ser taxado e os custos das empresas têm de ser minimizados.
- Logo, é preciso
impor políticas de austeridade, baixar os ordenados dos empregados, os seus
direitos, e baixar os custos sociais – subsídios de desemprego, pensões, saúde,
educação, etc.
Parece muito
certo, não é? Certamente certo para os capitalistas. Mas agora vejamos as
consequências para as outras pessoas.
Num esquema em
que o capital circula livre de impostos, os lucros das empresas vão-se embora e
única coisa que elas deixam são os ordenados que pagam; porém, estes são o
mínimo possível – “queres que o capital venha para cá? Então tens de reduzir os
ordenados para o nível mínimo, o nível de sobrevivência” – é o que este
iluminados dizem. E acrescentam, com ar paternal: e é bem bom conseguirem ter um empregozito.
Bom, mas se as
pessoas só ganham o mínimo de sobrevivência e o capital não paga impostos, onde
é que o Estado vai buscar dinheiro para pagar a sobrevivência dos que não estão
empregados? Não vai – mesmo os impostos como o IVA não rendem porque as pessoas
não têm dinheiro para fazer compras. Adeus reformas, subsídios de desemprego,
saúde, ensino público.
Este quadro leva
à mais negra miséria para toda a gente excepto para os detentores do capital e
seus lacaios directos; mas tem um problema: se toda a gente vai para a miséria,
depois quem compra os produtos e serviços das empresas?
A resposta é
simples: divide-se o Mundo – num lado, ficam os consumidores, no outro os
escravos. Ou melhor, na óptica destes senhores, “organiza-se” o Mundo; o Sul da
Europa é terra de escravos.
As pessoas que
agora defendem um Capital acima da Lei, um Capital que não tem obrigações, não
paga impostos, não tem deveres, só direitos, são pessoas que numa ditadura
defenderiam o ditador, que no tempo de Salazar defenderiam Salazar. Pretendem
estar a falar e a agir no nosso interesse, mas não estão, são lacaios do Poder.
Nós já não
estamos numa Democracia; este Governo eleito está em funções porque está ao
serviço dos Senhores do Capital; se não estivesse, teria sido substituído como
na Grécia e na Itália. Todos os países do Sul são actualmente “governados” por
pessoas ao serviço do Capital.
É claro que há
muita coisa que precisa mesmo de ser corrigida – o país está a saque há muito
tempo, por políticos e pelas mais diversas classes profissionais; a necessidade
desta correcção, porém, está a servir de suporte e de justificação para medidas
que não visam senão o empobrecimento e escravização.
É por isso que a
China ter entrado aqui é uma boa notícia – a China é governada por pessoas ao
serviço do seu povo e por ele realmente escolhidas. Na China, o Capital está
submetido ao poder Político. O Capital ficou a tremer das pernas com a entrada
chinesa aqui. O Capital vai ter de se pôr fino.
As minhas
previsões para o futuro próximo: as taxas de juros das dívidas soberanas vão
baixar em todo o lado, as dívidas soberanas vão ser renegociadas e as privatizações nas quais os chineses possam estar
interessados vão ser proteladas.
sábado, dezembro 24, 2011
Uma batalha ganha
Naturalmente que
temos enorme dificuldade em aceitar desígnios maquiavélicos; a generalidade de
nós preza a sua condição humana e o lado afectivo que lhe está associado. A generalidade
de nós desconhece que as pessoas com sede ilimitada de poder ou de dinheiro não
têm condição humana nem lado afectivo – uns nasceram sem ele, outros tiraram
cursos para se verem livres dele – é que há cursos para isso, para matarem todo
o “coração “ que uma pessoa possa ter, entendido como um obstáculo ao sucesso.
Um gestor aprende a visar unicamente o lucro na nossa sociedade ultra-liberal e
capitalista. Para um gestor, uma pessoa é uma “coisa”.
Notem que isto é
apenas uma corrente de pensamento, uma escola. Há outras. Por exemplo, uma
pessoa com religião não pode ter cargos políticos na China – a religião é aí
ostracizada, tal como os sentimentos são ostracizados na teoria liberal do
ocidente. Os gestores chineses não têm religião; os gestores dos países
liberais ocidentais não têm coração. Compreende-se a opção chinesa, pois quando
há mais de uma religião geram-se conflitos graves, como se verá no Iraque; a
opção ocidental, a da coisificação do ser humano, é que não é aceitável porque
de modo algum vai conduzir a uma sociedade melhor para todos; mas como conduz a
uma sociedade melhor para alguns, andam muitos a defendê-la na ilusão de
poderem pertencer ao grupo de privilegiados.
Notem também que
não tem de ser assim – há escolas de gestão nos países nórdicos e na Holanda,
pelo menos, que recusam a exploração do homem pelo homem como ponto de partida,
que recusam a equação tão querida dos nossos gestores: «humano = objecto
perecível». Dos nossos gestores e de muitos de nós....
Então que
pretendem estes gestores sem coração e visando unicamente o lucro, do nosso
pequenino país? Pretendem escravos. Maximizar o lucro passa por minimizar o
custo da mão-de-obra; Portugal tem condições ideais para isso: clima ameno, que
minimiza os custos de sobrevivência, e uma população iletrada, que nada sabe de
economia e vive pelo coração. E tem mais uma característica adiante
apresentada.
Um país de
escravos é um país pobre – os pobres nem pagam impostos sobre o rendimento nem
fazem compras geradores de IVA nem têm bens passivos de impostos como o IMI;
logo, o Estado é parco em receitas. As empresas já não pagam impostos porque os
lucros vão para fora – o ser humano foi «coisificado» e o capital
«deusificado». Um Estado sem dinheiro
não pode pagar subsídios de desemprego nem reformas nem saúde – a saúde é das
coisas importantes a condicionar pois só serve para prolongar a vida do escravo
para além da sua idade útil. Interessa oficinas de manutenção de carros velhos?
Não, os carros velhos são para abater. Então como se resolve o problema
daqueles que não servem para escravos?
Há uma solução
simples: emigrarem. Para África ou Brasil. A possibilidade de os excedentários
emigrarem é a outra coisa que torna Portugal tão apetecível para os
esclavagistas modernos.
A escravização e
a emigração são dois objectivos associados. As medidas para promover a
escravização – redução de ordenados e aumento do tempo de trabalho (aumento do
horário, corte dos feriados e redução das férias) – serão acompanhadas de
medidas incentivadoras da emigração. Estes são os dois grandes objectivos do
processo revolucionário em curso. Que surgirá de uma forma “natural”, seguindo
a chamada lógica da batata: pois se aqui não há empregos, naturalmente que o
melhor que as pessoas têm a fazer é emigrar, não é? E como o mercado interno
vai cair, o melhor que as empresas que trabalham para o mercado interno têm a
fazer é virar-se para o estrangeiro, não é? E, sendo assim, nada mais natural
que as empresas nacionais emigrarem para os seus mercados alvo, pois não faz
sentido nenhum continuarem cá, até porque cá nem conseguem crédito nem sequer
as garantias bancárias dos bancos nacionais são aceites no estrangeiro. E
assim, logicamente, no país só ficarão os escravos a trabalhar nas empresas
estrangeiras, uns quantos funcionários públicos e os reformados que forem
sobrevivendo graças ao dinheiro que os filhos emigrados vão mandando. E os
novos senhores, é claro.
E isto tudo irá
acontecendo sem grandes resistências porque as pessoas irão sendo afectadas de
baixo para cima. Os comentadores da televisão continuarão a dizer que não se
pode tratar o capital como o trabalho porque senão o capital vai-se embora –
isto porque pensam que a situação não lhes baterá à porta enquanto o capital
mandar nisto.
É como caçar patos
– começa-se pelos detrás que os da frente não dão por nada.
Numa era de
abundância como a que vivemos, é inaceitável este objectivo de escravização das
pessoas. Mas esta jogada dos europeus mais poderosos corre o risco de lhes sair
furada. As regras que
laboriosamente estabeleceram para servir os seus interesses vão agora servir os
interesses de quem é mais forte do que eles. Vão ser vítimas do seu próprio
jogo.
...quem ri por
último...
(o nosso futuro
seria negro se a EDP tem ido para os alemães, como estava mais do que
“cozinhado”... mas houve gente muito inteligente que foi capaz de nos dar um
outro futuro... vamos ver o que vem aí, este Futuro ainda não está escrito.
Notem que isto foi uma batalha ganha por nós, a imensa pressa de “privatizar”
as empresas publicas era apenas para não dar tempo a que os “de fora da Europa”
entrassem no jogo.)
quinta-feira, dezembro 15, 2011
O BCE empresta aos bancos e não ao Estado por que razão?
Inicialmente, os
bancos centrais produziam dinheiro e esse dinheiro era entregue ao governo. Era
o governo quem injectava dinheiro na economia ao pagar as suas contas com ele.
Este sistema
tinha qualidades – é preciso ir aumentando o dinheiro real à medida que a
economia cresce – e nada melhor do usar o novo dinheiro para fazer
investimentos ao serviço do interesse colectivo, e ninguém melhor que o Estado
para fazer esse tipo de investimentos. Nos EUA, o Estado fez um imenso esforço
de investimento em investigação e desenvolvimento, nomeadamente na NASA, que
teve um papel determinante no desenvolvimento industrial americano.
Porém, deixar a
impressão de dinheiro na mão dos governos conduz a um determinado tipo de
abusos – e, sobretudo, deitar dinheiro por cima dos problemas é uma forma fácil
de os resolver no imediato e os agravar no futuro; a facilidade de obter
dinheiro alimenta a incompetência e a corrupção.
A consequência
dos excessos de produção de dinheiro acaba por ser a inflação; a possibilidade
de “deitar dinheiro para cima dos problemas” em vez de os enfrentar acaba por
conduzir os países para situações complicadas.
Assim,
entendeu-se que o dinheiro fresco não deveria ser entregue aos governos.
Procuraram-se
outras soluções. A compra de dívida mal-parada do sistema bancário é uma. Uma
teoria inventada por japoneses, se não estou em erro, e prontamente aplicada
pelos americanos.
A consequência
foi muito interessante: como o banco central compraria a dívida mal-parada, os
bancos passaram a preferir emprestar dinheiro a quem tinha menos recursos –
cobrando juros mais altos! Se as pessoas deixassem de conseguir pagar, o
problema passava para o banco central. Isto começou a tomar proporções
alarmantes e então inventaram outra: segurar as dívidas. E depois ainda
inventaram uma que eu nem consigo perceber. No fim, fizeram falir a seguradora,
que parece que era a maior ou das maiores do mundo. O pessoal da Stanley &
Poors esteve por detrás do esquema, razão porque deram o rating AAA à seguradora
dois dias antes da falência. Creio que o filme Inside Job explica o processo.
Isto mostra que,
se entregar o dinheiro novo ao Estado tem problemas, entregar aos privados
ainda pode ser muito pior. Se a injecção de dinheiro em excesso pelo Estado pode
gerar inflação, a injecção de dinheiro pela Banca causa empobrecimento da
maioria das pessoas porque para chegar às pessoas esse dinheiro cobra juros
usuários, por um lado, e, por outro, põe em movimento toda uma máquina
destinada a tornar as pessoas dependentes de crédito. Não causa menos abusos
pessoais: os ordenados e mordomias dos executivos bancários são muito
superiores às mordomias dos políticos; e acaba por ser uma fonte privilegiada
de corrupção dos políticos.
Mas, duma forma
ou doutra, todos os países conservam algum controlo político sobre a emissão de
moeda. Excepto num caso: a Europa do Euro.
Na Europa
entendeu-se que o sistema financeiro devia ser independente do político (uma
espécie de aplicação do princípio de separação de poderes...). O BCE imprime
dinheiro segundo uma fórmula, em função do estado da economia; desta forma impede-se a produção de dinheiro em excesso, potencialmente geradora de inflação. Esse dinheiro
pertence a cada estado membro em função do seu PIB (discordo, devia ser em
função da população) mas é gerido pelo BCE, que o não pode emprestar aos
Estados ou aplicar na compra de dívida soberana. Na gestão
do dinheiro, o BCE não aplica a teoria da compra da dívida mal-parada, antes o
empresta à banca com taxas de juro que têm sido da ordem do 1%. O BCE andará a
imprimir cerca de 50 mil milhões de euros por ano, cabendo a Portugal qualquer
coisa que representará entre 0.5% a 1% do nosso PIB. Bem, isto é o que eu
consegui perceber do que fui lendo aqui e ali. Quem sabe mais que esclareça.
Estranho é que uma informação tão básica pareça ser tão difícil de obter.
Este esquema tem
uma falha óbvia: deixa as dívidas soberanas sem capacidade de NEGOCIAÇÃO!
Resultado: os juros das dívidas soberanas vão disparar fatalmente. E aqui se inicia
um processo em cadeia que vai levar ao mesmo resultado do processo americano:
os juros das dívidas soberanas disparam, tornando os países insolventes; e
agora criou-se um mega fundo para comprar no mercado secundário os títulos de
dívida pública – ou seja, para comprar a dívida mal-parada que os financeiros
originam por pretenderem juros usuários nas dívidas soberanas. A única
diferença para o caso americano é que na Europa o problema não se cria com as
dívidas dos particulares mas dos estados. O que vai acontecer? Os juros vão
continuar a subir, é claro, pois os financeiros agora têm “as costas quentes”:
há um fundo para ficar com os títulos tornados potencialmente incobráveis com
os juros usuários.
Já muita gente
parece ter percebido que só há uma saída para a crise, que é o BCE imprimir
muito mais moeda e comprar directamente dívida soberana. Assim que o BCE o
fizer, os juros cairão imediatamente. Porque é que isso ainda não se fez e
porque é que pessoas que deviam muito bem saber que isso é imprescindível andam
a propor outras coisas que só vão agravar o problema é que é um grande
mistério... ou não... para se saber quem é o criminoso apenas há que ver quem beneficia do crime, não é?
Apesar disso, ainda tenho alguma esperança que na cabeça da Merkel esteja a ideia de mudar os estatutos do BCE para lhe dar o poder de financiar directamente os Estados e está apenas a pretender determinadas garantias de que se pode avançar para esse processo sem abusos pelos Estados; mas dizem-me que é utopia minha...
Ahh, para terminar:
o papão de que o BCE intervir sobre as dívidas soberanas gerará uma terrífica inflação é um disparate – na
verdade, bastaria a possibilidade de o BCE o fazer para os juros baixarem
imediatamente, como é óbvio, portanto nem é preciso o BCE fazer grande coisa,
bastaria ter esse poder. Além, o exemplo americano está aí: apesar dos trilhões
de dólares que o Fed tem injectado no mercado, o dólar continua forte e recomenda-se.
O que sustenta a moeda é a força da economia.
No próximo post vou apresentar a minha explicação de porque é que estes indivíduos propõem Austeridade para enfrentar o problema.
domingo, dezembro 11, 2011
Para acabar com alguns equívocos fundamentais - I
A importância da NEGOCIAÇÃO
Depois de umas
acaloradas discussões com ilustres amigos, pareceu-me oportuno fazer uns textos
a esclarecer alguns equívocos correntes e que tornam impossível qualquer
entendimento da actual crise; aqui vai o primeiro ponto.
O que controla os
preços não é a concorrência, é a NEGOCIAÇÃO
A generalidade
das pessoas tem a ideia que o facto de existirem várias empresas a operar no
mesmo mercado conduz a preços mínimos dos produtos e serviços; isso é um enorme
equívoco.
A concorrência só
se faz a nível da qualidade dos serviços e produtos fornecidos pelas empresas,
não a nível dos preços.
Pensem no
seguinte: se uma empresa resolver baixar os seus preços, o que vai acontecer?
Vai aumentar as vendas? Não, o que vai acontecer é que as concorrentes vão
também baixar os preços. Isso é uma coisa fácil de fazer, faz-se de um dia para
o outro. Então, a sua quota de mercado vai manter-se mas os seus lucros vão
diminuir. Uma estupidez, não é? As empresas que estão no mercado não são
estúpidas, se fossem já tinham falido. Então a sua estratégia é convencer os
consumidores de que oferecem mais pelo mesmo preço ou até por um preço mais
alto – assim aumentam a sua quota de mercado e aumentam os seus lucros. Esta é
que a estratégia ganhadora.
Quando surge uma
nova empresa, esta, necessariamente, não tem a imagem de qualidade, a
credibilidade, das que já estão no mercado. Então, a única forma de entrar é
praticar preços mais baixos. Porém, isto não vai fazer descer os preços, porque
o seu preço vai estar conforme a sua imagem de qualidade. Se esta nova empresa
conseguir manter-se no mercado, ela irá subir os seus preços para os valores
das outras, à medida que for afirmando a sua imagem de qualidade. Ou então opta
por ter preços baixos e qualidade baixa porque descobre aqui um nicho de
mercado.
O preço praticado
em cada área de actividade é ditado pela lei da oferta e procura do mercado
como um todo, é o que maximiza o lucro global dessa área de actividade; a
concorrência não afecta directamente o preço.
O que afecta o
preço é a NEGOCIAÇÃO.
Reparem agora no
sector financeiro; algum banco propõe uma taxa de juro para os cartões de
crédito de 10%? Não, pois não? O que todos propõem é uma taxa de juro tão alta
que tem de ser limitada por lei. E porquê? Porque as pessoas que caem numa
dívida por consumo, através do cartão de crédito, que são dívidas de curto
prazo, não podem eliminar essa dívida no curto prazo e não têm, por isso, poder
negocial. É preciso uma Lei para as “proteger”, limitando a taxa máxima de
juro. No entanto, existem inúmeros bancos; não é estranho não haver nem um que
proponha taxas mais baixas? A razão é a que disse acima: se algum o fizesse,
todos o fariam e todos passariam a ganhar menos dinheiro. Os lucros globais da
actividade dos cartões de crédito diminuiriam.
Há porém uma área
de actividade que consiste em oferecer o preço mais baixo – o preço mais baixo
nos produtos e serviços dos OUTROS. É a actividade retalhista. O Continente ou
a Fnac ou outro grande retalhista não competem nas suas margens de lucro; ou
que eles fazem é NEGOCIAR com os fornecedores os preços mais baixos. Da mesma
forma, as empresas de produção também NEGOCEIAM os preços com os seus
fornecedores – por exemplo, as grandes fábricas de automóveis NEGOCEIAM
intensamente os preços com os seus fornecedores; NEGOCEIAM as vantagens financeiras com os países onde
se instalam; NEGOCIAM os ordenados com os seus empregados.
Ou seja, o que
decide os preços é a NEGOCIAÇÃO. E para negociar é preciso ter capacidade
negocial que, basicamente, é a capacidade de dizer NÃO. (na verdade, é mais complexo do que isto mas tem de começar por aqui)
Por exemplo, a
Alemanha nas duas últimas vezes que pretendeu colocar dívida pública disse NÃO
à oferta que lhe foi feita; a Alemanha tem capacidade negocial, pode dizer NÃO.
Portugal, agora que tem este empréstimo da troika, adquiriu capacidade negocial
e por isso os juros da dívida pública que vai colocando estão abaixo do que
paga a Itália – abaixo do que os bancos me pagam a mim pelos meus pequeninos
depósitos a prazo! Porquê? Porque se pedirem juros mais altos Portugal pode
dizer NÃO. Em 2013, quando voltar a perder a capacidade de dizer NÃO, os juros
vão disparar novamente. Qualquer que seja a dívida soberana e o rating das agências financeiras.
Portanto, a crise e a saída dela não tem nada a ver com excesso de dívida soberana nem com confiança dos mercados; tem única e exclusivamente a ver com CAPACIDADE NEGOCIAL.
Essa capacidade negocial podemos obtê-la:
1 - ou directamente, através de processos de emissão interna de dinheiro de uma forma subtil, como tratado no texto anterior;
2 - ou conseguindo que o BCE faça o que fazem todos os bancos centrais: comprar dívida soberana. Para isso, há que NEGOCIAR com os outros países europeus e conseguir uma alteração dos tratados que ponha o BCE na dependência do poder político.
Portanto, a crise e a saída dela não tem nada a ver com excesso de dívida soberana nem com confiança dos mercados; tem única e exclusivamente a ver com CAPACIDADE NEGOCIAL.
Essa capacidade negocial podemos obtê-la:
1 - ou directamente, através de processos de emissão interna de dinheiro de uma forma subtil, como tratado no texto anterior;
2 - ou conseguindo que o BCE faça o que fazem todos os bancos centrais: comprar dívida soberana. Para isso, há que NEGOCIAR com os outros países europeus e conseguir uma alteração dos tratados que ponha o BCE na dependência do poder político.
quinta-feira, dezembro 01, 2011
Há uma solução testada com sucesso: as “MEFO BILLS”
Neste sarilho da
dívida soberana, sempre que precisarmos de ir ao mercado os juros dispararão –
porque os juros dependem do poder negocial e não do montante da dívida.
Infelizmente, temos um PM completamente ingénuo (ou será fingimento?) que diz
que o juro é uma questão de «confiança dos mercados». Pior do que isso, afirmou
há pouco que não há outra opinião sobre o assunto. Posso talvez sugerir-lhe que
consulte sobre o assunto o nosso PR... ou que veja o que tem dito o Obama ou o
Mário Soares... será que ele sofre de autismo??
As medidas que
estão a ser adoptadas não melhoram a nossa capacidade negocial, logo não vão
resolver o nosso problema. O problema prioritário, o juro, só se resolve
adquirindo capacidade de dizer “não” a juros altos. Como fez a Alemanha
recentemente. (a propósito, a subida dos juros na dívida pública da Alemanha
também é por causa da falta de «confiança dos mercados»?)
Resolver esta
situação é fácil - é só o BCE ligar as impressoras sempre que o juro
ultrapassar um valor considerado razoável. Ou seja, existem decisões políticas
que resolvem o problema. Propositadamente, mantém-se o problema no campo
económico, onde ele não tem solução com as actuais regras. Isto é, foi tomada a
decisão política de não resolver o problema. Quem tem o poder de mudar esta
decisão são a França e a Alemanha, mas acontece que elas têm vantagem na actual
situação, como mostrarei no próximo texto. Nós também poderíamos aproveitar
alguma coisa com a crise, uma oportunidade de ouro para combater a corrupção em
todas as suas formas. Mas, até agora, só se tem visto combater as pessoas
honestas.
Como não sabemos
se a França e a Alemanha vão tomar a decisão política de acabar com a crise
pelos tempos mais próximos, a cautela manda que tenhamos uma solução preparada
para pôr em acção caso não haja grandes mudanças até ao fim de 2012.
Num texto
anterior eu propus que o Estado emitisse umas obrigações com a capacidade de
circular como dinheiro – uma emissão paralela de dinheiro, mas legalmente
enquadrada. Assim, o 13º e 14º meses não seriam cortados mas pagos desta forma.
E estas obrigações seriam aceites pelo Estado para o pagamento numa percentagem
adequada de dívidas ao estado – IRS, segurança social, IRC, IVA.
Foi uma ideia.
Uma coisa estranha porque, como me disse há muitos anos um director duma
importante empresa alemã em Portugal, nós, portugueses, não temos ideias, não
pensamos, quem pensa são os alemães. Um frémito de orgulho percorria-lhe a
espinha por ser empregado desse ilustre povo que era capaz dessa coisa
espantosa, desconhecida dos portugueses: pensar! Na altura, risquei logo essa
empresa das minhas opções, não imaginando que um dia iria ter como PM alguém
que parece esse director.
Agora, mão amiga
fez-me chegar o seguinte link.
Muito
interessante!! Não é que os alemães já usaram este processo? E com enorme
sucesso?
A seguir à
primeira guerra mundial estavam proibidos de fabricar armas e não tinham
financiamento para o desenvolvimento das suas indústrias pesadas; então o
ministro das finanças alemão inventou uma sociedade “de investigação
metalúrgica”, fictícia, com o capital de 1 milhão de marcos, cujo nome
abreviado era MEFO; esta empresa fazia pagamentos à indústria pesada e de
armamento com “MEFO BILLS”, que podiam ser convertidas em marcos em qualquer
banco alemão, que por sua vez as podiam descontar no banco central a partir do
3º mês da sua emissão. Estas notas de crédito tinham uma validade de 6 meses
prorrogáveis indefinidamente por períodos de 3 meses. As MEFO BILLS permitiram
ao governo insuflar a sua economia com resultados tão brilhantes que em pouco
tempo estavam de novo em guerra. Em 1939, as MEFO BILLS totalizariam 12 mil
milhões de marcos contra os 19 mil milhões de obrigações do Tesouro.
Isto é uma grande
lição: os alemães tinham um problema e resolveram-no. Não ficaram à espera que
alguém resolvesse por eles. Não se deixaram ficar em becos sem saída,
dependentes de outros, que é onde nós estamos agora. Pensaram!!!!
O esquema que os
alemães usaram para financiar o seu esforço militar podemos nós usar para
financiar o estado social. Ao conseguir isso, obtemos poder negocial porque
deixamos de estar com a corda na garganta – se forem exigidos juros excessivos,
o estado pode fazer como a Alemanha fez há dias, rejeitar o empréstimo, porque
pode pagar parcialmente os ordenados e as pensões com estes títulos de dívida.
Mas essa situação extrema nunca acontecerá porque não tem vantagem para os
financeiros – é preferível emprestarem o dinheiro a 4,5% a não emprestarem.
E vejam o melhor
de tudo: nem sequer temos de pensar! Os alemães já pensaram por nós, só temos
que ser «bons alunos»!
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