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sexta-feira, outubro 14, 2011
Há uma Luz!
As medidas anunciadas pelo Passos Coelho fizeram-me cair os queixos de espanto; o rol de desgraças que se vão seguir foram-se amontoando na frente dos meus olhos - uma recessão de pelo menos 5% é garantida, os incumprimentos bancários a disparar em flecha, o aumento do desemprego (se o horário de trabalho aumenta 7%, os patrões vão despedir 7% dos trabalhadores, não é? Não se produz mais porque não há mercado, não é por falta de horas de trabalho). Mas depois comecei a ver o lado positivo da coisa. Bati com a mão na testa! Genial, sem dúvida. Não sei se é consciente ou não, mas o certo é que o Passos Coelho aponta o caminho para sairmos deste sufoco.
O processo de conduzir pessoas a uma situação que não lhes convém consiste em lhes dizer que se está a cuidar delas através da imposição de suaves medidas que as empurram para onde elas não querem - elas estão «doentes» e por isso precisam de «remédios»; as pessoas ficam cada vez pior e o que fazem é ir tomando mais «remédio», não é? o raciocínio das pessoas é simplório; este processo tem de ser lento para que as pessoas se vão adaptando e resignando à sua condição sucessivamente pior. Isto é muito bem conhecido.
A troika estava a desenvolver um plano destes, um plano que quem seguir os textos do Dr. Jordan compreenderá; suavemente seriamos conduzidos a aceitar como boa uma situação em que ficaríamos todos reduzidos a uma miserável sobrevivência, mão-de-obra barata para as fábricas europeias. Combater este plano de peito aberto é impossível neste país atrasado - pode ser possível para os Gregos, que estão a conseguir sucessivos sucessos nessa batalha - mas não aqui.
Que fazer?
O Primeiro Ministro encontrou uma solução: se aumentarmos a dose do «remédio», vai-se tornar evidente que não cura mas mata! E ele vai poder dizer à troika: Então? Fomos tão bons alunos! Fizemos tudo o disseram e até excedemos! Como é?
Como entretanto a solução B se começa a desenhar na Europa, o drama que aqui vai acontecer obrigará à sua rápida implementação. Em meses isto estará resolvido. Ou vai ou racha. Pode ser que rache, mas também pode ser que se resolva e se o Passos Coelho fosse de mansinho de certeza que rachava. Assim, ao menos há uma possibilidade. A ver vamos.
O processo de conduzir pessoas a uma situação que não lhes convém consiste em lhes dizer que se está a cuidar delas através da imposição de suaves medidas que as empurram para onde elas não querem - elas estão «doentes» e por isso precisam de «remédios»; as pessoas ficam cada vez pior e o que fazem é ir tomando mais «remédio», não é? o raciocínio das pessoas é simplório; este processo tem de ser lento para que as pessoas se vão adaptando e resignando à sua condição sucessivamente pior. Isto é muito bem conhecido.
A troika estava a desenvolver um plano destes, um plano que quem seguir os textos do Dr. Jordan compreenderá; suavemente seriamos conduzidos a aceitar como boa uma situação em que ficaríamos todos reduzidos a uma miserável sobrevivência, mão-de-obra barata para as fábricas europeias. Combater este plano de peito aberto é impossível neste país atrasado - pode ser possível para os Gregos, que estão a conseguir sucessivos sucessos nessa batalha - mas não aqui.
Que fazer?
O Primeiro Ministro encontrou uma solução: se aumentarmos a dose do «remédio», vai-se tornar evidente que não cura mas mata! E ele vai poder dizer à troika: Então? Fomos tão bons alunos! Fizemos tudo o disseram e até excedemos! Como é?
Como entretanto a solução B se começa a desenhar na Europa, o drama que aqui vai acontecer obrigará à sua rápida implementação. Em meses isto estará resolvido. Ou vai ou racha. Pode ser que rache, mas também pode ser que se resolva e se o Passos Coelho fosse de mansinho de certeza que rachava. Assim, ao menos há uma possibilidade. A ver vamos.
quarta-feira, outubro 12, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (V)
(a segunda das
civilizações auto-suficientes)
![]() |
| A imensa extensão de terreno que o trópico da Capricórnio cruza em África e Ásia determinou o berço da segunda civilização (mapa da Wikipedia). |
“O único caso em que uma população podia ser sedentária numa zona onde
há Inverno seria quando se estabelecesse nas margens inundáveis de um rio; apenas aí os solos suportavam a agricultura numa época anterior à
descoberta dos adubos porque é o próprio rio que repõe nos terrenos os
compostos de azoto."
"Sim, claro, agora que produzimos os fertilizantes em fábricas já nem temos consciência de como a falta de azoto foi uma dificuldade terrível para a agricultura"... comentou o Wolfram, sempre filosófico.
"Para surgir uma nova civilização seria necessária
uma larga extensão de margens inundáveis, capaz de suportar uma população de dimensão
suficiente. Em África, o Nilo surge como o local mais provável para isso
acontecer e aí se desenvolveu o segundo tipo de civilização da Humanidade.”
“... Que também
apareceu noutros lados”, notou o ruivo.
“Sim, na Ásia,
onde também existem rios nestas condições; já na América essas condições não
existem, pois a norte a zona equatorial prolonga-se pela língua de terreno da
América Central e a Sul os rios que saem da zona tropical não possuiriam as
necessárias extensões inundáveis."
"Mas mesmo assim desenvolveram-se as civilizações Maia e Inca."
"Foi a resposta possível à pressão exercida pelo excesso de população numa zona de clima ainda tropical e onde a migração não era possível; dependiam de uma agricultura sem adubos, logo fraca e baseada em rotatividade de terrenos, e da pesca. Com a população no limite e sem o escape da migração, o excesso de natalidade ou qualquer perturbação climática tinha de ser compensada com maciços sacrifícios humanos.”
“Mas esse tipo de
civilização das margens do Nilo ocorreu também em locais muito diferentes, como
Creta e em muitas zonas da costa norte do Mediterrâneo”, contestou ainda o
ruivo.
“Decerto; uma vez
inventada, esta civilização é capaz de se estabelecer em certas zonas que não
seriam propícias ao seu nascimento. Para nascer, é que é preciso um número elevado de pessoas para que sucessivos pequenos avanços possam
ser somados; e são muitos esses avanços, tanto a nível de organização como
tecnológicos como, e isso é talvez o importante, a nível da atitude perante a
sociedade, o entendimento de que o interesse individual se tem de subordinar ao
colectivo, com reflexos no próprio conceito de família. No entanto, notem que
uma civilização deste tipo não se pode estabelecer em qualquer parte, existe
uma restrição importante.”
“E qual é?”
“Todas as
sociedades humanas dos tempos antigos são auto-suficientes: a sua sobrevivência
depende só dos recursos próprios da comunidade. A diferença entre elas reside
na capacidade de gerir recursos, mínima na sociedade equatorial e máxima nas
sociedades agrícolas.”
“E depois essas
sociedades começaram a comerciar entre si, desenvolvendo a primeira
globalização”, acrescentou o Wolfram.
“Exactamente;
esse terceiro passo do desenvolvimento das civilizações foi tornado possível
pelo vasto território onde essas sociedades se puderam estabelecer, ou seja, a
bacia mediterrânica e a Ásia do Sul e Oriental, zonas com clima suficientemente
ameno e ricas em água doce. Notem mais uma vez a importância da geografia."
"Pois, quase todo o clima temperado se situa no hemisfério norte..." condescendeu pensativo o Wolfram; talvez esteja a comparar esta possibilidade com outras... quem se sente superior costuma gostar de atribuir essa superioridade aos seus méritos.
"O comércio introduz algo de muito importante: o
acesso pacífico a recursos doutras regiões, como materiais de construção, sal,
especiarias, minérios, variedades agrícolas ou produtos manufacturados. Estas
coisas não eram indispensáveis a estas sociedades, elas podiam subsistir sem
elas, mas permitiam-lhes atingir uma qualidade que não atingiriam sem o
comércio.”
“A isso se resume a história das
civilizações?” O careca entre o desiludido e o intrigado
“Não; falta
precisamente a parte que nos interessa.”
(continua)
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segunda-feira, outubro 10, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (IV)
(continuação - como o Inverno torna finito o Tempo)
“A variação da
percepção do tempo à medida que se sobe em latitude é um aspecto muito
interessante e mesmo um pouco surpreendente.” Leio interesse nos olhos dos meus
interlocutores, o tempo é algo fundamental nas suas vidas. Continuo:
“Como sabem, na zona equatorial os dias são
todos iguais, apenas a Lua permite definir um período maior que o dia. A vida
vive-se no presente e planeia-se ao dia; ao longo do dia há um conjunto de
tarefas a realizar, mas a escala do planeamento é apenas do dia. O tempo é tão infinito como o oceano. A vida é finita quando se planeia a prazo e quando se mede
em anos, mas não quando se mede em dias, pois o número é grande demais para as
nossas faculdades de percepção intuitiva.” Calo-me novamente, percebo que estão
a tentar imaginar a situação, a estimar quantos dias têm uma vida, quantos dias
terão ainda as suas vidas.
“Sim,
compreendo”, diz de súbito o ruivo, "é como estar de férias: um mês aqui passa
a correr mas um mês de férias na praia ou no campo é tanto tempo que nem
consigo imaginar... duas semanas já me parece uma eternidade.” Os outros concordam.
“Bem, já
percebemos que a civilização que se gera numa zona equatorial tem uma dimensão
espacial não superior à centena de pessoas e uma dimensão temporal de um dia.
Esta civilização, como qualquer outra, é muito estruturada, com regras bem definidas.”
“Sim” –
interrompe o Wolfram, algo impaciente – “mas essa civilização só pode ser assim
enquanto não há sobrepopulação; ora a população humana cresce; e depois?”
“O que acontece é
que as pessoas vão ocupando o território livre. Vamos pensar no caso de África; ocupada a faixa equatorial, as pessoas vão subindo em
latitude. E então vão encontrar algo novo: o Inverno. Um período de tempo em
que a Natureza não garante a sobrevivência. Isto muda tudo.” A impaciência deu lugar à expectativa.
"Passando os
trópicos, é preciso encontrar forma de ter alimentos no Inverno e soluções para proteger do frio – uma temperatura inferior a 18 ºC é
mortal para um humano sem protecção. Isto obriga a viver com prazos, com
calendários, com objectivos. O Inverno introduz o conceito de Futuro na actividade diária."
"Ou seja, o Inverno trouxe o stress, que é coisa que quem vive focado no presente não sabe o que seja..." comentou o careca, logo seguido por sinais de viva concordância dos outros. "Sim, isso mesmo", e ri-me, sendo acompanhado por eles. Continuei:
"As soluções mais simples para o problema do alimento, como a caça ou a pastorícia, geram
sociedades pequenas e nómadas, com baixas densidades populacionais; mesmo as
primeiras soluções agrícolas não permitem a fixação prolongada de populações porque a
agricultura esgota os frágeis solos das zonas acima dos trópicos, implicando a necessidade de mudança periódica de local, excepto num
único caso; e é esse único caso que permitiu que se desenvolvessem civilizações
com crescentes escalas de espaço e de tempo.”
“Ou seja, sem o Inverno,
a nossa civilização nunca teria acontecido... portanto, se o Homem tem surgido
uns 100 milhões de anos antes, uma insignificância à escala da idade da Terra,
no tempo dos Dinossáurios, esta nossa civilização não se poderia ter então
desenvolvido porque nessa altura não havia Invernos... parece que o Homem
surgiu apenas quando o planeta já estava pronto para o desenvolvimento de
grandes civilizações... o Homem surgiu quando tinha de surgir, nem antes, nem
depois... interessante...”. Esta cogitação do Wolfram gera um franzir de
sobrolho do careca. Interessante este Wolfram, que sabe que no tempo dos Dinossáurios não havia Inverno e capaz de pensamentos
filosóficos, de pensamentos que não têm directamente a ver com os seus
interesses pessoais. Começo a simpatizar com ele.
“Nada de desvios
criativos” – repreende brandamente o careca – “oiçamos o dr. Jordan, que
certamente nos vai mostrar que as sucessivas civilizações são a solução ideal
para cada situação climática e geográfica, tal como a tribo é a solução ideal
para o clima equatorial; qual é então esse único caso geográfico-climático que
nos trouxe até aqui?” Espertalhão o chefão. “Boa pergunta!” pego-lhe na
palavra, que traduz alguma impaciência, pelo que remato: “Uma pergunta cuja
resposta nos levará a perceber porque é que estamos aqui a ter esta conversa e
como é que se resolve o vosso problema.”
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sábado, outubro 08, 2011
Um Império Europeu à moda dos Incas
Sabem como é que
os Incas construíram o seu império? Foi muito fácil; limitaram-se a ir propondo
a povos mais pequenos que aceitassem subordinar-se ao Império; se aceitassem,
seriam bem tratados (pelo menos os seus líderes); se não aceitassem, levavam
porrada. Bastou um ou dois levarem porrada para os outros aceitarem logo. O
resultado final era independente de aceitarem ou não: passavam todos a pagar o
tributo exigido pelos Incas. Assim construíram um império que se estendia por
milhares de kilómetros.
Este maravilhoso
método parece ser o que os alemães estão a usar para construir o seu tão
ambicionado Império Europeu: primeiro, fecham a torneira do BCE para deixar os
países com menos reservas de «água» a morrer de «sede»; depois propõem: “damos
«água» se prescindirem da vossa soberania, nos entregarem as empresas públicas
e reduzirem os ordenados para o nível de sobrevivência das pessoas, a fim de
que as nossas empresas se possam instalar aí e ter mão-de-obra a custo mínimo.”
(notem que esta
«água» não custa nada aos alemães, é apenas dinheiro impresso pelo BCE, tal
como o Fed faz nos EUA)
Os gregos
disseram “Vão passear”. Porrada nos gregos.
Os líderes Tugas
disseram logo: “Faça-se a vossa vontade.”
O plano para os
transportes públicos é flagrante; só há duas maneiras de gerir transportes públicos: ou
em concorrência, abrindo o serviço aos privados, ou através de uma empresa
pública. Neste caso, o preço dos bilhetes é determinado por forma a que empresa
tenha prejuízo e tenha de depender do governo para acertar as contas.
Isto tem de ser
assim porque estas são as duas únicas maneiras de evitar abusos de empresas que
exploram algo a que as pessoas não podem fugir.
Há uma coisa que
NUNCA se faz: criar um monopólio e entregá-lo a privados. Óbvio. NUNCA.
Presumir que entidades reguladoras podem controlar os preços é uma utopia. Só a
concorrência pode controlar preços num mercado entregue a privados.
Ora o Governo
1 – aumenta o
preço dos bilhetes para que as empresas de transportes deixem de dar prejuízo;
questão: se elas deixam de dar prejuízo, qual é a vantagem de as privatizar?
2- o Governo vai
fundir empresas criando monopólios; ora isto é contra todas as regras da
Economia desde ela existe
3 – o Governo não
vai abrir concurso público internacional, vai entregar as empresas monopolistas
dos transportes públicos directamente aos franceses; isto não é proibido pelas
regras da União Europeia? Os deputados que foram fazer queixa do Sócrates por
causa do Magalhães não estão agora incomodados?
Este absurdo só
se entende duma maneira: estamos a ser Incados.
sexta-feira, outubro 07, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa (III) (as Civilizações)
(continuação)
“Conseguir uma
sociedade onde uma parte minoritária da população seja escrava e isso seja bem
aceite por essa minoria e por toda a sociedade é um problema muito fácil??”– o
Wolfram olha-me com ar incrédulo, e fica-se, boquiaberto, à espera de qualquer
esclarecimento adicional; o careca contesta:
“Não estou a ver
em parte alguma do mundo civilizado alguém a ter escravos voluntários na
actualidade!”; o ruivo resolve falar também:
“Bem, talvez os
empregados das fábricas americanas no norte do México... ou os palestinianos
que trabalham em Israel...”. O careca interrompe, impaciente, evidentemente não
gosta de ser corrigido: “Sim sim, mas os palestianos vivem praticamente num
campo de concentração, não fazem parte da sociedade israelita, não passam de
modernos prisioneiros civis de guerra, e o México é um caso de deslocalização
muito especial; nós estamos a falar de escravos integrados na nossa sociedade,
algo muito diferente.” O ruivo cala-se, arrependido de ter aberto a boca.
“A razão porque
não conhece escravos voluntários na actualidade, no mundo dito civilizado, é
porque o facto de eles aceitarem a sua condição faz parecer que o não são; essa
é a habilidade”. Faço uma pausa.
“ Portanto, eles
existem à vista de toda a gente e ninguém vê... interessante, é isso mesmo que
queremos!” Um brilho surgiu no olhar do careca.
“Para percebermos
como se consegue esse tipo de escravos temos de perceber algumas coisas
essenciais da evolução das sociedades... vamos dedicar dez minutos a esse
assunto?"
Os três homens
trocam olhares de assentimento. “Estamos aqui para o ouvir, Dr. Jordan”.
Vou tentar não
entrar em detalhes, limitar-me ao essencial, o que não é fácil porque depois
ficam sempre coisas por explicar que acabam por gerar dúvidas. Inspiro. Ponho o
meu ar professoral, o ar Dr. Jordan nº 1, e começo: - “Sabem porque é que na
zona equatorial de África não surgiu nenhuma civilização relevante?”
Deixo a pergunta no ar e fico à espera duma
resposta. Hesitam, finalmente o Wolfram sugere: “A África equatorial é habitada
por povos muito primitivos, uma civilização exige organização, planeamento,
pensamento sofisticado”. Adoro quando oiço ideias simplórias.
“Pensemos um
pouco; quem já esteve nessa zona sabe que para comer basta estender o braço e
colher uma fruta; pode também caçar ou pescar. Não há frio nunca, não é preciso
ter roupa, nem casa, basta um abrigo para dormir. Ou seja, a sobrevivência está
garantida desde que não se interfira com a Natureza, que tudo providencia. Como
as pessoas não têm objectos de cobiça, não precisam de desenvolver sofisticadas
capacidades bélicas; nem sequer o território que ocupam pode ser considerado cobiçável
pois toda a zona é igual ou quase.” - Verifico pelas expressões que não disse
nada que não soubessem já; continuo:
“A solução óptima
para a zona equatorial é uma organização em pequenos grupos, familiares
essencialmente. Qualquer grande sociedade iria interferir com a Natureza e pôr
em risco a sobrevivência, seria uma grande estupidez. A organização familiar e
tribal é a organização ideal, perfeita, adequada, à zona tropical. Não é uma
ausência de civilização, é a civilização adequada. Mais do que isso, ela é a base de todas as organizações de maior escala, como veremos, pelo que vamos prestar alguma atenção às suas características.” - Calei-me, dei-lhes um
tempo para interiorizarem. Continuo:
“Esta organização
familiar é muito diferente da nossa; ela tem regras e organização, e perceber isso é
muito importante. O conceito de família dessa civilização é profundamente
estruturado, tal como as nossas modernas organizações, com espírito de equipa,
hierarquia e especialização de tarefas, avaliação, recompensa e punição. Para
além disso, há uma clara distinção entre os membros da família ou tribo e a
restante humanidade, ou seja, a família é uma nação nesta civilização, as
outras famílias são nações estrangeiras.” Falo lentamente, sei que eles têm
preconceitos a ultrapassar, é preciso dar-lhes algum tempo.
“O mais
interessante é que, no fundo, todos os conceitos que aplicamos na moderna
organização já estão presentes nas famílias da zona equatorial; as sucessivas
civilizações foram aplicando esses conceitos a escalas cada vez maiores ao
mesmo tempo que os foram retirando do âmbito familiar e substituindo por outros, como o conceito de «amor». Vejam como o termo «família» é usado para
identificar os membros de uma organização mafiosa ou os colaboradores de uma
empresa – é a extensão do conceito primitivo a outras escalas. Por outro lado, conseguir a
integração da família numa sociedade maior implica não só alterar as regras
dentro da família como alterar a atitude da família com as outras pessoas, sendo
necessário esbater essa fronteira para que o sentido colectivo possa emergir;
este ponto é da maior importância.” Percebo pelos olhares virados para dentro
que os três homens precisam de algum tempo para meditar sobre o assunto.
Aguardo.
“ Os ciganos,
como não abdicam da sua cultura familiar, tornam-se incompatíveis com as
civilizações modernas...”, um pensamento em voz alta do Wolfram.
“Exactamente, em
parte pelas regras internas da família e em parte pela sua atitude em relação
às outras pessoas; mas não só os ciganos; como compreenderemos daqui a pouco, a cada civilização corresponde um conceito de família e as duas coisas têm de estar em correspondência ou entram fatalmente em conflito.”
Os olhares estão de novo voltados para mim, posso continuar:
.
“O que
essencialmente caracteriza as diferentes civilizações é a escala espacial e
temporal a que têm de actuar para garantir a sobrevivência; esta primeira
civilização existe à escala espacial da família e temporal do dia. Já vimos a
escala espacial, e encontrámos coisas interessantes; vamos agora prestar atenção à escala temporal”.
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quarta-feira, outubro 05, 2011
Que fazer quando tudo arde
Ana Sá Lopes fez este editorial fabuloso no I. Aconselho a leitura, é curto e é um prazer lê-lo (ai, que inveja, não saber escrever assim...). Nele, a autora faz o retrato nu e cru da actual situação. Termina com um aviso muito claro: "qualquer governo que se limite a ser um bom e passivo aluno está a condenar-se e a condenar-nos à forca."
Eu acrescento: nós estamos a condenar-nos à forca se nos limitarmos a ser passivos cidadãos.
Sabe-se muito bem qual é a causa e o remédio para a crise; o remédio - suportar as dívidas públicas em obrigações pagas com dinheiro novo (eurobonds) - não está a ser usado de propósito para manter a crise. E isso tem uma finalidade que as medidas pretendidas, nomeadamente a diminuição da TSU, dos ordenados e a entrega das empresas publicas em forma de monopólio a alemães e franceses, aponta com clareza; por outro lado, as únicas medidas que contribuiriam para resolver o problema do nosso lado, ou seja, aquelas medidas que diminuiriam o déficit da balança de pagamentos, ou seja, a relação entre o dinheiro que entra e que sai do país, são completamente ignoradas; isto não pode ser por acaso nem por ignorância, só pode ser de propósito.
Há várias coisas que podemos fazer para contrariar um plano que se afigura verdadeiramente tenebroso. E podemos começar já por uma delas: não dar nem um euro a alemães e franceses. Automoveis? Ou Fiat ou de fora da europa - mesmo os SEAT são 100% alemães.
Pode parecer-vos insignificante, mas façam lá um esforçozinho e aguardem o resultado... enquanto esperamos pelo Dr. Jordan. Lembrem-se: nem 1 euro para franceses e alemães. Vejam quais são as empresas que estão aí e que são propriedade deles - devem estar nas cervejas, águas, comunicações, turismo e outras coisas. Nem um euro para elas. Pela alminha dos vossos filhos. Vão perceber porquê em breve.
quinta-feira, setembro 29, 2011
Dr. Jordan e o caso da Europa de classes (I)
(as aventuras do
dr. Jordan são pura ficção, desenhada sobre problemas da actualidade)
Ali estava a
esplanada; qual seria a mesa... ahh, aquele tipo acena-me, é ali.
Boas tardes;
doutor Wolfram, presumo – disse, enquanto aceitava a mão estendida daquele tipo
alto e magro, procurando reconhecer-lhes as feições. Rosto anguloso, cabelos
pintados como é típico nos executivos de meia idade, olhos pouco expressivos e
muito observadores. Pessoa habituada a mandar, alto quadro certamente. Não, não
reconheço esta cara, nem a dele nem as dos seus dois companheiros, ambos
bastante fortes, um careca, o outro arruivado. Nenhum sinal de simpatia, como é
habitual nos que querem passar a mensagem de que grandes responsabilidades pesam
sobre os seus ombros.
Boa tarde Dr.
Jordan, muito obrigado por ter aceitado encontrar-se connosco. Sente-se por
favor – disse cortesmente o Wolfram, indicando a cadeira que à sua frente me
esperava.
Sentei-me
calmamente, disfarçando a curiosidade em saber que mistério me tinha calhado
desta vez. É curioso como 93% dos meus clientes pretendem operações
inconfessáveis – seria bem melhor que fosse ao contrário mas infelizmente
parece que apenas os que prosseguem escuros interesses são suficientemente inteligentes
para me consultarem. C’ est la vie!
Esperava que o Wolfram me apresentasse os outros mas nada. Costumo
começar logo a falar, assumir o controlo da conversa, mas desta vez optei por
manter a matraca fechada e aguardei. O Wolfram chegou-se à frente e falou:
Numa conversa
sobre as dificuldades que atravessamos, alguém referiu que conhecia uma pessoa
que poderia ajudar-nos, um filósofo, o Dr. Jordan. Uma espécie de Poirot, com a
diferença de que usaria os seus talentos para encontrar soluções para os
problemas e não para desvendar mistérios, o que no fundo é a mesma coisa.
Sim, é verdade, é
quase a mesma coisa, há um ponto de partida e um ponto de chegada e queremos
saber como se vai de um para o outro – assenti, reduzindo a este aspecto as
comparações com Poirot. Ainda pensei dizer que os méritos que me atribuem
resultam simplesmente da metodologia de conhecimento da Filosofia, quase
ignorada desde o advento da metodologia científica. Mas optei por avançar no
assunto:
Mas qual é,
afinal, o problema? – displicente mas a
rebentar de curiosidade, no ar estava a promessa de um desafio à altura dos
meus talentos.
Como o dr. sabe,
o esforço para unir as duas Alemanhas tem sido um pesadelo cuja luz ainda não
surgiu ao fundo do túnel. Ainda não saímos deste pântano e um novo pesadelo se
desenha já no horizonte: a união europeia! A nossa experiência dolorosa com a
Alemanha do Leste vai ser multiplicada cem vezes, vamos ficar atolados em
problemas durante décadas, enquanto o resto do Mundo avança a passos largos.
Com certeza que a união europeia será bom para os outros países europeus, mas
para a Alemanha é que não é nada bom. Por outro lado, também não podemos
continuar isolados, não temos dimensão para competir com os EUA, a China, ou as
novas potências da Ásia e da América do Sul. O marco não tem dimensão para
competir com o dólar, pura e simplesmente.
Estou a perceber
– peguei na palavra, a deixa de silêncio isso exigia – precisam de uma união
europeia para terem dimensão mas não querem que essa união se faça à custa do
desenvolvimento da Alemanha. Querem portanto uma solução diferente da que tem
sido usada com o Leste... calei-me, o careca parecia querer dizer que não era
bem isso, se calhar era ele o chefe do grupo, pôs a mão sobre o braço do
Wolfram que lhe fez discretamente um sinal de assentimento. O careca
recostou-se, sossegado.
Repare dr. Jordan
– recomeçou o Wolfram, com ar de quem vai contar um segredo – a Alemanha
desenvolveu um forte estado social, onde toda a gente tem muitos direitos e
regalias. Sabia que o custo médio da nossa mão-de-obra é quase o dobro dos EUA?
Mas pior que o custo médio é o custo mínimo, o custo dos operários, pois os EUA
são campeões da desigualdade, só ultrapassados pelos países onde ainda há
pessoas que nem sabem o que seja o dinheiro. Na reunificação com a Alemanha do
Leste estamos a estender este estado social para lá. Agora pense: se vamos
fazer o mesmo em relação ao resto da Europa, já viu que a nossa competitividade
nas grandes indústrias vai desaparecer? Por agora ainda podemos recorrer à
mão-de-obra barata dos países do Sul, mas depois? Uma união europeia bem
sucedida acabará com essa mão-de-obra barata. Conhece as disponibilidades de
mão-de-obra barata que os nossos competidores têm?
Sim, tenho uma
ideia; os chineses têm ainda uma imensa população rural para tirar da miséria e
sobretudo sabem como gerir a taxa de câmbio, os países do sudeste asiático e a
Índia tem uma natalidade incontrolável que é um fornecedor ilimitado de
escravos, ou seja, de pessoas que trabalham por uma sopa, o Brasil está um
pouco como a China, os EUA têm em uma enorme população de pobres que não têm
hipóteses de deixar de o ser.
E não só –
interrompeu-me exaltado o ruivo – os EUA ocuparam o norte do México onde
beneficiam da natalidade descontrolada da população mexicana mas onde podem
impor a organização americana. Como é que vamos poder competir com isto?!
Desabafou, mais ruivas as faces que a barbicha.
Então e a
deslocalização para fora da Europa? Sugeri, embora já suspeitasse qual seria a
resposta; mas há que não deixar pontas soltas.
Fora da Europa?
Onde? As nossas fábricas precisam de trabalhadores com alguma especialização e
muitas condições, não são criações de frango para instalar em África; e os
países onde estes trabalhadores e estas condições existem há muito que abriram
os olhos, instalarmo-nos lá é estarmos a cavar a nossa sepultura; veja o caso
da China, mais de metade dos lucros das nossas empresas fica lá e estamos a
prazo, daqui a uns anos temos os chineses a fazerem-nos concorrência usando o
nosso know-how, as instalações que lá vamos deixar e a força económica que os
lucros das nossas empresas lhes estão a dar.
Ou seja, sem
mão-de-obra barata a vossa competitividade só pode ser conseguida à custa das
vossas margens de lucro e não por esmagamento dos salários, é isso? A pergunta
teria um quê de acintoso para outras pessoas mas eles nem repararam, «esmagar
os salários» é a sua preocupação quotidiana.
Claro! Isto assim
não se aguenta, veja que nos 100 mais ricos do mundo não há nem meia dúzia de
alemães! Indignadíssimo o ruivo.
Bom, mas então o
que desejam de mim? Afinal não querem um projecto europeu, também não querem
ficar isolados... que querem afinal? Perguntei, não por desconhecer o que eles
pretendem, que é evidente, e certamente que o vão conseguir; mas percebo que
eles precisam de um ouvinte que os ajude a concretizar o plano que já está
desenhado nas suas cabeças; e eu nunca nego ajuda aos poderosos.
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terça-feira, setembro 27, 2011
O maquiavélico plano Franco-Alemão (8)
A causa técnica
da crise
A presente crise
da dívida soberana de alguns países europeus não é como o aparecimento de um
tufão, ou uma praga de gafanhotos, fenómenos naturais cujo controlo ultrapassa
a nossa capacidade. Nada disso. Este é um fenómeno com uma causa bem definida e
verifico que há várias razões para isso, uma boa, as outras más.
Vamos esquecer as
razões e vamos agora ver qual é a causa técnica desta situação.
Um empréstimo é
um negócio e como tal as condições acordadas reflectem a capacidade de
negociação das duas partes, na ausência de constrangimentos legais.
Sabem como é a
golpada do cartão de crédito? Ela pode ser realizada de diversas maneiras mas o
processo consiste em levar o cliente a ficar com uma dívida que não pode
amortizar significativamente; a partir desse momento, pode-se subir a taxa de
juro porque o cliente deixou de ter capacidade de negociação; e quanto mais
encravado ele estiver, mais se sobe a taxa de juro. Existe um limite legal já
de si exorbitante, mas se não existisse as taxas seriam muito mais altas.
Note-se um
aspecto importante: da parte do banco não há qualquer interesse em que a pessoa
pague a dívida, o que o banco quer é manter o cliente eternamente a pagar
juros. Pagar a dívida seria acabar com os ovos de ouro da galinha, ou seja, com
o pagamento dos juros.
No caso das
dívidas soberanas, todos os países a têm e nenhum a pode amortizar
significativamente com os recursos existentes. Estão em condições semelhantes
às dos clientes dos cartões de crédito que contraem uma dívida que não podem
amortizar. Então, porque é que apenas alguns países estão a sofrer um ataque à
dívida do Estado?
A resposta é que
todos os países excepto os europeus podem imprimir moeda; sendo assim, se os
juros subirem, eles têm uma solução: imprimir moeda! Portanto, eles não estão
de facto nas condições dos clientes dos cartões de crédito, porque eles podem
imprimir moeda!!!
Dirão: mas
imprimir moeda não tem consequências desastrosas, como a desvalorização da
moeda?
O recente exemplo
dos EUA é a prova de que não, não é verdade? Quantidades astronómicas de
dólares têm sido impressas e o dólar parece estar a ... valorizar-se!!
Isto é assim
porque o valor da moeda não depende só da sua quantidade, depende da força da
economia do país. Como as economias crescem, é mesmo preciso imprimir moeda
para manter os racios moeda/crédito e para evitar sobrevalorizações da moeda –
que desgraçam a competitividade.
Contrariamente ao
que costuma dizer-se, a desvalorização da moeda não é necessariamente má – uma
moeda sobrevalorizada significa que as empresas terão de obter ganhos de
competitividade à custa dos ordenados, logo implica redução de ordenados. O euro está sobrevalorizado por razões que só interessam à Alemanha.
Portanto, o
assalto às dívidas soberanas dos países europeus vai continuar enquanto não existirem eurobonds suportados por dinheiro novo. Por mais medidas que se tomem para reduzir a taxa de crescimento da
dívida, nada se alterará, porque a dívida, maior ou menor, permanecerá. Em 2013, em Portugal,
faça este governo o que fizer, o problema dos juros da dívida estará
exactamente na mesma se o BCE não fizer como os EUA.
Mas o BCE não vai
fazer por várias razões, a primeira sendo que a actual situação convém à
Alemanha: a Alemanha tem um alto saldo da balança de pagamentos com os outros
países europeus, tem sempre euros a entrar, é como se estivesse a imprimir
euros; mas se por acaso o problema chegar à Alemanha, nesse dia teremos o BCE a
imprimir euros e os eurobonds a circular.
Os gregos já
perceberam isto muito bem; cá, temos um governo que não quer eurobonds, o único
mecanismo que poderia resolver o problema; portanto em 2013 a situação será
apenas muito pior do que agora porque estaremos todos a ganhar muito menos, com
muito menos direitos, e a pagar muito mais.
Não acreditam em
mim? Então vejam aqui a opinião de um conceituado economista americano, publicada no New
York Times.
quinta-feira, setembro 22, 2011
A Piscina
Os telejornais de
hoje tinham uma notícia que fez as alegrias dos media: imaginem que o Alberto
João gastou parece que 2 milhões de euros numa piscina no Curral das Freiras
que raramente funciona!!!
Haverá melhor
exemplo da má gestão da Madeira? Pode o dinheiro ser mais mal gasto?
Eis aqui um ótimo
exemplo da nossa ignorância do Jogo da Economia.
Ora reparem; a
Comunidade Europeia comparticipa este tipo de obras em qualquer coisa como 75%
(não sei ao certo como foi neste caso, mas deve ter sido algo como isso), ou
seja, 1,5 milhões de euros. Portanto, o Alberto João investiu 0,5 milhões de
euros, que não foi um gasto porque serviu para pagar o trabalho de madeirenses,
foi só uma circulação de dinheiro, e recebeu 1,5 milhões vindos do estrangeiro.
Como
compreenderão, isto equivale a investir 0,5 milhões de euros a fabricar um
produto que se exportou por 2 milhões – uma rentabilidade de 400%
O orçamento da
Madeira gastou 0,5 milhões e recebeu 1,5 milhões, logo ganhou 1 milhão de euros.
Na verdade,
ganhou mais, porque quem fez o trabalho pagou impostos e se não tivesse tido o
trabalho talvez tivesse recebido subsídios de desemprego.
A piscina não
funciona? Ótimo, assim não tem custos de manutenção. Claro que se for possível
encontrar utilidade para piscina, melhor, mas se não for não faz mal – a
piscina foi um excelente negócio para a Madeira e para o país. Agora, até pode
ser demolida, é como se tivesse sido exportada.
Sei que isto pode
fazer confusão. Vivemos numa era de abundância, as regras deste jogo económico
já não são as dos tempos de carência, não visam aumentar a produção, visam
disputar a abundância; quem não souber jogar este jogo fica sem nada.
segunda-feira, setembro 19, 2011
O maquiavélico plano Franco-Alemão (7)
Nos países soberanos não há empresas com sede no estrangeiro
A China atraíu o investimento estrangeiro mediante a oferta de custos
muito baixos, conseguidos através duma inteligente utilização do câmbio e de
mão-de-obra barata; mas as empresas estrangeiras que quiseram operar na China
tiveram de constituir empresas em que pelo menos metade do capital é chinês e
aceitar um prazo para a sua actividade na China,
Exemplifiquemos com a Volkswagen; para se instalar na China, teve de
fazer empresas com os chineses em que pelo menos metade do capital é chinês –
vamos assumir que é exactamente metade, por simplicidade. Para a China,
conseguir essa metade do capital não foi problema: eles
imprimem o seu dinheiro, não é verdade?
As fábricas da Volkswagen na China geram gandes lucros; uma parte vai
para impostos, suponhamos 20%; do restante, metade fica na China, corresponde à
sua comparticição na empresa, e a outra metade vai para a Alemanha. Portanto, a
China fica com 60% dos lucros – enriquece!
Em consequência deste enriquecimento, os ordenados sobem e o nível de
vida dos chineses sobe. Os trabalhadores chineses, que começaram com salários
de escravo, isto é, salários que só davam para a sua alimentação, foram subindo
de nível de vida e hoje já se recusam a trabalhar pelo ordenado que actualmente
ganha um trabalhador português. A Autoeuropa vai produzir Sharons para exportar
para a China porque já dá mais lucro à Volkswagen produzir em Portugal para
exportar para a China do que produzir na China.
Imaginemos agora que o governo chinês não exigia a metade do capital;
este seria todo dos alemães e, em consequência, os lucros da Volkswagen iriam
inteiros para a Alemanha, onde está a sede da empresa. A China não enriqueceria
nada com a Volkswagen, apenas receberia os ordenados de escravo dos empregados
da Volkswagen; os ordenados de «escravo» perpetuar-se-iam.
Como estamos a perceber, possuir ou não parte do capital duma fábrica
estrangeira faz toda a diferença.
Por outro lado, as empresas estrangeiras instaladas num país, impedem o
desenvolvimento do país na área onde actuam devido à concorrência desigual que
estabelecem.
Temos um exemplo claro e recente no nosso país: enquanto as empresas
estrangeiras de calçado cá andaram, a nossa indústria do calçado não saíu da
cepa torta; assim que elas se foram embora, a nossa indústria cresceu
exponencialmente, apesar de continuar a ter condições de mercado interno muito
mais adversas do que as suas concorrentes.
É por isso as empresas que se queiram instalar na China têm apenas uma
licença a prazo: a Volkswagen só pode ficar na China até 2030. Depois de 2030,
a China terá já todo o know-how necessário ao fabrico de automóveis e ainda as
fábricas, organização e infraestruturas deixadas pelos alemães.
Este esquema não é uma invenção da China – é assim em toda a
parte. No Brasil ou em Angola também não entra nenhuma empresa que não seja
participada por brasileiros e angolanos. Nos EUA, acontece o mesmo. A
Volkswagem quis ter lá uma fábrica dela; teve de a fechar e desde então parece
que nem 1 volkswagen se vende nos EUA porque a forma de correr com a Volkswagen
foi convencer os americanos de que os seus carros não prestam – é para isso que
servem as ASAE em todos os países do mundo excepto Portugal.
Nos países soberanos, muito ou pouco desenvolvidos, não se instalam
empresas com sede no estrangeiro, porque tais empresas delapidam o país.
No post anterior desta série eu disse que já não há multinacionais;
agora parece que estou a dizer que há; como é afinal?
A resposta é que já não há multinacionais na Europa!
Nos países soberanos não há empresa que não seja participada por esse
país; e a razão é clara, empresas estrangeiras delapidam o país e impedem o
seu desenvolvimento a prazo; mas nos
países periféricos europeus, nos PIGS, isso acontece!!! As empresas alemãs e
francesas instalam-se nos PIGS sem quaisquer contrapartidas – pelo contrário,
ainda recebem benefícios.
A consequência está à vista: os PIGS estão cada vez mais pobres, o que
tem sido mascarado com o endividamento crescente. O dinheiro que tem sido
emprestado aos PIGS é o dinheiro que a estes foi retirado pela Alemanha e
também França, como veremos. Agora, esta dívida é-lhes cobrada com usura e os
PIGS vão ficar sem anéis e sem dedos.
Sabem porque é que a Madeira que tem tanto turismo não é económicamente
rentável? Porque as cadeias de hoteís que lá operam, bem como as agências de
viagem, são quase todas não-madeirenses e os lucros da actividade turística da
Madeira vão beneficiar outros. O nosso Sol é o nosso petróleo e deixamos as
empresas estrangeiras virem cá explorá-lo pagando apenas os ordenados dos trabalhadores!!
Não precisava de ser assim, nos outros países isto não acontece, há soluções,
como veremos.
quinta-feira, setembro 15, 2011
O árbitro Obama apitou
Franceses e alemães apressavam-se a pressionar os gregos – ou lhes
entregam as suas empresas públicas ou saem da Europa. A saída da Europa é só
para assustar, é claro, tomar conta das empresas públicas da Grécia e Portugal
urge, isso é indispensável ao “esquema de cantina” que se pretende aplicar. E
urge no caso de Portugal porque, como os economistas americanos, aqueles que há
mais de uma década vêm expondo todas estes acontecimentos e que estão por
detrás de Obama, já tinham avisado, Portugal tem uma escapatória através do
Brasil e de Angola. O Brasil e Angola já entraram na privatização do BPN, o
Lula já foi a Portugal, o BRIC já se vai reunir, há que andar depressa, não deixar o Brasil e Angola pôrem a mão nas empresas públicas portuguesas ou o «esquema de cantina»
vai por água abaixo. Quanto à Grécia, com o seu PIB que é 1,7 vezes o
Português, são precisos pelo menos 3 anos de profunda recessão para a colocar
ao nível adequado à aplicação do esquema, e isso exige pôr a Grécia a ferro a
fogo.
(pensam que os 7% de recessão na Grécia são um “acidente”, um resultado
indesejável? Se assim fosse, a troika estaria muito preocupada e a propor
medidas de correcção, não é? Eles não estão em constante fiscalização, a propor
constantemente novas medidas “para garantir que estes países conseguem pagar as
suas dívididas”? Como poderiam ficar
indiferentes a tamanha recessão? Serão burros? Claro que não, sabem muito bem o
que fazem. A a recessão grega não é um acidente, é um objectivo; e para o ano
vai ser pior porque o PIB grego tem de cair pelo menos 30% antes de se poder
«comer» a Grécia…)
Merkel e Sarkozy marcam um comunicado conjunto para o dia 13; um
comunicado de importância fundamental, o aviso solene e final à Grécia,
anunciado com o devido espavento; mas o Obama entra em cena e declara: os
países europeus com excedentes comerciais têm de resolver rapidamente a crise
europeia! O tão anunciado comunicado conjunto franco-alemão evapora-se. Obama é
o árbitro do jogo e apitou, marcou falta à Alemanha e à França.
No dia 14 a Merkel já vem mansinha dizer que nem pensar em a Grécia sair da
Europa; o spread do empréstimo a Portugal (mais de 2%! Quem pode ter dúvidas de
que esta «ajuda» é maquiavélica??) desaparece; Durão Barroso diz que a Comissão
vai avançar com propostas para os eurobonds.
Franceses e alemães vão ter de fazer novos planos. Para nós, das duas
uma: ou este governo está a fazer o jogo franco-alemão, e nesse caso irá
acelerar as «privatizações» para mãos francesas e alemãs, ou não está, e irá
começar a protelar esse tipo de medidas.
Um detalhe: os irlandeses não pagavam este spread; sabem porquê? Porque
são «brancos» e aos brancos não se aplica o «esquema de cantina»; o problema
irlandês é para resolver mesmo, o nosso e o grego não são para resolver, são
para agravar até que ficarmos no limiar de sobrevivência e completamente
dependentes de franceses e alemães.
terça-feira, setembro 13, 2011
O maquiavélico plano Franco-Alemão (6)
Já não há multinacionais
O grande inconveniente do sistema capitalista é que quem é mais rico
tem mais capacidade de enriquecer; diversas medidas foram tomadas para obviar a
este problema. Uma das brilhantes
soluções introduzidas foi a criação das sociedades anónimas, empresas cujo
capital podia estar distribuído; toda a gente poderia ser sócia duma grande
empresa e beneficiar da capacidade de enriquecimento que a dimensão dá através
da distribuição de dividendos e da valorização da empresa, traduzida na sua
cotação em bolsa; a possibilidade de pessoas de qualquer país poderem ter acções
de qualquer empresa tornaria a economia global, acabaria com as lutas entre
países porque os interesses das pessoas seriam transversais à sociedade.
Esta ideia cedo começou a ser desvirtuada; o ser humano tende sempre
para o seu interesse particular imediato, que não é o objectivo do jogo da
economia nem de qualquer jogo; os jogos têm sempre um objectivo colectivo - é por isso que são inventados, são uma forma de sobrepôr o interesse colectivo ao individual, indispensável ao progresso da sociedade humana - mas os
humanos fazem «batota» sempre que podem. Os humanos usam, tanto quanto podem, o
jogo da Economia, concebido para fazer evoluir a sociedade humana, para o seu
objectivo individual de enriquecimento, poder, protagonismo. Qualquer jogo
jogado por humanos carece de constante fiscalização, de árbitros, polícia e
justiça, que o mantenham a correr de acordo com as regras e objectivos, como
acontece com o futebol; porém, no que se refere à economia, isso tem sido mal
conseguido e os «batoteiros» dominam o jogo – tanto os «batoteiros» individuais
como os «batoteiros» a outras escalas – por exemplo, à escala dos países.
Os grandes accionistas das empresas cedo descobriram que
aumentavam os seus ganhos pessoais usando o dinheiro dos lucros não para pagar
dividendos mas na na forma de brutais ordenados pagos a si próprios, através
dos lugares que a sua posição de accionista lhes permitia ter. As acções, por
seu lado, em vez de valerem em função dos dividendos, passaram a ser bilhetes
para o casino da bolsa.
Com a globalização, os países entraram em competição entre si;
naturalmente, as políticas anti-monopólio anteriormente usadas para manter a
sociedade num desenvolvimento equilibrado perderam o sentido – com a
globalização a aposta dos Estados passou a ser ter empresas tão grandes quanto
possível para conquistarem o mercado mundial. Os campeões das políticas
“anti-trust”, os EUA, declararam o fim destas políticas. Os países entraram
verdadeiramente em guerra, agora uma guerra económica, e por isso querem que as suas empresas sejam o mais forte possível
Nesta guerra entre países, as grandes empresas deixaram de ser
«multinacionais»; passaram a ter um dono, uma pátria, para onde os seus lucros
são desviados. A Volkswagen não é do senhor A ou B, é dos alemães, a Fiat é
italiana, a Telefónica é espanhola, etc, etc. Podem existir participações de um
país em empresas doutro país apenas enquanto existir perpectiva de isso servir
para adquirir essa empresa – os italianos na Galp, por exemplo – ou então
quando dois países decidem cruzar as suas participações em duas grandes
empresas, numa política de alianças que de algum modo corresponde ao casamento
entre princípes da Idade Média.
O fim da ideia do
multinacionalismo empresarial corresponde na verdade ao fim de uma ideia de
globalização da economia a à passagem para o seu oposto, para uma guerra económica global; as
empresas deixaram de ser «globais» em relação a quem delas beneficia mas, ao
contrário, passaram a beneficiar especificamente este ou aquele país.
Um caso interessante é o BIC; é Português? Angolano? Brasileiro? Tem
capital das 3 origens e a sua pátria é… a língua portuguesa. O que tem de
interessante, para mim, é que aponta uma possível saída para a nossa situação,
antes a pátria da língua do que pátria nenhuma.
O facto de a bolsa estar a cair não é nenhuma surpresa; por um lado,
aplicar os capitais nas dívidas soberanos é o negócio do momento, já não é a
bolsa; mas por outro lado a bolsa cai porque os «países» vendem as acções que
têm nas empresas onde não há perspectivas de posse para aplicar o dinheiro onde
isso é possível, nomeadamente através do recente processo de «privatizações»
das empresas públicas dos PIGS.
As ditas «privatizações» mais não são do que aquisições de empresas de
serviço público de um país por outro país. A «privatização» da EDP é apenas a
nacionalização da EDP pela Alemanha. Ou seja, a EDP vai deixar de ser
portuguesa e vai passar a ser alemã.
Da mesma maneira, a «privatização» dos transportes públicos em Portugal
mais não vai ser do que a sua nacionalização pela França.
Reparem agora no seguinte: os transportes publicos davam prejuizo
porque o Estado impunha tarifas baixas; se o Estado permite tarifas altas,
passam a dar lucro; enquanto forem empresas publicas, a diferença entre uma
coisa e outra é que no primeiro caso os custos dos transportes públicos são
suportados também por pessoas que os não utilizam e no segundo recaem
exclusivamente sobre os utilizadores, mas em qq caso, o seu saldo ou déficit é
intrínseco às contas do Estado Português, ou seja, os portugueses pagam pelos
transportes públicos exactamente o que eles custam. Agora, se vão ser entregues
aos franceses, com tarifas altas para dar lucro, os portugueses vão andar a
pagar os transportes publicos para dar lucro aos franceses!!!! Os transportes
públicos vão sair mais caros aos portugueses; isto não é completamente
estúpido???? Não é «hipotecar o futuro dos nossos filhos»? Pior: vão fundir as empresas de transportes publicos numa única, criando um monopólio para ser entregue aos franceses!!! As pessoas ou pagam o que eles quiserem ou trazem o carro e pagam parque o dia todo!!
Este não é certamente o caminho que nos interessa; somos tão capazes de
gerir redes de transportes publicos como os franceses, não há razão nenhuma
para lhes entregarmos os nossos transportes publicos. Mais vale fazermos uma
«vaquinha» com brasileiros, angolanos, moçambicanos, cruzarmos participações,
eles participam nos nossos transportes e nós nos deles. Mais vale seguirmos o
exemplo do BIC.
Portanto, compreendamos: o que está em causa com o dito processo de
privatizações em curso não tem nada a ver com privatizações, tem a ver com a
nacionalização das nossas empresas públicas pela França e Alemanha.
Isto não sucede por acaso, não é ditado por simples razões económicas,
há uma razão profunda para esta ânsia que os franceses e alemães exibem para
nacionalizarem as empresas públicas dos PIGS; não é óbvio que esta insistência
nas «privatizações» das empresas de serviço público tem «água no bico»? O que é
que eles querem realmente com estas «pseudo-privatizações» que não passam de
nacionalizações mascaradas?
(ainda não foi agora que revelei o plano desses artistas que querem pôr
a nossa bandeira a meia –haste, convencidos que estão que já somos só
“meio-país”, a outra metade já é deles; um pouco mais de paciência, é que temos
de compreender muito bem a tramóia toda)
sexta-feira, setembro 02, 2011
O maquiavélico plano Franco-Alemão (5)
O que até as porteiras em França sabem
Imaginem um casal de agricultores; têm uma pequena quinta, árvores de
fruta, hortícolas, cabras. Todo o ano trabalham na quinta. Têm alguns
utensílios e uma carrinha que compraram a crédito. Consomem parte do que
produzem, outra parte vendem. Compram adubos, medicamentos para eles e para os
animais, produtos alimentares que não produzem, roupa, têm despesas com a
carrinha, pagam electricidade e água, etc.
O resultado do seu trabalho, de todo o seu trabalho, incluindo as
reparações na casa, a valorização que pode ter ocorrido da quinta, corresponde
grosso modo ao conceito de PIB; a diferença entre o que venderam e o que
pagaram corresponde grosso modo ao saldo da sua balança de pagamentos.
Suponhamos agora que eles precisam de comprar um pequeno tractor e vão
ao banco pedir um empréstimo; em que é que se baseia o banco para conceder ou
recusar o empréstimo?
No valor do seu PIB?
Na dívida que eles ainda têm para pagar dos empréstimos anteriores?
A primeira coisa que interessa ao banco é o saldo da sua balança de
pagamentos mais a valorização da sua propriedade; se a soma das duas coisas é
negativa, ou seja, se a propriedade se desvalorizou e o saldo é positivo mas
menor que a degradação da propriedade, ou se a propriedade se valorizou mas o
saldo é mais negativo do que a valorização, ou se ambas as coisas são
negativas, sem perspectivas de se tornar positiva nem mesmo com o novo tractor,
a resposta é negativa, qualquer que seja o montante do PIB e por mais insignificante
que seja a dívida anterior.
Isto é exactamente o que se passa com a economia dos países.
O montante da dívida pública é irrelevante em si mesmo; o que conta é a
capacidade do país em produzir riqueza que chegue para pagar os seus juros; ou
seja, o que conta é, grosso modo, o saldo da balança de pagamentos adicionado à
variação do PIB.
Se um país tem um saldo da balança de pagamentos negativo e um PIB que
não cresce, evidentemente que está a empobrecer, logo não vai conseguir pagar
as suas dívidas. Não interessa se as dívidas são muitas ou poucas, ele não vai
conseguir pagar os juros da dívida que tem, pelo contrário, vai precisar de
pedir mais dinheiro emprestado para tapar o seu saldo negativo.
Ora Portugal tem um saldo da balança de pagamentos altamente negativo e
um PIB que não cresce; evidentemente que não vai poder pagar as suas dívidas,
nem a pública nem a privada. Não interessa para nada se a dívida é grande ou
pequena, a única coisa que interessa é saber se a economia tem um desempenho
positivo ou negativo.
Daqui é fácil concluir que é completamente indiferente que a dívida
pública cresça 5 % ou 1% ou diminua; enquanto o desempenho da economia for
negativo, não há mais empréstimos!
Suponhamos agora que se descobre petróleo na costa portuguesa e que
isso perspectiva que a balança de pagamentos se torne altamente positiva; como
é evidente, não faltará quem queira emprestar dinheiro ao estado, não interessa
qual seja o valor da dívida pública. Como vêm, o montante da dívida pública, por
si só, é irrelevante.
Suponhamos que passamos dois anos a apertar o cinto, que o Estado vende
as empresas públicas todas, despede os boys todos, fecha os centros de saúde
todos, vende a Madeira aos espanhóis e os Açores aos americanos, e com isso
tudo consegue o feito impensável de reduzir a dívida pública a metade; como
reagirão os mercados?
Aumentando os juros porque o resultado disso é que a economia do país
ficou pior, o país desvalorizou e o saldo da balança de pagamentos só se
agravou pela certa.
Portanto, a única coisa que vai fazer diferença daqui a dois anos não é
se o governo cumpriu ou não as metas do déficit público; o que vai fazer a
diferença é se o país se valorizou (aumentou o PIB) e se o saldo da balança de
pagamentos está positivo.
Ora nada disso vai acontecer com as actuais medidas. E isto qualquer
porteira em França sabe. Em França e em qualquer parte do mundo. Toda a gente
sabe que o que conta é se se produz mais do que se gasta ou não. É por isso que
os franceses, ou os alemães, ou os ingleses, querem saldo positivo nas contas
da sua região, é por isso que são altamente regionalistas e tomam as medidas que
forem necessárias para o conseguir. E desprezam aqueles, como os Portugueses,
que o não fazem.
Mas, dirão vocês, se o Estado cortar as suas despesas e aumentar as
suas receitas, fica em condições de pagar a dívida pública; então porque hão-de
os juros continuar a subir? Qual é o problema?
Reparem no seguinte: se a balança de pagamentos é deficitária, a dívida
do país tem de aumentar; mas quem vai emprestar dinheiro à banca de um país
deficitário? A banca vai ter grandes dificuldades de crédito, como está a ter;
então, vai dar menos crédito; ora se a balança de pagamentos está negativa é
porque pessoas e empresas estão a viver do crédito e, reduzindo-se este, vão
falir. Então, o desemprego vai aumentar, estoirando com as contas da segurança
social, e as pessoas vão deixar de pagar os empréstimos que contraíram, o que
significa que a banca vai falir; de repente todos os empréstimos às empresas,
para compra de habitação, para compra do carro, etc, vão passar a «activos
tóxicos», vão dizer que a culpa é da ganância dos banqueiros e com isso vão
justificar a falência generalizada da banca nacional.
Com o saldo da balança de pagamentos negativo, o país inteiro vai
falir.
Mas se assim fosse, perguntam vocês desconfiados, então porque é que
estão a tomar estas medidas? São todos ignorantes? Não sabem o que andam a
fazer?
Claro que sabem! Sabem desde que a União Europeia foi criada, este
desígnio estava traçado desde o primeiro momento, como os economistas fora da
Europa se têm fartado de dizer. O que agora estão a fazer é apenas a executar a
fase final do maquiavélico plano, que compreenderemos claramente no próximo
post.
quinta-feira, setembro 01, 2011
O maquiavélico plano Franco-Alemão (4)
A escravatura moderna
Nos post
anteriores fomos dando pinceladas no quadro da escravatura; vejamos agora como
ficou a nossa pintura.
Definimos
“escravo” como a pessoa que trabalha a troco da sobrevivência, expurgando a
definição de conceitos acessórios como o uso da violência, meros instrumentos
para atingir para atingir esse objectivo económico.
Nas latitudes
médias, a sobrevivência sempre foi algo que exigiu bastante esforço devido às
condições climáticas; por isso não admira que nas grandes civilizações do
passado não tenho sido necessário grande violência para fazer as pessoas
trabalharem pela sobrevivência – apenas em vez de trabalharem para eles
próprios, trabalhavam para outrem. A época dos caçadores-recolectores já tinha
terminado, a sobrevivência exigia a agricultura. De certa forma, os humanos da
europa já estavam «domesticados», usando uma ideia do Manuel Gouveia.
Já com os
africanos ou com os índios a questão foi diferente: a sua sobrevivência não
resultava do trabalho agrícola, e ser escravo
implicava fazer uma coisa – trabalhar - que não pertencia à sua cultura nem era
considerada digna. O uso e abuso da força foi a solução para domar esses
humanos.
Com a proibição
do uso da violência, a solução para obter escravos foi procurar pessoas abaixo
do limiar de sobrevivência e oferecer-lhe esta a troco de trabalho.
Portanto, o
método ideal para obter escravos é recorrer a pessoas sem recursos para
sobreviverem, pois estas agradecem a possibilidade de serem escravos, no
sentido acima definido. Naturalmente que o pagamento nunca pode passar do nível
de sobrevivência, pois se isso acontecer as pessoas começam a ter poder
reivindicativo e a exigir melhor pagamento; nos processos de escravatura há uma estratégia definida para garantir que isso não acontece.
O desenvolvimento
industrial criou uma nova dificuldade: as pessoas tinham de ter recursos para
comprar os bens produzidos, logo não podiam ser escravos, tinham de ganhar mais
do que o necessário à sobrevivência.
A solução foi ir
buscar pessoas a locais onde a sobrevivência não estava garantida. Nascia a
Imigração promovida pelos governos.
A necessidade de pressionar o desenvolvimento das sociedades levou à
tomada de medidas igualitárias, como o estabelecimento do ordenado mínimo; este
tinha de acompanhar o enriquecimento da sociedade, não era o ordenado do
escravo. Os imigrantes deixaram de poder ser escravos. Acabou a imigração
legal.
Se já não era possível ter escravos no próprio país, a solução teria de
ser a deslocalização das fábricas – que teriam de ir para as zonas onde
existiam pessoas sem condições de sobrevivência e aí aplicar estratégias que
não dessem outra alternativa às pessoas que não fosse trabalhar pela mera
sobrevivência.
Esta é uma solução fácil para pequenas empresas e tem sido amplamente
utilizada nos países em vias de desenvolvimento; por exemplo, no Brasil, cerca
de 20 000 pessoas foram retiradas pelas autoridades, na última década e meia,
de esquemas destes; em todo o mundo existem dezenas de milhões de pessoas em trabalho escravo, a grande maioria sendo a consequência directa e necessária duma natalidade descontrolada.
Porém, as grandes fábricas são grandes investimentos e que carecem de
uma logística complexa; nas zonas tão atrasadas que não conseguem garantir a
sobrevivência da sua população, essas condições não existem normalmente.
Surgiu então uma oportunidade única: mercê de um engenhoso, genial,
corajoso sistema económico, com dupla moeda e câmbio gerido internamente, um
sistema que o ocidente não parece ter compreendido (ou finge não compreender) e que exporei se tiver
oportunidade, a China conseguiu reduzir os custos de produção em moeda
ocidental para muito menos de 1/10 – uma redução “artificial” porque decorrente
do processo cambial, não representativa do nível de vida que foi assegurado aos
chineses.
A China foi um el-dorado para as fábricas; mas um el-dorado a prazo. O
projecto da China visa o desenvolvimento da China, os chineses fazem as regras
que lhes convêm, (tal como os americanos, os alemães e os ingleses), não andam
a reboque dos interesses dos outros.
Assim, por exemplo, a Volkswagen, que tem um enorme investimento na
China, teve de formar empresas em que a maioria do capital é chinês e que
terminam em 2030. Doutra forma não punha o pé na China.
Esta gestão inteligente dos interesses chineses produziu um enorme
desenvolvimento da China que tornou esse sistema de duplo câmbio obsoleto; os
ordenados estão a subir rapidamente e os gestores da Volkswagen espremem as
meninges à procura de uma maneira de encontrar mão-de-obra ao preço da
sobrevivência. Não é fácil, porque todos os países com organização suficiente
para suportar uma indústria automóvel visam o seu desenvolvimento, o que
significa que os ordenados crescem, e rapidamente se afastam do mínimo de
sobrevivência; é o que acontece no Brasil.
Os EUA resolveram este tipo de problema instalando as suas fábricas no
norte do México; devido à falta de controlo da natalidade, o México parece ser
uma fonte de mão-de-obra ao custo da sobrevivência que tão depressa não se
esgotará; ao instalar as suas fábricas junto à fronteira americana, os EUA como
que criaram aí uma zona que funciona segundo a sua organização mas dispondo
dessa mão-de-obra barata oriunda doutras zonas do México.
Notem que os EUA não estão a explorar os mexicanos; se existem
mexicanos dispostos a ser escravos, a responsabilidade é dos próprios
mexicanos.
A Europa não tem hipóteses de uma solução deste tipo, pelo menos
enquanto as pessoas dos países vizinhos tiverem uma cultura diferente; então
como podem as empresas alemãs conseguir mão-de-obra ao preço da sobrevivência,
isto é, escravos para as suas fábricas, numa solução em que a situação de
escravatura se prolongue no tempo, de forma estável, como acontece com a
solução americana?
Agora temos quase todos os elementos para compreendermos a estratégia franco-alemã; só falta uma coisa, aquilo que até as porteiras em França sabem; é isso
que veremos no próximo post.
terça-feira, agosto 30, 2011
O maquiavélico plano Franco-Alemão (3)
Mercadores de escravos analisando os dentes da escrava, por Jean-Léon Gérôme (da wikipedia)
O que é um ESCRAVO?
Qual é o mínimo custo de um trabalhador?
É o seu custo de sobrevivência – ou seja, alimentação. No fundo, o custo da energia que ele consome. Nas zonas onde a fome grassa devido à sobrepopulação, nomeadamente onde não se pratica controlo de natalidade, as pessoas trabalham por esse valor.
Desde que a sociedade humana existe que uns humanos usaram outros humanos para a realização de trabalho a troco de lhes assegurarem a sobrevivência. Nas sociedades sofisticadas do Egipto, da Grécia ou de Roma, estas pessoas, os «escravos», muitas vezes capturas de guerra mas nem sempre, distinguiam-se dos «cidadãos» por não terem direito de voto.
Note-se que até muito recentemente as mulheres não tinham direito ao voto, que não era considerado um direito fundamental dos humanos mas uma obrigação dos humanos que intervinham directamente na economia da sociedade. Não é pois a questão dos direitos que caracteriza o escravo pois os direitos das mulheres não eram muito diferentes dos deles.
Na antiguidade, em geral, os escravos eram bem tratados pelos seus senhores, pois por um lado não eram tidos como inferiores e por outro considerava-se que um escravo mal alimentado e mal cuidado não seria eficiente no trabalho. A qualidade do tratamento dispensado ao escravo foi sendo cada vez pior, adquirindo características de violência extrema sobretudo a partir do sec. XV, com a utilização maciça dos escravos africanos. Para justificar moralmente esta prática, foi então desenvolvido e "cientifizado" o conceito de «racismo».
Como é evidente, a utilização de escravos dava uma grande vantagem económica aos que a ela tinham acesso, o que levou os outros a desenvolveram uma luta feroz contra esta prática; por outro lado, era também fonte de degradação social por conduzir à ociosidade dos senhores, tendo esta sido a base para a proibição da entrada de escravos em Portugal pelo Marquês de Pombal; por último, as práticas esclavagistas tinham-se tornado moralmente inaceitáveis. Tudo isto conduziu ao fim do comércio legal de escravos e da possibilidade de umas pessoas serem legalmente donas de outras.
O fim desse tipo de escravatura não significou o fim do objectivo económico, isto é, do objectivo de dispor de pessoas que trabalham a troco da sobrevivência.
Notemos agora que o conceito de escravo reside apenas numa única coisa: escravo é a pessoa que trabalha a troco da sobrevivência, ou seja, pelo custo da energia que precisa de gastar para sobreviver.
A privação de direitos ou imposição de força foram apenas algumas das técnicas para obter trabalhadores pelo custo mínimo no passado. Mesmo no tempo da escravatura dos negros de África, alguns dos escravos eram voluntários – sem controlo de natalidade, era a fome que limitava a população e alguns ofereciam-se para escravos para sobreviverem mais uns anitos.
O fim da «escravatura» apenas marca o fim do uso legal da força bruta sobre o indivíduo para obter esse desiderato. Outras técnicas foram desde então encontradas para conseguir o mesmo objectivo. A mais directa substituição da forma anterior de escravatura consistiu no sistema de cantina, em que os trabalhadores eram pagos em vales ou equivalente que eram descontados numa cantina do empregador; desta forma as pessoas ficavam a trabalhar a troco da sobrevivência, que os vales para mais não davam. Esta foi a forma usada no Brasil na era da Borracha, magistralmente retratada em A Selva de Ferreira de Castro.
Mas há outras formas; por exemplo, ainda há pouco mais de meio século, senhoras em Portugal iam à província buscar raparigas novas para trabalharem como suas empregadas domésticas a troco de alimentação e dormida. Isto mostra que as pessoas podem aceitar de boa vontade a condição de escravo desde que antes sejam colocadas numa situação em que a sobrevivência esteja em risco.
Conseguir escravos voluntários é o sonho de qualquer gestor de pessoal. E isso foi conseguido no começo da era industrial mantendo os cidadãos do país em situação de miséria - os escravos negros foram de novo substituídos pelo "povo" enquanto as elites concentravam a riqueza.
A economia dos países mais industrializados, porém, exigia que cada cidadão fosse um consumidor de bens, dos bens produzidos pelas fábricas; ora isso implicava que os trabalhadores teriam de ganhar mais que o indispensável à sua sobrevivência para poderem comprar esses bens. A escravização da própria população impedia isso, era preciso transformar os cidadãos em consumidores. Passaram então as fábricas a pagar mais, acabando com a condição de escravo? Claro que não, o problema consistia em encontrar novos escravos, não em prescindir deles. A solução então encontrada para obter novos escravos foi a utilização de imigrantes.
Nos países não industrializados os cidadãos lutavam diariamente pela sobrevivência. Há menos de um século, em Portugal, ainda uma sardinha era um jantar para uma família e ainda muitos sobreviviam com sopa de erva. Muitos portugueses tiveram então a oportunidade de emigrar para os países industrializados, que lhes asseguravam a sobrevivência a troco do seu trabalho.
A melhor compreensão das leis da economia foi tornando claro que o crescimento económico seria tanto maior quanto mais iguais fossem as oportunidades dos cidadãos, quanto menor fosse a desigualdade; a desigualdade passou a ser um factor controlado pelos governos, dada a sua importância no crescimento económico e na paz social.
Portugal e a Dinamarca são dois exemplos em extremos opostos de como desigualdade e riqueza têm uma relação inversa.
Porém, as medidas de controlo da desigualdade, como o ordenado mínimo, aplicam-se a toda a população, incluindo imigrantes; então também os imigrantes passaram a ganhar mais do que o indispensável à sua sobrevivência, ou seja, deixaram de ter a condição de «escravos» (deixando assim de ter um papel útil, pelo que passaram a ser indesejados e perseguidos).
O problema de obter trabalhadores pelo preço mínimo coloca-se de novo. No próximo post vamos ver as soluções encontradas para substituir os imigrantes no papel de escravos e vamos descobrir que fazemos parte de uma delas.
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