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sexta-feira, outubro 14, 2011

Há uma Luz!

As medidas anunciadas pelo Passos Coelho fizeram-me cair os queixos de espanto; o rol de desgraças que se vão seguir foram-se amontoando na frente dos meus olhos - uma recessão de pelo menos 5% é garantida, os incumprimentos bancários a disparar em flecha, o aumento do desemprego (se o horário de trabalho aumenta 7%, os patrões vão despedir 7% dos trabalhadores, não é? Não se produz mais porque não há mercado, não é por falta de horas de trabalho). Mas depois comecei a ver o lado positivo da coisa. Bati com a mão na testa! Genial, sem dúvida. Não sei se é consciente ou não, mas o certo é que o Passos Coelho aponta o caminho para sairmos deste sufoco.

O processo de conduzir pessoas a uma situação que não lhes convém consiste em lhes dizer que se está a cuidar delas através da imposição de suaves medidas que as empurram para onde elas não querem - elas estão «doentes» e por isso precisam de «remédios»; as pessoas ficam cada vez pior e o que fazem é ir tomando mais «remédio», não é? o raciocínio das pessoas é simplório; este processo tem de ser lento para que as pessoas se vão adaptando e resignando à sua condição sucessivamente pior. Isto é muito bem conhecido.

A troika estava a desenvolver um plano destes, um plano que quem seguir os textos do Dr. Jordan compreenderá; suavemente seriamos conduzidos a aceitar como boa uma situação em que ficaríamos todos reduzidos a uma miserável sobrevivência, mão-de-obra barata para as fábricas europeias. Combater este plano de peito aberto é impossível neste país atrasado - pode ser possível para os Gregos, que estão a conseguir sucessivos sucessos nessa batalha - mas não aqui.

Que fazer?

O Primeiro Ministro encontrou uma solução: se aumentarmos a dose do «remédio», vai-se tornar evidente que não cura mas mata!  E ele vai poder dizer à troika: Então? Fomos tão bons alunos! Fizemos tudo o disseram e até excedemos! Como é?

Como entretanto a solução B se começa a desenhar na Europa, o drama que aqui vai acontecer obrigará à sua rápida implementação. Em meses isto estará resolvido. Ou vai ou racha. Pode ser que rache, mas também pode ser que se resolva e se o Passos Coelho fosse de mansinho de certeza que rachava. Assim, ao menos há uma possibilidade. A ver vamos.


quarta-feira, outubro 12, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa (V)


(a segunda das civilizações auto-suficientes)


A imensa extensão de terreno que o trópico da Capricórnio cruza em África e Ásia determinou o berço da segunda civilização (mapa da Wikipedia).

O único caso em que uma população podia ser sedentária numa zona onde há Inverno seria quando se estabelecesse nas margens inundáveis de um rio; apenas aí os solos suportavam a agricultura numa época anterior à descoberta dos adubos porque é o próprio rio que repõe nos terrenos os compostos de azoto."

"Sim, claro, agora que produzimos os fertilizantes em fábricas já nem temos consciência de como a falta de azoto foi uma dificuldade terrível para a agricultura"... comentou o Wolfram, sempre filosófico.

"Para surgir uma nova civilização seria necessária uma larga extensão de margens inundáveis, capaz de suportar uma população de dimensão suficiente. Em África, o Nilo surge como o local mais provável para isso acontecer e aí se desenvolveu o segundo tipo de civilização da Humanidade.

... Que também apareceu noutros lados”, notou o ruivo.

Sim, na Ásia, onde também existem rios nestas condições; já na América essas condições não existem, pois a norte a zona equatorial prolonga-se pela língua de terreno da América Central e a Sul os rios que saem da zona tropical não possuiriam as necessárias extensões inundáveis."

"Mas mesmo assim desenvolveram-se as civilizações Maia e Inca."

"Foi a resposta possível à pressão exercida pelo excesso de população numa zona de clima ainda tropical e onde a migração não era possível; dependiam de uma agricultura sem adubos,  logo fraca e baseada em rotatividade de terrenos, e da pesca. Com a população no limite e sem o escape da migração, o excesso de natalidade ou qualquer perturbação climática tinha de ser compensada com maciços sacrifícios humanos.

Mas esse tipo de civilização das margens do Nilo ocorreu também em locais muito diferentes, como Creta e em muitas zonas da costa norte do Mediterrâneo”, contestou ainda o ruivo.

“Decerto; uma vez inventada, esta civilização é capaz de se estabelecer em certas zonas que não seriam propícias ao seu nascimento. Para nascer, é que é preciso um número elevado de pessoas para que sucessivos pequenos avanços possam ser somados; e são muitos esses avanços, tanto a nível de organização como tecnológicos como, e isso é talvez o importante, a nível da atitude perante a sociedade, o entendimento de que o interesse individual se tem de subordinar ao colectivo, com reflexos no próprio conceito de família. No entanto, notem que uma civilização deste tipo não se pode estabelecer em qualquer parte, existe uma restrição importante.”


E qual é?

Todas as sociedades humanas dos tempos antigos são auto-suficientes: a sua sobrevivência depende só dos recursos próprios da comunidade. A diferença entre elas reside na capacidade de gerir recursos, mínima na sociedade equatorial e máxima nas sociedades agrícolas.”

E depois essas sociedades começaram a comerciar entre si, desenvolvendo a primeira globalização”, acrescentou o Wolfram.

Exactamente; esse terceiro passo do desenvolvimento das civilizações foi tornado possível pelo vasto território onde essas sociedades se puderam estabelecer, ou seja, a bacia mediterrânica e a Ásia do Sul e Oriental, zonas com clima suficientemente ameno e ricas em água doce. Notem mais uma vez a importância da geografia."

"Pois, quase todo o clima temperado se situa no hemisfério norte..." condescendeu pensativo o Wolfram; talvez esteja a comparar esta possibilidade com outras... quem se sente superior costuma gostar de atribuir essa superioridade aos seus méritos. 

"O comércio introduz algo de muito importante: o acesso pacífico a recursos doutras regiões, como materiais de construção, sal, especiarias, minérios, variedades agrícolas ou produtos manufacturados. Estas coisas não eram indispensáveis a estas sociedades, elas podiam subsistir sem elas, mas permitiam-lhes atingir uma qualidade que não atingiriam sem o comércio.”

 “A isso se resume a história das civilizações?” O careca entre o desiludido e o intrigado

Não; falta precisamente a parte que nos interessa.

(continua)

segunda-feira, outubro 10, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa (IV)


(continuação - como o Inverno torna finito o Tempo)


A variação da percepção do tempo à medida que se sobe em latitude é um aspecto muito interessante e mesmo um pouco surpreendente.” Leio interesse nos olhos dos meus interlocutores, o tempo é algo fundamental nas suas vidas. Continuo:

 “Como sabem, na zona equatorial os dias são todos iguais, apenas a Lua permite definir um período maior que o dia. A vida vive-se no presente e planeia-se ao dia; ao longo do dia há um conjunto de tarefas a realizar, mas a escala do planeamento é apenas do dia. O tempo é tão infinito como o oceano. A vida é finita quando se planeia a prazo e quando se mede em anos, mas não quando se mede em dias, pois o número é grande demais para as nossas faculdades de percepção intuitiva.” Calo-me novamente, percebo que estão a tentar imaginar a situação, a estimar quantos dias têm uma vida, quantos dias terão ainda as suas vidas.

Sim, compreendo”, diz de súbito o ruivo, "é como estar de férias: um mês aqui passa a correr mas um mês de férias na praia ou no campo é tanto tempo que nem consigo imaginar... duas semanas já me parece uma eternidade.” Os outros concordam.

Bem, já percebemos que a civilização que se gera numa zona equatorial tem uma dimensão espacial não superior à centena de pessoas e uma dimensão temporal de um dia. Esta civilização, como qualquer outra, é muito estruturada, com regras bem definidas.
Sim” – interrompe o Wolfram, algo impaciente – “mas essa civilização só pode ser assim enquanto não há sobrepopulação; ora a população humana cresce; e depois?

O que acontece é que as pessoas vão ocupando o território livre. Vamos pensar no caso de África; ocupada a faixa equatorial, as pessoas vão subindo em latitude. E então vão encontrar algo novo: o Inverno. Um período de tempo em que a Natureza não garante a sobrevivência. Isto muda tudo.”  A impaciência deu lugar à expectativa.

"Passando os trópicos, é preciso encontrar forma de ter alimentos no Inverno e soluções para proteger do frio – uma temperatura inferior a 18 ºC é mortal para um humano sem protecção. Isto obriga a viver com prazos, com calendários, com objectivos. O Inverno introduz o conceito de Futuro na actividade diária." 

 "Ou seja, o Inverno trouxe o stress, que é coisa que quem vive focado no presente não sabe o que seja..." comentou o careca, logo seguido por sinais de viva concordância dos outros. "Sim, isso mesmo", e ri-me, sendo acompanhado por eles. Continuei:

 "As soluções mais simples para o problema do alimento, como a caça ou a pastorícia, geram sociedades pequenas e nómadas, com baixas densidades populacionais; mesmo as primeiras soluções agrícolas não permitem a fixação prolongada de populações porque a agricultura esgota os frágeis solos das zonas acima dos trópicos, implicando a necessidade de mudança periódica de local, excepto num único caso; e é esse único caso que permitiu que se desenvolvessem civilizações com crescentes escalas de espaço e de tempo.

Ou seja, sem o Inverno, a nossa civilização nunca teria acontecido... portanto, se o Homem tem surgido uns 100 milhões de anos antes, uma insignificância à escala da idade da Terra, no tempo dos Dinossáurios, esta nossa civilização não se poderia ter então desenvolvido porque nessa altura não havia Invernos... parece que o Homem surgiu apenas quando o planeta já estava pronto para o desenvolvimento de grandes civilizações... o Homem surgiu quando tinha de surgir, nem antes, nem depois... interessante...”. Esta cogitação do Wolfram gera um franzir de sobrolho do careca. Interessante este Wolfram, que sabe que no tempo dos Dinossáurios não havia Inverno e capaz de pensamentos filosóficos, de pensamentos que não têm directamente a ver com os seus interesses pessoais. Começo a simpatizar com ele.

Nada de desvios criativos” – repreende brandamente o careca – “oiçamos o dr. Jordan, que certamente nos vai mostrar que as sucessivas civilizações são a solução ideal para cada situação climática e geográfica, tal como a tribo é a solução ideal para o clima equatorial; qual é então esse único caso geográfico-climático que nos trouxe até aqui?” Espertalhão o chefão. “Boa pergunta!” pego-lhe na palavra, que traduz alguma impaciência, pelo que remato: “Uma pergunta cuja resposta nos levará a perceber porque é que estamos aqui a ter esta conversa e como é que se resolve o vosso problema.

sábado, outubro 08, 2011

Um Império Europeu à moda dos Incas

Sabem como é que os Incas construíram o seu império? Foi muito fácil; limitaram-se a ir propondo a povos mais pequenos que aceitassem subordinar-se ao Império; se aceitassem, seriam bem tratados (pelo menos os seus líderes); se não aceitassem, levavam porrada. Bastou um ou dois levarem porrada para os outros aceitarem logo. O resultado final era independente de aceitarem ou não: passavam todos a pagar o tributo exigido pelos Incas. Assim construíram um império que se estendia por milhares de kilómetros.


Este maravilhoso método parece ser o que os alemães estão a usar para construir o seu tão ambicionado Império Europeu: primeiro, fecham a torneira do BCE para deixar os países com menos reservas de «água» a morrer de «sede»; depois propõem: “damos «água» se prescindirem da vossa soberania, nos entregarem as empresas públicas e reduzirem os ordenados para o nível de sobrevivência das pessoas, a fim de que as nossas empresas se possam instalar aí e ter mão-de-obra a custo mínimo.”

(notem que esta «água» não custa nada aos alemães, é apenas dinheiro impresso pelo BCE, tal como o Fed faz nos EUA)

Os gregos disseram “Vão passear”. Porrada nos gregos.

Os líderes Tugas disseram logo: “Faça-se a vossa vontade.”

O plano para os transportes públicos é flagrante; só há duas maneiras de gerir transportes públicos: ou em concorrência, abrindo o serviço aos privados, ou através de uma empresa pública. Neste caso, o preço dos bilhetes é determinado por forma a que empresa tenha prejuízo e tenha de depender do governo para acertar as contas.

Isto tem de ser assim porque estas são as duas únicas maneiras de evitar abusos de empresas que exploram algo a que as pessoas não podem fugir. 

Há uma coisa que NUNCA se faz: criar um monopólio e entregá-lo a privados. Óbvio. NUNCA. Presumir que entidades reguladoras podem controlar os preços é uma utopia. Só a concorrência pode controlar preços num mercado entregue a privados.

Ora o Governo

1 – aumenta o preço dos bilhetes para que as empresas de transportes deixem de dar prejuízo; questão: se elas deixam de dar prejuízo, qual é a vantagem de as privatizar?
2- o Governo vai fundir empresas criando monopólios; ora isto é contra todas as regras da Economia desde ela existe
3 – o Governo não vai abrir concurso público internacional, vai entregar as empresas monopolistas dos transportes públicos directamente aos franceses; isto não é proibido pelas regras da União Europeia? Os deputados que foram fazer queixa do Sócrates por causa do Magalhães não estão agora incomodados?

Este absurdo só se entende duma maneira: estamos a ser Incados.

sexta-feira, outubro 07, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa (III) (as Civilizações)


(continuação)

Conseguir uma sociedade onde uma parte minoritária da população seja escrava e isso seja bem aceite por essa minoria e por toda a sociedade é um problema muito fácil??”– o Wolfram olha-me com ar incrédulo, e fica-se, boquiaberto, à espera de qualquer esclarecimento adicional; o careca contesta:

Não estou a ver em parte alguma do mundo civilizado alguém a ter escravos voluntários na actualidade!”; o ruivo resolve falar também:

Bem, talvez os empregados das fábricas americanas no norte do México... ou os palestinianos que trabalham em Israel...”. O careca interrompe, impaciente, evidentemente não gosta de ser corrigido: “Sim sim, mas os palestianos vivem praticamente num campo de concentração, não fazem parte da sociedade israelita, não passam de modernos prisioneiros civis de guerra, e o México é um caso de deslocalização muito especial; nós estamos a falar de escravos integrados na nossa sociedade, algo muito diferente.” O ruivo cala-se, arrependido de ter aberto a boca.

A razão porque não conhece escravos voluntários na actualidade, no mundo dito civilizado, é porque o facto de eles aceitarem a sua condição faz parecer que o não são; essa é a habilidade”. Faço uma pausa.

Portanto, eles existem à vista de toda a gente e ninguém vê... interessante, é isso mesmo que queremos!” Um brilho surgiu no olhar do careca.

Para percebermos como se consegue esse tipo de escravos temos de perceber algumas coisas essenciais da evolução das sociedades... vamos dedicar dez minutos a esse assunto?"

Os três homens trocam olhares de assentimento. “Estamos aqui para o ouvir, Dr. Jordan”.

Vou tentar não entrar em detalhes, limitar-me ao essencial, o que não é fácil porque depois ficam sempre coisas por explicar que acabam por gerar dúvidas. Inspiro. Ponho o meu ar professoral, o ar Dr. Jordan nº 1, e começo: - “Sabem porque é que na zona equatorial de África não surgiu nenhuma civilização relevante?
 Deixo a pergunta no ar e fico à espera duma resposta. Hesitam, finalmente o Wolfram sugere: “A África equatorial é habitada por povos muito primitivos, uma civilização exige organização, planeamento, pensamento sofisticado”. Adoro quando oiço ideias simplórias.

Pensemos um pouco; quem já esteve nessa zona sabe que para comer basta estender o braço e colher uma fruta; pode também caçar ou pescar. Não há frio nunca, não é preciso ter roupa, nem casa, basta um abrigo para dormir. Ou seja, a sobrevivência está garantida desde que não se interfira com a Natureza, que tudo providencia. Como as pessoas não têm objectos de cobiça, não precisam de desenvolver sofisticadas capacidades bélicas; nem sequer o território que ocupam pode ser considerado cobiçável pois toda a zona é igual ou quase.” - Verifico pelas expressões que não disse nada que não soubessem já; continuo:

A solução óptima para a zona equatorial é uma organização em pequenos grupos, familiares essencialmente. Qualquer grande sociedade iria interferir com a Natureza e pôr em risco a sobrevivência, seria uma grande estupidez. A organização familiar e tribal é a organização ideal, perfeita, adequada, à zona tropical. Não é uma ausência de civilização, é a civilização adequada. Mais do que isso, ela é a base de todas as organizações de maior escala, como veremos, pelo que vamos prestar alguma atenção às suas características.” - Calei-me, dei-lhes um tempo para interiorizarem. Continuo:

Esta organização familiar é muito diferente da nossa; ela tem regras e organização, e perceber isso é muito importante. O conceito de família dessa civilização é profundamente estruturado, tal como as nossas modernas organizações, com espírito de equipa, hierarquia e especialização de tarefas, avaliação, recompensa e punição. Para além disso, há uma clara distinção entre os membros da família ou tribo e a restante humanidade, ou seja, a família é uma nação nesta civilização, as outras famílias são nações estrangeiras.” Falo lentamente, sei que eles têm preconceitos a ultrapassar, é preciso dar-lhes algum tempo.

O mais interessante é que, no fundo, todos os conceitos que aplicamos na moderna organização já estão presentes nas famílias da zona equatorial; as sucessivas civilizações foram aplicando esses conceitos a escalas cada vez maiores ao mesmo tempo que os foram retirando do âmbito familiar e substituindo por outros, como o conceito de «amor». Vejam como o termo «família» é usado para identificar os membros de uma organização mafiosa ou os colaboradores de uma empresa – é a extensão do conceito primitivo a outras escalas. Por outro lado, conseguir a integração da família numa sociedade maior implica não só alterar as regras dentro da família como alterar a atitude da família com as outras pessoas, sendo necessário esbater essa fronteira para que o sentido colectivo possa emergir; este ponto é da maior importância.” Percebo pelos olhares virados para dentro que os três homens precisam de algum tempo para meditar sobre o assunto. Aguardo.

Os ciganos, como não abdicam da sua cultura familiar, tornam-se incompatíveis com as civilizações modernas...”, um pensamento em voz alta do Wolfram.

Exactamente, em parte pelas regras internas da família e em parte pela sua atitude em relação às outras pessoas; mas não só os ciganos; como compreenderemos daqui a pouco, a cada civilização corresponde um conceito de família e as duas coisas têm de estar em correspondência ou entram fatalmente em conflito.” Os olhares estão de novo voltados para mim, posso continuar:
. 
O que essencialmente caracteriza as diferentes civilizações é a escala espacial e temporal a que têm de actuar para garantir a sobrevivência; esta primeira civilização existe à escala espacial da família e temporal do dia. Já vimos a escala espacial, e encontrámos coisas interessantes; vamos agora prestar atenção à escala temporal”.

(continua)

quarta-feira, outubro 05, 2011

Que fazer quando tudo arde


Ana Sá Lopes fez este editorial fabuloso no I. Aconselho a leitura, é curto e é um prazer lê-lo (ai, que inveja, não saber escrever assim...). Nele, a autora faz o retrato nu e cru da actual situação. Termina com um aviso muito claro: "qualquer governo que se limite a ser um bom e passivo aluno está a condenar-se e a condenar-nos à forca."


Eu acrescento: nós estamos a condenar-nos à forca se nos limitarmos a ser passivos cidadãos. 


Sabe-se muito bem qual é a causa e o remédio para a crise; o remédio - suportar as dívidas públicas em obrigações pagas com dinheiro novo (eurobonds) - não está a ser usado de propósito para manter a crise. E isso tem uma finalidade que as medidas pretendidas, nomeadamente a diminuição da TSU, dos ordenados e a entrega das empresas publicas em forma de monopólio a alemães e franceses, aponta com clareza; por outro lado, as únicas medidas que contribuiriam para resolver o problema do nosso lado, ou seja, aquelas medidas que diminuiriam o déficit da balança de pagamentos, ou seja, a relação entre o dinheiro que entra e que sai do país, são completamente ignoradas; isto não pode ser por acaso nem por ignorância, só pode ser de propósito.


Há várias coisas que podemos fazer para contrariar um plano que se afigura verdadeiramente tenebroso. E podemos começar já por uma delas: não dar nem um euro a alemães e franceses. Automoveis? Ou Fiat ou de fora da europa - mesmo os SEAT são 100% alemães. 


Pode parecer-vos insignificante, mas façam lá um esforçozinho e aguardem o resultado... enquanto esperamos pelo Dr. Jordan. Lembrem-se: nem 1 euro para franceses e alemães. Vejam quais são as empresas que estão aí e que são propriedade deles - devem estar nas cervejas, águas, comunicações, turismo e outras coisas. Nem um euro para elas. Pela alminha dos vossos filhos. Vão perceber porquê em breve.

quinta-feira, setembro 29, 2011

Dr. Jordan e o caso da Europa de classes (I)



(as aventuras do dr. Jordan são pura ficção, desenhada sobre problemas da actualidade)

Ali estava a esplanada; qual seria a mesa... ahh, aquele tipo acena-me, é ali.

Boas tardes; doutor Wolfram, presumo – disse, enquanto aceitava a mão estendida daquele tipo alto e magro, procurando reconhecer-lhes as feições. Rosto anguloso, cabelos pintados como é típico nos executivos de meia idade, olhos pouco expressivos e muito observadores. Pessoa habituada a mandar, alto quadro certamente. Não, não reconheço esta cara, nem a dele nem as dos seus dois companheiros, ambos bastante fortes, um careca, o outro arruivado. Nenhum sinal de simpatia, como é habitual nos que querem passar a mensagem de que grandes responsabilidades pesam sobre os seus ombros.

Boa tarde Dr. Jordan, muito obrigado por ter aceitado encontrar-se connosco. Sente-se por favor – disse cortesmente o Wolfram, indicando a cadeira que à sua frente me esperava.

Sentei-me calmamente, disfarçando a curiosidade em saber que mistério me tinha calhado desta vez. É curioso como 93% dos meus clientes pretendem operações inconfessáveis – seria bem melhor que fosse ao contrário mas infelizmente parece que apenas os que prosseguem escuros interesses são suficientemente inteligentes para me consultarem. C’ est la vie!  Esperava que o Wolfram me apresentasse os outros mas nada. Costumo começar logo a falar, assumir o controlo da conversa, mas desta vez optei por manter a matraca fechada e aguardei. O Wolfram chegou-se à frente e falou:

Numa conversa sobre as dificuldades que atravessamos, alguém referiu que conhecia uma pessoa que poderia ajudar-nos, um filósofo, o Dr. Jordan. Uma espécie de Poirot, com a diferença de que usaria os seus talentos para encontrar soluções para os problemas e não para desvendar mistérios, o que no fundo é a mesma coisa.

Sim, é verdade, é quase a mesma coisa, há um ponto de partida e um ponto de chegada e queremos saber como se vai de um para o outro – assenti, reduzindo a este aspecto as comparações com Poirot. Ainda pensei dizer que os méritos que me atribuem resultam simplesmente da metodologia de conhecimento da Filosofia, quase ignorada desde o advento da metodologia científica. Mas optei por avançar no assunto:

Mas qual é, afinal, o problema?  – displicente mas a rebentar de curiosidade, no ar estava a promessa de um desafio à altura dos meus talentos.

Como o dr. sabe, o esforço para unir as duas Alemanhas tem sido um pesadelo cuja luz ainda não surgiu ao fundo do túnel. Ainda não saímos deste pântano e um novo pesadelo se desenha já no horizonte: a união europeia! A nossa experiência dolorosa com a Alemanha do Leste vai ser multiplicada cem vezes, vamos ficar atolados em problemas durante décadas, enquanto o resto do Mundo avança a passos largos. Com certeza que a união europeia será bom para os outros países europeus, mas para a Alemanha é que não é nada bom. Por outro lado, também não podemos continuar isolados, não temos dimensão para competir com os EUA, a China, ou as novas potências da Ásia e da América do Sul. O marco não tem dimensão para competir com o dólar, pura e simplesmente.

Estou a perceber – peguei na palavra, a deixa de silêncio isso exigia – precisam de uma união europeia para terem dimensão mas não querem que essa união se faça à custa do desenvolvimento da Alemanha. Querem portanto uma solução diferente da que tem sido usada com o Leste... calei-me, o careca parecia querer dizer que não era bem isso, se calhar era ele o chefe do grupo, pôs a mão sobre o braço do Wolfram que lhe fez discretamente um sinal de assentimento. O careca recostou-se, sossegado.

Repare dr. Jordan – recomeçou o Wolfram, com ar de quem vai contar um segredo – a Alemanha desenvolveu um forte estado social, onde toda a gente tem muitos direitos e regalias. Sabia que o custo médio da nossa mão-de-obra é quase o dobro dos EUA? Mas pior que o custo médio é o custo mínimo, o custo dos operários, pois os EUA são campeões da desigualdade, só ultrapassados pelos países onde ainda há pessoas que nem sabem o que seja o dinheiro. Na reunificação com a Alemanha do Leste estamos a estender este estado social para lá. Agora pense: se vamos fazer o mesmo em relação ao resto da Europa, já viu que a nossa competitividade nas grandes indústrias vai desaparecer? Por agora ainda podemos recorrer à mão-de-obra barata dos países do Sul, mas depois? Uma união europeia bem sucedida acabará com essa mão-de-obra barata. Conhece as disponibilidades de mão-de-obra barata que os nossos competidores têm?

Sim, tenho uma ideia; os chineses têm ainda uma imensa população rural para tirar da miséria e sobretudo sabem como gerir a taxa de câmbio, os países do sudeste asiático e a Índia tem uma natalidade incontrolável que é um fornecedor ilimitado de escravos, ou seja, de pessoas que trabalham por uma sopa, o Brasil está um pouco como a China, os EUA têm em uma enorme população de pobres que não têm hipóteses de deixar de o ser.

E não só – interrompeu-me exaltado o ruivo – os EUA ocuparam o norte do México onde beneficiam da natalidade descontrolada da população mexicana mas onde podem impor a organização americana. Como é que vamos poder competir com isto?! Desabafou, mais ruivas as faces que a barbicha.

Então e a deslocalização para fora da Europa? Sugeri, embora já suspeitasse qual seria a resposta; mas há que não deixar pontas soltas.

Fora da Europa? Onde? As nossas fábricas precisam de trabalhadores com alguma especialização e muitas condições, não são criações de frango para instalar em África; e os países onde estes trabalhadores e estas condições existem há muito que abriram os olhos, instalarmo-nos lá é estarmos a cavar a nossa sepultura; veja o caso da China, mais de metade dos lucros das nossas empresas fica lá e estamos a prazo, daqui a uns anos temos os chineses a fazerem-nos concorrência usando o nosso know-how, as instalações que lá vamos deixar e a força económica que os lucros das nossas empresas lhes estão a dar.

Ou seja, sem mão-de-obra barata a vossa competitividade só pode ser conseguida à custa das vossas margens de lucro e não por esmagamento dos salários, é isso? A pergunta teria um quê de acintoso para outras pessoas mas eles nem repararam, «esmagar os salários» é a sua preocupação quotidiana.

Claro! Isto assim não se aguenta, veja que nos 100 mais ricos do mundo não há nem meia dúzia de alemães! Indignadíssimo o ruivo.

Bom, mas então o que desejam de mim? Afinal não querem um projecto europeu, também não querem ficar isolados... que querem afinal? Perguntei, não por desconhecer o que eles pretendem, que é evidente, e certamente que o vão conseguir; mas percebo que eles precisam de um ouvinte que os ajude a concretizar o plano que já está desenhado nas suas cabeças; e eu nunca nego ajuda aos poderosos.

terça-feira, setembro 27, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (8)



A causa técnica da crise

A presente crise da dívida soberana de alguns países europeus não é como o aparecimento de um tufão, ou uma praga de gafanhotos, fenómenos naturais cujo controlo ultrapassa a nossa capacidade. Nada disso. Este é um fenómeno com uma causa bem definida e verifico que há várias razões para isso, uma boa, as outras más.

Vamos esquecer as razões e vamos agora ver qual é a causa técnica desta situação.

Um empréstimo é um negócio e como tal as condições acordadas reflectem a capacidade de negociação das duas partes, na ausência de constrangimentos legais.
Sabem como é a golpada do cartão de crédito? Ela pode ser realizada de diversas maneiras mas o processo consiste em levar o cliente a ficar com uma dívida que não pode amortizar significativamente; a partir desse momento, pode-se subir a taxa de juro porque o cliente deixou de ter capacidade de negociação; e quanto mais encravado ele estiver, mais se sobe a taxa de juro. Existe um limite legal já de si exorbitante, mas se não existisse as taxas seriam muito mais altas.

Note-se um aspecto importante: da parte do banco não há qualquer interesse em que a pessoa pague a dívida, o que o banco quer é manter o cliente eternamente a pagar juros. Pagar a dívida seria acabar com os ovos de ouro da galinha, ou seja, com o pagamento dos juros.

No caso das dívidas soberanas, todos os países a têm e nenhum a pode amortizar significativamente com os recursos existentes. Estão em condições semelhantes às dos clientes dos cartões de crédito que contraem uma dívida que não podem amortizar. Então, porque é que apenas alguns países estão a sofrer um ataque à dívida do Estado?

A resposta é que todos os países excepto os europeus podem imprimir moeda; sendo assim, se os juros subirem, eles têm uma solução: imprimir moeda! Portanto, eles não estão de facto nas condições dos clientes dos cartões de crédito, porque eles podem imprimir moeda!!!

Dirão: mas imprimir moeda não tem consequências desastrosas, como a desvalorização da moeda?

O recente exemplo dos EUA é a prova de que não, não é verdade? Quantidades astronómicas de dólares têm sido impressas e o dólar parece estar a ... valorizar-se!!

Isto é assim porque o valor da moeda não depende só da sua quantidade, depende da força da economia do país. Como as economias crescem, é mesmo preciso imprimir moeda para manter os racios moeda/crédito e para evitar sobrevalorizações da moeda – que desgraçam a competitividade.

Contrariamente ao que costuma dizer-se, a desvalorização da moeda não é necessariamente má – uma moeda sobrevalorizada significa que as empresas terão de obter ganhos de competitividade à custa dos ordenados, logo implica redução de ordenados. O euro está sobrevalorizado por razões que só interessam à Alemanha.

Portanto, o assalto às dívidas soberanas dos países europeus vai continuar enquanto não existirem eurobonds suportados por dinheiro novo. Por mais medidas que se tomem para reduzir a taxa de crescimento da dívida, nada se alterará, porque a dívida, maior ou menor, permanecerá. Em 2013, em Portugal, faça este governo o que fizer, o problema dos juros da dívida estará exactamente na mesma se o BCE não fizer como os EUA.

Mas o BCE não vai fazer por várias razões, a primeira sendo que a actual situação convém à Alemanha: a Alemanha tem um alto saldo da balança de pagamentos com os outros países europeus, tem sempre euros a entrar, é como se estivesse a imprimir euros; mas se por acaso o problema chegar à Alemanha, nesse dia teremos o BCE a imprimir euros e os eurobonds a circular.

Os gregos já perceberam isto muito bem; cá, temos um governo que não quer eurobonds, o único mecanismo que poderia resolver o problema; portanto em 2013 a situação será apenas muito pior do que agora porque estaremos todos a ganhar muito menos, com muito menos direitos, e a pagar muito mais.

Não acreditam em mim? Então vejam aqui a opinião de um conceituado economista americano, publicada no New York Times.


quinta-feira, setembro 22, 2011

A Piscina


Os telejornais de hoje tinham uma notícia que fez as alegrias dos media: imaginem que o Alberto João gastou parece que 2 milhões de euros numa piscina no Curral das Freiras que raramente funciona!!!

 Haverá melhor exemplo da má gestão da Madeira? Pode o dinheiro ser mais mal gasto?

 Eis aqui um ótimo exemplo da nossa ignorância do Jogo da Economia.

 Ora reparem; a Comunidade Europeia comparticipa este tipo de obras em qualquer coisa como 75% (não sei ao certo como foi neste caso, mas deve ter sido algo como isso), ou seja, 1,5 milhões de euros. Portanto, o Alberto João investiu 0,5 milhões de euros, que não foi um gasto porque serviu para pagar o trabalho de madeirenses, foi só uma circulação de dinheiro, e recebeu 1,5 milhões vindos do estrangeiro.

Como compreenderão, isto equivale a investir 0,5 milhões de euros a fabricar um produto que se exportou por 2 milhões – uma rentabilidade de 400%

O orçamento da Madeira gastou 0,5 milhões e recebeu 1,5 milhões, logo ganhou 1 milhão de euros.

Na verdade, ganhou mais, porque quem fez o trabalho pagou impostos e se não tivesse tido o trabalho talvez tivesse recebido subsídios de desemprego.

A piscina não funciona? Ótimo, assim não tem custos de manutenção. Claro que se for possível encontrar utilidade para piscina, melhor, mas se não for não faz mal – a piscina foi um excelente negócio para a Madeira e para o país. Agora, até pode ser demolida, é como se tivesse sido exportada.

Sei que isto pode fazer confusão. Vivemos numa era de abundância, as regras deste jogo económico já não são as dos tempos de carência, não visam aumentar a produção, visam disputar a abundância; quem não souber jogar este jogo fica sem nada.




segunda-feira, setembro 19, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (7)


Nos países soberanos não há empresas com sede no estrangeiro

A China atraíu o investimento estrangeiro mediante a oferta de custos muito baixos, conseguidos através duma inteligente utilização do câmbio e de mão-de-obra barata; mas as empresas estrangeiras que quiseram operar na China tiveram de constituir empresas em que pelo menos metade do capital é chinês e aceitar um prazo para a sua actividade na China,

 Exemplifiquemos com a Volkswagen; para se instalar na China, teve de fazer empresas com os chineses em que pelo menos metade do capital é chinês – vamos assumir que é exactamente metade, por simplicidade. Para a China, conseguir essa metade do capital não foi problema: eles imprimem o seu dinheiro, não é verdade?

As fábricas da Volkswagen na China geram gandes lucros; uma parte vai para impostos, suponhamos 20%; do restante, metade fica na China, corresponde à sua comparticição na empresa, e a outra metade vai para a Alemanha. Portanto, a China fica com 60% dos lucros – enriquece!

Em consequência deste enriquecimento, os ordenados sobem e o nível de vida dos chineses sobe. Os trabalhadores chineses, que começaram com salários de escravo, isto é, salários que só davam para a sua alimentação, foram subindo de nível de vida e hoje já se recusam a trabalhar pelo ordenado que actualmente ganha um trabalhador português. A Autoeuropa vai produzir Sharons para exportar para a China porque já dá mais lucro à Volkswagen produzir em Portugal para exportar para a China do que produzir na China.

Imaginemos agora que o governo chinês não exigia a metade do capital; este seria todo dos alemães e, em consequência, os lucros da Volkswagen iriam inteiros para a Alemanha, onde está a sede da empresa. A China não enriqueceria nada com a Volkswagen, apenas receberia os ordenados de escravo dos empregados da Volkswagen; os ordenados de «escravo» perpetuar-se-iam.

Como estamos a perceber, possuir ou não parte do capital duma fábrica estrangeira faz toda a diferença.

Por outro lado, as empresas estrangeiras instaladas num país, impedem o desenvolvimento do país na área onde actuam devido à concorrência desigual que estabelecem.

Temos um exemplo claro e recente no nosso país: enquanto as empresas estrangeiras de calçado cá andaram, a nossa indústria do calçado não saíu da cepa torta; assim que elas se foram embora, a nossa indústria cresceu exponencialmente, apesar de continuar a ter condições de mercado interno muito mais adversas do que as suas concorrentes.

É por isso as empresas que se queiram instalar na China têm apenas uma licença a prazo: a Volkswagen só pode ficar na China até 2030. Depois de 2030, a China terá já todo o know-how necessário ao fabrico de automóveis e ainda as fábricas, organização e infraestruturas deixadas pelos alemães.

Este esquema não é uma invenção da China – é assim em toda a parte. No Brasil ou em Angola também não entra nenhuma empresa que não seja participada por brasileiros e angolanos. Nos EUA, acontece o mesmo. A Volkswagem quis ter lá uma fábrica dela; teve de a fechar e desde então parece que nem 1 volkswagen se vende nos EUA porque a forma de correr com a Volkswagen foi convencer os americanos de que os seus carros não prestam – é para isso que servem as ASAE em todos os países do mundo excepto Portugal.

Nos países soberanos, muito ou pouco desenvolvidos, não se instalam empresas com sede no estrangeiro, porque tais empresas delapidam o país.

No post anterior desta série eu disse que já não há multinacionais; agora parece que estou a dizer que há; como é afinal?

A resposta é que já não há multinacionais na Europa!

Nos países soberanos não há empresa que não seja participada por esse país; e a razão é clara, empresas estrangeiras delapidam o país e impedem o seu  desenvolvimento a prazo; mas nos países periféricos europeus, nos PIGS, isso acontece!!! As empresas alemãs e francesas instalam-se nos PIGS sem quaisquer contrapartidas – pelo contrário, ainda recebem benefícios.

A consequência está à vista: os PIGS estão cada vez mais pobres, o que tem sido mascarado com o endividamento crescente. O dinheiro que tem sido emprestado aos PIGS é o dinheiro que a estes foi retirado pela Alemanha e também França, como veremos. Agora, esta dívida é-lhes cobrada com usura e os PIGS vão ficar sem anéis e sem dedos.

Sabem porque é que a Madeira que tem tanto turismo não é económicamente rentável? Porque as cadeias de hoteís que lá operam, bem como as agências de viagem, são quase todas não-madeirenses e os lucros da actividade turística da Madeira vão beneficiar outros. O nosso Sol é o nosso petróleo e deixamos as empresas estrangeiras virem cá explorá-lo pagando apenas os ordenados dos trabalhadores!! Não precisava de ser assim, nos outros países isto não acontece, há soluções, como veremos.

quinta-feira, setembro 15, 2011

O árbitro Obama apitou




Franceses e alemães apressavam-se a pressionar os gregos – ou lhes entregam as suas empresas públicas ou saem da Europa. A saída da Europa é só para assustar, é claro, tomar conta das empresas públicas da Grécia e Portugal urge, isso é indispensável ao “esquema de cantina” que se pretende aplicar. E urge no caso de Portugal porque, como os economistas americanos, aqueles que há mais de uma década vêm expondo todas estes acontecimentos e que estão por detrás de Obama, já tinham avisado, Portugal tem uma escapatória através do Brasil e de Angola. O Brasil e Angola já entraram na privatização do BPN, o Lula já foi a Portugal, o BRIC já se vai reunir, há que andar depressa, não deixar o Brasil e Angola pôrem a mão nas empresas públicas portuguesas ou o «esquema de cantina» vai por água abaixo. Quanto à Grécia, com o seu PIB que é 1,7 vezes o Português, são precisos pelo menos 3 anos de profunda recessão para a colocar ao nível adequado à aplicação do esquema, e isso exige pôr a Grécia a ferro a fogo.


(pensam que os 7% de recessão na Grécia são um “acidente”, um resultado indesejável? Se assim fosse, a troika estaria muito preocupada e a propor medidas de correcção, não é? Eles não estão em constante fiscalização, a propor constantemente novas medidas “para garantir que estes países conseguem pagar as suas dívididas”?  Como poderiam ficar indiferentes a tamanha recessão? Serão burros? Claro que não, sabem muito bem o que fazem. A a recessão grega não é um acidente, é um objectivo; e para o ano vai ser pior porque o PIB grego tem de cair pelo menos 30% antes de se poder «comer» a Grécia…)

  

Merkel e Sarkozy marcam um comunicado conjunto para o dia 13; um comunicado de importância fundamental, o aviso solene e final à Grécia, anunciado com o devido espavento; mas o Obama entra em cena e declara: os países europeus com excedentes comerciais têm de resolver rapidamente a crise europeia! O tão anunciado comunicado conjunto franco-alemão evapora-se. Obama é o árbitro do jogo e apitou, marcou falta à Alemanha e à França.

No dia 14 a Merkel já vem mansinha dizer que nem pensar em a Grécia sair da Europa; o spread do empréstimo a Portugal (mais de 2%! Quem pode ter dúvidas de que esta «ajuda» é maquiavélica??) desaparece; Durão Barroso diz que a Comissão vai avançar com propostas para os eurobonds.


Franceses e alemães vão ter de fazer novos planos. Para nós, das duas uma: ou este governo está a fazer o jogo franco-alemão, e nesse caso irá acelerar as «privatizações» para mãos francesas e alemãs, ou não está, e irá começar a protelar esse tipo de medidas.


Um detalhe: os irlandeses não pagavam este spread; sabem porquê? Porque são «brancos» e aos brancos não se aplica o «esquema de cantina»; o problema irlandês é para resolver mesmo, o nosso e o grego não são para resolver, são para agravar até que ficarmos no limiar de sobrevivência e completamente dependentes de franceses e alemães.


terça-feira, setembro 13, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (6)


Já não há multinacionais

O grande inconveniente do sistema capitalista é que quem é mais rico tem mais capacidade de enriquecer; diversas medidas foram tomadas para obviar a este problema. Uma das brilhantes soluções introduzidas foi a criação das sociedades anónimas, empresas cujo capital podia estar distribuído; toda a gente poderia ser sócia duma grande empresa e beneficiar da capacidade de enriquecimento que a dimensão dá através da distribuição de dividendos e da valorização da empresa, traduzida na sua cotação em bolsa; a possibilidade de pessoas de qualquer país poderem ter acções de qualquer empresa tornaria a economia global, acabaria com as lutas entre países porque os interesses das pessoas seriam transversais à sociedade.

Esta ideia cedo começou a ser desvirtuada; o ser humano tende sempre para o seu interesse particular imediato, que não é o objectivo do jogo da economia nem de qualquer jogo; os jogos têm sempre um objectivo colectivo - é por isso que são inventados, são uma forma de sobrepôr o interesse colectivo ao individual, indispensável ao progresso da sociedade humana -  mas os humanos fazem «batota» sempre que podem. Os humanos usam, tanto quanto podem, o jogo da Economia, concebido para fazer evoluir a sociedade humana, para o seu objectivo individual de enriquecimento, poder, protagonismo. Qualquer jogo jogado por humanos carece de constante fiscalização, de árbitros, polícia e justiça, que o mantenham a correr de acordo com as regras e objectivos, como acontece com o futebol; porém, no que se refere à economia, isso tem sido mal conseguido e os «batoteiros» dominam o jogo – tanto os «batoteiros» individuais como os «batoteiros» a outras escalas – por exemplo, à escala dos países.

Os grandes accionistas das empresas cedo descobriram que aumentavam os seus ganhos pessoais usando o dinheiro dos lucros não para pagar dividendos mas na na forma de brutais ordenados pagos a si próprios, através dos lugares que a sua posição de accionista lhes permitia ter. As acções, por seu lado, em vez de valerem em função dos dividendos, passaram a ser bilhetes para o casino da bolsa.

Com a globalização, os países entraram em competição entre si; naturalmente, as políticas anti-monopólio anteriormente usadas para manter a sociedade num desenvolvimento equilibrado perderam o sentido – com a globalização a aposta dos Estados passou a ser ter empresas tão grandes quanto possível para conquistarem o mercado mundial. Os campeões das políticas “anti-trust”, os EUA, declararam o fim destas políticas. Os países entraram verdadeiramente em guerra, agora uma guerra económica, e por isso querem que as suas empresas sejam o mais forte possível

Nesta guerra entre países, as grandes empresas deixaram de ser «multinacionais»; passaram a ter um dono, uma pátria, para onde os seus lucros são desviados. A Volkswagen não é do senhor A ou B, é dos alemães, a Fiat é italiana, a Telefónica é espanhola, etc, etc. Podem existir participações de um país em empresas doutro país apenas enquanto existir perpectiva de isso servir para adquirir essa empresa – os italianos na Galp, por exemplo – ou então quando dois países decidem cruzar as suas participações em duas grandes empresas, numa política de alianças que de algum modo corresponde ao casamento entre princípes da Idade Média.

O fim da ideia do multinacionalismo empresarial corresponde na verdade ao fim de uma ideia de globalização da economia a à passagem para o seu oposto, para uma guerra económica global; as empresas deixaram de ser «globais» em relação a quem delas beneficia mas, ao contrário, passaram a beneficiar especificamente este ou aquele país.

Um caso interessante é o BIC; é Português? Angolano? Brasileiro? Tem capital das 3 origens e a sua pátria é… a língua portuguesa. O que tem de interessante, para mim, é que aponta uma possível saída para a nossa situação, antes a pátria da língua do que pátria nenhuma.

O facto de a bolsa estar a cair não é nenhuma surpresa; por um lado, aplicar os capitais nas dívidas soberanos é o negócio do momento, já não é a bolsa; mas por outro lado a bolsa cai porque os «países» vendem as acções que têm nas empresas onde não há perspectivas de posse para aplicar o dinheiro onde isso é possível, nomeadamente através do recente processo de «privatizações» das empresas públicas dos PIGS.

As ditas «privatizações» mais não são do que aquisições de empresas de serviço público de um país por outro país. A «privatização» da EDP é apenas a nacionalização da EDP pela Alemanha. Ou seja, a EDP vai deixar de ser portuguesa e vai passar a ser alemã.

Da mesma maneira, a «privatização» dos transportes públicos em Portugal mais não vai ser do que a sua nacionalização pela França.

Reparem agora no seguinte: os transportes publicos davam prejuizo porque o Estado impunha tarifas baixas; se o Estado permite tarifas altas, passam a dar lucro; enquanto forem empresas publicas, a diferença entre uma coisa e outra é que no primeiro caso os custos dos transportes públicos são suportados também por pessoas que os não utilizam e no segundo recaem exclusivamente sobre os utilizadores, mas em qq caso, o seu saldo ou déficit é intrínseco às contas do Estado Português, ou seja, os portugueses pagam pelos transportes públicos exactamente o que eles custam. Agora, se vão ser entregues aos franceses, com tarifas altas para dar lucro, os portugueses vão andar a pagar os transportes publicos para dar lucro aos franceses!!!! Os transportes públicos vão sair mais caros aos portugueses; isto não é completamente estúpido???? Não é «hipotecar o futuro dos nossos filhos»? Pior: vão fundir as empresas de transportes publicos numa única, criando um monopólio para ser entregue aos franceses!!! As pessoas ou pagam o que eles quiserem ou trazem o carro e pagam parque o dia todo!!

Este não é certamente o caminho que nos interessa; somos tão capazes de gerir redes de transportes publicos como os franceses, não há razão nenhuma para lhes entregarmos os nossos transportes publicos. Mais vale fazermos uma «vaquinha» com brasileiros, angolanos, moçambicanos, cruzarmos participações, eles participam nos nossos transportes e nós nos deles. Mais vale seguirmos o exemplo do BIC.


Portanto, compreendamos: o que está em causa com o dito processo de privatizações em curso não tem nada a ver com privatizações, tem a ver com a nacionalização das nossas empresas públicas pela França e Alemanha.

Isto não sucede por acaso, não é ditado por simples razões económicas, há uma razão profunda para esta ânsia que os franceses e alemães exibem para nacionalizarem as empresas públicas dos PIGS; não é óbvio que esta insistência nas «privatizações» das empresas de serviço público tem «água no bico»? O que é que eles querem realmente com estas «pseudo-privatizações» que não passam de nacionalizações mascaradas?

(ainda não foi agora que revelei o plano desses artistas que querem pôr a nossa bandeira a meia –haste, convencidos que estão que já somos só “meio-país”, a outra metade já é deles; um pouco mais de paciência, é que temos de compreender muito bem a tramóia toda)

sexta-feira, setembro 02, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (5)



O que até as porteiras em França sabem

Imaginem um casal de agricultores; têm uma pequena quinta, árvores de fruta, hortícolas, cabras. Todo o ano trabalham na quinta. Têm alguns utensílios e uma carrinha que compraram a crédito. Consomem parte do que produzem, outra parte vendem. Compram adubos, medicamentos para eles e para os animais, produtos alimentares que não produzem, roupa, têm despesas com a carrinha, pagam electricidade e água, etc.

O resultado do seu trabalho, de todo o seu trabalho, incluindo as reparações na casa, a valorização que pode ter ocorrido da quinta, corresponde grosso modo ao conceito de PIB; a diferença entre o que venderam e o que pagaram corresponde grosso modo ao saldo da sua balança de pagamentos.

Suponhamos agora que eles precisam de comprar um pequeno tractor e vão ao banco pedir um empréstimo; em que é que se baseia o banco para conceder ou recusar o empréstimo?

No valor do seu PIB?

Na dívida que eles ainda têm para pagar dos empréstimos anteriores?

A primeira coisa que interessa ao banco é o saldo da sua balança de pagamentos mais a valorização da sua propriedade; se a soma das duas coisas é negativa, ou seja, se a propriedade se desvalorizou e o saldo é positivo mas menor que a degradação da propriedade, ou se a propriedade se valorizou mas o saldo é mais negativo do que a valorização, ou se ambas as coisas são negativas, sem perspectivas de se tornar positiva nem mesmo com o novo tractor, a resposta é negativa, qualquer que seja o montante do PIB e por mais insignificante que seja a dívida anterior.

Isto é exactamente o que se passa com a economia dos países.

O montante da dívida pública é irrelevante em si mesmo; o que conta é a capacidade do país em produzir riqueza que chegue para pagar os seus juros; ou seja, o que conta é, grosso modo, o saldo da balança de pagamentos adicionado à variação do PIB.

Se um país tem um saldo da balança de pagamentos negativo e um PIB que não cresce, evidentemente que está a empobrecer, logo não vai conseguir pagar as suas dívidas. Não interessa se as dívidas são muitas ou poucas, ele não vai conseguir pagar os juros da dívida que tem, pelo contrário, vai precisar de pedir mais dinheiro emprestado para tapar o seu saldo negativo.

Ora Portugal tem um saldo da balança de pagamentos altamente negativo e um PIB que não cresce; evidentemente que não vai poder pagar as suas dívidas, nem a pública nem a privada. Não interessa para nada se a dívida é grande ou pequena, a única coisa que interessa é saber se a economia tem um desempenho positivo ou negativo.

Daqui é fácil concluir que é completamente indiferente que a dívida pública cresça 5 % ou 1% ou diminua; enquanto o desempenho da economia for negativo, não há mais empréstimos!

Suponhamos agora que se descobre petróleo na costa portuguesa e que isso perspectiva que a balança de pagamentos se torne altamente positiva; como é evidente, não faltará quem queira emprestar dinheiro ao estado, não interessa qual seja o valor da dívida pública. Como vêm, o montante da dívida pública, por si só, é irrelevante.

Suponhamos que passamos dois anos a apertar o cinto, que o Estado vende as empresas públicas todas, despede os boys todos, fecha os centros de saúde todos, vende a Madeira aos espanhóis e os Açores aos americanos, e com isso tudo consegue o feito impensável de reduzir a dívida pública a metade; como reagirão os mercados?

Aumentando os juros porque o resultado disso é que a economia do país ficou pior, o país desvalorizou e o saldo da balança de pagamentos só se agravou pela certa.

Portanto, a única coisa que vai fazer diferença daqui a dois anos não é se o governo cumpriu ou não as metas do déficit público; o que vai fazer a diferença é se o país se valorizou (aumentou o PIB) e se o saldo da balança de pagamentos está positivo.

Ora nada disso vai acontecer com as actuais medidas. E isto qualquer porteira em França sabe. Em França e em qualquer parte do mundo. Toda a gente sabe que o que conta é se se produz mais do que se gasta ou não. É por isso que os franceses, ou os alemães, ou os ingleses, querem saldo positivo nas contas da sua região, é por isso que são altamente regionalistas e tomam as medidas que forem necessárias para o conseguir. E desprezam aqueles, como os Portugueses, que o não fazem.

Mas, dirão vocês, se o Estado cortar as suas despesas e aumentar as suas receitas, fica em condições de pagar a dívida pública; então porque hão-de os juros continuar a subir? Qual é o problema?

Reparem no seguinte: se a balança de pagamentos é deficitária, a dívida do país tem de aumentar; mas quem vai emprestar dinheiro à banca de um país deficitário? A banca vai ter grandes dificuldades de crédito, como está a ter; então, vai dar menos crédito; ora se a balança de pagamentos está negativa é porque pessoas e empresas estão a viver do crédito e, reduzindo-se este, vão falir. Então, o desemprego vai aumentar, estoirando com as contas da segurança social, e as pessoas vão deixar de pagar os empréstimos que contraíram, o que significa que a banca vai falir; de repente todos os empréstimos às empresas, para compra de habitação, para compra do carro, etc, vão passar a «activos tóxicos», vão dizer que a culpa é da ganância dos banqueiros e com isso vão justificar a falência generalizada da banca nacional.

Com o saldo da balança de pagamentos negativo, o país inteiro vai falir.

Mas se assim fosse, perguntam vocês desconfiados, então porque é que estão a tomar estas medidas? São todos ignorantes? Não sabem o que andam a fazer?

Claro que sabem! Sabem desde que a União Europeia foi criada, este desígnio estava traçado desde o primeiro momento, como os economistas fora da Europa se têm fartado de dizer. O que agora estão a fazer é apenas a executar a fase final do maquiavélico plano, que compreenderemos claramente no próximo post.

quinta-feira, setembro 01, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (4)


A escravatura moderna


Nos post anteriores fomos dando pinceladas no quadro da escravatura; vejamos agora como ficou a nossa pintura.

Definimos “escravo” como a pessoa que trabalha a troco da sobrevivência, expurgando a definição de conceitos acessórios como o uso da violência, meros instrumentos para atingir para atingir esse objectivo económico.

Nas latitudes médias, a sobrevivência sempre foi algo que exigiu bastante esforço devido às condições climáticas; por isso não admira que nas grandes civilizações do passado não tenho sido necessário grande violência para fazer as pessoas trabalharem pela sobrevivência – apenas em vez de trabalharem para eles próprios, trabalhavam para outrem. A época dos caçadores-recolectores já tinha terminado, a sobrevivência exigia a agricultura. De certa forma, os humanos da europa já estavam «domesticados», usando uma ideia do Manuel Gouveia.

Já com os africanos ou com os índios a questão foi diferente: a sua sobrevivência não resultava do trabalho agrícola, e ser escravo implicava fazer uma coisa – trabalhar - que não pertencia à sua cultura nem era considerada digna. O uso e abuso da força foi a solução para domar esses humanos.

Com a proibição do uso da violência, a solução para obter escravos foi procurar pessoas abaixo do limiar de sobrevivência e oferecer-lhe esta a troco de trabalho.

Portanto, o método ideal para obter escravos é recorrer a pessoas sem recursos para sobreviverem, pois estas agradecem a possibilidade de serem escravos, no sentido acima definido. Naturalmente que o pagamento nunca pode passar do nível de sobrevivência, pois se isso acontecer as pessoas começam a ter poder reivindicativo e a exigir melhor pagamento; nos processos de escravatura há uma estratégia definida para garantir que isso não acontece.

O desenvolvimento industrial criou uma nova dificuldade: as pessoas tinham de ter recursos para comprar os bens produzidos, logo não podiam ser escravos, tinham de ganhar mais do que o necessário à sobrevivência.

A solução foi ir buscar pessoas a locais onde a sobrevivência não estava garantida. Nascia a Imigração promovida pelos governos.

A necessidade de pressionar o desenvolvimento das sociedades levou à tomada de medidas igualitárias, como o estabelecimento do ordenado mínimo; este tinha de acompanhar o enriquecimento da sociedade, não era o ordenado do escravo. Os imigrantes deixaram de poder ser escravos. Acabou a imigração legal.

Se já não era possível ter escravos no próprio país, a solução teria de ser a deslocalização das fábricas – que teriam de ir para as zonas onde existiam pessoas sem condições de sobrevivência e aí aplicar estratégias que não dessem outra alternativa às pessoas que não fosse trabalhar pela mera sobrevivência.

Esta é uma solução fácil para pequenas empresas e tem sido amplamente utilizada nos países em vias de desenvolvimento; por exemplo, no Brasil, cerca de 20 000 pessoas foram retiradas pelas autoridades, na última década e meia, de esquemas destes; em todo o mundo existem dezenas de milhões de pessoas em trabalho escravo, a grande maioria sendo a consequência directa e necessária duma natalidade descontrolada.

Porém, as grandes fábricas são grandes investimentos e que carecem de uma logística complexa; nas zonas tão atrasadas que não conseguem garantir a sobrevivência da sua população, essas condições não existem normalmente.

Surgiu então uma oportunidade única: mercê de um engenhoso, genial, corajoso sistema económico, com dupla moeda e câmbio gerido internamente, um sistema que o ocidente não parece ter compreendido (ou finge não compreender) e que exporei se tiver oportunidade, a China conseguiu reduzir os custos de produção em moeda ocidental para muito menos de 1/10 – uma redução “artificial” porque decorrente do processo cambial, não representativa do nível de vida que foi assegurado aos chineses.

A China foi um el-dorado para as fábricas; mas um el-dorado a prazo. O projecto da China visa o desenvolvimento da China, os chineses fazem as regras que lhes convêm, (tal como os americanos, os alemães e os ingleses), não andam a reboque dos interesses dos outros.

Assim, por exemplo, a Volkswagen, que tem um enorme investimento na China, teve de formar empresas em que a maioria do capital é chinês e que terminam em 2030. Doutra forma não punha o pé na China.

Esta gestão inteligente dos interesses chineses produziu um enorme desenvolvimento da China que tornou esse sistema de duplo câmbio obsoleto; os ordenados estão a subir rapidamente e os gestores da Volkswagen espremem as meninges à procura de uma maneira de encontrar mão-de-obra ao preço da sobrevivência. Não é fácil, porque todos os países com organização suficiente para suportar uma indústria automóvel visam o seu desenvolvimento, o que significa que os ordenados crescem, e rapidamente se afastam do mínimo de sobrevivência; é o que acontece no Brasil.

Os EUA resolveram este tipo de problema instalando as suas fábricas no norte do México; devido à falta de controlo da natalidade, o México parece ser uma fonte de mão-de-obra ao custo da sobrevivência que tão depressa não se esgotará; ao instalar as suas fábricas junto à fronteira americana, os EUA como que criaram aí uma zona que funciona segundo a sua organização mas dispondo dessa mão-de-obra barata oriunda doutras zonas do México.

Notem que os EUA não estão a explorar os mexicanos; se existem mexicanos dispostos a ser escravos, a responsabilidade é dos próprios mexicanos.

A Europa não tem hipóteses de uma solução deste tipo, pelo menos enquanto as pessoas dos países vizinhos tiverem uma cultura diferente; então como podem as empresas alemãs conseguir mão-de-obra ao preço da sobrevivência, isto é, escravos para as suas fábricas, numa solução em que a situação de escravatura se prolongue no tempo, de forma estável, como acontece com a solução americana?

Agora temos quase todos os elementos para compreendermos a estratégia franco-alemã; só falta uma coisa, aquilo que até as porteiras em França sabem; é isso que veremos no próximo post.


terça-feira, agosto 30, 2011

O maquiavélico plano Franco-Alemão (3)




Mercadores de escravos analisando os dentes da escrava, por Jean-Léon Gérôme (da wikipedia)


O que é um ESCRAVO?


Qual é o mínimo custo de um trabalhador?

É o seu custo de sobrevivência – ou seja, alimentação. No fundo, o custo da energia que ele consome. Nas zonas onde a fome grassa devido à sobrepopulação, nomeadamente onde não se pratica controlo de natalidade, as pessoas trabalham por esse valor.

Desde que a sociedade humana existe que uns humanos usaram outros humanos para a realização de trabalho a troco de lhes assegurarem a sobrevivência. Nas sociedades sofisticadas do Egipto, da Grécia ou de Roma, estas pessoas, os «escravos», muitas vezes capturas de guerra mas nem sempre, distinguiam-se dos «cidadãos» por não terem direito de voto.

Note-se que até muito recentemente as mulheres não tinham direito ao voto, que não era considerado um direito fundamental dos humanos mas uma obrigação dos humanos que intervinham directamente na economia da sociedade. Não é pois a questão dos direitos que caracteriza o escravo pois os direitos das mulheres não eram muito diferentes dos deles.

Na antiguidade, em geral, os escravos eram bem tratados pelos seus senhores, pois por um lado não eram tidos como inferiores e por outro considerava-se que um escravo mal alimentado e mal cuidado não seria eficiente no trabalho. A qualidade do tratamento dispensado ao escravo foi sendo cada vez pior, adquirindo características de violência extrema sobretudo a partir do sec. XV, com a utilização maciça dos escravos africanos. Para justificar moralmente esta prática, foi então desenvolvido e "cientifizado" o conceito de «racismo».

Como é evidente, a utilização de escravos dava uma grande vantagem económica aos que a ela tinham acesso, o que levou os outros a desenvolveram uma luta feroz contra esta prática; por outro lado, era também fonte de degradação social por conduzir à ociosidade dos senhores, tendo esta sido a base para a proibição da entrada de escravos em Portugal pelo Marquês de Pombal; por último, as práticas esclavagistas tinham-se tornado moralmente inaceitáveis. Tudo isto conduziu ao fim do comércio legal de escravos e da possibilidade de umas pessoas serem legalmente donas de outras.

O fim desse tipo de escravatura não significou o fim do objectivo económico, isto é, do objectivo de dispor de pessoas que trabalham a troco da sobrevivência.

Notemos agora que o conceito de escravo reside apenas numa única coisa: escravo é a pessoa que trabalha a troco da sobrevivência, ou seja, pelo custo da energia que precisa de gastar para sobreviver.

A privação de direitos ou imposição de força foram apenas algumas das técnicas para obter trabalhadores pelo custo mínimo no passado. Mesmo no tempo da escravatura dos negros de África, alguns dos escravos eram voluntários – sem controlo de natalidade, era a fome que limitava a população e alguns ofereciam-se para escravos para sobreviverem mais uns anitos. 
O fim da «escravatura» apenas marca o fim do uso legal da força bruta sobre o indivíduo para obter esse desiderato. Outras técnicas foram desde então encontradas para conseguir o mesmo objectivo. A mais directa substituição da forma anterior de escravatura consistiu no sistema de cantina, em que os trabalhadores eram pagos em vales ou equivalente que eram descontados numa cantina do empregador; desta forma as pessoas ficavam a trabalhar a troco da sobrevivência, que os vales para mais não davam. Esta foi a forma usada no Brasil na era da Borracha, magistralmente retratada em A Selva de Ferreira de Castro.

Mas há outras formas; por exemplo, ainda há pouco mais de meio século, senhoras em Portugal iam à província buscar raparigas novas para trabalharem como suas empregadas domésticas a troco de alimentação e dormida. Isto mostra que as pessoas podem aceitar de boa vontade a condição de escravo desde que antes sejam colocadas numa situação em que a sobrevivência esteja em risco.

Conseguir escravos voluntários é o sonho de qualquer gestor de pessoal. E isso foi conseguido no começo da era industrial mantendo os cidadãos do país em situação de miséria - os escravos negros foram de novo substituídos pelo "povo" enquanto as elites concentravam a riqueza.

A economia dos países mais industrializados, porém, exigia que cada cidadão fosse um consumidor de bens, dos bens produzidos pelas fábricas; ora isso implicava que os trabalhadores teriam de ganhar mais que o indispensável à sua sobrevivência para poderem comprar esses bens. A escravização da própria população impedia isso, era preciso transformar os cidadãos em consumidores. Passaram então as fábricas a pagar mais, acabando com a condição de escravo? Claro que não, o problema consistia em encontrar novos escravos, não em prescindir deles. A solução então encontrada para obter novos escravos foi a utilização de imigrantes.

Nos países não industrializados os cidadãos lutavam diariamente pela sobrevivência. Há menos de um século, em Portugal, ainda uma sardinha era um jantar para uma família e ainda muitos sobreviviam com sopa de erva. Muitos portugueses tiveram então a oportunidade de emigrar para os países industrializados, que lhes asseguravam a sobrevivência a troco do seu trabalho.

A melhor compreensão das leis da economia foi tornando claro que o crescimento económico seria tanto maior quanto mais iguais fossem as oportunidades dos cidadãos, quanto menor fosse a desigualdade; a desigualdade passou a ser um factor controlado pelos governos, dada a sua importância no crescimento económico e na paz social.

Portugal e a Dinamarca são dois exemplos em extremos opostos de como desigualdade e riqueza têm uma relação inversa.

Porém, as medidas de controlo da desigualdade, como o ordenado mínimo, aplicam-se a toda a população, incluindo imigrantes; então também os imigrantes passaram a ganhar mais do que o indispensável à sua sobrevivência, ou seja, deixaram de ter a condição de «escravos» (deixando assim de ter um papel útil, pelo que passaram a ser indesejados e perseguidos).

O problema de obter trabalhadores pelo preço mínimo coloca-se de novo. No próximo post vamos ver as soluções encontradas para substituir os imigrantes no papel de escravos e vamos descobrir que fazemos parte de uma delas.